quinta-feira, 6 de junho de 2019

Aqui vamos...


Here we go again!
«Para encontrar a minha imagem na verónica que o instante, como um toureiro, colhe.»
Júlio Pomar in Da Cegueira dos Pintores (1986: 24)

Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)

Enquanto viajava, assaltou-me uma ideia: à força de rondar pelos caminhos do espaço, de saber, Aqui, que Acolá me esperava, se bem que ainda me encontrasse distante, decidi, à minha maneira, aventurar-me pelos caminhos do tempo. Acabar com o fosso que existe entre o vaticínio categórico do calculador de eclipses e o diagnóstico já mais titubeante do médico, arriscar-me, com a máxima precaução, a escorar uma mediante a outra, a premonição e a conjectura, traçar, nesse continente que ainda não atingimos, a carta dos oceanos e a das terras já imersas… É esta tentativa que me põe exausto.
[YOURCENAR, 2009: 129]

…mas que, simultanea- e paradoxalmente, me proporciona a atitude, a motivação, para prosseguir  (pró seguir?) o entusiasmo de regressar às paisagens selvagens de altitude. 

«Um fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento.» [Bonatti, 1962 in CUIÇA, 2010: 27] 


Pedro Silva © Pico (2017)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5
POMAR, Júlio. Da Cegueira dos Pintores (1986: 24). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986, pp. 132.
YOURCENAR, Marguerite (1968). A Obra ao Negro. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2009, 9ª edição, pp. 350. ISBN 978-972-20-3760-0


Pedagogias de Ar Livre


La mia scuola di montagna
Carmelo Adagio – Dirigente scolastico Ist. Comprensivo di Gaggio Montano e regente presso l’Ist. Compressivo di Loiano e Monghidoro (BO)

Quando il laboratorio è a cielo aperto, la didattica porta a nuove scoperte stimolando fantasia, apprendimento e creatività. Accade a Gaggio Montano, sull Appennino bolognese.

Sono da quattro anni dirigente scolastico di scuole di montagna. Attualmente dirigo 18 piccole scuole sparse in diverse vallate e rilievi montani. L’esperienza di questi anni mi ha convinto del fatto che la scuola, antenna sensible delle difficoltà economiche e sociali della montagna, sia uno dei più importante presidi contro impoverimento e spopolamento. Operando in contesti difficili, sia dal punto di vista dei transporti sia da quello della crisi, le scuole si pongono come servizio ativo verso il territorio: ognuna è parte di una rete che coinvolge famiglie, associazioni, società sportive, amministrazioni locali; ognuna diventa, con la sua capacità di aprirsi e collaborare col territorio, fulcro per tutta la comunità.

(…)

CULTIVARE LA CURIOSTÀ
La scuola aderisce a una metodiologia di scoperta e ricerca basata sull’outdoor learning. I bambini, portati in ambienti esterni, natural o antropizzati, vengono invitati a coltivare la curiosità, a porre domande, a leggere la realtà naturale e antropica, per poi essere accompagnati dai docenti, nelle attività indoor, verso percorsi di recerca, scoperta e riposta alle domande poste. Ogni cosa, in questo metodo, grazie alla fantasia e alla creatività dei bambini e all’elasticità pedagogica degli insegnanti, diventa fonte utilizzabile per un laboratorio di scoperte interdisciplinari che toccano la storia, la geografia, le scienze, la tecnologia e che poi vengono rielaborate con uso dei diversi linguaggi espressivi (dalla pinttura al teatro al montaggio di brevi video; video disponibili sul canale vimeo.com/primariatizianoterzani). Tutto ciò mantenendo salda una forte cooperazione com le istituzioni e la comunità locali, e nello stesso tempo creando un clima educativo accogliente, aperto ai bisogni di ciascun bambino, ai suoi tempi e ai suoi ritmi di apprendimento.

