sexta-feira, 9 de agosto de 2019

For a Walk


«A line is a dot that went for a walk.»
Paul Klee


Glen Sinclair © Walk the Line

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

LISBON WALKS

Good Light Walks, again...

Pedro Cuiça © Lisboa (7/08/2019)

Pedro Cuiça © Lisboa (7/08/2019)

Pedro Cuiça © Lisboa (7/08/2019)

terça-feira, 30 de julho de 2019

ReaVIVAR Montserrat


Montserrat – Santos caminhos

Montserrat eleva-se aos céus constituindo a “montanha” mais emblemática da Catalunha. Essa “montanha santuário”, surpreendente combinação de agulhas altivas e profundos vales encaixados, foi em tempos um local de culto e admiração. Aí, cansam-se as pernas e descansa-se a alma.


Bruno Carreras © Mosteiro de Montserrat

O Parc Natural de la Muntanya de Montserrat situa-se a cerca de 45 quilómetros a NW de Barcelona, na confluência das comarcas de Baix Llobregat, Bages e Anoia. A proximidade de Barcelona e as diversas vias de comunicação permitem o fácil acesso a esse maciço onde o relevo peculiar, preenchido pelo verde da vegetação, convida o visitante a percorrer os seus recantos mais esconsos. A Estació FFCC Aeri de Montserrat, situada junto do rio Llobregat, é um excelente ponto de partida para o excursionista que pretenda percorrer essa serrania catalã.

PONTO DE PARTIDA
Face ao Aeri de Montserrat (135 m), a vertente setentrional da serra estende-se altiva, segundo WNW-ESSE, sobre o Llobregat que corre encaixado a mais de mil metros abaixo do cimo da serra. Essa espectacular vertente de paredes de grande verticalidade (com mais de 300 m de desnível) e que atinge a sua maior altitude no Pic de San Jeróni (1236 m) será vencida através do teleférico que conduz ao Monestir de Montserrat (700 m).
Aqueles que apreciam o património arquitectónico ou a arte sacra não poderão deixar de visitar esse mosteiro beneditino, centro de peregrinação erigido, a partir do século XI, sobre a Ermida de Santa Maria (século VIII). A ermida de San Acisclo também do século oitavo, que se encontra nos jardins do mosteiro, é um marco do início da cristandade em Montserrat. A localização privilegiada, as formas abruptas e a tranquilidade atraíram inúmeros cristãos para a vida de reclusão, oração e penitência.
Deixando para trás o mais prestigiado santuário da Catalunha passa-se pela Fuente del Portal, aproveitando para encher os cantis, e toma-se a escadaria do Pas des Francesos. Os sinos do mosteiro ressoam, pontuando a sacralidade do local e confundindo-se no seu ritmar com a cadência da marcha. Ao atingir a Placeta de Sta. Anna (900 m), já no topo do estreito vale que se subiu, deve seguir-se pelo trilho, voltado a norte, que conduz à Ermida de la Santa Creu (900 m). Por entre densa vegetação, o trilho terroso serpenteia ao longo de vertente suave até essa pequenina ermida. O peregrino não deixará de descer até à Ermida de Sant Dimes, no entanto, será conveniente prosseguir para oeste até Pla de la Trinidad, pois o percurso que nos espera ainda é longo. A vista que se estende para norte, sobre o Llobregat e Monistrol de Montserrat, acompanha o caminhante até à Ermida de la Trinidad (965 m) que se encontra bastante degradada. Daí, até à Ermida de Sant Benet (situada mais a sul), a vereda passa nas faldas de grandes monólitos conglomeráticos: Quarta de Trinidad (1033 m), Carota (1040 m), Pebrot (1040 m), Momieta (1060 m), Molina (1121 m).

