segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Caminhadas em Monsanto


Os trabalhos de campo – caminhadas – no Parque Florestal de Monsanto, no âmbito da dissertação de mestrado sobre “Percepções de conexão à natureza e de bem-estar em caminhadas pedestres – estudo exploratório no âmbito da Ecologia Humana”, já estão em curso; decorreram no passado fim-de-semana e ir-se-ão estender ao próximo. A revolução (de "revolare": voltar a voar) começa na percepção: olhar com olhos de ver e ouvir com ouvidos de escutar?...


PC © Monsanto (27/08/2023)



«Não basta abrir a janela

Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.»

Alberto Caeiro (20/04/1919)



sábado, 19 de agosto de 2023

CONFUSÕES (III)

 

E porque, como é costume ouvir-se dizer, «não há duas sem três»! Depois de abordarmos a situação da (sobre)vivência do outdoor nas mais altas montanhas  (Confusões I) e ao nível do mar (Confusões II), entretanto, na Madeira "a coisa" vai assim (Confusões III): acesso ao Pico Ruivo na passada quarta-feira (16 de Agosto). Até parece as largas filas do Everest, só falta a neve.


© Marie Louise de Freitas


sexta-feira, 18 de agosto de 2023

VEM CAMINHAR

 

PC © Monsanto (18/08/2023)


Estou a ultimar as caminhadas da segunda fase da dissertação de mestrado sobre “Percepções de conexão à natureza e de bem-estar em caminhadas pedestres – estudo exploratório no âmbito da Ecologia Humana". Se participaste na primeira fase, no preenchimento do questionário online, e pretendes fazer uma das caminhadas que iremos realizar no Parque Florestal de Monsanto (Lisboa), nos fins-de-semana de 26-27 de Agosto e 2-3 de Setembro, envia um e-mail para o endereço pedestris@gmail.com a manifestar essa intenção. VEM CAMINHAR EM MONSANTO, serás muito bem-vindo. GRATO PELO APOIO.


PC © Monsanto (18/08/2023)

PC © Monsanto (18/08/2023)

PC © Monsanto (18/08/2023)

PC © Monsanto (18/08/2023)


PC © Monsanto (18/08/2023)


PC © Monsanto (18/08/2023)


PC © Monsanto (18/08/2023)


PC © Monsanto (18/08/2023)


PC © Monsanto (18/08/2023)

domingo, 13 de agosto de 2023

CONFUSÕES (II)

 

Pedro Cuiça © Gruta de Benagil – Algarve (Agosto de 2023)



CONFUSÕES DE AR LIVRE, PROBLEMAS DE AR CONDICIONADO (II)

 

Mais uma tarde de(ste) Verão, como outras tantas, no Algarve. [Pelo que parece, a tolice da denominação 'Allgarve' já foi ultrapassada.] Meia dúzia de embarcações de dimensões consideráveis, com turistas a bordo, confluem na mesma área e 'spot'. Na "minha" embarcação (salvo seja) vamos 43 "ociosos", mais a tripulação. Caiaques com um ou, normalmente, dois "mamíferos" são largas dezenas, tal como pranchas de paddle, no mar, a perder de vista, para leste e oeste, até à curva das arribas limítrofes. Na gruta de Benagil, em terra, a componente humana também está "em peso", sob a forma de algumas dezenas de pessoas, respectivos caiaques e pranchas de vários "operadores turísticos", numerosas mariolas (amontoados de pedras) e sinalética a advertir para o perigo de derrocadas! É sempre bom avisar não vá o diabo tecê-las, ademais quando a força da gravidade está omnipresente e não tira umas "merecidas férias de Verão"! Ninguém está de capacete e, de facto, talvez nem seja necessário caso ocorra não uma simples queda de pedra(s) mas uma derrocada, "à séria", de uma porção da parede ou do tecto da cavidade. É tudo uma questão probabilística ou de tempo, como queiram, e quando alguma "desgraça" acontecer as autoridades irão salientar que advertiram para o perigo e outros ‘players’ ir-se-ão mostrar muito surpreendidos. Afinal, todos os dias o local é visitado por centenas ou até milhares de pessoas e nunca nada aconteceu!

Entretanto, muitos turistas estão francamente animados (não fosse este ramo de negócio a 'animação turística', na especialidade marítimo turística) e é mesmo para isso (ou supostamente) que aí estão! Saliente-se que também nos cruzamos com alguns outros, invariavelmente nos caiaques e nos paddles, com um certo ar de circunspecção ou até de preocupação, mas nada que não seja certamente ultrapassável. Afinal, não estão em busca de "aventura" e "actividade"?

