quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Átropos

...a LO(u)CO-MOTIVA!

© na Net (?)

«O caminho de ferro de Fitchburg atinge o lago [Walden] a pouco mais de quinhentos metros a sul de ondo moro1. Costumo ir à cidade [de Concord] pelo caminho dos pedestres, que é, por assim dizer, o meu vínculo com a sociedade. Os trabalhadores, nos comboios de carga que percorrem a linha inteira, cumprimentam-me como a um velho conhecido, já que tantas vezes passam por mim tomando-me aparentemente por um empregado; e lá isso sou. Também eu seria, de bom grado, consertador de trilhos em qualquer lugar na órbita da Terra.
(…)
Quando avisto a locomotiva com os seus vagões a deslocarem-se em movimento planetário – ou melhor, como um cometa, pois o espectador, com aquela velocidade e direccção, não sabe se voltará a visitar algum dia este sistema, já que a sua órbita não dá a impressão de uma curva que retorne – e as nuvens de vapor como bandeira desfraldando atrás de si grinaldas de ouro e prata, mais do que outras tantas nuvens suaves que já vi no alto dos céus desdobrando as suas massas para a luz – como se este semi-deus viageiro, este propulsor de nuvens, fosse dentro em pouco adoptar o crepúsculo como libré do seu cortejo; quando ouço o cavalo de ferro fazer os morros ressoarem com relinchos de trovão, estremecendo a terra com as patas, despedindo das ventas fogo e fumo (não sei que espécie de cavalo alado ou de dragão fogoso inventarão para a nova mitologia), até parece que a Terra já arranjou uma raça digna de habitá-la. Se tudo fosse como parece e os homens tomassem os elementos como criados seus ao serviço de fins nobres! Se a nuvem que paira sobre a locomotiva fosse a transpiração de façanhas heróicas, ou tão benfazeja como a que flutua sobre os campos do lavrador, então os elementos da própria Natureza acompanhariam alegremente os homens e dar-lhes-iam escolta nas suas missões.
(…)
Fazer as coisas «à moda da ferrovia» é agora expressão corrente; e vale a pena ser advertido, com frequência e franqueza por qualquer autoridade, para desimpedir o caminho. Não há pausas para admoestações severas, nem, neste caso, tiroteio sobre a cabeça da turba. Construímos um fado, uma Atropos, que nunca se desvia. (Chamemos assim à locomotiva.)»
[THOREAU, 1999: 134-137]

© na Net (?)

Tal como em Walden, na obra Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack, «o caminho-de-ferro e outros agentes da industrialização» voltam a ter um papel impactante e «duradouro na paisagem» (Daniel Peck in THOREAU, 2018: 24).

«A areia havia sido varrida pelo vento nalguns locais até uma profundidade de três metros, deixando montículos grotescos dessa altura, onde se via um maciço de arbustos fortemente enraizados. Segundo nos disseram, há trinta ou quarenta anos, aquilo era uma pastagem de ovelhas, mas os animais, importunados pelas pulgas, puseram-se a escavar o solo com as patas até atingirem a camada de erva, de modo que a areia começou a ser arrastada, estendendo-se agora ao longo de quarenta ou cinquenta acres. Isto podia ter sido facilmente remediado, ao princípio, espalhando bétulas com as respectivas folhas pela areia, fixando-as com estacas, para cortar o vento. As pulgas mordiam as ovelhas, e as ovelhas mordiam o solo, e a ferida estendeu-se. É espantoso como uma pequena arranhadela pode dar origem a uma chaga de tais dimensões. Quem sabe se o Sara, onde caravanas e cidades estão enterradas, não terá começado com a mordidela de uma pulga africana! Esta pobre Terra, quanta comichão deve sentir em muitos locais! Não haverá nenhum deus suficientemente misericordioso para espalhar um ungueto de bétula nas suas feridas? Também aqui pudemos identificar um local em que os índios haviam juntado um monte de pedras, porventura para o fogo de conselho, que, devido ao seu peso, impediram que a areia sob elas fosse varrida, tendo assim ficado no topo de um montículo de terra [ao estilo de chaminés de fada]. (…) Durante a viagem, vimos outras zonas arenosas, e podíamos mesmo reconhecer o curso do Merrimack desde a montanha mais próxima pelas suas margens de areia amarela, embora o rio fosse praticamente invisível. Segundo ouvimos dizer, estas situações deram origem nalguns casos a processos nos tribunais. Com efeito, construíram-se linhas de caminho-de-ferro através de regiões sensíveis, quebrando a sua camada protectora de erva e permitindo assim que a areia fosse arrastada pelo vento, o que acabou por converter quintas férteis em desertos, pelo que a companhia teve de pagar indemnizações.»
[THOREAU, 2018: 227-228]

