segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Pilar


Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

«Na verdade, tudo se conjuga para se poder afirmar que o mundo, a realidade empírica, a representação que dela fazemos na nossa consciência, é largamente uma invenção do nosso cérebro, mas é uma invenção coerente e útil, pois torna possível a vida do organismo no seu mundo próprio, mundo que o animal percepciona criando imagens que diferem de espécie para espécie, pois cada uma tem o seu ambiente, o seu nicho particular, e portanto a imagem da realidade que lhe é própria. Uma série considerável de observações e de experiências dá um forte apoio à conclusão fundamental de que o homem reconstrói, dá forma à sua «realidade» com as informações recebidas pelos seus sentidos, e com o seu cérebro e com a sua linguagem fazendo a «criação mental de mundos possíveis».
A evolução dos organismos é basicamente um processo de acumulação de informações, nos genes e na ontogenia («programa hereditário»), devido fundamentalmente ao trabalho da selecção natural, repetindo-se a cada geração (ou série de gerações) a aquisição realizada. É a memória genética do passado de opções determinadas pela selecção. Ora, este princípio tanto se aplica às estruturas e formas do organismo como ao seu comportamento. O organismo transforma impressões recebidas do ambiente em partes da sua interioridade. Interactua com o ambiente, havendo no animal como que uma tendência para interiorizar o mundo, quer pelo alimento que ingere1 quer pela representação que faz desse mesmo mundo. Houve uma propensão ao enriquecimento interior, à complicação em profundidade, o que exigiu, como compensação, uma superfície protectora-receptora muito elaborada, particularmente nos grupos mais evolucionados.
A evolução do sistema nervoso e a sua complexificação permitiram respostas cada vez mais elaboradas e seleccionadas da parte do organismo. Tudo entrou em diferenciação a partir da sensibilidade básica, nomeadamente as células nervosas, os receptores e condutores de estímulos e a complicação em centros nervosos, etc. Com os comportamentos inatos surgiram também formas de flexibilidade, de maleabilidade do comportamento. Com a complexidade dos sistemas nervosos e com as memórias que eles possuem, quer dizer, com a capacidade de acumular informações e de o animal se recordar delas, desenvolveram-se, naturalmente, formas elaboradas de aprendizagem individual criadora, nomeadamente com os reflexos condicionados. Um dos passos decisivos foi a «representação central do espaço», quer dizer, a capacidade de «reflectir de olhos fechados sobre o que a memória contém», ou seja, a aptidão de lembrar o que está registado na memória e de ponderar outras alternativas. Este passo fundamental está provavelmente na origem da autoconsciência. Mesmo o desenvolvimento das noções de relações temporais fez-se provavelmente em associação ou na dependência da capacidade de representação do espaço. E com esta aptidão nasceu a possibilidade de fazer experiências mentais, aventurar hipóteses de comportamento em cenários de risco, em determinadas situações ecológicas (reais ou imaginárias), com a vantagem de não se arriscar a pele, porque quem se expõe e morre é, por assim dizer, a hipótese, substituindo na aventura aquele que a fez. Ora, esta aquisição é provavelmente um dos pilares fundamentais da origem e evolução do espírito humano.»
[SACARRÃO, 1991: 248-250]

Por isso, e muito mais, vamos mas é escalar!...

Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

NOTA Pedestris
1- Interiorizar o mundo pelo alimento que ingere ou através do ar que inspira, mas que também expira, entre muitas outras interacções entre o indivíduo (?) e o meio que (supostamente) o rodeia, de modo que se torna virtualmente impossível delimitar, ou definir onde acaba e começa, a fronteira entre-ser indivíduo e ambiente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SACARRÃO, Germano da Fonseca. Ecologia e Biologia do Ambiente – II As Interdependências e o Homem. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1991, vol. II, pp. 322.

Se...

