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sábado, 25 de julho de 2026

Thoreau e a Ética Ambiental

 


O Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM) vai realizar, no dia 6 de Agosto, mais uma Palestra da Ética, desta feita sobre “Thoreau e a Ética Ambiental: Walden ou A Vida nos Bosques”. A pertinência desta ação de formação resulta da importância que a ética e a deontologia assumem enquanto competências comportamentais (soft skills) no âmbito das Atividades de Montanha. Competências e matérias teóricas, passíveis de implementar na prática, com crescente e notório interesse no contexto dos Desportos de Montanha, designadamente no âmbito do enquadramento e do treino de praticantes com elevados níveis de qualidade e exigência, na linha do Programa Nacional de Ética no Desporto (PNED). A formação contínua na área da ética e da deontologia revela-se de fundamental importância como garante de eficiência e de eficácia no desempenho das funções dos Treinadores Profissionais em Desportos de Montanha. É neste contexto que surge a abordagem da vida e obra de Henry David Thoreau, com o aprofundamento e leitura crítica do livro Walden ou A Vida nos Bosques, um marco incontornável da Ética Ambiental, com vista à sua utilização prática no âmbito das funções dos Treinadores de Desportos de Montanha s.l.. Esta trata-se de uma obra fundacional da Ética Ambiental, que assume importância singular na Ética do Desporto em Atividades de Ar Livre, em geral, e em Atividades de Montanha, em particular. A ignorância da componente ambiental da ética em Atividades de Ar Livre/Montanha trata-se de uma lacuna grosseira na formação de Treinadores, na linha do Plano Nacional de Formação de Treinadores (PNFT), que se deseja e pretende interdisciplinar ou transdisciplinar. É, portanto, esta lacuna que a palestra pretende colmatar ao enquadrar e destacar o pensamento de Henry David Thoreau no contexto da Ética Ambiental e sua aplicação prática no contexto da liderança e condução de praticantes em Atividades/Desportos de Montanha, mormente aquelas que são enquadradas por detentores de Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD).

 CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS:

· ENQUADRAMENTO

                    - Ler os Clássicos da Ética Ambiental e sua aplicação no treino de praticantes em Atividades de Montanha: o exemplo de Thoreau

· INTRODUÇÃO

                    - Os antecedentes: sturm und drang, românticos, transcendentalistas de Concord, John Muir e outros pioneiros da Ética Ambiental

                    - A vida e obra de Henry David Thoreau e a Ética Ambiental

· WALDEN OU A VIDA NOS BOSQUES

                    - Ética Ambiental nas Atividades de Montanha: a importância de Thoreau

                    - Estética Ambiental nas Atividades de Montanha: a importância de Thoreau

- Utilização de estratégias de ensino outdoor e indoor da Ética Ambiental no âmbito de atividades conduzidas por detentores de TPTD – Título Profissional de Treinador de Desporto

- Estratégias de sensibilização e educação ambiental nas diferentes Estações do Ano

                    - “Walden ou A Vida nos Bosques”: conceitos e conceptualização do biocentrismo e do ecocentrismo em Atividades de Montanha

                    - Ética e Estética da Preservação e da Conservação da Natureza: as especificidades na obra de Thoreau

· CONCLUSÕES


Para mais informações, consulte o site da FCMP.


domingo, 6 de agosto de 2023

Caminheiros Andantes

 


«Apenas encontrei uma ou duas pessoas no curso da minha vida que compreenderam a arte de caminhar, ou seja, de dar grandes passeios – e que tinham talento, assim dizendo, para vaguear, na nossa língua, saunterer, palavra maravilhosamente derivada «dos vadios que erravam pelo país, na Idade Média, pedindo esmolas, sob o pretexto de irem à Terra Santa, até as crianças gritarem “Aí vai um peregrino da Terra Santa”», um sainte-terrer, um saunterer, um vagabundo.» (Thoreau, 2021: 13-14)

 

«Alguns, todavia, reivindicam a origem da palavra à expressão sans terre, sem-terra ou propriedade, que, por isso mesmo, num certo sentido, significará não ter casa específica, mas que igualmente se sentem em casa em todo o lado.» (Thoreau, 2021: 14)

 

«Pois cada caminhada é uma pequena cruzada, pregada por um tal Pedro, o Eremita, que existe dentro de cada um de nós, para que partamos e reconquistemos a Terra Santa das mãos dos infiéis. (…) É verdade, hoje em dia não somos mais do que uma pálida versão das cruzadas, e a esta fraqueza nem os caminhantes mais intrépidos escapam, pois não se comprometem com proezas intermináveis.» (Thoreau, 2021: 14).

