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sexta-feira, 24 de março de 2023

Re-ligação...

 


Pedro Cuiça © Saldanha (Lisboa, 20/ Jul. 2016)


A minha paciente Sophie, uma estudante universitária da Coreia do Sul, veio ter comigo à procura de ajuda para a depressão e ansiedade. Entre muitos temas que abordámos, disse-me que passava grande parte do seu dia ligada a um dispositivo eletrónico qualquer: no Instagram, You Tube, a ouvir podcasts ou listas de reprodução de músicas.

Na consulta que tive com ela, sugeri que experimentasse fazer o caminho a pé até às aulas sem ouvir nada, permitindo que os seus pensamentos viessem à superfície.

Fitou-me incrédula e receosa.

- Por que é que havia de fazer isso? – perguntou, boquiaberta.

- Bem – arrisquei dizer –, é uma forma de se familiarizar consigo mesma, de permitir que a sua vivência decorra sem que tente controlar ou fugir dela. Toda essa distração com dispositivos eletrónicos pode estar a contribuir para a sua depressão e ansiedade. É muito desgastante estar sempre a evitar estar consigo mesma. Pergunto-me se experienciar-se a si mesma de um modo diferente poderá dar acesso a novos pensamentos  e sentimentos, bem como ajudá-la a sentir-se mais ligada a si mesma, aos outros e ao mundo.

A Sophie pensou nisso durante um instante.

- Mas é tão aborrecido – declarou.

- Sim, é verdade – retorqui. – O tédio não é só aborrecido, pode ser assustador. Força-nos a enfrentar questões mais importantes relativas ao significado e propósito da vida. Mas o tédio também é uma oportunidade para a descoberta e a invenção. Cria o espaço necessário para que se forme um novo pensamento, sem o qual estamos constantemente a reagir a estímulos à nossa volta, em vez de nos permitirmos fazer parte da nossa experiência de vida.

Na semana seguinte, a Sophie experimentou caminhar até às aulas sem estar ligada a nada.

- De início foi difícil – comentou.  – Mas depois habituei-me e em certa medida até gostei. Comecei a reparar nas árvores.

(pp. 53-54)

 




LIVRO

LEMBKE, Anna. 2022. Dopaminados. Lisboa: Penguin Random House Grupo Editorial Portugal



segunda-feira, 6 de março de 2023

Condição Metafísica Vertical

 

Pedro Cuiça © Trilho da Calcedónia (Gerês – Terras do Bouro, 2005)


Andar, em português, é hiperónimo de movimento. Tal é o que está consignado no provérbio medieval segundo o qual a roda da fortuna tanto anda como desanda. O antónimo de andar não é desandar, mas sim deter-se, parar, sentar. O século XVI retratou os seus maiores de pé, o século XVIII retratou os seus maiores sentados. Do rítmico andar do cavaleiro à deslocação sentada em coche, carro, avião, degrada-se a condição caminheira do homem, assim como a sua condição metafísica vertical. A doença da nossa época, consabidamente, é o sedentarismo, o estar sentado, enfim, deixar de caminhar.

(p. 6)

 

O sedentarismo é causa do niilismo e de um cortejo fúnebre de moléstias que se estendem da depressão à hipertensão ou à deformação óssea. Tem o mal solução? Resolve-se caminhando. O preceito romano solvitur ambulando tem simultaneamente valência filosófica e médica.

(p. 8)

 

CUNHA, Rodrigo Sobral. 2020. Arte de Bem Caminhar. Linda-a-Velha: MIL – Movimento Internacional Lusófono.



segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Saúde em Movimento

PC © Estónia (2007)

Na próxima sexta-feira (dia 7 de Outubro) terei o grato prazer de apresentar a palestra Caminhada, Bem-estar e Conexão à Natureza, na Câmara Municipal de Lagos, no âmbito do lançamento da iniciativa Saúde em Movimento. O evento, de entrada livre, começa às 10:00 a.m. e realiza-se no Auditório do edifício Paços do Concelho Século XXI. 