Se às vezes digo que as flores sorriem

Danielle Barlow © The Primrose Glamouring (2018)

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

Alberto Caeiro – heterónimo de Fernando Pessoa – in O Guardador de Rebanhos (1914)


Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

Pedro Cuiça © Terra Chã (Alcobertas/PNSAC, 19 de Maio de 2018)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Mãe Terra


Pedro Cuiça © abertura por Paulo Borges e Fabrizio Boscaglia (FLUL, 14 de Maio de 2018)

O colóquio internacional Mãe Natureza,Terra Viva, que decorreu nos dias 14 e 15 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), reuniu um variado leque de palestrantes em torno da temática das (visões) alternativas – no âmbito da ecologia espiritual, ecosofia e ecologia profunda – para fazer face à crise ecológica. O anfiteatro onde decorreram os intensos trabalhos contou com a presença de um público numeroso e interventivo, que enriqueceu a troca de ideias nas fases de debate. O entusiasmo e o interesse que despertaram as comunicações são de realçar, tal como o heteróclito painel de 27 palestrantes e assuntos abordados. A faltar ficou tão somente o tempo necessário para aprofundar muitas das temáticas que foram apenas afloradas.
O evento encerrou com o lançamento e apresentação do livro Os Animais, Nossos Próximos – Antologia do amor humano aos animais, pelos autores Paulo Borges e Daniela Velho.
O colóquio Mãe Natureza, Terra Viva tratou-se de mais uma importante iniciativa do Grupo Praxis/Seminário Permanente Vita Contemplativa que, desta feita, contou com uma comissão organizadora composta por Paulo Borges, Frabrizio Boscaglia, Paula Morais e Jorge Moreira. Neste contexto, aproveito para reiterar o agradecimento público à organização pelo convite para participar, pelo segundo ano, no Seminário Permanente Vita Contemplativa com intervenções sobre caminhadas e caminhos, nos seus sentidos concretos e metafóricos: Caminhada Holotrópica – Ecosofia e Eco-espiritualidade (2017) e Pedifesto Eco-lógico: passo a passo da teoria à prática (2018).


Pedro Cuiça © Amor e Gratidão à Água (FLUL, 15 de Maio de 2018)



terça-feira, 1 de maio de 2018

Vera


Uma espécie de Prima-vera

«ao serviço
da natureza selvagem
da vida
da morte
dos peitos da Mãe.»
Gary Snyder – “A Canção de Amanhã” in A Ilha da Tartaruga (1974)
 [DEVALL & SESSIONS, 2004: 57]

© Danielle Barlow (2016)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Devall, Bill & SESSIONS, George. Ecologia Profunda – Dar Prioridade á Natureza na Nossa Vida. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2004, pp. 292. ISBN 972-8870-01-9


Quem sou?... (II)


«Quem sou, que assim me caminhei sem ser (…)?»
Fernando Pessoa (1930) [in COSTA, 2012: 15]

«Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia? (…) / Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.»
Fernando Pessoa (1917) [in COSTA, 2012: 34]



«No pensamento do poeta, deu-se assim como um movimento que foi mais que um alargamento daquele outro, o da sua nação; mas antes um seu ultrapassamento, numa inversão de perspectiva, surgindo diferente da forma do seu conhecimento, que apreende e pretende conhecer só o real imediato. E procurando somente nele a verdade desejada, por um conhecimento empírico; o que lhe permitirá exercer o seu poder sobre esse real; ideal que foi formulado no clímax da sua história e cultura, pelas palavras do navegador e homem de ciência, Duarte Pacheco: «a experiência, que é madre das coisas, nos desengana e de toda a dúvida nos tira». O movimento cognitivo e a procura do poeta mostra-se efectuada por outros caminhos de conhecimento e visando uma outra finalidade, não científica e pragmática; numa posição à qual este pensamento nacional é habitualmente estranho; pois que ele procura um outro mundo para além do real sensível, ultrapassando este pensamento ao qual um historiador brasileiro, referindo-se aos escritores da época dos descobrimentos, chamou a «cautelosa e pedestre razão lusitana». (Sérgio Buarque da Holanda, Visão do Paraíso.)»
[COSTA, 2012: 20-21]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
COSTA, Dalila Pereira da. O Esoterismo de Fernando Pessoa. Porto: Lello Editores, 2012, 5ª ed., pp. 256. ISBN 978-972-48-1880-1



domingo, 29 de abril de 2018

Quem sou?...


«Quem sou, que assim me caminhei sem eu (…)?»
Fernando Pessoa (1930)
in BORGES, 2017: 23





REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BORGES, Paulo. Do Vazio ao Cais Absoluto ou Fernando Pessoa entre Oriente e Ocidente. Lisboa: Âncora Editora, 2017, 164. ISBN 978-972-780-596-9



sexta-feira, 27 de abril de 2018

D'a pedra e...