 

«(…) cavaleiros de uma nova, ou antes, velha, ordem – não Equestre ou Cavalheiresca, nem de Cavaleiros Andantes ou Paladinos, mas Caminhantes, uma classe, a meu ver, ainda mais antiga e venerável. O espírito heróico e cavalheiresco que antigamente pertencia ao Cavaleiro parece agora residir, ou prevalecer, no Caminhante, no Andarilho – não no Cavaleiro; uma figura como uma espécie de quarto estado, além da Igreja, do Estado e do Povo.» (Thoreau, 2021: 15).

 

«Nenhuma riqueza compra os incontornáveis prazeres, liberdade e independência em que assenta a fundação deste edifício. Deriva apenas da graça de Deus. Para nos transformarmos em caminhantes, precisamos de uma licença directa dos Céus.» (Thoreau, 2021: 16).

 

«(…) o caminhar de que falo em nada se assemelha a fazer exercício (…).» (Thoreau, 2021: 19).

 

Diz Thoreau que apenas encontrou uma ou duas pessoas no decurso da sua vida «que compreenderam a arte de caminhar» e diria eu que poucas pessoas terão compreendido as mensagens (ou a grande mensagem) que encerrou no seu livrinho sobre vadiagem ou peregrinação, como lhe queiram chamar, traduzido para português por várias editoras sob diversos títulos: por exemplo, Caminhar (Hiena, 1995), A Arte de Caminhar (Padrões Culturais Editora, 2011), Caminhada (Antígona, 2012) ou Andar a Pé – Um ritual interior de sabedoria e liberdade (Alma dos Livros, 2021). A sua escrita, aparentemente simples, não é explicita, mas deixa uma série de pistas que permitem traçar o rumo da caminhada de que trata esta pequena, em tamanho, mas simultaneamente grande, em conteúdo, obra…

Sair dos feudos medievais onde se encontravam, ficando, portanto, sem terra, para se desencontrarem vagueando ou vadiando, numa peregrinatio, rumo à "Terra Santa", quais caminheiros andantes na graça de Deus?... Curioso será constatar o quão distante estará este modus operandi daquilo a que hoje em dia se convencionou chamar “peregrinação” e se tornou o acto de peregrinar, na generalidade das suas roupagens mais frequentes e comuns. E mais não digo.









domingo, 11 de junho de 2023

O Passeio...

 



O PASSEIO DE THOREAU

 

Eis a história de um passeio. Henry David Thoreau decide, na manhã de 23 de Julho de 1846, ir a Concord buscar uns sapatos que tinha deixado num sapateiro, para que lhes pusesse umas solas novas. Essas escapadelas até à cidade não lhe são desagradáveis [e, nem sequer, infrequentes, ao contrário daquilo que muitos autores superficiais ou por interpostos “escritores” apregoam: que Thoreau foi uma “espécie de ermita” do lago Walden! – primeiro paradoxo] De facto, há quase dois anos que apostou em viver em perfeita auto-suficiência, em experimentar uma «existência natural». Construiu a sua cabana completamente sozinho, com materiais recuperados nas margens do lago Walden, num terreno que era propriedade do seu amigo [Ralph Waldo] Emerson – escritor reconhecido e grande representante da filosofia transcendentalista americana.

E passa os dias a ler, a escrever, a realizar trabalhos variados, que lhe permitem alimentar-se e aquecer-se, e a efectuar, sobretudo, intermináveis passeios, durante os quais se abastece, como escreve no seu ensaio Caminhar, de 1861, de odores, de imagens e de presença. Sem salário, sem profissão, independente, auto-suficiente.

Henry David Thoreau nasceu e morreu em Concord (1827-1862), no Massachusetts. Primeiro paradoxo [o segundo paradoxo, portanto]: aquele que é considerado o elogiador do nomadismo, o apologista da errância, o poeta dos desvios desconhecidos, das caminhadas febris e ébrias, quase nunca saiu da sua cidade natal.

A decisão de instalar-se numa cabana construída com suas mãos – longe da sociedade, bem próximo das energias do mundo, contando, para viver, apenas com o seu trabalho manual, abandonando, portanto, a companhia dos homens e o caos das cidades, e optando pela «solidão», e pela «pobreza» –, na história do pensamento, adquiriu a dimensão de um gesto filosófico: a iniciação à verdadeira vida [sendo Thoreau conhecido como um dos fundadores da “simplicidade voluntária” e precursor do “minimalismo”].

