O Pedestrianismo trata-se de um desporto para todos – uma actividade informal, inclusiva, recreativa, intergeracional e não competitiva – cuja
prática regular comporta inúmeros benefícios para a saúde dos praticantes,
designadamente por decorrer preferencialmente na “Natureza”. Mais, a prática
informal de caminhada, integrada nos afazeres do dia-a-dia, mesmo (e sobretudo)
em ambiente urbano, revela-se, para além de promotora da saúde dos
“praticantes”, uma actividade slow,
sustentável e green que pode (e deve)
contribuir para mitigar a pegada ecológica diária de cada um dos cidadãos
envolvidos.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Toca a andar
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Princípios Fundadores
Numa época de apologias, mais ou menos sub-reptícias ou
ostensivas, sobre ambientes tão virtuais quanto alienantes, na qual vigoram
superficialismos estereotipados e obsessões “politicamente correctas”, em torno
de equívocos (pretensos) unanimismos, virá à colação uma reflexão sumária sobre
o woodcraft, ademais no dia em que se
comemora o nascimento do fundador do Boy Scout
Movement: Lord Baden-Powell of Gilwell. Neste contexto, serão de destacar
notórias perdas, que se têm vindo a propagar paulatinamente, desde há décadas,
no domínio da naturalidade, da espontaneidade e de inúmeras liberdades
elementares, mormente através de discursos encomiásticos que, a par de
propagandear a comercialização e a banalização da “aventura” (e não só), promovem
uma obcecação pela segurança!
A evolução (ou involução?) que se verificou na prática scout, em particular, surge como um
exemplo expressivo – pela autenticidade e pioneirismo deste movimento (que, por
isso, constitui um autêntico landmark
em matéria de vivência do “ar livre”) – daquilo que viria a afectar, em geral,
toda a fenomenologia das praxis “fora
de portas”. Aquele que na edição original se designou Scouting for Boys e cujo
subtítulo deixava bem claro o seu objectivo – A Handbook for Instruction in Good Citizenship Through Woodcraft – transverteu-se, na versão
portuguesa, numa tradução que ignorou a componente nuclear de woodcraft, deixando adivinhar um
tendente sumiço da educação mediante actividades de plein air ou, melhor seria dizer, arejadas. Arejadas, desde logo,
por se praticarem em espaços de ar livre (ao invés de ambientes de sala ou
salão) e, além disso, sob formas o mais libertas de condicionalismos e
condicionantes que possível seja.
É sob essas tendências – que alguns apenas poderão intuir dans l’air
du temps (ou nem isso!) e que outros, sem dúvida mais sensíveis, sofrem
inequivocamente na pele – que se chegou a uma moldura contextual pródiga em contraditórias
aparências e mal-entendidos. E não estamos a pensar, de todo, apenas na propensão
pelo facilitismo, artificialismo e domesticação de preceitos que se traduzem,
por exemplo, na predilecção por acantonamentos – palavra utilizada na gíria esco(u)tista
para designar o acto de passar a noite entre quatro paredes (numa casa) – em
vez de dormir sob as estrelas. Antes fosse!...
Os tempos actuais são prolíferos no tocante a incongruências
e inconvenientes que se expressam sob diversificados moldes. Desde logo, uma
“paranóia regulamentar” de tudo legislar, burocratizar e normalizar, com
decorrentes proibições e restrições, de acesso, de andar, de acampar, de
foguear, etc.. E, pasme-se, os
condicionalismos estendem-se ao como (não) estar, ser, fazer!... Num contexto
de democracia inquestionável (?) é curioso constatar que nunca se verificou um
tão grande cerceamento de liberdades elementares, no tocante à prática de
actividades de ar livre, como agora! Tal como uma apetência e predisposição por
espaços intervencionados, ao jeito de “parques de recreio” normalizados e que
funcionem como uma espécie de sucedâneo daquilo que, como concepção alternativa,
passará (a muito custo) por “natureza”: parques de campismo, “parques aventura”,
percursos pedestres balizados, vias de escalada equipadas, arborismo, etc.. Outro fenómeno diverso, mas
semelhante no que concerne às motivações/crenças de base e aos erros
conceptuais destas resultantes, traduz-se na necessidade de implementar
mecanismos de gestão que supostamente não só garantam como catalisem a
eficiência e a eficácia, confundindo matrizes de desempenho com o próprio
desempenho ou gráficos com a realidade.
