sexta-feira, 24 de maio de 2019

Geo-grafias visionárias


Em A Arte de Andar (Pedestris, 24 de Junho de 2014) fiz alusão à referência sagaz de Kenneth White: «Se Thoreau utiliza os pés fá-lo, afinal de contas, em benefício da cabeça ou, digamos, do seu ser, do seu corpo-espírito inteiro. Não é um desportista que sai de casa para fazer quilómetros, não faz footing como costuma dizer-se. Pratica a caminhada inteligente.» E é precisamente de uma caminhada inteligente (e seus rumos inerentes), nos seus mais diversos sentidos concretos e metafóricos, que os humanos (e os não-humanos?) necessitam nestes tempos de inegável e inevitável transição. Tempos que carecem de abordagens integradas e integrantes, sistémicas e inclusivas. A coexistência e a convivência de diferentes escal(ad)as de tempo(s) e de espaço(s), de diversas ortodoxias e heterodoxias – sob vivências assumidamente paradoxais –, designadamente no que concerne às nossas necessidades, urgem face a uma catástrofe anunciada pela denominação “Antropocénico”1
Um reajustamento (verdadeiramente) “verde” da pirâmide das necessidades de Maslow encaminhado para a superação (melhor será dizer “transcendência”) dos seres humanos e daí de todos os (entre)seres? Será certamente um interessante caminho a experimentar e (quem sabe?) a cumprir-se. 
As leituras e as interpretações de geo-grafias visionárias, porque de início essencialmente visionadas, enriquece(ra)m-se com a simultaneidade das paisagens sonoras, odoríferas e de outros apelos sensoriais, constituindo o ancora-d’ouro ou o porto de partida (e de chegada) que permite, para além de vastíssimas deambulações, a coincidência de aparentes extremos: ser original (indo às origens) e ao mesmo tempo navegar em novas caravelas do espírito rumo ao por-vir, aqui e agora.

© Flauta de Luz nº 6

O colóquio internacional Linhas da Terra – Percursos geofilosóficos e geopoéticos no Antropoceno, realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nos dias 21 e 22 de Maio, em homenagem a Kenneth White e que contou com a sua participação, revelou uma interessantíssima polifonia de linguagens que confluíram, contudo, em numerosas pontes: marcas, sem dúvida, «de uma vida comum e passante» nesta partilha coetânea da condição seminal de ser terráqueo. Durante o evento foi apresentado o último número (6) da revista Flauta de Luz, por parte do escritor (e seu editor) Júlio Henriques, de que se destaca um dossier precisamente sobre Kenneth White.

O «nómada intelectual» que eu sou, e que desenvolveu, com comprovados exemplos, a teoria-prática do nomadismo intelectual no livro L’Esprit nomade, atravessa territórios e culturas em busca de elementos susceptíveis de ser incluídos numa possível cultura mundial. Situado no extremo limite crítico da sua «própria» civilização, este nómada abre um caminho explorando margens de pensamento e de experiências esquecidas. Lucidamente. Sem se converter seja ao que for. Sem esperança. E por não viver de esperanças, nunca posso sentir-me desesperado. Quando certos jornalistas me perguntam, em entrevistas, se sou optimista ou pessimista, respondo: nem uma coisa nem outra – possibilista.2



NOTAS
· [1] O termo “Antropocénico” foi cunhado pelo biólogo Eugene Stoermer, em 1980, e foi popularizado pelo químico e prémio Nobel Paul Crutzen, em 2000, para enfatizar o impacte antrópico sobre o planeta Terra. O começo do Antropocénico corresponde à Revolução Industrial (finais do século XVIII) e ao fim do Holocénico – a época geológica que teve início há cerca de 12 mil anos com o final da última glaciação (Würm) e que, juntamente com o Plistocénico, faz parte do sistema/período mais recente da tabela cronoestratigráfica (o Quaternário ou Antropozóico), tabela onde estão definidos os “tempos geológicos” e os seus respectivos nomes e durações. 
· [2] In Em diálogo com Kenneth White – Entrevista de Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques (revista Flauta de Luz – Boletim de Topografia nº 6, 2019, 110-11)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pelo bem comum


Não por um mal menor mas, sim, por um bem maior...

«ci siamo dentro. Siamo immersi mani e piedi in una battaglia culturale che non ha colori né partiti. Non combattiamo solo contro qualcosa o qualcuno, ma combattiamo per. Dalla negazione stiamo passando alle proposte. Non solo ci schieriamo contro i cambiamenti climatici, contro gli sprechi, contro l’incuria. Ma ci impegniamo per trasmettere un nuovo concetto di sostenibilità, per il bene comune, per la tutela ambientale e paesaggistica. L’insegnamento più forte ed efficace, negli ultimi tempi, ci arriva da una ragazzina svedese di sedici anni. Da Greta Thunberg, che ha dato origine agli scioperi scolastici per il clima, abbiamo imparato molto. E molto abbiamo ancora da imparare. Ha tenuto in mano il cartello com su scritto Skolstrejk för klimatet e da lì ha avuto inizio il movimento #FridayforFuture. In migliaia sono scesi in piazza, in Italia come altrove. Senza colori né partiti. Greta è un esempio per tutti. Non solo perche ci ha ricordato cosa eravamo. C’è stato un tempo in cui, lontani dall’esistenza di movimenti ecologisti o ambientalisti, ovvero quando questi due concetti dovevano ancora essere elaborati e compresi, c’era chi si prendeva cura del paesaggio attorno a sé. (…) Ma qualcosa è cambiato, qualcosa sta cambiando. A cominciare dalle nostre montagne, polmoni natural di un mondo in asfissia. E così, passo dopo passo, ci riappropriamo di quella innata consapevolezza che ci portava a sceglire la strata migliore senza sapere che migliore lo era davvero. Per questo dobbiamo ringraziare Greta e tutti quei giovani che come lei hanno deciso di combattere. Giovani che sembrano sempre più scettici di fronte a chi indica loro una via, siano essi partiti, enti o associazioni. Ma in questa battaglia invisibile, dove ognuno può contribuire com piccoli gesti, riscopriamo il significato dell’essenza stessa della comunità. Quella che si prende cura di sé. Nessuno escluso. Neppue il nostro amato e abusato pianeta.»