A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em pôr nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes pôr nomes alguns.
Alberto Caeiro (1917)

E se tivermos necessidade doente de «interpretar a erva verde
[sobre a minha sepultura
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
Alberto Caeiro (1915)

PC © A Pedra Cúbica (11/04/2018)

Contraria-se assim em Alberto Caeiro a sedução de Worsworth e a lógica de Kant. Ao duplo programa desta ascese chama Fernando Pessoa o «paganismo» de Caeiro. «Paganismo» denota aqui um ato «instintivo» de enunciação da coisa-em-si. Quem enuncia a coisa-em-si, é numa expressão que recorre, «a voz da terra», a qual enuncia «axiomas da terra».
Tecnicamente, a expressão «a voz da terra» é uma prosopopeia, figura que consiste na concessão de uma face a algo que naturalmente a não tem. A face é denotada nesta expressão, metonimicamente, por «voz», que pressupõe «boca» e, por isso, «face». A atribuição de uma face à terra confere-lhe a possibilidade de enunciar um discurso ostensivamente próprio. A «voz da terra» é, todavia, Caeiro: se a terra fala, fá-lo, não porque se lhe conceda uma face que fale, mas porque ocupou a face de Caeiro, e por ela fala. Neste sentido, Caeiro é, mais precisamente, no que deverá ler-se como um genitivo objectivo, uma prosopopeia da terra. Caeiro permite que a terra fale através dele porque ele próprio é mudo, ou porque, modo loquaz da mudez, parece enumerar tautologias (como, por exemplo, «uma pedra é uma pedra», que com insistência repete, sem lassitude aparente, como amuleto maníaco). Na sua mudez, a terra encontra o único lugar silencioso do mundo, a face elocutória onde não a ocultam sob a interpretação e o devaneio do palavreado.
Esta excecionalidade de Alberto Caeiro empresta um sentido particular à descrição que de si mesmo faz como «único poeta da natureza». (…) A excecionalidade de Alberto Caeiro como «voz da terra» é (…) uma forma de orgulho poético tanto mais aberrante quanto Caeiro persiste em censurar esse uso da prosopopeia endémico na linguagem humana, que por todo o lado conjura objetos falantes, numa volubilidade que Caeiro deplora.
(…) (O modo obcessivo de Caeiro de pensar uma pedra como só uma pedra é, naturalmente, reconhecido pelos seus discípulos. Álvaro de Campos, por exemplo, desculpa o que chama a incoerência lógica de Caeiro, explicando que a lógica do mestre «excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão». Aparentemente menos dócil, Pessoa ele-próprio, num texto não atribuído, ironiza assim a posição de Caeiro: «Se ele fosse o absoluto materialista que pretende que é, seria, não um homem, mas uma pedra. E o ser pedra não seria, confesse-se, a forma de existência mais apta a exprimir emoções em verso.» António Mora, por seu turno, sublinha a intermitência de manifestação do objecto natural, que persiste sob esse desfile, como invariante: «O paganismo é uma religião que nasce da terra, da natureza directamente – que nasce da atribuição a cada objecto da sua realidade verdadeira. Por sua própria natureza de natural, ele pode aparecer e desaparecer, não mudar de qualidade. ‘Neopagão’ é um termo que tem tanto sentido como ‘neopedra’ ou ‘neoflor’.» O mesmo movimento corretivo é defendido por Bernardo Soares, de modo programático e como exortação a si mesmo: «Reparar em tudo pela primeira vez, não apocalypticamente, como revelações do Mystério, mas directamente como florações da Realidade.» «Apocalypticamente» refere aqui uma intuição que atravessa o objecto, e é um encontro visionário com as «primeiras e últimas coisas»; «directamente como florações da Realidade» denota o domínio do imediatamente perceptível, e evidencia como também Bernardo Soares se pretende discípulo de Alberto Caeiro.)
[FEIJÓ, 2015: 46-49]

PC © A Pedra Bruta (27/04/2018)