UNA SCUOLA A MISURA DI TUTTI
Questo perche la scuola della scoperta e dell’outdoor (e delle diverse metodologie messe in atto: cooperative learning, peer to peer, flipped classroom) oltre a sviluppare capacità relazionali, sociali, a far acquisire molteplici competenze, si rivela scuola a misura di tutti, dove ognuno può sentirsi protagonista del proprio sapere e del proprio percorso di apprendimento. Una scuola di montagna che allora non è scuola de periferia, ma scuola di eccellenza, che sperimenta forme di cambiamento della didattica, e amplia la qualità della oferta, mettendosi in rete com altre realtà italiane (la rete italiana delle scuole all’aperto, l’Università di Bologna) ed europee (grazie ai progetti Erasmus) volte al migloriamento della didattica e al confronto bi buone pratiche.
[Montagne360, 81/2019: 16]


NOTAS:
· A última edição da Montagne360 – La revista del Club alpino italiano (nº 81, Junho de 2019) contém um conjunto de interessantes artigos sobre educação ao ar livre (outdoor education): Educare alla curiosità (pp. 12-13), escrito por Luca Calzolari, La natura maestra (pp.14-15), por Corrado Bosello, Monica Gori e Simona Serina, Storie di scuole e di comunità (pp. 18-20), por Gianluca Testa, Il piacere di apprendere (pp. 22-25), por Gianluca Testa, Leirskole, la natura come aula (pp. 26-27), por Franco Michieli, e La mia scuola di montagna, por Carmelo Adagio (p. 16), de que publicamos acima um trecho. Um total de 13 páginas dedicadas integralmente a “Imparare all’aria aperta: esperienze e buone pratiche di didattica outdoor, quando le aule sono in mezzo alla natura”.
· Outras leituras para aprofundar os conceitos de educação ao ar livre ou de educação de ar livre (?): outdoor education, outdoor learning ou experiential learning in, for ou about outdoors: Outdoor Learning – Practical guidance, ideas and support for teachers and practitioners in Scotland; Research on Outdoor Learning; Outdoor Education.

Treino Desportivo

Técnicas de intervenção pedagógica para Treinadores de Desportos de Montanha – Grau I: feedback e questionamento num estádio de iniciação

Os feedbacks intrínsecos e extrínsecos são essenciais nos processos de aprendizagens motoras, i.e. de aquisição de habilidades mais ou menos complexas e intencionais, envolvendo um conjunto de mecanismos sensoriais. O feedback constitui uma das principais componentes do processo de ensino-aprendizagem, nomeadamente por se tratar de uma variável que pode e deve ser manipulada pelos treinadores.
O feedback intrínseco (ou inerente) é aquele que o praticante apreende através do seu sistema sensorial (visão, audição, cinestesia, etc.), durante ou após o movimento, permitindo a detecção de certos aspectos do desempenho de uma determinada habilidade ou conjunto de habilidades. O feedback extrínseco (ou aumentado) corresponde à informação que o praticante recebe de uma fonte externa – normalmente da parte de um treinador – relativa a aspectos relevantes da execução de uma determinada habilidade ou conjunto de habilidades. Este tipo de feedback irá, portanto, e desde logo, salientar a diferença entre o padrão do movimento executado e o padrão considerado ideal. Neste contexto, o feedback extrínseco distingue-se do intrínseco por possibilitar a monitorização, avaliação e manipulação de variáveis durante o processo de treino.
O feedback intrínseco é inerente e indissociável dos processos de treino mas deve ser (re)orientado e/ou robustecido (aumentado) pelo feedback extrínseco, nomeadamente por este comportar um destacado papel motivador e de melhoria da execução de habilidades motoras. O contributo externo é insubstituível na identificação e correcção de erros. Saliente-se também que o feedback extrínseco possibilita um mais assertivo, ajustado e, por isso, adequado conhecimento dos resultados e dos desempenhos.