Ambos os sintomas, a “paranóia regulamentar” e os “tiques
tecnocráticos”, estão generalizados aos diversos sectores da sociedade e, portanto,
não se restringem exclusivamente às práticas outdoor e, muito menos, ao movimento esco(u)tista ou similares. [Poderemos considerar,
sem estar longe da verdade, que ambos se tratam de fenómenos globais e
globalizantes, ao estilo “huxleyano”, de um Admirável Mundo Novo (Brave New World)!] No entanto, é sobretudo
no âmbito do dito “desporto aventura”, e também do escotismo (ou escutismo,
como se queira), que estas fenomenologias revelam roupagens, a nosso ver, bastante
interessantes enquanto caso(s) de estudo, tendo em conta o desiderato original de
se constituírem como “escolas de vida” baseadas na livre vivência dos vastos
espaços naturais. Acresce ao aludido que ambos os sintomas ocorrem
frequentemente acompanhados por uma terceira variável: uma manifesta necessidade
de afirmação/poder/autoridade pessoal, muitas vezes extravasada sob a forma de “masculinidade
sobredimensionada” e/ou atitudes militaristas desfasadas dos contextos em que se
inserem. Aliás, foi por estas e por outras razões que surgiram, desde cedo,
movimentos divergentes do Scouting como o Kindred of the Kibbo Kift.
É neste enquadramento histórico que se assiste, nos últimos
anos, a uma metodologia educativa (extra)ordinária: os “educadores” ao invés de
se centrarem nas crianças/jovens, estimulando o desenvolvimento concreto das
suas capacidades e competências, alicerçadas num autodidactismo simultaneamente
livre e responsável (em que estes decidam, façam e aprendam por si), dispersam-se
em infindáveis reuniões em torno de abstracções escudadas por supostos critérios
de evidência que se traduzam invariavelmente naquilo que eles entendem (ou que
alguém entende por eles) ser o “sucesso”! Afinal basta que as matrizes e os gráficos
estejam bonitos, devidamente preenchidos com valores que tornem patente uma
expectável “excelência”.
Outro fenómeno curiosíssimo, digno do Entroncamento,
consiste na aparente convivência dos opostos “aventura” e “segurança”. Na verdade
tal não passa de uma risível aldrabice tendo em conta que se trata tão somente
de pseudo-aventura, dentro de limites de segurança considerados perfeitamente
aceitáveis! É nesse contexto, aliás, que se passou a impedir as crianças de
usar facas de mato (e até canivetes!) ou machados, de subir às árvores ou simplesmente
extravasarem alguma réstia de espontaneidade ou de experimentalismo digno de se chamar “aventura”. Fenómeno, aliás, que também se encontra vastamente difundido
no âmbito dos designados “desportos aventura”, mormente no ramo da animação
turística! É também neste contexto que será oportuno relembrar, neste Dia do Fundador,
valores antigos, de que tanto carecem os tempos actuais, na linha daqueles que foram defendidos por Baden-Powell. Só assim, com força e nobreza, se poderão derrotar a
fraqueza e o vício… A dureza e a vitalidade do corpo foram tão necessárias como
o são hoje. A híper-natural utopia espartana, ao contrário da utopia moderna
anti-natural, é tão actual quanto foi outrora e para a aplicar basta:
1. responder com simplicidade e honestidade – ser lacónico;
2. ter vontade de excelência – ser virtuoso;
3. limpar a vida de todos os detalhes supérfluos – ser simples;
4. endurecer a mente e o corpo contra o medo, a adversidade e a dor,
sobrando clareza e confiança para conquistar qualquer situação – ser corajoso.
Afinal, pontos de vista altaneiros permitem amplas
panorâmicas e contribuem para a largueza de vistas, enquanto que espaços
confinados ou limitados são o seu contrário. Para bom entendedor meia palavra
deveria bastar e contudo…
«Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida
fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida
perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o
melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira
tarefa de educar é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar.
Baden-Powell, o que fez nessa conferência célebre foi
exactamente isso, o exigir que se ponha diante das pessoas um objecto que vá
muito além daquele que lhe possibilitam as suas forças. Ele queria, para todos
os rapazes e para todas as moças, quando chegassem a essa idade, uma educação que
lhes temperasse a vontade, não mais gente na rua vendo gente a passar, não mais
gente encostada pelas portas dos cafés, não mais gente de 20 anos
vergonhosamente desocupada, passando todo o dia sem fazer coisa nenhuma,
fraquíssima de carácter, fraquíssima de corpo, esperando que chegue o tempo de
jantar para que chegue o tempo de dormir para que chegue o tempo de se levantar.»
