sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sur le chemin de Shambala

INTRODUCTION (Hugues Didier)
Les textes qu’on lira ici, traduits du portugais, font le récit d’une découverte, celle du Tibet par les Européens. Le monde ocidental disposait certes déjà d’informations, plus ou moins fausses, sur le plus mystérieux pays d’Asie, avant le voyage et l’établissement d’António de Andrade et d’autres jésuites portugais dans le royaume du Gu-ge (Tibet ocidental) et aussi dans celui d’Utsang (Tibet Central), au début du XVIIe siècle. Des rencontres accidentelles s’étaient déjà produites entre lamas et clercs de l’Église romaine, comme celle décrite par Guillaume du Rubrouck qui eut lieu en 1253-1254. Mais aucun voyageur n’avait jamais franchi les cols himalayens ou mis pieds sur le «Toit du monde», s’il venait d’Europe. Tel n’était évidemment pas le cas de marchands ou de pèlerins chinois, indiens, ou musulmans. Ces derniers servirent d’ailleurs de précurseurs ou d’informateurs pour ces deux equipes de Portugais particulièrement hardis qui se lancèrent à l’assaut du Pays des Neiges, la première à partir d’Agrā et de la cour du Grand Mogol, la seconde ensuite à partir de Bengale.
L’épopée maritime du Portugal a laissé une oeuvre incomparable dans les lettres des temps modernes, Les Lusiades de Luís de Camões. Seule époppée réussie à cette époque (…), cette oeuvre eût été impossible sans l’existence d’une ample littérature portugaise de la navigation et de la découverte maritime. Elle accrédite l’idée d’une nation portugais formée de marins ou inséparable de léau salée. Mais on oublie trop que ces Argonautes on été capables d’abandonner leurs vaisseaux et de s’enfoncer dans les masses continentales, à pied, à cheval et même à chameau. D’une part le Brésil, d’autre part l’exploration des coeurs chauds ou glacés de l’Asie, la Chine continentale et surtout les grandes espaces musulmans ou sous domination et controle de l’islam (Empire ottoman, Iran safévide, Afghanistan et Inde du Grand Mogol), prouvent l’un et l’autre que les Portugais n’ont pas craint de s’éloigner des mers. (…) L’audace lusitanienne en pays musulman d’Asie, et ici au Tibet, accessible seulement à partir de l’Inde sous la domination de l’Islam, ne fut peut-être pas moins grande que sur les flots. Elle n’a cependant pas inspire d’époppée: il ne pouvait pas y en avoir deux, l’une pour la mer et l’autre pour la terre, la seconde prolongeant la première. [DIDIER, 1996: 7-8]

Nicholas Roerich © Song of Shamballa (1943)

RÉCIT D’ESTEVÃO CACELA (1627)
Nous avons posé toutes sortes de questions sur le royaume du Cathay. Nous n’en avons reçu aucune information, du moins sous tel nom, totalement inconnu ici. Mais un royaume est três célèbre ici: ces gens disent qu’il est três grand. Il s’appelle Xembala [Šam bha lai, Shambala]. Il est situe à côté d’un autre royaume appelé Sopo [Sog po]. Sur ce royaume de Xembala, ce roi ignore quelle en est la Loi et nous le lui avons demandé bien des fois. Nous pensons qu’il doit s’agir di Cathay, car le royaume de Sopo est celui des Tartares, ce que nous déduisons de ce que le roi nous en dit: la guerre est continuelle entre Sopo et la Chine et il precise que la Chine a plus d’habitants. (…) Comme le Cathay est très vaste et que c’est le seul royaume qui reste dans ces parages à côté des Tartares d’après les descriptions des cartes, nous pouvons en déduire, avec quelque probabilité semble-t-il, que c’est ce qu’ici on appelle Xembala. (…) La route qui conduit au Xembala est d’après eux très difficile. J’ai cependant confiance dans le Seigneur à ces propôs: de même qu’il nous a conduits jusqu’ici en nous guidant, il saura bien nous mener là où nous pourrons voir le Cathay de plus près, de manière à ce que je puisse l’an prochain en envoyer des nouvelles à Votre Révérance. [DIDIER, 1996: 242-243]

Nicholas Roerich © Message from Shamballa (1933)