Luca CALZOLARI (2019: 17)


© algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CALZOLARI, Luca. Invisible agli occhi. Bologna: Club alpino italiano; Montagne360 – La revista del Club alpino italiano, nº 80, Mai. 2019, pp. 80.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Motricidade transcendente


A Ciência da Motricidade Humana (CMH), por mim teorizada, foi apresentada, publicamente, nas minhas provas de doutoramento, em 1986. Porque estuda o movimento intencional da transcendência, é uma ciência social e humana. Aliás, a transcendência é uma dimensão específica humana, inédita nas demais criaturas, já que se afirma como ruptura e como projecto como criação de um mundo novo. [SÉRGIO, 2016: 158]

A reforma permanente (na escola, no lazer, no treino, nas competições, nas federações, nas associações e no clubismo em geral) que deverá ser levada a cabo por agentes de prática diligente e rigorosa, mormente os licenciados pelos cursos universitários de motricidade humana e desporto. Reforma permanente ainda porque há-de ser a Escola, através de uma séria educação lúdica e desportiva, o primeiro espaço do lazer desportivo e até de uma certa competição, onde pela transcendência o «agente do desporto» tome consciência de que não é objecto da história, mas sujeito criador da própria história. Na escola não há lugar à «especialização precoce», mas ao cultivo daquelas virtudes que preparem a criança, não para o conformismo mas para «incoformar-se», à alta competição, sem escrúpulos, da vida hodierna. Não vivemos em pleno hipercapitalismo, onde o individualismo, e exclusão, o progresso linear e quantitativo imperam? Desporto que, no Lazer, na Saúde, na Educação, no Trabalho, na Alta Competição (ou Alto Rendimento) apareça como o corpo em ato, movimentando-se intencionalmente, de acordo com uma ética e uma estética da existência. O movimento é sinal e fator de vida. Praticá-lo, nomeadamente como ginástica, ou jogo, ou desporto, é contribuir para a saúde e o bem-estar da pessoa e da sociedade. A preservação natural, os espaços verdes e um urbanismo arquitetado em critérios ecológicos deverão ter-se também em conta, no desenvolvimento desportivo. A cidade civilizou o cidadão, mas as megalópolis afastam-no da natureza e do seu semelhante. As percentagens assustadoras das doenças mentais, nervosas e cárdio-circulatórias traduzem um custo real. [SÉRGIO, 2017: 33-34]
(…) Do que venho de escrever se infere que os licenciados em Motricidade Humana, ou em Desporto, podem fazer sua, tanto no treino, na competição, ou na escola, a paráfrase, que eu proponho, das palavras de Kant e Hans Jonas: «Pratica desporto de tal maneira que o resultado da tua prática promova e fomente a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra». [SÉRGIO, 2017: 44]
(…) O modelo, no desporto hodierno, ainda intimamente ligado à cultura do ter e não à cultura do ser. Ora, é o homem que se é que triunfa no treinador (ou no jogador, ou no dirigente) que se pode ser. No desporto entendido como movimento intencional, ele é mais escola do que circo – nele, vive-se num «fieri» (tornar-se) permanente. [SÉRGIO, 2017: 53]

Urge ainda clarificar a noção de movimento humano. Segundo esta filosofia da encarnação, fica reforçada a convicção que o corpo tem uma intencionalidade dinâmica, que se dirige para as coisas e para os homens, com os quais compartilha o Mundo. O movimento humano oferece uma certa significação perceptiva, forma com os fenómenos exteriores um sistema tão intimamente relacionado que a percepção se compreende no deslocamento dos órgãos perceptivos, encontrando neles, não uma explicação expressa, mas pelo menos o motivo das transformações que acontecem na vida. Existe um movimento intencional do corpo, diferente do simples movimento no espaço, e que tange ao caminho e abertura para as coisas, para os outros. [SÉRGIO, 2018: 103]

© Pedro Cuiça:  o Prof. Dr. Manuel Sérgio (à esquerda) e o treinador Fonseca e Costa (à direita). Foi um grato privilégio receber os ensinamentos do Prof. Manuel Sérgio (e, claro, do Prof. Fonseca e Costa) de viva-voz, no seminário “Debater a Motricidade Humana” que decorreu no Dia da Actividade Física (6 de Abril de 2019), na Biblioteca Municipal de Odivelas. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SÉRGIO, Manuel. Desporto em Palavras. Porto: Edições Afrontamento/Plano Nacional de Ética no Desporto, 2016, pp. 176. ISBN978-972-36-1453-4
SÉRGIO, Manuel. Para um Desporto do Futuro. Lisboa: Instituto Português do Desporto e Juventude, 2017, pp. 64. ISBN978-972-36-1587-6
SÉRGIO, Manuel. Para uma Epistemologia da Motricidade Humana. Lisboa: Nova Veja, 2018, pp. 208. ISBN 978-989-750-076-3

As linhas da Terra


As linhas da Terra
Percursos geofilosóficos e geopoéticos no Antropoceno

Colóquio Internacional 
Homenagem a Kenneth White com a sua presença

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - Anfiteatro III 
21 e 22 de Maio de 2019


