terça-feira, 12 de setembro de 2023

Saudação




«O chão onde me sento com a Avó Sitka está coberto por uma camada profunda de caruma, amaciado por anos de húmus; as árvores são tão velhas que a minha vida comparada com a sua tem uma mera duração do canto de uma ave. Desconfio que Nanabozho caminhou como eu caminho, com assombro, de olhos erguidos para as árvores com tanta frequência que tropeço.

O Criador confiou a Nanabozho algumas tarefas no seu papel de Homem Original, as suas Instruções Originais. O ancião anishinaabe Eddie Benton-Banai narra de uma forma encantadora a história da primeira missão de Nanabozho: caminhar pelo mundo a que a Mulher do Céu tinha dado vida com a sua dança. As suas instruções ordenavam-lhe que caminhasse de tal forma «que cada passo fosse uma saudação à Mãe-Terra», mas ele ainda não tinha bem a certeza do que isso significasse. Felizmente, embora as suas pegadas fossem as do Primeiro Homem sobre a Terra, havia muitos caminhos a seguir, traçados por todos aqueles que já aqui viviam.

Poderíamos dizer que o tempo em que as Instruções Originais foram transmitidas que foi «há muito tempo» pois, na forma popular de pensar, a história traça uma «cronologia», como se o tempo marchasse em sintonia numa só direção. Há quem diga que o tempo é um rio no qual só podemos entrar uma vez, no seu curso direto para o mar. Mas o povo de Nanabozho sabe que o tempo é um círculo. O tempo não é um rio que corre inexoravelmente em direção ao mar, mas sim o próprio mar, as suas marés que fluem e refluem, o nevoeiro que se eleva para se transformar em chuva num rio diferente. Todas as coisas que existiram voltarão.

À maneira do tempo linear, as histórias de Nanabozho poderão ser entendidas como uma lenda mítica da história, um relato do passado longínquo e de como as coisas nasceram. Mas no tempo circular, estas histórias são simultaneamente história e profecia, histórias para um tempo ainda por vir. Se o tempo é um círculo de viragem, há um lugar onde a história e a profecia convergem – as pegadas do Primeiro Homem encontram-se no caminho atrás de nós e no caminho à nossa frente.

[KIMMERER, 2023: 210-211]

 



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

KIMMERER, Robin Wall. 2023. A Sabedoria da Terra – Como a natureza, a ciência e o conhecimento ancestral nos ensinam a tratar a terra com respeito. Barcarena: Marcador.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Mais um passo

 

E com o percurso pedestre do domingo passado (3 de Setembro), encerrámos os trabalhos de campo da dissertação de mestrado sobre conexão à natureza e bem-estar em caminhadas. Obrigado, mais uma vez, a todos os participantes. A vossa colaboração foi imprescindível. Valeu.

PC © Monsanto (3 de Setembro de 2023)