«Quando Thoreau via rolar as máquinas a vapor da linha de Fitchburgo por Walden Pond, «com as carruagens a desaparecerem num movimento planetário», vinha-lhe à mente as três irmãs Parcas da Grécia antiga: a primeira fiava a linha da vida; a segunda lançava os dados que marcavam o destino de cada mortal; a terceira era Átropos, cujo nome significa «que nunca se desvia». Átropos segurava a tesoura que cortava o fio da vida.
Thoreau sabia que uma nova força da Natureza estava em movimento. E escreveu: «Construímos um destino, uma Átropos, que jamais se desvia. (Que seja esse o nome do vosso engenho.)»2»
[WEINER, 1991: 83]

© na Net (?)

NOTAS
1. Thoreau viveu, durante cerca de dois anos (1845-1846), numa cabana, junto do lago Walden, naquilo que é vulgar e erroneamente interpretado como uma espécie de “isolamento eremítico”! Tal concepção resultará de leituras superficiais de Walden ou, o mais certo, de quem, nunca tendo lido o livro em questão, engendrou essa “concepção alternativa” através da leitura de uma outra obra, famosa nos meios ambientalistas, da autoria de Ralph Waldo Emerson: A Natureza. Foi esse autor que escreveu: «(…) era Henry David Thoreau, que às tantas fez mesmo a experiência de ir viver vários anos para uma cabana à beira do Walden Pond (...) em solidão e monasticismo radicais, para comungar intimamente com a Natureza à maneira de Diógenes o Cínico (a experiência foi bem sucedida e Thoreau voltou para casa para escrever sobre o assunto)» (EMERSON, 2001: 10).
2. Traduções à parte, fica – em jeito de exercício de reflexão ou de cogitação, como queiram – a seguinte questão: quais serão as "lo(u)co-motivas" ou as mudanças previsíveis no nosso mundo e nas nossas vidas, digamos nos próximos 10 ou 20 anos? O exercício poderá abarcar o vasto condomínio que é a Terra, como um todo, mas será talvez mais interessante, numa primeira abordagem, tentar prever aspectos mais terra-a-terra e do nosso dia-a-dia, não tanto de âmbito global mas sim local. Sendo que, citando Miguel Torga, «o universal é o local sem paredes» ou o mesmo será dizer: o local numa perspectiva holística será o universal.
Tendo em conta o grave défice cultural, da maior parte da população, designadamente de muitos daqueles que são considerados douto(re)s (!), no que concerne a conhecimentos basilares, e portanto essenciais, para uma visão esclarecida do mundo, mormente em matéria de geologia, paleontologia e ecologia, não nos atrevemos a propor desafios na ordem da centena de anos ou ousar, muito menos, abranger dimensões na ordem da unidade de tempo geológico (o milhão de anos!), ademais quando as mudanças nos tempos que correm são tão aceleradas quanto alienantes!...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
EMERSON, Ralph Waldo. A Natureza. Cascais: Sinais de Fogo, 2001, pp. 108. ISBN 972-8541-23-6
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida Nos Bosques. Lisboa: Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9
WEINER, Jonathan. Os próximos 100 anos. Lisboa: Gradiva, 1991, pp. 392.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Liberdade


«Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 26)

«Considerando-me paradoxal, dirigem-me o melhor elogio que eu poderia ter.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 76)

«O mundo tem tantas possibilidades que até o impossível é possível.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 44)


© na Net (?)

