quarta-feira, 26 de julho de 2017

Là-haut

Nicholas Roerich © Everest (1931)

“Naturellement, les montagnes réservent leurs plus belles recompenses à ceux qui atteignent leurs sommets. La vue de l’ascensioniste n’est plus fermée ni limitée. Il peut voir tout autor de lui. Le champ de sa visione est étendu autant que faire se peut. Il voit dans toutes les directions. Il se sent élévé au-dessus du monde et a la fière conscience de s’être ainsi élevé par ses propes moyens; c’est une curieuse satisfaction, car alors il oublie touts les tracas, tous les chagrins, dans l’atmosphère sereine qui, pour un moment, est son domaine.
Ce n’est que pendant un moment qu’il séjourne là-haut. Les hommes ne peuvent vivre à tells hauteurs. Ils doivent revenir aux plaines et prendre part de nouveau à la vie pratique. Mais la vision des cimes ne les abandone plus. Ils veulent y retourner. Ils veulent aller encore plus haut.” [HOWARD-BURY, 1923: 14]

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HOWARD-BURY, C. K.. A la Conquête du Mont Everest. Paris: Payot & Cie, 1923, pp. 414.

terça-feira, 25 de julho de 2017

D'a (pós)modernidade

Os seres humanos são animais gregários que, desde as suas mais remotas origens, viveram em grupos/tribos, não sendo de todo frequente ou usual o individualismo, o isolamento ou a vida solitária. Essas são tendências relativamente recentes, em termos evolutivos enquanto espécie, tal como muitas concepções alternativas* que – independentemente de pretensos optimismos, pessimismos ou nem uma coisa nem outra – não passam de evidentes manifestos de basilar ignorância, de asininas confusões ou até de alarves parvoíces. A separação/especialização de tarefas já ocorria no paleolítico, é anterior ao género Homo e até se encontra esboçada em comportamentos de outras espécies actuais. E daí?... Na verdade, não se deveria confundir um bife à milanesa com um bife sobre a mesa ou uma obra prima com a prima do mestre de obras! Mas a realidade é complexa (ou somos nós que a complicamos?) e, portanto, dada a equívocos...


"Imagine o leitor que é um veado. Tem, no fundo, quatro coisas a fazer durante o dia: dormir, comer, evitar ser comido e socializar (o que significa marcar um território, perseguir um elemento do sexo oposto, cuidar de uma cria, o que seja). Não existe qualquer necessidade real de fazer muito mais. Agora imagine que é um ser humano. Mesmo que se atenha às coisas básicas, tem bastante mais que quatro coisas para fazer: dormir, comer, cozinhar, vestir-se, cuidar da casa, viajar, lavar, fazer compras, trabalhar… A lista é quase interminável. Como tal, os veados deviam ter mais tempo livre do que os seres humanos, contudo são as pessoas, não os veados, que encontram tempo para ler, escrever, inventar, cantar e navegar na internet. De onde vem todo este tempo livre? Vem da troca e da especialização, bem como da divisão do trabalho daí resultante. Um ser humano pede a outrem que o faça por ele, enquanto se dedica a fazer outra coisa pelo outro – e, dessa forma, ambos ganham tempo.
Temos pois que a autossuficiência não é o caminho para a prosperidade: «Quem teria avançado mais ao fim de um mês», perguntava Henry David Thoreau: «O rapaz que fez o seu próprio canivete com o minério que cavou e fundiu, lendo tanto quanto seria necessário para o fazer – ou o rapaz que, entretanto, assistiu a aulas de metalurgia e recebeu um canivete Rodgers do pai?» Ao contrário do que diz Thoreau, é o último, de longe, porque lhe sobra tempo para aprender outras coisas. Imagine se tivesse de ser completamente autossuficiente (não só fingir que o é, como Thoreau). Tem de se levantar de manhã todos os dias e abastecer-se apenas com os seus próprios recursos. Como passaria o seu dia? As quatro principais prioridades seriam alimentação, combustível, vestuário e abrigo. Tratar do quintal, dar de comer ao porco, ir buscar água ao regato, apanhar lenha na floresta, lavar umas batatas, acender uma fogueira (sem fósforos), cozinhar o almoço, reparar o telhado, ir buscar fetos frescos para uma nova cama, talhar uma agulha, fiar linha, coser uma pele para fazer sapatos, tomar banho no rio, fazer um pote de barro, apanhar e cozinhar uma galinha para o jantar. Não há velas, nem livros para ler. Não há tempo para fundir metal, perfurar em busca de petróleo ou viajar. Encontra-se ao nível da subsistência e, sinceramente, embora de início possa exclamar, como Thoreau, «como é maravilhoso escapar ao bulício», passados alguns dias a rotina tornar-se-ia deveras soturna. Se deseja, nem que seja a mais ínfima melhoria na sua vida – utensílios metálicos, pastas de dentes ou iluminação, por exemplo – algumas tarefas terão de ser executadas por outra pessoa, porque não terá tempo para as fazer pessoalmente." [RIDLEY, 2013: 49-51]

