«O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção. É mais do que uma ilha – é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo (…).»
Raúl Brandão inAs Ilhas Desconhecidas (1926)
No próximo mês de Maio vamos regressar à Ilha Montanha para mais
uma intensa, e certamente enriquecedora, aventura. Percorrer, pé-ante-pé, alguns
dos mais belos caminhos pedestres dos Açores, através das contrastantes
paisagens de lavas negras e bagacinas sépias, das diversas tonalidades da floresta
sempre verde e do forte azul profundo do oceano circundante. Conhecer a
história, a arquitectura tradicional e a gastronomia picarotas. Atingir o topo do
Piquinho, que culmina a mais alta montanha de Portugal (2351 m), num dia
invariavelmente marcante e pleno de vivências. Numa organização com a excelência
e a qualidade Naturthoughts, com guias de montanha devidamente titulados.
«Mas isto são as crenças e as tradições do meu povo. As
mezinhas, os responsos, o diabo. Negar as nossas tradições – o nosso paganismo,
até – seria minorar uma cultura riquíssima, que para mais se está a perder.»
No passado domingo tive o grato privilégio de empreender
uma caminhada altamente estimulante na região de Barroso, mais precisamente na
envolvente da aldeia de Paredes do Rio. Estimulante pelo excepcional telurismo e
pela frescura dessas paragens, sensação acentuada pelo vento e pela chuva persistentes,
mas também pela companhia de um conjunto de velhos companheiros de andanças
pedestres.
A geomorfologia de Barroso insinuou-se timidamente, numa
acinzentada e nevoenta paisagem contrastante, com ásperas montanhas a fechar o
horizonte a norte e alinhamentos de arredondadas elevações a sul, pontilhadas de aerogeradores! As terras
agrestes do Parque Nacional da Peneda-Gerês, que por estas bandas se estendem para
além da aldeia de Pitões das Júnias e da alva capela de São João da Fraga, mal
se vislumbraram, encobertas por esse tempo anunciador da invernia que se
avizinha.
As vastas panorâmicas estiveram encobertas mas a paisagem a
curta distância (diria mesmo “macro”) revelou uma riqueza e diversidade inusitadas,
ademais tendo em conta que há dois dias o terreno esteve coberto de neve, ainda
que de pouca dura. A biodiversidade da vegetação, o solo atapetado de folhas de Quercus,
as várias espécies de cogumelos e até o facto de depararmos com uma cobra, em
tais condições atmosféricas, não deixou de nos surpreender.
Impressionante é também a forte componente humana manifesta
nos campos de cultivo e/ou de pastoreio, ladeados por muretes de pedra solta.
Vestígios que remontam a épocas pré-históricas e cujo cunho maior surge traduzido
nas edificações graníticas da vizinha aldeia ecomuseu. Museu vivo e a céu
aberto, pleno de vivências das suas gentes, testemunhas de um património
imaterial que surge como expressão máxima da paisagem, tão rija e durável quanto a pedra dura dessas terras barrosãs.
No dia anterior – sábado (9/11/19) – tive a enorme
satisfação de conhecer pessoalmente o Padre Fontes, precisamente na sede do
ecomuseu, seu homónimo, sito em Montalegre. Satisfação acrescida tendo em conta
que no ano anterior tinha ido propositadamente a Vilar de Perdizes para
conhecer o autor da Etnografia Transmontana – Crenças e tradições de Barroso,
António Lourenço Fontes, mas em vão, dado que este se encontrava ausente da
aldeia. Este, segundo Manuel Barros, professor de antropologia da Universidade
do Porto, é “só” «o mais importante etnógrafo português depois do Abade de
Baçal». Mais conhecido por ser o mentor do Congresso de Medicina Popular de
Vilar de Perdizes e das Sextas-feiras 13 de Montalegre, o Padre Fontes é,
todavia, um personagem multifacetado que se transmuta de um desconhecido Marotus
a um sacerdote de múltiplos predicados.