A língua que passa pelo mundo, traçando nela linhas, é uma língua aberta à polifonia que aí ecoa. É atravessada pela polifonia dos elementos que se movem incessantemente. A polifonia das expressões de milhares de culturas humanas. E a polifonia dos inúmeros seres que vivem connosco. Todas essas vozes – que chegaram a participar da língua aqui evocada – entraram hoje em tumulto enquanto outras foram silenciadas definitivamente. É aquilo a que os humanos chamam o Antropoceno, a Era em que o homem põe fim à diversidade das expressões do mundo teorizando ao mesmo tempo a sua própria supremacia. 
Cada linha traçada na terra é a marca de uma vida comum e passante. Todos estamos na Terra, mas a consciência dessa situação pode aí ser escutada pelo nomadismo assumido por um corpo ou pela palavra que prolonga esse movimento. A todos os participantes é pedido um certo percurso, partindo de alguma posição na Terra e, daí, traçando linhas que atravessarão as demarcações estabelecidas por esquemas de pensamento.
Este encontro é também uma homenagem ao poeta, escritor e pensador Kenneth White, criador da Geopoética, propondo um exercício de escuta e expressão em comum com uma variante possível desta língua, a Geofilosofia. Nem o filósofo está liberto do que de poético lhe trazem as vozes intratáveis da Terra, nem o poeta se encontra dispensado dos saberes inteligíveis ou da reflexão epistémica que o seu ofício contém.
«Espaço», «energia» e «luz» são, segundo o próprio, três palavras-chave deste autor. Sabendo de que modo a civilização recorreu a elas, a pergunta pertinente não será tanto a de saber o que fizemos delas e das forças que lhes estão associadas, uma história dos equívocos que nos dispensaram do planeta, mas antes aquela que se questiona sobre o que nelas permanece ignorado, votado à inutilidade e, ainda assim, indispensável a uma vida que se redescobre inteira nesta Terra.
Texto: Comissão Organizadora




PROGRAMA

21 de Maio

14:30 – Abertura 

15:00-16:30 
Paulo Borges – O Tempo do Sonho. Poesia Cósmica e Metamorfose nas Culturas Indígenas
Paula Morais – Yoga e os mitos da presença: a dança, a escuta, a transformação
 Pedro Cuiça – Do (a)vistar ao ser (a) Montanha: uma forma de (geo)poética

16:30-16:45 – Pausa

16.45-17:00 – Apresentação do nº 6 da revista Flauta de Luz, que inclui um dossier «Kenneth White», pelo editor, Júlio Henriques


17:00-17:30 – Jorge Leandro Rosa – «Não com a língua, mas com a vida». Acontecimento e grito

17:30-19:00 – Kenneth White (conferência) – The Rediscovery of the World / A Redescoberta do Mundo

19:00-19:30 - Eternal Forest (filme) – apresentação e leitura de poemas pela cineasta e artista Evgenia Emets 


22 de Maio

15:00-16:30 
 Maria José Varandas – A Tragédia dos Comuns e o Último Homem
 Felipe Milanez – Título a indicar
 Ilda Castro - Animalia Vegetalia Mineralia: conexões e movimentos: uma reflexão sobre os sistemas humanos e os sistemas mais-que-humanos, macro e micro, na Natureza e no Antropoceno-Capitaloceno.

16:30-16:45 – Pausa

16:45-17:45 
 Alexandra Pinto – Um olhar cinematográfico sobre o Antropoceno
 Isabel Alves – My First Summer in the Sierra e The living Mountain: as  linhas e as vozes da montanha – A demanda de uma geopoética da esperança

18:00-19:30 – Sur les chemins du Nord profond (52 mn) – Filme realizado por François Reichenbach e apresentado por Kenneth White, argumentista e protagonista. De Tokyo a Hokkaïdo, Kenneth White no percurso traçado por Matsuo Basho. Debate

19:30 – Conclusão



Comissão Científica: Viriato Soromenho-Marques, Paulo Borges, Jorge Leandro Rosa
Comissão Organizadora: Paulo Borges, Paula Morais, Eduardo Jordão, Marco Martins
Organização: Seminário Permanente Vita Contemplativa. Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea – Grupo Praxis do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa / Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa


terça-feira, 9 de abril de 2019

Cursos de Treinadores



O Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (FCMP/ENM) vai realizar, em 2019, mais uma edição (a quarta) do Curso de Treinador de Pedestrianismo – Grau I e do Curso de Treinador de Montanha – Grau I. Estas acções de formação possuem uma componente geral (comum e idêntica a ambos os cursos), uma componente específica (diferente para cada um dos cursos) e um processo de estágio (desenhado por cada estagiário em conjugação com o tutor e o coordenador de estágio).
A componente geral, que decorre na totalidade em regime e-learning, exceptuando o teste teórico final presencial, corresponde a uma carga horária de 41 horas. A componente específica realiza-se em regime b-learning, ocorrendo as aulas teóricas on-line e as aulas/avaliações teórico-práticas presencialmente. A componente específica do Curso de Treinadores de Pedestrianismo tem uma carga horária de 45 horas, no total, e envolve um fim-de-semana de aulas e avaliações teórico-práticas na Serra de Candeeiros e sua envolvente. A componente específica do Curso de Treinadores de Montanha possui 80 horas, no total, e dois módulos de aulas/avaliações teórico-práticos: um fim-de-semana na Serra da Estrela e quatro dias em Estrutura Artificial de Escalada (EAE), no Fojo (Serra da Arrábida) e no Penedo da Amizade (Serra de Sintra). Os estágios têm duração mínima de 10 meses e decorrem numa entidade de acolhimento (associação ou empresa), sob a orientação de um tutor detentor do Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD), de Grau II ou de Grau III, nas modalidades de Alpinismo, Montanhismo e/ou Escalada (no caso do Curso de Montanha de Grau I) ou na modalidade de Pedestrianismo (no curso homónimo de Grau I).
Ambos os cursos estão inseridos no Plano Nacional de Formação de Treinadores (PNFT) e atribuem, após frequência e avaliação positiva nas três fases, o Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD), em conformidade com a Lei nº 40/2012, de 28 de Agosto. O TPTD de Montanha – Grau I atesta a competência dos respectivos detentores para enquadrarem e treinarem praticantes, num nível de iniciação, em actividades de montanhismo (em média montanha) e de escalada (em vias de um só largo, com acesso pedonal ao topo e à base). O TPTD de Pedestrianismo – Grau I atesta a competência dos respectivos detentores para enquadrarem e treinarem praticantes, num nível de iniciação, em percursos pedestres com a duração de um ou mais dias, mas que não envolvam pernoita ao ar livre.