Pedro Cuiça © Museu Arqueológico do Tirol do Sul (Bolzano - Itália, 2016)

"Oetzi, o «homem do gelo» mumificado encontrado nos Alpes em 1991, transportava consigo tanto equipamento quanto os caminhantes que o encontraram. Tinha utensílios feitos de cobre, sílex, osso e seis tipos de madeira: freixo, viburno, lima, cornizo, teixo e bétula. Usava roupas de erva entrelaçada, casca de árvore, tendões e quatro tipos de cabedal: pele de urso, couro de veado, couro de cabra e pele de veado. Levava consigo duas espécies de fungos, um como remédio, outro parte de um conjunto de apetrechos para fazer fogo que incluía uma dezena de plantas e pirite para fazer faíscas. Era uma enciclopédia ambulante de conhecimento acumulado – conhecimento de como fazer utensílios e roupa, bem como dos materiais com que estas eram feitas. Levava consigo as invenções de dezenas, talvez milhares de pessoas. Se tivesse de inventar do nada todo aquele equipamento seria um génio. No entanto, mesmo que soubesse o que fazer e como fazê-lo, se tivesse passado os seus dias a recolher todos os materiais de que necessitava só para a comida e para a roupa (já para não falar do abrigo e das ferramentas), iria além dos seus limites, quanto mais se tivesse de fundir, curtir, coser, moldar e afiar tudo. Estava sem dúvida a consumir o trabalho de muitas outras pessoas e a dar o seu em troca. (…) Oetzi viveu há cerca de 5300 anos no vale alpino, dois mil anos depois de a agricultura ter chegado ao Sul da Europa." [RIDLEY, 2013: 157-158]


*NOTA: Concepções alternativas são “formas de ver/pensar”, intuitivas ou promovidas através de aprendizagens, que não coincidem com a realidade factual e concreta. Uma concepção alternativa é diferente de um simples erro. Os erros podem ser identificados e corrigidos perante a evidencia/demonstração da respectiva concepção correcta. No entanto, as concepções alternativas são, muitas vezes, persistentes e difíceis de corrigir/eliminar, podendo constituir importantes obstáculos à correcta interpretação do mundo em geral e/ou de fenómenos em particular.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RIDLEY, Matt. O Otimista Racional – Como Evolui o Bem-estar. Lisboa: Bertrand Editora, 2013, pp. 528. ISBN 978-972-25-2624-1