A conexão dos seres humanos com a natureza tornou-se uma matéria de crescente interesse no âmbito da investigação científica, designadamente no que concerne a saúde e o bem-estar. De acordo com a Hipótese da Biofilia, os seres humanos foram moldados cognitiva e emocionalmente, no decurso da sua evolução, para uma predisposição inata à conexão com a natureza. O processo evolutivo dos hominídeos transformou-os em caminhantes, adaptados a percorrer extensas distâncias a pé.

O benefícios para a saúde, decorrentes da prática de caminhada, estão amplamente descritos, revelando que os praticantes desse exercício físico apresentam um menor risco de contraírem doenças crónicas, como a diabetes (tipo 2), hipertensão, doenças coronárias, dores lombares, miopia, défice de atenção, ansiedade, depressão, etc.. Salienta-se igualmente a importância da caminhada desde as crianças e jovens aos idosos, mormente no que concerne a mitigação de situações de sarcopenia, de fragilidade e quedas associadas. 

A caminhada em meio florestal ou, na expressão de Wohlleben (2019), onde se «crie a ilusão de floresta», merece um particular destaque no que concerne a conexão à natureza e os inúmeros benefícios para a saúde e o bem-estar dos praticantes. O contacto com a natureza pode não ser, todavia, suficiente per se, exigindo o envolvimento psicológico, intencional, com vista a uma mais efetiva conexão ao mundo natural. Conexão que não pode estar alheada do corpo, mais precisamente do corpo-mente enquanto entidade inseparável e indivisível. Estas e outras temáticas serão abordadas na palestra Caminhada, Bem-estar e Conexão à Natureza e constituirão o ponto de partida para a troca de pontos de vista e de experiências entre o palestrante e os participantes.

PC © Pirenéus (2004)

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Foi extremamente gratificante ter uma sala cheia de idosos, altamente motivados pelos benefícios que a prática regular de caminhada proporciona, não só em termos de saúde, mas também de bem-estar, designadamente resultante da socialização e do convívio…


© DR




© DR


domingo, 28 de agosto de 2022

Neolítico


© Algures na Net


Andar e/ou correr tinha-se tornado num meio de transporte primário, como o carro para os "urbanoides"; para todo o lado onde vá, vai a passo ou em corrida "com tão pouco equipamento como um caçador neolítico, e com a mesma despreocupação quanto ao destino, por muito distante que seja.


© PC 2022

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

D'A ESTRANHEZA

 D'O ESTRANHO MUNDO EM QUE VIVEMOS


Gripe Espanhola © N.A. (1918)

Quando em Março publiquei o post Cuidem-se e cuidem, sobre a importância de fortalecer o sistema imunitário no contexto da covid-19, referi que não era ocasião para críticas ou prognósticos mas que teríamos oportunamente, num futuro mais ou menos próximo (ou afastado), a possibilidade de reflectir (e consequentemente de opinar) sobre a pandemia. Na altura remeti essa possibilidade para uma origem divina – “se Deus quisesse” – mas hoje talvez seja mais sensato dizer “se a censura o permitir”!!!

Passou a Primavera e o Verão vai avançado: continuamos a “achar” que não é o momento de tecer considerandos sobre os “fenómenos pandémicos” (na verdade, não nos apetece)… Apenas damos nota de dois “episódios pontuais” que consideramos, neste âmbito, significativos e dignos de menção: (1) as inusitadas e injustificadas “censuras”, que ocorreram no Facebook, do post referido acima (posteriormente corrigidas!) e (2) a concretização da previsão, também publicada no Facebook, da proibição daí a dias da prática de caminhadas no Parque Florestal de Monsanto. Felizmente, ao contrário do que se passou na França, foi possível efectuar caminhadas diárias, “à porta de casa”, desde que de curta duração e extensão: as designadas "caminhadas higiénicas! Nesta matéria, recomendamos vivamente a leitura d’Este Vírus Que Nos Enlouquece, publicado recentemente pela Guerra e Paz (Julho de 2020), da autoria de Bernard-Henry Lévy, de que destacamos uma pequena citação e dois trechos, do encerramento do livro, para abrir o apetite ou aguçar a curiosidade, como queiram.

