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sábado, 20 de janeiro de 2024

Tua Walking Festival 2024


O Parque Natural Regional do Vale do Tua (PNRVT) vai realizar a segunda edição do Tua Walking Festival, com arranque nos dias 23 e 24 de Março, em Mirandela. Um evento que, ao longo do ano de 2024, irá decorrer nos cinco municípios que integram o Vale do Tua. A edição deste ano terá o seu começo no dia 23 de Março, em Mirandela, com a realização de um Seminário que irá abordar a importância do turismo de natureza e dos percursos pedestres homologados no desenvolvimento dos territórios. Será certamente uma jornada de partilha de conhecimentos e de experiências, de reflexão e de discussão, sobre os melhores caminhos a adoptar com vista à edificação de um futuro sustentável com base no pedestrianismo e nos percursos pedestres. Neste contexto, irei participar, na qualidade de Coordenador Pedagógico do Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), no segundo painel do Seminário, sobre Pedestrianismo e Segurança, com uma comunicação intitulada “Gestão de Grupos em Actividades de Pedestrianismo: formação, treino e segurança”. Em breve serão disponibilizadas mais informações, tal como a abertura das inscrições, no site do evento.



sábado, 19 de agosto de 2023

CONFUSÕES (III)

 

E porque, como é costume ouvir-se dizer, «não há duas sem três»! Depois de abordarmos a situação da (sobre)vivência do outdoor nas mais altas montanhas  (Confusões I) e ao nível do mar (Confusões II), entretanto, na Madeira "a coisa" vai assim (Confusões III): acesso ao Pico Ruivo na passada quarta-feira (16 de Agosto). Até parece as largas filas do Everest, só falta a neve.


© Marie Louise de Freitas


domingo, 13 de agosto de 2023

CONFUSÕES (II)

 

Pedro Cuiça © Gruta de Benagil – Algarve (Agosto de 2023)



CONFUSÕES DE AR LIVRE, PROBLEMAS DE AR CONDICIONADO (II)

 

Mais uma tarde de(ste) Verão, como outras tantas, no Algarve. [Pelo que parece, a tolice da denominação 'Allgarve' já foi ultrapassada.] Meia dúzia de embarcações de dimensões consideráveis, com turistas a bordo, confluem na mesma área e 'spot'. Na "minha" embarcação (salvo seja) vamos 43 "ociosos", mais a tripulação. Caiaques com um ou, normalmente, dois "mamíferos" são largas dezenas, tal como pranchas de paddle, no mar, a perder de vista, para leste e oeste, até à curva das arribas limítrofes. Na gruta de Benagil, em terra, a componente humana também está "em peso", sob a forma de algumas dezenas de pessoas, respectivos caiaques e pranchas de vários "operadores turísticos", numerosas mariolas (amontoados de pedras) e sinalética a advertir para o perigo de derrocadas! É sempre bom avisar não vá o diabo tecê-las, ademais quando a força da gravidade está omnipresente e não tira umas "merecidas férias de Verão"! Ninguém está de capacete e, de facto, talvez nem seja necessário caso ocorra não uma simples queda de pedra(s) mas uma derrocada, "à séria", de uma porção da parede ou do tecto da cavidade. É tudo uma questão probabilística ou de tempo, como queiram, e quando alguma "desgraça" acontecer as autoridades irão salientar que advertiram para o perigo e outros ‘players’ ir-se-ão mostrar muito surpreendidos. Afinal, todos os dias o local é visitado por centenas ou até milhares de pessoas e nunca nada aconteceu!

Entretanto, muitos turistas estão francamente animados (não fosse este ramo de negócio a 'animação turística', na especialidade marítimo turística) e é mesmo para isso (ou supostamente) que aí estão! Saliente-se que também nos cruzamos com alguns outros, invariavelmente nos caiaques e nos paddles, com um certo ar de circunspecção ou até de preocupação, mas nada que não seja certamente ultrapassável. Afinal, não estão em busca de "aventura" e "actividade"?