A próxima Sexta-feira 13 será em Dezembro e, mais uma vez, o
castelo de Montalegre será palco do responso da queimada, proferido pelo Padre
Fontes frente a um enorme caldeirão de ferro. Uma oportunidade única de
vivenciar velhas tradições, sobretudo para aqueles que buscarem o recolhimento íntimo das
vastas paisagens “selvagens” do Barroso, calcorreando-as a pé… Vão e Vejam.
Para andar entre os mundos por vezes é preciso voar...
«Os livros sobre pessoas que se refugiam na natureza para escaparem à dor e
ao sofrimento faziam parte de uma história muito mais antiga, tão antiga que a
sua forma é tão inconsciente e invisível como respirar. Quando era estudante e
queimava as pestanas nos primeiros anos da faculdade, li um longo e belo poema
do século XIII, intitulado Sir Orfeo. É de autor anónimo, e eu
nunca mais me lembrei da sua existência. (…)
Sir Orfeo é uma nova versão do mito grego do Orfeu e do mundo inferior através
de canções celtas tradicionais acerca do outro mundo, o País das Fadas. No mito
celta, esse outro mundo não é um mundo das profundezas; está apenas a um passo
do nosso. As coisas podem existir nos dois lugares ao mesmo tempo, e podem ser
levadas de um para o outro. No poema, Heridice dorme num pomar debaixo de uma
árvore de fruto encantada e sonha que, no dia seguinte, vai ser raptada pelo
Rei das Fadas. Aterrorizada, conta o sonho ao marido, o rei. Orfeo rodei-a de
cavaleiros, mas estes não a conseguem proteger daquela ameaça do outro mundo, e
ela desaparece no ar.
Abatido pela dor, Orfeo abdica da coroa e foge para a floresta. Durante dez
anos, vive uma existência solitária e selvagem, escavando raízes, comendo
folhas e bagas, e tocando a sua harpa para encantar os animais à sua volta. A
barba cresce-lhe longa e emaranhada. Vê os grandes grupos de caçadores do Rei
das Fadas atravessarem a floresta. Não pode segui-los. Mas, um dia, sessenta senhoras
a cavalo com falcões no punho passam por ele, à caça de corvos-marinhos,
patos-reais e garças-reais. Enquanto observa os falcões a descerem em voo
picado sobre as suas presas, o mundo muda. Ele ri, deliciado, recordando o seu
amor pelo desporto – «Por minha fé!», disse ele, «que bela
recreação aquela» –, dirige-se às mulheres e vê que uma delas é a sua
esposa. Penetrou naquele outro mundo, e agora pode segui-las no seu caminho de
volta até ao castelo do Rei das Fadas, um palácio de pessoas que se pensava
estarem mortas, mas não estão. E é lá que ele toca harpa para o rei e o
convence a libertar a sua mulher. Mas foi o voo das aves de rapina e as mortes
que trouxe que o levaram a entrar nesse outro mundo e permitiram que
encontrasse a esposa, que havia perdido. E esta capacidade que têm as aves de
presa de atravessar fronteiras que os humanos não podem transpor é uma coisa
muito mais antiga do que o mito celta, mais antiga do que Orfeu, pois, nas
antigas tradições xamânicas por toda a Eurásia, as aves de rapina eram
consideradas mensageiras entre este mundo e o outro.»
[MACDONALD, 2015: 259-260]
REFERÊNCIA
BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A
de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6
«When the Turks conquered Cyprus in 1570 they occupied the
church, as had done with all the churches possessed by the Latins, until 1589
when the church was given back to the Orthodox christians for 3000 coins. At
the same time, the Roman-catholics were allowed to have religious services
twice a year, on St.Lazarus’day and on Mary Magdalene’day, in the small
chapel adjoining the sanctuary in the north aisle of the church.»
Fui de Pila até Larnaca em transporte público e regressei em
estilo “eco-clássico”: a pé. Teria efectuado ambos os trajectos, de ida e volta,
a caminhar não fosse a necessidade de gerir o tempo de modo a cumprir compromissos
agendados para hoje. Caminhar é um exercício físico excelente mas relativamente
lento, mesmo que se ande depressa, e por isso requer tempo, bastante tempo caso
se pretenda palmilhar distâncias consideráveis ou atingir resultados físicos e
psicológicos de monta.
