sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Vem subir o Pico



Pedro Cuiça © Montanha do Pico (08/06/2019)

Pedro Cuiça © Montanha do Pico (08/062019)


«O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção. É mais do que uma ilha – é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo (…).»
Raúl Brandão in As Ilhas Desconhecidas (1926)

No próximo mês de Maio vamos regressar à Ilha Montanha para mais uma intensa, e certamente enriquecedora, aventura. Percorrer, pé-ante-pé, alguns dos mais belos caminhos pedestres dos Açores, através das contrastantes paisagens de lavas negras e bagacinas sépias, das diversas tonalidades da floresta sempre verde e do forte azul profundo do oceano circundante. Conhecer a história, a arquitectura tradicional e a gastronomia picarotas. Atingir o topo do Piquinho, que culmina a mais alta montanha de Portugal (2351 m), num dia invariavelmente marcante e pleno de vivências. Numa organização com a excelência e a qualidade Naturthoughts, com guias de montanha devidamente titulados. 
Vem subir o Pico connosco. Não percas esta aventura, inscreve-te já.





quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Vão e Vejam


«Mas isto são as crenças e as tradições do meu povo. As mezinhas, os responsos, o diabo. Negar as nossas tradições – o nosso paganismo, até – seria minorar uma cultura riquíssima, que para mais se está a perder.»
Padre Fontes (2018)

António Mendes © Paredes do Rio (PNPG, 10 de Novembro de 2019)

No passado domingo tive o grato privilégio de empreender uma caminhada altamente estimulante na região de Barroso, mais precisamente na envolvente da aldeia de Paredes do Rio. Estimulante pelo excepcional telurismo e pela frescura dessas paragens, sensação acentuada pelo vento e pela chuva persistentes, mas também pela companhia de um conjunto de velhos companheiros de andanças pedestres.
A geomorfologia de Barroso insinuou-se timidamente, numa acinzentada e nevoenta paisagem contrastante, com ásperas montanhas a fechar o horizonte a norte e alinhamentos de arredondadas elevações a sul, pontilhadas de aerogeradores! As terras agrestes do Parque Nacional da Peneda-Gerês, que por estas bandas se estendem para além da aldeia de Pitões das Júnias e da alva capela de São João da Fraga, mal se vislumbraram, encobertas por esse tempo anunciador da invernia que se avizinha.
As vastas panorâmicas estiveram encobertas mas a paisagem a curta distância (diria mesmo “macro”) revelou uma riqueza e diversidade inusitadas, ademais tendo em conta que há dois dias o terreno esteve coberto de neve, ainda que de pouca dura. A biodiversidade da vegetação, o solo atapetado de folhas de Quercus, as várias espécies de cogumelos e até o facto de depararmos com uma cobra, em tais condições atmosféricas, não deixou de nos surpreender.

Pedro Cuiça © Paredes do Rio (PNPG, 10 de Novembro de 2019)

Impressionante é também a forte componente humana manifesta nos campos de cultivo e/ou de pastoreio, ladeados por muretes de pedra solta. Vestígios que remontam a épocas pré-históricas e cujo cunho maior surge traduzido nas edificações graníticas da vizinha aldeia ecomuseu. Museu vivo e a céu aberto, pleno de vivências das suas gentes, testemunhas de um património imaterial que surge como expressão máxima da paisagem, tão rija e durável quanto a pedra dura dessas terras barrosãs.  
No dia anterior – sábado (9/11/19) – tive a enorme satisfação de conhecer pessoalmente o Padre Fontes, precisamente na sede do ecomuseu, seu homónimo, sito em Montalegre. Satisfação acrescida tendo em conta que no ano anterior tinha ido propositadamente a Vilar de Perdizes para conhecer o autor da Etnografia Transmontana – Crenças e tradições de Barroso, António Lourenço Fontes, mas em vão, dado que este se encontrava ausente da aldeia. Este, segundo Manuel Barros, professor de antropologia da Universidade do Porto, é “só” «o mais importante etnógrafo português depois do Abade de Baçal». Mais conhecido por ser o mentor do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes e das Sextas-feiras 13 de Montalegre, o Padre Fontes é, todavia, um personagem multifacetado que se transmuta de um desconhecido Marotus a um sacerdote de múltiplos predicados.
A próxima Sexta-feira 13 será em Dezembro e, mais uma vez, o castelo de Montalegre será palco do responso da queimada, proferido pelo Padre Fontes frente a um enorme caldeirão de ferro. Uma oportunidade única de vivenciar velhas tradições, sobretudo para aqueles que buscarem o recolhimento íntimo das vastas paisagens “selvagens” do Barroso, calcorreando-as a pé… Vão e Vejam.

