terça-feira, 21 de novembro de 2017

Atalhando

Pedro Cuiça © Fojo (Arrábida, 6/10/2017)

«Por meio dos rochedos semeadas
Verei dependurar silvestres plantas
Verdes, em pedras duras sustentadas.
(...)
O que nos largos campos se passea,
Subindo nesta Serra, se caminha
Atalhando o que neles se rodea.»

Frei Agostinho da Cruz

Pedro Cuiça © Portinho (Arrábida, 12/11/2011)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

D'a Razão de Ser

Pedro Cuiça © Urdax (Navarra, 2017)

Nos compêndios de geografia diz-se: «Este país é rico, porque tem petróleo, ou carvão, ou ferro.» Um dia depois do ciclo extractivo, se dirá: «Este país era rico, porque tinha petróleo, ou carvão, ou ferro.» A indústria não é uma riqueza; é a maneira de gastar a riqueza. Riqueza só é a economia criadora, que gera bens necessários. A indústria não é uma economia criadora, mas transformadora. Gasta o que há, transformando-o em supérfluos. O homem não passa sem o bem nascido da terra; mas pode viver sem os bens provenientes da indústria. Assim: precisa de proteínas, mas passa bem sem conservas. A regra particular aplica-se a tudo o mais. O homem precisa de se deslocar, mas passa muito bem sem automóvel. Quando dizemos homem sabemos o que dizemos, e nele não incluímos o ser urbano, que, esse, julga que precisa de carro a gasolina, sem saber a razão de ser homem.
(GOMES, 1985: 16-17)

Talvez seja esta uma das formas de expressar a diferença entre finança (de finar) e eco-nomia (de gerir a casa comum; que é, em última instância, o planeta Terra). Por (des)ventura será este um modo de diferenciar consumir (do latim consumere: destruir) de dominar (no sentido de boa governança: servir como Senhor), numa perspectiva passível de ser designada eco-lógica ou eco-sófica? Um recurso finito (como o petróleo) não é o mesmo do que um manancial renovável (como a água)…

Pedro Cuiça © Urdax (Navarra, 2017)


P.S.: Num contexto de seca, mais ou menos generalizada, no território de Portugal continental também se torna(rá) evidente que nem aquilo que é (supostamente) renovável é finito sem limites e menos ainda infinito.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Pinharanda. A Teologia de Leonardo Coimbra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 200.

Pedro Cuiça © Urdax (Navarra, 2017)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

À Ordem

Pedro Cuiça © Palácio Nacional de Sintra (Sintra, 2017)

«O Universo e a nossa própria vida têm por base o ritmo. Se a árvore ou os nossos pulmões suspenderem o ritmo respiratório, advém a morte. No pólo oposto da euritmia (o «bom ritmo»), a característica dominante dos homens da nossa época é a arritmia, ou perda de ritmo. Daí a destruição da Natureza e das Cidades, por infeliz exemplo. Só um regresso a ritmos saudáveis nos pode salvar. Trata-se de descobrir o ritmo bom, belo e verdadeiro, capaz de arrancar os homens às pulsões doentias, como as obsessões do dinheiro, do sexo ou da comida. Em contrapartida, valha-nos a lição de Henri David-Thoreau, seguida por Raul Lino, que faz suceder à Ordem dos Cavaleiros a antiquíssima Ordem dos Caminhantes

Rodrigo Sobral Cunha (2014)


Pedro Cuiça © Urdax (Navarra, 2017)


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

E ainda...

E ainda sobre o Silêncio.

Na net? © Earling Kagge (2016)


«DE TODOS, a Antártida é o lugar mais silencioso onde estive. Caminhei completamente só até ao Polo Sul, e nessa imensa e monótona paisagem, à parte os sons que eu próprio fazia, não se ouvia mais nenhum ruído humano. Absolutamente só, naquela imensidão gelada, imerso no grande nada branco, podia ouvir e sentir o silêncio. (…)
Tudo parecia completamente liso e branco, quilómetro após quilómetro, durante todo o caminho em direção ao horizonte, à medida que me dirigia para o Sul através do continente mais frio do planeta. (…)
A certa altura, nesse isolamento total, comecei a dar-me conta de que afinal nada era completamente liso. O gelo e a neve dispunham-se formando pequenas e grandes figuras abstratas. A brancura uniforme transformava-se em inumeráveis matizes de branco. Uma tonalidade azul emergia da neve, um tudo-nada avermelhada, esverdeada e vagamente rosada. A paisagem parecia mudar à medida que eu avançava, mas eu estava enganado. O que me rodeava mantinha-se constante; quem mudava era eu. No vigésimo segundo dia, escrevi no meu diário: «Em casa só aprecio “grandes garfadas”. Aqui aprendi a valorizar as alegrias mínimas. Os tons subtis da neve. O vento que começa a amainar. Formações de nuvens. Silêncio.»