Gostaria de visitar a igreja de São Lázaro, situada no
centro histórico de Larnaca – a antiga Kition –, e foi o que fiz. Na verdade, tinha
interesse em ir ver a cripta, sob essa igreja, onde dizem ter sido sepultado Lázaro,
o personagem bíblico que foi ressuscitado por Jesus. E foi nesse contexto que aí
fui e vi.
Lázaro, de Betânia, conhecido como “o amigo de Jesus”, após
estar morto quatro dias, foi ressuscitado por este. Na verdade, Jesus tinha uma
especial estima não só por Lázaro mas também pelas suas irmãs Marta e Maria. Consta
que Lázaro, após o episódio da sua ressuscitação dos mortos, terá vindo viver
para o Chipre, no ano 33 d.C., devido às perseguições de que era alvo na
Judeia. Terá sido ordenado Bispo de Kition, pelos “ditos” apóstolos Paulo e
Barnabé, tendo vivido cerca de 30 anos nessa importante cidade cipriota onde
foi sepultado por volta do ano 63 d.C.. Os restos mortais do santo foram “descobertos”,
pela primeira vez (?), em 890 A.D. (Anno Domini), mais de oito séculos depois
da sua segunda morte, num sarcófago com a conveniente inscrição: «Lázaro, morto
por quatro dias e amigo de Jesus». Muito haveria para dizer, designadamente
sobre as "relíquias" de Lázaro que foram trasladadas de Larnaca para Constantinopla (no séc. IX) e de Constantinopla para Marselha (no séc.
XIII), até se ter perdido o seu "rasto", ou sobre a "redescoberta" de parte das originais outra vez em
Larnaca (?), mas fiquemos por aqui em dia de Festum Omnium Sanctorum.
«Shadows of a thousand years rise again unseen, Voices
whisper in the trees, Tonight is Halloween!»
Dexter Kozen
««Houve uma frase que, de súbito, me
incendiou a mente», escreveu [Terence Hanbury White]. Essa frase era a
seguinte: «Regressou ao estado selvagem.» Nesse momento, fui assaltado
pelo anseio de que o mesmo se passasse comigo. A palavra «selvagem» encerrava
uma espécie de poder mágico que se aliou com duas outras palavras – «feroz» e
«livre». Por trás da ressonância grandiosa de «ferox» alinhavam-se
«sobrenatural» e «mágico», «etéreo» (…). Regressar ao estado selvagem!»
«(…) a morte era visceral e omnipresente, delimitada por
formalidades cerimoniais. Quando, havia tantos anos, observava esses homens com
açores a meterem faisões mortos no bornal, via uma desenvoltura que sugeria
séculos de privilégios sociais e confiança desportiva.
E o vocabulário que aprendera nos livros distanciava-me da
morte. As aves de rapina treinadas não apanhavam animais. Apanhavam presas.
Apanhavam caça. Que termo extraordinário. Caça.»
O contraste entre a leitura que me acompanha, na viagem que
estou a empreender, – A de Açor – e a região onde me encontro por estes
dias é não só notório como gritante. Apesar de ter a plena consciência dessas
percepções não serem, de todo, audíveis e das visualizações surgirem sob um
cunho eminentemente pessoal e introspectivo, ademais de um certo ânimo
sorumbático que não estará alheio a este dia de antepassados (defuntos!) ou
vésperas do mesmo, estas – as percepções, reitere-se – não deixam de ser
significativas. De resto, as pessoas com que me cruzo estão (ou assim parecem
estar) manifestamente “noutra onda”.
Na verdade, poder-se-á afirmar, que essas percepções focam-se
essencialmente na camada superficial, e mais evidente, do “real” mas não
ignoram uma realidade muitíssimo mais antiga, ancestral, quase diria perene.