RÉFÉRENCES BIBLIOGRAPHIQUES
DIDIER, Hugues. Les Portugais au Tibet – Les premières relations jésuites (1624-1635). Paris: Editions Chandeigne, 1996, pp. 384. ISBN 2-906462-31-4
DIDIER, Hugues. Os Portugueses no Tibete – Os primeiros relatos dos jesuítas (1624-1635). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, pp. 289. ISBN 972-8325-82-7

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A caminho de Xembala

Nicholas Roerich © Way to Shamballa (1933)

Com muita diligência e maior alegria começámos a subir as serras; são elas as mais fragosas e altas que parece pode haver no mundo, e bem longe estou de poder declarar a V. R. a dificuldade com que por elas subimos; basta que depois de andar dois dias desde pela manhã até à noite, não acabámos de passar uma, cortando pelo mais altos picos e neles por caminho tão estreito que por muitas vezes não é mais largo que quanto cabe um só pé, andando bons pedaços assim, pé ante pé, pegados com as mãos para não resvalar, pois o mesmo é errar o pôr o pé bem direito que fazer-nos em pedaços pelos ares. São pela maior parte aquelas serras tão talhadas a pique como se por arte estivessem a prumo, correndo-lhes lá no profundo como em um abismo o rio Ganges, que, por ser mui caudaloso e se despenhar com notável estrondo por grande penedia entre serras tão juntas, acrescenta com o seu eco o pavor que a estreiteza do caminho causa a quem vai passando. Tem as descidas mais dificultosas e perigosas, pois carece homem em muitas partes de remédio de se poder pegar com as mãos como nas subidas e assim é necessário descer em muitas partes como quem desce escada de mão, dando as costas ao caminho que vai fazendo. [AA. VV., 1989: 69]

Invocando o nome de Jesus e ajuda do Senhor, continuámos por diante, porém o trabalho que passámos foi muito excessivo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encravados na neve, ora até aos ombros, ora até aos peitos, de ordinário até ao joelho, cansando a sair acima, mais do que se pode crer, e suando suores frios, vendo-nos não poucas vezes em risco de vida; muitas vezes nos era necessário ir por cima da neve com o corpo, como quem vai nadando, porque desta maneira não se encrava tanto nela; assim fomos continuando, dormindo as noites sobre a mesma neve, sem ter mais abrigo que deitar um dos três cambolins que levávamos por cima dela, e cobrindo-nos todos três com os outros dois, e não era este o maior trabalho, porque mais sentíamos a neve que começava a cair das quatro da tarde por diante, quase toda a noite, tão miúda e tão espessa que nos não deixava ver, estando juntos, acompanhada com um vento teso e sobremaneira frio, cobria-nos por cima dos cambolins e o remédio era sacudi-la por muitas vezes para não ficarmos enterrados debaixo dela. Nos pés, mãos e rosto não tínhamos sentimentos, porque com o demasiado rigor do frio ficávamos totalmente sem sentido; aconteceu-me, pegando em não sei quê, cair-me um bom pedaço do dedo sem eu dar fé disso, sem sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria. Os pés foram apodrecendo, de maneira que, de mui inchados, no-los queimavam depois com brasas vivas e ferros abrasados e com muito pouco sentimento nosso; a isto se acrescentaram dois grandes males, o primeiro, que cada um de nós tinha um mortal fastio, com o que ficávamos como que impossibilitados para comer; não me lembra que em doença tivesse outro mal igual a este; mas a necessidade fazia que sobre todas as repugnâncias comesse alguma coisa e com muita força e com algumas invenções procurava com os moços o mesmo, mais do que nunca fiz a doentes graves. A outra coisa que nos foi de pena era não achar água para beber, a qual, ainda no meio de tais frios, nos era bem necessária, por razão da secura que causava o muito trabalho; não era esta falta por faltarem fontes, mas por todas correrem ocultamente por baixo da neve e pela mesma maneira o rio Ganges, vindo quase todo o caminho por baixo dela. Comíamos pedaços da mesma neve e às vezes, quando o sol começava de aquentar, derretíamos uma pouca em um prato de latão. Nesta forma fomos caminhando até ao alto de todas as serras onde nasce o rio Ganges de um grande tanque e do mesmo nasce também outro que rega as terras do Tibete. Já neste tempo tínhamos a vista dos olhos quase toda perdida, mas eu perdi mais tarde que os moços, pela muita diligência que fiz em resguardar os olhos, mas não foi bastante para não ficar quase cego por mais de vinte e cinco dias, sem poder rezar o ofício divino, nem ainda conhecer uma só letra do breviário. [AA. VV., 1989: 76-77]