Pedro Cuiça © Plenilúnio (Castelo de Montalegre, 9/11/19)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sir Orfeu

Para andar entre os mundos por vezes é preciso voar...



«Os livros sobre pessoas que se refugiam na natureza para escaparem à dor e ao sofrimento faziam parte de uma história muito mais antiga, tão antiga que a sua forma é tão inconsciente e invisível como respirar. Quando era estudante e queimava as pestanas nos primeiros anos da faculdade, li um longo e belo poema do século XIII, intitulado Sir Orfeo. É de autor anónimo, e eu nunca mais me lembrei da sua existência. (…)
Sir Orfeo é uma nova versão do mito grego do Orfeu e do mundo inferior através de canções celtas tradicionais acerca do outro mundo, o País das Fadas. No mito celta, esse outro mundo não é um mundo das profundezas; está apenas a um passo do nosso. As coisas podem existir nos dois lugares ao mesmo tempo, e podem ser levadas de um para o outro. No poema, Heridice dorme num pomar debaixo de uma árvore de fruto encantada e sonha que, no dia seguinte, vai ser raptada pelo Rei das Fadas. Aterrorizada, conta o sonho ao marido, o rei. Orfeo rodei-a de cavaleiros, mas estes não a conseguem proteger daquela ameaça do outro mundo, e ela desaparece no ar.
Abatido pela dor, Orfeo abdica da coroa e foge para a floresta. Durante dez anos, vive uma existência solitária e selvagem, escavando raízes, comendo folhas e bagas, e tocando a sua harpa para encantar os animais à sua volta. A barba cresce-lhe longa e emaranhada. Vê os grandes grupos de caçadores do Rei das Fadas atravessarem a floresta. Não pode segui-los. Mas, um dia, sessenta senhoras a cavalo com falcões no punho passam por ele, à caça de corvos-marinhos, patos-reais e garças-reais. Enquanto observa os falcões a descerem em voo picado sobre as suas presas, o mundo muda. Ele ri, deliciado, recordando o seu amor pelo desporto – «Por minha fé!», disse ele, «que bela recreação aquela» –, dirige-se às mulheres e vê que uma delas é a sua esposa. Penetrou naquele outro mundo, e agora pode segui-las no seu caminho de volta até ao castelo do Rei das Fadas, um palácio de pessoas que se pensava estarem mortas, mas não estão. E é lá que ele toca harpa para o rei e o convence a libertar a sua mulher. Mas foi o voo das aves de rapina e as mortes que trouxe que o levaram a entrar nesse outro mundo e permitiram que encontrasse a esposa, que havia perdido. E esta capacidade que têm as aves de presa de atravessar fronteiras que os humanos não podem transpor é uma coisa muito mais antiga do que o mito celta, mais antiga do que Orfeu, pois, nas antigas tradições xamânicas por toda a Eurásia, as aves de rapina eram consideradas mensageiras entre este mundo e o outro
[MACDONALD, 2015: 259-260]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

De Pila a Larnaca


«When the Turks conquered Cyprus in 1570 they occupied the church, as had done with all the churches possessed by the Latins, until 1589 when the church was given back to the Orthodox christians for 3000 coins. At the same time, the Roman-catholics were allowed to have religious services twice a year, on St.Lazarus’day and on Mary Magdalene’day, in the small chapel adjoining the sanctuary in the north aisle of the church.»
Sofronios G. MICHAELIDES

Pedro Cuiça © Igreja de São Lázaro (Larnaca, 1 de Novembro de 2019)

Pedro Cuiça © Igreja de São Lázaro (Larnaca, 1 de Novembro de 2019)


Pedro Cuiça © Igreja de São Lázaro (Larnaca, 1 de Novembro de 2019)

