quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Simplicidade Voluntária II


2. Necessidades: o essencial e o acessório

 

«(…) um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir.»

Henry David Thoreau (1999, p. 99)

 

Embora muitos aspectos da SV tenham sido investigados empiricamente – incluindo comportamentos de consumo e responsabilidade ambiental –, a investigação da relação entre esse conceito/movimento e o bem-estar está limitada a poucos estudos. No entanto, parece haver uma associação entre o envolvimento na SV e o aumento de bem-estar (RICH, HANNA, WRIGHT e BENNETT 2017), apesar de um número considerável de intervenientes não saber identificar os motivos que contribuem para o seu bem-estar (DIJK 2013). Saliente-se que também foi identificada uma relação entre a frugalidade e o bem-estar (MUIÑOS, SUÁREZ, HESS e HERNANDÉZ 2015). O bem-estar trata-se de um constructo complexo e muito abrangente, que integra diversas dimensões e que aglutina contributos de distintas áreas do conhecimento6 (GALINHA e RIBEIRO 2005). O bem-estar surge geralmente associado à satisfação com a vida (life satisfation), felicidade e afecto positivo (RICH, WRIGHT e BENNETT 2020).

A satisfação é frequentemente mencionada na literatura da SV, sob diversas formas, e nem sempre é a satisfação hedónica com a vida aquela a que os adeptos do movimento se referem. Palavras como "significado” e “autenticidade", "equilíbrio” e “envolvimento" aparecem com frequência. Nesta matéria, será oportuno trazer à colação o pensamento de Agostinho da Silva que, numa perspectiva eudaimónica, afirma que o objectivo de vida de cada ser humano não é ser feliz, mas sim cumprir-se.

Entretanto, numa espécie de paradoxo, constata-se o predomínio dos valores hedonistas nas sociedades ditas “pós-modernas” (LIPOVETSKY 1988). O bem-estar, nesse contexto, surge indissociável do prazer e do consumo. Com uma profusão luxuriante de produtos e de serviços, o hedonismo, com o seu clima eufórico de tentação e proximidade, assenta na sedução e consequente consumo e desperdício. Esse bem-estar é determinado, em grande parte, pela capacidade de satisfação de necessidades e aspirações materiais, dependendo por isso do rendimento de cada um. A maior ou menor capacidade financeira também tem influência no sentimento de segurança ou de insegurança pessoal.

A pobreza extrema (SACHS, 2017) é obviamente uma afronta ao bem-estar e à satisfação com a vida. Os muito pobres passam fome, não têm água potável, nem saneamento, e não possuem acesso a cuidados de saúde. No entanto, é interessante constatar que os índices de satisfação só crescem de modo significativo até ao ponto em que a carência e a pobreza dão lugar à satisfação das necessidades essenciais, de sobrevivência, e param de subir ou tendem mesmo a decrescer drasticamente com novos incrementos de riqueza acima desse ponto (BAUMAN 2017).

A SV deverá, portanto, consistir num esforço consciente para descobrir o que é verdadeiramente essencial e prescindir daquilo que se considere supérfluo. E, por outro lado, determinar qual o doseamento adequado das respectivas necessidades consideradas essenciais. Tarefa bastante difícil tendo em conta a multiplicidade de pontos de vista sobre o assunto. Quando se coloca a questão do que é preciso para um ser humano sobreviver, no topo da lista aparece frequentemente o abrigo, como necessidade básica a satisfazer (OSIKOMINU e BOCKEN 2020). David Ward e Marta Lasen (2009) salientaram três necessidades de sobrevivência: alimentos, água e abrigo. Thoreau identificou quatro «coisas necessárias» ou «indispensáveis à vida»: alimento, abrigo, roupa e combustível (1999, p. 26-27). Mark Boyle, na sua experiência de viver um ano sem dinheiro, identificou “seis coisas” para assegurar «o nível básico de subsistência»: (1) abrigo, (2) energia, (3) alimentação, (4) mobilidade, (5) comunicações e (6) tudo o resto (2012, p. 41). Torna-se evidente que as necessidades variam consoante as circunstâncias e os autores. Por outro lado, verifica-se que não existe concordância sobre quais as necessidades que são consideradas essenciais e quais as que serão acessórias. E menos concordância existe na determinação, para cada necessidade, do que se considera conforto e desconforto. Nessa matéria, para tentar determinar quais as necessidades vitais, será interessante recorrer à “Lei” da Tolerância de Shelford (1913), utilizada de modo profícuo no contexto da ecologia clássica. Esta estabelece que todos os organismos têm um mínimo e um máximo ecológicos, para factores como a alimentação e a temperatura, entre outros (ODUM 1988). Limites que, quando ultrapassados, levam à morte: a fome mata, tal como o excesso de alimentação. Por muito cruel que possa parecer, a morte por inanição é um fenómeno natural (WOHLLEBEN 2019); no entanto, no contexto humano a componente cultural toma primazia. Por exemplo, a discussão sobre os níveis mínimos e máximos de satisfação de necessidades e as suas implicações económico-financeiras, no âmbito do decrescimento, está na ordem do dia (BÜCHS e KOCH 2019).

