sexta-feira, 19 de junho de 2020

The the

Pedro Cuiça © PICO – Ilha do Pico, Açores (2016)

Stable as a Mountain,
free as the Wind.
empty as the Blue Sky.

Hogên Yamahata


Pedro Silva © Gruta das Torres – Ilha do Pico, Açores (2020)

domingo, 7 de junho de 2020

Our Way...

ORBIT

One foot on the pavement and one foot in the milky way
And I'm soaring
Soaring
My branches scrape the sea of stars
My roots dig deep into this world of ours
And I'm grounded
Grounded
My reality is what I perceive
What I attract into my orbit
Worries fade into the haze
The air feels different this time 'round
Different this time 'round
Let's set sail
Start a fire
Learn to live a little higher
Let's pick the lock
Grab the reigns
Forget there ever were chains
'Cause there never were chains
Days move on and times they change
In a blink of an eye things rearrange
We're moving
Moving
We're sucked in and we're spat out
On the other side of the rabbit hole
But we find our way
Find our way
Do you want to be just a machine in this crazy society?
Pick the lock
Grab the reigns
Forget there ever were chains
'Cause there never were chains

Alice Phoebe Lou




D'o Espírito


Na sequência de dois posts anteriores, publico na integra a segunda parte – D’o  Espírito – da palestra Espírito Santo: O Tempo dos Lírios, que apresentei, a 31 de Maio – Domingo de Pentecostes –, no webinar O Espírito e a Terra, organizado pelo colectivo Irmânia. Hoje, precisamente passados sete dias, neste que é o Domingo da Santíssima Trindade...



Pedro Cuiça © FOGO – Floresta Negra, Alemanha (2019)

«O vento sopra onde quer;
ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai.
Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.»

São João in Novo Testamento
(Jo. 3-8) [AA.VV., 1975: 331]

