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sábado, 5 de setembro de 2026

Juan Mari

 

Juan Mari Feliu Dord (Pamplona, 1942) faleceu ontem: 4 de setembro de 2026. Foi um escritor prolífero no âmbito da história do montanhismo e autor de inúmeros livros-guia de percursos pedestres. Desenvolveu um importante trabalho na área do pedestrianismo e dos percursos pedestres na Federação Espanhola de Desportos de Montanha e Escalada (FEDME), onde foi Diretor de Senderismo, e na European Ramblers Association (ERA), onde foi vice-presidente. Colaborou regularmente com a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), na primeira década do século XXI, tendo estado envolvido na realização dos primeiros cursos de Monitores e de Instrutores de Pedestrianismo em Portugal; desempenhou igualmente um importante papel no âmbito da implementação dos percursos pedestres homologados, de Grande Rota e de Pequena Rota, no nosso país. Tive a honra e o privilégio de ter trabalhado estreitamente com ele, em Portugal e em Espanha (designadamente em diversas Jornadas Estatales de Senderismo e na revista "Caminar"), tal como na ERA onde colaborei com ele na elaboração de duas edições do mapa dos percursos pedestres trans-europeus. Estivemos em inúmeras atividades, mormente de campo, ao ar livre, onde invariavelmente nos divertimos a fazer aquilo que mais gostávamos. Muito fica por dizer... Muito aprendi com ele. Foi um Senhor. Parte um Amigo e um Mentor, ficam as recordações e a amizade que sempre nos uniu. Os meus sentimentos aos familiares e amigos.

[Foto topo: Ó Patxi CASCANTE – Apresentação do livro Los Pirineos, Una Frontera con Amargas Historias (2023); foto abaixo: Ó Javier ARADAS – XVIII Jornadas Estatales de Senderismo, La Guardia (2010)]




domingo, 13 de agosto de 2023

CONFUSÕES (I)

 

CONFUSÕES DE AR LIVRE, PROBLEMAS DE AR CONDICIONADO (I)


Na sequência da morte, no dia 27 de Julho, do carregador paquistanês Muhammad Hassan, na parte superior do K2, após ter permanecido vivo durante várias horas perante a indiferença daqueles que por ele passaram para fazer cume ou já na sua descida, regressou o coro de críticas àquilo que se tornou o “alpinismo” nas mais altas montanhas himalaianas. Como se algo de (muito) extraordinário se tivesse passado no panorama dos inúmeros mortos abandonados, em alta altitude, nas vertentes do Everest e de outros oito mil, tal como das toneladas de detritos largados nessas montanhas, que fazem com que certos campos de altitude se tenham transformado em lixeiras (nas mais altas lixeiras do mundo) a céu aberto! Infortunadamente, nada de novo. Basta(ria) lembrar-nos da tragédia de 1996 no Everest ou das diversas campanhas de recolha de lixo nas vias normais do Everest, nos lados nepalês e chinês, para constatar o que deveria ser evidente!... De entre as diversas intervenções críticas ao agora (mais uma vez) sucedido, destacamos os comentários, "sem papas na língua", do amplamente conhecido alpinista espanhol Sebastián Álvaro, publicados online pela editorial Desnivel: «Cómo llegaron a converterse en parques de atracciones las montañas más altas y bellas del Himalaya y el Karakórum? Cuando se jódio el himalaysmo?»


O fenómeno dos mortos e do lixo em altitude já mereceu diversas intervenções publicas da minha parte, em comunicações e textos diversos e, por isso, não tenho nada a acrescentar de concreto. Apenas lamentar o sucedido e manifestar o meu pesar à família e amigos do malogrado carregador.

Seria talvez oportuno e importante fazer uma análise crítica e uma reflexão aprofundada não só daquilo em que se transformou o himalaismo, mas também acerca da prática de alpinismo/montanhismo em geral e, já agora, da escalada clássica (e até da desportiva) nos mais diversos contextos e geografias, inclusivamente "à porta de casa"...