NOTA
Muito para além da verbalização encontra-se a linguagem não verbal (sub e sobrejacente ao verbo), revelada na magnificência do mais profundo silêncio, mas também sob multiplicidade de outras expressões, formais e informais, humanas e não-humanas. O verbalizar (tal como o inerente pensar) é algo de outra ordem…
É óbvio que podemos pensar uma pedra e um geólogo, mormente especializado em petrografia e/ou petrologia, é disso prova: não só pensa (sobre) as pedras como é capaz de verbalizar copiosamente esse pensamento!  E claro, as pedras podem “falar”, e “falam”, numa linguagem não verbal: «aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!». Tão claro quanto a evidência da ineficácia da verbalização para expressar o não verbal, ao recorrer a um conjunto de palavras que não passam de metáforas, tantas vezes desajustadas, nesse contexto! Já «pensar uma pedra como só uma pedra é» será uma impossibilidade quando se não é pedra… Mas, felizmente, existem aproximações.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FEIJÓ, António M.. Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2015, pp. 176. ISBN 978-972-27-2356-5


quinta-feira, 26 de abril de 2018

A Inacabável Cruzada


Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quijote 



«Caballero que hizo reír a todo el mundo, pero que nunca soltó un chiste. Tenía el alma demasiado grande para parir chistes. Hizo reír con su seriedad.»
 Miguel de Unamuno

(…) ¿no crees que se podría intentar alguna nueva cruzada?
Pues bien, sí; creo que se puede intentar la santa cruzada de ir a rescatar el sepulcro de Don Quijote del poder de los bachilleres, curas, barberos, duques y canónigos que lo tienen ocupado. Creo que se puede intentar la santa cruzada de ir a rescatar el sepulcro del Caballero de la Locura del poder de los hidalgos de la Razón.
(…) Y esta santa cruzada lleva una gran ventaja a aquellas otras santas cruzadas de que alboreó una nueva vida en este viejo mundo. Aquellos ardientes cruzados sabían dónde estaba el sepulcro de Cristo, dónde se decía que estaba, mientras que nuestros cruzados no sabrán dónde está el sepulcro de Don Quijote. Hay que buscarlo peleando por rescatarlo.
(…) Empieza, pues, amigo, a hacer de Pedro el Ermitaño y llama a las gentes a que se te unan, se nos unan, y vayamos todos a rescatar esse sepulcro que no sabemos dónde está.
Verás cómo así que el sagrado escuadrón se ponga en marcha aparecerá en el cielo una estrella refulgente y sonora, que cantará un canto nuevo en esta larga noche que nos envuelve, y la estrella se pondrá en marcha en cuanto se ponga en marcha el escuadrón de los cruzados, y cuando hayan vencido en su cruzada, o cuando hayan sucumbido todos –que es acaso la manera única de vencer de veras–, la estrella caerá del cielo, y en el sitio en donde caiga allí está el sepulcro. El sepulcro está donde muera el escuadrón.
Y allí donde está el sepulcro, allí está la cuna, allí está el nido. Y allí volverá a surgir la estrella refulgente y sonora, camino del cielo.
(…)¿Qué quieres decir com esto? –me preguntas más de una vez–. Y yo te respondo: –¿Lo sé yo acaso?
İNo, mi buen amigo, no! Muchas de estas ocurrencias de mi espíritu que te confío ni yo sé lo que quieren decir, o, por lo menos, soy yo quien no lo sé.
(…) En marcha, pues. Y ten en cuenta no se te metan en el sagrado escuadrón de los cruzados bachilleres, barberos, curas, canónigos o duques disfrazados de Sanchos. No importa que te pidan ínsulas; lo que debes hacer es expulsarlos en cuanto te pidan el itinerario de la marcha, en cuanto te hablen de programa, en cuanto te pregunten al oído, maliciosamente, que les digas hacia dónde cae el sepulcro. Sigue a la estrella. Y haz como el Caballero: endereza el entuerto que se te ponga delante. Ahora lo de ahora y aquí lo de aquí.
İPoneos en marcha! ¿Que adónde vais? La estrella os lo dirá: İal sepulcro! ¿Qué vamos a hacer en el camino mientras marchamos? ¿Qué? İLuchar!
(…)İEn marcha, pues! Y echa del sagrado escuadrón a todos los que empiencen a estudiar el paso que habrá de llevarse en la marcha y su compás y su ritmo. Sobre todo, İfuera con los que a todas horas andan con eso ritmo! Te convertirían el escuadrón en una cuadrilla de baile, y la marcha en danza. İFuera con ellos! Que se vayan a outra parte a cantar a la carne.
Esos que tratarían de convertirte el escuadrón de marcha en cuadrilla de baile se llaman a sí mismos, y unos a los otros entre sí, poetas. No lo son. Son cualquier outra cosa. Esos no van al sepulcro sino por curiosidad, por ver cómo sea, en busca acaso de una sensación nueva, y por divertirse en el camino. İFuera com ellos!
Esos son los que com su indulgencia de bohemios contribuyen a mantener la cobardía y la mentira y las miserias todas que nos anonadan.
(…) Procura vivir en continuo vértigo pasional, dominado por una pasión cualquiera. Sólo los apasionados llevan a cabo obras verdaderamente duraderas y fecundas.
(…) Te consume, mi pobre amigo, una fiebre incesante, una sed de océanos insondables y sin riberas, un hambre de universos, y la morriña de la eternidad. Sufres de la razón. Y no sabes lo que quieres. Y ahora, ahora quieres ir al sepulcro del Caballero de la Locura y deshacerte allí en lágrimas, consumirte en fiebre, morir de sed de océanos, de hambre de universos, de morriña de eternidad.
Ponte en marcha, solo. Todos los demás solitarios iran a tu lado, aunque no los veas. Cada cual creerá ir solo, pero formaréis batallón sagrado: el batallón de la santa e inacabable cruzada.
[UNAMUNO, 2005: 142-151]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quijote (1974)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
UNAMUNO, Miguel de. Vida de Don Quijote y Sancho. Madrid: Catedra – Letras Hispanicas, 2005, 6ª ed., pp. 544. ISBN 84-376-0736-1