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Gestão Ambiental


Pedro Cuiça © Passadiços do Paiva (Arouca, 2018)

O Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (FCMP/ENM) vai realizar, no dia 16 de Maio, mais uma edição das Palestras da Montanha, desta feita sob o tema Gestão Ambiental (d)e Percursos Pedestres. Esta acção de formação contínua é validada pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), atribuindo por isso Unidades de Crédito para a revalidação de Títulos Profissionais de Treinador de Desporto em Pedestrianismo, nos seus vários graus: I, II e III.
A prática de Pedestrianismo – tal como o desenho, a implementação e a utilização de Percursos Pedestres, mormente Pequenas Rotasâ (PRâ) e Grandes Rotasâ (GRâ) – não deve estar alheada de questões essenciais no âmbito da gestão ambiental. O desempenho adequado das funções de Treinador de Pedestrianismo deve necessariamente integrar estratégias e metodologias de gestão ambiental, sob diversas formas e abordagens, sendo esse o enfoque desta edição das Palestras da Montanha.
De entre os objectivos específicos desta palestra destacam-se o conhecimento (1) de conceitos basilares no âmbito da gestão ambiental, (2) das características e especificidades de diversas tipologias de Percursos Pedestres, (3) das estratégias de sensibilização e educação ambiental, (4) do enquadramento legal basilar sobre Ordenamento do Território com implicações no âmbito dos Percursos Pedestres, (5) das diferentes tipologias de intervenções nos Percursos Pedestres, no domínio das infraestruturas, e suas implicações no âmbito da conservação da natureza e, por último, (6) das especificidades da pegada ecológica e matrizes de impactes ambientais da prática de Pedestrianismo.

Pedro Cuiça © Grande Rota e Caminho de Santiago (Barcelinhos, 2016)

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A palestra foi acolhida com muitíssimo interesse por parte dos participantes, tendo sido levantadas diversas questões e estabelecidos pequenos "debates". A dinâmica que se verificou fez com que os trabalhos se prolongassem bastante para além da hora prevista, mas tal revelou-se muitíssimo gratificante tendo em conta a profundidade e a qualidade das abordagens, designadamente por parte de Técnicos de Percursos Pedestres e de técnicos do ICNF que estiveram presentes no evento.

Rúben jordão © Sala de Formação na sede da FCMP (16/Mai. 2019) 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A-CORDA

Pedro Cuiça © a primeira corda (04/Abr. 2019)

Se la corda è (anche) poesia
«Dedichiamo quindi queste pagine alla corda. Oggi come in passato, il nostro immaginario è conquistato dall’idea dello scalatore ritratto all’attacco, in parete o in vetta, accompagnato da una presenza imprescindibile: la corda, appunto, che rappresenta quell’indispensable ausilio per la sicurezza in ogni nostro passo verso la meta. La corda non è solo garanzia di una Maggiore sicurezza, ma è spesso una protesi del corpo dell’alpinista, una compagna fedele. O, assecondando la definizione dello scrittore Andrea Gobetti, un “amante”. In questo rapporto di simbiose e fidúcia, la corda è qualcosa in più di un semplice elemento della nostra attrezzatura. A volte si crea un rapporto emotivo o affettivo com quell’oggestto che può cambiare colore, dimensione, lunghezza. Ma al quale, di fatto, in grande parte affidiamo la nostra vida. La corda va saputa usare e i corsi organizzati dal Cai servono anche a questo. Ma a noi piace indagare non solo la sua dimensione materiale – narrando le innovazioni tecnologiche e i test che ne certificano la resistenza da cui depende la nostra sicurezza – ma anche la sua dimensione più poetica e sentimentale. (…) Noi però aggiungiamo che la corda è anche un elemento d’unione, è costruttice di relazioni. Infatti ci leghiamo in cordata. Insomma, la corda è anche poesia. “Il sogno canta su una corda sola” scriveva Alda Merini. Una corda che può avere colori e dimensioni diverse.»
Luca Calzolari (in Montagne360 nº 79/2019, p. 16)

Pedro Cuiça © cordas há muitas (04/Abr. 2019)

Un amore di corda
«La prima corda è come il primo amore: non si scorda mai. La mia era una 9 millimetri, color rosso scuro, com una miríade di pelucchi tanto pungenti che la facevano sembrare uno di quei bruchi ispidi e pelosi in cui ci imbattiamo di tanto in tanto. Quando era bagnata e gelava diventava un vero filo di ferro ma, in fin dei conti, era quello che volevamo, imbevuti come eravamo delle gesta di Bonatti o Diemberger. Usai la povera rossa per guidare alcuni amici su una insignificante cimetta alla base della Cresta est/nord-est del Pizzo Ventina e, rimbambito dall’orgoglio per quel compito ben eseguito, la dimenticai lassù. Fortunatamente me ne accorsi quasi subito.