De resto, escrevi ontem o seguinte no Facebook: 

«O problema não se circunscreve, de todo, à alta montanha. A massificação, a alienação e a banalização das actividades de ar livre generalizou-se. E não é apenas a "turistificação" que está em causa, é todo um conjunto de motivações e de formas de "viver", nomeadamente o (hiper)consumismo e o poder aquisitivo do "capital": pensar que tudo se traduz em dinheiro e tudo é vendível e comprável. O que está verdadeiramente em causa são questões de ética e de estética; são questões ontológicas e substanciais, do Ser (em detrimento do ter). Não é lícito, nestas (e noutras) matérias continuar a confundir "uma obra prima com a prima do mestre de obras".»


© Lakpa Sherpa/8K Expeditions



terça-feira, 4 de abril de 2023

Walk on the Stars

 

© ERA


Soube hoje que Arthur Howcroft faleceu no dia 25 de Fevereiro de 2023, aos 96 anos. Arthur foi um dos membros mais antigos e que mais anos fez parte da European Ramblers Association (ERA): representou a Grã-Bretanha, durante inúmeros anos, nessa federação europeia, mais precisamente a Long Distance Walkers Association e a Rambler’s Association, foi o primeiro presidente da Comissão de Pedestrianismo (Walking Commission), desde a sua formação em Junho de 1976 até 1994, e foi também, de 1985 a 1991, vice-presidente da ERA.  A sua longevidade na federação europeia de pedestrianismo, associada aos seus importantes contributos para o desenvolvimento dessa instituição, fez com que fosse nomeado Presidente Honorário.

Tive o privilégio de caminhar com o Arthur em vários países europeus, recordando com particular saudosismo as longas marchas que fizemos, em diversas ocasiões, na cidade de Paris, quando ambos pertencíamos ao Grupo de Trabalho sobre ERA Walk Leaders. Caminhadas pautadas invariavelmente por também dilatadas conversas acerca do assunto que gerou e consolidou a nossa amizade: a caminhada. A última vez que estive com o Arthur foi durante as comemorações dos 50 anos da ERA, que decorreram, em Outubro de 2019, em Bad Urach, na Alemanha. Não posso deixar de expressar o meu especial apreço por esse invulgar gentleman, enquanto Homem, Caminheiro e Amigo. Até Sempre…

 

«Arthur will continue to walk on the stars, he loved walking with so many people during his long life, especially with his beloved wife Renee. He led many people on walking holidays for numerous walking associations all over Europe, and he loved speaking several European languages. The ERA, with all its members and staff, had a special place in his heart, and I count it a great privilege to have known Arthur.»

Peter Ayling


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

HOUVE UM DIA


© DR 

«HOUVE UM DIA em que a minha avó deixou de andar.
Nesse dia morreu. O seu corpo ainda viveu mais algum tempo, mas os novos joelhos, que por meio de uma cirurgia tinham substituído os antigos, estavam muito gastos e tornaram-se incapazes de transportar o corpo. O resto das forças que ainda tinha nos músculos foi desaparecendo devido aos dias passados na cama. O seu aparelho digestivo começou a falhar. A pulsação tornou-se mais baixa e irregular. Os pulmões absorveram cada vez menos oxigénio. Já perto do fim, arfava com falta de ar.
Por essa altura eu tinha as minhas duas filhas em casa. A mais nova, Solveig, tinha treze meses. Enquanto a sua bisavó se encolhia lentamente em posição fetal, Solveig decidiu que já era tempo de aprender a andar. De braços levantados por cima da cabeça e mãos agarradas aos meus dedos, conseguiu titubear pelo chão da sala de estar. De cada vez que soltava as mãos e tentava dar uns passos sozinha, descobria as diferenças entre o que está em cima e o que está em baixo. Quando tropeçava e batia com a testa no rebordo da mesa da sala, aprendia que certas coisas são duras e outras moles. Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida.
De braços estendidos, para manter o equilíbrio, Solveig em breve aprendeu a arte de caminhar pelo chão da sala. Estimulada pelo medo de cair, dava uns passinhos, num ritmo staccato. Ao observar as suas primeiras tentativas, surpreendeu-me a forma como afastava os pés. Como se quisesse agarrar-se ao chão. «O pé de uma criança ainda não sabe o que é um pé / e quer ser uma borboleta ou uma maçã», escreveu o poeta chileno Pablo Neruda no início do seu poema «Al pie desde su niño1».
(…) Quando a minha avó – eu chamava-lhe «mormor» – nasceu em Lillehammer, noventa e três anos antes de Solveig, a sua família dependia dos próprios pés como principal meio de transporte de um lugar para o outro. A mormor podia ir de comboio se quisesse viajar para muito longe, mas não tinha muitas razões para sair de Lillehammer. Em vez disso, o mundo é que chegava até ela. Durante a sua juventude pôde testemunhar a chegada de carros, bicicletas e aviões, produzidos em série, à sua província de Oppland. A mormor contou-me que o meu bisavô uma vez lhe pediu para o acompanhar até Mjösa, o maior lago da Noruega, para ambos poderem ver um avião. Ela contava essa história com tanto êxtase que parecia que acontecera na véspera. Os céus – de repente – tinham deixado de ser o reino exclusivo dos pássaros e dos anjos. [KAGGE, 2018: 15-18]» É desta forma que Erling Kagge inicia o seu novo livro, acabado de editar pela Quetzal, em Outubro de 2018, sobre A Arte de Caminhar.