Por debaixo do verniz pretensamente sofisticado do urbanismo kitsch e de
outras banalidades turísticas encontram-se invariavelmente os alicerces
profundos do locus: a terra, na sua significação alargada e holística,
mas, também, na sua concepção concreta, terra-a-terra: a poeira de onde viemos
e para onde vamos. Sob a actual gula dos anfitriões e dos comensais encobre-se
a voragem dos seus antepassados pré-históricos que, à semelhança das aves de
rapina, se empanturravam naturalmente; a diferença é que os humanos agora o
fazem diariamente e antes o faziam para passar dias sem comida. Os exemplos da
convivência simultânea de mundos diversos são inúmeros, tal como da sua
interligação e/ou sucessão…
No percurso matinal que me levou até à Pila não vislumbrei
aves de presa mas fui acolhido, pouco depois de começar, por dois corvos. Aqui,
hoje, na caminhada até esse vilarejo, as rapinas seriam outras, pressentidas
atrás da linha limítrofe da zona de tampão das Nações Unidas, que separa a
República do Chipre da Turquia. Pila é dos mais antigos povoados do Chipre
(remonta à Idade do Bronze) e o único onde coexistem os habitantes originais: gregos
e turcos cipriotas. Conta com três igrejas e uma mesquita, sendo igualmente de
destacar a existência de uma torre medieval. O curioso nome “Pila”, de origem
grega (πύλη), significa “entrada”: provavelmente por constituir a única
passagem para a planície de Mesaoria.
A breve caminhada em solitário, de cerca de três horas, acabou mais ou menos como se
iniciou, num contexto surreal (sub-real), naquilo que é conhecido
internacionalmente como a zona turística de Pila: uma espécie de Algarve
cipriota fortemente descaracterizado. Aves de rapina “nem vê-las”, tal como
floresta ou até coberto vegetal digno desse nome. Depois de milhares de anos de
ocupação humana o que seria de esperar?! Mas surgem poderosas litologias e um
mar que dispensa palavras, uma intensa e tocante luminosidade, o ar e indizíveis
energias…
A Natureza Selvagem continua imponente e peremptória mesmo
que aparentemente velada sob uma mistura de cenários de parques de diversões,
zonas comerciais, habitacionais e industriais, ou esquecida em detrimento de
realidades virtuais e tecnologias que já ultrapassaram a ficção científica! A
Natureza Selvagem é a essência do tecido cósmico ou, por outras palavras, da
matriz (matrix), daquilo que alguns também chamam “este mundo”. E é precisamente
neste limiar da Roda do Ano, chamado “Samhaim” (“Halloween” ou outras
denominações), que – segundo as velhas tradições – supostamente se proporciona
a ligação entre os mundos, dos vivos e dos mortos, do Natural e do Sobrenatural.
A morte é tão ou mais naturalmente selvagem quanto a vida
pode ser. Brutal, mesmo. É nestas poucas noites-portal que os sentidos se abrem
e apuram a esse mistério tremendo. Descobrir-nos imóveis na escuridão, completamente
absortos, à escuta. E, porém, não haver nenhum som, apenas um silêncio de morte…
«O caminho da Serpente está fora das
ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de
Deus.»
Fernando Pessoa
«Deus escreve direito por linhas tortas» e certamente
curvas por linhas rectas, por isso é que também (co)existirão liberdades (até curvilíneas)
nos mundos!…
«(…) a sinuosidade com que caminhamos embriagados é também
uma descoberta. Essa sinuosidade é semelhante ao passeio e não à
funcionalidade. As rectas são a absoluta simplicidade e a simplicidade faria
que, por exemplo, boa parte da literatura não existisse. Para quê embelezar uma
frase quando podemos dizer o mesmo de modo sintético e objectivo? A ambiguidade
e a decoração são um estorvo.