© António de Andrade

Os jesuítas portugueses António de Andrade, Manuel Marques e, posteriormente, Gonçalo de Sousa terão sido os primeiros europeus a adentrar-se na cordilheira dos Himalaias: aventura descrita no «descobrimento do Grão-Cataio e reinos do Tibete». Disso nos dá notícia António de Andrade em três cartas: a primeira datada de 1624, a segunda de 1626 e a terceira de 1627. É de destacar o facto deste ter passado o colo de Mana a 5604 metros de altitude. Não se deve também ignorar as expedições de Estêvão Cacela (1627) e de Francisco de Azevedo (1631) que, em ambos os casos, ultrapassaram novamente os cinco mil metros de altitude. [CUIÇA, 2010: 37]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AA.VV.. Notícias da China e do Tibete – Cartas dos Cativos de Cantão: Cristovão Vieira e Vasco Calvo (1524) – O Descobrimento do Tibete, pelo Pe. António de Andrade (1624). Lisboa: Publicações Alfa, 1989, pp. 132.
ANDRADE, P. António. O descobrimento do Tibet. Lisboa: Academia das Sciências de Lisboa, 1921, pp. 142.
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Là-haut

Nicholas Roerich © Everest (1931)

“Naturellement, les montagnes réservent leurs plus belles recompenses à ceux qui atteignent leurs sommets. La vue de l’ascensioniste n’est plus fermée ni limitée. Il peut voir tout autor de lui. Le champ de sa visione est étendu autant que faire se peut. Il voit dans toutes les directions. Il se sent élévé au-dessus du monde et a la fière conscience de s’être ainsi élevé par ses propes moyens; c’est une curieuse satisfaction, car alors il oublie touts les tracas, tous les chagrins, dans l’atmosphère sereine qui, pour un moment, est son domaine.
Ce n’est que pendant un moment qu’il séjourne là-haut. Les hommes ne peuvent vivre à tells hauteurs. Ils doivent revenir aux plaines et prendre part de nouveau à la vie pratique. Mais la vision des cimes ne les abandone plus. Ils veulent y retourner. Ils veulent aller encore plus haut.” [HOWARD-BURY, 1923: 14]

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HOWARD-BURY, C. K.. A la Conquête du Mont Everest. Paris: Payot & Cie, 1923, pp. 414.

terça-feira, 25 de julho de 2017

D'a (pós)modernidade

Os seres humanos são animais gregários que, desde as suas mais remotas origens, viveram em grupos/tribos, não sendo de todo frequente ou usual o individualismo, o isolamento ou a vida solitária. Essas são tendências relativamente recentes, em termos evolutivos enquanto espécie, tal como muitas concepções alternativas* que – independentemente de pretensos optimismos, pessimismos ou nem uma coisa nem outra – não passam de evidentes manifestos de basilar ignorância, de asininas confusões ou até de alarves parvoíces. A separação/especialização de tarefas já ocorria no paleolítico, é anterior ao género Homo e até se encontra esboçada em comportamentos de outras espécies actuais. E daí?... Na verdade, não se deveria confundir um bife à milanesa com um bife sobre a mesa ou uma obra prima com a prima do mestre de obras! Mas a realidade é complexa (ou somos nós que a complicamos?) e, portanto, dada a equívocos...