As Festas do Divino Espírito Santo, que culminam no dia de Pentecostes, apresentam uma notável expressão, ainda hoje, nos Açores e noutras paragens da geografia mundial10. Aí celebra-se a libertação dos prisioneiros, o bodo gratuito e a coroação do Imperador-menino. Aí celebra-se, a liberdade, a partilha e a vida plena, «o princípio de toda a acção vital e verdadeiramente salvífica» (HENRIQUES, 1996: 16).
No dia de Pentecostes foi quando os Apóstolos de Jesus viram, nas palavras de João Evangelista, «aparecer umas línguas à maneira de fogo, que se iam dividindo e poisou uma sobre cada um deles» (Act. 2: 3) (AA.VV., 1975, 415). Fenómeno antecedido por «um som comparável ao de forte rajada de vento» (Act. 2: 2) (ibidem) e de que resultou terem eles ficado «cheios de Espírito Santo» e começarem «a falar outras línguas» (Act. 2: 4) (ibidem). Ficaram, certamente, inspirados…
Um episódio precedente, mas igualmente marcante, associado ao Paracleto, refere-se ao testemunho de João, desta feita o Baptista, responsável por «baptizar em água» Jesus, sobre a visão do «Espírito Santo a descer do Céu como uma pomba» (Jo. 1:32-34) (ibidem: 326). A associação do Espírito Santo ao vento e ao “dom da fala” (tal como à simbologia do fogo e da água) merece uma especial atenção11. Desde logo no que concerne a segunda frase da Bíblia, mais precisamente do Génesis, sobre a criação do mundo, que surge traduzida de duas formas aparentemente distintas consoante as edições: «o Espírito de Deus movia-se sobre as águas» (AA.VV., 1988: 25) ou «um vento impetuoso soprava sobre as águas» (AA.VV., 1996: 12).  Como tantas outras línguas antigas e tribais, o hebraico tem uma única palavra para designar “espírito” e “vento” – a palavra ruah – e é por isso que existem essas duas traduções (CRUZ, 2019: 65). Salienta-se igualmente, neste contexto, a notável similitude da narrativa dos ameríndios diné (vulgo navajo) acerca da criação do mundo: «O Vento existiu primeiro… e quando a Terra começou a sua existência, o Vento tomou conta dela» (ABRAM, 2007: 245).
Para a Nação Lakota, o aspecto mais sagrado do Grande Mistério (Wakan Tanka) (NEIHARDT, 2000: 21; EASTMAN, 2006: 28; ABRAM, 2007: 234) é Taku Škanš (o Céu envolvente) (ABRAM, 2007: 234). Conhecido dos Homens-Medicina simplesmente como Škan, é considerado como estando em toda a parte e é o responsável por dar a vida, movimento e pensamento a todas as coisas (ibidem). É esta divindade, apenas visível para nós como o azul do céu, que os lakota contemporâneos invocam amiudadas vezes, em inglês, como Great Spirit (Grande Espírito). Tah-dei – o Vento – é criado por Škan. Tah-dei e Škan (Vento e Céu) são, por vezes, referidos como a mesma entidade (ibidem). Ambos remetem para o ar enquanto arquétipo daquilo que é inefável, indizível e incognoscível, mas, mesmo que oculto, inegavelmente manifesto e até nominável: seja Grande Espírito, Espírito do Mundo ou Espírito Santo, entre outras designações.
Pelo exposto, é difícil evitar a conclusão de que, para as antigas culturas mediterrânicas o ar foi, não menos do que para os diné e os lakota, uma presença sagrada, sentida como aquilo que juntava invisivelmente todos os seres humanos e não-humanos: animais, plantas e até rios ou montanhas (ibidem: 244). O reconhecimento do ar, do vento e da respiração, como aspectos de um poder singularmente sagrado, esteve generalizado a muitos povos do mundo.
Destaca-se também a íntima relação entre a respiração e a fala. A “língua” não é uma gramática (de gramma techne: “rabiscos entrançados”), é um sopro de ar (SNYDER, 2018: 95). Distinção já assinalada pelo linguístico suíço Ferdinand de Saussure (no séc. XIX), e que tanto intrigou Merleau-Ponty, entre la parole (o acto concreto da fala) e la langue (enquanto sistema de regras terminológicas, sintácticas e semânticas) (ABRAM, 2007: 85). Embora os humanos sejam seres biológicos pautados pelas leis da natureza, a fala libertou-lhes a mente dos limites do seu cérebro material, permitindo-lhes transcender o tempo e o espaço para explorar o mundo imaterial dos pensamentos e das emoções (FANU, 2008: 74). O conceito diné de nilch’i (o Vento Sagrado), que envolve a “consciência do ar”, é disso exemplo ao remeter, numa abrangente concepção holística, para a intuição de que a psique não se trata de algo imaterial que reside apenas dentro de nós, mas que partilhamos com o meio invisível em que estamos mergulhados12. Concepção que nos lembra o inconsciente colectivo de Jung.
O enigma da evolução do Homo é saber como um conjunto de transformações evolutivas conduziram a um cérebro com poderes mentais tão poderosos como a capacidade de criar arte rupestre com mestria ou dominar uma complexa linguagem verbal. Será aqui que entra o Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade onde reside o domínio do inesperado e da plena liberdade? No começo do mundo «o Espírito de Deus movia-se sobre as águas» (Génesis 1) (AA.VV., 1988: 25) e «já existia o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deu(Jo. 1:1) (AA.VV., 1975, 322). E é este o verdadeiro enigma não visível – do sopro vital – e o verdadeiro mistério13 que permite que a vida viva. A presença sublime que se poderá traduzir, na expressão do teólogo alemão Rudolph Otto, como o «misterium tremedum et fascinans»: algo tremendamente espantoso e, simultaneamente, fascinante. «Tudo quanto é do domínio do mistério, não é possível mostrar sem ocultar» (TELMO, 2014: 16) e o Espírito Santo está nestas circunstâncias.



sábado, 6 de junho de 2020

Hózhó


Hózhó: The Beauty Way

Navajo Way
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Pedro Cuiça © TERRA - Grand Canyon, Arizona, USA (2015)

May the sun bring you new energy by day,
May the moon softly restore you by night,
May the rain wash away your worries,
May the breeze blow new strength into your being,
May you walk gently through the world
and know it’s beauty all the days of your life.

Apache Blessings


Pedro Cuiça © TERRA - Serra Algarvia, Portugal (2012)



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NOTA: A terra ou o pó surge como princípio de modelação, tanto dos seres humanos como dos não humanos, ligando todos os seres vivos numa identidade primeva. Destaca-se, nessa matéria, o parentesco linguístico do termo hebraico “adam” (Adão), que significa “homem”, e o termo “adamah”, que significa “terra”; equivalente ao que se verifica entre “humano” e o vocábulo latino “humus”: terra (VARANDAS, 2009: 18).

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Full Moon

Today is a good day and a better night...


D'o Tempo



Na sequência do post anterior, publico na integra a terceira parte – D’o Tempo – da palestra Espírito Santo: O Tempo dos Lírios, que apresentei, a 31 de Maio – Domingo de Pentecostes –, no webinar O Espírito e a Terra, organizado pelo colectivo Irmânia.