Bruno Carreras © Basílica de Montserrat

ESCOLA DE ESCALADORES
A Ermida de Sant Benet (970 m) é muito frequentada por escaladores constituindo um local bastante aprazível para pernoitar e “campo base” para quem pretenda trepar as paredes que aí se encontram. Montserrat foi a grande escola de alpinismo catalão: em 1922, Lluís Estasén e os seus companheiros iniciaram essa prática nos monólitos montserratinos.
O trilho continua, por vezes imperceptível, até atingir o Camí Antic de Sant Jeroni (a cerca de 935 m de altitude). Esse caminho segue o vale densamente arborizado paralelamente ao Camí Nou de Sant Jeroni ligando-se a este junto da base do Serrat del Patriarca (1050 m). Este último é bastante frequentado pelos visitantes, pelo que, percorrer o Camí Antic será mais gratificante. Continuando a marcha, chega-se à Capella de Sant Jeroni (1145 m) onde será conveniente descansar um pouco para retemperar forças. Daí, poder-se-á ir até ao ponto culminante da serra, o Cim de Sant Jeroni (1236 m), para apreciar as amplas vistas que se estendem em seu redor. No entanto, o percurso segue, para sul, pelo Camí dels Francesos, assinalado a cor-de-laranja, devendo abandonar-se o Camí de Sant Jeroni na curva onde o piso se encontra cimentado (1165 m). Chegados ao Coll de l’Ajaguda (820 m) vira-se à direita, para norte, seguindo pelo Camí del Torrent del Migdia, assinalado a branco, que sobe o empinado Canal del Migdia. Esse profundo sulco divide o maciço em duas áreas distintas: Montserrat Ocidental ou de Ecos e Montserrat Oriental ou de Sant Jeroni. Nesse troço do percurso irão surgir diversos trilhos mas o caminhante deverá seguir sempre em frente até ao Coll de Migdia (1035 m), lá em cima entre os Ecos e as Talaies, sob pena de ir dar a paragens assaz difíceis. O caminho de pé-posto até ao colo é de fácil progressão, no entanto, pode dar-se o caso de se perder devido à exuberância da vegetação. Caso se perca, será recomendável retroceder pelo caminho percorrido. Perder-se poderá proporcionar o conhecimento do “Montserrat profundo”, ficar rodeado por inóspita vegetação e/ou ter de ‘rapelar’ por algum canal, se conhecer as técnicas de escalada e ter o material apropriado.

Bruno Carreras © Ermida de Santa Magdalena

PALÁCIOS E ALBERGUES
Do Coll de Migdia desce-se, para a vertente setentrional da serra, pelo Camí de la Font del Llum até ao Monestir de Santa Cecília (680 m). Junto desse mosteiro encontra-se o Refugi Bartolomeu Puiggròs onde se poderá pernoitar. Este, com capacidade para 45 pessoas, encontra-se aberto aos fins-de-semana, feriados e durante todo o Verão.
Do Mosteiro de Santa Cecília segue-se pela estrada de alcatrão (FP-1103) e, após ultrapassar o túnel rodoviário, continua-se pela Baixada dels Matxos. Passado o Monestir de Sant Benet (525 m) percorre-se a Drecera de l’Angel até à estrada alcatroada (BP-1121) e, daí, até Monistrol de Montserrat (180 m). Esta pequena e típica vila, situada nas faldas da serra, é o local ideal para o caminhante repousar antes do termino do percurso. Será de destacar, como pontos de interesse, a ponte gótica sobre o Llobregat, o Palau dels Priors de Montserrat, o aqueduto de Cal Pla, a Plaça del Bo e as diversas casas senhoriais da povoação.
De Monistrol de Montserrat até à Estació FFCC Aeri de Montserrat o percurso processa-se ao longo da Carretera 14411 de Manresa a Bellver de Cerdanya. A escarpada vertente setentrional irá acompanhar o excursionista ficando gravada na lembrança de quem palmilhou os solitários espaços serranos.

Pedro Cuiça · revista Forum Ambiente – Maio de 1997, pp. 64-66



Bloco de notas
Acessos: de Barcelona, segue-se pela Autopista A-7, toma-se a Autovia II até Terrasa e, daí, a Carretera 14411 que liga a Manresa passando pela Estació FFCC Aeri de Montserrat e Monistrol de Montserrat (note-se que existem várias opções).
Extensão: 16 km
Desníveis acumulados: + 715 m; - 1280 m
Duração média: cerca de 5 horas (o horário indicado depende do grau de treino e do ritmo de marcha de cada um)
Dificuldade: exige-se um certo treino e alguma experiência montanheira
Época aconselhada: Primavera-Outono. Durante o Verão será recomendável começar o percurso pela frescura da manhã. Em pleno Inverno o frio acentua-se a partir das 14 horas, não sendo raro ocorrer algum nevão que cubra o terreno e oculte o caminho.
Pernoita:
- Refugi Bartolomeu Puiggròs (680 m): (00 346) 412 07 77
- Hostal de Montserrat (Monistrol de Montserrat): (00346) 835 02 33 – 835 00 70
- Parque de Campismo do Mosteiro de Montserrat (aberto de Maio a Setembro, situado no caminho de Sant Miquel): (00 346) 835 02 51
- Existem também inúmeros abrigos naturais onde se poderá bivacar
Telefones úteis:
- Guàrdia Civil: (00346) 825 01 60
- Creu Roja (Castellbell): (00346) 828 20 20
- Centre Hospitalari: (00346) 873 23 50


ATENÇÃO: já passaram mais de duas décadas sobre a publicação deste percurso, na revista Forum Ambiente, e portanto alguns dados, designadamente no Bloco de Notas, encontram-se manifestamente desactualizados.

domingo, 28 de julho de 2019

Montserrat del nord


VOLTA AL MITE – CANIGÓ

(…) L’etimologia de la paraula Canigó suposadament és preromana. El mot actual seria l’evolució de l’antic Kanikono: el gegant blanc. El nom de la muntanya a diversos indrets del massís.