Fui de Pila até Larnaca em transporte público e regressei em estilo “eco-clássico”: a pé. Teria efectuado ambos os trajectos, de ida e volta, a caminhar não fosse a necessidade de gerir o tempo de modo a cumprir compromissos agendados para hoje. Caminhar é um exercício físico excelente mas relativamente lento, mesmo que se ande depressa, e por isso requer tempo, bastante tempo caso se pretenda palmilhar distâncias consideráveis ou atingir resultados físicos e psicológicos de monta.
Gostaria de visitar a igreja de São Lázaro, situada no centro histórico de Larnaca – a antiga Kition –, e foi o que fiz. Na verdade, tinha interesse em ir ver a cripta, sob essa igreja, onde dizem ter sido sepultado Lázaro, o personagem bíblico que foi ressuscitado por Jesus. E foi nesse contexto que aí fui e vi.
Lázaro, de Betânia, conhecido como “o amigo de Jesus”, após estar morto quatro dias, foi ressuscitado por este. Na verdade, Jesus tinha uma especial estima não só por Lázaro mas também pelas suas irmãs Marta e Maria. Consta que Lázaro, após o episódio da sua ressuscitação dos mortos, terá vindo viver para o Chipre, no ano 33 d.C., devido às perseguições de que era alvo na Judeia. Terá sido ordenado Bispo de Kition, pelos “ditos” apóstolos Paulo e Barnabé, tendo vivido cerca de 30 anos nessa importante cidade cipriota onde foi sepultado por volta do ano 63 d.C.. Os restos mortais do santo foram “descobertos”, pela primeira vez (?), em 890 A.D. (Anno Domini), mais de oito séculos depois da sua segunda morte, num sarcófago com a conveniente inscrição: «Lázaro, morto por quatro dias e amigo de Jesus». Muito haveria para dizer, designadamente sobre as "relíquias" de Lázaro que foram trasladadas de Larnaca para Constantinopla (no séc. IX) e de Constantinopla para Marselha (no séc. XIII), até se ter perdido o seu "rasto", ou sobre a "redescoberta" de parte das originais outra vez em Larnaca (?), mas fiquemos por aqui em dia de Festum Omnium Sanctorum.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Na Pila

«Shadows of a thousand years rise again unseen, Voices whisper in the trees, Tonight is Halloween!»
Dexter Kozen

««Houve uma frase que, de súbito, me incendiou a mente», escreveu [Terence Hanbury White]. Essa frase era a seguinte: «Regressou ao estado selvagem.» Nesse momento, fui assaltado pelo anseio de que o mesmo se passasse comigo. A palavra «selvagem» encerrava uma espécie de poder mágico que se aliou com duas outras palavras – «feroz» e «livre». Por trás da ressonância grandiosa de «ferox» alinhavam-se «sobrenatural» e «mágico», «etéreo» (…). Regressar ao estado selvagem


«(…) a morte era visceral e omnipresente, delimitada por formalidades cerimoniais. Quando, havia tantos anos, observava esses homens com açores a meterem faisões mortos no bornal, via uma desenvoltura que sugeria séculos de privilégios sociais e confiança desportiva.
E o vocabulário que aprendera nos livros distanciava-me da morte. As aves de rapina treinadas não apanhavam animais. Apanhavam presas. Apanhavam caça. Que termo extraordinário. Caça
Helen MACDONALD (2014: 185)


Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

O contraste entre a leitura que me acompanha, na viagem que estou a empreender, – A de Açor – e a região onde me encontro por estes dias é não só notório como gritante. Apesar de ter a plena consciência dessas percepções não serem, de todo, audíveis e das visualizações surgirem sob um cunho eminentemente pessoal e introspectivo, ademais de um certo ânimo sorumbático que não estará alheio a este dia de antepassados (defuntos!) ou vésperas do mesmo, estas – as percepções, reitere-se – não deixam de ser significativas. De resto, as pessoas com que me cruzo estão (ou assim parecem estar) manifestamente “noutra onda”.
Na verdade, poder-se-á afirmar, que essas percepções focam-se essencialmente na camada superficial, e mais evidente, do “real” mas não ignoram uma realidade muitíssimo mais antiga, ancestral, quase diria perene. Por debaixo do verniz pretensamente sofisticado do urbanismo kitsch e de outras banalidades turísticas encontram-se invariavelmente os alicerces profundos do locus: a terra, na sua significação alargada e holística, mas, também, na sua concepção concreta, terra-a-terra: a poeira de onde viemos e para onde vamos. Sob a actual gula dos anfitriões e dos comensais encobre-se a voragem dos seus antepassados pré-históricos que, à semelhança das aves de rapina, se empanturravam naturalmente; a diferença é que os humanos agora o fazem diariamente e antes o faziam para passar dias sem comida. Os exemplos da convivência simultânea de mundos diversos são inúmeros, tal como da sua interligação e/ou sucessão…
No percurso matinal que me levou até à Pila não vislumbrei aves de presa mas fui acolhido, pouco depois de começar, por dois corvos. Aqui, hoje, na caminhada até esse vilarejo, as rapinas seriam outras, pressentidas atrás da linha limítrofe da zona de tampão das Nações Unidas, que separa a República do Chipre da Turquia. Pila é dos mais antigos povoados do Chipre (remonta à Idade do Bronze) e o único onde coexistem os habitantes originais: gregos e turcos cipriotas. Conta com três igrejas e uma mesquita, sendo igualmente de destacar a existência de uma torre medieval. O curioso nome “Pila”, de origem grega (πύλη), significa “entrada”: provavelmente por constituir a única passagem para a planície de Mesaoria.
A breve caminhada em solitário, de cerca de três horas, acabou mais ou menos como se iniciou, num contexto surreal (sub-real), naquilo que é conhecido internacionalmente como a zona turística de Pila: uma espécie de Algarve cipriota fortemente descaracterizado. Aves de rapina “nem vê-las”, tal como floresta ou até coberto vegetal digno desse nome. Depois de milhares de anos de ocupação humana o que seria de esperar?! Mas surgem poderosas litologias e um mar que dispensa palavras, uma intensa e tocante luminosidade, o ar e indizíveis energias…
A Natureza Selvagem continua imponente e peremptória mesmo que aparentemente velada sob uma mistura de cenários de parques de diversões, zonas comerciais, habitacionais e industriais, ou esquecida em detrimento de realidades virtuais e tecnologias que já ultrapassaram a ficção científica! A Natureza Selvagem é a essência do tecido cósmico ou, por outras palavras, da matriz (matrix), daquilo que alguns também chamam “este mundo”. E é precisamente neste limiar da Roda do Ano, chamado “Samhaim” (“Halloween” ou outras denominações), que – segundo as velhas tradições – supostamente se proporciona a ligação entre os mundos, dos vivos e dos mortos, do Natural e do Sobrenatural.
A morte é tão ou mais naturalmente selvagem quanto a vida pode ser. Brutal, mesmo. É nestas poucas noites-portal que os sentidos se abrem e apuram a esse mistério tremendo. Descobrir-nos imóveis na escuridão, completamente absortos, à escuta. E, porém, não haver nenhum som, apenas um silêncio de morte… 

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)

Pedro Cuiça © Pila (Chipre, 31 de Outubro de 2019)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6

terça-feira, 29 de outubro de 2019

PAL-A(n)DARES II


O pal-a(n)dar do coração da maçã…


«O caminho da Serpente está fora das ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de Deus.»
Fernando Pessoa

«Deus escreve direito por linhas tortas» e certamente curvas por linhas rectas, por isso é que também (co)existirão liberdades (até curvilíneas) nos mundos!…

Lima de Freitas © Pessoa e "O caminho da serpente" (1995)