 

Ou o (im)perfeito anormal?

O passeio do animal de companhia e, a partir de 11 de Abril, a sua adopção foram integradas na lista de deslocações autorizadas enquanto continuavam interditos os passeios solitários ou a dois, em percursos pedestres ou em praias. 

[LÉVY, 2020: 73]


O mundo, no Gaffiot, esse dicionário de latim no qual os jovens outrora aprendiam a pensar em francês, era mundus – e usava-se em dois sentidos.

O verdadeiro mundo. Aquele onde os homens penam, choram, morrem e desejam. Aquele que, no século XX, por duas vezes desmoronou, na verdade três com a longa ruína do comunismo – mas que os seus habitantes estão todas as vezes, prontos para reconstruir. Aquele onde nos sabemos herdeiros de um passado criminoso que engoliu, como uma jibóia, e que ainda engolirá, todas as antigas filosofias, mas onde nunca resolvemos, apesar disso, deixar de pensar e sobretudo de agir. Aquele, em suma, de uma geração, a minha, que foi educada com a convicção de que já não se trata de ver os comboios passar nem de repetir, como um disco riscado, «isto nunca mais» – mas que é preciso fazer tudo, tudo, politicamente, praticamente, activamente, quase manualmente, para conter um pouco esse «isto»…

(…)

Mas mundus também quer dizer aquilo que é nítido e limpo. Sem nódoas e imaculado. Asséptico. Higienizado. Em grego, quer dizer cosmos. Em francês, cosmética. E é o nome de um outro mundo, indiferente ao seu lado maldito, esquecido de que o imundo existe e de que faz parte do nosso ofício humano afronta-lo – é o nome de um mundo demasiado belo, onde é suposto escondermos essa miséria, esse mal, essa Medusa, cuja visão não suportaríamos… Nesse mundo, velhos como o mundo a quem o coronavírus renova a fama, os homens que apanham um avião para reportar o que se passa no golfo de Bengala são [considerados] assassinos do planeta.  Os internacionalistas que partem para as regiões onde brilham, em vez dos nomes e dos lugares, os ceifeiros da morte, que se metem onde não devem para depois serem chamados à atenção. E, quando regressam, que encontram? Um mundo onde reinam os técnicos da ventilação, os vigilantes gerais do estado de emergência, os delegados da agonia. Um mundo onde, em vez do mundo que faz demasiado mal, temos o álcool-gel, as varandas onde nos auto-elogiamos, cães para passear duas vezes ao dia munidos de atestados covid e cidades expurgadas da multidão humana, como uma sala de operações, das infecções mesocomiais. Um mundo de donos de cães, quer dizer , de donos que são cães e se comportam como cães, uma humanidade que só tem direito a ladrar quando lhe lembram que é feita de homens, a gemer quando apanha um vírus e a latir quando o senhor Corona, nosso rei, lhe vier dar uma lição como se dá a ração ou uma tareia. O mundo foi feito para se encolher, diz o rei Corona. Foi feito para que nos deitássemos. E se o sono tarda a vir, é preciso contar carneiros e dinheiros, se os tivermos, e, portanto, também de vírus.

Não é bela a vida?

Não temos tudo aquilo de que precisamos (os bens de primeira necessidade, mas também, no final de contas, o sexo, a imaginação, a morte) à distância de cliques e Netflixes? Olha! Cá está essa «net», que é o outro sentido de mundus

Esta é a lição do vírus.

Esta é a razão da minha fúria.

E é ainda a razão pela qual era preciso resistir, custasse o que custasse, a esse vento de loucura que sopra sobre o mundo.