DR © Serra da Estrela (2017)

Feedback pedagógico e questionamento
De entre os comportamentos que estão relacionados com a eficácia da actuação dos treinadores salienta-se a utilização, mais ou menos frequente, do feedback, tendo como principais objectivos a correcção e a motivação dos praticantes (Côté & Sedgwick, 2003 in RODRIGUES & SEQUEIRA, 2017: 174). O feedback extrínseco constitui uma das principais componentes do processo de ensino-aprendizagem, designadamente porque possibilita a correcção, por parte do treinador, de aspectos relevantes da execução de determinado exercício. Essa técnica de intervenção pedagógica permite não só identificar aquilo que está a ser executado de forma errada ou menos bem, mas também salientar aquilo que melhorou ou, inclusivamente, a excelência do desempenho, com notórios efeitos positivos a nível motivacional. Allen e Howe (1998) referem que a satisfação dos praticantes com o seu treinador está relacionada com uma maior frequência de feedbacks positivos por parte deste (RODRIGUES & SEQUEIRA, 2017: 174); no entanto, essa “metodologia” deve ser ponderada tendo em conta que se as “mensagens” não forem ancoradas em resultados realmente positivos os atletas ir-se-ão aperceber da falsidade das mesmas e o processo de treino será desacreditado.
A eficácia do feedback extrínseco está dependente da capacidade do treinador diagnosticar erros e prescrever soluções (ROSADO, 2017: 4). Se o feedback extrínseco não está a obter resultados satisfatórios talvez seja porque o treinador não esteja a identificar correctamente os erros e/ou a transmitir adequadamente as supostas soluções. O treinador, nestas circunstâncias, deverá recorrer ao questionamento do praticante para indagar sobre o que este pensa ser(em) o(s) entrave(s) à melhoria do desempenho; ademais caso já tenha aplicado intervenções pedagógicas, consideradas necessárias e suficientes, ao nível da informação, da demonstração e, claro está, do feedback extrínseco. Saliente-se, contudo, que este tipo de questionamento mais não será, afinal, do que apelar ao feedback intrínseco do praticante para, deste modo, o treinador tentar diagnosticar adequadamente o porquê dos erros e quais as eventuais soluções a aplicar. Neste contexto, o feedback extrínseco, com o intuito de melhorar o desempenho do atleta, pode evidenciar não só cariz negativo e/ou positivo, como também assumir diferentes matizes: feedback descritivo, prescritivo, avaliativo ou, até (como realçámos), interrogativo. A maior utilização do feedback descritivo, prescritivo e avaliativo numa sessão de treino, em detrimento do interrogativo, denotará a maior importância que geralmente os treinadores atribuem ao seu papel na detecção e correcção de erros cometidos pelos praticantes, em detrimento do feedback intrínseco da parte destes. No entanto, uma verdadeira retroacção treinador-praticante não deverá ignorar os sentimentos do praticante mas sim integrar esse “sentir” no processo de treino, ademais no contexto do treino desportivo numa fase de iniciação de jovens praticantes.