A elegância como sinónimo de simplicidade é muito pouco
inteligente, a elegância é uma beleza simples, mas nem toda a simplicidade é
elegante. Um bruto é simples e não é elegante. É evidente que a beleza pode ser
simples, mas não podemos dizer que um tapete liso, de ráfia, é mais bonito do
que um tapete persa simplesmente porque a simplicidade do primeiro é mais
evidente do que a do segundo. Provavelmente ninguém acha que uma catedral sem
ornamentos é mais bela do que as profusamente decoradas. Nesse sentido,
Mondrian seria muito melhor do que Seurat ou Rembrandt ou Klimt. E Malevitch
muito mais elegante do que Mondrian. Achar que a simplicidade é esteticamente
superior à complexidade é um absurdo, mas é isso que acontece quando se prefere
a simplicidade (porque é uma das características da elegância) e se considera a
clareza e a objectividade virtudes acima da ambiguidade e da alusão. Creio que
a silhueta geométrica de um prédio não é mais bela ou interessante do que a
silhueta de uma árvore. A primeira é simples e sintética e pode ser desenhada
com um rectângulo, a outra compreende a confusão de ramos e folhas num padrão
único. A simplicidade pode ser bela, mas a complexidade também. Favorecer uma
forma de beleza em detrimento de outra é efectivamente uma simplicidade, e,
neste sentido, a simplicidade é sinónimo de limitação. Não de apuro estético ou
elegância, mas da incapacidade para apreciar a complexidade no que ela pode ter
de belo. É uma forma de recusar uma parte fundamental da realidade.
O andar sinuoso é muitas vezes a decoração do acto de
caminhar, é um caminhar adornado. Podemos dirigir-nos convictamente para o nosso objectivo
(que também terá a sua beleza, na eficácia, na precisão), mas, se queremos que
esse caminho seja feito com alguma diversidade e surpresa, então vamos ter de
acrescentar alguma coisa à monotonia fria da recta e ao utilitarismo, vamos
ter de acrescentar algumas voltas inesperadas, o insólito, a sensualidade, as
curvas e contracurvas. O andar do Bêbedo é uma bela parábola para descrever
uma vida em que mantemos uma certa direcção, mas não abdicamos de umas voltas
para condimentar a austeridade seca e ascética da linha recta. É evidente que a
linha recta tem os seus méritos, mas as curvas também. Caberá a cada um de nós
saber quando deve correr, dançar ou cambalear.»
«Segundo uma longa tradição do pensamento, instigada por
Platão, a racionalidade é o que distingue a excelência humana. Mas tal só vem
reiterar a ideia de que a excelência também está relacionada com a forma de
vida animal. A excelência para uma chita consiste em ser veloz, porque a
velocidade é aquilo em que as chitas se especializam. A excelência para um lobo
consiste, entre outras coisas, numa espécie de endurance que lhe permite
correr durante vinte quilómetros atrás de uma presa. O que é excelente depende
daquilo que somos.
A racionalidade é melhor do que a velocidade e do que a endurance
– somos tentados, talvez de uma forma irresistível, a dizê-lo. Mas como é que
podemos justificar isso, em que bases? Não existe nenhum sentido objectivo de “melhor”
que nos permita dizer isso. Visto isto, a palavra “melhor” perde o sentido.
Simplesmente, há o que é melhor para o homem e o que é melhor para o lobo. Não
existe um padrão comum que permita avaliar os diferentes sentidos de melhor.
Nós seres humanos, não conseguimos perceber isso, porque é
sempre muito difícil sermos objectivos em relação a nós próprios. Eu próprio
não consigo afugentar a sensação de que me está a falhar alguma coisa. Portanto,
vamos a um exercício de objectividade. Os filósofos medievais usaram uma frase
que acho linda e importante: sub specie aeternitatis – sob o
olhar da eternidade. Sob o olhar da eternidade, vemo-nos como mais um ponto entre
muitos na vasta escuridão estrelada do universo. Sob o olhar da eternidade, os
seres humanos são apenas mais uma espécie entre outras – uma espécie que não
anda cá há muito tempo e, ao que tudo indica, também não irá ficar por cá por
muito mais tempo. Em que é que a minha capacidade de trabalhar problemas
conceptuais complexos pode interessar aos olhos da eternidade?