El perquè del mite
El gran escriptor Josep Pla parlava del Canigó com «la muntanya diamantina: coberta de neu, lleugerament rosada, semblava un enorm diamante; sobre les seves espatlles paquidèrmiques, la geometria de les seves arestes guspirejava en lluïssors roses i blaves. La muntanya tenia una fascinadora indiferència, una força d’una bellesa enlluernadora, que imantava la mirada». El Canigó s’aixeca imponente entre les comarques nord-catalanes del Conflent, el Vallespir i el Rosselló, i es divisa proper des de l’Empordà i la resta de comarques de Girona. En tota la serralhada pirenaica no trobem uns desnivells tan destacats (2700 m) com els que presenta aquest massís des de les planes que el voregen, situades al nível del mar. No és estrany que fins ben entrat el segle XVIII es mantigués la crença imemorial que el Canigó era la muntanya més alta dels Pirineus. La seva proximitat al mar, a menos de 50 km en línia recta, el convertia en una senya inequívoca per a tots els navegants.
El mite creix, però, quan aquest massís esdevé l’emblema geogràfic per excel.lència del território catalã. Aixó succeí durant la Renaixença, el moment d’arrencada del ressorgiment nacional de Catalunya. Jacint Verdaguer, artífex de la Renaixença literária, va escriure l’any 1886 l’obra èpica Cainigó. Convertia així el massís en protagonista d’una epopeia que tenia com a escenari el conjunt de la serralhada pirinenca. En paraules de l’historiador Jean-Pierre Bobo, «el Canigó és un lligam potente que torna a reunir, a finals del segle XIX, les dues Catalunyes després de tres segles de separació pel Tractat dels Pirineus. El renaixement catalã que es desenvolupa a ambdós costats de la frontera, la presa de consciència  de catalanitat, passa pel Canigó. A través d’aquest moviment polític i social Catalunya afirma la seva identitat i el massís pren el rol de muntanya-símbol a partir de la publicació del gran poema Canigó de Jacint Verdaguer». Per la seva part, Jordi Vila-Abadal, exmonjo del monestir de Sant Miquel de Cuixà, afirma que «el Canigó és un símbol de la nostra identitat; i, com ella, sotmès malauradament al domini d’altri. Més enllà del Canigó-muntanya hi ha un Canigó-símbol que per a cada u té un significat particular i intransferible, però que, col.lectivament mirat, representa allò de comú que tenim els ciutadans de països de llengua catalana i ens confereix identitat».

Una sèrie de tradicions comunes acosten encara avui aquests territoris, la mès emblemática de les quals és l’encesa de la Flama del Canigó. Durant tot l’any, la Casa Pairal de Perpinyà acull un foc que es manté encès des 1955. Cada 22 de juny a les 22.30 h, el cim del massís llueix de mil focs després que un grup d’excursionistes del Cercle de Joves de Perpinnyà hagin pujat la Flama fins als 2’784 m d’altitud. A trenc d’alba del dia de la revetlla el foce s traslada, flama a flama, fins a tots els racons dels Països Catalans. De Prats de Molló a Alacant i de Tamarit de Llitera a Ciutadella, la Flama del Canigó és la guspira que aviva els centenars de fogueres que il-luminen la nit de Sant Joan, una festa ancestral de benvinguda a l’estiu heretada dels primers pobladors de la Mediterrània. Eduard Voltas, exdirector de les revistes Descobrir Catalunya i Sàpiens, ressalta el simbolisme de la muntanya: «Per causes històriques, el Canigó há esdevingut una meca de Montserrat del nord des el punt de vista de la mitologia nacional i en una Meca de l’excursionisme català».
(…) Quant a l’arquitectura religiosa, el massís ha estat utilitzat des la prehistòria com a espai sagrat (dòlmens, etc.). A l’Alta Edat Mitjana es confirma aquesta tendência amb la construcció de nombrosos edificis religiosos a l’entorn de la muntanya. Amb petits ermites o grans monestirs, la muntanya es cristianitza i neix un art romànic catalã amb influencies hispàniques i llombardes que trombem, amb la seva màxima esplendor, als monestirs de Sant Miquel de Cuixà i Sant Martí del Canigó. El professor i illustrador rossellonès Josep Ribas s’hi refereix: «El Canigó tenia una triple vocació: a més de ser una terra de llibertat i un espai pastoral i miner, era un centre d’alta espiritualitat, amb abadies romàniques i esglésies barroques».
A finals del segle XX, el Canigó canviarà radicalmente la cara amb l’obertura massiva del turisme. El presidente del Club Alpí Francès de París, Charles Durier, conquerit per la bellesa del paratge, decideix que «caldria obrir un pas per facilitar l’accés al cim». Així, té el dubtós honor d’emprendre una fase de destrucció del medi natural per satisfer les «necessitats» d’oci de la classe burgesa de les ciutats. Eren altres temps, i el 18 d’agost de 1886 es van utilizar tres càrregues de dinamita per crear la bretxa Durier. Aquesta és l’era del turisme burgès, nascuda a principis de segle arran del termalisme a Vernet o Prats de Molló. El xalet de Cortalets marca l’inici de la domesticació del massís. Inaugurat el 4 de setembre de 1889 pel Club Alpí Francès, fou un dels primers refugis dels Pirineus i un dels punts estratègics del pirineisme catalã. (…)
[GRIVÉ, 2019: 41-45]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GRIVÉ, Xavier. Volta al Mite. Barcelona: Federació d’Entitats Excursionistes de Catalunya, revista Vèrtex – especial estiu, nº 285, Jul.-Ago. 2019, pp. 38-50.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A modéstia das cabras