segunda-feira, 24 de julho de 2017

(New) Ages

Os três sistemas de valores que eu identifico – os de recolectores [caçadores], agricultores e utilizadores de combustíveis fósseis – são exemplos daquilo a que Weber chamou «tipos ideais», «alcançados», explicou, «pela acentuação unilateral de um ou mais pontos de vista e pela síntese de inúmeros fenómenos individuais difusos, discretos, mais ou menos presentes e ocasionalmente ausentes, que são organizados de acordo com esses pontos de vista enfatizados apenas por um lado numa construção mental unificada. Na sua pureza conceptual, esta construção mental nunca pode ser encontrada empiricamente na realidade. É uma utopia.» Os tipos ideais reduzem as vidas reais de milhares de milhões de pessoas a um punhado de modelos simples, e dado que incorporam uma variação empírica tão enorme, estão necessariamente recheados de exceções. Mas é o preço a pagar se queremos identificar causas por trás do caos da vida real.
É provável que alguns leitores pensem que este caminho nos leva a ismos errados de todos os tipos. Para começar, é redutor. Na maior parte dos ramos das humanidades e de algumas ciências sociais, «redutor» é um termo pejorativo, mas ao invés de negar o facto óbvio do meu reducionismo, quero abraçar a acusação. Quem o negar não está a pensar o suficiente. Só para dar um exemplo, tive recentemente a oportunidade de consultar alguns pormenores na biografia de oito volumes de Winston Churchill, escrita por Martin Gilbert (que, na verdade, foi publicada em treze livros, porque alguns dos volumes eram demasiado grandes para serem delimitados entre um só par de capas). Deve ser uma das maiores biografias jamais escritas, mas não deixa de ser redutora. Reduzir a vida de uma pessoa a palavras numa página – ainda que sejam cinco mil páginas – envolve necessariamente distorcer uma realidade mais complexa; reduzir as vidas de todas as pessoas que viveram nos últimos vinte milénios a um punhado de capítulos breves fá-lo necessariamente ainda mais. Mas não há problema. A questão que devíamos pôr não é se um historiador, um antropólogo ou um sociólogo está a ser redutor – a resposta é sempre afirmativa –, mas sim que grau de redução é necessário para resolver o problema que é apresentado. Grandes questões precisam muitas vezes de uma grande abstração, e é isso que eu proponho. [MORRIS, 2017: 38-39]


 Há vinte mil anos, todas as pessoas da Terra eram recoletoras. Há cerca de quinhentos anos, bem menos de uma pessoa em cada dez praticava este modo de vida, e essas haviam sido confinadas a apenas um terço do planeta. Hoje os recolectores constituem muito menos de um por cento da população mundial. Os poucos sobreviventes estão na sua grande maioria circunscritos a ambientes extremos que os agricultores não querem, como o deserto do Calaári e o Círculo Polar Ártico, ou onde ainda não penetraram como partes da Amazónia e as florestas húmidas do Congo. No entanto, até refúgios remotos podem ter interesse económico ou político para utilizadores de combustíveis fósseis, o que significa que os governos, os mercados e os gostos modernos tiveram pelo menos algum impacte em tudo exceto nos recolectores contemporâneos mais isolados. (Na Tanzânia, em 1986, uma das visões que mais me surpreendeu foi um caçador massai armado com uma lança a beber uma garrafa de Coca-Cola enquanto aguardava – com a sua arma pendurada num ombro – um autocarro que o levaria ao seu acampamento. Era, na verdade, tudo menos invulgar; na década de 1980, a maior parte dos caçadores-recoletores praticava uma recoleção assistida por combustíveis fósseis.)
Fazer comparações entre recolectores do século XX em ambientes muito árduos e recolectores pré-históricos em ambientes mais amenos e favoráveis apresenta obviamente problemas. Em meados do século XX, vários antropólogos e arqueólogos reagiram apresentando tipologias muito úteis de recolectores, mas desde a década de 1980 outros foram muito mais longe e sugeriram que as analogias só podem ser enganadoras. Longe de serem relíquias de um estilo de vida antigo, alegam estes antropólogos, os recolectores modernos são fruto de processos históricos claramente modernos, sobretudo do colonialismo europeu, o que significa, concluem, que os recolectores contemporâneos pouco nos dizem sobre a pré-história. Alguns antropólogos começaram a defender que a própria ideia de comparar recolectores pré-históricos e modernos é implicitamente racista, uma vez que reduz os recolectores contemporâneos ao estatuto de «antepassados vivos» que foram deixados para trás pelo progresso, logo, precisam de ser protegidos sob a asa das sociedades de combustíveis fósseis. [MORRIS, 2017: 60-61]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MORRIS, Ian. Caçadores, Camponeses e Combustíveis Fósseis – Como evoluíram os valores humanos. Lisboa: Bertrand Editora, 2017, pp. 448. ISBN 978-972-25-3249-5

sábado, 22 de julho de 2017

Montanhas de Livros

Estive ante-ontem à conversa, no programa Olá Maria (no Porto Canal), com a Rute Braga e o Tózé Coelho, sobre actividades de montanha… Os livros Guia de Montanha e Passo a Passo constituíram o ponto de partida para uma espécie de “conversas vadias”, porque "trans-correram" por aqui e por acolá, desde o começo da minha atracção pelo contacto com a Natureza, há mais de 35 anos, até ao posterior interesse pela integração da caminhada, tal como de outras práticas, no dia-a-dia, designadamente por razões de saúde e bem-estar, mas não só…