Thoreau escreve no momento em que o capitalismo industrial se desenvolve, na América, com toda a sua força. A sua vida e sua obra representa a tentação do selvagem a crítica da técnica, a denúncia das alienações (económicas, sociais e culturais) e um chamamento para regressar à vida imediata, àquilo que [Arthur] Rimbaud chamava o «vigor». Ele tornou-se, para nós, o ícone da ruptura, o símbolo da subversão.

(…)

Para os seus contemporâneos, Thoreau passava, antes de tudo, por um excêntrico, um original. Regresso a essa manhã do mês de Julho de 1846. No centro da cidade, antes de ter conseguido reaver os seus sapatos, Thoreau é interpelado pelo filho do estalajadeiro, encarregado da colecta dos impostos, que o recorda de que deve ao Estado, havia vários anos, o imposto per capita. Thoreau recusa-se liminarmente a pagar, proclamando a sua indignação por, ao regularizar os seus impostos, ter de sustentar a guerra redeclarada ao México, que considera injusta, já para não falar do absurdo escândalo que representa, a seus olhos, a escravatura nos estados do Sul.

O cobrador fiscal vê-se, em virtude da lei, e das suas funções, obrigado a conduzir Thoreau à prisão. Este só passará uma noite, ao lado de um companheiro de cela suspeito de ter incendiado um celeiro.  Logo no dia seguinte, um parente (a sua mãe? a sua tia?) apressa-se a regularizar os impostos em atraso (e até, provavelmente, alguns anos adiantados), com medo do escândalo. Thoreau é convidado a sair da cela, coisa que faz quase de má vontade. Vai buscar os sapatos e, depois, sobe as colinas para apanhar arandos. A lenda diz que recebeu, durante essa breve estadia atrás das grades, a visita de Emerson, mais velho do que ele e seu mestre, que lhe terá perguntado: «Mas, afinal de contas, que faz você aqui?»; ao que Thoreau terá respondido: «Eu é que lhe devia fazer essa pergunta: como é possível que você não esteja aqui a meu lado?»

(…) Dessa noite passada na prisão, Thoreau extrairia a matéria para uma conferência que daria dois anos após os factos, intitulada «Resistência Civil ao Governo» (1848). É somente com a sua inclusão na edição das suas Obras Completas (1866), ou seja, depois da morte do seu autor, que o texto recebe o título «A Desobediência Civil». Paradoxo [terceiro], portanto, pois sabemos que esse caso é frequentemente citado como o momento que deu origem à desobediência civil. (…) Thoreau jamais usa a expressão «desobediência civil».

(…), no texto trata-se sobretudo da salvação isolada da nossa consciência, e nunca de um apelo à abolição de leis injustas através de acções concertadas, colectivas e pacíficas. Por conseguinte, deveremos pensar que Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King leram mal, compreenderam mal, quando todos os três falam do choque, do encontro, que essa leitura representou para eles. O que se passa é que eles encontraram aí aquilo que escapa, sistematicamente, aos teóricos da desobediência civil, em busca de uma definição estável, em busca de critérios de diferenciação: o princípio de uma conversão espiritual. Em Thoreau a desobediência está enraizada num trabalho ético sobre nós mesmos, numa exigência interior, de que dão testemunho os seus longos passeios, que equivalem às orações de Martin Luther King e à fiação de algodão de Gandhi. Essa transformação, essa ascese, é a transcendência ética da desobediência civil.

(…) A verdadeira diferença não é entre a desobediência colectiva (desobediência civil) e a insubordinação individual (objecção de consciência), mas sim entre uma desobediência passiva [ou oposição passiva], que faz apenas mudarmos de amo, e uma desobediência activa, que toma por ponto de referência a reforma interior, a exigência crítica. Descobrimo-nos insubstituíveis, logo que se trata de servir os outros, defendermos o sentido da justiça e a dignidade dos excluídos, experienciarmos o que é indelegável, é entrarmos na dissidência cívica. E a dissidência cívica é a postura ética, que há em cada um, a partir da qual a desobediência civil, como composição de forças, se autentifica e desencoraja, antecipadamente, qualquer valorização politiqueira.

[GROS, 2019: 133-145]

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GROS, Frederic. 2019. Desobedecer. Lisboa: Antígona, pp. 224. ISBN978-972-608-348-1

THOREAU, Henry David. 2020. A Desobediência Civil - seguido de Defesa de John Brown. Lisboa: Antígona, pp. 128. ISBN 978-972-608-012-1

THOREAU, Henry David. 1999. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Antígona, pp. 368. ISBN 978-972-608-106-8

THOREAU, Henry David. 2012. Caminhada. Lisboa: Antígona, pp. 88. ISBN 978-972-608-225-5


sexta-feira, 21 de abril de 2023

Percursos

 ...percursos por um Futuro Sustentável.