Quando abordamos as quatro técnicas de intervenção pedagógica dos treinadores – informação, demonstração, feedback e questionamento – facilmente constatamos que estas não são estanques e que existem notórias sobreposições, por vezes difíceis de destrinçar, entre elas. O feedback verbal pode assumir a faceta de informação; uma demonstração pode adoptar características de feedback visual ou, caso envolva contacto e/ou manipulação corporal, de feedback sinestésico; já uma informação oral acompanhada de uma demonstração poderá ser considerada um feedback audiovisual; e, como já referimos, um questionamento pode ser entendido como uma forma de feedback interrogativo. Neste contexto, torna-se de certo modo difícil elencar as (grandes) diferenças entre a utilização do questionamento e do feedback pedagógico na correcção de jovens atletas. Pese embora essa dificuldade, pensamos ser importante diferenciar, na medida do possível, as quatro técnicas de intervenção pedagógica dos treinadores, nomeadamente no que concerne o feedback e o questionamento, com vista à optimização do processo de treino.
O questionamento a que fizemos alusão e que poderá, de certo modo, considerar-se como uma forma de feedback interrogativo, envolve em regra perguntas de análise, síntese e/ou avaliação de desempenho de determinado exercício/tarefa. Já o questionamento que envolve perguntas para testar conhecimentos, a compreensão ou a transferência para novas situações será aquele que se poderá considerar questionamento stricto sensu. Esta forma de questionamento pode desempenhar uma importante função pedagógica no final de uma unidade de treino, como forma de fazer um balanço do que foi feito e também de auscultar o grau de satisfação dos praticantes (COELHO, 2016: 16). Note-se que as questões de análise, síntese e/ou avaliação também podem e devem ser colocadas no final de uma unidade de treino, todavia parece-nos que aqui residirá uma das grandes diferenças entre a utilização do feedback pedagógico e do questionamento s.s. na correcção de jovens atletas: o primeiro será utilizado, em regra, no decurso de uma unidade de treino e o segundo no final da mesma. O feedback mais como acção directa correctiva, o questionamento como balanço ou apelo à reflexão do praticante e, portanto, como correcção de certo modo indirecta. Essa forma de recorrer ao feedback e ao questionamento não impede nem desaconselha, contudo, a sua alternância durante a realização de uma sessão/unidade de treino. Coelho (2016: 18) salienta, aliás, a importância de alternar a informação de retorno (feedback pedagógico) com o questionamento, designadamente por facilitar a compreensão da tarefa e promover a comunicação entre o treinador e o praticante. Destaque-se também a importância do questionamento como forma abrangente de resolução de problemas e/ou tomada de decisões (RESENDE et al., 2017: 44).
Será igualmente de assinalar, no tocante às diferenças entre feedback e questionamento, que o uso do primeiro será mais adequado numa fase de iniciação a uma modalidade – correspondente a estádios de incompetência inconsciente e, posteriormente, consciente – e que o questionamento se tornará mais pertinente à medida que os praticantes evoluem para níveis de aperfeiçoamento ou avançados – caracterizados por competência  consciente e, seguidamente, inconsciente, mormente no âmbito dos Desportos de Montanha (AYORA, 2008: 130-131). Só depois dos praticantes tomarem consciência da sua incompetência poderão avançar satisfatoriamente no processo de aprendizagem (SEGURA, 2017: 61) e para que essa evolução se possa concretizar é fundamental fazer um uso adequado, i.e. gradativo, do feedback pedagógico e do questionamento.