Quando era criança, o facto de o caracol ser capaz de transportar a sua casa, para onde quer que fosse, causava-me um enorme fascínio. Durante a minha expedição à Antártida, esse fascínio pelo caracol aumentou. Coloquei num trenó toda a comida e combustível necessários para toda a viagem e nunca abri a boca para falar. Não tinha contacto via rádio, nem vi um único ser vivo durante 50 dias. Não fiz mais do que esquiar em direção ao Sul, dia após dia. Mesmo quando me irritava por causa de uma amarra partida ou porque quase escorregava para dentro de uma fenda, não praguejava. Quando nos irritamos, ficamos na mó de baixo, e isso agrava ainda mais a irritação. Portanto, nunca digo palavrões durante as minhas expedições.
Quando estou em casa, há sempre um carro que passa, um telefone que toca, ou faz ping ou zumbe, alguém fala, sussurra ou grita. Há tantos ruídos que mal os ouvimos todos. Aqui era diferente. A natureza falava comigo através do silêncio. Quanto mais silencioso eu ficava, mais ouvia
[KAGGE, 2017: 21-23]

Na net? © Earling Kagge (2016)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KEGGE, Erling. Silêncio na Era do Ruído. Lisboa: Quetzal, 2017, pp. 160. ISBN 978-989-722-385-3


sábado, 4 de novembro de 2017

Na altiva mente

DR ©

«Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E às suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
Súbdita a frase busca
E o scravo ritmo o serve.»

Fernando Pessoa

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Nas encostas dos Himalaias

«Nas encostas dos Himalaias só existem as encostas dos Himalaias. É à distância, ou na memória, ou na imaginação que os Himalaias assumem toda a sua altitude, e até um pouco mais.»
Fernando Pessoa

António Coelho © Bruno Carvalho no Campo Base do Everest (Himalaias, 2003)

Em memória do amigo Bruno Carvalho; falecido, no Trono dos Deuses (Shisha Pangma, 8013 m), de 31 de Outubro para 1 de Novembro de 2006…

De Cimo a Cimo

LER E ESCREVER

«De quanto se escreve, só amo o que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e descobrirás que o sangue é espírito.
Não é nada fácil compreender o sangue alheio; eu detesto todos os que lêm como ociosos.
Quando se conhece o leitor, já nada se faz pelo leitor. Mais um século de leitores, e o próprio espírito será um fedor.
Que toda a gente tenha o direito de aprender a ler, eis o que com a continuação vos aborrece não somente de escrever mas de pensar.
Outrora o espírito era Deus, depois fez-se homem, agora transforma-se em populaça.
O que escreve com o seu sangue e em máximas não quer ser lido, mas decorado.
Nas montanhas, o caminho mais curto vai de cimo a cimo; mas para isso é preciso ter pernas altas. As máximas devem ser cumieiras, e aqueles a quem as destinas devem ser esbeltos e altos.
O ar leve e puro, o perigo próximo e o espírito pleno de alegre malícia, tudo isto se harmoniza maravilhosamente.
Gosto de me ver rodeado por duendes maliciosos, porque sou corajoso. A coragem afugenta os fantasmas, mas cria os seus próprios duendes. A coragem gosta de rir.
Sinto todas as coisas diferentemente de vós; a nuvem que distingo abaixo de mim, escura e carregada, e de que me rio – é para vós uma nuvem tempestuosa.
Vós olhais para cima, porque aspirais a elevar-vos. E eu, como estou no alto, olho para baixo.
Qual de vós sabe ainda rir, mesmo depois de ter atingido o alto?
(…) Eu aprendi a andar: desde então deixei de esperar que me empurrassem para mudar de sítio.
Vede como me sinto leve; vede, estou a voar; vede, agora vejo-me do alto, como um pássaro; vede, um Deus dança em mim.»
Assim falava Zaratustra.
[NIETZSCHE, 1985:45-47]

Pedro Cuiça © Vale de Baztan (Navarra, 28/Out. 2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.