A Sociedade de Ética Ambiental (SEA) vai realizar um Ciclo de Tertúlias, «À/Há conversa na Estufa Fria de Lisboa», sob o mote «percursos por um Futuro Sustentável». A primeira tertúlia, já no próximo dia 30 de Abril, às 11:00, é sobre «Caminhar na Natureza: Um livro “Caminhada” de Henry David Thoreau e uma forma de ser no mundo», e será conduzida por Lavínia Pereira e Sandra Escobar. Uma interessante iniciativa sobre um livro incontornável na bibliografia sobre caminhada(s) e na própria obra literária de Thoreau. A não perder.

Seguir-se-ão mais três tertúlias de Maio a Setembro. Para mais informações, consulte a Estufa Fria de Lisboa através do telefone 218 170 996 ou através do e-mail estufafria@cm-lisboa.pt.




sexta-feira, 14 de abril de 2023

Pelos bosques

 



Quando as crianças da aldeia o visitavam na sua cabana no lago Walden, [Henry David] Thoreau levava-as em longos passeios pelos bosques. Quando assobiava estranhos sons, os animais apareciam um a um – a marmota espreitava de baixo do mato, os esquilos corriam para ele e os pássaros pousavam-lhe no ombro.

A natureza, dizia Hawthorne, «parece adotá-lo como seu filho especial», pois os animais e as plantas comunicavam com ele. Havia uma ligação que ninguém conseguia explicar. Os ratos corriam pelos braços de Thoreau, os corvos empoleiravam-se nele, as cobras enroscavam-se-lhe nas pernas e ele encontrava sempre as primeiras flores da primavera mais escondidas. A natureza falava-lhe e Thoreau falava com ela. Quando plantou uma horta de feijões, perguntou: «Que aprenderei com os feijões e os feijões comigo?» A alegria da sua vida diária era «apanhar um pouco do pó das estrelas», dizia, ou uma «semente de um arco-íris que agarrei».

Durante essa época no lago Walden, Thoreau olhava a natureza de perto. Tomava banho de manhã e depois ficava sentado ao sol. Passeava pelos bosques, ou ficava silenciosamente agachado numa clareira, à espera de que os animais se exibissem para ele. Observava o tempo que fazia e chamava a si próprio um «inspetot autonomeado das tempestades de neve e de chuva».

(WULF, 2015: 339-349)

 



LIVRO:

WULF, Andrea. 2015. A Invenção da Natureza – As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência. Lisboa: Temas & Debates/Círculo de Leitores.




domingo, 19 de março de 2023

Passear com Amig@s

Pedro Cuiça © Serra de Sintra (18/03/2023)


 “Se alguém tiver o hábito de passear nos bosques metade dos seus dias, porque gosta deles, corre logo o risco de ser considerado como um vagabundo; mas, se passar todos os seus dias como especulador, arrasando os bosques e tornando a terra baldia antes do seu tempo, será louvado como um cidadão empreendedor e habilidoso”

~ Henry David Thoreau, Uma Vida sem Princípios, p.30.

 

Quem caminha por gosto também vê a destruição a que a floresta tem sido e é sujeita reiterada e continuadamente. Mas também vislumbra a sua resiliência e beleza... E passear entre amigos não-humanos (ou mais do que humanos) é sempre estimulante. E com uma amiga, neste caso, ainda é melhor...


Pedro Cuiça © Serra de Sintra (18/03/2023)




quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Simplicidade Voluntária III

 



3. Simplicidade para o Desperdício Zero

 

«Simples nos meios, ricos nos fins.»

Arne Naess (Devall & Sessions, 2004, p. 25)

 

Os cidadãos dos países desenvolvidos (e até de países em vias de desenvolvimento) vivem numa sociedade de abundância e são atraídos para um consumo desenfreado através de diversas estratégias agressivas de marketing e de publicidade, com vista à aquisição de novos produtos e serviços, num contexto de “capitalismo selvagem”, onde o crédito é vendido a eito numa política de “compre agora e pague depois”.  Até os países sub-desenvolvidos são invadidos por quantidades inauditas de produtos “baratos”, designadamente bugigangas de plástico e vestuário. A abundância de mercadorias associada à propaganda intrusiva e à manipulação do marketing incentiva os consumidores a assumirem comportamentos insustentáveis (ZRALEK 2016). E o consumo insustentável é uma das causas importantes da contínua deterioração do meio ambiente, quer a nível local, quer global (KROPFELD, NEPOMUCENO e DANTAS 2018). É, pois, frequente que adeptos da SV questionem os efeitos que o consumo excessivo provoca na saúde, a nível pessoal e planetário (AIDAR e DANIELS 2020), designadamente no que concerne os efeitos nefastos do lixo que, bastantes vezes, assumem o cariz inquestionável de poluição.