A Plataforma da Ecologia Profunda, criada em 1984, por George Sessions e Arne Naess, faz referência, no seu ponto terceiro, à satisfação das necessidades vitais, mas propositadamente não define quais são essas necessidades. Apenas diz que os «seres humanos não têm o direito de reduzir [a riqueza e a diversidade das formas de vida], excepto para satisfazer necessidades vitais» (DEVALL e SESSIONS 2004, p. 90). Constatação pouco utilitária, ademais num contexto citadino pós-moderno7.

Uma forma interessante de operacionalizar necessidades e a sua satisfação é através da Pirâmide de Maslow (KOLTKO-RIVERA 2006; POSTON 2009; KENRICK et al. 2010; DESMET e FOKKINGA 2020). O bem-estar é, desde logo, determinado pela capacidade de satisfação das necessidades materiais (fisiológicas) da base da pirâmide: fome, sede, frio, calor, etc..  Depois, satisfeitas essas necessidades básicas, mas fundamentais porque são os alicerces do bem-estar, pode-se satisfazer as necessidades de segurança e por aí adiante. A Pirâmide de Maslow é muitas vezes utilizada em contextos pós-modernos de satisfação de objectivos meramente hedonistas, mas aqui abre-se a possibilidade da sua utilização numa perspectiva holística, cuja progressão até ao topo da pirâmide almeje a Auto-realização da ecologia profunda de Arne Naess (VAZ e DELFINO 2010), a Transcendência de Manuel Sérgio (SÉRGIO 2018) ou outra superação num contexto assumidamente eudaimónico. Mais do que elencar quais as necessidades essenciais ou vitais, nesta abordagem pretende-se satisfazer as necessidades que surjam, com o conforto possível, permitindo não a sobrevivência, mas a plena vivência de uma vida boa. Essencial é o minimalismo e, no tocante ao doseamento, é sempre possível recorrer ao saber dos antigos e optar pela sobriedade, a temperança e a frugalidade.




Notas

6. O estudo do bem-estar no domínio da investigação científica surgiu na década de 1960, pela necessidade de desenvolver indicadores sociais sobre qualidade de vida (MACHADO e BANDEIRA 2012). O trabalho de Ed Diener (1984) surge como um marco na tentativa de sistematização dos estudos nesta área do conhecimento, tendo cunhado o termo “bem-estar subjectivo” (BES). O BES comporta duas componentes basilares: o afecto e a cognição. A componente afectiva envolve aspectos emocionais (percepções instintivas) e a cognitiva refere-se a aspectos racionais e intelectuais (decorrentes do pensamento). A componente afectiva pode ainda ser diferenciada em afecto positivo e afecto negativo. É nesse contexto que Andrews e Withey (1976) estruturaram, como componentes do BES, a satisfação juntamente com a expressão do afecto positivo e do afecto negativo (GIACOMONI 2004).

O bem-estar psicológico (BEP) baseia-se na teoria psicológica sobre o funcionamento psicológico positivo ou óptimo, surgido, em 1989, a partir de um ensaio de Carol Ryff. A autora criticou a falta de consistente base teórica para justificar a escolha dos indicadores do BES: os estudos prévios utilizavam medidas de afectos positivos e negativos e da satisfação de vida, com o propósito de investigar a influência de mudanças sociais e do envelhecimento bem-sucedido, e não a essência do bem-estar psicológico (MACHADO e BANDEIRA 2012). Por outro lado, ainda segundo essa autora, a interpretação da felicidade como sendo a principal motivação da existência humana incide sobre a interpretação equivocada do pensamento dos antigos filósofos gregos, designadamente de Aristóteles (Ryff 1989, Ryff e Keys 1995 in MACHADO e BANDEIRA 2012). Este, na sua doutrina ética, propôs que o bem-viver resulta da eudaimonia, i.e., provém de uma intenção de desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano. Consequentemente, a eudaimonia consiste num caminho de desenvolvimento pessoal, de auto-realização e de busca do sentido da vida. Por outro lado, formulações sobre a essência do bem-estar, em termos de experiências prazerosas, contentamento, satisfação e felicidade (isto é, de BES) correspondem à concepção hedónica (por exemplo, de Aristipo de Cirene) do bem-viver, da satisfação de desejos, da busca de prazer e do evitar da dor. A expressão eudaimonia foi equivocadamente traduzida por felicidade, ignorando diferenças fundamentais entre hedonismo e eudaimonia, tal como as suas implicações teóricas no estudo do bem-estar. Segundo Ryff, do ponto de vista meta-teórico, o BEP representa a tradição eudaimónica do estudo do bem-estar, resgatando o sentido original do bem-viver na doutrina Aristotélica (MACHADO e BANDEIRA 2012).

O conceito de bem-estar será certamente melhor compreendido quando envolve simultaneamente o funcionamento optimizado (eudaimonia) e a experiência prazerosa (hedonia), pois tanto as actividades eudaimónicas, quanto as hedónicas, estão intimamente relacionadas a satisfação, a autoestima ou a vitalidade, entre outros indicadores (SINGLETON 2019).