Aqui fica o registo da conversa e o acesso a alguns “apontamentos” no blogue Viagens Verticais.


With Wild Nature


Going to the woods is going home.
John Muir

Após vários dias a aguardar a encomenda efectuada através da Amazon, finalmente chegou TreeGirl – Intimate Encounters With Wild Nature. Trata-se de um livro, de Julianne Skai Arbor/TreeGirlÒ, que prima por uma estética primorosa e cuidada, com fotografias fantásticas e textos interessantíssimos sobre a ligação seminal entre os seres humanos e as árvores.
Deixo-vos aqui uma ínfima mostra, de texto e imagens, que servirá certamente para despertar a vossa curiosidade e abrir-vos o apetite por esta obra incontornável para os apaixonados pela Natureza em geral e pelas Árvores em particular.




The act of climbing, whether trees or mountains, has been identified as a “core human interaction pattern”, or “nature language”, in Peter Kahn and Patricia Hasbach’s book Ecopsychology: Science, Totems and the Technologic Species. The authors affirm that human patterns of interacting with the elements in Nature – being near or on moving water, gathering around fire, sleeping under the stars, tracking and hunting animals – are as old as the human species themselves and are ingrained in our psyches and bodies. Indeed, these ingrained relationships cannot be buried or evolved away from no matter how technologically dependent we become. With the exception of some arctic and desert regions, Homo sapiens have lived in direct relationship with trees for over two hundred thousand years. So it’s fair to say that the tree-human connection is genetically and psychologically ingrained in us. [p. 51]



E.O. Wilson popularized Erich Fromm’s term biophilia, the “love of living things”, which refers to our innate affinity with Nature. He proposed that biophilia is an instinctual drive – that the deep affiliations (or philias) humans have with the rest of life are rooted in our biology. Human beings, he suggests, subconsciously seek out connections with other living systems because those relationships help us, and everything else, survive. Biophilia is commonly seen in people’s love and care for companion animals, their fascination with wild animals, and their care for houseplants, landscaping, or gardening. Similarly, it explains why ordinary people sometimes risk their lives to save others – human or animal, and even trees and natural places. He proposes that emotions of empathy, compassion, and love are actually biological and genetic. [p. 52]



Edição: TreeGirl Studius LLC (Santa Rosa – Califórnia, 2016, pp. 192)
ISBN: 978-0-692-72604-4


quarta-feira, 19 de julho de 2017

One Wild Life

Tell me what is it you plan to do with your one wild and precious life?
Mary Oliver


A Quinta dos 7 Nomes acolheu, de 15 a 25 de Junho de 2017, a motivadora iniciativa One Wild Life – fostering authentic vocation and entrepreneurship in youth work. Segundo Sara Rodrigues, uma das promotoras da equipa One Wild Life Portugal, tratou-se de um «training course com ferramentas poderosas para o trabalho com jovens, reforçando a vocação autêntica, comunicação genuína e espírito empreendedor». O evento reuniu 26 participantes de 12 países europeus, a que se juntaram – a 23 de Junho – mais de meia centena de convidados no dia de networking internacional em trabalho com a juventude – One Wild Life. Uma interessantíssima e multicultural troca de experiências, projectos e ideias na qual tive a grata oportunidade de participar através do projecto Caminhada Holotrópica (Holotropic Walking).
Aqui fica um “cheirinho” do espírito da “coisa” :)



A journey with head, heart and hands
For a true exploration and manifestation of our contribution it is insufficient to merely reflect on or fream about it, just as "going for it" without reflecting on our behaviour and our underlying motives is also not the way forward.
This is why we would like to introduce a holistic approach of exploration and manifestation that involves head, heart and hands. And this means engaging yourself wildly in this proces – trough wild thinking, wild feeling and wild acting.