Agostinho da Silva – Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade
(1961) in Textos e Ensaios Pedagógicos II,
pp. 26-27
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Ética e Deontologia
O Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) vai
realizar uma palestra, no dia 15 de Março, sobre a temática Ética e Deontologia em Desportos de Montanha. Esta Acção de Formação Contínua é reconhecida
pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) com vista à atribuição
de Unidades de Crédito para a revalidação de Títulos Profissionais de Treinador
de Desporto (TPTD) nos diversos graus (I, II e III) das modalidades de
Alpinismo, Montanhismo, Escalada, Pedestrianismo e Canyoning.
A acção de formação em causa visa abordar a importância da ética
na condução de actividades e no treino em Desportos de Montanha, designadamente
nas suas múltiplas vertentes: desportiva, ambiental e turística, entre outras.
Nesse contexto, será efectuada uma explanação sobre o enquadramento, história e
diversos conceitos no âmbito da ética normativa, ética ambiental e ética do
desporto, tal como a aplicação da ética em situações concretas de tomada de
decisões e dilemas éticos. Esta palestra vem na sequência, e é em tudo
semelhante, a aula ministrada por nós, de 2014 a 2016, no âmbito da Unidade Curricular
de Ética e Deontologia Profissional, do sexto semestre da licenciatura de
Treino Desportivo, da Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM).
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
A Flor do Caminho (X)
Mais uma edição d'A Flor do Caminho no Parque Florestal de Monsanto, dia 4 de Março, das 16.00 às 19.00...
«Caminhamos na natureza em presença.
Atentos ao trilho interior, respiramos profundamente, sentimos o contacto dos pés com a terra, a força da gravidade.
Através da prática do Chi Kung cultivamos a energia vital, relaxamos, fortalecemos e libertamos o corpo e a mente.
Os sentidos abrem, receptivos à beleza que se oferece a cada instante.
No silêncio tudo acontece…»
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
A paisagem
«Nascem de mim árvores,
flores; e os mortos irrompem, vivos, do meu ser. Desapareço numa turba de
fantasmas. Já não sou eu; sou os outros. Eis o grito de Deus ao criar o mundo.
Sou os outros, e é outra esta paisagem que me cerca de aparições. Transfiguro-me
e tudo se transfigura.»
Teixeira de Pascoaes (1928): Livro de Memórias
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Um encantamento especial
Aquilo que poderá ser encarado, à primeira
vista, como meros «aphorismes sur la lune
et autres pensées sauvages» é muito mais do que isso… Trata-se de viajar no
tempo presente, como se de um regresso ao passado se tratasse, e de uma forma
original, como que num retorno às origens. E, todavia, numa clara manifestação de saudades do futuro! Estar preparado para caminhar com elevados
níveis de atenção e... tornar-se tribal?
La Science du
concret
«Chaque chose sacrée doit être à sa place», notait avec profondeur
un penseur indigène (Fletcher 2, p. 34). […] L’invocation qui accompagne la traversée d’un cours d’eau se
divise en plusiers parties, correspondant respectivement au moment où les
voyageurs mettent les pieds dans l’eau, où ils les déplacent, où l’eau recouvre
complètement leurs pieds; l’invocation au vent separe les moments où la
fraîcheur est perçue seulement sur les parties mouillées du corps, puis ici et
là, enfim sur tout l’épiderme: «alors seulement, nous pouvons progresser en
sécurité» (id., pp. 77-78). Comme le
precise l’informateur, «nous devons
adresser une incantation spéciale à chaque chose que nous rencontrons, car
Tirawa, l’esprit suprême, reside en toutes choses, et tout ce que nous
recontrons en cours de route peut nos secourir… Nous avons été instruits à prêter attention à tout ce que nous voyons»
(id., pp. 73-81).