7. A generalidade dos cidadãos citadinos (e não só), no contexto pós-moderno actual, vivem de certo modo numa realidade distópica, alienados dos ecossistemas naturais e até semi-naturais. Desde logo, não têm de se confrontar com a morte de um animal e a sua preparação para o comer: nos (super e hiper)mercados a comida vem, em regra, preparada para não haver esse tipo de “confrontações”. Neste contexto, a tomada de decisões no tocante à satisfação de necessidades vitais torna-se algo de (muito) complexo, subjectivo e longe de consensos.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Simplicidade Voluntária I


Após um interregno de vários meses, eis que regressamos à “escrita” no Pedestris! O dia de hoje, 9 de A-gosto, é de certo modo auspicioso, tendo em conta que foi neste dia que, em 1854, surgiu a primeira edição de Walden or Life in the Woods: a obra prima de Henry David Thoreau (editada em Portugal, pela Antígona, sob o título de Walden ou a vida nos bosques). Thoreau, para além de um notável clássico do ambientalismo e paladino das caminhadas, é considerado, por diversos autores, como o fundador da simplicidade voluntária. É neste contexto que publicamos, hoje, parte de um texto, que escrevemos em Junho de 2022, sobre o assunto e que iremos publicar na sua totalidade nos próximos dias. É também neste contexto, assim o esperamos e desejamos, que iremos retomar paulatinamente as andanças e os encantamentos, neste blogue que tem estado parado mas que terá de se pôr, novamente, em marcha. 




Simplicidade Voluntária e Satisfação de Necessidades

Estratégias de Decrescimento e seu contributo para o Desperdício Zero

 

Resumo

A simplicidade voluntária (voluntary simplicity) trata-se de um estilo de vida no qual os indivíduos adoptam conscientemente práticas de redução do consumo, entre outras medidas tendentes a uma vida simples ou simplificada. Apesar do movimento evidenciar preocupações ambientais, regra geral o enfoque centra-se no consumo e não no desperdício. Considera-se pertinente estudar o contributo da simplicidade voluntária no que concerne o desperdício zero (zero waste). Nesse contexto, é dada também uma particular atenção ao decrescimento (degrowth), pela sua relação com a simplicidade voluntária, e ao seu contributo no âmbito do desperdício zero. Este ensaio explora as possíveis (inter)relações, entre os movimentos da simplicidade voluntária, decrescimento e desperdício zero, através de uma análise crítica dos pressupostos de que uma efectiva diminuição dos resíduos, com vista ao desperdício zero, deve basear-se numa mudança de atitudes, designadamente através da simplicidade voluntária e do decrescimento, e essa mudança só será sustentável se assegurar as necessidades e o bem-estar dos intervenientes.

 

Palavras-chave: simplicidade voluntária, decrescimento, desperdício zero, bem-estar

 

Introdução

O filósofo americano Richard Gregg introduziu, em 1936, o conceito de “simplicidade voluntária” (SV), correspondente a um estilo de vida baseado na redução do consumo (RICH, HANNA, WRIGH e BENNET 2017). A SV tornou-se um movimento de oposição ao consumismo e aos estilos de vida materialistas, envolvendo mudanças conscientes para vivências intrinsecamente satisfatórias (OSIKOMINU e BOCKEN 2020): suprir as necessidades materiais de forma o mais simples possível, direcionando mais tempo na busca de bem-estar e de significado. No entanto, o conceito é bastante mais complexo e envolve uma miríade de diferentes motivações. Stacey Ann Rich e colegas (2017) apontaram cinco características associadas à SV: (1) simplicidade material: consumir apenas o que é requerido para satisfazer necessidades; (2) dimensão humana: desejo de ambientes de vida e de trabalho mais “amigáveis”; (3) auto-determinação: a vontade de ter um maior controlo da sua vida; (4) consciência ecológica: o reconhecimento do limite dos recursos e do impacte das acções individuais; (5) crescimento pessoal: o desiderato de desenvolvimento interior, seja intelectual e/ou espiritual. Neste ensaio vamos dar uma especial atenção à satisfação de necessidades e ao desejo de desenvolvimento (realização) pessoal.

A SV surge frequentemente associada a outras denominações sinónimas, caso da “vida simples”, do “downshifting” e do “minimalismo”. Esta última palavra também é, por vezes, conceptualizada como uma segunda vaga da SV, resultante da reacção à crise financeira global de 2008, tal como às crescentes preocupações face ao excessivo aumento do consumo e dos resíduos pós-consumo1 (MARTIN-WOODHEAD 2021). Outros termos que surgem associados à SV são “frugalidade” (frugality), “decrescimento” (degrowth), “desperdício zero” (zero waste), “movimento lento” (slow movement), “mindful consumers”, “sharing swapping”, entre outros. A frugalidade merece uma nota especial pelo grande interesse que tem suscitado, sobretudo desde 2010, no âmbito do mavenismo de mercado associado à aversão ao consumismo, evidenciando claras semelhanças à SV (TIWARI e HERSTATT, 2020; SUÁREZ, HERNANDÉZ, GIL-GIMÉNEZ e CORRAL-VERDUGO 2020; JAIN e BHADURI 2021). Saliente-se, igualmente, que a SV não deve estar alheada dos conceitos/movimentos de decrescimento e de desperdício zero, tendo em conta que o crescimento económico e o hiper-consumismo, das sociedades contemporâneas pós-modernas, estão directamente relacionados com o gigantesco problema do incremento do lixo e da poluição (PARRIQUE 2019).

 


1. Diferentes formas de Vida Simples

 

«Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (…) Simplificar, simplificar, simplificar.»

Henry David Thoreau (1999, p. 109)

 

A SV está geralmente associada aos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, portanto com um estilo de vida Ocidental, onde as circunstâncias permitem que grande parte ou a maior parte da população possa ter acesso a uma vida de abundância material e que, por essa via, tenha a possibilidade de optar por estilos de vida mais simples.