Faz hoje 112 anos que nasceu Agostinho da Silva. Esse Estranhíssimo Colosso1 que, na sua multifacetada complexidade, foi, antes de mais, um Homem simples e humilde, profundamente entusiasmado, culto e convicto… Um poeta à solta, exímio conhecedor da Idade Antiga, apaixonado pela Idade Média e arauto da Idade Futura do Espírito Santo.
Um pensador que não desdenharia o epiteto de “libertário”, porque libertador e cultor do exercício do «pensamento libérrimo» (BRANCO, 2006: 69), mas que não seria certamente circunscrito pelo mesmo. Difícil, se não impossível de “rotular”1, foi indubitavelmente um paladino da Liberdade, mormente no sentido de «todo o homem (…) ser aquilo que ele tem de ser: um criador sem nenhuma espécie de inibição» (Agostinho da Silva in MENDANHA, 1998: 56). E é, como ponto de partida, com base nessa sua faceta, que, na sequência dos últimos três postsForça, Sabedoria e Beleza –, abordamos hoje, em sua memória, a Liberdade no caminhar/caminho.  Lembremos que Agostinho, tendo sido um reiterado defensor da vadiagem e da errância – daqueles considerados «errantes, no sentido de que poderiam andar por aqui e por acolá» (in Conversas Vadias) –, abordou precisamente a Liberdade em Ritmos de Marcha (SILVA, 1990: 113-117).
O pensamento de Agostinho da Silva apesar de se (re)velar sob a forma de uma aparente simplicidade categórica e incisiva, oculta uma difícil e contraditória, senão paradoxal, complexidade. Tal como a vida é difícil2, o seu pensamento não é fácil. Facto constatável, desde logo, pela sua ascética afirmação da Liberdade «pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus» (SILVA, 1990: 19). Um caminho único, porque assente na renúncia comum – saber «ser ascético no meio da abundância» e preferir «ao poder a santidade» (ibidem: 55) –, e simultaneamente múltiplo, porque palmilhado por cada um de forma diferente.
Uma forma difícil e pouco usual de entender a Liberdade, nos dias de hoje, tendo em conta que Agostinho não cria que «se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz», embora considerasse que «nele seja essencial o viver alegre» (ibidem, 51).

«Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino, e foi pena que não fosse esta a lição essencial que tivéssemos tirado da tragédia grega; como pena foi que só tivéssemos olhado o fatalismo dos árabes pelo seu lado superficial.
Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral do desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes e depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador da liberdade o que, agrilhoado à montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. (…) No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física do mundo da extensão, se revele pelo espírito do mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.»
[SILVA, 1990: 51-52]

Agostinho defende a liberdade da sua própria disciplina, numa «espécie de vida militar» e simultaneamente monástica, a que não estranha os votos de pobreza – «do abandono do ter (…) libertando-se da posse», – de celibato – «livrando de que outros o possuam» e «livre também de tratar o outro como se fosse» sua posse – e de obediência – «que livra a pessoa de ser possuída por ela própria e de ter a ideia de que só serve para isto ou para aquilo» (in Conversas Vadias).
E, no entanto, esse pensamento que parece marcado pela fatalidade (a ideia de fatum), de renúncia e sofrimento, surge como rampa de lançamento – atitude – para os altos voos do Espírito Santo: «a pessoa de Deus na qual está o domínio do inesperado; daquilo que parece ser a Liberdade pura e não o destino» (ibidem). Atitude é altitude! E é «nesse abrir-se ao Espírito Santo, ao talvez absolutamente imprevisível, que cada homem encontra o caminho para se cumprir a si mesmo – a única exigência que se lhe faz» (BRANCO, 2006: 93). Também poderemos ver essa atitude como opção de andar à solta ou andar ao Deus dará, como se queira ou possa, sendo essa afinal (ou a-princípio) uma forma de acreditar, como o faziam (e fazem) os povos primais3, na Providência Divina, pondo de lado a previdência humana: «porque não reparamos talvez ainda suficientemente na pressa com que todos nós, homens supostamente religiosos, tratamos de entesourar o que tememos que amanhã pode esquecer à Providência de Deus, da qual, no entanto, continuamos a falar abundantemente: só, porém, a falar» (SILVA, 1990: 69). Nós, os ditos “civilizados”, «estamos tão afastados do natural como do sobrenatural, quando estes deviam ser os pontos centrais de nossa existência: plenamente vivemos no artificial» (ibidem: 69). Uma caminhada liberta ou rumo à libertação passará pelo regresso às nossas origens: «temos de voltar aos povos naturais, como uma etapa necessária para o caminho do sobrenatural, e sem dúvida voltaremos, ou por nossa livre vontade ou, como tantas vezes sucede àqueles a quem Deus mais ama, pela viva e contundente força de golpes exteriores» (ibidem: 70).

«Tudo o que faço no mundo
sem o fazer é feito
sobre o nada em que me deito.»
Agostinho da Silva (BORGES, 2006: 54)

© na Net (?)