DR © Penedo da Amizade - Sintra (2017)

Técnicas de intervenção pedagógica: exemplo do rapel
Abordemos, a título de exemplo, a tarefa/exercício de descida em rapel, efectuada no âmbito das modalidades de alpinismo, montanhismo e escalada, de acordo com o modelo do movimento OBSERVAÇÃO-DECISÃO-EMISSÃO DO FEEDBACK.
A OBSERVAÇÃO da execução de uma descida em rapel deverá centrar-se, numa primeira fase, apenas num conjunto limitado de princípios basilares do posicionamento corporal, tendo em conta que esta tarefa/exercício comporta inúmeros aspectos técnicos a ter em consideração e, por uma razão de gestão da quantidade de informação passada nas mensagens, é fundamental compartimentar os gestos técnicos de modo a incidir sequencialmente no seu enfoque. Neste contexto, começamos por identificar as diferenças entre a prestação real (a execução) e o padrão de posicionamento/desempenho considerado ideal, incidindo a nossa atenção num conjunto de erros tipificados que ocorrem com frequência e que é fundamental corrigir, desde logo, no processo de treino dessa tarefa/exercício, sob pena de determinados “vícios posturais” adquirirem um carácter “inato” e, portanto, (mais) difícil de corrigir. Comecemos, pois, por dar atenção a três aspectos basilares daquilo que se considera o padrão ideal: (1) tronco verticalizado; (2) pernas ligeiramente flectidas, fazendo um ângulo de cerca de 45º com a vertical e pés afastados à largura dos ombros ou um pouco superior a esta; (3) a mão que controla a descida posicionada lateralmente ao nível da anca e a outra mão, que mantém o equilíbrio corporal, colocada (na corda tencionada) ao nível do plexo solar ou ligeiramente superior a este (CUIÇA, 2010: 162)
Nesta primeira fase, a interpretação da observação, perante a constatação da ocorrência de desvios ao padrão ideal, deve dar origem invariavelmente à tomada da DECISÃO de reagir, tendo em conta que é fundamental identificar e corrigir as posturas de base, referidas acima, desde logo e as vezes que for necessário até atingir os resultados pretendidos; i.e., uma correcção, rumo à excelência (ou transcendência?), da execução que traduza uma adequada competência consciente ou, posteriormente, uma competência inconsciente. No início de qualquer processo de aprendizagem de uma tarefa/exercício com as características do rapel, os praticantes estão numa fase de ignorância inconsciente (são inconscientemente incompetentes), sendo necessário identificar e transmitir as incorrecções existentes de modo a que estes possam passar a uma fase de incompetência consciente. Só depois dos praticantes tomarem consciência da sua incompetência poderão avançar satisfatoriamente no processo de aprendizagem e para que essa evolução se possa concretizar é fundamental fazer um uso adequado do FEEDBACK PEDAGÓGICO.
A questão que se coloca ao treinador será qual a melhor forma de administrar o feedback pedagógico no que concerne à aprendizagem do rapel? Nesse contexto, é necessário dar muita atenção à qualidade do feedback com vista a optimização do melhoramento da prestação motora do(s) praticante(s), sendo fundamental partir do simples (e só depois para o mais complexo), do fácil (para o difícil) e sempre através de mensagens curtas e concretas. De entre os factores que influenciam a capacidade de fornecer um bom feedback destacamos, na tarefa/exercício que estamos a analisar, a importância de manter uma concentração constante e o enfoque permanente no tipo de resposta motora esperada por parte do atleta durante todo o processo de treino. Se necessário for, poderemos trabalhar os três “aspectos basilares”, apontados acima, focando-nos apenas num de cada vez e, só depois, abordá-los em simultâneo. Sem nunca esquecer, contudo, que é fundamental dar um feedback (correctivo) sempre que se verifique um erro notório em qualquer um dos aspectos, mormente se esse “lapso” colocar o praticante em risco. Para atingir bons resultados é necessário, regra geral, dar uma importância especial ao reforço, sem esquecer a motivação. O reforço conduz o praticante à repetição do mesmo movimento (gesto técnico) inúmeras vezes, com vista ao aperfeiçoamento da sua execução. A motivação permite a manutenção ou até o incremento do interesse e do esforço por parte do praticante.
Subentende-se que antes do feedback, se procedeu à informação e à demonstração de como executar o exercício/tarefa antes de o praticante empreender essa execução. O feedback, o reforço e a motivação decorrem da execução por parte do praticante, das repetições da execução em causa e da motivação com vista à sua melhoria.
Só depois de dominados os três “aspectos basilares” se estará em condições de evoluir no processo de treino, dando atenção não só a outros aspectos/abordagens posturais, como também a outras variáveis, designadamente o perfeito domínio da técnica gestual, a velocidade de execução ou a excelência da operacionalização dos equipamentos utilizados, designadamente o descensor utilizado na manobra (tarefa/exercício). Neste contexto, será de assinalar o facto de nesta abordagem nos termos focado apenas num exemplo do treino da técnica gestual da descida em rapel e deliberadamente termos ignorado a adequada utilização dos Equipamentos de Protecção Individual (EPI) e/ou da técnica inerente à correcta montagem de um rapel e da sua operacionalização que, per si, também são alvo de processos de treino específicos.