No trajecto até à gruta de Benagil também tive oportunidade de visualizar bastantes caminheiros no passadiço que foi instalado no topo das arribas a oriente da praia do Carvoeiro. Pude constatar, de forma inequívoca, que a praxis, a forma de fazer, do turismo algarvio sofreu alterações significativas, sobretudo nas últimas décadas. De resto, o paradigma extractivista da "galinha dos ovos de ouro" e do "ordenhamento" dos recursos do território, continua inalterado. O turismo de massas (leia-se "de praia”) persiste, ao que tudo parece, de boa saúde (?), e o turismo dito "alternativo" tornou-se num novo turismo de massas, independentemente da nomenclatura e das roupagens com que o queiram embrulhar e vender: turismo de natureza, turismo verde, turismo ecológico, ecoturismo, turismo activo, turismo de aventura, etc..


Pedro Cuiça © Carvoeiro– Algarve (Agosto de 2023)



CONFUSÕES (I)

 

CONFUSÕES DE AR LIVRE, PROBLEMAS DE AR CONDICIONADO (I)


Na sequência da morte, no dia 27 de Julho, do carregador paquistanês Muhammad Hassan, na parte superior do K2, após ter permanecido vivo durante várias horas perante a indiferença daqueles que por ele passaram para fazer cume ou já na sua descida, regressou o coro de críticas àquilo que se tornou o “alpinismo” nas mais altas montanhas himalaianas. Como se algo de (muito) extraordinário se tivesse passado no panorama dos inúmeros mortos abandonados, em alta altitude, nas vertentes do Everest e de outros oito mil, tal como das toneladas de detritos largados nessas montanhas, que fazem com que certos campos de altitude se tenham transformado em lixeiras (nas mais altas lixeiras do mundo) a céu aberto! Infortunadamente, nada de novo. Basta(ria) lembrar-nos da tragédia de 1996 no Everest ou das diversas campanhas de recolha de lixo nas vias normais do Everest, nos lados nepalês e chinês, para constatar o que deveria ser evidente!... De entre as diversas intervenções críticas ao agora (mais uma vez) sucedido, destacamos os comentários, "sem papas na língua", do amplamente conhecido alpinista espanhol Sebastián Álvaro, publicados online pela editorial Desnivel: «Cómo llegaron a converterse en parques de atracciones las montañas más altas y bellas del Himalaya y el Karakórum? Cuando se jódio el himalaysmo?»


O fenómeno dos mortos e do lixo em altitude já mereceu diversas intervenções publicas da minha parte, em comunicações e textos diversos e, por isso, não tenho nada a acrescentar de concreto. Apenas lamentar o sucedido e manifestar o meu pesar à família e amigos do malogrado carregador.

Seria talvez oportuno e importante fazer uma análise crítica e uma reflexão aprofundada não só daquilo em que se transformou o himalaismo, mas também acerca da prática de alpinismo/montanhismo em geral e, já agora, da escalada clássica (e até da desportiva) nos mais diversos contextos e geografias, inclusivamente "à porta de casa"...

De resto, escrevi ontem o seguinte no Facebook: 

«O problema não se circunscreve, de todo, à alta montanha. A massificação, a alienação e a banalização das actividades de ar livre generalizou-se. E não é apenas a "turistificação" que está em causa, é todo um conjunto de motivações e de formas de "viver", nomeadamente o (hiper)consumismo e o poder aquisitivo do "capital": pensar que tudo se traduz em dinheiro e tudo é vendível e comprável. O que está verdadeiramente em causa são questões de ética e de estética; são questões ontológicas e substanciais, do Ser (em detrimento do ter). Não é lícito, nestas (e noutras) matérias continuar a confundir "uma obra prima com a prima do mestre de obras".»


© Lakpa Sherpa/8K Expeditions



sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Un silenci especial

 



É com grata satisfação que voltamos a publicar, no Pedestris, um trecho de um texto em catalão, surgido no último número da revista Vértex, na rúbrica “El racó del clàssic”, da autoria de Judit Baseiria. Desta feita, sobre o livro Marcher, une philosophie (2009), de Frédéric Gros. A Vértex é editada pela Federació d'Entitats Excursionistes de Catalunya (FEEC).