Os “princípios” da SV são muito anteriores a 1936, data em que a designação foi introduzida por Gregg. A título de exemplo, um grupo de intelectuais "estadunidenses", conhecidos por “Transcendentalistas”, já exaltava, no século XIX, a calma simplicidade da vida radicada na natureza. Um deles, Henry David Thoreau, retirou-se, em 1845, para uma pequena cabana, de uma só divisão, situada junto do lago Walden, perto da povoação de Concord (Massachusetts) (HONORÉ 2006), tendo sido um notório paladino da simplicidade. Nesse contexto, será igualmente de assinalar que outros autores, ainda mais antigos, defenderam e praticaram a sobriedade, a temperança e a frugalidade, de que destacamos João Amós Coménio (séc. XVII) e Alvice Cornaro (séc. XVI). Coménio, na sua Didáctica Magna (1657), empreende uma escorreita apologia da frugalidade: «Com quanto mais moderação se ministrar os alimentos, tanto mais fácil e perfeita será a digestão. Como, em geral, não se toma isto em consideração, numerosos são aqueles que arruínam as forças e a vida por excesso de alimento.» E cita o Eclesiástico (37: 34): «muitos morreram por voracidade, mas o homem sóbrio prolongará a vida» (COMÉNIO 1985, p. 199). E acrescenta, «para manter a vida, não é necessário apenas tomar alimentos comedidos, mas também alimentos simples». Cornaro, por sua vez, descreveu, no seu Tratado da Vida Sóbria (1558), como descobriu, aos 40 anos de idade, devido a problemas de saúde, «a restrição e autodomínio alimentares». Descoberta que considera «um renascimento, uma maneira insuspeita de prevenir as doenças, de reforçar o corpo, de viver o fluir do tempo» (George Vigarello in CORNARO, 1999, p. 7). Para Cornaro (1999, p. 36):

 

«(…) o desregramento provém do vício da gula, e a vida sóbria da virtude da continência, nem por isso deixa de se tomar o desregramento por coisa virtuosa e honorável, e a vida sóbria por desonrosa e própria dos avarentos; e tudo provém  da força do hábito, introduzido pelos sentidos e pelo apetite, os quais tanto seduziram e inebriam os homens que estes, abandonando a vida boa, se entregaram a seguir a pior, a qual conduz, sem eles darem por isso, a estranhas e mortalíssimas enfermidades ao envelhecerem; (…)»

 

O problema do excesso de alimentação e do desperdício alimentar nos países desenvolvidos constitui um enorme flagelo, do nosso tempo, a par da fome que (des)graça nos sub-desenvolvidos (PIRES 2018). Como referem os investigadores Pedro Baptista, Inês Campos, Iva Pires e Sofia Vaz (2012, p. 11): «No mundo ocidental comemos muito, comemos mal, e desperdiçamos muita comida». Razão pela qual autores como Michael Pollan apelam à adopção de hábitos alimentares mais moderados e saudáveis: não comer em excesso e comer comida («nada que a sua avó não reconhecesse como comida») (2009, p. 175). Ou ter mais tempo para desfrutar de doses mais reduzidas: comer devagar (slow food) (HONORÉ 2006). Na verdade, nos países desenvolvidos, ditos “Ocidentais”, existem marcantes desigualdades sociais, pelo que a alimentação excessiva e o desperdício alimentar coexistem com a fome. As populações mais desfavorecidas – um eufemismo para “pobres” – não partilham as preocupações sobre o que comer e a que velocidade o deverão fazer, simplesmente precisam de comer algo e, por vezes, nada têm para comer. Talvez seja esta realidade que levou Duane Elgin a afirmar, no livro Voluntary Simplicity (1981), que a «pobreza é involuntária e debilitante, a simplicidade é voluntária e mobilizadora» (CANDIDO 2016, p. 19). Sem dúvida que a pobreza involuntária é dramática e ultrajante, todavia Elgin ignora que existe pobreza voluntária. Já Thoreau dizia que ninguém «pode ser observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.» (1999, p. 29). O elogio da pobreza (voluntária, entenda-se), no contexto judaico-cristão, remonta a Jesus e aos seus discípulos, tendo-se perpetuado, sob novas roupagens, a partir do final do século III, com o monaquismo2. Nessa linha de renúncia, de despojamento e até de ascetismo, destacam-se os monges beneditinos (séc. VI), os monges cistercienses (séc. XII) e os frades franciscanos (séc. XIII)3. São Bento (480-547), considerado o «pai dos monges do Ocidente», decidiu devotar-se, ainda jovem, à «douta ignorância» na solidão de uma gruta (Dominique Iogna-Prat in CORBIN et al., 2008, p. 127); mais tarde compôs a regra da Ordem Beneditina que, tal como outras da época, defendeu o regresso a diversos modos de renúncia. Bernardo de Claraval (1090-1153), cerca de meio século depois, reivindicou um regresso à pobreza dos tempos apostólicos e à pureza da regra de São Bento. O retorno a uma vida de grande sobriedade e renúncia: conduta pessoal ascética, pobreza e despojamento, patentes até na simplicidade do vestuário feito de lã não tingida (daí o nome de “monges brancos” em contraposição aos “monges negros” de Cluny) (ibid.).