No trajecto até à gruta de Benagil também tive oportunidade de visualizar bastantes caminheiros no passadiço que foi instalado no topo das arribas a oriente da praia do Carvoeiro. Pude constatar, de forma inequívoca, que a praxis, a forma de fazer, do turismo algarvio sofreu alterações significativas, sobretudo nas últimas décadas. De resto, o paradigma extractivista da "galinha dos ovos de ouro" e do "ordenhamento" dos recursos do território, continua inalterado. O turismo de massas (leia-se "de praia”) persiste, ao que tudo parece, de boa saúde (?), e o turismo dito "alternativo" tornou-se num novo turismo de massas, independentemente da nomenclatura e das roupagens com que o queiram embrulhar e vender: turismo de natureza, turismo verde, turismo ecológico, ecoturismo, turismo activo, turismo de aventura, etc..


Pedro Cuiça © Carvoeiro– Algarve (Agosto de 2023)



domingo, 5 de março de 2023

A fábula

 Não, hoje não se trata da fábula da cigarra e da formiga, mas bem poderia ser. A temática do empreendedorismo ficará para uma próxima. Hoje, nesta espécie de rúbrica "Conta-me Histórias", a estória é outra: a fábula do gato por lebre. Ou será, antes, da lebre por gato?!...




Reinan el reloj y el cronómetro sobre todas las cosas, pero existe un lugar en el que no es ya que reinen, sino que imperan con el sadismo de un Führer. Ese lugar es el deporte [leia-se “competição”], no por casualidade nacido en Inglaterra y al mismo tiempo que el capitalismo. Deporte y capitalismo, capitalismo y deporte, son un matrimonio muy bien avenido. El filósofo francés Marc Perelman, autor de un ensayo titulado La barbárie deportiva: crítica de una plaga mundial, lo tiene claro: «La institución deportiva es una de las instituciones fundamentales del sistema liberal-capitalista».

(…) El deporte también es un pilar ideológico fundamental del sistema; un opio del Pueblo; el nuevo circo que readapta el panem et circenses romano en el siglo XXI. Pero también un instrumento educativo; una correa de transmisión de los valores del capitalismo.

(pp. 103-104)

 

Luis de la Cruz explica (…) que el deporte fue en origen un «entrenamiento vital para los tiempos medidos que el capitalismo hubo de inocular en los nuevos ritmos de trabajo, o para alejar el obrero de la taberna y otros lugares que resultaban, a ojos de la moral burguesa, nocivos para los intereses capitalistas». Los sports eran juegos tradicionales ingleses a los que se dotó de reglamentaciones estrictas como una de las primeras vías hacia la consolidación de la ética burguesa. Se trataba de controlar el tiempo libre de los obreros con criterios morales. De la plaza o explanada que servía para todo (para el mercado, las fiestas populares, los ajusticiamientos…), el deporte fue trasladándose a nuevos campos de juego con medidas fijas y una única función, y el modelo que, así implantado, los británicos difundieron después al mundo entero se basó sobre todo en la idea de equipos con especialización por tareas que se enfrentan entre sí, con ganadores y perdedores. (…) Y los anarquistas, opuestos por princípio al deporte competitivo, buscaron uno que no fuera y fomentaban el excursionismo y la gimnasia, que no lo son. Pero a la postre, fue el modelo competitivo el que acabo imponiéndose. [Paradigma vigente na Europa Ocidental, por exemplo em países como França, Espanha ou Portugal, onde o Pedestrianismo – enquanto desporto de andar a pé (?) – é assediado recorrentemente pela tutela desportiva, Estatal, para que a “modalidade” tenha uma componente competitiva. Fenómeno que conduziu a situações caricatas, como a invenção de “competições” Rando Challenge ou, as mais recentes, Aqua Walking!]

(p. 106)

 

[Günter] Anders exponía por su parte en su monumental ensayo La obsolescencia del hombre que en los gritos del deporte ya reverbera algo asesino [asinino, diríamos nós]; un rudimento de deshumanización del outro que es la base misma de la guerra. Los rugidos que interrumpían y concluían los discursos de Goebbels – recuerda – se habían probado antes en los campos de futebol, y no por casualidade las concentraciones de masas más famosas del Tercer Reich habían tenido lugar en el Sportpalast berlinés.