«(…) a sinuosidade com que caminhamos embriagados é também uma descoberta. Essa sinuosidade é semelhante ao passeio e não à funcionalidade. As rectas são a absoluta simplicidade e a simplicidade faria que, por exemplo, boa parte da literatura não existisse. Para quê embelezar uma frase quando podemos dizer o mesmo de modo sintético e objectivo? A ambiguidade e a decoração são um estorvo.
A elegância como sinónimo de simplicidade é muito pouco inteligente, a elegância é uma beleza simples, mas nem toda a simplicidade é elegante. Um bruto é simples e não é elegante. É evidente que a beleza pode ser simples, mas não podemos dizer que um tapete liso, de ráfia, é mais bonito do que um tapete persa simplesmente porque a simplicidade do primeiro é mais evidente do que a do segundo. Provavelmente ninguém acha que uma catedral sem ornamentos é mais bela do que as profusamente decoradas. Nesse sentido, Mondrian seria muito melhor do que Seurat ou Rembrandt ou Klimt. E Malevitch muito mais elegante do que Mondrian. Achar que a simplicidade é esteticamente superior à complexidade é um absurdo, mas é isso que acontece quando se prefere a simplicidade (porque é uma das características da elegância) e se considera a clareza e a objectividade virtudes acima da ambiguidade e da alusão. Creio que a silhueta geométrica de um prédio não é mais bela ou interessante do que a silhueta de uma árvore. A primeira é simples e sintética e pode ser desenhada com um rectângulo, a outra compreende a confusão de ramos e folhas num padrão único. A simplicidade pode ser bela, mas a complexidade também. Favorecer uma forma de beleza em detrimento de outra é efectivamente uma simplicidade, e, neste sentido, a simplicidade é sinónimo de limitação. Não de apuro estético ou elegância, mas da incapacidade para apreciar a complexidade no que ela pode ter de belo. É uma forma de recusar uma parte fundamental da realidade.
O andar sinuoso é muitas vezes a decoração do acto de caminhar, é um caminhar adornado. Podemos dirigir-nos convictamente para o nosso objectivo (que também terá a sua beleza, na eficácia, na precisão), mas, se queremos que esse caminho seja feito com alguma diversidade e surpresa, então vamos ter de acrescentar alguma coisa à monotonia fria da recta e ao utilitarismo, vamos ter de acrescentar algumas voltas inesperadas, o insólito, a sensualidade, as curvas e contracurvas. O andar do Bêbedo é uma bela parábola para descrever uma vida em que mantemos uma certa direcção, mas não abdicamos de umas voltas para condimentar a austeridade seca e ascética da linha recta. É evidente que a linha recta tem os seus méritos, mas as curvas também. Caberá a cada um de nós saber quando deve correr, dançar ou cambalear.»
[CRUZ, 2019: 51-53]

«Segundo uma longa tradição do pensamento, instigada por Platão, a racionalidade é o que distingue a excelência humana. Mas tal só vem reiterar a ideia de que a excelência também está relacionada com a forma de vida animal. A excelência para uma chita consiste em ser veloz, porque a velocidade é aquilo em que as chitas se especializam. A excelência para um lobo consiste, entre outras coisas, numa espécie de endurance que lhe permite correr durante vinte quilómetros atrás de uma presa. O que é excelente depende daquilo que somos.
A racionalidade é melhor do que a velocidade e do que a endurance – somos tentados, talvez de uma forma irresistível, a dizê-lo. Mas como é que podemos justificar isso, em que bases? Não existe nenhum sentido objectivo de “melhor” que nos permita dizer isso. Visto isto, a palavra “melhor” perde o sentido. Simplesmente, há o que é melhor para o homem e o que é melhor para o lobo. Não existe um padrão comum que permita avaliar os diferentes sentidos de melhor.
Nós seres humanos, não conseguimos perceber isso, porque é sempre muito difícil sermos objectivos em relação a nós próprios. Eu próprio não consigo afugentar a sensação de que me está a falhar alguma coisa. Portanto, vamos a um exercício de objectividade. Os filósofos medievais usaram uma frase que acho linda e importante: sub specie aeternitatis – sob o olhar da eternidade. Sob o olhar da eternidade, vemo-nos como mais um ponto entre muitos na vasta escuridão estrelada do universo. Sob o olhar da eternidade, os seres humanos são apenas mais uma espécie entre outras – uma espécie que não anda cá há muito tempo e, ao que tudo indica, também não irá ficar por cá por muito mais tempo. Em que é que a minha capacidade de trabalhar problemas conceptuais complexos pode interessar aos olhos da eternidade?
(…)
Havia, obviamente, uma espécie de beleza que eu jamais poderia emular. O lobo é arte na sua expressão suprema e é impossível estarmos na sua presença sem sentirmos esta elevação de espírito. (…) Sobretudo, é difícil estar ao lado de tamanha beleza sem se desejar ser como ela.
Mas se a arte do lobo era algo que eu não conseguiria imitar, tê-la sempre em mente era outra coisa: podia ao menos tentar aproximar-me dessa força. O primata que sou é uma criatura torta e desajeitada que vive no meio da fraqueza com que, em última análise, está infectado. É essa fraqueza que permite à maldade – a maldade moral – pôr pé firme no mundo. A arte do lobo fundamenta-se na sua força.
[ROWLANDS, 2009: 108-109]