"Imagine o leitor que é um veado. Tem, no fundo, quatro coisas a fazer durante o dia: dormir, comer, evitar ser comido e socializar (o que significa marcar um território, perseguir um elemento do sexo oposto, cuidar de uma cria, o que seja). Não existe qualquer necessidade real de fazer muito mais. Agora imagine que é um ser humano. Mesmo que se atenha às coisas básicas, tem bastante mais que quatro coisas para fazer: dormir, comer, cozinhar, vestir-se, cuidar da casa, viajar, lavar, fazer compras, trabalhar… A lista é quase interminável. Como tal, os veados deviam ter mais tempo livre do que os seres humanos, contudo são as pessoas, não os veados, que encontram tempo para ler, escrever, inventar, cantar e navegar na internet. De onde vem todo este tempo livre? Vem da troca e da especialização, bem como da divisão do trabalho daí resultante. Um ser humano pede a outrem que o faça por ele, enquanto se dedica a fazer outra coisa pelo outro – e, dessa forma, ambos ganham tempo.
Temos pois que a autossuficiência não é o caminho para a prosperidade: «Quem teria avançado mais ao fim de um mês», perguntava Henry David Thoreau: «O rapaz que fez o seu próprio canivete com o minério que cavou e fundiu, lendo tanto quanto seria necessário para o fazer – ou o rapaz que, entretanto, assistiu a aulas de metalurgia e recebeu um canivete Rodgers do pai?» Ao contrário do que diz Thoreau, é o último, de longe, porque lhe sobra tempo para aprender outras coisas. Imagine se tivesse de ser completamente autossuficiente (não só fingir que o é, como Thoreau). Tem de se levantar de manhã todos os dias e abastecer-se apenas com os seus próprios recursos. Como passaria o seu dia? As quatro principais prioridades seriam alimentação, combustível, vestuário e abrigo. Tratar do quintal, dar de comer ao porco, ir buscar água ao regato, apanhar lenha na floresta, lavar umas batatas, acender uma fogueira (sem fósforos), cozinhar o almoço, reparar o telhado, ir buscar fetos frescos para uma nova cama, talhar uma agulha, fiar linha, coser uma pele para fazer sapatos, tomar banho no rio, fazer um pote de barro, apanhar e cozinhar uma galinha para o jantar. Não há velas, nem livros para ler. Não há tempo para fundir metal, perfurar em busca de petróleo ou viajar. Encontra-se ao nível da subsistência e, sinceramente, embora de início possa exclamar, como Thoreau, «como é maravilhoso escapar ao bulício», passados alguns dias a rotina tornar-se-ia deveras soturna. Se deseja, nem que seja a mais ínfima melhoria na sua vida – utensílios metálicos, pastas de dentes ou iluminação, por exemplo – algumas tarefas terão de ser executadas por outra pessoa, porque não terá tempo para as fazer pessoalmente." [RIDLEY, 2013: 49-51]

Pedro Cuiça © Museu Arqueológico do Tirol do Sul (Bolzano - Itália, 2016)

"Oetzi, o «homem do gelo» mumificado encontrado nos Alpes em 1991, transportava consigo tanto equipamento quanto os caminhantes que o encontraram. Tinha utensílios feitos de cobre, sílex, osso e seis tipos de madeira: freixo, viburno, lima, cornizo, teixo e bétula. Usava roupas de erva entrelaçada, casca de árvore, tendões e quatro tipos de cabedal: pele de urso, couro de veado, couro de cabra e pele de veado. Levava consigo duas espécies de fungos, um como remédio, outro parte de um conjunto de apetrechos para fazer fogo que incluía uma dezena de plantas e pirite para fazer faíscas. Era uma enciclopédia ambulante de conhecimento acumulado – conhecimento de como fazer utensílios e roupa, bem como dos materiais com que estas eram feitas. Levava consigo as invenções de dezenas, talvez milhares de pessoas. Se tivesse de inventar do nada todo aquele equipamento seria um génio. No entanto, mesmo que soubesse o que fazer e como fazê-lo, se tivesse passado os seus dias a recolher todos os materiais de que necessitava só para a comida e para a roupa (já para não falar do abrigo e das ferramentas), iria além dos seus limites, quanto mais se tivesse de fundir, curtir, coser, moldar e afiar tudo. Estava sem dúvida a consumir o trabalho de muitas outras pessoas e a dar o seu em troca. (…) Oetzi viveu há cerca de 5300 anos no vale alpino, dois mil anos depois de a agricultura ter chegado ao Sul da Europa." [RIDLEY, 2013: 157-158]