(p. 108)

 

Luis de la Cruz (…) hace en Contra el running un paseo crítico por la historia del deporte moderno y traza un vínculo estrecho entre la expansión de este y la del capitalismo postindustrial, del que implica que ha hecho perder peso a «las organizaciones obreras y la práctica de los deportes de equipo mientras que los deportes individuales han ido ganando adeptos» (…). Analiza además el discurso de quienes monopolizan la narrativa del running desde posiciones de poder y muestra cómo el running («individualista, adicto al movimiento continuo, rápido e inestable como la gramática de los bits»; «metáfora que expressa la constancia, la progresividad, la ambición o la necesidad constante de motivación») y el deporte de aventura («una ficción de descontrol controlado») han ido colonizando las diapositivas de PowerPoint en los centros de negocio y la filosofia barata de los libros de emprendimiento.

(p. 117)

 

(…) «los clubes están actualmente en decadencia» debido a que «ahora las personas tienen un interés individualista por participar y prefieren no hacerlo a través de alguna organización». [Agora preferem pagar a empresas e serem levados, sem responsabilidade pessoal, nem “chatices”, com desejadas mordomias e, frequentemente, facilitismos temperados com ilusões de aventura.] Periodistas de todo el mundo constatan la pertinência del lamento y aportan de paso algún principio de explicación de esta crisis. Lo hace, por ejemplo, Stéphane Herzog, que en 2015 publicaba en el diario suizo Les Temps un largo reportaje sobre la «grande mutation» que su investigación concluía que viene sufriendo el alpinismo. Gran transformación: ¿hacia qué? Hacia esto: «Siguiendo la estela de las estrelas del speed climbing, los nuevos adeptos quieren una montana balizada, accesible, lúdica e inmediatamente consumible». En efecto, es el caso – y la coincidencia no puede ser casual – que, al mismo tiempo que los clubes tradicionales decaen, insurge por todas partes todo un universo nuevo (…)

(p. 25)

 


CUETO, Pablo Batalla. 2019. La virtude en la montaña – Vindicación de un alpinismo lento, ilustrado y anticapitalista. Gijón: Ediciones Trea.



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Novos desafios

 


No dia 14 de Outubro vou realizar um workshop sobre a temática "Gestão de Risco em Actividades de Montanha: alterações climáticas, novos paradigmas e desafios", numa iniciativa de formação à distância organizada pelo Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM).

Mais informações no site da FCMP.


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Picos



A progressão em terrenos escorregadios, designadamente em neveiros, vertentes enlameadas e/ou com erva molhada, apresenta exigências técnicas e o perigo de queda de praticantes que deverão ser tidos em conta e geridos convenientemente com vista à sua resolução e/ou mitigação.
O uso de spikes revela-se uma interessante e efectiva solução de progressão com níveis acrescídos de segurança, face a condições de ocorrência de neve e gelo pontualmente em terrenos montanhosos ou em trajectos pedestres, no âmbito da prática de caminhada e de running (sky ou trail). São fáceis e rápidos de colocar em qualquer tipo de calçado e proporcionam uma boa tracção na maior parte dos terrenos escorregadios.  Por outro lado, são muito leves e pouco volumosos tornando-se muitíssimo apetecíveis para quem pretende andar rápido e (ultra)leve. No contexto nacional, serão certamente interessantes opções, sob determinadas condições de neve e gelo, na montanha do Pico ou na Serra da Estrela, tal como noutras áreas com terrenos escorregadios.
Os “picos” snowline Chaisen, comercializados pela casa austríaca Koch alpin GmbH, apresentam uma elevada qualidade e vários modelos, para diferentes actividades, de que destacamos o Chainsen Light, pela sua leveza (230 a 265 gramas/par, consoante os tamanhos disponíveis: M, L e XL) e pela sua eficácia. Neste momento estamos em fase de testes, com diversos modelos, e os resultados são bastante satisfatórios, sendo certamente uma opção a ter em conta, quer por praticantes, quer por treinadores. Para mais informações, consulte o site da Koch alpin.