[LÉVY, 2020: 99-102]

 



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

LÉVY, Bernard-Henri. Este vírus que nos enlouquece. Lisboa: Guerra e Paz, Editores, 2020, pp. 104. ISBN 978-989-702-563-1


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

MEDI(es)TAR


MEDI(es)TAR... E ANDAR EM SILÊNCIO

Pedro Cuiça © Plenilúnio Matinal  (Península de Lisboa, 16 de Outubro de 2019)

Há dias e dias. E por muito que possa parecer, sendo que na verdade não parece (e muito menos é), nem sempre são iguais. Tenho por hábito andar todas as manhãs no processo de mobilidade, digamos ecológico (?), que me conduz até ao local de trabalho, quando “estou de escritório”, e que consiste num sistema misto: comboio e locomoção bípede. Poderia utilizar o Metro ou outro meio de transporte, mas prefiro, regra geral, andar a pé.
Tal como no comboio aproveito geralmente para ler, sendo que há dias que não o faço (espraiando a vista sobre o Tejo ou entretendo-me na observação do entorno), também tenho por hábito empreender criativas e variadas caminhadas em Lisboa (a que carinhosamente apelido de Lisbon Walks, vá-se lá saber porquê!) que, para além de me conduzirem ao local de trabalho, constituem invariavelmente uma forma excepcional de descoberta e de ligação à cidade (e, curiosa e simultaneamente, a mim próprio). Ora hoje, para variar, quando saí do comboio continuei a leitura de um pequeno livro, que iniciei no começo da viagem, de olhos postos no mesmo (alheio à cidade), numa espécie de peripatético diálogo silencioso entre o autor e os pensamentos que a leitura me foi suscitando, passo-a-passo, num ritmo de marcha mais lento do que é costume. Sobre esta (ou nesta) espécie de “meditação silenciosa”, de hoje, destaco (melhor seria dizer, destaquei), para além do plenilúnio matinal que precedeu a leitura e as cogitações resultantes, o seguinte trecho:

«Se imaginarmos que a civilização sempre tentou que o ser humano fosse aliviado dos seus esforços físicos, é irónico que depois se sinta obrigado a fazê-los. Escrevi certa vez: «Passamos o tempo a criar coisas para não nos mexermos, carros para não termos de andar, controlos remotos para não nos levantarmos do sofá, e depois pagamos um ginásio. Pagamos porque criamos utensílios que nos permitem evitar actividades físicas. Usamos o elevador, vamos de carro para o trabalho, lugar onde, durante oito horas, suamos para não ter de fazer qualquer actividade física. E é exactamente por isso, devido a essa extrema sedentarização, que nos vemos obrigados a mexer-nos. Para isso, basta pagar por uma coisa que evitamos a todo o custo e pela qual trabalhamos tantas horas diárias durante tantos anos: esforço físico. Passar essas oito horas diárias num escritório acinzentado, sentados, e ainda pagar para fazer exercício físico é uma excelente parábola da vida moderna.»
O esforço físico é levado por vezes ao extremo e chega ao ponto de dar sentido à vida. Mostrar os abdómens definidos passou a ser uma maneira de vencer os defeitos da sedentarização. Mas nem tudo é mau na sedentarização, e o pensamento que, sem temperança, nos faz baloiçar entre um extremo e outro acaba por ser risível.
Imaginemos:
Para quem não gosta de correr e de um estilo de vida saudável, arranjei um espaço em que as pessoas não podem correr, não se podem deslocar senão devagar e não mais do que uns metros quadrados, só podem comer fast food e beber cerveja. Chama-se bar. Curiosamente é um lugar onde podem conversar, rir, namorar, enquanto outros suam, bebem água e usam roupas de licra.
Há lugares tão pouco saudáveis que podem fazer-nos sentar. Eu sei que muitos de nós passam parte da vida sentados. Mas isto é um sentar diferente, com qualidade. Essa qualidade vê-se simplesmente pelo facto de muitas vezes ser acompanhada por cerveja, amendoins, tremoços e uma boa conversa. Podia estar a correr? Podia. Mas sentado é mais fácil falar com a Maria João e apaixonar-me por ela e mais tarde viver com ela. Sei que poderemos um dia correr juntos, comer saladas de países exóticos, superfrutas, chia, trigo-sarraceno, bagas milagrosas, mas é sempre bom lembrar que essa vida saudável nasceu de uma vida muito pouco saudável: sentarmo-nos a conversar. Porque agora o que fazemos é, depois, de uma corrida, sentarmo-nos juntos a meditar em silêncio.» [CRUZ, 2019: 37-38]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CRUZ, Afonso. O macaco bêbedo foi à ópera. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019, pp. 80. ISBN978-989-8943-58-3