(…)
Havia, obviamente, uma espécie de beleza que eu jamais
poderia emular. O lobo é arte na sua expressão suprema e é impossível estarmos
na sua presença sem sentirmos esta elevação de espírito. (…) Sobretudo, é
difícil estar ao lado de tamanha beleza sem se desejar ser como ela.
Mas se a arte do lobo era algo que eu não conseguiria imitar,
tê-la sempre em mente era outra coisa: podia ao menos tentar aproximar-me dessa
força. O primata que sou é uma criatura torta e desajeitada que vive no meio da
fraqueza com que, em última análise, está infectado. É essa fraqueza que
permite à maldade – a maldade moral – pôr pé firme no mundo. A arte do lobo
fundamenta-se na sua força.
[ROWLANDS, 2009: 108-109]
«Conspirar e enganar são a base do tipo de inteligência
social dos primatas e dos símios. Por qualquer motivo, os lobos nunca
enveredaram por esse caminho. (…) Ninguém consegue compreender porque é que os
primatas adoptaram esta estratégia e os lobos não. Mas mesmo que não saibamos
por que razão isso aconteceu, uma coisa é completamente certa: aconteceu.
Esta forma de inteligência, obviamente, atinge o seu máximo
no rei dos primatas: o Homo sapiens. Quando falamos na inteligência
superior dos primatas, na superioridade da inteligência símia em relação à
inteligência lupina, não nos devemos esquecer dos termos desta comparação: os
primatas são mais inteligentes do que os lobos porque, em última análise, são
melhores a conspirar e a enganar do que os lobos. É a partir daí que decorre a
diferença entre símios e lobos.
(…) A nossa complexidade, sofisticação, arte, cultura,
ciência, as nossas verdades – a nossa, como gostamos de acreditar, grandeza:
tudo isto foi comprado, e a moeda foi a conspiração e a fraude. A maquinação e
a falsidade estão no cerne da nossa inteligência superior, como as lagartas se
aninham no coração da maçã.»
A simplicidade surge como sinónimo de elegância. E esta é
de uma beleza simples mas não simplória. E é manifesto que a beleza se encontra
na singeleza e no minimalismo, sem, contudo, estar arredada da
complexidade. Uma catedral sem adornos poderá ser mais bela do que
uma profusamente ornamentada e o contrário também se verifica. A realidade é
policromática e não a preto e branco, sendo a paradoxal convivência de (aparentes ou concretos) contrários não só possível como desejável.
Os caminhos serpentiformes, sinuosos, com voltas
inopinadas, com curvas e contracurvas, com íngremes subidas e vertiginosas
descidas, com pisos irregulares e até instáveis, fazem parte da vida e devem
ser encarados com resoluto ânimo. Caberá a cada um de nós saber enfrentar os momentos que se nos deparem, saber cambalear, dançar, escalar, correr, caminhar, parar ou retomar a
marcha. Estar sempre pronto, mormente a retomar a marcha. O Homo, tal
como os lobos, possui uma capacidade inusitada de endurance, mas também
é versado noutras artes. Quem, na verdade, veste a pele de ovelha não é o lobo
mas sim o macaco bípede. Conspirar e enganar são características dos primatas e
os lobos nunca evidenciaram predileção pelos caminhos tortuosos do Trickster.
Quem é apreciador do ar rarefeito e da intensa luminosidade
das altitudes e/ou de pitorescas paragens selvagens, longe de civilizadas turbas
ruidosas, prefere certamente o aurífero silêncio, a linguagem dos pássaros ou
até algum parlar ou cantar onomatopaico ao invés de discursos pomposos ou melífluos... É evidente
que as curvas têm os seus méritos, mas a recta também. E, nessa matéria, nunca
é tarde de mais para rectificar o caminho, ornando-o de sabedoria, beleza e força; nem que
para isso seja necessário comer a maçã, silvestre ou domesticada, e até o bicho que nela se
aninha.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CRUZ, Afonso. O macaco bêbedo foi à opera – Da embriaguez
à civilização. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019, pp.