Mas foi São Francisco de Assis (c. 1182-1226) que assumiu a vivência da pobreza evangélica de forma mais radical, tal como os seus irmãos, frades menores, paupérrimos – do latim pauperrimus (superlativo de pauper): muito pobres (André Vauchez in CORBIN et al. 2008). Francisco adoptou uma vida de estrita simplicidade, defendendo a rejeição incondicional de toda a posse, não só no tocante a cada membro da fraternidade (como nas ordens antigas), mas também à comunidade como um todo. Escusado será dizer que o movimento franciscano, apesar da tentativa de reforma dos Capuchinhos (séc. XVI), foi inteiramente “domesticado” pela Igreja Católica (KÜNG, 2002). No entanto, ainda hoje persiste na língua portuguesa a expressão “miséria franciscana”, que, apesar de ser utilizada geralmente de forma pejorativa, não deixa de ser um eco do profundo empenho e exemplo evangélico do cristianismo ancestral. As três orientações de São Francisco, que mais não são do que as da igreja primitiva – pobreza (paupertas), humildade (humilitas) e simplicidade (simplicitas) – permanecem ousados desafios para o presente e para o futuro...  «Francisco viveu a antítese do projecto imperial da Igreja»: perante o «evangelho do poder», apresentou o poder do evangelho; face à riqueza dos papas, bispos e abades, propôs a convicta pobreza, o despojamento integral e a extrema simplicidade (BOFF, 2014, p. 44).

A servidão voluntária dos freis franciscanos, que é um talant de bien-faire (vontade de bem-fazer), ao serviço de todos, numa profunda fraternidade cósmica, está nos antípodas da servidão voluntária, na verdade involuntária porque coerciva, de La Boetie (1986). O franciscanismo surge como exemplo de um outro modo de estar no mundo: o paradigma do cuidado (do cuidador) por oposição ao paradigma da dominação4 (BOFF, 2014) Por isso Francisco foi apelidado de louco e a sua proposta de vida designada “utopia franciscana”5. Foi um revolucionário (de revolare: voltar a voar) e um visionário, cujo pensamento, expresso no seu Cântico do Sol e das Criaturas (c. 1224), foi propulsor e antecedeu, em séculos, a ecosofia. Como expressou Agostinho da Silva (1999, p. 148), com assumidas influências do século XIII: «A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio».

Para Jaime Cortesão, o franciscanismo, «como expressão acabada de um cristianismo [panteísta] que o sistema católico havia destruído», trata-se da conciliação perfeita entre a religião e a natureza (SILVA, 2000, p. 18); talvez a inspiração, diremos nós, do primeiro Papa denominado “Francisco”, autor da Carta Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum (2015), onde propõe uma “ecologia humana” – chamada “ecologia integral” –, por recolocar o (ser) humano, sem receios de antropocentrismos, no “centro” estruturante do pensamento e do agir ecológicos.

 


Notas

1. A palavra “minimalismo” foi utilizada no âmbito da arte e da arquitetura modernistas, de meados do século XX, impulsionadas pelo funcionalismo e pela eficiência. O arquiteto modernista Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) popularizou a expressão «menos é mais» para descrever as suas preferências de design de estruturas simples e espaços abertos. O dizer «menos é mais» trata-se, hoje em dia, de uma premissa central do estilo de vida minimalista (MARTIN-WOODHEAD 2021).

2. É importante dar nota de que aqueles que desejavam seguir Jesus, na sua vida itinerante, deviam «abandonar tudo» (KÜNG 2002). O que Jesus propunha, como demanda, era a moderação das necessidades e a libertação interior resultante do despojamento. Não admira, portanto, que muitos dos seus discípulos tenham adoptado a pobreza voluntária e que as práticas ascéticas tenham durado vários séculos. (Pierre Maraval in CORBIN et al. 2008).

Em finais do século III surge uma nova forma de vivenciar o ascetismo que, pouco a pouco, irá suplantar as práticas ancestrais, tornando-se numa verdadeira instituição: o monaquismo. Na biografia que Atanásio, bispo de Alexandria, deixou sobre Santo Antão (251-356), este aparece como o modelo do monaquismo: uma vida de castidade, despojamento, penitência e solidão. A novidade do monaquismo consiste precisamente no isolamento: o monge é aquele que está só (do latim monos ou monachos: solitário).

Entretanto, uma nova etapa – a da vida comunitária – começa no século IV, com São Pacómio (c. 292-348) que, depois de alguns anos de vida solitária, cria uma comunidade, no Alto Nilo, sob uma regra que gere a existência diária dos “irmãos” (Pierre Maraval in CORBIN et al. 2008). O monaquismo, quer sob a forma solitária, quer sob a forma “comunitária”, espalha-se paulatinamente por todo o mundo cristão.

3. Os frades menores franciscanos são, por vezes, designados “monges mendicantes”, expressão incorrecta tendo em conta que os mendicantes não são monges, mas religiosos de um novo tipo: fratres (plural do latim frater/fratris: irmão). A originalidade das ordens mendicantes reside, desde logo, na abertura ao mundo, na vida comunitária e no contacto com as pessoas através de uma evangelização deambulatória e interventiva. Por outro lado, ao contrário das ordens mais antigas, assumem a pobreza colectiva, a mendicidade e o abandono à Providência: o monaquismo beneditino e mesmo o mais rigoroso cisterciense nunca exigiram a pobreza colectiva. Os franciscanos deveriam viver do trabalho das suas mãos e só em caso de necessidade, podiam recorrer à mendicidade, mas nunca aceitar dinheiro (André Vauchez in CORBIN et al., 2008).