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Vem andar connosco


DR © Centro Desportivo Nacional do Jamor  (6 de Janeiro de 2019)

O programa Ande pela sua Saúde e pela Saúde do Planeta continua a promover passeios pedestres, neste novo ano, todos os domingos de manhã no Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ). Esta é uma iniciativa, gratuita e aberta a todos os interessados dos “8 aos 80”, que pretende implementar a prática regular de actividade física com base na caminhada integrada com outros exercícios light, designadamente através de banhos de floresta. Os benefícios para a saúde de uma prática regular de actividade física são comprovadamente inúmeros, ademais quando esta é efectuada ao ar livre e no seio da natureza.
Ande pela sua Saúde é um programa, coorganizado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), a não perder. Todas as actividades são devidamente enquadradas por detentores de Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III. O ponto de encontro é, às 9.30 a.m., junto da “parede de escalada” situada no Parque Urbano do Jamor (coordenadas UTM 29S 477682 4284222). É fundamental contrariar as estatísticas que colocam Portugal entre os 11 países mais sedentários do mundo! Domingo não fiques parado, vem andar connosco.



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

HOUVE UM DIA


© DR 

«HOUVE UM DIA em que a minha avó deixou de andar.
Nesse dia morreu. O seu corpo ainda viveu mais algum tempo, mas os novos joelhos, que por meio de uma cirurgia tinham substituído os antigos, estavam muito gastos e tornaram-se incapazes de transportar o corpo. O resto das forças que ainda tinha nos músculos foi desaparecendo devido aos dias passados na cama. O seu aparelho digestivo começou a falhar. A pulsação tornou-se mais baixa e irregular. Os pulmões absorveram cada vez menos oxigénio. Já perto do fim, arfava com falta de ar.
Por essa altura eu tinha as minhas duas filhas em casa. A mais nova, Solveig, tinha treze meses. Enquanto a sua bisavó se encolhia lentamente em posição fetal, Solveig decidiu que já era tempo de aprender a andar. De braços levantados por cima da cabeça e mãos agarradas aos meus dedos, conseguiu titubear pelo chão da sala de estar. De cada vez que soltava as mãos e tentava dar uns passos sozinha, descobria as diferenças entre o que está em cima e o que está em baixo. Quando tropeçava e batia com a testa no rebordo da mesa da sala, aprendia que certas coisas são duras e outras moles. Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida.
De braços estendidos, para manter o equilíbrio, Solveig em breve aprendeu a arte de caminhar pelo chão da sala. Estimulada pelo medo de cair, dava uns passinhos, num ritmo staccato. Ao observar as suas primeiras tentativas, surpreendeu-me a forma como afastava os pés. Como se quisesse agarrar-se ao chão. «O pé de uma criança ainda não sabe o que é um pé / e quer ser uma borboleta ou uma maçã», escreveu o poeta chileno Pablo Neruda no início do seu poema «Al pie desde su niño1».
(…) Quando a minha avó – eu chamava-lhe «mormor» – nasceu em Lillehammer, noventa e três anos antes de Solveig, a sua família dependia dos próprios pés como principal meio de transporte de um lugar para o outro. A mormor podia ir de comboio se quisesse viajar para muito longe, mas não tinha muitas razões para sair de Lillehammer. Em vez disso, o mundo é que chegava até ela. Durante a sua juventude pôde testemunhar a chegada de carros, bicicletas e aviões, produzidos em série, à sua província de Oppland. A mormor contou-me que o meu bisavô uma vez lhe pediu para o acompanhar até Mjösa, o maior lago da Noruega, para ambos poderem ver um avião. Ela contava essa história com tanto êxtase que parecia que acontecera na véspera. Os céus – de repente – tinham deixado de ser o reino exclusivo dos pássaros e dos anjos. [KAGGE, 2018: 15-18]» É desta forma que Erling Kagge inicia o seu novo livro, acabado de editar pela Quetzal, em Outubro de 2018, sobre A Arte de Caminhar.