Pedro Cuiça

DR © Serra de Candeeiros (2017)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AYORA, Alberto. Gestión del Riesgo en montaña y en actividades al aire libre.  Madrid: Editorial Desnivel, 2008, pp. 256. ISBN 978-84-9829-142-1
COELHO, Olímpio. Didática do Desporto. Lisboa: Instituto do Desporto de Portugal, 2016, pp. 28. Disponível em http://www.idesporto.pt/ficheiros/file/Manuais/GrauI/GrauI-01_Didatica.pdf. [Consult. 04/06/2019]
CUIÇA, Pedro: Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I; Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5
SEGURA, José Ignacio. Seguridad en Montaña – Los peligros ocultos. Madrid: Editorial Desnivel, 2017, pp. 318. ISBN 978-84-9829-392-0
RESENDE, Rui et al.. Exercício profissional do treinador desportivo: Do conhecimento a uma competência eficaz. Journal of Sport Pedagogy and Research, 2017, 3(1), pp. 42-58.
RODRIGUES, José & SEQUEIRA, Pedro. Contributos para a Formação de Treinadores de Sucesso. Lisboa: Visão e Contextos – Edições e Representações, 2017, pp. 254. ISBN 978-989-99399-9-8
ROSADO, António. Lidar com o Erro em Treino Desportivo. Lisboa: Comité Olímpico de Portugal/Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Desportivo, 2017, pp. 17. Disponível em

terça-feira, 4 de junho de 2019

Ultimas inscrições



A quarta edição dos Curso de Treinadores de Pedestrianismo – Grau I e do Curso de Treinadores de Montanha – Grau I terá início no próximo mês de Julho, mais uma vez numa iniciativa levada a cabo pelo Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (CF-FCMP/ENM), com a chancela do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).
As datas de realização das aulas práticas presenciais mantêm-se conforme o previsto mas o período de inscrição, em ambos os cursos, foi alargado até ao dia 28 de Junho, com consequentes reajustes na calendarização do ensino e-learning das componentes geral e específica. Uma oportunidade única dos interessados mais retardatários ou indecisos poderem ainda candidatar-se e das turmas integrarem um maior número de formandos optimizando, desta forma, as dinâmicas de ensino-aprendizagem tão importantes nas aulas de campo desta tipologia de acções de formação.
Esta será certamente a última edição dos Cursos de Treinadores, na área dos desportos de montanha, antes da alteração da Lei nº 40/2012, de 28 de Agosto, que “estabelece o regime de acesso e exercício da atividade de treinador de desporto”. A frequência e conclusão de um Curso de Treinadores, com avaliação positiva, aufere o Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD) na modalidade desportiva versada no mesmo. A posse de TPTD é condição obrigatória, por lei, não só para “o treino e orientação competitiva de praticantes desportivos” como também para o exercício do “enquadramento técnico de uma actividade desportiva”, como profissão exclusiva/principal ou até de forma sazonal ou ocasional independentemente de auferir remuneração.



segunda-feira, 3 de junho de 2019

Congresso dos Treinadores


Dra. Edite Estrela a discursar na abertura do 7º Congresso dos Treinadores de Língua Portuguesa
Pedro Cuiça © Portimão Arena (1/Jun. 2019)

O 7º Congresso dos Treinadores de Língua Portuguesa decorreu, nos dias 1 e 2 de Junho, na Cidade Europeia do Desporto 2019: Portimão. O evento, que envolveu a realização de diversas e importantes iniciativas – designadamente a reunião da Confederação Lusófona de Treinadores e de seis conferências – teve a novidade de contar com a presença do Pedestrianismo e do Montanhismo, no leque das modalidades representadas nos workshops de sábado à tarde: Andebol, Futebol, Futsal, Golfe, Hóquei em Patins, Karaté, Natação, Remo, Taekwondo e Vólei*. Esta tratou-se da primeira vez que Desportos de Montanha estiveram representados num evento desta natureza, traduzindo o reconhecimento, que muito nos apraz e honra, da qualidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, desde 2011, no âmbito da formação inicial e da formação contínua de Treinadores, mormente de Pedestrianismo e de Montanha (Alpinismo, Montanhismo e Escalada). 
O workshop de Pedestrianismo e Montanhismo, sob o título genérico de “Percursos Pedestres e Prática de Pedestrianismo”, decorreu das 14.30 às 19.30 e consistiu numa primeira parte subordinada ao tema “Andar a pé, em Portugal e na Europa”, ministrada por Rúben Jordão, e numa segunda sobre “Percursos Pedestres de Longo Curso – estratégias de progressão rápida e (ultra)leve”, por Pedro Cuiça.
No domingo destacamos a realização de um debate sobre o programa Nacional de Formação de Treinadores (PNFT) e a nova “Lei dos Treinadores”, moderado por Pedro Sequeira (Presidente da Confederação Portuguesa das Associações de Treinadores) e que contou com a presença de Mário Moreira (Director do Departamento de Formação e Qualificação do IPDJ – Instituto Português do Desporto e Juventude), Paulo Cunha (da Universidade Lusófona), António Vasconcelos Raposo (Treinador), Isabel Mesquita (da FaDUP – Faculdade de Desporto da Universidade do Porto) e Abel Figueiredo (da REDESP – Rede de Escolas com Formação em Desporto do Ensino Superior Politécnico Público).