A passagem de uma economia linear a uma economia circular pode mitigar o problema do lixo, mas não será certamente a resolução do mesmo, tendo em conta que em ambos os casos o que é verdadeiramente necessário é um decréscimo muito significativo na produção e no consumo (GHEORGHICĂ 2012; SEKULOVA et al., 2013). Decrescimento que poderá ser implementado por vivências de SV ou minimalistas, mas que deverão contar com o envolvimento activo dos produtores e da própria governança dos países e a nível internacional. Se o “círculo” receber uma crescente quantidade de novos produtos, para circulação, vai certamente chegar a um limite insustentável no qual esses “produtos” viram lixo! É prioritário pensar para além da economia circular (reutilizar, reciclar, eco-design) e imaginar estilos de vida marcados por uma maior sobriedade (GUILLARD 2021).

A título de exemplo, a poluição por resíduos plásticos constitui uma grande preocupação ambiental, tendo em conta que cerca de 80% de todos os plásticos produzidos acabam, de alguma forma, como detritos no meio ambiente (ZAMAN 2022): os microplásticos espalham-se no ar, na água e na terra, encontrando-se nas partes mais remotas do planeta e nas cadeias tróficas, enquanto gigantescas “ilhas” de plástico se acumulam nos oceanos! Esses plásticos continuarão a poluir o meio ambiente, durante centenas ou milhares de anos, constituindo um problema que, para além de acções de cidadania ambiental, a nível individual ou colectivo, exigem medidas efectivas por parte dos decisores políticos.

As profundas e fracturantes modificações que o consumismo está a provocar, segundo Sebastien Charles, assumem também facetas preocupantes e difíceis de gerir a nível social (LIPOVETSKY e CHARLES, 2004, p. 32-33):

 

«Le monde de la consommation parait chaque jour s’immiscer dans nos vies et modifier nos rapports aux objects et aux êtres que, pour autant, et ce malgré les critiques que l’on formule à son égard, on puisse proposer de contre-modèle crédible. Et, au-delá de la posture critique, rares seraient ceux qui souhaiteraient réellement l’abolir définitivement.  Force est de constater que son empire ne cesse de progresser: le principe du libre-service, le recherche d’émotions et de plaisirs, le calcul utilitariste, la superficialité des liens semblent avoir contaminé l’ensemble du corps social, la spiritualité elle-même n’y échappant pas.»

 

O sociólogo polaco Zygmunt Bauman (2017), que estuda a face mais perversa e doentia do capitalismo, também assinala diversas preocupações, designadamente a ideia de que somos o que consumimos, a pressão para consumir cada vez mais e os centros comerciais enquanto “catedrais” do consumo! O (hiper)consumismo das sociedades (pós)modernas, na expressão do filósofo Gilles Lipovetsky (2004), é considerado um estilo de vida e um estado de espírito.  A primeira reforma com vista a avançar para um efectivo desperdício zero8 devia centrar-se, portanto, numa profunda mudança de mentalidades e de atitudes. É fundamental reduzir substancialmente a quantidade de lixo: a produção de resíduos deve diminuir progressivamente, decrescer tendencialmente para a meta do desperdício zero. Nesse pressuposto, os “Rs” prioritários serão o reduzir e o renunciar e só depois se seguirão outros. As estratégias de gestão desperdício zero, com base na reutilização, na reparação e na reciclagem, são importantes com vista ao reaproveitamento do “lixo”, mas é fundamental agir a montante reduzindo substancialmente a produção, o consumo e consequentemente a geração de resíduos. É importante saber dizer não. Não ao consumo, num acto de renúncia consciente e conscienciosa. Neste contexto, torna-se importante examinar as relações entre a sobriedade e o desregramento dos consumidores e a sua posse de “bens” ou ausência de posse, de modo a identificar comportamentos e desenvolver estratégias de intervenção adequadas, com o objectivo de reduzir o desperdício.