NOSTALGIA DI QUELLA PRIMA CORDA
Chissà che fine há fatto la mia prima corda. Adesso che ci penso quasi mi commuovo perche mi accorgo che a quell’intreccio di fili sono misteriosamente legato come a una persona che mi pare dia ver trascurato e che ora vorrei rivedeere. Come facciamo tutti, l’avrò lasviata da parte perche invecchiata, perche per sicurezza se no doveva prendere una nuova e lei, silente, se n’è stata raggomitolata per mesi, magari per anni, in qualche cassetto o appesa in soffitta finché, senza il minimo rimorso, l’avrò regalata a qualche muratore o a un contadino, oppure a qualche neófita che muoveva i primi passi fra le cime. Cerco di ripercorrere la storia della mia 9 millimetri rossa ma il ricordo sfuma.* (…)»
Popi Miotti (in Montagne360 nº 79/2019, p. 18)


Pedro Cuiça © há corda(da)s especiais  - Ben Nevis (Escócia, 2007)**


Pedro Cuiça © há corda(da)s especiais (04/Abr. 2019)**

NOTAS
*A minha primeira corda também foi de 9 milímetros e vermelha, da marca espanhola Roca, e não só me recordo dela como ainda a guardo “religiosamente”, apesar de já terem passado mais de três décadas sobre as nossas primeiras experiências de escalada. Uma corda é um elo de ligação e essa primeira corda desempenhou esse papel, de conexão, de forma tão exemplar quanto marcante. Uma oportunidade única de recordar velhos companheiros de cordada, amigos para (toda) a vida, como o António Varela e o Alexandre Rodrigues (que também se tornou meu compadre). 
**A primeira corda será marcante mas existem outras cordas tão ou mais importantes. Para mim, uma corda que merece uma especial menção é a dupla da Black Diamond, roxa e verde, de 8.1 milímetros, que me acompanhou em algumas actividades memoráveis. Depois de ultrapassada a sua vida útil, no âmbito da escalada, foi cortada em diversos troços e ainda hoje as utilizo para ensinar técnicas de corda curta em formações de progressão em marcha de montanha. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La revista del Club alpino italiano, nº 79, Abril 2019.



terça-feira, 26 de março de 2019

Subida ao Pico


Subida ao Pico – Um miradouro sobre o Atlântico
(revista OZONO, Outubro de 2000)

A subida ao Pico é certamente um dos percursos mais gratificantes do arquipélago dos Açores. O antigo caminho da Madalena à montanha ainda resiste ao passar dos anos. Por entre muros envoltos em história, surgem testemunhos de outros tempos sobre a pedra e o areão.

Pedro Cuiça © Montanha do Pico (Março/2019)

O Pico destaca-se, a grandes distâncias, na paisagem oceânica. Avista-se de todas as outras ilhas do Grupo Central, constituindo um marco e um barómetro para os homens do mar, bem como um tentador desafio para todos aqueles que o sonham subir. Curiosamente, é das outras ilhas, sobretudo S. Jorge e Faial, que esse grandioso vulcão, um cone quase perfeito, revela a sua mística. O seu aspecto está em constante mudança, consoante a nebulosidade, a altura do dia ou as estações do ano. Mas é no Inverno que a montanha se torna etérea, quando o topo se cobre de um manto branco de neve.
O guia Carlos Lopes, dos Bombeiros Voluntários da Madalena, disse-nos que, noutros tempos, “ia-se por veredas” e a subida fazia-se a pé ou a dorso de animal. O trajecto por Casas Brancas era o utilizado. As pessoas subiam até à furna, durante a tarde, descansavam um pouco e recomeçavam a subida de madrugada. A furna era um ponto de referência para quem ascendia ao Pico.
“Os guias mais antigos, de que se tem conhecimento, eram o chamado ‘Salsa’, da Madalena, e um outro que era o Vitorino, de S. Mateus; também havia o senhor Faria”. Para o comandante Furtado, dos Bombeiros Voluntários, “esse senhor é que balizou todos esses cabeços que aí estão com marcos”.

Por velhas veredas
Tal como os antigos, iniciamos o percurso, ao nível do mar, junto do cais da Madalena. Dois velhos pescadores olham admirados para um barco que parte carregado de turistas, para a observação de baleias, enquanto um deles diz para o outro: “Estão com os coletes vestidos com medo que o barco revire”. Os tempos são definitivamente outros…1
Passamos à beira da Igreja de Sta. Maria Madalena (séc. XVII) e seguimos rumo a Cabo Branco. A estrada asfaltada, onde surgem desvios que conduzem a cerrados e curraletas, passa junto do Império desse pequeno povoado. Por entre os milheirais distinguem-se os maroiços: amontoados de pedras, com forma de pirâmides truncadas, resultantes da despedrega dos solos.
No sítio da Ladeira Grande o caminho atravessa a estrada regional (ER 3-2ª) para prosseguir em piso de bagacina avermelhada. Os campos de cultivo, onde abundam as videiras e as figueiras, encontram-se agora ocupados por urze (Erica azorica), feto-ordinário (Pteridium aquilinum), incenso (Pittosporum undulatum), faia-das-ilhas (Myrica faya) e silvas (Rubus ulmifolius).
O caminho desemboca num outro, aparentemente sem continuação, mas prossegue, no mesmo rumo, meio oculto pela vegetação. Ladeado por muros de pedra solta, o velho carreteiro encontra-se atapetado por uma escoada de lava negra onde se notam, por vezes, os sulcos de rodados de carroças. O silêncio é apenas interrompido pelos passos, pelo resmalhar da vegetação e pelas aves canoras no seu incansável chilrear.
O caminho volta a atravessar a estrada regional no Alto do Barreiro, a nordeste do Cabeço da Cova (575 m) e, mais à frente, volta a fazê-lo novamente. O aumento da altitude traduz-se em marcadas mudanças na paisagem. Agora sobe-se por terrenos de pasto baldios – as pastagens de altitude do flanco ocidental do Pico – até atingirmos a estrada de alcatrão junto de Currais do Morais. Altura de virarmos à direita, seguindo pelo asfalto, para, pouco depois, atalharmos por uma vereda que passa junto do Cabeço da Bola (1052 m) e do Cabeço do Capitão (1136 m).
Mais acima, à beira da estrada de alcatrão, surge a vereda que sobe ao Pico, a menos de 500 metros de distância do Cabeço das Cabras (1231 m). No início, a vereda, a cerca de 1200 metros de altitude, existe uma placa que indica a distância até ao topo do Pico (4,7 km) e até ao Algar da Furna Abrigo (900 metros). Uma outra adverte para os perigos da subida.