80. ISBN 978-989-8943-58-3
ROWLANDS, Mark. O filósofo e o lobo. Alfragide: Lua
de Papel, 2009, pp. 232. ISBN 978-989-23-0590-5
Finalmente a chuva e, com ela, os aumentados aromas campestres,
designadamente as saudosas emanações odoríficas dos fungos outonais. A frescura
do ar aguado, a intensificação das brilhantes cores molhadas, as diversas matizes gradativas
de amarelos a castanhos, os caminhos cobertos de folhagem,… É por estes dias
cinzentos e noites longas que se proporcionam caminhadas a cadências elevadas,
fortes pensamentos e renovados sentidos do gosto: pal-a(n)dares?!
«Para apreciar o travo selvagem e penetrante destes frutos de
Outubro é necessário respirar o ar cáustico de Outubro ou de Novembro. O ar
livre e o exercício de que o caminhante desfruta conferem uma intensidade
diferente ao paladar, e ele anseia por um fruto a que um indivíduo sedentário
chamaria desagradável e azedo. As maçãs devem ser comidas nos campos,
quando o exercício nos estimula o organismo, quando o ar gelado nos morde os
dedos, o vento agita os ramos nus e faz restolhar as poucas folhas que ainda
restam, e os gritos dos gaios em redor se fazem ouvir. O passeio torna doce o
que em casa parece azedo. Algumas destas maçãs podiam ter uma etiqueta a
indicar: «Devem comer-se ao vento.»»
«Só nos campos é possível apreciar os travos azedos e amargos da
Natureza; tal como, num dia de Inverno, o lenhador toma a sua refeição numa
clareira ensolarada, e, satisfeito, desfruta de um raio de Sol enquanto sonha
com o Verão no meio de um frio tal que, no interior de um quarto, faria um
estudante sentir-se desesperado. Aqueles que trabalham ao ar livre não têm
frio, embora sejam eles que ficam sentados dentro de casa a tiritar. O que se
passa com a temperatura verifica-se com os sabores; o que sucede com o frio e
com o calor sucede também com o azedo e o doce. Este travo intenso natural, os
azedos e amargos que o paladar enfermo recusa, são os verdadeiros condimentos.
Deixemos os nossos condimentos coadunarem-se com os nossos
sentidos. Para apreciar o sabor destas maçãs silvestres é indispensável que os
nossos sentidos sejam vigorosos e saudáveis, ter papilas firmes e erectas na
língua e no palato, que não se tornem facilmente enfraquecidas e domesticadas.
A minha experiência com as maçãs silvestres permite-me compreender
por que motivo o selvagem prefere muitos tipos de alimentos que o homem
civilizado rejeita. O primeiro tem o paladar de alguém que vive ar livre. É
preciso ter um paladar selvagem para apreciar um fruto selvagem.»