E, com-tudo:
«Nasceste com asas. Não foste feito para rastejar. Logo não rastejes e assume as tuas asas.»
Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (séc. XIII)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

E folhas ao vento

No coração do silêncio 
[Pedro Cuiça ©  Serra dos Candeeiros (15/Out. 2017)]

«Goza o concreto sabendo-o abstrato.»
Agostinho da Silva

Na sequência de uma formação na área das actividades de ar livre, que decorreu no passado fim-de-semana, dei por mim num estado de espírito incomodativamente perturbante: uma sensação de notório desagrado aparentemente indizível, inominável e, portanto, inenarrável. No entanto, tal aparência não passava disso mesmo, tendo em conta que o fenómeno era não só definível como explanável em grande parte.
O andar a pé pode constituir um ponto de partida e/ou um fio condutor de diversificadas vivências profundas. Por exemplo, na linha da designada “caminhada holotrópica”, em torno da ecosofia e da eco-espiritualidade com base em exercícios direccionados ao sentir, demandar e des(en)cobrir a Natureza. Todavia, no passado fim-de-semana estivemos apartados de tais experimentalismos, nem era suposto, expectável ou desejável que tal ocorresse. Os exercícios incidiram num conjunto de abordagens e de técnicas centradas na prática, mais costumaz, da chamada “caminhada pedestre” ou “pedestrianismo”! A fenomenologia emocional de que padeci não se deveu, contudo, a tais abordagens que, aliás, podem (e devem) ser, por sinal, muito interessantes e susceptíveis de originarem importantes frutos. Ademais, não é condição necessária, e menos ainda obrigatória (?), que as praxis em causa busquem as profundezas ou seja o que for enquanto (espartilhante ou monotonamente) único. A desatenção plena será tão desejável nalgumas circunstâncias quanto a atenção plena noutras, tal como a superficialidade nalgumas ocasiões quanto a profundidade noutras tantas. São estas ambivalências do sentir/fazer que permitem abranger o mais amplo e desejável espectro de possibilidades do ser… A simplicidade não implica ser simplório, ignorante e, menos ainda, fanático ou adepto de tiranias! E, na linha de Agostinho da Silva, apetece-me dizer que não sou nem do ortodoxo, nem do heterodoxo, mas sim do paradoxo.
O incómodo que me assaltou terá sido uma espécie de efeito secundário daquilo que se poderá designar por “distopia pós-moderna anti-natural e pretensamente igualitária”, plena de ruídos, enganos ou leviandades dans l'air du temps… Talvez nesse dia estivesse extraordinariamente saudoso da utopia espartana híper-natural que tanto valorizo e aprecio, da nobreza do ser, do virtuosismo da simplicidade, da perfeição e da elaboração cuidada, da vontade de excelência, do dever a cumprir arduamente, monasticamente… E, simultaneamente, de um sentimento de extraordinária leveza, de uma subtil impermanência, da insubstancialidade e da inter-dependência de/entre todos os seres. Talvez nesse dia estivesse assaltado por recorrentes saudades do futuro, na busca de um novo/velho andar, a-final de um andar bem.
As nossas fraquezas podem ser forças e, muitas vezes, o importante não é o que fazemos mas sim a forma como fazemos. E cada vez que nos “confrontamos” com a Natureza não é possível enganar-nos, tal como não podemos enganar o cavalo se formos o cavaleiro! Qualquer tempo e espaço são sagrados porque estão no interior da consciência. Daí a importância da atenção e da intenção… E, neste contexto, meia palavra deveria bastar ou, melhor ainda, o belo e esclarecedor silêncio.
A linguagem verbal ou escrita não permite apreender a essência do real, exceptuando por vezes através da poesia, e o seu mau uso pode não só gerar graves equívocos como ser extremamente perturbador. Afortunadamente podemos partir do ruído da linguagem até ao silêncio: a pedra angular do carácter e simultaneamente o Grande Mistério. E a verdade encontrar-se-á no coração do silêncio.

«There is a language older by far and deeper than words. It is the language of bodies, of body on body, wind on snow, rain on trees, wave on stone. It is the language of dream, gesture, symbol, memory. We have forgotten this language. We do not even remember that it exists.»
Derrick Jensen

Porque amanhã vem aí chuva... E já não era sem tempo! 
[Pedro Cuiça ©  Serra dos Candeeiros (14/Out. 2017)]


Que tempo o tempo tem? E folhas ao vento... 
[Pedro Cuiça ©  Serra dos Candeeiros (15/Out. 2017)]


O tempo geo... lógico 
[Pedro Cuiça ©  Serra dos Candeeiros (15/Out. 2017)]

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Uma Forma de Transcendência

710 anos após a fatídica sexta-feira 13, de Outubro de 1307, é propício lembrar o bom combate contra "a ignorância, o fanatismo e a tirania)...
Lisboa, 13 de Outubro de 2017