4. O artigo seminal, de Lynn White, The Historical Roots of Our Ecological Crisis (1967), atribui a crise ecológica ao cristianismo, devido à sua suposta mensagem de dominação do homem sobre a natureza; ignorando aquilo que, ao que parece, estando à vista de todos, nos textos do Novo Testamento, permanece oculto a muitos: o elogio da pobreza, da humildade e da simplicidade, que não se coaduna com o acumular de riquezas, com a dominação e com ‘complicadas’ congeminações como seja, por exemplo, o paradigma (melhor seria dizer “o dogma") do crescimento exponencial. Por outro lado, o seu superficial louvor ao paganismo esquece, por exemplo, que foram civilizações pagãs que tornaram o Crescente Fértil num deserto. O que verdadeiramente está em causa são dois paradigmas antagónicos de estar e de fazer no mundo; paradigmas que coexistem, pelo menos, desde as primeiras sociedades sedentárias, baseadas na agricultura e na pastorícia: um dominador e destruidor, outro servidor e cuidador.

5. Francisco procurou criar um modelo alternativo de sociedade, subtraído ao mundo da compra e da venda, e recusando as hierarquias ligadas à riqueza e ao prestígio social ou cultural (André Vauchez in CORBIN et al., 2008). Na fraternidade por si fundada, os clérigos e os leigos estavam em pé de igualdade e, pelo menos nos primeiros tempos, os homens e as mulheres tinham vidas separadas, mas complementares. Aos olhos de Francisco de Assis, a prática da pobreza constituía a essência da vida evangélica. Nesse contexto, a posse de dinheiro estava proibida, designadamente por se considerar que falseava as relações entre os homens.

O pensamento de Francisco continua actual bastando constatar, a título de exemplo, o que expressou Mark Boyle, na sequência da sua experiência de viver um ano sem dinheiro: «O dinheiro já não nos serve. Nós servimos o dinheiro. O dinheiro apoderou-se do mundo. Enquanto sociedade, idolatramos e veneramos um produto que não tem valor intrínseco, às custas de tudo o resto. Além disso, toda a nossa noção de dinheiro está assente num sistema que promove a desigualdade, a destruição ambiental e o desrespeito pela humanidade.» (2012, p. 15)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Dia Internacional da Montanha



Na próxima sexta-feira (10 de Dezembro) irei falar, das 19:00 às 21:00, sobre Turismo Sustentável de Montanha: ética, estética e boas práticas, na última edição das Palestras da Montanha de 2021. O evento on-line, organizado pelo Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM) insere-se nas comemorações do Dia Internacional da Montanha que se celebra anualmente a 11 de Dezembro.

Ética Ambiental em Montanha

Amanhã (9 de Dezembro) irei participar no Seminário sobre Ética e Desporto de Natureza, organizado pela Federação de Desportos de Inverno, em parceria com o Departamento de Ciências do Desporto da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior, no qual irei falar sobre Ética Ambiental e(m) "Desportos de Natureza". O evento terá lugar no Auditório das Sessões Solenes da UBI, das 15:00 às 17:00.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Novos desafios

 


No dia 14 de Outubro vou realizar um workshop sobre a temática "Gestão de Risco em Actividades de Montanha: alterações climáticas, novos paradigmas e desafios", numa iniciativa de formação à distância organizada pelo Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM).

Mais informações no site da FCMP.


terça-feira, 31 de agosto de 2021

A GOSTO

 



Neste (ainda) mês de Agosto, gostaria apenas de ‘dizer’ aos leitores do, agora quase parado (!), Pedestris que vão dar uma volta… a gostinho. Pouco mais teria a dizer, tendo em conta que tenho andado mais na prática do que para teorias, e assim parecem querer continuar os meus ânimos, não fosse o facto de me apetecer relembrar a pedestrianista excepcional que foi Emma Rowena Gatewood. E não por esta se tratar da primeira mulher a percorrer, em 1955, o Trilho dos Apalaches na íntegra (perto de 3500 km), aos 67 anos de idade, e já seria muitíssimo, mas por se tratar de uma inveterada caminheira minimalista, pioneira das ‘andanças’ ultraleves em trajectos de longo curso. Nessa sua primeira aventura transportou somente, numa sacola de ombro fabricada por ela, um cobertor do exército, uma capa para a chuva, uma muda de roupa e pouco mais. O vestuário era tudo menos especializado e como calçado utilizou umas sapatilhas Keds. A alimentação consistiu essencialmente de carne seca, queijo, nozes e frutos secos, para além das plantas silvestres e outros víveres que obtinha regularmente ao longo do caminho.



Emma Gatewood voltou a percorrer integralmente o Trilho dos Apalaches em 1960 e fê-lo uma outra vez, por troços, em 1963, aos 75 anos de idade, tendo-se tornado, dessa forma, a primeira pessoa a palmilhar esse famoso percurso de longo curso por três vezes. Saliente-se, também, que percorreu os cerca de 3200 quilómetros do Trilho do Oregan, numa média de 35 quilómetros por dia. Por essas e outras razões, tornou-se, sem sequer pensar nisso, numa celebridade das caminhadas, mas o seu legado ultrapassa, em muito, os recordes, que tanto continuam a motivar as actuais mentalidades. O que verdadeiramente importa é o seu estilo de fazer: de forma simples, minimalista e… "a gostinho". Para aqueles que pretendam conhecer a ‘obra’ de Gatewood, recomendo o livro, de Ben Montgomery, Grandma Gatewood’s Walk: The Inspiring Story of the Woman Who Saved the Appalachian Trail (2014).