*NOTA: Concepções alternativas são “formas de ver/pensar”, intuitivas ou promovidas através de aprendizagens, que não coincidem com a realidade factual e concreta. Uma concepção alternativa é diferente de um simples erro. Os erros podem ser identificados e corrigidos perante a evidencia/demonstração da respectiva concepção correcta. No entanto, as concepções alternativas são, muitas vezes, persistentes e difíceis de corrigir/eliminar, podendo constituir importantes obstáculos à correcta interpretação do mundo em geral e/ou de fenómenos em particular.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RIDLEY, Matt. O Otimista Racional – Como Evolui o Bem-estar. Lisboa: Bertrand Editora, 2013, pp. 528. ISBN 978-972-25-2624-1

segunda-feira, 24 de julho de 2017

(New) Ages

Os três sistemas de valores que eu identifico – os de recolectores [caçadores], agricultores e utilizadores de combustíveis fósseis – são exemplos daquilo a que Weber chamou «tipos ideais», «alcançados», explicou, «pela acentuação unilateral de um ou mais pontos de vista e pela síntese de inúmeros fenómenos individuais difusos, discretos, mais ou menos presentes e ocasionalmente ausentes, que são organizados de acordo com esses pontos de vista enfatizados apenas por um lado numa construção mental unificada. Na sua pureza conceptual, esta construção mental nunca pode ser encontrada empiricamente na realidade. É uma utopia.» Os tipos ideais reduzem as vidas reais de milhares de milhões de pessoas a um punhado de modelos simples, e dado que incorporam uma variação empírica tão enorme, estão necessariamente recheados de exceções. Mas é o preço a pagar se queremos identificar causas por trás do caos da vida real.
É provável que alguns leitores pensem que este caminho nos leva a ismos errados de todos os tipos. Para começar, é redutor. Na maior parte dos ramos das humanidades e de algumas ciências sociais, «redutor» é um termo pejorativo, mas ao invés de negar o facto óbvio do meu reducionismo, quero abraçar a acusação. Quem o negar não está a pensar o suficiente. Só para dar um exemplo, tive recentemente a oportunidade de consultar alguns pormenores na biografia de oito volumes de Winston Churchill, escrita por Martin Gilbert (que, na verdade, foi publicada em treze livros, porque alguns dos volumes eram demasiado grandes para serem delimitados entre um só par de capas). Deve ser uma das maiores biografias jamais escritas, mas não deixa de ser redutora. Reduzir a vida de uma pessoa a palavras numa página – ainda que sejam cinco mil páginas – envolve necessariamente distorcer uma realidade mais complexa; reduzir as vidas de todas as pessoas que viveram nos últimos vinte milénios a um punhado de capítulos breves fá-lo necessariamente ainda mais. Mas não há problema. A questão que devíamos pôr não é se um historiador, um antropólogo ou um sociólogo está a ser redutor – a resposta é sempre afirmativa –, mas sim que grau de redução é necessário para resolver o problema que é apresentado. Grandes questões precisam muitas vezes de uma grande abstração, e é isso que eu proponho. [MORRIS, 2017: 38-39]


 Há vinte mil anos, todas as pessoas da Terra eram recoletoras. Há cerca de quinhentos anos, bem menos de uma pessoa em cada dez praticava este modo de vida, e essas haviam sido confinadas a apenas um terço do planeta. Hoje os recolectores constituem muito menos de um por cento da população mundial. Os poucos sobreviventes estão na sua grande maioria circunscritos a ambientes extremos que os agricultores não querem, como o deserto do Calaári e o Círculo Polar Ártico, ou onde ainda não penetraram como partes da Amazónia e as florestas húmidas do Congo. No entanto, até refúgios remotos podem ter interesse económico ou político para utilizadores de combustíveis fósseis, o que significa que os governos, os mercados e os gostos modernos tiveram pelo menos algum impacte em tudo exceto nos recolectores contemporâneos mais isolados. (Na Tanzânia, em 1986, uma das visões que mais me surpreendeu foi um caçador massai armado com uma lança a beber uma garrafa de Coca-Cola enquanto aguardava – com a sua arma pendurada num ombro – um autocarro que o levaria ao seu acampamento. Era, na verdade, tudo menos invulgar; na década de 1980, a maior parte dos caçadores-recoletores praticava uma recoleção assistida por combustíveis fósseis.)
Fazer comparações entre recolectores do século XX em ambientes muito árduos e recolectores pré-históricos em ambientes mais amenos e favoráveis apresenta obviamente problemas. Em meados do século XX, vários antropólogos e arqueólogos reagiram apresentando tipologias muito úteis de recolectores, mas desde a década de 1980 outros foram muito mais longe e sugeriram que as analogias só podem ser enganadoras. Longe de serem relíquias de um estilo de vida antigo, alegam estes antropólogos, os recolectores modernos são fruto de processos históricos claramente modernos, sobretudo do colonialismo europeu, o que significa, concluem, que os recolectores contemporâneos pouco nos dizem sobre a pré-história. Alguns antropólogos começaram a defender que a própria ideia de comparar recolectores pré-históricos e modernos é implicitamente racista, uma vez que reduz os recolectores contemporâneos ao estatuto de «antepassados vivos» que foram deixados para trás pelo progresso, logo, precisam de ser protegidos sob a asa das sociedades de combustíveis fósseis. [MORRIS, 2017: 60-61]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MORRIS, Ian. Caçadores, Camponeses e Combustíveis Fósseis – Como evoluíram os valores humanos. Lisboa: Bertrand Editora, 2017, pp. 448. ISBN 978-972-25-3249-5

