sábado, 31 de janeiro de 2015

Lisboa com Fernando Pessoa

Lisboa com Fernando Pessoa é um percurso pedestre a não perder. Um passeio de três horas por lugares de Lisboa, pessoas e objectos ligados a este poeta maior da língua portuguesa. Desde as bibliotecas e faculdades “onde o jovem Pessoa passava dias lendo poesia e filosofia” até às ruas onde este viveu, tal “como aquelas onde moravam poetas e artistas seus amigos”. Desde o trajecto do Eléctrico nº 28, tantas vezes apanhado pelo escritor e pelos seus heterónimos, até à Casa Fernando Pessoa, “onde o poeta viveu e que é hoje o centro cultural de referência para o mundo pessoano”. Um percurso guiado por Fabrizio Boscaglia, investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa onde estuda o pensamento e a obra de Fernando Pessoa. 
Próximas edições a 21 e 28 de Fevereiro.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A Magia de Andar

Em vésperas de Candelárias, vamos falar de magia... Da magia de andar, do acto de caminhar, de percorrer caminhos, dos próprios caminhos... Daquilo que entendemos por ecosofia: sentir/ser, demandar e des(en)cobrir a Natureza.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sensorialité


«Le marcheur est sous le plein vent de ses géographies intimes. Le corps est la condition humaine du monde, ce lieu où le mouvement incessant des choses s’arrête en significations précises ou en ambiances, se métamorphose en images, en sons, en saveurs, en odeurs, en textures, en couleurs, en paysages, etc. Éminemment sensible et sensuelle, la marche est un dépaysement des routines sensorielles (…), la certitude de se surprendre en permanence, et de renouveler ses repères de significations et de valeurs au fil de la route. (…)
La marche n’est pas seulement regard, même si la beauté des lieux s’offre à profusion, elle est aussi immersion parmi les nappes d’odeurs, les sons, la tactilité quand le sentir confronte soudain à une rivière, un ruisseau et que les mains s’abandonnent à la fraîcheur de l’eau ou que le marcheur ne résiste pas à la tentation de nager dans la transparence.»
LE BRETON, André (2012): Marcher – Éloge des chemins et de la lenteur ; Paris: Éditions Métailié, pp. 49-50

sábado, 24 de janeiro de 2015

Perception of the Trail


video
Ó Pedro Cuiça - Bright Angel Trail - Grand Canyoning (Arizona - USA)

«As a special case of this sense of the fluidity of motion in time and place, consider the tradition of running among many Native Americans, a hint of worldwide traditions, mythically and cosmologically integrated, drawn undoubtedly from the esthetics of the chase. Running had “magical ends” and “mystical purposes”, including “trance running” or “skimming” in “the hummingbird way.” Peter Nabokov describes the “extrasensory perception of the trail” as though it moved under the runner, a special way of “trusting the earth”. To spiritualized running one might add nightwalking to see in the dark by training the skills of peripheral vision. Night vision depends on the non-color-sensing (rod cell) parts of the retina surrounding the central (cone-cell) area of keen vision where we focus the images we “look at.” By walking at night without looking at the trail (deliberately inhibiting the central area vision) we develop the peripheral field, mediated by the rod cells. Through this exercise we achieve a new level of nocturnal sensibility as well as more acute perceptual abilities. If peripheral information feeds directly into unconscious, as some believe, we may enhance access to our unconscious by such nocturnal skills as nightwalking. The rational, objective world, which occupies most of us each day, usually overrides the nonrational and unconscious world – which, when neglected, intrudes, disrupts, and overturns our logical mind. In the world of the forager, this was not an issue since the rational and nonrational functions of the brain were balanced and acknowledged. They could see in the dark as well as discern the dark underside of human consciousness.»
SHEPARD, Paul – Coming Home to the Pleistocene; Washington: Island Press, 1998, pp. 56-57.