© DR

HOUVE UM DIA em que a minha tia-avó Gertrudes também morreu quando, por ter partido uma perna, deixou de andar.  Apesar de ser uma anciã com uma idade muitíssimo respeitável, aparentava ser bem mais nova do que realmente era… Era uma rija e escorreita andarilha, e eu, invariavelmente, quando a ouvia subir a escadaria do prédio de vários andares, onde morava, diversas vezes todas as manhãs, não podia deixar de pensar que era uma atleta inveterada, tendo em conta o elevado ritmo da passada e a respiração acelerada! Era o que a mantinha viva: ir todos os dias a pé às compras ou efectuar outras tarefas para si e para as suas amigas idosas que, por dificuldades de mobilidade, não o podiam fazer com a regularidade desejada ou desejável. Por vezes, semanalmente ou mensalmente, também distribuía propaganda partidária ou o boletim do partido, numa área considerável, nos arredores de onde morava, sempre a pé. E, claro, além disso também se encarregava de toda a lida da casa…
O seu marido há muito que se sedentarizara, após a sua reforma, num dia-a-dia cercano e que invariavelmente passava por beber uns copos com os amigos. Quem notava agora a sua barriga proeminente não poderia adivinhar a sua anterior figura – alta, magra e espadaúda –, quando palmilhava o trajecto de onde morava até ao seu trabalho e respectivo regresso, numa distância diária superior a uma dezena de quilómetros. Também terá morrido quando deixou de andar a pé?... Será discutível tendo em conta que acompanhou a minha tia-avó durante bastantes anos na sua admirável e recorrente “alta pedalada”. Certo é que, após esta ter partido a perna, regressaram ambos à sua “terra natal” para, pouco depois, deixarem este mundo.


 © DR

HOUVE UM DIA em que eu andando, num percurso pedestre, na ilha de S. Jorge fui confrontado com o facto surpreendente de ter sido usual existirem pessoas que não tendo razões para saírem da fajã, onde sempre viveram e morreram, de lá nunca saíram. Se quisessem viajar para muito longe melhor seria fazê-lo de barco, numa ilha cujas dimensões, sendo certamente ignoradas, eram necessariamente ínfimas. Mas seria todavia expectável que tivessem a curiosidade de subirem fajã acima, a pé, para, que mais não fosse, alargarem os (vastos) horizontes sobre o mar circundante? Assim não era e não foi!…
Os meus tios-avós vieram para Lisboa, para ganhar a vida e muito andaram a pé nos seus trajectos urbanos do dia-a-dia, para um dia retornarem ao seu Além-Tejo a fim de morrer… A sua fajã terá sido em Serpa ou em Lisboa? A vida e a morte fazem parte de um mesmo ciclo perpétuo, uns param de andar para que outros o comecem a fazer e o que está em cima é como o que está em baixo. «Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida», mas deixar de andar é fatal!

© DR

HOUVE UM DIA em que senti saudades do passado e HOUVE UM DIA em que senti saudades do futuro. TEM DIAS! «O caminhar considerado como uma combinação de movimento, humildade, equilíbrio, curiosidade, cheiros, sons e luz e – se andarmos suficiente – um sentimento de desejo. Um sentimento de querermos alcançar uma coisa que procuramos, sem a encontrarmos. Na língua portuguesa existe uma palavra intraduzível para este desejo: saudade. Trata-se de uma palavra que engloba amor, dor e felicidade. Pode ser o pensamento de algo alegre que nos perturba ou de algo perturbador que nos traz plenitude. [KAGGE, 2018: 43]»