domingo, 22 de abril de 2018

Training Standards


© Laura Samsó

A Comissão de Montanhismo da UIAA – União Internacional das Associações de Alpinismo – realizou, nos dias 21 e 22 de Abril, uma reunião de trabalho em Lisboa. Uma oportunidade única para constatar diversas perspectivas e pontos de convergência a nível dos modelos de formação, das metodologias de ensino e das opções técnicas adoptadas em diversos países. A reunião contou com a presença de membros do Canadá, Catalunha, Chipre, Espanha, França, Grã Bretanha, Hungria, Japão, Sérvia e Portugal. Na qualidade de anfitriã, a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) iniciou os trabalhos com uma apresentação sobre o seu modelo de formação – mormente de Treinadores e de Técnicos Especialistas – e o enquadramento legal em vigor no país.

© Alexandra Osório

sábado, 21 de abril de 2018

Pássaros Voam

...voam e também andam

«Entre. Respire e ganhe asas para voar.
A presente exposição de Ruben Art, feita de inquietação e premência, reúne um conjunto de obras com uma temática comum e recorrente.
A cor, pura e decidida, fixa no espaço a memória ancestral e mitológica, ao mesmo tempo que cada traço abre uma nova e renovada oportunidade de leitura.
Anunciando e anunciando-se, o pássaro, elemento fulcral da obra, mensageiro dos deuses, símbolo de leveza e liberdade, liga a terra e o céu, não através do voo, mas através do próprio olhar.»
(texto d’A Exposição Pássaros voam)