© DR

HOUVE UM DIA em que a minha tia-avó Gertrudes também morreu quando, por ter partido uma perna, deixou de andar.  Apesar de ser uma anciã com uma idade muitíssimo respeitável, aparentava ser bem mais nova do que realmente era… Era uma rija e escorreita andarilha, e eu, invariavelmente, quando a ouvia subir a escadaria do prédio de vários andares, onde morava, diversas vezes todas as manhãs, não podia deixar de pensar que era uma atleta inveterada, tendo em conta o elevado ritmo da passada e a respiração acelerada! Era o que a mantinha viva: ir todos os dias a pé às compras ou efectuar outras tarefas para si e para as suas amigas idosas que, por dificuldades de mobilidade, não o podiam fazer com a regularidade desejada ou desejável. Por vezes, semanalmente ou mensalmente, também distribuía propaganda partidária ou o boletim do partido, numa área considerável, nos arredores de onde morava, sempre a pé. E, claro, além disso também se encarregava de toda a lida da casa…
O seu marido há muito que se sedentarizara, após a sua reforma, num dia-a-dia cercano e que invariavelmente passava por beber uns copos com os amigos. Quem notava agora a sua barriga proeminente não poderia adivinhar a sua anterior figura – alta, magra e espadaúda –, quando palmilhava o trajecto de onde morava até ao seu trabalho e respectivo regresso, numa distância diária superior a uma dezena de quilómetros. Também terá morrido quando deixou de andar a pé?... Será discutível tendo em conta que acompanhou a minha tia-avó durante bastantes anos na sua admirável e recorrente “alta pedalada”. Certo é que, após esta ter partido a perna, regressaram ambos à sua “terra natal” para, pouco depois, deixarem este mundo.


 © DR

HOUVE UM DIA em que eu andando, num percurso pedestre, na ilha de S. Jorge fui confrontado com o facto surpreendente de ter sido usual existirem pessoas que não tendo razões para saírem da fajã, onde sempre viveram e morreram, de lá nunca saíram. Se quisessem viajar para muito longe melhor seria fazê-lo de barco, numa ilha cujas dimensões, sendo certamente ignoradas, eram necessariamente ínfimas. Mas seria todavia expectável que tivessem a curiosidade de subirem fajã acima, a pé, para, que mais não fosse, alargarem os (vastos) horizontes sobre o mar circundante? Assim não era e não foi!…
Os meus tios-avós vieram para Lisboa, para ganhar a vida e muito andaram a pé nos seus trajectos urbanos do dia-a-dia, para um dia retornarem ao seu Além-Tejo a fim de morrer… A sua fajã terá sido em Serpa ou em Lisboa? A vida e a morte fazem parte de um mesmo ciclo perpétuo, uns param de andar para que outros o comecem a fazer e o que está em cima é como o que está em baixo. «Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida», mas deixar de andar é fatal!