Pedro Cuiça © Montanha do Pico (1999)

Lavas envoltas em bruma
A ascensão ao Pico faz-se, hoje em dia, partindo de carro, ao final da tarde, da Madalena até ao local onde se encontra o caminho de pé-posto que conduz à Furna Abrigo2. Sítio onde alguns optam por descansar um pouco e voltar a partir por volta das duas da manhã. Outros sobem directamente até ao Pico para aguardarem calmamente a alvorada. O nascer-do-sol provoca, por vezes, efeitos magníficos (como a sombra do pico projectada). Da estrada até ao cume demora-se geralmente três a três horas e meia. Para baixo, demora-se cerca de duas horas e meia3.
Tal como muitos outros que nos precederam, também nos instalámos junto da Furna. Durante a noite passaram vários grupos a caminho do cume. O amanhecer trouxe consigo altos-cúmulos dispersos num ténue céu azul que foi encobrindo, progressivamente, de nuvens baixas. Às seis horas já se formara uma massa compacta e leitosa que encobriu o céu. Está na altura de partir para o cume, antes que piore o estado do tempo.
A vereda prossegue em direcção ao topo da montanha. O trilho, aos 1420 metros de altitude roda à direita, rumo a sudeste, em direcção à Lomba de S. Mateus (1472 m). Mas, sensivelmente a “meio caminho”, volta-se para leste em direcção ao cume da montanha. Os primeiros marcos, que assinalam o trajecto até ao cume, surgem a cerca de 1535 metros de altitude. O excursionista deve manter-se no trilho assinalado, uma vez que, ao afastar-se, corre sérios riscos de se perder.
A vegetação vai-se amoitando e ficando esparsa ao longo da subida. Acima dos 1500 metros de altitude apenas subsistem plantas rasteiras. A erva-úrsula (Thymus caespititius) e a queiró (Daboecia azorica) encontram-se na plena época da floração em Junho e Julho, colorindo as encostas superiores da montanha de rosa e cor-de-vinho.
O nevoeiro e a chuva acompanharam-nos até ao cume. Acima dos 1800 metros de altitude cruzamo-nos com um grupo que desce e, já praticamente no topo do Pico Grande, passaram mais dois grupos de excursionistas. Altura para nos abrigarmos sob o guarda-chuva, descansar um pouco, comer algo e esperar algumas melhorias no estado do tempo. Mas a meteorologia está definitivamente predisposta a ocultar qualquer vista panorâmica. Aliás, para além dos 30 metros é difícil vislumbrar algo!
Ao chegar ao topo da bordeira, o trajecto roda, à direita, para seguir o acesso mais fácil ao interior da cratera – uma depressão cimeira com cerca de 600 metros de diâmetro e 30 metros de profundidade, cuja bordeira se apresenta preservada apenas nos flancos sul e oeste. Um carreiro íngreme dá acesso ao fundo da cratera. No interior da depressão, atapetada por escoadas lávicas, ocorrem diversas fumarolas. Aí pode apreciar-se uma subespécie de bremim (Silene vulgaris crateriola) que ocorre unicamente na cratera. O melro-comum (Turdulus merula) também surge na cratera, dando vida à paisagem agreste, que mal se vislumbra.
Na base do carreiro de acesso à cratera encontra-se um abrigo circular formado por um mureto de pedras soltas. Sabemos que o Piquinho se encontra à nossa frente, encoberto pelo nevoeiro, mas apenas se distingue o branco leitoso das nuvens. O Pico Pequeno ou Piquinho, o cume da montanha, é um cone secundário situado no bordo leste da cratera. Com cerca de 70 metros de altura, as vertentes são formadas por basaltos encordoados, onde surgem fumarolas.
Subir ao Piquinho é atingir um magnífico miradouro, a mais de dois mil metros acima do Atlântico, do qual se vislumbram os mais abrangentes panoramas do arquipélago. Avistam-se as ilhas do Faial (a oeste), S. Jorge e Graciosa (a nordeste) e a Terceira (a es-nordeste). A sudeste, estende-se o planalto central da ilha onde se distinguem os cones secundários, as lagoas, as manchas de vegetação e os prados. Hoje apenas nos é dado ver o marco quadrangular (com a gravação “IPCC 1994”) e uma placa metálica (cujas inscrições foram apagadas pelos elementos) que coroam o cume.