NOTA DO TRADUTOR
Poema de Pablo Neruda: «El pie del niño aún no sabe que es pie, / y quiere ser mariposa o manzana. / Pero luego los vidrios y las piedras, / las calles, las escaleras, / y los caminos de la tierra dura / van enseñando al pie que no puede volar, / que no puede ser fruto redondo en una rama. / El pie del niño entonces / fue derrotado, cayó / en la batalla []» [in KAGGE, 2018: 16]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KAGGE, Erling. A Arte de Caminhar – Um passo de cada vez. Lisboa: Quetzal, 2018, pp. 210. ISBN 978-989-722-519-2

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Transporte pedestre

«Na era pré-industrial, as pessoas viajavam sobretudo a pé - e isso mantinha-as em forma. Depois veio o poder do motor, e as pessoas tornaram-se preguiçosas. Andar a pé tornou-se no transporte de último recurso, uma "arte esquecida", nas palavras da Organização Mundial de Saúde.»
Carl Honoré (2006): O Movimento Slow; Estrela Polar

Pedro Cuiça © Pirenéus (França, 2005)

segunda-feira, 18 de junho de 2018

No LABoratório


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (17 de Junho de 2018)

Mais um domingo no LABoratório… O projecto Ande pela Sua Saúde e pela Saúde do Planeta passo a passo, no Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ), numa nova fase de desenvolvimento: no terreno, gratuito e aberto a todos; pela promoção e implementação de boas práticas de actividade física regular e integrada no dia-a-dia dos cidadãos em geral.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do (c)A(r)mando III


PC © 


Só mais uma palavra sobre o que se seguirá. Muito do que ficará dito resulta de um pensamento sempre em busca da experiência, naquele sentido de filosofia operativa que tem sido explicado por António Telmo desde a sua ARTE POÉTICA. O leitor tirará mais proveito deste livro se o ler pensando nele como o de uma filosofia poética, lembrando-se que o termo poesia deriva do grego poieín, acção, mas de uma acção que deve partir de uma mutação interior. O único interesse que o livro pode ter está na inquietação com que foi escrito. As contradições que se possa encontrar e que não rejeito advêm dessa mesma inquietação, que é, como se sabe, desde Álvaro Ribeiro, o gesto de uma alma que está em movimento, em demanda.
[SINDE, 2005: 15-16]

PC ©

O primeiro passo, na perspectiva ocidental, é a alma descobrir em si a causa da sua ignorância.
(…) Há quem adie, constantemente esta metanóia para o pós-morte, mas nós já estamos mortos, já estamos para onde nos queremos encaminhar; já estamos e não estamos. A morte é já aqui; é, por isso, já aqui que a obra começa – aliás, a obra já começou e estamos a perder tempo sempre que ficamos prostrados no marasmo da ignorância, no paralisante spleen que [Sampaio] Bruno tão bem descreve. Já estamos no transcendente porque algo em nós nunca de lá saiu, nunca o esqueceu e, por isso, não o ignora. Se não fosse essa raiz no alto não haveria forma de regresso. A cisão é extrema mas não é radical, porque algo em nós, último Satã, aspira ao regresso.
A sensação de Presença, de que tratarei mais à frente, traz consigo a certeza de que estamos já no transcendente. A vida, isto é, o viver, é já transcendente. Todavia vivemos como se: como se estivessemos separados, como se fôssemos autónomos; e, no entanto, de algum modo, estamos e somos.
Os nossos clássicos são ainda o ponto em que podemos encontrar a cura:

Planta sois e caminheira
Que, ainda que estais, vos is
Donde viestes.

Assim diz o mestre Gil Vicente, no AUTO DA ALMA, e continua por este modo:

Vossa pátria verdadeira
He ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida.
Não durmaes;
Hum ponto não esteis parada,
Que a jornada he fenecida,
Se atentaes.