Ó gruta Chauvet

Ó Vanda Rita

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ganhar asas…

Ganhar asas para andar

Não posso deixar de considerar caricatas algumas especificidades inerentes à evolução (ou involução?) da prática de pedestrianismo nas últimas décadas. Aquilo a que se chama “pedestrianismo” mas que se poderá designar, sem desprimor, por “caminhada”, “marcha”, “andar”, “andarilhar”, “vagabundear”, "vadiar" ou… simplesmente chamar-se “nada” (aquele nada que é tudo)! Tão só usufruir plenamente a experiência concreta de pôr um pé diante do outro e ir mais além…
O sequestro (ou a tentativa de sequestro) sectorial dessa actividade de ar livre – dessa prática ancestral sinónima de liberdade, "evasão" e inspiração – tem progredido paulatinamente de forma consentânea com a crise do associativismo (informal ou institucional) de que tanto se fala mas, a meu ver, extravasa em muito esse fenómeno. Desde logo pela simples razão de se poder caminhar a solo (e como diziam os "antigos": antes sozinho do que mal acompanhado), sem qualquer consideração pelos “actuais” e insistentes alertas face a essa pretensa imprudência. E sem que isso impeça, claro está, antes complemente e enriqueça, a possibilidade de, numa espontânea manifestação de livre associativismo, poder partilhar a experiência do andar com diversos companheiros e das formas mais variadas, longe de tutelas, enquadramentos legais ou outros espartilhos. É precisamente a multiplicidade de possibilidades e mormente as facetas de liberdade e de gratuitidade associadas ao pedestrianismo que fazem com que certas tendências das últimas décadas surjam como evidentes limitações a uma prática que se pretende aberta e inovadora.
A conjectura a que aludimos remete para uma crise mais vasta, uma crise de valores, uma crise civilizacional, que se tem traduzido, por exemplo, numa crescente privatização/comercialização da actividade e em condicionalismos à prática da mesma (designadamente na Rede Nacional de Áreas Protegidas), a par do aumento do consumismo, do egoísmo, da alienação e da “domesticação” dos praticantes!

A locomoção bípede é inerente ao Homo e ninguém deverá condicionar quanto mais proibir essa actividade. A liberdade de vivenciar essa capacidade da forma que nos aprouver surge desde logo pela designação que lhe queiramos dar ou pela ausência da mesma. Podemos andar à “porta-de-casa” em ambiente urbano e/ou em longínquas e inóspitas paragens naturais (wilderness), em caminhos marcados tal como em trilhos não balizados, depressa ou devagar, sozinhos ou acompanhados, ir em peregrinação, andar pela saúde ou sem qualquer motivo, etc.. Andar poucos minutos, horas, dias, semanas ou meses, há lugar para os que andando vestidos o fazem descalços e para aqueles que sendo nudistas andam calçados, para os minimalistas e/ou primais e para aqueles que gostam de andar artilhados com materiais topo de gama ou com o último gadget do mercado, etc., etc., etc.
Para mim, uma prática em autonomia é certamente um objectivo a alcançar mas, tão ou mais importante, é igualmente fundamental ser autêntico e original (ir às origens) conseguindo cultivar permanentemente uma atitude de abertura a novas (ou velhas?) concepções, experimentações e aprendizagens; é primordial ganhar asas para poder andar...


Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - e eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá Carneiro (1913): Quási