© DR

HOUVE UM DIA em que senti saudades do passado e HOUVE UM DIA em que senti saudades do futuro. TEM DIAS! «O caminhar considerado como uma combinação de movimento, humildade, equilíbrio, curiosidade, cheiros, sons e luz e – se andarmos suficiente – um sentimento de desejo. Um sentimento de querermos alcançar uma coisa que procuramos, sem a encontrarmos. Na língua portuguesa existe uma palavra intraduzível para este desejo: saudade. Trata-se de uma palavra que engloba amor, dor e felicidade. Pode ser o pensamento de algo alegre que nos perturba ou de algo perturbador que nos traz plenitude. [KAGGE, 2018: 43]»




NOTA DO TRADUTOR
Poema de Pablo Neruda: «El pie del niño aún no sabe que es pie, / y quiere ser mariposa o manzana. / Pero luego los vidrios y las piedras, / las calles, las escaleras, / y los caminos de la tierra dura / van enseñando al pie que no puede volar, / que no puede ser fruto redondo en una rama. / El pie del niño entonces / fue derrotado, cayó / en la batalla […]» [in KAGGE, 2018: 16]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KAGGE, Erling. A Arte de Caminhar – Um passo de cada vez. Lisboa: Quetzal, 2018, pp. 210. ISBN 978-989-722-519-2

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ritratti


Ritratti di alpinisti

Oberto, Orsini e Bisaccia: tre uomini com la montagna nel cuore e nelle azioni

© Giuseppe Oberto

© Mario Bisaccia

Ogni alpinista ha la sua storia. Anzi, ogni alpinista è la sua storia. Cambiando un verbo, ecco che la stessa frase assume un significato tutto nuovo.
Perché un conto è poter reccontare ciò che si è realmente vissuto, altra cosa è assumere quelle esperienze come un concentrato d’immagini, emozioni e stati d’animo che i nostri sensi hanno percepito e tradotto. Elementi che sono stati capitalizzati e transformati in energia. Una carica capace di incidere sulla vita, sul carattere e perfino sulla Storia. Quella com la S maiuscola che non appartiene più solo alla persona ma che, al contrario, diventa un patrimonio pubblico. E quel patrimonio, oggi, noi lo mettiamo nero su bianco in queste pagine. Me mettiamo in edidenza i contrasti, le spigolature e le tante luci che l’hannoi illuminato consentendogli di continuare a risplendere nel tempo. Contrasti che comiciano a farsi evidenti già in certe foto epiche scattate prima che l’immagine a colori fosse alla portata di chiunque. Abbiamo raccontato le imprese sull’Himalaya di Giuseppe Oberto, che Teresio Valsesia definisce «modesto e riservato». Eppure questo grand’uomo, pur essendo refrattario alle luci della notorietà, ha impresso sulle luci dei ghiacciai imprese straordinarie. È morto solo tre mesi fa, ma il suo nome continueremo a citarlo a lungo insieme ai più grandi alpinisti del Novecento. Passando da una narrazione all’altra, abbiamo deciso di raccontare anche la storia del geologo Antonio Orsini, che oltre a essere uno dei fondatori della Società italiana di Scienze Naturali há participipato alla prima ascensione del Corno Piccolo del Gran Sasso. Era il 1840. Una triade di storie diverse tra loro, ma accomunate dall’amore per la montagna, che non potevano che chiudersi com il ritratto di un altro grande alpinista che non ci há lasciato solo il ricordo delle sue scalate. No, Mario Bisaccia há fatto qualcosa di più. Qualcosa di ugualmente grande. Era un caposcuola indiscusso, era un innovatore. Caratteristiche, queste, che hanno lasciato il segno. Il più evidente? Il nodo Mezzo Barcaiolo, utilizzato per assicurare. E lui, Bisaccia, ce l’há lasciato in eredità.
[CALZOLARI, 2018: 15]

© Nó dinâmico


NOTAS
· O destaque de certas palavras a negrito é de nossa autoria.
· As fotografias dos alpinistas e a figura do nó dinâmico foram retiradas da Web.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CALZOLARI, Luca. Ritratti di alpinisti in Montagne360 – La rivista del Club alpino italiano, nº 74, Novembro de 2018, pp. 80



segunda-feira, 18 de junho de 2018

No Céu

No Céu, com os pés na Terra…

M. C. Escher © 

Nota: um dia após o nascimento do artista holandês Maurits Cornelis Escher (17 de Junho de 1898).

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Caminhar/Caminho




Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
E por isso, qualquer que seja a arte
De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,
Tudo é estático e morto. Só ilusão
Tem passado e futuro, e nela erramos.
Não há estrada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.