Pedro Cuiça © Montanha do Pico (Março/2019)

Vizinhos do vento
Depois de apreciar as vistas panorâmicas, se tiver mais sorte do que nós, e de gozar um descanso merecido, será altura de pensar em descer. Nunca se deve ignorar que a descida da montanha merece tantos cuidados quanto a subida.
Os marcos que indicam o trajecto de descida foram colocados na década de 50. Na altura, o percurso mais perto para subir o Pico partia de S. Mateus, daí que os marcos tenham sido colocados para servirem de acesso por essa freguesia. Os dois marcos finais enganam muitos excursionistas, conduzindo-os nessa direcção. É por isso que, quando alguém se perde, os Bombeiros Voluntários da Madalena enviam logo uma equipa para essa área. Mas as situações, por vezes, são mais complexas.
Segundo o Comandante Furtado, dos Bombeiros Voluntários da Madalena, as buscas foram sempre bem sucedidas, exceptuando “um caso que envolveu grandes custos e muita gente, todas as corporações de bombeiros da ilha”. Tratou-se do desaparecimento de um cidadão inglês em 1993. O terreno foi “minuciosamente percorrido e batido várias vezes; foram oito dias seguidos de buscas e chegámos a ter mais de 200 homens na montanha, além de cães da força aérea treinados para busca de pessoas,… percorreram-se zonas ali à volta da montanha que eu creio que nunca foram percorridas nestes últimos cem anos”.
A vontade de subir à montanha, aparentemente fácil, levou a que muitas pessoas, sobretudo na última década, não levassem guia ou fossem mesmo sozinhas. “A montanha pode apresentar várias estações no mesmo dia, pode ter vários ventos (o vento muda com facilidade), pode forrar-se e desforrar-se4… Uma pessoa que não tenha conhecimento perfeito da montanha pode perder-se com facilidade”. E há locais da montanha que são realmente perigosos, nomeadamente alguns “areais” e algares.
Carlos Lopes, desde que iniciou a actividade de guia há cerca de uma década, já subiu ao Pico mais de 300 vezes. “Desde o bom tempo ao mau tempo e desde correr tudo bem até pernas partidas…” já viu de tudo um pouco. Já teve de “ir fazer buscas de pessoal perdido” ou acidentado. Nomeadamente à última lomba, que se situa, antes de chegar à cratera, a cerca de 2080 metros de altitude. Uma das vezes, que jamais irá esquecer, foi protagonizada por uma octagenária, a “senhora com mais idade a subir o Pico”. Segundo Carlos Lopes, “ela chegou lá acima, fez a viagem perfeitamente bem. No regresso é que… apanhamos mau tempo e temperatura muito baixa e ela perdeu completamente a noção…”.
Os acidentes mais comuns devem-se a quedas, muitas vezes provocadas por deslizamentos ou por incorrecta colocação de um pé, outras vezes por falta de preparação física. Registam-se também problemas de hipotermia e de esgotamento. Devido aos incidentes, mais ou menos frequentes, os Bombeiros Voluntários da Madalena tiveram “necessidade de saber, com algum rigor, quais e quantas eram as pessoas que subiam ao Pico”5. Para tal foram colocados piquetes no local onde geralmente se inicia a subida ao Pico.
O antigo caminho que ascendia ao Pico voltou a ser percorrido, de volta até à Madalena. O regresso processou-se quase sempre sob chuva, mas no cais esperava-nos uma esplêndida vista, em tons de final de dia, sobre o ilhéu Em-Pé, ilhéu Deitado e ilha do Faial. Sem dúvida uma bela panorâmica, no entanto, ficou-nos a vontade de regressar ao topo do Piquinho, na esperança de poder avistar os amplos horizontes que só esse miradouro sobre o Atlântico proporciona6.

Pedro Cuiça © Madalena do Pico (Março/2019)


A ILHA-MONTANHA
Na imensidão do Atlântico, sensivelmente a meio caminho entre a Europa e a América do Norte, o arquipélago dos Açores integra e delimita a Macaronésia a norte e oeste. Nove ilhas e diversos ilhéus vulcânicos, dispostos segundo WSE-WNW, formam três grupos distintos. O Grupo Oriental, e também o mais meridional, é composto pelas ilhas de Sta. Maria e de S. Miguel. O Grupo Central é constituído pelas ilhas Terceira, Graciosa, S. Jorge, Pico e Faial. O Grupo Ocidental, o mais setentrional, está representado pelas Flores e Corvo.
Denominada “São Dinis” aquando da sua descoberta, o Pico é a segunda maior ilha do arquipélago (440 km2) e apresenta a altitude mais elevada do país (2351 m). A montanha do Pico, classificada como Reserva Natural desde 1972, é um enorme edifício vulcânico, um cone quase perfeito que ganha inclinação rapidamente a partir de 1200 metros de altitude e termina numa ponta aguçada. A montanha encontra-se habitualmente envolvida por uma cintura de nuvens baixas, deixando vislumbrar o cume – o Piquinho – que se avista a grandes distâncias.
O Pico Grande acaba numa cratera com cerca de 600 metros de diâmetro e bordeiras que ultrapassam os 30 metros de altura. Na extremidade oriental da cratera surge o Piquinho ou Pico Pequeno, com cerca de 70 metros de altura. Um cone secundário surgido no bordo leste da cratera do Pico, formado por lavas encordoadas que atapetam a cratera e se escoaram em diversos pontos.
No flanco ocidental, a imponente massa orográfica desce gradualmente até à orla costeira junto da povoação de Madalena (a mais importante da ilha), em frente dos ilhéus Deitado e Em Pé. No flanco oriental estende-se uma área planáltica onde se destacam diversos cones vulcânicos e lagoas que conferem à paisagem traços pitorescos. Essa “lomba”, a cerca de 800 metros de altitude, interrompe-se de forma abrupta em arriba recortada por inúmeras calhetas e enseadas.
O povoamento distribui-se ao longo da costa. S. Roque do Pico, no lado norte da ilha, e Lajes do Pico, no lado sul, foram importantes povoações de baleeiros. Entre as actividades tradicionais destacam-se a criação de gado bovido, a agricultura, a pesca e o artesanato.