A sétima geração


É bastante interessante constatar as notórias insuficiências no tocante à explicitação dos conceitos éticos subjacentes a uma manifesta desconsideração face à posterioridade no que concerne à destruição do ambiente (melhor será dizer “da Natureza”). Quase tão curioso quanto a dificuldade de definir o conceito de gerações futuras no âmbito da ética ambiental! De facto, o estatuto ontológico e epistemológico das pessoas futuras suscita muitíssimas questões e outras tantas dúvidas…
Afinal qual será a abrangência da consideração do “homem ocidental” (pós ou ultramoderno) pelos seus descendentes? As argumentações são tão diversas quanto propositada ou limitadamente confusas... Para uns a contingência das pessoas futuras exclui as mesmas de consideração moral, para outros a incapacidade de a posterioridade reivindicar direitos faz com que estes não existam (ou não sejam reconhecidos?). Numa lógica utilitarista chega-se a questionar qual a consideração por pessoas futuras cujos gostos e necessidades serão meras especulações face à impossibilidade de estes serem conhecidos. As alusões a melhorias das condições de um futuro mais ou menos remoto ou a eventuais efeitos perniciosos associados a pretensas “boas intenções” não passam de outras formas de não ver (ou não querer ver) aquilo que deveria ser evidente. O que está em causa é inverter a lógica de exploração, de saque e de destruição cujo legado é indubitavelmente negativo. E se dúvidas houvesse bastaria olhar em redor e constatar o “ordenhamento do território”, a perda de biodiversidade (estamos em plena sexta extinção em massa!) ou o aquecimento global que recebemos de herança.
Na verdade, no que concerne às gerações futuras, parece-nos que os argumentários éticos aludidos acima, tal como outros que pretendam ao fim ao cabo justificar o injustificável, poderão ser sintetizados em expressões grosseiras do género: “quem vier a seguir que feche a porta”! Por estas e por outras é que se torna importantíssimo dar uma atenção cuidada à linguagem utilizada, sendo que não nos referimos propriamente às diferenças entre um discurso supostamente erudito face a abordagens mais vulgares. A que palavra(s) deveremos recorrer para adjectivar o comportamento/pensamento do “homem branco” (!) face à posterioridade? “Selvagem” não será certamente (ou será?), ainda para mais quando aqueles que normalmente são brindados com esse epíteto (de forma pejorativa!) apresentam um comportamento manifestamente mais “civilizado”… Ora aqui está um excelente exemplo da baralhação a que me referia.
As responsabilidades morais dos povos indígenas (constituídos por indivíduos genealogicamente integrados) estende-se sem quaisquer dúvidas ou hesitações para lá do presente, incluindo as gerações passadas e futuras. A injunção de agir sempre de modo a proteger a sétima geração é um exemplo particularmente convincente disto (JAMIESON et al., 2005: 23). O líder espiritual Onondaga, Oren Lyons, observa que o primeiro encargo dos chefes tradicionais iroqueses (ou Haudenosaunee) é assegurar precisamente que o seu processo de tomada de decisões seja guiado pela consideração da prosperidade e bem-estar da sétima geração vindoura (ibidem). E o princípio da sétima geração aplica-se igualmente aos antepassados: um povo ao honrar os seus ancestrais fá-lo enquanto membro da sétima geração que estes mantiveram sempre no primeiro plano das suas decisões e por quem se sacrificaram.

Ó Pedro Cuiça (Algarve)

«Dizemos que os rostos das gerações vindouras estão a olhar-nos de debaixo da terra. Portanto, quando pousares os pés no chão, pousa-os muito cuidadosamente – porque são gerações a suceder-se uma após a outra. Se pensares nestes termos, então caminharás muito mais cuidadosamente, serás mais respeitador desta terra.» 
(Lyons, 1995 in JAMIESON et al., 2005)


Referência bibliográfica

Dale JAMIESON et al.Manual de Filosofia do Ambiente; Lisboa: Instituto Piaget, 2005, pp. 528.

sábado, 17 de janeiro de 2015

How to walk?

Como andar? Haverá certamente quem diga: com os pés bem assentes na terra!... A revista Backpacker responde a essa questão de uma forma bastante mais aprofundada, apesar de simples e prática, apresentando um conjunto de conceitos e dicas técnicas muito úteis para pedestrianistas. Não basta ser bípede e, por isso, andar a pé para atingir elevados níveis de desempenho em caminhadas exigentes.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Nihígaal béé Íina (II)


Hózhó (Beauty) is goodness, harmony, health, order, is a mental or a internal state of being... 