«Conspirar e enganar são a base do tipo de inteligência social dos primatas e dos símios. Por qualquer motivo, os lobos nunca enveredaram por esse caminho. (…) Ninguém consegue compreender porque é que os primatas adoptaram esta estratégia e os lobos não. Mas mesmo que não saibamos por que razão isso aconteceu, uma coisa é completamente certa: aconteceu.
Esta forma de inteligência, obviamente, atinge o seu máximo no rei dos primatas: o Homo sapiens. Quando falamos na inteligência superior dos primatas, na superioridade da inteligência símia em relação à inteligência lupina, não nos devemos esquecer dos termos desta comparação: os primatas são mais inteligentes do que os lobos porque, em última análise, são melhores a conspirar e a enganar do que os lobos. É a partir daí que decorre a diferença entre símios e lobos.
(…) A nossa complexidade, sofisticação, arte, cultura, ciência, as nossas verdades – a nossa, como gostamos de acreditar, grandeza: tudo isto foi comprado, e a moeda foi a conspiração e a fraude. A maquinação e a falsidade estão no cerne da nossa inteligência superior, como as lagartas se aninham no coração da maçã
[ROWLANDS, 2009: 68-70]

Pedro Cuiça © Templo da Sagrada Família (Barcelona - Catalunha, 12 de Agosto de 2019)

A simplicidade surge como sinónimo de elegância. E esta é de uma beleza simples mas não simplória. E é manifesto que a beleza se encontra na singeleza e no minimalismo, sem, contudo, estar arredada da complexidade. Uma catedral sem adornos poderá ser mais bela do que uma profusamente ornamentada e o contrário também se verifica. A realidade é policromática e não a preto e branco, sendo a paradoxal convivência de (aparentes ou concretos) contrários não só possível como desejável.
Os caminhos serpentiformes, sinuosos, com voltas inopinadas, com curvas e contracurvas, com íngremes subidas e vertiginosas descidas, com pisos irregulares e até instáveis, fazem parte da vida e devem ser encarados com resoluto ânimo. Caberá a cada um de nós saber enfrentar os momentos que se nos deparem, saber cambalear, dançar, escalar, correr, caminhar, parar ou retomar a marcha. Estar sempre pronto, mormente a retomar a marcha. O Homo, tal como os lobos, possui uma capacidade inusitada de endurance, mas também é versado noutras artes. Quem, na verdade, veste a pele de ovelha não é o lobo mas sim o macaco bípede. Conspirar e enganar são características dos primatas e os lobos nunca evidenciaram predileção pelos caminhos tortuosos do Trickster.
Quem é apreciador do ar rarefeito e da intensa luminosidade das altitudes e/ou de pitorescas paragens selvagens, longe de civilizadas turbas ruidosas, prefere certamente o aurífero silêncio, a linguagem dos pássaros ou até algum parlar ou cantar onomatopaico ao invés de discursos pomposos ou melífluos... É evidente que as curvas têm os seus méritos, mas a recta também. E, nessa matéria, nunca é tarde de mais para rectificar o caminho, ornando-o de sabedoria, beleza e força; nem que para isso seja necessário comer a maçã, silvestre ou domesticada, e até o bicho que nela se aninha.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CRUZ, Afonso. O macaco bêbedo foi à opera – Da embriaguez à civilização. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019, pp. 80. ISBN 978-989-8943-58-3
ROWLANDS, Mark. O filósofo e o lobo. Alfragide: Lua de Papel, 2009, pp. 232. ISBN 978-989-23-0590-5

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

PAL-A(n)DARES

«Devem comer-se ao vento.»
Henry-David Thoreau

Pedro Cuiça © Baden-Württemberg (Alemanha, 19 de Outubro de 2019)

Finalmente a chuva e, com ela, os aumentados aromas campestres, designadamente as saudosas emanações odoríficas dos fungos outonais. A frescura do ar aguado, a intensificação das brilhantes cores molhadas, as diversas matizes gradativas de amarelos a castanhos, os caminhos cobertos de folhagem,… É por estes dias cinzentos e noites longas que se proporcionam caminhadas a cadências elevadas, fortes pensamentos e renovados sentidos do gosto: pal-a(n)dares?!