PC ©

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Pilar


Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

«Na verdade, tudo se conjuga para se poder afirmar que o mundo, a realidade empírica, a representação que dela fazemos na nossa consciência, é largamente uma invenção do nosso cérebro, mas é uma invenção coerente e útil, pois torna possível a vida do organismo no seu mundo próprio, mundo que o animal percepciona criando imagens que diferem de espécie para espécie, pois cada uma tem o seu ambiente, o seu nicho particular, e portanto a imagem da realidade que lhe é própria. Uma série considerável de observações e de experiências dá um forte apoio à conclusão fundamental de que o homem reconstrói, dá forma à sua «realidade» com as informações recebidas pelos seus sentidos, e com o seu cérebro e com a sua linguagem fazendo a «criação mental de mundos possíveis».
A evolução dos organismos é basicamente um processo de acumulação de informações, nos genes e na ontogenia («programa hereditário»), devido fundamentalmente ao trabalho da selecção natural, repetindo-se a cada geração (ou série de gerações) a aquisição realizada. É a memória genética do passado de opções determinadas pela selecção. Ora, este princípio tanto se aplica às estruturas e formas do organismo como ao seu comportamento. O organismo transforma impressões recebidas do ambiente em partes da sua interioridade. Interactua com o ambiente, havendo no animal como que uma tendência para interiorizar o mundo, quer pelo alimento que ingere1 quer pela representação que faz desse mesmo mundo. Houve uma propensão ao enriquecimento interior, à complicação em profundidade, o que exigiu, como compensação, uma superfície protectora-receptora muito elaborada, particularmente nos grupos mais evolucionados.
A evolução do sistema nervoso e a sua complexificação permitiram respostas cada vez mais elaboradas e seleccionadas da parte do organismo. Tudo entrou em diferenciação a partir da sensibilidade básica, nomeadamente as células nervosas, os receptores e condutores de estímulos e a complicação em centros nervosos, etc. Com os comportamentos inatos surgiram também formas de flexibilidade, de maleabilidade do comportamento. Com a complexidade dos sistemas nervosos e com as memórias que eles possuem, quer dizer, com a capacidade de acumular informações e de o animal se recordar delas, desenvolveram-se, naturalmente, formas elaboradas de aprendizagem individual criadora, nomeadamente com os reflexos condicionados. Um dos passos decisivos foi a «representação central do espaço», quer dizer, a capacidade de «reflectir de olhos fechados sobre o que a memória contém», ou seja, a aptidão de lembrar o que está registado na memória e de ponderar outras alternativas. Este passo fundamental está provavelmente na origem da autoconsciência. Mesmo o desenvolvimento das noções de relações temporais fez-se provavelmente em associação ou na dependência da capacidade de representação do espaço. E com esta aptidão nasceu a possibilidade de fazer experiências mentais, aventurar hipóteses de comportamento em cenários de risco, em determinadas situações ecológicas (reais ou imaginárias), com a vantagem de não se arriscar a pele, porque quem se expõe e morre é, por assim dizer, a hipótese, substituindo na aventura aquele que a fez. Ora, esta aquisição é provavelmente um dos pilares fundamentais da origem e evolução do espírito humano.»
[SACARRÃO, 1991: 248-250]

Por isso, e muito mais, vamos mas é escalar!...

Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

NOTA Pedestris
1- Interiorizar o mundo pelo alimento que ingere ou através do ar que inspira, mas que também expira, entre muitas outras interacções entre o indivíduo (?) e o meio que (supostamente) o rodeia, de modo que se torna virtualmente impossível delimitar, ou definir onde acaba e começa, a fronteira entre-ser indivíduo e ambiente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SACARRÃO, Germano da Fonseca. Ecologia e Biologia do Ambiente – II As Interdependências e o Homem. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1991, vol. II, pp. 322.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Guia da Marcha

 © da net (?)