· With wild thinking we mean freeing your mind from the restricting tendencies of the inner critic and censor. Wild thinking means stepping out of the usual patterns of self-censorship, judgement and constriction and asking youself from the freest possible space : What do I really want ? What is it that wants to come into the world through me ?

· With wild feeling we mean connecting to bodily intelligence and approaching your question not only with your mind, but also with your heart. That means paying close attention to your body-level responses that may often be unconscious, such as the contraction of certain muscles, tension or butterflies in your belly, observing feelings and emotions that arise, and whether there is an intuitive feeling of right or wrong.

· With wild acting we mean leaving your comfort zone and daring to step out into unknown territory ; Often we can get a pretty clear sense of whether something is right for us or not by simply trying it out. So the third invitation is to answer questions not only with your head and heart, but also with your hands ; Through concrete doing, exploring and experiencing.
(KOHLER et al., 2016 : 22)



The wilderness holds answers to more questions than we have yet learnt to ask.
Nancy Wynne Newhall


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KOHLER, Franziska, LIVITS, Réka, BALÁZS, Laura & CARDINALE, Roberto. Take the Future in your hands – A road map to Authentic Vocation for Social Transformation; Hungary: proVOCAtion innovaTION Strategic Partnership, 2016, pp. 228. ISBN 978-963-12-5235-4

terça-feira, 18 de julho de 2017

Walden (II)


Na sequência da comemoração dos 200 anos sobre o nascimento de Henry David Thoreau e coincidindo com o convite da editora Antígona de «nesta silly season (…) seguirmos o espírito insubmisso do autor e trocarmos a estância balnear pelo rumor dos bosques e a água fresca dos rios», publicamos mais um conjunto de intervenções efectuadas no âmbito da iniciativa Porquê Ler os Clássicos? 

Ana Sofia Cardoso © Thoreau na Antígona (2017)