sábado, 22 de julho de 2017

Montanhas de Livros

Estive ante-ontem à conversa, no programa Olá Maria (no Porto Canal), com a Rute Braga e o Tózé Coelho, sobre actividades de montanha… Os livros Guia de Montanha e Passo a Passo constituíram o ponto de partida para uma espécie de “conversas vadias”, porque "trans-correram" por aqui e por acolá, desde o começo da minha atracção pelo contacto com a Natureza, há mais de 35 anos, até ao posterior interesse pela integração da caminhada, tal como de outras práticas, no dia-a-dia, designadamente por razões de saúde e bem-estar, mas não só…











Aqui fica o registo da conversa e o acesso a alguns “apontamentos” no blogue Viagens Verticais.















With Wild Nature


Going to the woods is going home.
John Muir

Após vários dias a aguardar a encomenda efectuada através da Amazon, finalmente chegou TreeGirl – Intimate Encounters With Wild Nature. Trata-se de um livro, de Julianne Skai Arbor/TreeGirlÒ, que prima por uma estética primorosa e cuidada, com fotografias fantásticas e textos interessantíssimos sobre a ligação seminal entre os seres humanos e as árvores.
Deixo-vos aqui uma ínfima mostra, de texto e imagens, que servirá certamente para despertar a vossa curiosidade e abrir-vos o apetite por esta obra incontornável para os apaixonados pela Natureza em geral e pelas Árvores em particular.




The act of climbing, whether trees or mountains, has been identified as a “core human interaction pattern”, or “nature language”, in Peter Kahn and Patricia Hasbach’s book Ecopsychology: Science, Totems and the Technologic Species. The authors affirm that human patterns of interacting with the elements in Nature – being near or on moving water, gathering around fire, sleeping under the stars, tracking and hunting animals – are as old as the human species themselves and are ingrained in our psyches and bodies. Indeed, these ingrained relationships cannot be buried or evolved away from no matter how technologically dependent we become. With the exception of some arctic and desert regions, Homo sapiens have lived in direct relationship with trees for over two hundred thousand years. So it’s fair to say that the tree-human connection is genetically and psychologically ingrained in us. [p. 51]



E.O. Wilson popularized Erich Fromm’s term biophilia, the “love of living things”, which refers to our innate affinity with Nature. He proposed that biophilia is an instinctual drive – that the deep affiliations (or philias) humans have with the rest of life are rooted in our biology. Human beings, he suggests, subconsciously seek out connections with other living systems because those relationships help us, and everything else, survive. Biophilia is commonly seen in people’s love and care for companion animals, their fascination with wild animals, and their care for houseplants, landscaping, or gardening. Similarly, it explains why ordinary people sometimes risk their lives to save others – human or animal, and even trees and natural places. He proposes that emotions of empathy, compassion, and love are actually biological and genetic. [p. 52]



Edição: TreeGirl Studius LLC (Santa Rosa – Califórnia, 2016, pp. 192)
ISBN: 978-0-692-72604-4


quarta-feira, 19 de julho de 2017

One Wild Life

Tell me what is it you plan to do with your one wild and precious life?
Mary Oliver