Pedro Cuiça © Baden-Württemberg (Alemanha, 19 de Outubro de 2019)


«Para apreciar o travo selvagem e penetrante destes frutos de Outubro é necessário respirar o ar cáustico de Outubro ou de Novembro. O ar livre e o exercício de que o caminhante desfruta conferem uma intensidade diferente ao paladar, e ele anseia por um fruto a que um indivíduo sedentário chamaria desagradável e azedo. As maçãs devem ser comidas nos campos, quando o exercício nos estimula o organismo, quando o ar gelado nos morde os dedos, o vento agita os ramos nus e faz restolhar as poucas folhas que ainda restam, e os gritos dos gaios em redor se fazem ouvir. O passeio torna doce o que em casa parece azedo. Algumas destas maçãs podiam ter uma etiqueta a indicar: «Devem comer-se ao vento.»»
[THOREAU, 2016: 61]

Algures na Net © Macieira-brava (Malus sylvestris)

«Só nos campos é possível apreciar os travos azedos e amargos da Natureza; tal como, num dia de Inverno, o lenhador toma a sua refeição numa clareira ensolarada, e, satisfeito, desfruta de um raio de Sol enquanto sonha com o Verão no meio de um frio tal que, no interior de um quarto, faria um estudante sentir-se desesperado. Aqueles que trabalham ao ar livre não têm frio, embora sejam eles que ficam sentados dentro de casa a tiritar. O que se passa com a temperatura verifica-se com os sabores; o que sucede com o frio e com o calor sucede também com o azedo e o doce. Este travo intenso natural, os azedos e amargos que o paladar enfermo recusa, são os verdadeiros condimentos.
Deixemos os nossos condimentos coadunarem-se com os nossos sentidos. Para apreciar o sabor destas maçãs silvestres é indispensável que os nossos sentidos sejam vigorosos e saudáveis, ter papilas firmes e erectas na língua e no palato, que não se tornem facilmente enfraquecidas e domesticadas.
A minha experiência com as maçãs silvestres permite-me compreender por que motivo o selvagem prefere muitos tipos de alimentos que o homem civilizado rejeita. O primeiro tem o paladar de alguém que vive ar livre. É preciso ter um paladar selvagem para apreciar um fruto selvagem.»
[THOREAU, 2016: 63-64]

Algures na Net © azeitonas de Zambujeiro (Olea europaea sylvestris)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Maçãs Silvestres & Cores de Outono. Lisboa: Antígona, 2016, pp. 168. ISBN 978-972-608-281-1



Pedro Cuiça © Amanita muscaria 
(Serra da Estrela, 8 de Setembro de 2019)



RAMBLE ON

Leaves are falling all around
It's time I was on my way
Thanks to you I'm much obliged
For such a pleasant stay
But now it's time for me to go
The autumn moon lights my way
For now I smell the rain
And with it pain
And it's headed my way
Ah, sometimes I grow so tired
But I know I've got one thing I got to do
Ramble on
And now's the time, the time is now
To sing my song
I'm goin' 'round the world, I got to find my girl
On my way
I've been this way ten years to the day
Ramble on
Gotta find the queen of all my dreams
Got no time for spreadin' roots
The time has come to be gone
And thoough our health we drank a thousand times
It's time to ramble on
Ramble on
And now's the time, the time is now
To sing my song
I'm going 'round the world, I got to find my girl
On my way
I've been this way ten years to the day
I gotta ramble on
I gotta find the queen of all my dreams
I ain't tellin' no lie
Mine's a tale that can't be told
My freedom I hold dear
How years ago in days of old
When magic filled the air
'T was in the darkest depths of Mordor
I met a girl so fair
But Gollum, and the evil one
Crept up and slipped away with her
Her, her, yeah
Ain't nothing I can do, no
I guess I keep on rambling
I'm gonna, yeah, yeah, yeah
Sing my song (I gotta find my baby)
I gotta ramble on, sing my song
Gotta work my way around the world baby, baby
Ramble on, yeah
Doo, doo, doo, doo, doo, my baby
Doo, doo, doo, doo
Doodoo doodoo doodoo doodoo doodoo
I gotta keep searching for my baby
(Baby, baby, baby, baby, baby, baby)
I gotta keep-a-searchin' for my baby
(My, my, my, my, my, my, my baby)
Yeah yeah, yeah yeah, yeah yeah yeah
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah yeah
I can't find my bluebird
I listen to my bluebird sing
I can't find my bluebird
I keep rambling, baby
I keep rambling, baby