A alma, para Gil Vicente, tem a sua origem no outro mundo e vem a este para dar celestes flores:

Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes treposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas

(…) Se a alma é uma planta, o caminho da regeneração, da demanda da vida nova, é o que deve percorrer o neófito, que etimologicamente significa “nova planta”. Mas exploremos esta metáfora e vejamos até onde nos leva. Todas as plantas têm raízes, que correspondem a dois tipos de alimento: uma raiz alimenta-se da humidade da treva, do mineral e a outra da luz do céu; só por distracção chamamos ramos às raízes do alto. É do encontro das duas raízes que nascem a flor e o fruto. A planta realiza-se, como uma sizígia, no seu duplo enraizamento, a sua realização é a flor e o fruto, a semente que perpetua a cadeia áurea das plantas. Nesta reunião dos dois tipos de alimentos a planta aproxima o céu da terra e a terra do céu, realiza uma obra de criação pela transmutação do mineral escuro e disforme e do inefável invisível da luz informe na forma maravilhosa da flor.
O homem é também essa dupla raiz mas, ao contrário da planta, tem uma raiz visível na terra e a invisível no céu. E é também do encontro de uma com a outra que ele se realiza – nem só terra, nem só céu, porque o homem tem uma missão criadora a realizar aqui (…). A sua missão é a de aproximar a terra, subtilizando-a, do céu.
[SINDE, 2005: 27-29]


A caminhada faz-se desde o corpo até ao espírito a partir da alma. A “chegada” ao espírito implica a simultânea descida. O corpo subtiliza-se, torna-se anímico e a alma espiritualiza-se.
(…) O corpo é o nosso ponto de apoio, o local a partir do qual iniciamos, se iniciarmos, um processo de ascensão ou iluminação, apenas porque é o lugar de alma que nos foi dado habitar sensivelmente. A sensação de presença pode ter portanto no estado de corporeidade o ponto de apoio, mas aquilo que a alma sente na presença não é o corpo, a alma sente-se a si mesma no estado corpóreo e é por esta razão que lhe pode servir de apoio; por outras palavras, este estado é contido pela alma, é o seu lugar no mundo sensível, terá outro no estado psíquico e outro ainda no estado noético. É possível a convergência dos três estados num só lugar e este parece ser o fim do processo gnósico que avança acrescentando algo que não havia, quer dizer, do corpo ao espírito não se pode perder o corpo, há que ganhar o espírito. Assim também para a percepção sensível que deve sair enriquecida pela percepção animada, não se perde nada na passagem de uma a outra, pelo contrário, a percepção sensível é amplificada em profundidade pelo elemento anímico.
Um primeiro momento de sensação de presença no corpo é iluminador de quanto ele é imenso, ou melhor, da dimensão da alma, porque ele serve-lhe de espelho; se vivido por dentro, vem a ser percebido como algo de vasto e subtil, tem alguma coisa de mágico. A melhor expressão para dizer esta sensação, encontrei-a em António Telmo: o corpo é uma imagem animada.
(…) Passa em nós essa corrente da vida que é viriditas, na excelente expressão de Hidelgarda de Bigen. Todavia, esta força verde, reverdescente e ressuscitante, é também destruidora; é como um fogo que ilumina e para tal desfaz em cinza toda a matéria perecível em que se apoia. Não é casual que o radical etimológico do termo vegetal seja fogo, como o de animal seja ar1.
A presença no corpo é precisamente a deslocação da nossa atenção, da nossa identificação com o elemento ígneo que arde em nós, que nos transmuta necessariamente. A velhice tem já algo de secura porque todo o elemento húmido evaporou – é o equivalente antropológico do Outono, que chega depois do fogo e do calor do Verão intenso terem consumido a humidade. O cheiro doce da decomposição outonal é já o indicador de que a vida que esteve nas folhas se subtilizou, se retirou, se tornou “aérea”, manifestando a sua presença no ar, o equivalente antropológico do odor de santidade.
[SINDE, 2005: 34-35]


NOTAS Pedestris
1- E o homem seja terra: o étimo de humano em latim é humus (terra), tal como se verifica um parentesco entre a palavra hebraica  adam (homem) e adamah (terra). Todavia o ser humano é constituído por mais de 70% de água, anima-o um fogo interior e não vive sem ar.
· O destaque de palavras a negrito (bold) é de nossa “autoria”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SINDE, Pedro. Terra Lúcida – A intimidade do Homem com a Natureza. Matosinhos: Publicações Pena Perfeita, 2005, pp. 160. ISBN 972-8925-05-0



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