INFORMAÇÕES ÚTEIS
Extensão: cerca de 30 quilómetros7
Desnível: cerca de 2551 m8
Dificuldade: o percurso desde a Madalena ao topo do Piquinho e regresso pode considerar-se difícil; a opção de subir desde os 1200 metros de altitude (pouco abaixo da Furna) é acessível9.
Duração: para efectuar o trajecto Madalena-Pico-Madalena há que contar com dois dias; o percurso do local onde param as viaturas até ao topo e regresso demora cerca de cinco a seis horas3.
Como chegar? O mais prático para aqueles que dirigem ao Pico será viajar de avião até à ilha do Faial (aeroporto de Castelo Branco) e daí seguir de barco até à “ilha-montanha”10.
Acesso ao percurso
O trajecto proposto inicia-se na Madalena, onde chegam os barcos vindos do Faial. Se preferir começar perto da Furna, apesar do recurso à boleia poder resultar, recomenda-se o uso de táxi11.
Cartografia
- Cartas Militares de Portugal, na escala de 1/25 000, do Instituto Geográfico do Exército (IGeoE), série M889, folhas 7, 8 e 11.
- Carta da Ilha do Pico (Açores), na escala de 1/35 000, da Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1ª ed., 1997.
Época aconselhada
Maio a Setembro
Equipamento necessário
Recomenda-se o uso de roupas leves e de cores claras, uma cobertura para a cabeça e uns óculos escuros. As chuvas são frequentes sendo muito útil possuir impermeáveis leves e transpiráveis, casaco e calças. Um bom guarda-chuva pode revelar-se um objecto de grande utilidade. Um protector solar não será de negligenciar. Umas botas de montanha completam o vestuário e calçado. Uma pequena mochila de dia, alguns víveres e cantil com água, um pequeno estojo de emergência e um estojo de primeiros socorros serão suficientes para uma jornada. Um saco-cama e/ou um saco de bivaque serão suficientes para pernoitar.12


ATENÇÃO!
· Consulte documentação e cartografia referentes ao percurso.
· Informe-se acerca da previsão meteorológica.
· Os trilhos são bastante seguros, mas é necessária atenção para se evitarem quedas ou sair do trajecto correcto9.
· O uso de bastões é recomendável.
· O percurso pode ser empreendido recorrendo ao auxílio de um guia local.


NOTAS:
Publicámos o artigo na integra e tal qual foi editado no primeiro número da revista Ozono (Outubro de 2000), exceptuando a exclusão da lista de contactos (por se encontrar manifestamente desactualizada) e a correcção de alguns erros ortográficos e gralhas existentes no original. No tocante às imagens, publicamos algumas fotografias e uma infografia (mapa) da edição original, mas também fotografias mais recentes. Por último, tendo em conta que já passaram duas décadas desde que este artigo foi escrito e publicado, e portanto muitas coisas mudaram, consideramos oportuno acrescentar algumas notas:
1. De facto, os tempos são definitivamente sempre outros…
2.  Hoje em dia, a subida ao Pico, que começa obrigatoriamente na Casa da Montanha, processa-se, na época alta, praticamente a qualquer hora do dia e da noite, estando regulamentada pela Portaria nº 52/2018 de 23 de Maio de 2018.
3. A subida até ao cume da montanha do Pico e a descida até à Casa da Montanha demora, em média, cerca de sete horas: três horas a subir e quatro horas a descer.
4. Forrar-se e desforrar-se significa, respectivamente, ficar coberto de nevoeiro e o nevoeiro dissipar-se.
5. No ano de 2018 terão subido à montanha cerca de 17 mil pessoas e terão ocorrido 11 resgates (um número excepcionalmente baixo de resgates se comparado com outros anos).
6. Desde essa experiência inolvidável, de subir desde o mar até ao cume do Piquinho, no ano 2000, temos regressado praticamente todos os anos à ilha do Pico para invariavelmente subir à montanha e muitas foram as vezes que fomos brindados com vastas panorâmicas. Essa é uma prática – quase diríamos um ritual – que esperamos poder repetir por mais duas décadas, assim Deus nos ajude e permita.
7. Ida e volta.
8. Desnível acumulado de 2351 m a subir e, depois, a descer.
9. O percurso é acessível a pessoas com boa preparação física e habituadas a andar em terrenos irregulares. Da Casa da Montanha para cima não se trata propriamente de um caminho – de piso liso e regular – mas, sim, de um trilho com inúmeros ressaltos, irregularidades e pedras soltas. O trajecto torna-se manifestamente problemático para pessoas com dificuldades de progressão nesse tipo de terrenos mais técnicos, sobretudo na descida.
10. Actualmente já é possível viajar para o aeroporto da ilha do Pico.
11. Ou de carro alugado.
12. O uso de um poncho ou de um guarda-chuva poderão ser soluções a adoptar caso não haja vento. Para pernoitar na cratera é, hoje em dia, obrigatório levar tenda e ter permissão para tal.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CUIÇA, Pedro. Subida ao Pico – Um miradouro sobre o Atlântico. Ozono – Revista de Ecologia, Sociedade e Conservação da Natureza, nº 1, Outubro de 2000, pp. 50-53