A Quinta dos 7 Nomes acolheu, de 15 a 25 de Junho de 2017, a motivadora iniciativa One Wild Life – fostering authentic vocation and entrepreneurship in youth work. Segundo Sara Rodrigues, uma das promotoras da equipa One Wild Life Portugal, tratou-se de um «training course com ferramentas poderosas para o trabalho com jovens, reforçando a vocação autêntica, comunicação genuína e espírito empreendedor». O evento reuniu 26 participantes de 12 países europeus, a que se juntaram – a 23 de Junho – mais de meia centena de convidados no dia de networking internacional em trabalho com a juventude – One Wild Life. Uma interessantíssima e multicultural troca de experiências, projectos e ideias na qual tive a grata oportunidade de participar através do projecto Caminhada Holotrópica (Holotropic Walking).
Aqui fica um “cheirinho” do espírito da “coisa” :)



A journey with head, heart and hands
For a true exploration and manifestation of our contribution it is insufficient to merely reflect on or fream about it, just as "going for it" without reflecting on our behaviour and our underlying motives is also not the way forward.
This is why we would like to introduce a holistic approach of exploration and manifestation that involves head, heart and hands. And this means engaging yourself wildly in this proces – trough wild thinking, wild feeling and wild acting.

· With wild thinking we mean freeing your mind from the restricting tendencies of the inner critic and censor. Wild thinking means stepping out of the usual patterns of self-censorship, judgement and constriction and asking youself from the freest possible space : What do I really want ? What is it that wants to come into the world through me ?

· With wild feeling we mean connecting to bodily intelligence and approaching your question not only with your mind, but also with your heart. That means paying close attention to your body-level responses that may often be unconscious, such as the contraction of certain muscles, tension or butterflies in your belly, observing feelings and emotions that arise, and whether there is an intuitive feeling of right or wrong.

· With wild acting we mean leaving your comfort zone and daring to step out into unknown territory ; Often we can get a pretty clear sense of whether something is right for us or not by simply trying it out. So the third invitation is to answer questions not only with your head and heart, but also with your hands ; Through concrete doing, exploring and experiencing.
(KOHLER et al., 2016 : 22)



The wilderness holds answers to more questions than we have yet learnt to ask.
Nancy Wynne Newhall



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KOHLER, Franziska, LIVITS, Réka, BALÁZS, Laura & CARDINALE, Roberto. Take the Future in your hands – A road map to Authentic Vocation for Social Transformation; Hungary: proVOCAtion innovaTION Strategic Partnership, 2016, pp. 228. ISBN 978-963-12-5235-4

terça-feira, 18 de julho de 2017

Walden (II)


Na sequência da comemoração dos 200 anos sobre o nascimento de Henry David Thoreau e coincidindo com o convite da editora Antígona de «nesta silly season (…) seguirmos o espírito insubmisso do autor e trocarmos a estância balnear pelo rumor dos bosques e a água fresca dos rios», publicamos mais um conjunto de intervenções efectuadas no âmbito da iniciativa Porquê Ler os Clássicos? 

Ana Sofia Cardoso © Thoreau na Antígona (2017)