© Nicholas Roerich

O Montanhismo, tal como a escalada, para além da componente física, será também uma profunda experiência emocional, uma atracção pela liberdade dos vastos espaços verticais, pela grandiosa beleza do mundo mineral, pela simplicidade e pela rusticidade. Subir montanhas será igualmente um meio de (re)ligação à natureza, uma forma de transcendência
(CUIÇA, 2010: 27)

© Nicholas Roerich


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Treinadores de Montanha


Na sequência do enquadramento legal que estabeleceu o Plano Nacional de Formação de Treinadores (PNFT) e após um intenso trabalho de definição dos referenciais específicos que culminaram na realização do primeiro Curso de Treinadores de Montanha – Grau I, no ano passado, o Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (FCMP/ENM) acaba de concretizar os dois módulos de aulas e avaliações práticas da segunda edição do curso que segue agora para a fase de estágios. O primeiro módulo, que decorreu na Serra da Estrela, de 22 a 24 de Setembro, centrou-se na avaliação das capacidades de orientação (posicionamento e navegação) dos formandos, tal como nas técnicas de progressão em montanha (marcha e rapel). O segundo módulo, que teve lugar nas penínsulas de Setúbal e Lisboa, de 5 a 8 de Outubro, foi dedicado inteiramente à escalada: técnicas de escalada desportiva e de escalada clássica em rocha (no Fojo – Arrábida), didáctica da escalada (na EAE – Estrutura Artificial de Escalada do Colégio Marista de Carcavelos) e técnicas de rapel (no Penedo da Amizade – Sintra). Os módulos de aulas e avaliações no terreno realizaram-se depois das aulas teóricas das componentes geral e específica, que decorreram em regime e-learning e culminaram na realização dos testes escritos presenciais. Agora seguem-se os respectivos estágios, de cada um dos formandos que obtiveram avaliação positiva, com início em Dezembro e uma duração mínima de 10 meses, numa entidade de acolhimento (associação ou empresa), sob a orientação de um tutor detentor do Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD), de Grau II ou de Grau III, nas modalidades de Alpinismo, Montanhismo e/ou Escalada.
O TPTD de Montanha – Grau I atesta a competência dos respectivos detentores para enquadrarem e treinarem praticantes, num nível de iniciação, em actividades de montanhismo (em média montanha) e de escalada (em vias de um só largo, com acesso pedonal ao topo e à base).

Dia de técnicas de progressão em Montanha [António Ramos © algures (Serra da Estrela, Set. 2017)]

Dia de técnicas de escalada desportiva [Pedro Cuiça © Fojo (Serra da Arrábida, Out. 2017)]

Dia de técnicas de escalada clássica [Pedro Cuiça © Fojo (Serra da Arrábida, Out. 2017)]

Dia de técnicas de didáctica da escalada [Pedro Cuiça © Colégio Marista (Carcavelos, Out. 2017)]

Dia de técnicas de rapel [Pedro Cuiça © Penedo da Amizade (Serra da Sintra, Out. 2017)]

Testes teóricos presenciais [Pedro Cuiça © Sala de Formação FCMP (Lisboa, Out. 2017)]

D'a Rosa...

«O que escala os mais elevados montes ri-se das cenas trágicas do palco como da gravidade trágica da vida.
Corajosos, despreocupados, zombeteiros, imperiosos, assim nos quer a sabedoria; é mulher e só pode amar os guerreiros.
(…) O que temos de comum com o botão de rosa que verga sob o peso de uma gota de orvalho?
(…) E quanto a mim, que gosto da vida, parece-me que aqueles que melhor se entendem com a felicidade, são as borboletas e as bolas de sabão, e tudo o que entre os homens se lhes assemelhe.»
(Nietzsche, 1985: 46)


© da net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O Tentador...

...e/ou aquele que tenta?