Ce souci d’observation exhaustive et d’inventaire systématique des
rapports et des liaisons peut aboutir, parfois, à des résultats de bonne ténue
scientifique […]
[LEVI-STRAUSS, 1962:
22-23]
En citant un extrait de ses carnets de route, Conklin a voulu
illustrer ce contact intime entre l’homme et le milieu, que l’indigène impose
perpétuellement à l’ethnologue:
«A 0600 et sous une pluie légère, Langba et moi quittâmes Parina en
direction de Binli… A Arasaas, Langba me demanda de découper plusiers bandes d’écorce,
de 10 x 50 cm, de l’arbre anapla kilala
(Albizia procera (Roxb.) Benth.) pour
nous préserver des sagsues. En frottant avec la face interne de l’écorce nos chevilles et nos jambes, déjà mouillées para la végétation dégouttante de
pluie, on produisait une mousse rose qui était un excellent répulsif. Sur le
sentir, près d’Aypud, Langba s’arrêta soudain, enfonça prestement son bâton en
bordure du sentier, et déracina une petite herbe tawag kûgun buladlad (Buchnera
urticifolia R. Br.), qui, me dit-il, lui servirait d’appât… pour un piège à
sangliers. Quelques instants plus tard, et nous marchions vite, il fit un arrêt
semblable pour déraciner une petit orchidée terrestre (difficile à repérer sous
la végétation qui la couvrait) appelée liyamliyam (Epipogum roseum (D. Don.) Lindl.), plante employée pour combattre
magiquement les insectes parasites des cultures. A Binli, Langba eut soin de ne
pas abîmer sa cueillette, en fouillant dans sa sacoche de palmes tressées pour
trouver du apug, chaux éteinte, et du
tabaku (Nicotiana tabacum L.), qu’il voulait offrir aux gens de Binli en
échange d’autres ingrédients à chiquer. Après une discussion sur les mérites
respectifs des variétés locales de bétel-poivre (Piper betle L.), Langba obtint la permission de couper des boutures
de patate douce (Ipomoea batatas (L)
Poir.) appartenant à deux formes végétatives différentes et distinguées comme kamuti inaswang et kamuti lupaw… Et dans le carré de camote, nous coupâmes 25 boutures
(longues d’environ 75 cm) de chaque variété, consistant en l’extrémité de la
tige, et nous les enveloppâmes soigneusement dans les grandes feuilles fraîches
du saging saba cultivé (Musa sapientum compressa (Blco.)
Teodoro) pour qu’elles gardent leur humidité jusqu’à notre arrivée chez Langba.
En route, nous mâchâmes des tiges de tubu
minama, sorte de canne à sucre (Saccharum
officinarum L.), nous nous arrêtâmes une fois pour ramasser quelques bunga, noix d’arec tombées (Areca catechu L.), et, une autre fois,
pour cueillir et manger les fruits, semblables à des cerises sauvages, de
quelques buissons de bugnay (Antidesma brunius (L.) Spreng.). Nous
atteignîmes le Mararim vers le milieu de l’après-midi, et, tout au long de
notre marche, la plus grande partie du temps avait passé en discussions sur les
changements dans la végétation au cours des dernières dizaines d’années.»
(Conklin I, pp. 15-17.)
[LEVI-STRAUSS, 1962:
18-19]
Cet appétit de connaissance objective constitue un des aspects les
plus négligés de la pensée de ceux que nous nommons «primitifs». S’il est
rarement dirigé vers des réalités du même niveau que celles auxquelles
s’attache la science moderne, il implique des démarches intellectuelles et des
méthodes d’observation comparables.
[LEVI-STRAUSS, 1962:
13]
Cette science du concret
devait être, par essence, limitée à autres résultats que ceux promis aux
sciences exactes et naturelles, mais elle ne fut pas moins scientifique, et ses
résultats ne furent pas moins réels.
[LEVI-STRAUSS, 1962:
30]
Mais n’est-ce pas que la pensée magique, cette
«gigantesque variation sur le thème du principe de causalité», […], se
distingue moins de la science par l’ignorance ou le dédain du déterminisme, que
par une exigence de déterminisme plus impérieuse et plus intransigeante, et que
la science peut, tout au plus, juger déraisonnable et précipitée?
«Considérée comme systéme de philosophie naturelle, elle [witchcraft] implique un théorie des
causes: la malchance résulte de la sorcellerie, travaillant de concert avec les
forces naturelles. […]»
Entre magie et science, la difference première serait donc, de ce
point de vue, que l’une postule un déterminisme global et integral, tandis que
l’autre opère en distinguant des niveaux don’t certains, seulement, admettent
des forms de déterminisme tenues pour inappicables à d’autres niveaux.
