quarta-feira, 21 de março de 2018

D'o Amor...


Os Cavaleiros do Amor

«Neste vale, o amor é representado pelo fogo e a razão pelo fumo. Quando o amor toma o lugar, a razão desaparece. A razão não pode viver com a loucura do amor; o amor não tem nada que ver com a razão humana. Se possuíres a visão interior, os átomos do mundo visível ser-te-ão revelados. Mas se vires as coisas com os olhos da razão comum, jamais compreenderás quão necessário é amar. Só alguém posto à prova e em liberdade pode senti-lo. Quem empreende esta jornada deveria ter mil corações para poder sacrificar um a cada momento.»
Farid Ud-Din Attar (2013: 132-133)

«Ah! Maravilha! Um jardim no meio do fogo!
O meu coração tornou-se capaz de todas as formas:
pastagem para gazelas e abadia para monges,
templo para ídolos e Caaba para o peregrino,
As tábuas da Tora e o livro do Alcorão!
A minha religião é a religião do Amor:
Para onde segue a sua caravana, essa é a minha direcção!
O Amor é a minha religião e a minha fé!»
Ibn’Arabi, O Intérprete do desejos (in SINDE, 2013: 22-23)

«E se, confirmado pelo Criador, o apaixonado escapar das garras da águia do amor, haverá de entrar no Vale do Conhecimento.»
Bahá’u’lláh (2001:11-13)


Pedro Cuiça © Shiraz (Irão, Out./2017)

O perfume das flores que nos ofereceram é, a seu modo, inebriante e tão delicado quanto a sua denominação acolhedoramente mater-nal: Mariam (ou Miriam) –, ao que parece, chamadas “angélicas perfumadas” em português… E que contraste com o acre e o selvagem odor emanado pelas flores das áridas montanhas que palmilhei nos arredores de Shiraz – a cidade dos poetas –, num vasto mar de escalvadas rochas apenas interrompido, nos seus longínquos horizontes, por linhas montanhosas mais "cercanas"! Esta é, sem dúvida, uma terra de notórios e marcados contrastes, uns evidentes outros ocultos à vista de todos… Terra mirífica, admirável e maravilhosa, de gentes extraordinariamente gentis e cultas, onde não será incrível defrontar-nos com o inesperado ou o surpreendente.
Nessa terra é precisamente a poesia, enquanto linguagem muito próxima da “verdade”, a forma mais adequada de exprimir essa realidade, mais ou menos velada, mas sempre sobrejacente para mim, que se designa por “Amor”. E, quando nos referimos a realismo não estamos, à semelhança de António Telmo, a pensar tão somente «no mundo dado aos sentidos, naquilo a que chamamos o mundo objectivo». Segundo esse filósofo português, há uma dupla face da realidade – a natural e a sobrenatural – e é entre as duas que surge e se expressa o mistério metafórico e mediador do verbo, entre o mundo sensível e o mundo inteligível, entre o natural e o divino (TELMO, 2014: 85). Tudo aquilo que está subjacente ao visível (ou que será, inclusivamente, invisível) não é por isso inexistente. E, curiosamente, «tudo o que é do domínio do mistério, não é possível mostrar sem ocultar» (TELMO, 2009: 62).
O Amor não se restringe à cidade, bem pelo contrário, está expresso na rudeza dos montes e estende-se ao resto do território que foi outrora a Pérsia… Bem me lembro, passadas quase duas décadas, dos contrastantes campos, intensamente verdes e pontilhados de encarnadas papoilas, nas faldas do Damavand (5671 m), tal como dos dois cordeiros sacrificados sobre a nívea neve do cume dessa montanha!
Porque foi o Dervísh Muhammad-i-Írání, antes da sua proclamação e do seu ministério público enquanto Bahá’u’lláh, para um período de dois anos de afastamento e reclusão nas montanhas desoladas do Curdistão? Porque foi o Zaratustra de Nietzsche para a montanha e aí permaneceu, alimentando-se da sua sageza, durante 10 anos sem que se cansasse? Estarão estas e outras personagens (reais ou imaginárias!) na senda dos “fiéis de amor”: designação atribuída, por exemplo, a sete poetas maiores “iranianos”: Roudaki, Sa’adi, Attâr, Mowlavi, Khayyâm, Nezâmi e Hâfez? Como diria Ibn’Arabi, o grande místico andaluz, todos eles terão em comum uma mesma via: «o amor é o seu credo e a sua fé» (FOULADVIND, 2016: 9).