Leaves are falling all around
It's time I was on my way
Thanks to you I'm much obliged
For such a pleasant stay
But now it's time for me to go
The autumn moon lights my way
For now I smell the rain
And with it pain
And it's headed my way
Ah, sometimes I grow so tired
But I know I've got one thing I got to do
Ramble on
And now's the time, the time is now
To sing my song
I'm goin' 'round the world, I got to find my girl
On my way
I've been this way ten years to the day
Ramble on
Gotta find the queen of all my dreams
Got no time for spreadin' roots
The time has come to be gone
And thoough our health we drank a thousand times
It's time to ramble on
Ramble on
And now's the time, the time is now
To sing my song
I'm going 'round the world, I got to find my girl
On my way
I've been this way ten years to the day
I gotta ramble on
I gotta find the queen of all my dreams
I ain't tellin' no lie
Mine's a tale that can't be told
My freedom I hold dear
How years ago in days of old
When magic filled the air
'T was in the darkest depths of Mordor
I met a girl so fair
But Gollum, and the evil one
Crept up and slipped away with her
Her, her, yeah
Ain't nothing I can do, no
I guess I keep on rambling
I'm gonna, yeah, yeah, yeah
Sing my song (I gotta find my baby)
I gotta ramble on, sing my song
Gotta work my way around the world baby, baby
Ramble on, yeah
Doo, doo, doo, doo, doo, my baby
Doo, doo, doo, doo
Doodoo doodoo doodoo doodoo doodoo
I gotta keep searching for my baby
(Baby, baby, baby, baby, baby, baby)
I gotta keep-a-searchin' for my baby
(My, my, my, my, my, my, my baby)
Yeah yeah, yeah yeah, yeah yeah yeah
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah yeah
I can't find my bluebird
I listen to my bluebird sing
I can't find my bluebird
I keep rambling, baby
I keep rambling, baby Jimmy Page / Robert Plant (Led Zeppelin, 1969)
A ERA (European Ramblers Association) – a Federação Europeia de
Pedestrianismo – reconheceu, no passado sábado (dia 20 de Outubro), o modelo de
formação do Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de
Portugal (FCMP), no âmbito da liderança e condução de grupos em actividades de
Pedestrianismo, tendo-lhe atribuído a certificação Walk Leader ERA-EWV-FERP. Essa
importante certificação foi duplamente gratificante não só por atestar a
qualidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, por parte do Centro de
Formação da FCMP, mas também pela sua entrega formal ter coincidido com a
Assembleia-Geral que decorreu em Bad Urach (Alemanha), na qual se comemoraram
os 50 anos dessa federação europeia.
A certificação em causa atesta que a formação ministrada pela FCMP
cumpre os requisitos mínimos do plano de formação de “líderes de caminhada”
estabelecidos pela ERA. Na verdade, o modelo apresentado pela FCMP não só iguala
os requisitos em algumas das unidades curriculares (UC) lecionadas como
suplanta os mesmos na maior parte das UC da estrutura formativa da ERA, quer em
termos de cargas horárias, quer no que concerne à diversidade e à profundidade
das temáticas abordadas.
Tendo em conta a legislação em vigor em Portugal, os “líderes/guias
de Pedestrianismo” das Filiadas da FCMP têm de possuir o Título Profissional de
Treinador de Desporto (TPTD) de Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III –,
independentemente de exercerem a actividade de forma benévola ou profissional.
Agora também são reconhecidos, a nível europeu, como Walk Leaders ERA, voluntários,
e, por isso, terão direito a utilizar o respectivo pin identificativo ou
outros suportes/materiais federativos que contenham esse logótipo.
A marca Walk Leader ERA atesta os padrões de qualidade das
formações ministradas nos diversos países certificados, a nível pan-europeu, com
base nos requisitos definidos pelo grupo de trabalho de formação e aprovados pelo presidium dessa
federação europeia. O trabalho que foi desenvolvido ao longo de diversos anos
contou, desde o seu início, com o contributo de Portugal, que participou desde
logo na redacção da Declaração de Marcoussis (2005): o primeiro passo que deu
origem à criação do grupo de trabalho de formação e à posterior definição do
modelo Walk Leader ERA.
Tive o grato prazer e o privilégio de receber o certificado Walk
Leader, para Portugal, das mãos do Presidente da ERA, Boris Mićić, mormente
quando, tendo participado na elaboração da Declaração de Marcoussis e feito
parte do referido grupo de trabalho, vi(vi), desta forma, o fechar deste ciclo
com chave-de-ouro, ademais no momento em que se comemorou meio século de
existência da ERA.
A redacção da Declaração de Marcoussis foi efectuada no âmbito de uma conferência europeia, organizada pela Fédération Française de la Randonnée Pédestre (FFRP), sob a égide da ERA, acerca da "Formação, enquadramento e segurança na prática", que se realizou, de 25 a 29 de Maio de 2005, no Centro Nacional de Rugby situado na localidade francesa homónima. A Declaração de Marcoussis foi formalmente aprovada, no dia 24 de Setembro de 2005, na Assembleia-Geral da ERA que decorreu em Elspeet (Holanda).