La modèstia de les cabres

Podria dedicar aquesta columna a denunciar com es desfan les zones altes de Montserrat a causa de les cabres i els cabrons que, moguts per la fam, consumeixen el sotabosc de les canals i els jardins penjats d’aquesta muntanya plena de racons insólits. Podria alertar que amb els xáfecs de qualsevol estiu la força accelerada de l’aigua s’endurà la terra i els còdols que Montserrat ha acumulat allà durant segles. Estaria bé apuntar que a les zones baixes com el camí de l’Arrel o el Monestir, la vegetació és frondosa, selvática i espectacular mentre que com més amunt i més lluny de la gente, menys vegetació hi ha. Podríem pensar que els únics que es beneficien de la presencia de cabres a Montserrat són quatre caçadors rics, amb ganes de gastar un dineral per quatre trets i un parell de banyes sobre la llar de foc a la cabana del bosc. Em podeu acusar de simplista, si voleu. Escrivint això semblaria que discrepo de les politiques del Departament de Territori i Sostenibilitat. I és clar, això és obvi.
Podria escriure de tot això, però deixaria passar l’oportunitat d’explicar-vos aquella vegada que amb la suor al front avançava per una aresta verticalíssima al Puntal de l’Albarda. Feia la primera ascensió d’una via amb nom de contesa electoral, sol, i no volia deixar gaires expansius a la roca. Després d’escalar un tram al límit, tan lluny com estava de l‘última assegurança, vaig resoldre que aquella quinzena de metres eren com a mínim de sisè grau. Vaig dedicar una hora més a acabar el llarg, tirant d’estreps, falques de fusta, pitons i ganchos fins a la reunió. Un bom amic i encara més bom escalador va anar-hi a fer la primera repetició. Sabent que l’hauria provada d’escalar tota en lliure, vaig preguntar-li pel grau, encuriosit. Jo l’havia graduada 6a i A2+. L’amic em va mirar somrient i em va dir: -6a. No hi vaig caure i vaig demanar-li: -I l’A2? I sorneguer va repetir: -6a. Vam riure.
El grau és subjectiu, sí. Orientatiu, també. Depèn del moment de cadascú, de la forma física i psíquica. Però té per objectiu establir uns paràmetres que classifiquin les dificultats. Som víctims de les generacions que ens han precedit i d’oberturistes contemporanis que en un moment probablement més testosterònic han proposat graus més baixos i collats del que hauria estat encertat. De vegades, assajant els llargs prèviament oberts per dalt o amb els estreps; ni tan sols escalant-los sempre de primer i proposant graus baixos tibant de segon o amb les assegurances já col-locades. D’això se’n diu modèstia, falsa modèstia o, com va dir el mestre, vanitat oculta. L’altre dia vaig escalar una clássica de dificultat dels anys 80 a l’Aeri, molt celebrada, i encara em cou per dins tanta modèstia. La modèstia de les cabres.

Dani BRUGAROLAS, opinião – rubrica Encordats (Vertex nº 284, 2019: 11)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BRUGAROLAS, Dani. La modèstia de les cabres. Barcelona: Federação Catalã de Alpinismo e Escalada; Revista Vertex, nº 284, Maio/Junho de 2019, pp. 98.  


quarta-feira, 3 de julho de 2019

LISBON WALK...

LISBON WALKscapes, again?

"Novos caminhos, caminhos mais actuais, uma orientação nova."

Ventos de Mudança...

Pedro Cuiça © Baixa de Lisboa (03/07/2019)

D'a Natureza Selvagem


Regressemos, mais uma vez, à bela prosa de Gary Snyder ou, dito de outra forma, à sua forte originalidade, através de poderosíssimas aproximações às origens, primais ou primevas. Afinal (ou a começo?), a busca de alguma palavra sábia plasmada n’A Prática da Natureza Selvagem (Antígona, 2018)...
  