Escalar altas montanhas a fim de tentar o Tentador?
(NIETZSCHE, 1985: 29)


A ÁRVORE NA MONTANHA
Zaratustra tinha notado que um mancebo o evitava. E uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que dominam a cidade denominada «Vaca Malhada», eis que encontrou no seu caminho esse mancebo sentado ao pé de uma árvore, dirigindo ao vale um olhar cansado. Zaratustra enlaçou a árvore a que o mancebo se encostava e disse:
«Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos, não seria capaz.
Mas o vento, que não vemos, açoita-a e dobra-a como lhe apraz. As mãos invisíveis são hábeis entre todas em nos dobrar e açoitar à sua vontade».
A tais palavras o mancebo levantou-se estupefacto e exclamou: «Estou a ouvir Zaratustra, e era precisamente nele que estava a pensar».
Zaratustra replicou: «Que te leva a ter medo? O que sucede à árvore sucede ao homem.
Quanto mais aspira a subir para as alturas e para a luz, mais as suas raízes aspiram a mergulhar na terra, nas trevas, nas profunduras – no mal».
«Sim, no mal – exclamou o mancebo. Como é possível teres descoberto a minha alma?»
Zaratustra sorriu e disse: «Há almas que nunca descobriremos, a não ser que as tenhamos inventado».
«Sim, no mal!» – repetiu o mancebo – «Disseste a verdade Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que aspiro a elevar-me às alturas e já ninguém tem confiança em mim. A que se deve isto?
Mudo depressa demais. O meu Eu de hoje contradiz o meu Eu de ontem. Com frequência salto degraus quando subo – e nenhum degrau mo perdoa.
Quando chego acima, acho-me sempre só. Ninguém me dirige a palavra, a solidão glacial obriga-me a tiritar. O que venho eu então procurar nas alturas?
O meu desejo e o meu desprezo crescem a par; quanto mais me elevo, mais desprezo o que se eleva.  Que vai ele procurar nas alturas?
Como me envergonho de subir aos tropeções! Como troço do meu fôlego ofegante! Como odeio aquele que tem asas! Como me sinto cansado de ter subido tão alto!»
Aqui o mancebo calou-se. E Zaratustra, olhando atento a árvore a que estavam encostados, assim lhe falou:
«Esta árvore cresceu solitária na montanha; ultrapassou no seu crescimento homens e animais.
E se quisesse falar, ninguém havia que a pudesse compreender, tanto cresceu.
Agora espera, espera sem cessar – mas o quê? Habita demasiado perto da morada das nuvens, decerto espera o raio que não tardará a vir».
Quando Zaratustra acabava de dizer estas palavras, o mancebo dominado por uma violenta agitação exclamou: «É verdade, Zaratustra, dizes bem. Ao procurar as alturas, aspirava à minha queda, e tu és o raio que esperava. Olha: que sou eu desde que tu nos apareceste? Foi a inveja que te tenho que me destruiu!» Assim falou o mancebo, chorando amargamente. Zaratustra, cingindo-o com o seu braço, levou-o consigo.
E depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim:
«Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos o perigo em que estás.
Ainda não és livre, procuras ainda a verdade. Foi esta procura que te fez passar noites em claro, e exasperou a tua consciência.
Queres escalar as livres alturas, a tua alma aspira às estrelas. Mas os teus maus instintos também têm sede de liberdade.
Os teus cães selvagens querem libertar-te; ladram de alegria na tua cave enquanto o teu espírito tende a abrir todas as prisões.
Tu és ainda, como verifico, um prisioneiro que sonha com a liberdade. Ai! alma destes presos torna-se prudente, mas também astuta e má.
Até o espírito libertado precisa ainda de se purificar. Guarda ainda sobre si a sombra da sua prisão e o cheiro a bafio; é preciso ainda que a sua vista se purifique.
É certo, conheço o perigo em que estás. Mas conjuro-te, em nome do meu amor e da minha esperança, não repudies nem o teu amor nem a tua esperança!
Ainda te reconheces nobre, assim como nobre te reconhecem os que te querem mal e te olham com maus olhos. Fica sabendo que o homem nobre é uma pedra de toque no caminho de todos os outros.
Até para os bons o nobre é um obstáculo, e até quando lhe chamam bom, é tão sòmente uma maneira de o pôr de parte.
O homem nobre quer criar alguma coisa nova e uma nova virtude. O bom deseja as velhas coisas, e conservar tudo o que é velho.
E o perigo para o nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, trocista e destruidor.
Ah! quantos nobres corações assim conheci, que perderam a sua mais elevada esperança! E depois caluniaram todas as elevadas esperanças.
Desde então têm vivido uma vida de minguadas aspirações, feita de alegrias breves, sem ver mais longe que de um dia para outro.
«O espírito é também voluptuosidade», diziam. E quebravam as asas do seu espírito. Agora rastejam e maculam tudo o que consomem.
Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são apenas gozadores. O herói é para eles aflição e espanto.
Mas, em nome do meu amor e da minha esperança, eu te conjuro: não repudies o herói que há em ti! Venera piedosamente a tua mais elevada esperança!»

Assim falava Zaratustra.
(NIETZSCHE, 1985: 47-50)


© da net (?)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.