Pedro Cuiça © ÁGUA – Colóquio Internacional Mãe Terra
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (15 de Maio de 2018)



«Ainda que as sombrias máquinas estejam a funcionar
Não se atemorize demasiado, amigo…
(…)
Quando os pedantes chamaram a nossa atenção
Para a fria mecânica com que os acontecimentos
Se viriam a desenrolar, as nossas almas disseram em surdina:
É possível, mas existem outras coisas…»

Prefácio ao Napoleão de Nothing Hill de Chesterton (1898) 
in O Despertar dos Mágicos
(PAUWELLS & BERGIER, 2008: 251)

Existe uma flor extremamente resiliente e bela que se chama Myosotis maritima: é endémica dos Açores e surge em comunidades costeiras esparsas, habitualmente nas arribas abaixo dos 50 metros de altitude. O seu nome vulgar é “Não-me-esqueças”. Habituei-me a ver qualquer coisa para além da sua singela aparência e das colorações contrastantes com as negras rochas onde se encontra. Não num simples olhar profano mas num esforço de ver o divinal, na poética do momento (multi)temporal, como que a querer arrancar-lhe os segredos da criação. Algo expresso de forma magistral no versejar de Frei Agostinho da Cruz: «Assi com cousas mudas conversando,/Com mais quietação delas aprendo/Que de outras que ensinar querem falando.» (LIMA, s/d.: 104)
A sensibilidade dos franciscanos, antecessores de Frei Agostinho da Cruz, promoveu, desde o século XIII, uma pioneira e revolucionária (de re-volare: voltar a voar) reintegração na natureza, a que não será estranha a importância dessa Ordem na difusão do pensamento de Joaquim de Flora14 (HENRIQUES, 1996: 17). A ideia profética do abade calabrês – tão cara a Luís Vaz de Camões, padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva – da Terceira Idade do Mundo ou do Império (quinto) do Espírito Santo15, deu azo a uma religiosidade vocacionada para a aceitação do mistério e não para os «catecismos ou credos» (GRAY, 2008: 275), aberta ao incompreensível, ao inesperado e ao maravilhoso. Designadamente ao maravilhamento face à natureza…
Para os portugueses, essa evocação da era do Espírito Santo acalentava a libertação e uma notória apetência para se impregnarem de/na natureza. O sentimento panteísta da natureza viva, de que tudo na natureza está animado, imbuído de uma fraternidade cósmica entre os seus componentes, reflexo profundo e primevo do inconsciente colectivo, revela a vocação mística dos portugueses que se traduziu até há bem pouco tempo (século XIX ou XX?) nas fontes santas, nos penedos da fertilidade ou nas mouras encantadas. É neste contexto que se torna manifesta, nesta actualidade pós-moderna, não só a premência da defesa das plantas e dos animais, dos rios e das pedras, mas também e sobretudo a promoção da vivência original (aquela que remonta às origens) do tempo mítico e do espaço sagrado. Dimensão psíquica da natureza ao estilo nilch’i (o Vento Sagrado) dos diné? Fernando Pessoa chamar-lhe-ia “transcendentalismo panteísta”, outros falariam de “panteísmo saudosista”, “naturalismo religioso” ou “religiosidade naturalista”.  Pouco importam as denominações, essa apetência crístico-pagã, bem mais antiga do que o franciscanismo, subsistiu até hoje, numa resiliência admirável e apesar de o Espírito Santo, que os joaquimitas aguardavam para breve, aparentemente não ter chegado!
Não há tempo, nem espaço, para abordarmos as importantes mudanças conceptuais que surgiram, mormente decorrentes do romantismo, do transcendentalismo de Concord, da ética da Terra – de Aldo Leopold – ou da ecologia profunda e da consequente ecosofia – de Arne Naess –, e que terão desembocado, curiosamente, na designada “Nova Era”. A New Age (termo cunhado nos anos 60 do século XX) (SANTOS, 2002: 151), esse caldeirão onde medra todo o tipo de abordagens ditas “holísticas”, “terapêuticas”, “espirituais”, “místicas”, “gnósticas” e/ou “esotéricas”, desde a mesa radiónica à meditação das rosas, do karma à leitura da aura, dos extraterrestres ao despertar galáctico, taças tibetanas, reiki, channeling, xamanismo de salão, biofeedback e geobiologia, entre outras extravagâncias. A extravagância, o insólito e o inesperado, o sincrético, o eclético e o heteróclito, que caracterizam esta Nova Idade, bem podem estar associados à anunciada Idade do Espírito Santo. Contudo, há que «não confundir a obra prima com a prima do mestre de obras»: a liberdade não é limitadora, a gratuitidade não é negócio (nas festas do Divino Espirito Santo “não há almoços grátis”, há banquetes), a simplicidade não é superficialidade kitsh, muito menos é trapaceira (trickster), e, muitíssimo importante, a natureza não é artificial (o sujeito não é objecto).