Ruben Art ©  Escultura Verde - Walk Like a Blackbird


A primal experiência perceptiva numa primeira aproximação. A visualização imediatista das diversas peças expostas numa fulcral abertura às emoções. A busca da mera imagem eidética ausente, dentro do possível, de associações mentais e, daí, preservada de contaminações simbólicas. Só depois, numa segunda volta, a abertura à livre interpretação do simbolismo. A combinação de formas e de cores despoletam emoções mas também encerram significados. Será essa transferência simbólica da emoção que permitirá definir este tipo de arte?
Pintura esquemática de realidades imaginais expressas através da simplificação e/ou da unidade do efeito principal. Arte simbólica que indiciará uma tendência de progressão do “esquema” na direcção da abstracção ou, quiçá, daí recorrente. Um voo para fora da realidade, para novas ou renovadas realidades. Um domínio notável do absoluto, através da manipulação de elementos fundamentais da estrutura do universo físico, numa pureza mística reiteradamente sob a forma de pássaros, por vezes à lua. É esta tensão entre o realismo esquemático e o abstracionismo, enquanto derivados da natureza, que surge sob a forma pura ou essencial, despida de elementos acessórios.
O facto de sinais concretos poderem exprimir estas imagens – composições de linhas, cores, volumes, etc. – não implica a não utilização da palavra abstracto. Serão esses intensos elementos, de forma e cor, que conferem a estas obras de arte o seu poder estético. Esta nossa leitura resulta não só do produto final expressivo, mas também das origens e dos processos da sua criação que deduzimos; estádios que não deverão ser separados, a nosso ver, numa obra de arte. Nas palavras de Ruben, a sua arte é uma «simbiose do expressionismo alemão com a cultura pop e de rua (grafitti
Impressionante é também a vivacidade das cores e a sua abordagem. Aqui não estamos perante a harmonia ou o confinamento a um conjunto de cores restrito, nem sequer “dependentes” de um tom dominante. O surpreendente segredo residirá no aglomerado vibrante de oposições primárias, revelando mais a riqueza da saturação do que a subtileza da transição. Cores separadas ou até extravasando os intensos e salientes traçados negros das formas.
O contraste entre o vitalismo manifesto nos títulos das obras, sobre os actos/acções de voar e de andar, e as estáticas representações dos pássaros também despertou a nossa atenção. Tal remeterá, mais uma vez, para a arte geométrica, de formas invariavelmente rígidas: aquilo que, ao fim ao cabo, Wilhelm Worringer (1881-1965), identificou como “tendência para a abstracção”. Esta tendência para o abstracionismo de Ruben, a que já tínhamos aludido, ao invés de divagar em torno de experimentalismos livres, trata-se todavia de um estilo pictórico de uma uniformidade – na diversidade – e coerência notáveis. Coerência, desde logo, na temática tendo por elemento base “o pássaro”, com destaque para o black bird, ademais de um estilo muito próprio.
A arte, digna desse nome, implica sempre um acto de criação original: a invenção de uma realidade que antes não existia. A função essencial da arte manifestar-se-á, portanto, num padrão efectivo, resultante da intuição pessoal do artista, que não constituirá expressão estética coerente antes de este ter encontrado a sua forma expressiva. A arte é portanto muito mais do que o processo técnico de utilização de meios através dos quais se reproduz ou representa: o quê? A arte tem por fim revelar não o objecto em si mesmo mas o significado que passa a assumir quando um olhar singular sobre ele pousa. O enorme olhar que cada pássaro retribui a quem o vê também revelará um outro sentido/significado ao/do próprio observador? Vão e vejam!
Esta é uma exposição a visitar e a revisitar, a ver e rever. E não é certamente porque os pássaros também andam, o que muito nos apraz…

Ruben Art ©

INFORMAÇÕES
Local: Edifício 4 de Outubro – Rua da República nº 70, Loures
Período de exposição: 19 de Abril a 30 de Junho de 2018
Horário: terça a sexta-feira (10.00-12.00/13.00-18.00) e sábados (9.00-14.00); encerra aos domingos, segundas e feriados
Entrada Gratuita

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Pedifesto Eco-lógico


Estarei no Mãe Natureza,Terra Viva – Colóquio Internacional, dia 15 de Maio, para apresentar Pedifesto Eco-lógico: passo a passo da teoria à prática.
Pedifesto eco-lógico é uma espécie de manifesto às avessas, sobre como passar de ecologismos teóricos à concretização de eco-acções directas, em três actos: (1) Eco-locação, (2) Eco-lógica e (3) Eco-activismo. Às avessas porque também ou frequentemente de pernas para o ar – que o mesmo será dizer de pés no Céu – e talvez por isso de mãos na Terra, e/ou vice-versa, de modo a possibilitar perspectivas ousadas e pontos de vista invulgares.


Eco-locação porque é fundamental posicionar-se para navegar – onde estou, para onde vou? – na vastidão do tempo e do espaço, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, da geo-história ao Antropocénico, da Terra viva e do ser terráqueo, do passado e do futuro, do aqui e agora.
Eco-lógica ou d’o ecologismo especulativo assente no pensar global: numa abordagem abrangente do vasto condomínio que é o planeta Terra, mas também da globalidade das diversificadas (inter)relações (eco)sistémicas que conduzem a uma visão holística, reverencial e inclusiva, de profundo respeito pelo outro.
Eco-activismo ou d’o ecologismo operativo expresso no agir local: a cognição corporificada ou encarnada na acção directa, na justa medida da mestria do ser paradoxal, por exemplo ao caminhar estando parado ou fazer não fazendo. Uma prática ancorada na simplicidade, humildade e até na renúncia, e expressa através de belos pequenos/grandes actos que importam, como AMAR/Respeitar a sacralidade de todos os Seres ou Cultivar o maravilhamento, as anDANÇAs e os enCANTAmentos…
Como fio condutor o caminhante que ao caminhar se transforma no próprio caminho e, ao fazê-lo, se cumpre naturalmente/Natureza num sentido/sentir não só metafórico mas também concreto. E mais além?...


Não te esqueças de fazer o pino e, 
olhando os pés, ver as estrelas…