Saliente-se, todavia, que algumas estratégias e comportamentos para reduzir a quantidade de lixo ultrapassam o plano meramente individual e exigem intervenções comunitárias (BEKIN, CARRIGAN e SZMIGIN 2007). Por outro lado, é também fundamental responsabilizar os produtores, numa lógica de “poluidor pagador”, na qual estes assumam as externalidades decorrentes da produção; tal como os políticos, que foram eleitos para resolver problemas e não para perpetuarem o status quo. É imperioso que se adoptem estratégias de decrescimento para diminuir a produção de resíduos, rumo ao desperdício zero, mas também para minimizar as alterações climáticas, mitigar a degradação ambiental e amenizar os conflitos sociais (MARÍN-BELTRÁN et al. 2021; HICKEL 2021). E, esse desiderato de decrescimento e de uma vida boa, deverá passar necessariamente pela SV.

 

Conclusões

O hiper-consumismo das sociedades pós-modernas assume a condição de estilo de vida e constitui um estado de espírito generalizado.  Uma diminuição significativa e gradual dos resíduos, com vista ao desperdício zero, deve basear-se numa mudança de atitudes, designadamente através do decrescimento e da adopção de estilos de vida (mais) simples. Essa mudança só será sustentável, todavia, se satisfizer um conjunto de necessidades que permitam o bem-estar eudaimónico dos intervenientes. O conceito de vida simples surge frequentemente associado a bem-estar e considera-se que este será fundamental como motivação para a aplicação e sustentabilidade do conceito, tal como para a sua expressão a nível social.

A passagem de uma economia linear a uma economia circular pode mitigar o problema do lixo, mas não constituirá certamente a resolução do mesmo. As estratégias de gestão desperdício zero, com base na reutilização, na reparação e na reciclagem, são importantes com vista ao reaproveitamento do “lixo”, mas é fundamental agir a montante. Só através de um decrescimento (muito) significativo na produção e no consumo é que será possível avançar para situações sustentáveis de gestão do lixo.

A inter-relação entre a SV, o decrescimento e o desperdício zero deverá passar inevitavelmente por vivências mais eco-lógicas, assentes na moderação e no equilíbrio, na sobriedade e na temperança, no minimalismo e na frugalidade, na renúncia e na abstinência. Os estilos de vida decorrentes destas renovadas atitudes devem basear-se, enfim, numa Ética da Terra, assente no bem-estar e no bem-fazer, que permita mais do que uma vida simples, uma vida de maravilhamento e de (Auto)realização.





Nota

8. O termo “desperdício zero”, cunhado em 1974 por Paul Palmer, trata-se do desiderato de progredir para uma gestão sustentável do lixo, que está ancorada no conceito de economia circular (HANNON e ZAMAN 2018). A Zero Waste International Alliance definiu, em 2018, desperdício zero como «the conservation of all resources, packaging, and materials without burning and with no discharges to land, water or air that threatens the environment or human health» (ZAMAN 2022, p. 3).

 

Bibliografia

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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Simplicidade Voluntária II


2. Necessidades: o essencial e o acessório

 

«(…) um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir.»

Henry David Thoreau (1999, p. 99)

 

Embora muitos aspectos da SV tenham sido investigados empiricamente – incluindo comportamentos de consumo e responsabilidade ambiental –, a investigação da relação entre esse conceito/movimento e o bem-estar está limitada a poucos estudos. No entanto, parece haver uma associação entre o envolvimento na SV e o aumento de bem-estar (RICH, HANNA, WRIGHT e BENNETT 2017), apesar de um número considerável de intervenientes não saber identificar os motivos que contribuem para o seu bem-estar (DIJK 2013). Saliente-se que também foi identificada uma relação entre a frugalidade e o bem-estar (MUIÑOS, SUÁREZ, HESS e HERNANDÉZ 2015). O bem-estar trata-se de um constructo complexo e muito abrangente, que integra diversas dimensões e que aglutina contributos de distintas áreas do conhecimento6 (GALINHA e RIBEIRO 2005). O bem-estar surge geralmente associado à satisfação com a vida (life satisfation), felicidade e afecto positivo (RICH, WRIGHT e BENNETT 2020).

A satisfação é frequentemente mencionada na literatura da SV, sob diversas formas, e nem sempre é a satisfação hedónica com a vida aquela a que os adeptos do movimento se referem. Palavras como "significado” e “autenticidade", "equilíbrio” e “envolvimento" aparecem com frequência. Nesta matéria, será oportuno trazer à colação o pensamento de Agostinho da Silva que, numa perspectiva eudaimónica, afirma que o objectivo de vida de cada ser humano não é ser feliz, mas sim cumprir-se.