O misticismo pampsiquista e panteísta, antecipado por Antero de Quental, e particularmente e-vidente em poetas como Junqueiro e Pascoaes (SILVA, 2000: 94), (re)centra-nos no poético desiderato demandador do Espírito Santo através da natureza. Como referiu esse Grande Colosso que foi Agostinho da Silva: «estamos tão afastados do natural como do sobrenatural, quando estes deviam ser os pontos centrais da nossa existência: plenamente [sobre]vivemos no artificial» (SILVA, 1990: 69).  Para que o homem possa sair da abjecção em que se (des)encontra deve reatar a primordial e eterna aliança com a Mãe-Terra, através de um mergulho profundo na (sua) natureza e, se possível, numa imersão, à John Muir, nos lugares selvagens (wilderness) (DEVALL & SESSIONS, 2004: 135). Não se trata, todavia, este tropismo holístico, ao encontro da natureza, de um regresso, por recuo, mas de um avanço, por transcendência, a uma renaturalização (rewilding) futurista porque voltada para o futuro (MONBIOT, 2014: 10). Ademais, quando o pouco que se sabe ser o presente é já ele ser o futuro (PESSOA, 1986: 158). E o «futuro é sermos tudo» (ANES, 2004: 138).
Ainda existem locais que podem ser legitimamente denominados “ambientes naturais” (WILSON, 2007: 29), mas estão em vias de extinção! Bialowiezca Puszcza, entre as fronteiras da Polónia e da Bielorússia, contém o último fragmento que resta da floresta europeia primordial: “puszcza” significa “floresta primitiva” (WEISMAN, 2008: 21). A fragância que se escapa das folhas e ervas apodrecidas acumuladas durante milénios evoca as próprias origens da fertilidade (ibidem).  Mas ainda existem locais onde é possível descortinar um subtil odor a Paraíso, designadamente em áreas cuja convivência milenar entre o homem e o meio se fez sentir de forma harmoniosa, como é o caso do Convento dos (franciscanos) Capuchos em Sintra... Ou locais de esperança como Mon(te)santo, essa ilha florestada, rodeada pelo urbanismo da Grande Lisboa, que é a prova provada de que é possível renaturalizar.
Vivemos, sem dúvida, um tempo de transição e de excepção, sente-se dans l’aire du temps. É, sem dúvida, chegada a hora; talvez amanhã já seja tarde. É a hora de empreender a pacifista “guerra santa” do espírito (Lima de Freitas in DURAN, 1997: 15), do espírito do(s) lugar(es), do Grande Espírito, do Espírito Santo. É o tempo de evocações à Terra (DEVALL & SESSIONS, 2004: 118), de canções e danças de poder, de lançar a voz do tambor como oferenda ao Espírito do Mundo (NEIHARDT, 2000: 198). De ser poeta, de acção directa, como os diné, dizendo os nomes da terra, «porque esses nomes são bons de dizer» e, dessa forma, cavalgar no espírito (ABRAM, 2007: 159), pela paz e pelo bem de todos, humanos e não humanos, pela Mãe-Terra. É o tempo de meditar e de orar por Gaia16: a Terra viva e vivificante.
É também o tempo da coragem, da liberdade na renúncia e do sacrifício (o sacro ofício) de cada um se cumprir, ao exemplo de gigantes da cepa de Agostinho da Silva17 ou de Jaime Cortesão18. Lembremos que este, na sua intrépida maneira de viver e de morrer (faleceu em 1960), foi a enterrar, a seu pedido, descalço e com o hábito de irmão franciscano leigo, numa última expressão de amor a um ideal que sempre defendeu (SILVA, 2000: 35).
A tradição simbólica de Joaquim de Flora, e também de Jakob Böehme, vê no lírio a promessa da vinda do Lilienzeit, o Tempo dos Lírios, paraclético, que sucederá ao tempo crístico das rosas e ao tempo da “ira” paterna dos «espinhos e ervas daninhas» (DURAND, 2008: 94). O tempo dos lírios já chegou! Na verdade, sempre aqui esteve porque o Espírito Santo nunca nos abandonou. Nós é que temos de ir ao seu encontro. Tal como o singelo Myosotis, não o devemos esquecer.
Pedro Cuiça
Domingo de Pentecostes · 31 de Maio de 2020 · webinar Irmânia





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É (d)o tempo...