Conclusão (5/5/2011 00:54) 
No capítulo XVIII (“Conclusão”), que finaliza “Walden ou A Vida nos Bosques”, Thoreau volta a acentuar a sua faceta moralista, à semelhança do que fez no capítulo de abertura da obra. Mas ao contrário do capítulo I no qual o autor explica porque é que decidiu ir para o Walden, desta feita centra-se na justificação do porquê de abandonar o lago.
David Henry Thoreau foi instalar-se nos bosques à beira do lago Walden para VIVER. “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a aos seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então na sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão.” (p. 108)
Thoreau viveu uma experiência sublime, soube explicá-la e resolveu que a mesma estava cumprida sendo o momento de partir para outra… “Os médicos, com sabedoria, recomendam aos enfermos mudança de clima e de ambiente.” (p. 347)  “A nossa viagem é apenas um grande círculo de navegação, (…).” (p. 347), uma peregrinação ou peregrinações que não só poderão como deverão seguir vários rumos; numa descoberta, mais do que externa, do interior, uma viagem do “self”. “Olhai bem a vossa mente, nela pela certa Encontrareis mil regiões não descobertas. Percorrei-as, que assim sereis um dia Conhecedor da própria cosmografia.” (p. 348)
Que representam as conquistas ou descobertas geográficas comparadas com as dos “próprios rios e oceanos”? Thoreau desafia: “explorai as mais remotas das vossas próprias latitudes, (…) sede um Colombo de todos os novos continentes e mundos que existem dentro de vós, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento” (p. 348). Thoreau não só desafia como exprime surpresa perante os homens que “amam o solo pátrio” mas não sentem nenhuma simpatia pelo espírito que ainda lhes anima o barro” (p. 348). E, nesse contexto, exprime a necessidade do conhecimento de si próprio. Como amante dos clássicos, Thoreau segue a máxima desenvolvida no seio do movimento reformador da Grécia Antiga, a prisca theologia de Marsilio Ficino, que passa por Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e continua com os neoplatónicos e com os cristãos gnósticos: “Conhece-te a ti próprio”. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser (…).” (p. 350)
Thoreau, que tanto importância dava aos ciclos naturais, alerta simultaneamente para a importância de não cair em rotinas, de trilhar novo caminhos pessoais. “Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo naquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecermos para nós um trilho batido.” (p. 350) “A superfície da terra é macia e sensível aos pés dos homens; o mesmo acontece com as veredas por onde a mente viaja. (…) Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo!” (p. 351)
“Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; (…). À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-de parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.” (p. 351)
Thoreau não teme a busca de si próprio, dos seus caminhos, receia é não ser suficientemente ousado. “Temo sobretudo que a minha expressão não seja suficientemente extra-vagante, que não se aventure bastante além dos estreitos limites da minha experiência diária, de modo a adequar-me à verdade de que me convenci. Extra vagância” Esta depende de quanto estais encurralados. (…) Desejo falar sem papas na língua seja onde for; como um homem em estado de alerta a outros homens em estado de alerta; pois estou convicto de que não posso exagerar tanto a ponto de lançar as fundações de uma expressão verdadeira. Quem é que, depois de ter ouvido uma composição musical, recearia falar extravagantemente? (…) O senso mais comum é o dos homens adormecidos, que o exprimem roncando.” (p. 352)
“Deverá um homem enforcar-se por pertencer à raça dos pigmeus, em vez de ser o maior pigmeu, em vez de ser o maior pigmeu que puder? (…) Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente.” (p. 353)
Ao fim ao cabo, o autor de “Walden e a Vida nos Bosques” defende uma busca ousada dos próprios rumos, daquilo em que acredita. E, nesse pressuposto, conta a história de Kouru, o “artista disposto a buscar a perfeição”, que decidiu “fazer um bastão” (p. 354) mas acabou por fazer “um novo sistema (p. 355). Thoreau defende não só a plenitude de viver, como viver a/na verdade. “Nenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trará por fim tanto proveito como a verdade. Só ela assenta bem. (…) Dizei o que tendes a dizer, e não o que deveis dizer. Qualquer verdade é melhor que o fingimento.” (p. 355) Voltamos aos capítulos primeiros, ao fecho do ciclo “Walden”, nos quais Thoreau elogia e “pobreza voluntária” (p. 29) e proclama a necessidade primordial de viver de forma simples: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade!” (p. 109) E VERDADE!
Thoreau não só incita ao cultivo da “pobreza como um jardim de ervas, de salva.” (p. 356) como alerta para a frivolidade e “algazarra dos meus contemporâneos” (p. 357). “Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade, Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes.” (p. 358-359) Sim, VIVER a/na VERDADE!
“Mais do que amor, dinheiro, fama, concedam-me verdade. Sentei-me a uma mesa que exibia comida sofisticada e vinho em abundância, uma companhia subserviente, mas onde não existia sinceridade e verdade; e parti faminto da mesa hostil. A hospitalidade era fria como gelo.” Esta passagem de “Walden” estava sublinhada num dos livros encontrados junto aos restos mortais de Chris McCandless. No topo da página McCandless tinha escrito à mão e em grandes letras maiúsculas a palavra “VERDADE” (Krakauer in “O Lado Selvagem”, 2010, p. 132).
Nesta conclusão talvez não sejam tão despropositadas como, a primeira vista possa parecer, as frases já proferidas neste fórum: “ Estar vivo é o contrário de estar morto” e “A verdade é o contrário da mentira”!
“A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.” (p. 362) “Compreendestes a vastidão da Terra? Onde fica o caminho para a morada da luz, e qual é o lugar da escuridão?...” (O Livro de Job)
Se tivesse de escolher o pensamento ou a frase lapidar de “Walden ou A Vida dos Bosques” seria aquela que destaquei pela primeira vez como frase favorita neste fórum: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (…) Simplificar, simplificar, simplificar.” (p. 109).


Referência bibliográfica
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Edições Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8

"LAPSOS"...