Entretanto, numa espécie de paradoxo, constata-se o predomínio dos valores hedonistas nas sociedades ditas “pós-modernas” (LIPOVETSKY 1988). O bem-estar, nesse contexto, surge indissociável do prazer e do consumo. Com uma profusão luxuriante de produtos e de serviços, o hedonismo, com o seu clima eufórico de tentação e proximidade, assenta na sedução e consequente consumo e desperdício. Esse bem-estar é determinado, em grande parte, pela capacidade de satisfação de necessidades e aspirações materiais, dependendo por isso do rendimento de cada um. A maior ou menor capacidade financeira também tem influência no sentimento de segurança ou de insegurança pessoal.

A pobreza extrema (SACHS, 2017) é obviamente uma afronta ao bem-estar e à satisfação com a vida. Os muito pobres passam fome, não têm água potável, nem saneamento, e não possuem acesso a cuidados de saúde. No entanto, é interessante constatar que os índices de satisfação só crescem de modo significativo até ao ponto em que a carência e a pobreza dão lugar à satisfação das necessidades essenciais, de sobrevivência, e param de subir ou tendem mesmo a decrescer drasticamente com novos incrementos de riqueza acima desse ponto (BAUMAN 2017).

A SV deverá, portanto, consistir num esforço consciente para descobrir o que é verdadeiramente essencial e prescindir daquilo que se considere supérfluo. E, por outro lado, determinar qual o doseamento adequado das respectivas necessidades consideradas essenciais. Tarefa bastante difícil tendo em conta a multiplicidade de pontos de vista sobre o assunto. Quando se coloca a questão do que é preciso para um ser humano sobreviver, no topo da lista aparece frequentemente o abrigo, como necessidade básica a satisfazer (OSIKOMINU e BOCKEN 2020). David Ward e Marta Lasen (2009) salientaram três necessidades de sobrevivência: alimentos, água e abrigo. Thoreau identificou quatro «coisas necessárias» ou «indispensáveis à vida»: alimento, abrigo, roupa e combustível (1999, p. 26-27). Mark Boyle, na sua experiência de viver um ano sem dinheiro, identificou “seis coisas” para assegurar «o nível básico de subsistência»: (1) abrigo, (2) energia, (3) alimentação, (4) mobilidade, (5) comunicações e (6) tudo o resto (2012, p. 41). Torna-se evidente que as necessidades variam consoante as circunstâncias e os autores. Por outro lado, verifica-se que não existe concordância sobre quais as necessidades que são consideradas essenciais e quais as que serão acessórias. E menos concordância existe na determinação, para cada necessidade, do que se considera conforto e desconforto. Nessa matéria, para tentar determinar quais as necessidades vitais, será interessante recorrer à “Lei” da Tolerância de Shelford (1913), utilizada de modo profícuo no contexto da ecologia clássica. Esta estabelece que todos os organismos têm um mínimo e um máximo ecológicos, para factores como a alimentação e a temperatura, entre outros (ODUM 1988). Limites que, quando ultrapassados, levam à morte: a fome mata, tal como o excesso de alimentação. Por muito cruel que possa parecer, a morte por inanição é um fenómeno natural (WOHLLEBEN 2019); no entanto, no contexto humano a componente cultural toma primazia. Por exemplo, a discussão sobre os níveis mínimos e máximos de satisfação de necessidades e as suas implicações económico-financeiras, no âmbito do decrescimento, está na ordem do dia (BÜCHS e KOCH 2019).

A Plataforma da Ecologia Profunda, criada em 1984, por George Sessions e Arne Naess, faz referência, no seu ponto terceiro, à satisfação das necessidades vitais, mas propositadamente não define quais são essas necessidades. Apenas diz que os «seres humanos não têm o direito de reduzir [a riqueza e a diversidade das formas de vida], excepto para satisfazer necessidades vitais» (DEVALL e SESSIONS 2004, p. 90). Constatação pouco utilitária, ademais num contexto citadino pós-moderno7.