Tenhamos pra nós mesmos a verdade
De aceitar a ilusão como real
Sem dar crédito à sua realidade.
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, e sempre sós;
Nossa própria viagem é viajante e estrada.

Que importa que a verdade da nossa alma
Seja ainda mentira, e nada seja
A sensação, e essa certeza calma
De nada haver, em nós ou fora, seja
Inutilmente a nossa consciência?
Faça-se a absurda viagem sem razão.
Porque a única verdade é a consciência
E a consciência é ainda uma ilusão.

E se há nisto um segredo e uma verdade
Ou deuses ou destinos que a demonstrem
Do outro lado da realidade,
Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.
O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visível do que está fora,
Excede de todos nós o exterior
Não para como as coisas, nem tem hora.

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa
E é a própria estrada, sem estrada ser.
É absurda a oração, absurda a queixa.
Resignar(-se) é tão falso como ter.
Coexistir? Com quem. Se estamos sós?
Quem sabe? Sabe […] que são?
Quantos cabemos dentro de nós?
Ir é ser. Não parar é ter razão.

Fernando Pessoa (11/10/1919)



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Liberdade


«Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 26)

«Considerando-me paradoxal, dirigem-me o melhor elogio que eu poderia ter.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 76)

«O mundo tem tantas possibilidades que até o impossível é possível.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 44)


© na Net (?)

Faz hoje 112 anos que nasceu Agostinho da Silva. Esse Estranhíssimo Colosso1 que, na sua multifacetada complexidade, foi, antes de mais, um Homem simples e humilde, profundamente entusiasmado, culto e convicto… Um poeta à solta, exímio conhecedor da Idade Antiga, apaixonado pela Idade Média e arauto da Idade Futura do Espírito Santo.
Um pensador que não desdenharia o epiteto de “libertário”, porque libertador e cultor do exercício do «pensamento libérrimo» (BRANCO, 2006: 69), mas que não seria certamente circunscrito pelo mesmo. Difícil, se não impossível de “rotular”1, foi indubitavelmente um paladino da Liberdade, mormente no sentido de «todo o homem (…) ser aquilo que ele tem de ser: um criador sem nenhuma espécie de inibição» (Agostinho da Silva in MENDANHA, 1998: 56). E é, como ponto de partida, com base nessa sua faceta, que, na sequência dos últimos três posts – Força, Sabedoria e Beleza –, abordamos hoje, em sua memória, a Liberdade no caminhar/caminho.  Lembremos que Agostinho, tendo sido um reiterado defensor da vadiagem e da errância – daqueles considerados «errantes, no sentido de que poderiam andar por aqui e por acolá» (in Conversas Vadias) –, abordou precisamente a Liberdade em Ritmos de Marcha (SILVA, 1990: 113-117).
O pensamento de Agostinho da Silva apesar de se (re)velar sob a forma de uma aparente simplicidade categórica e incisiva, oculta uma difícil e contraditória, senão paradoxal, complexidade. Tal como a vida é difícil2, o seu pensamento não é fácil. Facto constatável, desde logo, pela sua ascética afirmação da Liberdade «pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus» (SILVA, 1990: 19). Um caminho único, porque assente na renúncia comum – saber «ser ascético no meio da abundância» e preferir «ao poder a santidade» (ibidem: 55) –, e simultaneamente múltiplo, porque palmilhado por cada um de forma diferente.
Uma forma difícil e pouco usual de entender a Liberdade, nos dias de hoje, tendo em conta que Agostinho não cria que «se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz», embora considerasse que «nele seja essencial o viver alegre» (ibidem, 51).

«Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino, e foi pena que não fosse esta a lição essencial que tivéssemos tirado da tragédia grega; como pena foi que só tivéssemos olhado o fatalismo dos árabes pelo seu lado superficial.
Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral do desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes e depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador da liberdade o que, agrilhoado à montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. (…) No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física do mundo da extensão, se revele pelo espírito do mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.»
[SILVA, 1990: 51-52]

Agostinho defende a liberdade da sua própria disciplina, numa «espécie de vida militar» e simultaneamente monástica, a que não estranha os votos de pobreza – «do abandono do ter (…) libertando-se da posse», – de celibato – «livrando de que outros o possuam» e «livre também de tratar o outro como se fosse» sua posse – e de obediência – «que livra a pessoa de ser possuída por ela própria e de ter a ideia de que só serve para isto ou para aquilo» (in Conversas Vadias).
E, no entanto, esse pensamento que parece marcado pela fatalidade (a ideia de fatum), de renúncia e sofrimento, surge como rampa de lançamento – atitude – para os altos voos do Espírito Santo: «a pessoa de Deus na qual está o domínio do inesperado; daquilo que parece ser a Liberdade pura e não o destino» (ibidem). Atitude é altitude! E é «nesse abrir-se ao Espírito Santo, ao talvez absolutamente imprevisível, que cada homem encontra o caminho para se cumprir a si mesmo – a única exigência que se lhe faz» (BRANCO, 2006: 93). Também poderemos ver essa atitude como opção de andar à solta ou andar ao Deus dará, como se queira ou possa, sendo essa afinal (ou a-princípio) uma forma de acreditar, como o faziam (e fazem) os povos primais3, na Providência Divina, pondo de lado a previdência humana: «porque não reparamos talvez ainda suficientemente na pressa com que todos nós, homens supostamente religiosos, tratamos de entesourar o que tememos que amanhã pode esquecer à Providência de Deus, da qual, no entanto, continuamos a falar abundantemente: só, porém, a falar» (SILVA, 1990: 69). Nós, os ditos “civilizados”, «estamos tão afastados do natural como do sobrenatural, quando estes deviam ser os pontos centrais de nossa existência: plenamente vivemos no artificial» (ibidem: 69). Uma caminhada liberta ou rumo à libertação passará pelo regresso às nossas origens: «temos de voltar aos povos naturais, como uma etapa necessária para o caminho do sobrenatural, e sem dúvida voltaremos, ou por nossa livre vontade ou, como tantas vezes sucede àqueles a quem Deus mais ama, pela viva e contundente força de golpes exteriores» (ibidem: 70).

«Tudo o que faço no mundo
sem o fazer é feito
sobre o nada em que me deito.»
Agostinho da Silva (BORGES, 2006: 54)

© na Net (?)

NOTAS
1. Título da biografia de Agostinho da Silva, escrita por António Cândido Franco (Quetzal, 2015), em que, na contracapa, esse Colosso é caracterizado nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»
2. A VIDA É DIFÍCIL: é a fase com que começa o livro, de M. Scott Peck, O Caminho Menos Percorrido (Sinais de Fogo, 1999).
3. Para não utilizar a palavra “primitivos” pela carga pejorativa que, em geral, se lhe associa!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BORGES, Paulo. Tempos de Ser Deus – A Espiritualidade Ecuménica de Agostinho da Silva. Lisboa: Âncora Editora, 2006, pp. 208. ISBN 978-972-780-177-0
BRANCO, João Maria de Freitas. Agostinho da Silva – Um Perfil Filosófico. Sintra: Zéfiro, 2006, pp. 118. ISBN 972-8958-19-6
FRANCO, António Cândido Franco. O Estranhíssimo Colosso – Uma Biografia de Agostinho da Silva. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6
MEDANHA, Victor. Conversas com Agostinho da Silva. Lisboa: Pergaminho, 1998, 9ª ed., pp. 128. ISBN 972-711-057-6
SILVA, Agostinho da. Educação de Portugal. Lisboa: Ulmeiro, 1989, pp. 80. ISBN 972-706-213-X
SILVA, Agostinho da. As Aproximações. Lisboa: Relógio d’Água, 1990, pp. 132.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Nas encostas dos Himalaias

«Nas encostas dos Himalaias só existem as encostas dos Himalaias. É à distância, ou na memória, ou na imaginação que os Himalaias assumem toda a sua altitude, e até um pouco mais.»
Fernando Pessoa

António Coelho © Bruno Carvalho no Campo Base do Everest (Himalaias, 2003)

Em memória do amigo Bruno Carvalho; falecido, no Trono dos Deuses (Shisha Pangma, 8013 m), de 31 de Outubro para 1 de Novembro de 2006…

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Freedom

Amigo Júlio Carrapato, mais do que um paladino da liberdade foste um libertário. Não serás esquecido... RIP.