 

«Caminar, trescar, pelegrinar, vagarejar, fugir, passejar… Hi ha tantes maneres de fer una marxa com les que explora el filòsof francês Frédéric Gros al llibre Caminar, una filosofia (2009). Cadascuna d’aquestes intencions revela alguna cosa de nosaltres, de la nostra manera d’estar al món. De fet, per a molts escriptors i filòsofs caminar va representar un motor de creació i pensament. Aquest assaig filosòfic de bom llegir ens convida a conèixer la correlació entre pensadors-caminadors i de com caminar pot ser un arte d’alliberament i transformació.

Dedicar temps a caminar vol dir, en primer lloc, obrir un espai de llibertat personal en què la quotidianitat i les preocupacions queden en suspens. Caminar pot anar més enllá d’una desconnexió pontual per convertir-se en una crida a la rebel.lia, la follia i el despertar de la nostra part salvatge. Al contrari del que se sol dir –que caminem per trobar-nos a nosaltres mateixos–, Gros escriu que caminar «ens escapem de la idea d’identitat, de la temptació de ser algú, de tenir un nom i una història». Per tant, caminar extreu l’habitant de la seva rutina d’interiors. Normalmente ens desplacem d’un lloc a un altre, de casa a la feina. Caminar, en cavi, és estar a l’aire lliure, habitar un paisatge. «No és tant que ens acostem al paisatge, sinó que les coses de fora incideixen cada vegada més en el nostre cos. El paisatge és un paquet de sabors, de colors, d’olors en què el cos s’impregna», explica Gros. La ment s’omple d’una altra consistència; no de les idees, doctrines o teories, sinó de la presencia del món. Es camina en silenci. Però és un silenci especial. Submergits a la natura, escoltem i veiem que no estem sols. «Tot un parla, us saluda, us crida l’atenció. Els arbres, les flors, els colors dels camins. La solitud i el silenci ens porten a retrobar el món. (…)»

Judit Baseiria (revista Vértex, Jul./Agos. 2023, nº 307, p. 96)

 


Caminar, una filosofia

AUTOR: Frédéric Gros

EDITA

Cossetània

2021

183 pàgines

Edició original: Marcher, une philosophie (Carnets Nord, 2009)


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

D'a linguagem do silêncio

 

Pedro Cuiça © Palace Hotel do Buçaco (14/07/2023)



«Além de todos os que, com menor ou maior competência, dela se ocupam, existe um guardião esquecido: a sua inacessibilidade primordial, assente no amor ao precipício. Afinal, é a forma como a mata foi plantada o que melhor a defende. Isto significa, paradoxalmente, que quanto mais acessibilidades se criam, mais o seu sentido profundo se torna inalcançável. Não é de todo possível percorrer os 105 hectares da mata num dia e decifrar rapidamente o seu enigma, porquanto, estendida como uma forma de escrita na paisagem, a mata dos carmelitas descalços constitui uma manifestação de eloquência (numa harmoniosa conjugação de graça divina, natureza e arte) que nada tem a ver com a modéstia radical das vestes dos religiosos.

Conforme se infere da leitura da obra Genio de la Historia, escrita pelo carmelita descalço aragonês Jerónimo de San José, e publicada em 1651, o princípio monástico «ama o precipício», fundamento da eloquência da linguagem que nos pode levar ao sublime, traduz-se numa procura de elevação extrema. Em termos linguísticos (e também arquitectónicos) significa criar um estilo de linguagem sublime que não vulgarize o acesso ao sagrado, assumindo frontalmente todos os riscos que lhe estejam associados, entre eles a criação de um enigma indecifrável e a dissolução do orador. (…)


Pedro Cuiça © Hotel Palace e Mata do Buçaco (15/07/2023)

Por fim, em termos ontológicos, o amor ao precipício supõe não ter medo do sagrado, ou seja da sua profundidade, inexplicável racionalmente, e da vida que também se manifesta com subtil intensidade. Significa não ter medo de correr todos os riscos, excepto o risco maior de não viver já neste mundo na presença insondável e deleitosa da clara luz do Divino, mesmo quando esta se revela sob a forma de uma sombra.»