Walk in Beauty:
Closing Prayer from the Navajo Way Blessing Ceremony

In beauty I walk
With beauty before me I walk
With beauty behind me I walk
With beauty above me I walk
With beauty around me I walk

It has become beauty again

Hózhóogo naasháa doo
Shitsijí’ hózhóogo naasháa doo
Shikéédéé hózhóogo naasháa doo
Shideigi hózhóogo naasháa doo
T’áá altso shinaagóó hózhóogo naasháa doo
Hózhó náhásdlíí’
Hózhó náhásdlíí’
Hózhó náhásdlíí’
Hózhó náhásdlíí’

Today I will walk out, today everything negative will leave me
I will be as I was before, I will have a cool breeze over my body.
I will have a light body, I will be happy forever, nothing will hinder me.
I walk with beauty before me. I walk with beauty behind me.
I walk with beauty below me. I walk with beauty above me.
I walk with beauty around me. My words will be beautiful.

In beauty all day long may I walk.
Through the returning seasons, may I walk.
On the trail marked with pollen may I walk.

With dew about my feet, may I walk.
With beauty before me may I walk.
With beauty behind me may I walk.
With beauty below me may I walk.
With beauty above me may I walk.
With beauty all around me may I walk.

In old age wandering on a trail of beauty, lively, may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, living again, may I walk.

My words will be beautiful…

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nihígaal béé Íina



Um grupo de jovens Diné (Navajos) iniciou, na terça-feira passada (dia 6 de Janeiro), uma caminhada de 200 milhas (cerca de 322 km) que partiu de Dził Na’oodiłii (Huerfano Mountain) e irá até Tsoodzil (Mount Taylor), no leste do Novo México (EUA). Tsoodzil trata-se da montanha sagrada que delimita a sul o território Diné.
A caminhada agora em curso pretende alertar para a crise ambiental actual que coloca em causa o futuro da Mãe-Terra e dos seres que nela habitam (incluindo os humanos), a consciencialização para os problemas existentes e soluções para a sua resolução. Nesse contexto, os organizadores exigem, de forma tão simples quanto pragmática, ar e água limpos, tal como um estilo de vida viável para o povo Diné.
A iniciativa também pretende recordar a trágica The Long Walk (Longa Marcha) que decorreu há 150 anos e na qual o povo Diné foi obrigado a percorrer a pé centenas de quilómetros, durante o Inverno e longe do seu território, num cativeiro que durou quatro anos. Mais de nove mil Diné e 500 Apaches Mescalero foram conduzidos, em 1864, pelo coronel Christopher “Kit” Carson para uma terra árida conhecida como “Bosque Redondo” (no Novo México), tendo muitos falecido pelo caminho. Durante a estadia forçada no Hwééldi (lugar do sofrimento) centenas morreram devido à fome, doença e violência… Durante esse período de grande sofrimento, esses antepassados Diné pensaram na sua pátria e nas suas quatro montanhas sagradas, rezando para que as gerações futuras seguissem praticando o modo de vida do seu povo. Segundo Dana Eldridge, uma organizadora da caminhada: «Eles sacrificaram e sofreram muito para que nós pudéssemos viver dentro destas quatro montanhas sagradas. Então, nós estamos caminhando para honrá-los». É portanto em memória desses ancestrais e por um profundo amor à Terra que um conjunto de jovens está agora a palmilhar, pé-ante-pé, o território que tanto amam: «É tempo para curar o trauma da colonização sob a qual temos vivido durante muito tempo».
Esta caminhada, na verdade, consiste na primeira fase do projecto Nihígaal béé Íina que se irá processar em quatro fases durante o ano de 2015. Seguir-se-ão mais três caminhadas a decorrer na Primavera, no Verão e no Outono, respectivamente. Na totalidade das quatro caminhadas serão percorridas mais de mil milhas (mais de 1600 km).
Segundo os organizadores, o projecto não se trata simplesmente de uma “reedição” da The Long Walk mas, sobretudo, a tentativa de retorno a um estilo de vida tradicional. Para Nick Ashley, andar «é algo que as pessoas não fazem mais»; as deslocações são efectuadas através de veículos motorizados e, por isso, «andar uma jornada a pé é algo de certa maneira revolucionário».
Todo o apoio será benvindo, desde orações a donativos...


Human Spirit

«If a man walks in the woods for love of them half of each day, he is in danger of being regarded as a loafer. But if he spends his days as a speculator, shearing off those woods and making the earth bald before her time, he is deemed an industrious and enterprising citizen.»

Henry-David Thoreau