"LAPSOS" DE LINGUAGEM, E NÃO SÓ


Nos dias que correm é preciso SER muito prudente, observador e sensitivo para separar o ESSENCIAL do acessório, aparente e ilusório... E combater – com obediência estrita (numa espécie de vida militar assente na não violência!) a valores como a simplicidade, a renúncia ou a liberdade (desde logo de não ser possuído por outros ou possesso de si próprio!) – fanatismos e fundamentalismos (enfeitados tantas vezes de "boas intenções"), "lavagens ao cérebro" ou outros doentios "estados de alma". Combater os perigosíssimos "salvadores" vestidos de peles de ovelha e todos os outros que, com múltiplas outras roupagens, não passam de charlatões e vendilhões do templo. Para tal é preciso dar uma especial atenção a tiques, trejeitos, obsessões e "lapsos" de linguagem: por exemplo, tolerância não é respeito e muito menos amor ao próximo. A superficialidade, a banalidade e a falsidade não ajudam, claro está, (n)estes processos de LIBERTAÇÃO. Porque inocência é diferente de superficialidade, pureza não é banalidade e o que é falso não é verdadeiro...

Into the Forest


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Walden

É sempre com um imenso prazer que regresso ao pensamento de Henry David Thoreau através da leitura das suas preciosas e diversas obras, mormente aquela que para mim continua a ser alvo de reiterado estudo e reflexão: Walden ou A Vida nos Bosques. Hoje que se comemora 200 anos sobre o seu nascimento, a 12 de Julho de 1817, é com renovado fulgor e algum saudosismo que publico um dos vários textos que escrevi, entre 11 de Março e 6 de Maio de 2011, no âmbito do Clube de Leitores Walden. A iniciativa, de que tive o grato privilégio de ser o primeiro classificado, foi organizada no contexto de um ciclo de seis conferências – Porquê Ler os Clássicos? – levadas a cabo pelo Programa Gulbenkian Ambiente em parceria com a Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal. Cada uma das conferências gravitou à volta de um livro, tendo-se iniciado com Walden, seguido-se Pensar Como uma Montanha (de Aldo Leopold), Small is Beautiful (de E.F. Schumacher), Silent Spring (de Rachel Carson), Our Common Future (da World Commission on Environment and Development) e Os Limites do Crescimento (de Dennis Meadows, Donella Meadows e Jorgen Randers, entre outros).