[LÉVI-STRAUSS, 1962: 23-24]
[LÉVI-STRAUSS, 1962: 23-24]
---------
A ciência do
concreto
“Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar”, notava, com
profundeza, um pensador indígena (Fletcher 2, p. 34). […] A invocação que acompanha a travessia de um curso de água se
divide em várias partes, correspondendo, respectivamente, aos momentos em que
os viajantes põem os pés na água, em que mudam de lugar e em que a água lhes
cobre completamente os pés; a invocação ao vento separa os momentos em que o
frescor é percebido apenas pelas partes molhadas do corpo, depois aqui e ali, e
enfim, por toda a epiderme: “somente então podemos prosseguir com segurança” (id., pp. 77-78). Como deixa bem claro o
informante, “devemos dirigir um
encantamento especial a cada coisa que encontramos, pois Tirawa, o espírito
supremo, reside em todas as coisas e, tudo o que encontramos em nosso caminho
pode socorrer-nos (…). Fomos instruídos para prestar atenção a tudo o que vemos” (id., pp. 73, 81).
Esta preocupação da observação exaustiva e do inventário
sistemático das relações e das ligações pode levar, às vezes, a resultados de
boa ordem científica […]
[LEVI-STRAUSS, 1976:
30-31]
Citando um extrato de suas notas de viagem, Conklin quis ilustrar
esse contacto íntimo entre o homem e o meio, que o indígena impõe,
perpetuamente, ao etnólogo:
“A 0600 e sob uma chuva fina, Langba e eu deixamos Parina na
direção de Binli (…). Em Arasaas, Langba me pediu para cortar várias tiras de
casca, de 10 x 50cm, da árvore anapla
kilala (Abizzia procera (Roxb.)
Benth.) para preservar-nos das sanguessugas. Esfregando, com a face interna da
casca, os tornozelos e pernas, já molhados pela vegetação, gotejante da chuva,
formava-se uma espuma rósea, que era excelente repulsivo. No caminho, perto de
Aypud, Langba parou, de repente; enfiou, com presteza, seu bastão na beira do
caminho e arrancou, pela raiz, uma erva, tawag
kugun buladlad (Buchnera urticifolia
R. Br.) que, me disse ele, lhe serviria de isca (…) em uma armadilha para
javalis. Alguns instantes mais tarde, e nós andávamos depressa, ele fez uma
parada igual, para arrancar uma orquideazinha terrestre (difícil de ver sob a
vegetação que a cobria), chamada lyamliyam
(Epipogum roseum (D. Don.) Lindl.),
planta empregada para combater, magicamente, os insetos parasitas das culturas.
Em Binli, Langba teve o cuidado de não estragar sua apanha, remexendo uma
sacola de palmas trançadas, para encontrar apug,
cal extinta e tabaku (Nicotiana tabacum L.), que queria
oferecer à gente de Binli, em troca de outros ingredientes para mascar. Depois
de uma discussão sobre os respectivos méritos das variedades locais de
bétel-pimenta (Piper betle L.),
Langba obteve permissão para cortar mergulhias de batata-doce (Ipomoea batatas (L.) Poir.),
pertencentes a duas formas vegetais diferentes e classificadas como kamuti inaswang e kamuti lupaw (…). E no canteiro de camote, cortamos 25 mergulhias (com cerca de 75cm de comprimento)
de cada variedade, retiradas da extremidade da haste, e as enrolamos,
cuidadosamente, em grandes folhas frescas de saging saba cultivado (Musa
sapientum compressa (Blco.) Teodoro) para que conservassem a umidade até
chegarmos de volta à casa de Langba. Pelo caminho, mastigamos hastes de tabu minama, espécie de cana-de-açucar (Saccharum officinarum L.); paramos uma
vez, para colher alguma bunga,
nozes-de-areca caídas (Areca catechu
L.) e, uma outra vez, para colher e comer os frutos, semelhantes a cerejas
selvagens, de algumas moitas de bugnay
(Antidesma brunius (L.) Spreng.).