Conclusão (5/5/2011 00:54) 
No capítulo XVIII (“Conclusão”), que finaliza “Walden ou A Vida nos Bosques”, Thoreau volta a acentuar a sua faceta moralista, à semelhança do que fez no capítulo de abertura da obra. Mas ao contrário do capítulo I no qual o autor explica porque é que decidiu ir para o Walden, desta feita centra-se na justificação do porquê de abandonar o lago.
David Henry Thoreau foi instalar-se nos bosques à beira do lago Walden para VIVER. “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a aos seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então na sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão.” (p. 108)
Thoreau viveu uma experiência sublime, soube explicá-la e resolveu que a mesma estava cumprida sendo o momento de partir para outra… “Os médicos, com sabedoria, recomendam aos enfermos mudança de clima e de ambiente.” (p. 347)  “A nossa viagem é apenas um grande círculo de navegação, (…).” (p. 347), uma peregrinação ou peregrinações que não só poderão como deverão seguir vários rumos; numa descoberta, mais do que externa, do interior, uma viagem do “self”. “Olhai bem a vossa mente, nela pela certa Encontrareis mil regiões não descobertas. Percorrei-as, que assim sereis um dia Conhecedor da própria cosmografia.” (p. 348)
Que representam as conquistas ou descobertas geográficas comparadas com as dos “próprios rios e oceanos”? Thoreau desafia: “explorai as mais remotas das vossas próprias latitudes, (…) sede um Colombo de todos os novos continentes e mundos que existem dentro de vós, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento” (p. 348). Thoreau não só desafia como exprime surpresa perante os homens que “amam o solo pátrio” mas não sentem nenhuma simpatia pelo espírito que ainda lhes anima o barro” (p. 348). E, nesse contexto, exprime a necessidade do conhecimento de si próprio. Como amante dos clássicos, Thoreau segue a máxima desenvolvida no seio do movimento reformador da Grécia Antiga, a prisca theologia de Marsilio Ficino, que passa por Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e continua com os neoplatónicos e com os cristãos gnósticos: “Conhece-te a ti próprio”. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser (…).” (p. 350)
Thoreau, que tanto importância dava aos ciclos naturais, alerta simultaneamente para a importância de não cair em rotinas, de trilhar novo caminhos pessoais. “Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo naquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecermos para nós um trilho batido.” (p. 350) “A superfície da terra é macia e sensível aos pés dos homens; o mesmo acontece com as veredas por onde a mente viaja. (…) Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo!” (p. 351)
“Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; (…). À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-de parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.” (p. 351)
Thoreau não teme a busca de si próprio, dos seus caminhos, receia é não ser suficientemente ousado. “Temo sobretudo que a minha expressão não seja suficientemente extra-vagante, que não se aventure bastante além dos estreitos limites da minha experiência diária, de modo a adequar-me à verdade de que me convenci. Extra vagância” Esta depende de quanto estais encurralados. (…) Desejo falar sem papas na língua seja onde for; como um homem em estado de alerta a outros homens em estado de alerta; pois estou convicto de que não posso exagerar tanto a ponto de lançar as fundações de uma expressão verdadeira. Quem é que, depois de ter ouvido uma composição musical, recearia falar extravagantemente? (…) O senso mais comum é o dos homens adormecidos, que o exprimem roncando.” (p. 352)
“Deverá um homem enforcar-se por pertencer à raça dos pigmeus, em vez de ser o maior pigmeu, em vez de ser o maior pigmeu que puder? (…) Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente.” (p. 353)
Ao fim ao cabo, o autor de “Walden e a Vida nos Bosques” defende uma busca ousada dos próprios rumos, daquilo em que acredita. E, nesse pressuposto, conta a história de Kouru, o “artista disposto a buscar a perfeição”, que decidiu “fazer um bastão” (p. 354) mas acabou por fazer “um novo sistema (p. 355). Thoreau defende não só a plenitude de viver, como viver a/na verdade. “Nenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trará por fim tanto proveito como a verdade. Só ela assenta bem. (…) Dizei o que tendes a dizer, e não o que deveis dizer. Qualquer verdade é melhor que o fingimento.” (p. 355) Voltamos aos capítulos primeiros, ao fecho do ciclo “Walden”, nos quais Thoreau elogia e “pobreza voluntária” (p. 29) e proclama a necessidade primordial de viver de forma simples: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade!” (p. 109) E VERDADE!
Thoreau não só incita ao cultivo da “pobreza como um jardim de ervas, de salva.” (p. 356) como alerta para a frivolidade e “algazarra dos meus contemporâneos” (p. 357). “Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade, Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes.” (p. 358-359) Sim, VIVER a/na VERDADE!
“Mais do que amor, dinheiro, fama, concedam-me verdade. Sentei-me a uma mesa que exibia comida sofisticada e vinho em abundância, uma companhia subserviente, mas onde não existia sinceridade e verdade; e parti faminto da mesa hostil. A hospitalidade era fria como gelo.” Esta passagem de “Walden” estava sublinhada num dos livros encontrados junto aos restos mortais de Chris McCandless. No topo da página McCandless tinha escrito à mão e em grandes letras maiúsculas a palavra “VERDADE” (Krakauer in “O Lado Selvagem”, 2010, p. 132).
Nesta conclusão talvez não sejam tão despropositadas como, a primeira vista possa parecer, as frases já proferidas neste fórum: “ Estar vivo é o contrário de estar morto” e “A verdade é o contrário da mentira”!
“A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.” (p. 362) “Compreendestes a vastidão da Terra? Onde fica o caminho para a morada da luz, e qual é o lugar da escuridão?...” (O Livro de Job)
Se tivesse de escolher o pensamento ou a frase lapidar de “Walden ou A Vida dos Bosques” seria aquela que destaquei pela primeira vez como frase favorita neste fórum: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (…) Simplificar, simplificar, simplificar.” (p. 109).


Referência bibliográfica
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Edições Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8