[Neves, 2022: 94-95]

 

Pedro Cuiça © Convento de Santa Cruz do Buçaco (15/07/2023)

Pedro Cuiça © Mata do Buçaco (15/07/2023)

Pedro Cuiça © Mata do Buçaco (15/07/2023)


Pedro Cuiça © Mata do Buçaco (15/07/2023)

Pedro Cuiça © Mata do Buçaco (15/07/2023)

Pedro Cuiça © Mata do Buçaco (15/07/2023)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Título: Ama o Precipício – Viagem à Mata Nacional do Buçaco

Autora: Susana Neves

Edição: Fundação Francisco Manuel dos Santos (Maio 2022)

ISBN: 978-989-9064-59-1 




quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O Caminho mais curto

 

© Pedro Lourinho


O traçado desta calçada portuguesa era o caminho mais curto – e porventura o único com idênticas condições – que, em tempos medievais, ligava Portalegre a Castelo de Vide. As encostas da serra, forneceram a abundante matéria-prima que, essencialmente com pedras graníticas, foi utilizada na sua construção. Para evitar a degradação do piso foi estabelecido um travamento estrelado da calçada, semelhante ao que se encontra nas calçadas do núcleo antigo de Castelo de Vide (séculos XII-XIII).

Esta calçada poderá ter sido melhorada ou ter sido assente sobre uma via mais antiga, provavelmente uma estrada romana. Fácil será vislumbrar que a prática de caminhada pode e deve constituir uma actividade estruturante e fundamental no que concerne a defesa e a valorização do património viário. Não só o património material, desde logo do próprio traçado, mas também o património imaterial associado, nomeadamente a lendas, histórias ou outras tradições orais e/ou escritas.


terça-feira, 8 de agosto de 2023

IMENSAMENTE GRATO


Mais uma vez, IMENSAMENTE GRATO

Agora que avanço para a segunda fase da dissertação de mestrado em que estou envolvido, sobre “Percepções de conexão à natureza e de bem-estar em caminhadas pedestres – estudo exploratório no âmbito da Ecologia Humana", volto a precisar da ajuda daqueles que colaboraram no inquérito da primeira fase para, desta feita, participarem nos trabalhos de campo que irão ser desenvolvidos, no final de Agosto e início de Setembro, no Parque Florestal de Monsanto (Lisboa). E, nesse contexto, não poderei deixar de agradecer, mais uma vez, o empenho e o apoio de todos. Sem a vossa colaboração esta investigação não seria possível.



segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Les flâneurs


Charles Baudelaire


«A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no número, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a linguagem não pode definir senão toscamente.»

Charles Baudelaire1

 

Estar e não estar, ser e não ser. Povoar a (sua) solidão no seio de uma multidão atarefada e impessoal. Assim se posicionaria Charles Baudelaire (1821-1867), o poeta da modernidade e da decadência… do Homo urbanus. Embora Baudelaire buscasse inspiração n’O Homem da Multidão (da qual fez a tradução), a realidade de Edgar Allan Poe (1809-1849), o autor dessa novela, não tem propriamente as características parisienses. O homem da multidão de Baudelaire é o flâneur, o errante e incansável andarilho de Paris, que incarna a experiência transitória e transitável do pass(e)ante.  Ademais esse profundo vagabundo incorpora «a capacidade de ver no deserto da metrópole não só a decadência do homem, mas também de pressentir uma beleza misteriosa, não descoberta até então» (Friedrich, 1991 in Munhoz e Costa, 2017). É nesse contexto que Baudelaire revela a dissonância entre o «fetiche da mercadoria» e o capitalismo burguês face à surpreendente e quasi inconcebível poética do(s) lugar(es). É também através do olhar do flâneur que Paris – a Cidade Luz – é transfigurada poeticamente numa metrópole pejada de sombras, em seu estado de spleen, melancólico e triste. Afinal para evidenciar que Paris mais do que uma cidade é um estado mental (Munhoz e Costa, 2017: 296):

 

«Ao vagar pelas ruas, apreendendo a cada detalhe sem ser notado e sem se inserir na paisagem, o flâneur quer apossar-se da sua própria experiência. Mas tal experiência parece esvaziar-se diante das multidões de seu tempo. A cidade superpovoada, os espaços preenchidos, os movimentos dos transeuntes compõem a multidão. E o homem da multidão recusa-se a estar só. Está em todos os lugares enquanto está em lugar nenhum.»

