Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)
«Para
encontrar a minha imagem na verónica que o instante, como um toureiro, colhe.»
Júlio Pomar in
Da
Cegueira dos Pintores (1986: 24)
A Vida Errante
«Tu, nullis angustiis coercitus, pro tuo arbitrio, in cuiús manu te
posui, tibi illam praefinies.»
(Mas tu, que não
conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei,
te defines a ti próprio.)
Pico de Mirândola (Oratio
de Hominis Dignitate)
Enquanto viajava, assaltou-me uma ideia: à força de
rondar pelos caminhos do espaço, de saber, Aqui, que Acolá me esperava, se bem
que ainda encontrasse distante, decidi, à minha maneira, aventurar-me pelos caminhos
do tempo. Acabar com o fosso que existe entre o vaticínio categórico do
calculador de eclipses e o diagnóstico já mais titubeante do médico,
arriscar-me, com a máxima precaução, a escorar uma mediante a outra, a
premonição e a conjectura, traçar, nesse continente que ainda não atingimos, a
carta dos oceanos e a das terras já imersas… É esta tentativa que me põe
exausto.
[YOURCENAR, 2009: 129]
Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Mar. 2016)
A Vida Imóvel
«Obscurum per
obscurius
Ignotum
per ignotius.»
(Buscar o obscuro e o desconhecido
Através do que ainda é mais obscuro e desconhecido.)
Divisa Alquímica
SOLVE ET COAGULA… Ele
sabia o que significava essa ruptura das ideias, esse vácuo no seio das coisas.
Jovem clérigo, lera Nicolau Flamel, a descrição do opus nigrum, essa tentativa de calcinação e dissolução das formas,
que é a parte mais difícil da Grande Obra. Dom Blas de Vela muitas vezes lhe
afirmara solenemente que a operação se realizaria por si mesma, quer se
quisesse quer não, quando todas as condições se cumprissem. O clérigo avidamente
meditara naqueles adágios que lhe pareciam tirados de não se sabe que estranho
ou talvez verídico engrimanço. Essa separação alquímica, tão perigosa que os
filósofos herméticos só se lhe referiam por meias palavras, tão árdua que
muitas vidas se haviam gasto em vão para a conseguir, tinha-a ele antigamente
tomado por uma fácil rebelião. Rejeitando, depois, esses desconexos devaneios
tão velhos como a ilusão humana, não guardando de seus mestres alquimistas mais
do que algumas receitas pragmáticas, optara por dissolver e coagular a matéria
no sentido de uma experimentação operada no corpo das coisas. Doravante,
convergiam os dois ramos da parábola; cumprira-se a mors philosophica: o operador, queimado pelos ácidos da
experiência, era, a um tempo, sujeito e objecto, frágil alambique e negro
precipitado no fundo do receptáculo. A experiência, que se julgara poder
confinar à oficina, estendera-se a tudo. Poder-se-ia daí concluir que as fases
subsequentes da aventura alquímica fossem algo mais do que sonho e que também
ele viria alguma vez a conhecer a pureza ascética da Obra ao Branco, seguida do
triunfo conjugado do espírito e dos sentidos, que é característica da Obra ao
Rubro? Do mais fundo da brecha nascia uma Quimera. Dizia Sim por audácia, da
mesma forma que também por audácia outrora dissera Não. Estacava, de súbito,
puxando violentamente as rédeas de si mesmo. A primeira fase da Obra
exigira-lhe a vida inteira. Faltavam-lhe tempo e forças para poder ir mais
longe, isto admitindo que houvesse
realmente um caminho e que, por esse caminho, um homem pudesse passar.
[YOURCENAR, 2009:
185]
A demanda do espírito
processava-se em círculo. Dantes, em Basileia, e em vários outros lugares,
passara por idêntica escuridão. As mesmas verdades haviam sido reaprendidas
várias vezes. Mas a experiência era cumulativa: o passo, com o tempo,
tornava-se cada vez mais seguro; o olhar ganhava maior alcance no meio de
certas trevas; o espírito constava, pelo menos, certas e determinadas leis.
Como um homem que sobe, ou quiçá desce a falda de uma montanha, assim ele se
elevava ou se enterrava sem sair do mesmo sítio; pelo menos, em cada curva, um
novo abismo se erguia, ora à direita, ora à esquerda. A ascensão só podia
medir-se pelo ar que ia rareando e pelos diferentes cumes que apontavam por
detrás daqueles que já pareciam haver ocultado o horizonte. Era, porém, falsa a
noção de ascensão ou de descida: os astros tanto brilhavam em cima como em
baixo; e ele tanto se achava no fundo do abismo como no centro. O abismo
estava, ao mesmo tempo, para além da esfera celeste e no interior da cúpula
óssea. Tudo parecia processar-se no extremo limite de uma série infinita de
curvas fechadas.
[YOURCENAR, 2009:
188-189]
Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)
A prisão
«Meglio è morir all’anima gentile
Che suportar inevitabil danno
Che lo farria cambiar animo e stile.»
(Mais vale morrer com
nobreza de ânimo
Que suportar o mal
inevitável
Que lhe roubasse
virtude e estilo…)
Juliano de Médicis
Caíra a noite, sem que ele soubesse se seria em si
próprio, se na sua cela: tudo era noite. Também a noite se movimentava: as
trevas afastavam-se para darem lugar a outras trevas, abismo sobre abismo,
espesso negrume sobre espesso negrume. Mas esse negro, tão diverso daquele que
com os olhos se apercebe, fremia de cores nascidas, por assim dizer, da sua
própria ausência; o negro tornava-se verde lívido, depois branco puro; o branco
pálido transmutava-se em ouro rubro, sem contudo perder a negrura original, tal
como o lampejo dos astros e da aurora boreal cintila no meio daquilo que,
apesar de tudo, é noite escura.
[YOURCENAR, 2009:
333-334]
© Jorge Maia
Referência bibliográfica
Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)