© DR

Para os povos pré-agrícolas, os locais considerados sagrados, e aos quais se dedicavam especiais cuidados, eram obviamente selvagens. Nas primeiras civilizações agrárias, a terra cultivada de forma ritual, ou pertencente aos templos, era por vezes considerada sagrada. Os cultos de fertilidade dessa época não exultavam necessariamente com a fertilidade de toda a natureza, focando-se antes nas suas próprias colheitas. A ideia de cultivo foi conceptualmente alargada para descrever uma espécie de adestramento em formalidades sociais que garantiam o acesso a uma elite. Através da metáfora do «cultivo espiritual», um homem sagrado mondou da sua própria natureza o seu lado selvagem. Isto é teologia agrária. Mas mondar o lado selvagem da natureza de membros dos clãs Bos e Sus – ou seja, o gado bovino e os porcos – transformou gradualmente esses animais, que no estado selvagem são espertos e vigilantes, em indolentes máquinas de produzir carne.
Certos bosques da floresta original sobreviveram até aos tempos clássicos enquanto «santuários». Eram encarados com muita ambivalência pelos governantes da metrópole. Se sobreviveram, foi porque as pessoas que trabalhavam a terra ainda escutavam em parte o apelo dos antigos costumes, e porque ainda se transmitiam os saberes anteriores à agricultura. Os reis de Israel começaram a derrubar os bosques sagrados e os cristãos remataram o serviço. A ideia de que a «natureza selvagem» podia ser também «sagrada» reentrou no Ocidente com o Romantismo. Esta redescoberta oitocentista da natureza selvagem constitui um complexo fenómeno europeu – foi uma reacção ao racionalismo formalístico e ao despotismo do iluminado, uma reacção que invocou sentimento, instinto, novos nacionalismos e uma cultura popular sentimentalizada. Só em culturas muito antigas e centradas num lugar é que ouvimos falar em bosques sagrados, terra sagrada, num contexto de prática e crença genuínas. Parte desse contexto é a tradição dos comunais: a terra «boa» torna-se propriedade privada, enquanto a selvagem e o sagrado são partilhados.
[SNYDER, 2018: 108-109]

© DR

Estávamos a circular de carrinha por uma pista de terra batida a oeste de Alice Springs, na companhia de um ancião pintubi chamado Jimmy Tjungurrayi. Enquanto rolávamos pela estrada poeirenta, sentados na caixa da carrinha, ele começou a falar para mim muito rapidamente. Estava a falar de uma montanha próxima, contando-me uma história sobre alguns wallabies que vieram para essa montanha no tempo do sonho e cometeram algumas tropelias com certas raparigas-lagarto. Ainda mal tinha terminado essa história e já estava a contar outra a respeito daquela colina ali, e outra ainda. Eu não conseguia acompanhá-lo. Ao fim de meia hora disto, compreendi que aquelas histórias eram para ser contadas a caminhar, e que eu estava a ser submetido a uma versão acelerada de algo que poderia ser contado vagarosamente, ao longo de vários dias de caminhada. O Sr. Tjungurrayi sentiu-se benevolamente obrigado a partilhar comigo um conjunto de saberes em virtude do simples facto de eu estar ali.
Então, evoquemos um tempo em que se percorriam a pé centenas de quilómetros, num passo acelerado e amiúde durante a noite, viajando de noite e dormindo de dia à sombra das acácias, e no qual essas histórias eram contadas em andamento. Nessas viagens com alguém mais velho, a pessoa recebia um mapa que podia memorizar, cheio de lendas e música, e também de informações práticas. Se partisse sozinho, podia cantar aquelas músicas e regressar. E talvez pudesse viajar para um lugar onde nunca havia estado, conduzido pelas canções que aprendeu.
Montámos o acampamento junto de um manancial chamado Ilpili, onde encontrámos alguns pintubis da região desértica circundante. O manancial Ilpili tem cerca de um metro de largura e quinze centímetros de profundidade, numa pequena depressão coberta de mato e onde abundam os tentilhões. As pessoas acampam a quatrocentos metros de distância. Num raio de dezenas de milhares de quilómetros quadrados, aquele é o único manancial que permanece com água em anos de seca. Um local cujo livre acesso de todos é garantido pelo costume. Sentados em volta de uma pequena fogueira, Jimmy e os outros velhos ficaram até tarde a cantar para nós um ciclo de canções de viagem, percorrendo um trecho de deserto em imaginação e através da música. Mantiveram uma batida rítmica constante fazendo entrechocar dois bumerangues. Entre uma canção e a seguinte, faziam uma pausa e trauteavam uma ou duas frases, debatiam brevemente as palavras da canção e recomeçavam de novo. Um acedia a deixar o outro começar. Jimmy explicou-me que eles têm tantos ciclos de músicas de viagem que é difícil lembrarem-se de todos, e que têm de estar constantemente a ensaiá-los.
Todos os serões começavam com a pergunta: «O que vamos cantar?», e a resposta era algo do género: «Vamos cantar a caminhada até Darwin.» Começavam e debatiam e cantavam, marcando sempre o ritmo com os bumerangues. (…) Os cantores paravam sempre que lhes apetecia. Eu perguntava ao Jimmy: «Até onde conseguiram chegar esta noite?» E ele respondia: «Bom, já fizemos dois terços do caminho até Darwin.» Isto pode ser visto como um exemplo, entre muitos, do modo como paisagens, mitos e informações eram interligadas nas sociedades sem escrita.
[SNYDER, 2018: 112-114]