Vão lá, então, dar a tal voltinha… a gosto. Que mais não seja à Feira do Livro, nem que seja em Setembro! Dizem que: a gosto não cansa!



sexta-feira, 16 de julho de 2021

PERCURSOS DE LONGO CURSO

 




Nas próximas duas semanas, vou regressar às abordagens teóricas sobre optmização do desempenho em Percursos Pedestres de Longo Curso. Um primeiro workshop, no dia 22 de Julho, irá explorar algumas estratégias de progressão rápida e (ultra)leve e um segundo workshop, no dia 27 de Julho, versará estratégias de gestão do desempenho com enfoque na saúde e bem-estar.

No primeiro workshop será dada uma especial atenção ao incremento da eficácia a nível da rapidez de progressão, designadamente através da redução significativa do peso do equipamento a transportar, sem prejudicar as necessidades a satisfazer. No segundo workshop serão abordadas diversas opções técnicas, metodológicas e estratégicas a implementar por praticantes de pedestrianismo que pretendam iniciar-se ou melhorar o seu desempenho em percursos de longo curso, mediante o incremento da eficácia através de uma adequada preparação (a nível do treino e dieta desportiva) e de uma apropriada gestão das actividades (no que concerne o esforço, a alimentação/hidratação e as lesões).

Ambas as iniciativas, em regime de e-learning, são organizadas pelo Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM), sendo pensadas e dirigidas prioritariamente aqueles que pretendem empreender Grandes Rotasâ, caminhos de peregrinação ou outros percursos de várias jornadas com um desempenho adequado.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312.978-989-626-721-6 ISBN




sexta-feira, 9 de julho de 2021

A Montanha e/é o Céu

 

O REGRESSO

As minhas narinas deleitaram-se em respirar de novo a liberdade montanhesa! O meu nariz libertou-se afinal de todos os mofos das coisas humanas. (p. 208)

 

PC © a Montanha do Pico


ANTES DA AURORA

Ó céu por cima de mim, ó pureza, ó profundeza! Ao contemplar-te estremeço de desejos divinos.

Elevar-me à tua altura – eis para mim a profundidade! Ocultar-me no coração da tua pureza – eis a minha inocência.

(…)

E nas minhas peregrinações solitárias, de que tinha a minha alma fome durante as noites e pelos caminhos do acaso? E quando eu escalava montes, a quem procurei sempre nessas montanhas, senão a ti? E todas essas peregrinações, e todas essas ascensões de montanha, que eram senão um expediente e uma maneira de iludir a minha impotência? O que eu queria era voar, voar em ti. (p. 181-182)

PC © o Céu sobre o Monte da Caparica (9/07/2021)


DO ESPÍRITO DE GRAVIDADE

Na verdade, também aprendi a esperar, mas a esperar-me a mim mesmo. E sobretudo aprendi a estar de pé, a andar, a correr, a saltar, a trepar, a dançar. Porque tal é a minha doutrina; se quisermos aprender um dia a voar, é preciso começar por aprender a estar de pé, a caminhar, a correr, a saltar, a trepar, a dançar.

Para aprender a voar não basta um único golpe de asa.

Aprendi a escalar mais de uma janela com escadas de corda; subi mastros elevados com pernas ágeis; escarranchado nos elevados mastros do Conhecimento, experimentei uma felicidade muito apreciável.

As chamas errantes que se acendem no alto dos mastros não passam de um pequeno clarão, mas que grande consolo para todos os navegadores perdidos ou naufragados.

Tomei por muitos caminhos e servi-me de muitos meios para chegar à minha verdade, servi-me de mais de uma escada para chegar à altura de onde o meu olhar percorre os longínquos espaços.

E foi sempre contrariado que perguntei o meu caminho, sempre isso me repugnou. Prefiro interrogar os próprios caminhos e experimentá-los.

Experimentar e interrogar é a minha maneira de avançar, e na verdade é também necessário aprender a responder a semelhantes perguntas. É esse o meu gosto.

Esse gosto não é bom nem mau, é o meu gosto; não tenho vergonha dele e não faço mistério.

«Eis o meu caminho; e vós, onde está o vosso?» É o que respondo aos que perguntam o «caminho». O caminho, com efeito, não existe. (p. 218-219)


PC © voltei a vestir a Camisola da Montanha (9/07/2021)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.



sábado, 22 de maio de 2021

FAÇAM (ou não façam?)

FAÇAM BOM PROVEITO

 
Hugard de la Tour Ó  Mer de Glace – Maciço do Monte Branco (1862) 


O que importa é o "combíbio"... A "cena convivial", não é? E o "papel", muita "maçaroca" em nome do desenvolvimento e do turismo, entre outros quejandos politicamente (in)correctos! Na senda da febre dos passadiços, dos "baloiços panorâmicos" e da maior ponte suspensa do mundo, entre outras invenções e engenhocas, já se fala na retoma do "projecto" de um teleférico de Loriga até ao topo da Serra da Estrela, tal como foi notícia há poucos meses a ideia de um teleférico até ao cume do Pico. E tudo em plena "natureza" e "tão natural como a sua sede"! É preciso incentivar a criatividade, a inovação e o empreendedorismo, não é? E, se possível, até bater recordes, que puxam bem ao 'marketing" e o "portuga" bem gosta de se sentir o maior da (sua) galáxia... Nessa matéria continuo a preferir a maior feijoada do mundo que decorreu, faz já mais de duas décadas (pasme-se), naquela que também foi e é uma grande ponte: a Vasco da Gama. E o resto "é paisagem". Paisagem, o que é ou importa isso? Como dizia o outro, "e o burro sou eu"! 