 

Como os não-lugares de Marc Augé, esses espaços intercambiáveis onde os seres humanos permanecem anónimos e que não possuem significado suficiente para serem considerados “lugares”, o homem das multidões recusa-se a estar só e, todavia, não deixa de ser um solitário acompanhado. Sem sequer ser alvo de uma abordagem solidaire (solidária), é um pária. E, contudo, essa solidão paradoxal estimula paradoxalmente a sua volúpia de flâneur num reiterado mergulho de/na multidão, em busca de um sentido, «na decifração de signos, na busca de imagens vivas, no encontro de paisagens em movimento, nos vestígios de uma aura, no fascínio de um olhar» (Munhoz e Costa, 2017: 297). Na busca da sensação de estar vivo e de pertença…

Outro escritor que incarna o papel de flâneur de forma tão marcante quanto revolucionária e surpreendente é Henry Miller (1891-1980). Nesse contexto, merece um especial destaque o seu livro Primavera Negra (1936), «talvez aquele em que a figura do caminhante se mostra mais evidente» (Munhoz e Costa, 2017: 298). Os capítulos dessa obra são compostos por inúmeros «fragmentos dispersos que afirmam a atividade deambulatória de Miller» (ibid.). As suas incursões pedestres começam na infância e estendem-se à idade adulta, assumindo dimensões de grande significância já na sua cidade natal de Nova Iorque mas, sem dúvida, é em Paris que a sua arte de andar adquire uma expressão extraordinária. Torna-se um flâneur inveterado que palmilha extensos quilómetros acompanhado e estimulado frequentemente por uma fome omnipresente, quase diria dilacerante. Tal como Baudelaire, também rodeado de inúmeros transeuntes, por personagens passantes, seus contemporâneos mas como que vivendo noutra dimensão espácio-temporal; e, no entanto, sempre na espera delirante de que algo aconteça: um acontecimento inusitado, uma aventura. E as sempre presentes paisagens edificadas, materiais e imateriais, mormente os passageiros odores da elegante gastronomia francesa!  As caminhadas de Baudelaire são por vezes marcadas pelo tédio de vivencias passadas que se repetem reiteradamente no presente, as andanças de Miller estão invariavelmente sequiosas de renovação, de inovação, diria mesmo de alteridade. Como escreveu Henry Miller (1968: 158): «Ora, eu saí para um passeio, um curto passeio de cinquenta anos mais ou menos efetuado no virar de uma página». Uma página sem dúvida admirável. Um mergulho de realidade profunda, mesmo que por vezes ficcionada e, por isso, motivo de pasmo.

 

Henry Miller


Notas

1) O pintor do mundo moderno, originalmente publicado em Le Figaro (1863). Trecho copiado de Dayane da Silva Nascimento, Olhares sobre o moderno: a metrópole nas visões de Charles Baudelaire e João do Rio.

2) Ver "Le flâneur des villes"

3) Ver "Paranóia deambulatória"

 

Bibliografia

Miller, Henry. 1968. Primavera Negra. São Paulo: Ibrasa.

Munhoz, Angelica Vier e Luciano Bedin da Costa. 2017. “O flâneur e as vertigens do tempo: uma aprendizafem”. Linhas 18(38): 192-303.

domingo, 6 de agosto de 2023

Caminheiros Andantes

 


«Apenas encontrei uma ou duas pessoas no curso da minha vida que compreenderam a arte de caminhar, ou seja, de dar grandes passeios – e que tinham talento, assim dizendo, para vaguear, na nossa língua, saunterer, palavra maravilhosamente derivada «dos vadios que erravam pelo país, na Idade Média, pedindo esmolas, sob o pretexto de irem à Terra Santa, até as crianças gritarem “Aí vai um peregrino da Terra Santa”», um sainte-terrer, um saunterer, um vagabundo.» (Thoreau, 2021: 13-14)

 

«Alguns, todavia, reivindicam a origem da palavra à expressão sans terre, sem-terra ou propriedade, que, por isso mesmo, num certo sentido, significará não ter casa específica, mas que igualmente se sentem em casa em todo o lado.» (Thoreau, 2021: 14)

 

«Pois cada caminhada é uma pequena cruzada, pregada por um tal Pedro, o Eremita, que existe dentro de cada um de nós, para que partamos e reconquistemos a Terra Santa das mãos dos infiéis. (…) É verdade, hoje em dia não somos mais do que uma pálida versão das cruzadas, e a esta fraqueza nem os caminhantes mais intrépidos escapam, pois não se comprometem com proezas intermináveis.» (Thoreau, 2021: 14).