O Senhor (!) mandou-nos parar e perguntou pela guia da marcha. Respondemos que o nosso intuito era meramente fazer uma caminhada, passear, e que, portanto, não iríamos praticar pedestrianismo.
– Então e quem é o responsável? – ripostou.
– Bem, na verdade não existe nenhum “chefe”. Somos apenas um grupo de amigos que, na base do livre associativismo, decidimos vir passear.
– Mas têm de ter uma guia de marcha porque…
– Sim nós sabemos que, de há uns tempos a esta parte, as actividades de pedestrianismo, organizadas por clubes, mesmo que a título benévolo, terão de contar com um ou mais “guias”. Na verdade, detentores do Título Profissional de Treinador de Desporto… de pedestrianismo; apesar de as entidades profissionais, na prática, não precisarem de trabalhadores com qualquer tipo de titulação. A p--- da loura, a coberto de uma pretensa “legitimidade legislativa”!
– Vamos lá ver o respeito!...
– Desculpe. Como lhe disse, somos apenas companheiros que vão aproveitar o dia fazendo uma caminhada na natureza. E, apesar das mochilas e de todo este aparatoso equipamento que está a ver, não vamos acampar, nem fazer uma fogueira ou sequer foguear. Tendo em conta que temos o país a arder, vai para mais de dois meses, o melhor é mesmo estar quieto :) Já para não falar das proibições de acampar ou até de bivacar, de fazer fogueiras e sabe-se lá que mais.
– Bem, vamos lá ao que interessa: a guia de marcha?
– Mas houve alguma denúncia? Agora só o que faltava era vir a ASAE! Não temos nenhuma guia, nem tal seria suposto.
– Para transportarem essa carga terão obrigatoriamente de possuir uma guia de transporte ou, caso contrário, terei de vos aplicar a respectiva coima.
– Ah! Já podia ter dito. Nestas matérias ou co(i)mem todos ou não co(i)me ninguém :p
O Senhor A-gente [salvo seja!], que nos mandou encostar, afinal não nos estava a indagar sobre uma “guia da marcha”. O problema legal era outro. A suposta origem do imbróglio centrava-se no recheio amontoado que se encontrava na bagageira da carrinha!

quinta-feira, 10 de março de 2016

Formação de Treinadores

Na sequência da implementação do Plano Nacional de Formação de Treinadores (PNFT), decorrente da aplicação da Lei 40/2012, de28 de Agosto, a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP)-UPD acaba de lançar os primeiros Cursos de Treinadores de Grau I:

Após o exigente trabalho de definição dos referenciais específicos de formação dos cursos de treinadores nas diversas modalidades tuteladas pela FCMP-UPD (Alpinismo, Montanhismo, Escalada, Pedestrianismo, Skyrunning e Canyoning) e nos diversos graus (I, II e III), em colaboração com a Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM), e respectiva aprovação por parte do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), foi finalmente dado este importante passo. 
A formação de treinadores é fundamental para a concretização de um adequado enquadramento e treino dos praticantes nas diversas modalidades e assume um particular destaque quando estas, ademais, se tratam de desportos de ar livre e, por isso, de risco acrescido.




quarta-feira, 9 de março de 2016

Calma...


REACÇÕES AO RISCO*

No tocante à gestão do risco é extremamente interessante, e a ter muito em conta na prática de pedestrianismo, o conceito de “paranóia construtiva”, proposto por Jared Diamond1:

«A minha escolha desta expressão paradoxal, aparentemente desagradável, para uma qualidade que admiro, é intencional. Empregamos habitualmente a palavra “paranóia” com um sentido pejorativo, incluindo medos exagerados e infundados. Foi isso que me pareceu quando pela primeira vez observei a reação dos nova-guineenses quanto a dormir debaixo de uma árvore morta, e é verdade que, regra geral, uma determinada árvore morta não vai cair naquela noite em que decidimos acampar debaixo dela. No entanto, a longo prazo, esta aparentemente paranóia é construtiva: é essencial para a sobrevivência segundo as condições tradicionais. De entre tudo o que aprendi com os nova-guineenses, nada me marcou tão profundamente como essa atitude. Está difundida por toda a Nova Guiné e é descrita em muitas outras sociedades tradicionais do mundo. Se algo comporta um perigo reduzido de cada vez que é feito, mas é levado a cabo com frequência, torna-se necessário aprender a ser cuidadoso, se não queremos acabar mortos ou incapacitados ainda novos.
(…) Na única ocasião em que fiquei incapacitado, sem poder andar, nos Estados Unidos (depois de escorregar num passeio molhado em Boston e partir um pé), arrastei-me até à cabina telefónica mais próxima para telefonar ao médico do meu pai, que me foi buscar e me levou ao hospital. No entanto, quando me magoei no joelho no interior da ilha Bougainville da Papua-Nova Guiné e fiquei impossibilitado de andar, vi-me preso ali no interior, a mais de trinta quilómetros da costa, sem qualquer forma de obter ajuda externa. Os nova-guineenses que fracturam um osso não têm um cirurgião para os tratar e acabam por ficar com um osso fora do sítio que os deixa permanentemente incapacitados.»

A designada “paranóia construtiva” dá um particular enfase aos acontecimentos que envolvem riscos baixos, mas que por se repetirem inúmeras vezes apresentam uma probabilidade de se revelarem danosos ou mesmo fatais, caso sejam ignorados. Os incidentes e os acidentes ocorrem geralmente por algum motivo, «pelo que temos de permanecer alerta para as possíveis razões e ter cuidado»2. Por isso é que se deverá cultivar uma atenção e reflexão permanentes, reparando em pequenos acontecimentos ou sinais, e desenvolver uma atitude naturalmente cuidadosa, regrada e eco-lógica nas actividades pedestres que decorrem no seio da natureza, mormente aquelas que envolvem noites de campo. Neste contexto, a divisa dos escoteiros “sempre alerta” ou “sempre pronto” (be prepared) expressa na perfeição a atitude de atenção (plena) e de prontidão que tornarão as actividades de campo significativamente mais seguras e agradáveis3…


Não deixam também de ser interessantes as analogias que se poderão fazer entre a paranóia construtiva e aquilo a que o psicólogo Kevin Dutton (2007) apelidou de “mentalidade SOS”: um conjunto de princípios nucleares da psicopatia que, adequadamente aplicados com a devida atenção e cuidado, poderão contribuir para atingir um óptimo desempenho e uma segurança acrescida. Dos sete princípios elencados por Dutton, destacamos aqueles que poderão ajudar a responder antecipadamente, em vez de reagir, aos desafios com que somos confrontados no âmbito do pedestrianismo: (1) atenção plena, (2) concentração e (3) acção. Um dos segredos para minimizar eventuais riscos no contexto e no método que implementarmos e, nesse contexto, as qualidades apontadas marcam a diferença. Algo na linha daquilo que experimentámos, há uns anos atrás, em actividades de pedestrianismo a solo sob a mnemónica CCR: calma, concentração e rapidez.



NOTAS
1. Cf. DIAMOND, Jarred – O Mundo até Ontem – O que podemos aprender com as sociedades tradicionais?; Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2013: 334-335.
2. Cf. ibidem: 55.
3. Cf. BRYSON, Bill – Por aqui e por ali; Lisboa: Quetzal Editores, 2007: 232. Mais uma vez a atenção, neste caso no que concerne às condições climatéricas e às respectivas respostas corporais, desempenha um papel fundamental: «O problema era ser um homem sem imaginação. Era rápido e alerta nas coisas da vida, mas só nas coisas, e não nos significados. (…) Esse facto (…) Não o levava a meditar sobre a fragilidade do homem em geral, só capaz de viver dentro de certos limites estreitos de calor e frio; e nem tão-pouco a conjecturar sobre o plano da imortalidade e o lugar do homem no universo.» (in LONDON, 2004: 200)

*Adaptado de CUIÇA, Pedro: Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015: 230-231

terça-feira, 8 de março de 2016

Deixar-te p'ra morrer!