O Dia Mundial do Ambiente foi criado, a 5 de Junho de 1972, durante a Conferência das Nações Unidas de Estocolmo. Essa foi a primeira vez que o ambiente foi tema de uma Conferência das Nações Unidas: a depleção dos recursos naturais, a poluição e a explosão demográfica já constituíam problemas demasiadamente graves para serem ignorados. O designado “Clube de Roma”, já em 1968, tinha colocado em causa Os Limites do Crescimento, numa obra que se tornou mundialmente famosa… Daí até hoje, meio século passado (!); temos vindo a assistir ao agravamento das condições ambientais, a nível global e local, com as alterações climáticas e a biodiversidade a ocupar a agenda dos media, a par dos plásticos nos oceanos (e por toda a parte) ou dos agroquímicos, entre  outras graves maleitas.
Sim, Gaia – a Terra-Mãe – está doente e, obviamente, “o mal” não é de agora. Também foi criado um Dia da Terra, celebrado a 22 de Abril (desde 1970). Hoje há dias para tudo, quando paradoxalmente de pouco ou nada servem! E, de boas intenções (para não falar das más!) está o Inferno cheio!!! Chega de branqueamentos e encobrimentos (greenwaching): quando o dogma do crescimento ilimitado era um tabu inquestionável foi preciso vir um vírus para pôr travão a fundo na economia e baixar os níveis de poluição atmosférica a valores que não se viam há décadas. De resto, a preocupação generalizada é pôr “pé-a-fundo” no acelerador da economia, com vista a um rápido retorno à “normose” do crescimento infinito… Como se tal fosse possível!!!
É tempo de agir – de acção directa – mas sob renovadas formas. Nesse contexto, deixo aqui um trecho da palestra Espírito Santo: O Tempo dos Lírios, que apresentei, a 31 de Maio – Domingo de Pentecostes –, no webinar O Espírito e a Terra, organizado pelo colectivo Irmânia.



(…) De acordo com o registo arqueológico, afastámo-nos (ou fomos separados?) da natureza, há cerca de 10 mil anos, com o início da civilização8. A revolução neolítica, decorrente da invenção da agricultura e da pastorícia, baseou-se na exploração da natureza, sob o pressuposto de que um diminuto conjunto de monoculturas e de animais domesticados poderia suportar um próspero e virtualmente infinito crescimento9 (WILSON, 2007: 21). Assim se iniciou o equivocado dogma do crescimento económico ilimitado! Assim a florescente e produtiva Mesopotâmia, situada no Crescente Fértil, entre os rios Tigre e Eufrates, se converteu numa região desolada devido à sobre-exploração dos “recursos” naturais (PONTING, 1992: 112).
A revolução industrial, que despoletou no terminus do século XVIII, traiu a natureza pela segunda vez com o desenvolvimento de maquinaria e de transportes motorizados, alimentados por combustíveis fósseis, o que originou um gigantesco e “imparável” crescimento da produção e da poluição, da população e do consumo. O dogma do crescimento ilimitado saiu, curiosamente, reforçado!! A depleção da natureza globalizou-se de forma brutal, a par dos poluentes e das alterações climáticas.
Entretanto a actual revolução técnico-científica, do século XXI, com base nas tecnologias da informação e comunicação, atraiçoou a natureza pela terceira vez, ao fomentar a convicção de que «os casulos de vida material urbana e suburbana são suficientes para a realização humana» (WILSON, 2007: 22). Situação catalisada pela pandemia de COVID-19, no âmbito do confinamento domiciliário de grande parte da população, a nível global, que abriu espaço a novos patamares de alienação e escravidão (in)voluntária ao estilo huxleyano do Admirável Mundo Novo. A natureza humana é, todavia, mais poderosa – porque ancestral, arquetípica e profunda – do que qualquer artifício material da vigente (mono)cultura globalista. «Não está na natureza dos seres humanos serem frangos em esplêndidos aviários.» (ibidem: 23). Nem está, decerto, na natureza dos frangos!
É neste contexto, com laivos apocalípticos, que surgem renovadas e fortificadas saudades do futuro, um futuro Paraíso terrestre: «de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra» ao invés da formiga, do imperador com «características infantis de atenção contínua, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho» (SILVA, 1989: 23-24). Mesmo que não se tenha «prova nenhuma de que seja possível algum dia readquirirmos [a] nossa infância», segundo Agostinho da Silva: «puro artigo de Fé do nosso povo».  Fé do nosso povo, dele, Agostinho da Silva, e minha, se digno. Fé no Espírito Santo.

Pedro Cuiça
Domingo de Pentecostes · 31 de Maio de 2020 · webinar Irmânia