Pedro Cuiça © vista sobre Shiraz (Irão, Out./2017)

Pedro Cuiça © Monte Chamran (Irão, Out./2017)

Pedro Cuiça © Monte Chamran (Irão, Out./2017)

Pedro Cuiça © túmulo do poeta Hâfez (Shiraz - Irão, Out./2017)

Pedro Cuiça © túmulo do poeta Saadi (Shiraz - Irão, Out./2017)



Sur la voie
137

Tu verras de secret de la coupe du Graal
en te poudrant les yeux du khol de la taverne.
Bois, fais de la musique: il faut bien te distraire
et chasser de ton coeur ce qui lui fait si mal.

Veux-tu faire s’ouvrir la fleur de ton désir?
Approche-la comme une brise printanière.
Mendier devant l’auberge est l’unique elixir
qui puisse transmuter en or de la poussière.

Fais un pas ver l’étape de l’Amour. Crios-moi,
tu auras grand profit à scruter l’invisible.
Toi qui es prisonnier dans le monde sensible,
comment peix-tu savoir où se trouve la Voie?

La beauté de l’Ami sans voile est l’Evidence,
Mais tu dois te frotter les yeux pour y voir clair.
Écoute! Si tu veux savourer la Présence,
demande aux initiés leur grâce et leur faveur.

Si tu es attaché à la coupe et aux lèvres,
jamais rien d’important ne se fait dans la fièvre.

Hâfez Shirâzi
(SHIRÂZI, 2016: 133)

(SHIRÂZI, 2016: 132)

NOTA
Estive no Irão por duas vezes – em Junho de 2001 e em Outubro de 2017 – e no regresso da segunda viagem, ainda antes de chegar a Portugal, tomei a decisão de escrever um texto sobre a significativa experiência vivenciada nessa “terra de poetas” e cuja temática se tornou, desde logo, tão evidente quanto incontornável: o Amor. No entanto, a “complexidade” e a profundidade do tema foi fazendo com que fosse adiando essa manifesta necessidade de escrever o texto em questão e só hoje, por alturas do Naw-Rúz, neste que é o Dia Mundial da Poesia, da Árvore e das Florestas, me vi "obrigado" a fazê-lo. De forma incompleta e inconclusiva, é certo, mas não poderia deixar de o fazer, nem que fosse (e é) sob a forma de um simples esquisso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ATTAR, Farid Ud-Din. A Conferência dos Pássaros – Uma fábula espiritual sobre o conhecimento de si mesmo. Barcarena: Marcador Editora, 2013, pp. 174. ISBN 978-989-754-006-6
Bahá’u’lláh. Os Sete Vales – A jornada de um peregrino em busca do Ser Eterno. Mogi Mirim (Brasil): Editora Planeta Paz, 4ª ed., 2001, pp. 68.ISBN 85-85690-27-5
BRUNO, Sampaio. Os Cavaleiros do Amor – Plano de um livro a fazer – Dispersos e Inéditos. Lisboa: Guimarães Editores, 1960, pp. 216.
FOULADVIND, Hamèd. Les Sept Fidèles d’amour. Teerão: Yassavoli Publications, 2016, pp. 90. ISBN 978-964-306-612-3
GOMES, Pinharanda. A Teologia de Leonardo Coimbra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, 200.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.
SHIRÂZI, Hâfez. L’amour, l’amant, l’aimé – cent ballades traduites du persan et présentées par Vincent-Mansour Monteil en collaboration avec calligraphies originales. Irão: 2016, pp. 316. ISBN 978-964-96229-3
SINDE, Pedro. Sete Sábios Portugueses. Chaves: Tartaruga, 2013, pp. 232. ISBN 978-989-8057-39-6
TELMO, António. Congeminações de um Neopitagórico. Sintra: Zéfiro, 2009, pp. 184. ISBN 978-972-8958-85-5
TELMO, António. Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Sintra: Zéfiro, 2014, pp. 216. ISBN 978-989-677-119-5.

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