Ainda a propósito dos acidentes que têm ocorrido no Parque Nacional da Peneda-Gerês, mais precisamente sobre a recente polémica que envolve a aplicação de uma coima a três montanheiros (resgatadores) e a três caminheiros (resgatados) que alegadamente terão atravessado uma área interdita, será importante reflectir acerca das eventuais consequências que tal medida terá – como outras que se adivinham (!) terão – sobre os praticantes e as práticas… Por outro lado, também será fundamental equacionar as implicações éticas de determinadas decisões e, nesse contexto, a sua própria legitimidade. Como catalisador de tais exercícios cogitativos, remeto para um texto da autoria de António Coelho, publicado no blogue Viagens Verticais, tão interessante quanto oportuno: Se a lei fosse diferente nunca te deixaria para morrer… Davy Croquett.

"Vagueava pelo nevoeiro, molhado por uma gélida chuva, que nunca mais parava, naquele dia um nimbostrato, tinha-se incrustado nas montanhas, e tapava todo o sol à altitude das minas…apenas me orientava com o GPS, pé-ante-pé, através das difusas silhuetas das ruínas dos antigos edifícios mineiros, que conheço como as minhas mãos...
Entrecortado, por entre o soprar violento do vento, ouvia uma espécie de voz fantasmagórica, quase em choro, um apelo que pede aos ventos que passam, por ajuda...
Sem hesitar…entro no casebre...a tal voz, está moribunda, a sua roupa de algodão absorve cada gota que cai, como adagas de gelo que lhe penetram a pele até aos ossos...nestas condições meteorológicas, e com aquele equipamento deficiente, o sinónimo é hipotermia! Dou-lhe todo o chá quente que trago comigo, ligo do seu telemóvel ao 112 e peço por ajuda com urgência..
 Digo-lhe que nas próximas horas, deve ser resgatado por um grande número de gente voluntariosa e muitos media... no entanto aviso-o:
–Como deve compreender ambos estamos numa zona interdita, proibida por lei, o que faz de nós, "navegantes ilegais" aqui neste lugar, isto vai sair-nos muito caro… (a mim em forma de multa monetária, a Ele, além da multa, pode ser a vida...).  Por isso pedi-lhe desculpa por não o poder ajudar mais, despeço-me e desejo-lhe sorte...
Amanhã saberei pelas noticias se sobreviveu…
Se a lei fosse diferente nunca te deixaria para morrer... Davy Croquett"

quinta-feira, 3 de março de 2016

Incidentes e...



A propósito dos incidentes que se têm verificado nos últimos tempos no Parque Nacional da Peneda-Gerês e no Parque Natural da Serra da Estrela muito se tem dito nos media e nas redes sociais, e algo teríamos a dizer mas tal irá ficar para uma outra ocasião!... Opinar é fácil, e ademais criticar negativamente, sobretudo quando tal se processa no conforto do sofá e/ou sob displicentes atitudes, mormente quando existe alguém que faça de vítima!! Nem é preciso conhecer as especificidades do meio montanhoso, estar ao corrente do que realmente se terá passado ou inteirar-se das versões dos diversos intervenientes, entre outros dados importantes na formulação de um ajustado discernimento dos factos!!! Mais grave do que opinar de forma deficiente será decidir de modo equivocado, com consequências difíceis de avaliar.
Os incidentes, tal como os acidentes, ocorrem, com maior ou menor frequência, ano após ano, e, após o tradicional desfile de doutos alvitres e canhestras notícias, voltamos ao mesmo... E o fenómeno, infortunadamente, não se circunscreve, de todo, a esses dois maciços portugueses, os incidentes e acidentes repetem-se noutras geografias nacionais, tal como no estrangeiro.
A montante de precipitadas opiniões e/ou decisões talvez fosse sensato apostar na prevenção de incidentes e acidentes em actividades de montanha, designadamente através de uma adequada formação dos praticantes, entre outras iniciativas tendentes a uma prática esclarecida e responsável.



sábado, 5 de julho de 2014

A Mãe de Todas as Quedas!