© DR

Na árida beleza das neveiras de montanha e dos glaciares nascem os riachos que irrigam os campos da agroindústria no grande Vale Central da Califórnia. A caminhada, passo a passo e respiração a respiração, de um peregrino do deserto por um trilho acima, até essas neveiras, carregando tido às costas, é um conjunto de gestos tão antigo que infunde uma profunda sensação de júbilo físico e mental.
Isso não sucede apenas a caminheiros, claro. Acontece também a quem navega no oceano, ou de caiaque em rios e fiordes, a quem cuida de uma horta, descasca alhos ou simplesmente se senta numa almofada de meditação. O objectivo é contactar intimamente com o mundo real, o eu real. O sagrado refere-se àquilo que nos eleva (não apenas aos seres humanos) dos nossos pequenos eus para o vasto universo mandala de montanhas-e-rios. A inspiração, a exaltação e a compreensão não terminam à porta da igreja. Enquanto templo, a natureza selvagem é apenas um começo. Não devemos insistir na singularidade da experiência extraordinária, nem esperar abandonar o pântano político e entrar em perpétuo estado de compreensão superior. O melhor propósito de tais estudos e caminhadas é podermos regressar às terras baixas e ver toda a paisagem à nossa volta – agrícola, suburbana, urbana – como parte do mesmo território – nunca inteiramente destruída, nem jamais inteiramente desnaturada. A terra pode ser restaurada, e os seres humanos podiam viver dela em números consideráveis. Enquanto caminhamos pelas ruas de uma cidade, o Grande Uro-Pardo caminha connosco, o Salmão sobe connosco o rio.
[SNYDER, 2018: 126-127]

© DR


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SNYDER, Gary. A Prática da Natureza Selvagem. Lisboa: Antígona Editores Refractários, 2018, pp. 256. ISBN 978-972-608-326-9



domingo, 16 de junho de 2019

Fome de Andar

...ou andar com fome?

Hoje que é o último dia da 89ª Feira do Livro de Lisboa (16 de Junho) e na sequência da publicação de um post no dia da sua inauguração (29 de Maio) – (An)dar na Bibliofagia – e de dois posts referentes a livros comprados nas incursões cirúrgicas a que fizemos alusão – a-LUZ-cin-ação e D’a natural prática –, encerramos este ciclo de publicações com alguns apontamentos referentes a um conjunto de obras de Henry Miller. Desta feita, O Tempo dos Assassinos, da editora Antígona (2016) – a que retornámos, passados mais de 30 anos, após a primeira leitura sob a chancela da Hiena Editora (1985) –, Reflexões sobre a morte de Mishima (&etc, 1983) e Viragem aos Oitenta (Capra Press e VS – Vasco Santos Editor, 2019).

© Arthur Rimbaud (1854-1891)