Atingimos Mararim no meio da tarde e, ao longo de nosso caminho, a maior parte
do tempo foi passada com discussões sobre as mudanças da vegetação, no curso
das últimas dezenas de anos.” (Conklin I, pp. 15-17)
[LEVI-STRAUSS, 1976:
26-27]
Este apetite de conhecimento objectivo constitui um dos aspectos
mais negligenciados do pensamento daqueles que nós chamamos “primitivos”. Se é
raramente dirigido para realidades do mesmo nível que aquelas às quais se liga
a ciência moderna, implica diligências intelectuais e métodos de observação
semelhantes.
[LEVI-STRAUSS, 1976:
21]
Esta ciência do concreto
devia ser, essencialmente, limitada a outros resultados que os prometidos às
ciências exatas e naturais, mas não foi menos científica e seus resultados não
foram menos reais.
[LEVI-STRAUSS, 1976:
37]
Mas não será que o pensamento mágico, essa “gigantesca
variação sobre o tema do princípio da causalidade”, […], se distingue menos da
ciência pela ignorância ou pelo desprezo do determinismo, do que por uma
exigência de determinismo mais imperiosa e mais intransigente e que a ciência
pode, quando muito, julgar insensata e precipitada?
“Considerada como sistema de filosofia
natural, ela (witchcraft) implica uma
teoria das causas: a infelicidade resulta da feitiçaria, que trabalha em
combinação com as forças naturais. […]”
Entre magia e ciência, a diferença primordial
seria, pois, deste ponto de vista, que uma postula um determinismo global e
integral, enquanto que a outra opera distinguindo níveis, dos quais apenas
alguns admitem formas de determinismo tidas como inaplicáveis a outros níveis.
[LÉVI-STRAUSS, 1976: 31-32]
REFERENCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
LÉVI-STRAUSS, Claude. La pensée sauvage. Paris: Librairie
Plon, 1962, pp. 352. ISBN 978-2-266-03816-4
LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1976, pp. 334.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Walk me
If you see me, move my body
That’s a sign too, that’s a sign too
If you see me, move my body
That’s a sign too, that’s a sign too
Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s society
Can you feel me, shake my body
From left to right, there's no faking
The shaking goes like boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom
I go boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society
You want me
You want me
You want me
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
I go boom boom
You go boom boom
Fail
I go boom boom
You go boom boom, boom boom
If you see me, move my body
Move your body, it’s so silent
Go boom boom
That’s a sign too, that’s a sign too
If you see me, move my body
That’s a sign too, that’s a sign too
Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s society
Can you feel me, shake my body
From left to right, there's no faking
The shaking goes like boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom
I go boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society
You want me
You want me
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
I go boom boom
You go boom boom
Fail
I go boom boom
You go boom boom, boom boom
If you see me, move my body
Move your body, it’s so silent
Go boom boom
Jenny Lee Lindberg
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Pedestrianism
E para aqueles
que pensam que o Pedestrianismo é algo de recente, aqui fica o link de um
“livrinho” que deita por terra tais mitos. Trata-se da
obra de Estwick Evans (1787-1866) intitulada Evans's Pedestrious Tour of Four Thousand Miles – 1819. Como o título indica, o "rapaz" apreciava percursos
de longo curso…
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
W and W
WOODCRAFT
A youth movement with significant pagan
elements, Woodcraft was founded by Canadian-American nature writer ErnestThompson Seton (1860-1946) in 1902, at his home in Cos Cob in suburban
Connecticut. Concerned about the impact of industrialization and urban life on
youth, Seton launched the movement as an attempt to bring young people into
contact with nature and to teach values of self-discipline and cooperation.
Seton was an early supporter of Native American rights, and drew on Native
American traditions in launching his movement.
The movement started out as a single
‘tribe’ of 42 boys in Cos Cob, but expanded dramatically over the following
years, reaching a membership of 200,000 by 1010. After a brief and unsuccessful
alliance with the Boy Scouts of America, Seton set up the Woodcraft League, an
international organization, in 1915. Woodcraft tribes had groups for different
age levels and a detailed program of activities and honors. A especial inner
circle for adults, the Red Lodge, had three degrees of initiation and a
spiritual dimension focused on what Seton called the Red God, the spirit of
wild nature and the “Buffalo Wind” that called too-civilized humanity back to
its roots in living nature.