NOTAS
1. Título da biografia de Agostinho da Silva, escrita por António Cândido Franco (Quetzal, 2015), em que, na contracapa, esse Colosso é caracterizado nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»
2. A VIDA É DIFÍCIL: é a fase com que começa o livro, de M. Scott Peck, O Caminho Menos Percorrido (Sinais de Fogo, 1999).
3. Para não utilizar a palavra “primitivos” pela carga pejorativa que, em geral, se lhe associa!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BORGES, Paulo. Tempos de Ser Deus – A Espiritualidade Ecuménica de Agostinho da Silva. Lisboa: Âncora Editora, 2006, pp. 208. ISBN 978-972-780-177-0
BRANCO, João Maria de Freitas. Agostinho da Silva – Um Perfil Filosófico. Sintra: Zéfiro, 2006, pp. 118. ISBN 972-8958-19-6
FRANCO, António Cândido Franco. O Estranhíssimo Colosso – Uma Biografia de Agostinho da Silva. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6
MEDANHA, Victor. Conversas com Agostinho da Silva. Lisboa: Pergaminho, 1998, 9ª ed., pp. 128. ISBN 972-711-057-6
SILVA, Agostinho da. Educação de Portugal. Lisboa: Ulmeiro, 1989, pp. 80. ISBN 972-706-213-X
SILVA, Agostinho da. As Aproximações. Lisboa: Relógio d’Água, 1990, pp. 132.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Beleza


San Francisco Mountains © na Net (?)

É o percorrer/traçar (d)o nosso caminho que nos torna fortes, quando nos cumprimos na caminhada,... na peregrinação. O caminho faz-se caminhando e o caminhar faz o caminho, no concreto e/ou na imaginação*, numa manifesta transitoriedade daquele que transita, mesmo quando tudo indica (parece!) que esse andarilho está parado. Por isso, um percurso é simultaneamente caminhada/caminho, é andança e trajecto… O caminhar e o caminho podem materializar-se no terreno, mas são também metáforas de/da vida e, portanto, da morte. Por estas e outras razões e emoções, há uma ética no andar e, claro, uma estética. Não basta Andar Bem é primordial Andar em Beleza** (Walk in Beauty).



NOTA
*Imaginação enquanto “mundo imaginal”, “nação de imagens”...
**E será a beleza que nos remete para o maravilhamento ou encantamento?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sabedoria


Compostela © na Net (?)

«Oração e meditação andante, regeneração constante e profunda, reconciliação com a nossa totalidade, desprendimento das contingências, despertar e avançar no estado de ressurreição, eis alguns sinónimos de peregrinar.
(…)
Caracterizado pela abertura do coração e do olho espiritual como pela transcendência de limitações espácio-temporais, o peregrino torna-se caminhante verdadeiro da vida e onde quer que esteja dá testemunho da sua condição de homo viator, pois «o meu Reino não é deste mundo», na qual ele é também a Luz do mundo, e só ou acompanhado, casado ou monakos, a sua alma por momentos atinge a Via Láctea, une-se com os reflexos dourados do sol, na rua, na estrada ou auto-estrada, entra em comunhão com o seu espírito e os espíritos de outras pessoas, aquieta-se com Deus ou com a plenitude do Espaço.
Muitos fazem o caminho de Santiago mas poucos se tornam Caminho. Mas tal é o sentido iniciático da peregrinação: passar da condição de imaturidade, de egoísmo, de ovelha desgarrada e manipulada, ou de lobo predador e manipulador, para o de artífice e aprendiz da obra, companheiro de mister, mestre do Caminho, pontifex entre os dois mundos, unindo o que está em cima com o que está em baixo, o superior com o inferior, tanto pela acção como pela contemplação e assim testemunhando e manifestando a Unicidade do Ser Divino…
(…)
Com efeito, com o tempo, o verdadeiro peregrino compreende cada vez mais que o Caminho é uma entidade, um ser gigantesco na Terra, ou melhor, uma das estrelas e arquétipos que na atmosfera da Terra mais raios recebe dos seres humanos e mais bênçãos lhes distribui.
Assim, ainda que não peregrinando com as pernas e os pés, o peregrino verdadeiro pode a qualquer momento penetrar no Caminho, pois tem a porta aberta para ele no peito e pode ser inundado pela luz da Estrela, pela força divina da Ka’ba de Meca, pelos filamentos das folhas transparentizadas da figueira de Bodhgaya, pela fecundidade do Ganges, pela pureza e a doçura da Nossa Senhora ou Grande Deusa Mãe nos seus múltiplos nomes, santuários e caminhos, tais como os de Fátima e Amaterasu omikami, ou ainda pela ligação divina que as montanhas sagradas, do Marão e Sintra à Estrela e ao Gerês, dos Himalaias ao Fuji, do Alborz ao Himavat lhe oferecem e agraciam…»
[TEIXEIRA DA MOTA, 2015: 169-171]