Jimmy Page / Robert Plant (Led Zeppelin, 1969)



terça-feira, 22 de outubro de 2019

Walk Leader ERA


Pedro Cuiça © pins Walk Leader ERA-EWV-FERP (20 de Outubro de 2019)

A ERA (European Ramblers Association) – a Federação Europeia de Pedestrianismo – reconheceu, no passado sábado (dia 20 de Outubro), o modelo de formação do Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), no âmbito da liderança e condução de grupos em actividades de Pedestrianismo, tendo-lhe atribuído a certificação Walk Leader ERA-EWV-FERP. Essa importante certificação foi duplamente gratificante não só por atestar a qualidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, por parte do Centro de Formação da FCMP, mas também pela sua entrega formal ter coincidido com a Assembleia-Geral que decorreu em Bad Urach (Alemanha), na qual se comemoraram os 50 anos dessa federação europeia.
A certificação em causa atesta que a formação ministrada pela FCMP cumpre os requisitos mínimos do plano de formação de “líderes de caminhada” estabelecidos pela ERA. Na verdade, o modelo apresentado pela FCMP não só iguala os requisitos em algumas das unidades curriculares (UC) lecionadas como suplanta os mesmos na maior parte das UC da estrutura formativa da ERA, quer em termos de cargas horárias, quer no que concerne à diversidade e à profundidade das temáticas abordadas.
Tendo em conta a legislação em vigor em Portugal, os “líderes/guias de Pedestrianismo” das Filiadas da FCMP têm de possuir o Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD) de Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III –, independentemente de exercerem a actividade de forma benévola ou profissional. Agora também são reconhecidos, a nível europeu, como Walk Leaders ERA, voluntários, e, por isso, terão direito a utilizar o respectivo pin identificativo ou outros suportes/materiais federativos que contenham esse logótipo.
A marca Walk Leader ERA atesta os padrões de qualidade das formações ministradas nos diversos países certificados, a nível pan-europeu, com base nos requisitos definidos pelo grupo de trabalho de formação e aprovados pelo presidium dessa federação europeia. O trabalho que foi desenvolvido ao longo de diversos anos contou, desde o seu início, com o contributo de Portugal, que participou desde logo na redacção da Declaração de Marcoussis (2005): o primeiro passo que deu origem à criação do grupo de trabalho de formação e à posterior definição do modelo Walk Leader ERA.
Tive o grato prazer e o privilégio de receber o certificado Walk Leader, para Portugal, das mãos do Presidente da ERA, Boris Mićić, mormente quando, tendo participado na elaboração da Declaração de Marcoussis e feito parte do referido grupo de trabalho, vi(vi), desta forma, o fechar deste ciclo com chave-de-ouro, ademais no momento em que se comemorou meio século de existência da ERA.

Rúben Jordão © entrega do certificado Walk Leader  (Bad Urach - Alemanha, 20 de Outubro de 2019)


NOTA:
A redacção da Declaração de Marcoussis foi efectuada no âmbito de uma conferência europeia, organizada pela Fédération Française de la Randonnée Pédestre (FFRP), sob a égide da ERA, acerca da "Formação, enquadramento e segurança na prática", que se realizou, de 25 a 29 de Maio de 2005, no Centro Nacional de Rugby situado na localidade francesa homónima. A Declaração de Marcoussis foi formalmente aprovada, no dia 24 de Setembro de 2005, na Assembleia-Geral da ERA que decorreu em Elspeet (Holanda).