Uma forma interessante de operacionalizar necessidades e a sua satisfação é através da Pirâmide de Maslow (KOLTKO-RIVERA 2006; POSTON 2009; KENRICK et al. 2010; DESMET e FOKKINGA 2020). O bem-estar é, desde logo, determinado pela capacidade de satisfação das necessidades materiais (fisiológicas) da base da pirâmide: fome, sede, frio, calor, etc..  Depois, satisfeitas essas necessidades básicas, mas fundamentais porque são os alicerces do bem-estar, pode-se satisfazer as necessidades de segurança e por aí adiante. A Pirâmide de Maslow é muitas vezes utilizada em contextos pós-modernos de satisfação de objectivos meramente hedonistas, mas aqui abre-se a possibilidade da sua utilização numa perspectiva holística, cuja progressão até ao topo da pirâmide almeje a Auto-realização da ecologia profunda de Arne Naess (VAZ e DELFINO 2010), a Transcendência de Manuel Sérgio (SÉRGIO 2018) ou outra superação num contexto assumidamente eudaimónico. Mais do que elencar quais as necessidades essenciais ou vitais, nesta abordagem pretende-se satisfazer as necessidades que surjam, com o conforto possível, permitindo não a sobrevivência, mas a plena vivência de uma vida boa. Essencial é o minimalismo e, no tocante ao doseamento, é sempre possível recorrer ao saber dos antigos e optar pela sobriedade, a temperança e a frugalidade.




Notas

6. O estudo do bem-estar no domínio da investigação científica surgiu na década de 1960, pela necessidade de desenvolver indicadores sociais sobre qualidade de vida (MACHADO e BANDEIRA 2012). O trabalho de Ed Diener (1984) surge como um marco na tentativa de sistematização dos estudos nesta área do conhecimento, tendo cunhado o termo “bem-estar subjectivo” (BES). O BES comporta duas componentes basilares: o afecto e a cognição. A componente afectiva envolve aspectos emocionais (percepções instintivas) e a cognitiva refere-se a aspectos racionais e intelectuais (decorrentes do pensamento). A componente afectiva pode ainda ser diferenciada em afecto positivo e afecto negativo. É nesse contexto que Andrews e Withey (1976) estruturaram, como componentes do BES, a satisfação juntamente com a expressão do afecto positivo e do afecto negativo (GIACOMONI 2004).

O bem-estar psicológico (BEP) baseia-se na teoria psicológica sobre o funcionamento psicológico positivo ou óptimo, surgido, em 1989, a partir de um ensaio de Carol Ryff. A autora criticou a falta de consistente base teórica para justificar a escolha dos indicadores do BES: os estudos prévios utilizavam medidas de afectos positivos e negativos e da satisfação de vida, com o propósito de investigar a influência de mudanças sociais e do envelhecimento bem-sucedido, e não a essência do bem-estar psicológico (MACHADO e BANDEIRA 2012). Por outro lado, ainda segundo essa autora, a interpretação da felicidade como sendo a principal motivação da existência humana incide sobre a interpretação equivocada do pensamento dos antigos filósofos gregos, designadamente de Aristóteles (Ryff 1989, Ryff e Keys 1995 in MACHADO e BANDEIRA 2012). Este, na sua doutrina ética, propôs que o bem-viver resulta da eudaimonia, i.e., provém de uma intenção de desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano. Consequentemente, a eudaimonia consiste num caminho de desenvolvimento pessoal, de auto-realização e de busca do sentido da vida. Por outro lado, formulações sobre a essência do bem-estar, em termos de experiências prazerosas, contentamento, satisfação e felicidade (isto é, de BES) correspondem à concepção hedónica (por exemplo, de Aristipo de Cirene) do bem-viver, da satisfação de desejos, da busca de prazer e do evitar da dor. A expressão eudaimonia foi equivocadamente traduzida por felicidade, ignorando diferenças fundamentais entre hedonismo e eudaimonia, tal como as suas implicações teóricas no estudo do bem-estar. Segundo Ryff, do ponto de vista meta-teórico, o BEP representa a tradição eudaimónica do estudo do bem-estar, resgatando o sentido original do bem-viver na doutrina Aristotélica (MACHADO e BANDEIRA 2012).

O conceito de bem-estar será certamente melhor compreendido quando envolve simultaneamente o funcionamento optimizado (eudaimonia) e a experiência prazerosa (hedonia), pois tanto as actividades eudaimónicas, quanto as hedónicas, estão intimamente relacionadas a satisfação, a autoestima ou a vitalidade, entre outros indicadores (SINGLETON 2019).

7. A generalidade dos cidadãos citadinos (e não só), no contexto pós-moderno actual, vivem de certo modo numa realidade distópica, alienados dos ecossistemas naturais e até semi-naturais. Desde logo, não têm de se confrontar com a morte de um animal e a sua preparação para o comer: nos (super e hiper)mercados a comida vem, em regra, preparada para não haver esse tipo de “confrontações”. Neste contexto, a tomada de decisões no tocante à satisfação de necessidades vitais torna-se algo de (muito) complexo, subjectivo e longe de consensos.