© Laurence Winram

Por tudo isso (e já não é pouco), mas muito mais, é que, por estes dias, vocês não são apenas 3 ComPassos ou 4, são pelo menos 5, porque estou e estarei convosco acompanhando-vos*, nessa vossa/nossa demanda, até Campus Stellae. Na verdade, poderão sentir facilmente que não somos apenas cinco, é uma multidão que neste momento (sempre presente) peregrina, uns a pé e outros nem por isso... E essa é uma das constatações d'a Sabedoria do Caminho. Bom Caminho ;-)

© na Net (?)

NOTAS
· *Acompanhando-vos na qualidade de “companhia”, de “companheirismo”: aquelas e aqueles que são “companheiras/companheiros”, que partilham o pão...
· O destaque de palavras a negrito é da nossa autoria.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TEIXEIRA DA MOTA, Pedro. Da Alma ao Espírito. Porto: Publicações Maitreya, 2015, 2ª ed., pp. 188. ISBN 978-989-8691-17-0


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Força

«Quasi cinquant'anni dopo, io so che sulla terra ci sono tanti percorsi di vita quanti sono gli uomini. Trovare la propria strada à l'arte per eccellenza, perché solo sulla nostra strada diventiamo forti.»
[MESSNER, 2014: 326]

© na Net (?)

TRADUÇÃO PEDESTRIS
«Quase cinquenta anos depois, eu sei que na terra há tantos percursos de vida quantos homens. Encontrar o seu próprio caminho é a arte por excelência, porque apenas no nosso caminho nos tornamos fortes

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MESSNER, Reinhold. La Vita Secondo Me. Milano: Garzanti Libri, 2014, pp. 336. ISBN 978-88-6380-837-7


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Mountain Talks



Mountain Talks, um Ciclo de Palestras de Montanha que «pretende trazer à conversa, alguns dos mais notáveis intervenientes no mundo das atividades de montanha». Certamente uma forma de partilhar experiências e pontos de vista... Mensalmente, numa sexta-feira à noite, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.



Ao que parece, lá estarei a abrir estas palestras, para falar sobre o Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking, a arte de andar – desde caminhadas à porta de casa a marchas de montanha em paragens remotas – e o percurso que tenho percorrido, há praticamente 40 anos, no âmbito dos desportos de montanha em geral e do pedestrianismo em particular. Um trajecto desde criança, em caminhadas a solo ou entre amigos, à profissionalização como jornalista especializado em actividades de ar livre e ambiente, até ao trabalho que tenho desenvolvido como Director Técnico de Montanha na Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP).


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Forestósofos

© na Net (?)

«O Cavaleiro* é um viajante solitário através de um grande tabuleiro de xadrez, de sucessivos negros e brancos, símbolo do Universo, como acontece quando andamos na floresta durante o dia ou numa noite de luar e vemos as sucessivas manchas claras e escuras reflectidas sobre o nosso caminho florestal. Olhar para essas densas manchas claro-escuras enquanto caminhamos, desencadeia ao fim de algum tempo um estado de transe profundo, como eu próprio apurei regularmente. Os nossos sentidos físicos começam a ver o que habitualmente não vemos, quando tudo é uma mancha infinita zebrada de luzes monótonas.»
[LASCARIZ, 2017: 236]

© na Net (?)

«No processo de retiro na floresta, a ascese de aniquilação do ego passa pela recentragem da consciência racional no plano sensorial, no impacto directo do que se vê e ouve, fazendo a epochè husserliana, isto é, suspendendo todas as referências e condicionalismos culturais que o determinam. Tal e qual como nos processos iniciáticos em que primeiro ouvimos sem ver e, depois, completamos o que ouvimos com o que vemos.»
[LASCARIZ, 2017: 237]

© Spirit of Old


NOTA
*A noção de Cavaleiro aqui expressa pelo autor é assaz diferente daquela que, em geral, é propalada: «Os Cavaleiros do Graal não andam em manada como os Cruzados. São sempre solitários e eremitas. São eremitas em movimento, nómadas, não eremitas sedentários. [LASCARIZ, 2017: 114]» Ademais, este Cavaleiro é forestósofo: um neologismo criado por Gilberto de Lascariz para «designar aquele ou aquela que busca experiências de sapiencialidade espiritual no seio arbustáceo das florestas» (ibidem, 2017: 73).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LASCARIZ, Gilberto de. O Dragão e o Graal – A Via de Vénus e a Magia do Sangue na Tradição. Sintra: Zéfiro, 2017, pp. 480. ISBN 978-989-677-157-7


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Domingo

[Primeira-feira: DIA DO SOL]

© na Net (?)