Por três vezes, durante a adolescência, Rimbaud chega a Paris e a Bruxelas; por duas vezes a Londres. De Estugarda, depois de ter aprendido alemão, parte a pé, através de Vurtemberga e da Suíça, em direcção à Itália. De Milão avança para as Cíclades, via Brindisi, afinal para apanhar uma insolação e ser remetido para Marselha, via Livorno. Percorre a Escandinávia e a Dinamarca, integrado numa feira ambulante. Passa por Hamburgo, Amsterdão e Roterdão, parte para Java, alistado no exército holandês, do qual deserta rapidamente. Ao passar por Santa Helena, a bordo de um navio inglês que se recusa a atracar, salta borda fora, tendo no entanto sido apanhado e trazido para bordo antes de ter conseguido chegar à ilha. De Viena sai escoltado pela polícia até à fronteira bávara, por vagabundagem; daí, acompanhado por outra escolta, é trazido para a fronteira da Lorena. Nestas viagens e surtidas anda sempre sem dinheiro, sempre a pé, e quase sempre de estomâgo vazio. Em Civitavecchia é posto em terra, com uma febre gástrica provocada pelas paredes do estomâgo devido à fricção das costelas contra o abdómen. Causa última: ter andado em excesso. Na Abissínia cavalgou em excesso. Tudo em excesso. Esforça-se desumanamente. O objectivo está sempre mais além.
Entendo tão bem esta obsessão! Se me ponho a rever a minha vida na América, parece-me que, de facto, percorri milhares e milhares de quilómetros de estomâgo vazio. Sempre à procura de umas moedas, de uma côdea de pão, de um trabalho, de sítio para onde pudesse atirar com o corpo. E sempre à procura de um rosto amável!
Às vezes, por muita fome que tivesse, era capaz de ir para a estrada, fazer sinal a um carro e pedir ao condutor que me deixasse onde lhe apetecesse, só para poder mudar de cenário. Conheço milhares de restaurantes em Nova Iorque, não como cliente, mas por ter passado horas em pé, à porta, a olhar esfomeado para clientes sentados à mesa. Ainda consigo recordar-me do cheiro de certos carros de venda de cachorros em determinadas esquinas. Consigo ver ainda os cozinheiros vestidos de branco, por detrás das vitrinas, a fritar waffles e farturas nas frigideiras. Por vezes acredito que nasci com fome. E à fome estão associados o andar a pé, o vagabundear, o andar à procura, de um lado para o outro, febrilmente e sem saber o quê. (…) Caminhei vezes sem conta desde o centro de Brooklyn até ao coração de Manhattan, debaixo das mais variadas condições atmosféricas e com os mais variados graus de fome. Chegou a acontecer que, perfeitamente exausto, incapaz de dar mais um passo, fui obrigado a dar meia volta e voltar para trás. Não me custa nada compreender como é possível treinar homens para fazerem marchas forçadas de extensão fenomenal de barriga vazia.
Mas uma coisa é caminhar pelas ruas da nossa cidade natal por entre rostos hostis, e outra, muito diferente, é vaguear pelas estradas dos estados vizinhos. Na nossa terra a hostilidade resume-se à indiferença; mas numa cidade que nos é estranha, ou nos espaços abertos entre duas povoações, é sempre qualquer coisa claramente hostil que nos vem receber. À nossa espera estão cães selvagens, caçadeiras, sheriffs e vigilantes de todas as espécies. Se somos estranhos numa dada região, nem nos atrevemos a deitar no chão frio. Caminhamos, caminhamos, caminhamos sempre. Sente-se nas costas o cano gelado de um revólver que nos manda andar mais depressa, mais depressa, mais depressa. E não é no estrangeiro, é no nosso próprio país que isto acontece. Os japoneses serão cruéis e os hunos serão bárbaros; mas que demónios são estes que são idênticos a nós, que falam como nós, que vestem a mesma roupa, comem a mesma comida e que nos perseguem como cães? Não serão estes os piores inimigos que um homem pode ter?
[MILLER, 2016: 34-36]

© Henry Miller (1891-1980)

SE AOS OITENTA você não é aleijado ou inválido, se se mantém saudável, se ainda aprecia um bom passeio [a pé], uma boa refeição (com todos os requintes), se consegue dormir sem antes tomar um comprimido, se pássaros e flores, as montanhas e o mar ainda o inspiram, você é um indivíduo muito afortunado e devia ajoelhar-se de manhã e à noite e agradecer ao bom Senhor o seu poder conservador.
Se é jovem em anos mas já cansado em espírito, já a caminho de se transformar num autómato, pode fazer-lhe bem dizer ao seu chefe – entredentes, claro – «Vai-te foder, Jack! Tu não és o meu dono».
[MILLER, 2019: 9-10]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MILLER, Henry. Viragem aos Oitenta. Lisboa: Capra Press e VS – Vasco Santos Editor, 2019, pp. 48. ISBN 978-989-99811-6-4
MILLER, Henry. O Tempo dos Assassinos – Um estudo sobre Rimbaud. Lisboa: Antígona, 2016, pp. 160. ISBN 978-972-608-283-5
MILLER, Henry. O Tempo dos Assassinos. Lisboa: Hiena Editora, 1985, pp. 128.
MILLER, Henry. Reflexões sobre a morte de Mishima. Lisboa; &etc, 1983, pp. 60.






quarta-feira, 12 de junho de 2019

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Back to Lisbon Walks…


Pedro Cuiça © Penha de França (Lisboa, 12/06/2019)

D'a natural prática

© Algures na Net

Na sequência do post que publicámos acerca da 89ª Feira do Livro de Lisboa e do comentário sobre um dos livros adquiridos no nosso primeiro raid cirúrgico a esse evento – Alucinar o Estrume, de Júlio Henriques –, é chegada a altura de levantarmos um pouco do véu de outra extraordinária obra da mesma profícua colheita: A Prática da Natureza Selvagem (Antígona, 2018), de Gary Snyder. 
Figura grada da geração beat, Snyder ficou imortalizado, tal como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, em Os Vagabundos do Dharma (escrito por este último). Gary Snyder é um activista da ecologia profunda, escritor e tradutor, poeta e montanhista, doutorado em antropologia e geólogo amador, estudou línguas orientais e budismo zen (no Japão e na Índia, onde residiu), entre outros inúmeros e inusitados predicados. A Prática da Natureza Selvagem trata-se de um “hinário”, deste ímpar mestre da natureza primal, da qual destacamos algumas alusões à prática.