II. Onde, e para que vivi

Regressando ao início do capítulo II (Onde, e para que vivi) no qual Thoreau pretensamente descreve como fixou residência no bosque, este apresenta-nos uma tão dotada quanto divagante imaginação sobre a aquisição de “fazendas”. Imaginação (à qual já fizemos referência anteriormente) que chegou a consubstanciar-se na compra da “fazendola de Hollowell” e na sua rápida e subsequente revenda ao antigo proprietário! O que atraia Thoreau nessa fazenda que chegou a adquirir foi “o total isolamento, por estar a pouco mais de três quilómetros da cidade, a meia milha do vizinho mais próximo e separada por um vasto campo da estrada principal”, entre outros primores como “as cercas delapidadas, que punham um espaço entre mim e o último ocupante; as macieiras ocas e cobertas de líquens, roídas por coelhos, mostrando o tipo de vizinhos que eu devia ter” (p. 100). Acontece que Thoreau fixou residência no bosque numa cabana de madeira e, se nos diz que a casa que possuíra antes foi uma tenda (assunto que abordaremos num futuro comentário), na verdade nada refere sobre como foi parar a esse tugúrio onde consta que terá residido por um período de dois anos, dois meses e dois dias! Vem isto a talhe de foice, tendo em conta a leitura do capítulo V (Solidão), para dizer que devemos ter algum cuidado na interpretação ingénua ou facilitista daquilo que Thoreau escreve porque nem sempre corresponderá exactamente à verdade. Sem com isto lhe estar propriamente a chamar mentiroso por omissão ou divagação, passo a explicar. A cabana na qual vivenciou a sua experiência de vida nos bosques, tal como o terreno onde esta se situava, eram propriedade do seu amigo e mentor Ralph Waldo Emerson, o famoso escritor, filósofo e poeta considerado o fundador do transcendentalismo. De facto, tanto “a sua instalação ali como a interrupção dessa experiência estarão intimamente associadas à amizade com Emerson; é este que lhe cede o terreno (adquirido expressamente para impedir o abate de árvores naquela zona), e é este depois que lhe pede, ao ausentar-se para Inglaterra, para ficar em sua casa, em Concord, com a sua família” (p. 364). É neste contexto que Thoreau vive, em 1847-1848, com a família de Emerson quando este parte para Inglaterra numa longa digressão, na qual conhece, entre outros, Mill, Coleridge, Carlyle (de que ficaria grande amigo) e Wordsworth (de que já apresentámos o poema “Prelúdio” em comentário anterior).
Ora esta cabana onde viveu nos bosques também se situava a cerca de três quilómetros de distância da cidade de Concord, tal como a fazenda de Hollowell, e rodeada de ruídos da civilização como já tivemos oportunidade de referir anteriormente. Quero com o aqui exposto assinalar, mais uma vez, que o isolamento de Thoreau não seria tão radical quanto possa parecer. Aliás, bem pelo contrário! No capítulo VIII (O povoado), ficamos surpreendentemente a saber que “todos os dias, ou de dois em dois dias, passeava pelo povoado para ouvir os boatos que incessantemente por lá correm, circulando de boca em boca ou de jornal em jornal, os quais tomados em doses homeopáticas, são de facto a seu modo tão revigorantes como o farfalhar das folhas e o coaxar das rãs” (p. 189)! Temos, portanto, a acrescentar ao silvo da locomotiva como grito de gavião (referido no capítulo “Sons”), os boatos tão revigorantes como o farfalhar de folhas e o coaxar de rãs!!!
Se por um lado Thoreau nos diz que visitava Concord assiduamente para “observar os hábitos” dos seus moradores, por outro também refere que “até estava acostumado a aparecer nalgumas casas, onde era bem tratado” (p. 191). Diz-nos mais ainda: que “depois de inteirar-se do fundamental, da última peneirada das notícias” saía “pela porta das traseiras” e assim se “escapulia novamente para os bosques” (p. 191). Ora uma dessas casas seria certamente a de Waldo Emerson, o seu… mecenas!
Se acho o comportamento de “observar os hábitos” dos habitantes de Concord, num estilo David Attenborough duvidoso, o que dizer da sua curiosidade face às notícias quando alguns capítulos atrás (mais precisamente no “Onde, e para que vivi”) afirma precisamente o contrário?
“Depois de uma noite de sono, as notícias são tão indispensáveis como o café da manhã. “Diga-me, por favor, que novidade aconteceu à humanidade em qualquer parte do mundo” e, juntamente com o café e os pãezinhos, lê que em Wachito River, naquela manhã, arrancaram os olhos a um homem; faz isso tudo sem sequer imaginar que vive na caverna escura, insondável e imensa deste mundo, e que ele próprio só tem um rudimento de olho. Por mim, podia facilmente passar sem correio. Acho que há pouquíssimas comunicações importantes feitas por seu intermédio. (…) Também estou certo de que nunca li nos jornais nenhuma notícia notável. (…) Para um filósofo, todas as chamadas novidades não passam de bisbilhotices, e as pessoas que se encarregam de editá-las e lê-las, não passam de velhinhas a tomar chá. Mas não são poucos os ávidos por bisbilhotices. (…) Novidades! Muito mais importante é saber-se daquilo que nunca fica velho!” (p. 111-112) Portanto, bisbilhotices não, boatos sim (mas em doses homeopáticas) e notícias, pelos vistos, q.b., tal como visitas regulares a Concord todos os dias ou de dois em dois dias! Como já tive oportunidade de manifestar em anterior comentário, a suposta vida de Thoreau na Natureza assemelha-se mais a uma ruralidade peculiar, tal como a pretensa solidão em que viveu foi afinal bastante acompanhada!!!
Virá a propósito, mais uma vez, relembrar os eremitas franciscanos, como o frade capuchinho Agostinho da Cruz que passou os últimos 14 anos de vida na solidão da Arrábida; a avaliar pelas palavras de Limabeu – criptónimo e alter-ego do poeta – concretizando um seu grande desejo:

Confesso que fui sempre afeiçoado
A solitários bosques do deserto,
Que ensinam a viver desenganado.



Referência bibliográfica
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Edições Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8