 

«(…) cavaleiros de uma nova, ou antes, velha, ordem – não Equestre ou Cavalheiresca, nem de Cavaleiros Andantes ou Paladinos, mas Caminhantes, uma classe, a meu ver, ainda mais antiga e venerável. O espírito heróico e cavalheiresco que antigamente pertencia ao Cavaleiro parece agora residir, ou prevalecer, no Caminhante, no Andarilho – não no Cavaleiro; uma figura como uma espécie de quarto estado, além da Igreja, do Estado e do Povo.» (Thoreau, 2021: 15).

 

«Nenhuma riqueza compra os incontornáveis prazeres, liberdade e independência em que assenta a fundação deste edifício. Deriva apenas da graça de Deus. Para nos transformarmos em caminhantes, precisamos de uma licença directa dos Céus.» (Thoreau, 2021: 16).

 

«(…) o caminhar de que falo em nada se assemelha a fazer exercício (…).» (Thoreau, 2021: 19).

 

Diz Thoreau que apenas encontrou uma ou duas pessoas no decurso da sua vida «que compreenderam a arte de caminhar» e diria eu que poucas pessoas terão compreendido as mensagens (ou a grande mensagem) que encerrou no seu livrinho sobre vadiagem ou peregrinação, como lhe queiram chamar, traduzido para português por várias editoras sob diversos títulos: por exemplo, Caminhar (Hiena, 1995), A Arte de Caminhar (Padrões Culturais Editora, 2011), Caminhada (Antígona, 2012) ou Andar a Pé – Um ritual interior de sabedoria e liberdade (Alma dos Livros, 2021). A sua escrita, aparentemente simples, não é explicita, mas deixa uma série de pistas que permitem traçar o rumo da caminhada de que trata esta pequena, em tamanho, mas simultaneamente grande, em conteúdo, obra…

Sair dos feudos medievais onde se encontravam, ficando, portanto, sem terra, para se desencontrarem vagueando ou vadiando, numa peregrinatio, rumo à "Terra Santa", quais caminheiros andantes na graça de Deus?... Curioso será constatar o quão distante estará este modus operandi daquilo a que hoje em dia se convencionou chamar “peregrinação” e se tornou o acto de peregrinar, na generalidade das suas roupagens mais frequentes e comuns. E mais não digo.









SIMPLESMENTE, SIMPLES

 




A imagem retrata Lev Nikolaevitch Tolstoi (1828-1910), numa caminhada a pé, quando este tinha 52 anos de idade. Nessa altura, já tinham sido publicadas as suas duas "obras maiores": Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877). Era famoso, tinha família, terras e dinheiro, mas tudo parecia vazio... Foi na "Fé" e na simplicidade dos campesinos, do povo, que encontrou um novo significado e motivação para a vida. Tolstói também se transformou num inveterado caminheiro. Tal como um camponês, com roupas simples e um atilho a fazer de cinto, percorreu os cerca de 200 quilómetros que separam Moscovo e Lasnaia Poliana, a sua terra natal, por três vezes: em 1886, 1888 e 1889, respectivamente. Em cada uma dessas caminhadas pedestres foi acompanhado por diferentes amigos e seguidores.

Mais conhecido em português como Leão, Leon ou Liev Tosltói, este famoso escritor russo experienciou, durante a década de 1870, um profundo despertar espiritual, descrito na obra A Confissão (1882), na sequência da sua interpretação pessoal dos ensinamentos éticos de Jesus, com base no Sermão da Montanha, e de um certo regresso à natureza. Despertar que fez com que se tornasse um fervoroso anarquista cristão, pacifista e vegetariano. Pertencente a uma prestigiada família da nobreza russa, renunciou aos seus direitos de propriedade literária e, paulatinamente, às comodidades e mordomias a que esteve habituado desde a infância; passando a realizar trabalhos físicos e a envergar um vestuário singelo, como um camponês. As ideias de Tolstói, por exemplo, sobre “simplicidade voluntária” e “oposição pacífica”, expressadas em obras como O Reino de Deus está dentro de vós (1893), influenciaram significativamente escritores e pensadores como Henry David Thoreau (1817-1862), Mahatma Gandhi (1869-1948), Arne Naess (1912-2009) e Christopher McCandless (1968-1992), entre outros.

Hoje, no último dia das Jornadas Mundiais da Juventude, que se celebram na Grande Lisboa, não será certamente despiciendo lembrar este velho pensador da acção directa: do ser, simplesmente, simples.