«Um dos primeiros santos inconvertidos,
Sem as cores do meio-dia ou do entardecer,
Pagão sem mácula,
Que usurpou o dia civil,
E que sempre depois do seu nascimento
Percorreu os confins da Terra.»
[THOREAU, 2018: 71]

«Quando passámos debaixo da ponte sobre o canal, mesmo antes de atingirmos o Merrimack, as pessoas que estavam a sair da igreja pararam a olhar para nós lá de cima, e aparentemente, por força do hábito, permitiram-se fazer certas comparações pagãs; mas éramos nós quem verdadeiramente observava este dia de sol. Segundo Hesíodo,

«O sétimo é um dia santo,
Pois foi então que Latona gerou Apolo de raios dourados»,

e pelas nossas contas este era o sétimo dia da semana, e não o primeiro
[THOREAU, 2018: 91]

© na Net (?)

«Os deuses gregos são jovens, pecadores, deuses caídos, com os vícios dos homens, mas, em muitos aspectos importantes, essencialmente de raça divina. No meu Panteão, Pã ainda reina na sua glória pristina, com o seu rosto rosado, a sua barba solta e o seu corpo hirsuto, o seu cachimbo e o seu cajado, a sua ninfa Eco e a sua filha eleita Iambe; com efeito, o grande deus Pã não está morto, ao contrário do que se dizia. Os deuses não morrem.
(…)
Felizes de nós que podemos deliciar-nos neste quente sol (…) que ilumina todas as criaturas, quando repousam e quando labutam, não sem um sentimento de gratidão, e cuja vida é tão irrepreensível, por mais digna de repreensão que possa ser, tanto no dia da Lua do Senhor como no Seu dia do Sol*.»
[THOREAU, 2018: 92]

© Spirit of Old

NOTAS
*Nota do Tradutor (Luís Leitão): nesta passagem, Thoreau escreve Mona-day («dia da Lua», segunda-feira) e Suna-day («dia do Sol», domingo).
Nota Pedestris: e assim dir-se-ia que finaliza e/ou (re)começa mais um ciclo, mas o tempo circular não tem princípio nem fim!

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9 


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sábado

[Sétima-feira: DIA DE SATURNO]

© na Net (?)

«Quem dorme de dia e anda a pé à noite,
Não verá vivalma, mas um diabrete.»
[THOREAU, 2018: 69]

«Quando olhamos os flancos destes penedos, embora a uns quatrocentos metros de distância, tínhamos a impressão de os ouvir sussurar, tal era a folhagem daqueles ermos: um lugar para faunos e sátiros, onde morcegos ficam agarrados às rochas durante todo o dia, antes de esvoaçarem ao cair da noite sobre a água, e os pirilampos emitiam com parcimónia as suas luzes debaixo das ervas e das folhas na noite. Após termos montado a tenda na vertente da colina, a alguma distância da margem, ficámos a contemplar através da abertura triangular, ao crepúsculo, o nosso mastro solitário na margem, que mal se via acima dos amieiros e que quase nunca se imobilizava totalmente devido à ondulação do rio; era a primeira incursão do comércio nesta terra. Era aí o nosso porto, a nossa Óstia.»
[THOREAU, 2018: 67]

© na Net (?)

«Não havia sinal da existência de pessoas na escuridão da noite, nem uma única respiração humana, mas apenas a do vento. Quando nos sentámos, pois a novidade da situação mantinha-nos acordados, ouvíamos de vez em quando raposas a andar sobre as folhas mortas e roçar as ervas húmidas de orvalho perto da tenda e, numa ocasião, um rato-almiscareiro a tentar chegar às batatas e aos melões no barco, mas quando acorremos à margem apenas vimos uma ondulação na água a agitar o disco de uma estrela. Por vezes, ouvíamos a serenata de um pardal a sonhar ou o grito abafado de uma coruja, mas, depois de cada som que a pouca distância quebrava a quietude da noite, de cada crepitar de galhos ou sussurar das folhas, havia uma pausa súbita e fazia-se sentir um silêncio cada vez mais profundo, como se um intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de andar fora a essa hora
[THOREAU, 2018: 68]

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9