«As montanhas azuis estão sempre a caminhar.»
Gary Snyder (2018: 131)

«Se duvidas de que as montanhas caminham, desconheces o teu próprio caminhar.»
Gary Snyder (2018: 138)

«(…) uma montanha pratica sempre em qualquer lugar.»
Gary Snyder (2018: 141)


(…)
Um outro aspecto era o da espiritualidade. A minha via pessoal é uma espécie de budismo antigo, que permanece ligado às raízes animistas e xamânicas. O respeito por todos os seres vivos é um elemento basilar dessa tradição. Tentei ensinar outras pessoas a meditar e a penetrar nas áreas selvagens da mente. Como sugiro num destes ensaios, a própria linguagem pode ser encarada como um sistema selvagem.
Um termo-chave é «prática», que significa um esforço intencional para nos sintonizarmos melhor com nós próprios e com o modo como o mundo é realmente. «O mundo», com a excepção de uma minúscula intervenção humana, é fundamentalmente um lugar selvagem. É aquele lado do nosso ser que dirige a respiração e a digestão, e que quando observado e apreciado constitui uma fonte de profunda inteligência. Os ensinamentos do budismo incidem sobretudo sobre a prática, e muito pouco sobre a teoria – embora esta seja tão cativante que, ao longo da história, levou a que muita gente se desencaminhasse um pouco, deliciosamente.
A Prática da Natureza Selvagem sugere que nos empenhemos em algo mais do que a virtude ambientalista, a perspicácia política ou um activismo útil e necessário. Temos de nos enraizar na escuridão do nosso eu mais profundo. Uma recolha de ensaios posterior, A Place in Space, propõe que boa parte desse enraizamento ocorre em comunidades que existem, quer o saibamos quer não, dentro das «nações naturais» formadas por cadeias de montanhas, cursos de água, planícies e pântanos.
(…) Algo que não víamos talvez com tanta clareza era que a realização pessoal, inclusive a iluminação, é outro aspecto do nosso lado selvagem – uma ligação do selvagem dentro de nós com os processos (selvagens) do universo.
[SNYDER, 2018: 8-9]

A prática no terreno, em «campo aberto», é o mais importante. Caminhar representa a grande aventura, a primeira meditação, um exercício de robustez e de alma essenciais para a humanidade. Caminhar é o exacto equilíbrio de espírito e humildade. Caminhando ao ar livre, percebemos onde existe alimento. E há tantos relatos directos e verídicos que provam que «o teu rabo é a refeição de alguém» – o que é uma forma brusca de dizer interdependência, interconexão, «ecologia», ao nível onde conta, e também algo que nos ensina a estarmos atentos e preparados. Há uma instrução extraordinária acerca das plantas e animais e seus costumes, uma instrução empírica e irrepreensível, que nunca os reduz a objectos ou mercadorias.
[SNYDER, 2018: 30]

Há inúmeras maneiras de caminhar – desde atravessar em linha recta o deserto a serpentear através de um matagal. Descer cristas rochosas e escarpas abruptas é em si mesmo uma especialidade. É uma dança irregular, de passos cambiantes, sobre lajes e cascalho. A respiração e os olhos seguem continuamente esse ritmo desigual, que nunca é regular nem compassado, mas flectido – com pequenos saltos, desvios, escolhendo sempre o lugar à vista para firmar o pé na rocha, continuar, avançando em ziguezague e de forma inteiramente intencional. O olho alerta fixado em frente, escolhendo o próximo apoio de pé, sem nunca esquecer o presente passo. O corpo-mente está de tal modo unido a este mundo difícil que executa estes movimentos sem esforço, desde que tenha alguma prática. A montanha acompanha a montanha.
[SNYDER, 2018: 151]

Experimentei pela primeira vez um desses picos distantes aos quinze anos, quando subi o monte Santa Helena. Acordando no limite florestal às três da manhã, e levantando o acampamento para poder estar no gelo do glaciar às seis; assistindo ao róseo amanhecer a dois mil e setecentos metros de altitude, de pé numa ladeira gelada, com o gelo a estalar sobre os pitões* das botas de neve – eis alguns dos prazeres esotéricos do montanhismo. Estar imerso em gelo e rocha e frio e espaço superior é submeter-se a uma fantasmagórica, rigorosa iniciação, a uma transformação. Estar acima de todas as nuvens com apenas mais algumas montanhas altas, também ao sol, com o mundo humano ainda adormecido sob a sua cinzenta manta de nuvens aurorais, constitui um dos primeiros passos rumo àquilo a que Aldo Leopold chama «pensar como uma montanha». Nos anos subsequentes, escalei a maior parte dos cumes do Noroeste – monte Hood, o monte Baker, o monte Rainier, o monte Adams, o monte Stuart, e outros.
[SNYDER, 2018: 157]



NOTA Pedestris
*A tradução correcta é “crampões”: dispositivos providos de picos metálicos (geralmente 12 pontas) que se colocam nas botas de montanha para possibilitar a progressão em neve dura, gelo e/ou terreno misto.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SNYDER, Gary. A Prática da Natureza Selvagem. Lisboa: Antígona Editores Refractários, 2018, pp. 256. ISBN 978-972-608-326-9