Os dois acidentes ocorridos na ilha da Madeira, em Junho passado, no âmbito da prática de pedestrianismo e que se saldaram na morte de três “turistas alemães” mereceram o destaque dos media1 e, mais uma vez, vieram lembrar as “estatísticas”, tantas vezes ignoradas e de difícil confirmação, que estimam o falecimento na região de quatro a seis praticantes anualmente. Tendo em conta as ditas “estatísticas”, avançadas por órgãos de informação, que apontam para cerca de quatro a quatro mil e quinhentas pessoas a caminhar por dia, durante a época alta, talvez se chegue à conclusão que o número de mortes não será tão elevado, como possa parecer à primeira vista, se comparado com a prática de pedestrianismo em outras regiões como, por exemplo, a área francesa do Maciço do Monte Branco de que se conhecem estatísticas fidedignas e disponibilizadas todos os anos. Mas não nos move aqui o intuito de analisar ou sequer tecer quaisquer considerandos acerca da fenomenologia dos incidentes e/ou dos acidentes na conjuntura da prática do pedestrianismo na Região Autónoma da Madeira, ainda para mais quando já existem estudos sobre a matéria que ultrapassam o mero nível de singelos comentários2.
No que concerne a incidentes e/ou acidentes na prática de pedestrianismo, em geral (portanto independentemente dos circunstancialismos locais), gostaríamos de salientar, isso sim, a importância de investir fortemente na prevenção/formação. Os praticantes devem possuir conhecimentos e experiência suficientes, tal como disporem de equipamento adequado, para as actividades em que se envolvem e os turistas devem ser enquadrados por profissionais devidamente certificados e que garantam a qualidade, nomeadamente em termos de segurança, dos serviços que prestam. Por outro lado, os percursos pedestres balizados devem estar nas melhores condições, desde logo no tocante ao número, visibilidade e qualidade das marcas. E escusado seria dizer que tanto pedestrianistas quanto turistas deveriam possuir seguro para a prática da modalidade não se desse o caso de muitas vezes isso não acontecer! Por vezes tal sucede porque os envolvidos são induzidos em erro ao, considerando o pedestrianismo como fácil, confundirem os conceitos de dificuldade e de perigosidade (tal como perigos e riscos) e, nesse contexto, pensarem ser desnecessário satisfazer um conjunto de requisitos para uma prática (mais) “segura” dessa actividade!! Por isso, encontrando-se em percursos tecnicamente fáceis, como uma levada, sujeitam-se frequentemente a perigos óbvios, como queda de pedras e/ou dos próprios praticantes, sem se darem conta da situação em que estão envolvidos!!!
No campo de acção da prevenção gostaríamos de destacar o exemplo do projecto Montañas Seguras, actualmente denominado “Montaña Segura”, que se focou na prevenção de acidentes em meio montanhoso e que, entre outras iniciativas, resultou na publicação de diversos folhetos informativos, designadamente no âmbito do pedestrianismo, e na elaboração do MIDE – Método para la Información De Excursiones. Dentro dessa temática destacamos igualmente a publicação de La Seguridad en Montaña3, resultante dos trabalhos desenvolvidos durante o VII Seminario de Parques Nacionales y Deportes de Montaña que decorreu, de 15 a 17 de Novembro de 2013, no Centro Nacional de Educación Ambiental de Valsaín (Segóvia – Espanha). O evento, organizado pela Federación Española de Deportes de Montaña y Escalada (FEDME), em colaboração com o Organismo Autónomo de Parques Nacionales, reuniu 64 especialistas (representantes de 15 Comunidades Autónomas), entre montanheiros e gestores ambientais, que estabeleceram algumas linhas mestras em matéria de segurança.



Notas:
1. Surgiram notícias em vários suportes informativos, como a TVI, o Diário de Notícias ou o Observador, entre outros.
2. Nesse contexto, destacamos a tese de mestrado Turismo e Riscos na Ilha da Madeira – Avaliação, Percepção, Estratégias de Planeamento e Prevenção (2010), da autoria de Daniel Márcio Fernandes Neves.
3. Documento na versão inglesa: Safety in the Mountains.