 [PC – Facebook, 15 de Maio de 2021]




Algures na Net Ó  Ponte Vasco da Gama (1998)

domingo, 21 de março de 2021

É o Tempo



«Vivemos, sem dúvida, um tempo de transição e de excepção, sente-se dans l’aire du temps. É, sem dúvida, chegada a hora;(…). É a hora de empreender a pacifista “guerra santa” do espírito, do espírito do(s) lugar(es), do Grande Espírito, do Espírito Santo. É o tempo de evocações à Terra, de canções e danças de poder, de lançar a voz do tambor como oferenda ao Espírito do Mundo. De ser poeta, de acção directa, como os diné, dizendo os nomes da terra, «porque esses nomes são bons de dizer» e, dessa forma, cavalgar no espírito, pela paz e pelo bem de todos, humanos e não humanos, pela Mãe-Terra. É o tempo de meditar e de orar por Gaia: a Terra viva e vivificante.

(…) A tradição simbólica de Joaquim de Flora, e também de Jakob Böehme, vê no lírio a promessa da vinda do Lilienzeit, o Tempo dos Lírios, paraclético, que sucederá ao tempo crístico das rosas e ao tempo da “ira” paterna dos «espinhos e ervas daninhas». O tempo dos lírios já chegou! Na verdade, sempre aqui esteve porque o Espírito Santo nunca nos abandonou. Nós é que temos de ir ao seu encontro. Tal como o singelo Myosotis, não o devemos esquecer.» [CUIÇA, 2020]


E porque hoje é Dia da Árvore, Dia Mundial da Floresta e Dia Mundial da Poesia (e mesmo que não fosse): todos os dias serão auspiciosos para celebrar a Natureza fecunda e a vida, ademais nos alvores primaveris de mais uma Roda do Ano… Viva a vida.




VISITA À FLORESTA

 

Que frescura meu Deus, e que deslumbramento!

Sancho Pança, vai pôr a albarda ao teu jumento,

E conduze-o depressa aqui para eu o montar.

Embebeda-me o azul, o Céu, a Terra e o Mar!

Descalcem-me o coturno heróico da epopeia.

Não sei que cotovia olímpica gorjeia

Dentro de mim; não sei que hilaridade é esta!

Satura-me o vigor profundo da floresta,

E debaixo do azul puríssimo, sem nuvens,

Sinto-me transbordar, como um titã de Rubens,

Numa explosão de força atlética, purpúrea!

Entra-me nos pulmões a latejar com fúria

Este excesso de vida imensa que atordoa!...

(…)

Dai-me um tirso virente e uma merenda boa.

Que me quero perder nas solidões da mata.

Leva-me tu, Virgílio, o burro pela arreata.

(…)

Ó clareiras do bosque! Ó penumbras sagradas!...

Como o Sol entra aqui a rir às gargalhadas, e como a Natureza é virginal e é pura!

A alma se me esvai, fundida de ternura,

Em murmúrios d’amor, em êxtase de crente!...

Como isso moraliza e diviniza a gente!

Dá-me vontade de ir subindo essas encostas,

Ajoelhando, a beijar a terra de mãos postas!

Eu quisera enroscar-me aos robles como a hera,

Ser perfume no lírio e ser vigor na fera,

Desfazer-me, diluir-me em luz, em ar, em cores,

Semearem-me e nascer todo o meu corpo em flores,

Como as águias voar no oceano do infinito,

Ser tronco, ser réptil, ser musgo, ser granito,

De forma que eu andasse, em átomos disperso,

No Céu, no mar, na luz, na terra no – universo!

(…)

Entre este fecundar de seivas luxuriantes,

Entre a vida brutal das árvores gigantes

Levantando ao azul os pulsos seculares,

Entre as vegetações frescas de nenúfares,

De cactos, de jasmins, de silvas, de roseiras,

De serpentes em flor – isto é, de trepadeiras,

A crescer, a romper da terra funda, escura,

Debaixo desta rica igreja de verdura,

Trespassada da luz cruel do Sol faminto,

Ó Natureza, ó Terra, ó minha mãe! Eu sinto,

Sinto bem que nasci do teu enorme flanco,

E que o homem e o tigre e o cedro e o lírio branco

São filhos a quem dás de mamar no teu seio

Eternamente bom e eternamente cheio!

Guerra Junqueiro

in Poesia da Árvore – antologia poética (1979: 31)

 

 

PC Ó Equinócio da Primavera (Oeiras, 20/3/2021)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CUIÇA, Pedro. Espírito Santo: O Tempo dos Lírios. Lisboa: Irmânia – videoconferência O Espírito e a Terra, 31/Mai. 2020; inéd., disponível em Academia.edu.

RODRIGUES, Resina. Poesia da Árvore – antologia poética; 1979, pp. 100.