The Woodcraft League gained its first
overseas members in the year of its founding, when a group of English Quakers,
dissatisfied with the militaristic elements of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts,
turned to Woodcraft instead and launched the Order of Woodcraft Chivalry, the
first British Woodcraft group. In 1919 there was another addition to Woodcraft
ranks as John Hargrave, a charismatic Scout leader, broke with the Boy Scouts
and founded a Woodcraft group called the Kindred of the Kibbo Kift (“kibbo
kift” being an old Kentish dialect phrase for “proof of strength”). Another
Woodcraft group, the Woodcraft Folk, broke away from Hargrave’s group in 1924.
All three of the British Woodcraft groups set aside Seton’s Native-American
symbolism in favor of a mixture of Celtic and Anglo-Saxon imagery more
appropriate to British youth. In the process, they helped to lay the
foundations of modern Wicca. See Wicca.
The Woodcraft movement reached the peak
of its popularity in the 1920s and 1930s, with groups active in some 20 countries
around the world. The Second World War and the period of massive
industrialization and Cold War militarism that followed it, however, brought a
steep decline in the movement. After Seton’s death in 1946 the Woodcraft League
went out of existence, and the few surviving Woodcraft groups in the second
half of the twentieth century continued in isolation. Woodcraft today remains
an active but very small movement, with a variety of local groups linked mostly
by the Internet. Whether it will survive or flicker out in the twenty-first
century remains to be seen.
Further reading: Hargrave 1927, Seton,
1920, Seton 1926.
[GREER, 2013: 541-542]
"Seton Indians"(1909)
Order of Woodcraft Chivalry (1930)
KKK on an Easter Hike (c.1931)
WICCA
(…) Gardner had close connections to the
English branch of woodcraft, a youth movement founded around the beginning of
the twentieth century by Canadian-American nature writer Ernest Thompson Seton
(1860-1846). Starting in 1915, when Quaker groups opposed to the militarism of
Lord Baden-Powell’s Boy Scouts imported Woodcraft as an alternative, two
Woodcraft organizations – the Order of Woodcraft Chivalry and the Kindred of
the Kibbo Kift – had an active presence in the New Forest area where Gardner
claimed to have worshipped with surviving witches’ covens. Similarities between
Wicca and English Woodcraft ceremonies from the 1920s even include references
to the earth as a goddess and to a horned god of nature, and Seton’s Woodcraft
included an inner, initiatory branch for adults, the Red Lodge, with three degrees
of initiation.
[GREER, 2013: 536]
Cernunnos on the Gundestrup Cauldron (II-I BC)
Bibliographic
references
GREER, John Michael. The
Element Encyclopedia of Secret Societies. London: Harper Element, 2013,
pp. 568. ISBN 978-0-00-793145-3
*
HARGRAVE, John (1927). The
Confession of the Kibbo Kift (London: Duckworth)
SETON, Ernest Thompson (1920). Two
Little Savages (Garden City, NY: Doubleday)
SETON, Ernest Thompson (1926). The
Book of Woodcraft and Indian Lore (Garden City, NY: Doubleday)
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Lisbon night walk
Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)
Depois de um interregno, de
mais de um mês, nas minhas caminhadas diárias por Lisboa, foi com uma enorme
emoção que palmilhei ontem à noite o trajecto entre o Espaço Salitre-Amaro e o
restaurante Martinho da Arcada. Para quem está habituado a andar a pé, pelo
menos uma dezena de quilómetros por dia, e cuja praxis se baseia na operatividade da “ciência do concreto”, estar
parado a recuperar de uma fasceíte plantar não é nada… “fácil” (!). Por isso a
extrema satisfação que vivenciei nesse trajecto, com os sentidos invulgarmente
despertos, não só pela liberdade do sedentarismo quebrado mas também pela
frescura da noite chuvosa, pelas luzes e pelo bulício metropolitano,… Ademais estando
esse percurso enquadrado no workshop de
Pedro Teixeira da Mota sobre "Iniciação ao Caminho Esotérico e Espiritual
de Fernando Pessoa", que decorreu, das 9.30 às 19.30, no Espaço
Salitre-Amaro. Para mim, tudo fez imenso sentido: após especulativas caminhadas
e metafóricos caminhos, fechar o dia com “chave de ouro” naquele que foi um dos
locais acarinhados pelo grandioso Pessoa, acompanhado por pessoas
extraordinárias. Bem hajam.
Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)
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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por planos desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
Fernando Pessoa (24/10/1932)
in Poemas Esotéricos de Fernando Pessoa (Planeta
Manuscrito, 2009, p. 16)
Etiquetas:
Lisbon Walks,
Poesia,
Walkscapes
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