Workshop de andar a de-correr no Congresso de Treinadores
Rúben Jordão  © Portimão Arena - Sala Praia de Alvor (1/Jun. 2019)

NOTA
*Para além dos workshops versando as modalidades referidas, também foram ministrados um de Formação Contínua de Professores (CCPFC), sobre a temática do “Treino de Força Integrado na Educação Física Curricular: A Sobrecarga em Termos Coordenativos”, e um de Técnico de Exercício Físico (TEF), sobre “Treino de Força e Performance Desportiva e Diminuição do Risco de Lesões”.



sexta-feira, 31 de maio de 2019

a-LUZ-cin-ação


Não, este não se trata, de todo, de um livro sobre caminhadas e, muito menos, sobre pedestrianismo, apesar de nele surgirem alguns inveterados andarilhos e de abordar diversas andanças… Nem sequer se trata de um livro campestre, pese embora muito do que aí é dito se passar em cenários de retorno ao campo, ademais quando a urbanidade surge de forma explicita ou mais ou menos (re)velada. Segundo os Editores Refractários desta obra, o personagem principal – Estêvão Vao –, se assim é lícito nos pronunciarmos, «exprime uma oposição liminar à demência do astronauta, ao paradigma que corporiza a indigente ambição de viver na Terra fora da terra». Aí – nesse preciso paradigma – reside a idiossincrasia societária dos humanos que, em diversos tempos e espaços coetâneos, surgem travestidos e/ou alienados sob roupagens (pós)modernas ou, bem mais importante que isso – porque para além (ou aquém?) do dito paradigma –, são a expressão de uma cultura milenar…





EMPREENDEDORISMO AGRÁRIO

Estêvão Vao1 ia a descer a mui inclinada Rua do Comércio, por onde não passam veículos automóveis, quando a meio da bruma espectral inserida no mês em curso julgou perceber que à sua frente caminhavam duas senhoras. Ao descortina-las, as duas figuras remeteram-no para o Bucha e Estica, porque uma era assaz volumosa e a outra bastante magra, parecendo esta ter-se esquecido de desligar o programa de emagrecimento. Notou que caminhavam como patos coxos, ou meio coxos. Porém, ao notá-lo, viu desprender-se delas uma nuvem de perfume chique e agoniante que logo o abocanhou, fazendo-o cair numa das ratoeiras em que se revela pródigo o mundo urbano.
Empreendendo um apreciável esforço cerebral para identificar a estranheza da andadura das senhoras, apercebeu-se de que iam montadas sobre umas botas de salto alto e fino, primor de elegância que as obrigava a apalpar terreno, para não se estatelarem na calçada. (…)
(HENRIQUES, 2017: 9-10)


ALDEIAS SEM ESTRUME, S.A.

(…) Nesse dia, na Câmara Municipal de Xispeteó já tinha começado de manhã uma importantíssima reunião regional aonde aportara um bom número de autarcas, conclave destinado a ultimar um «projecto estratégico», como rezava o documento jazente na vasta mesa, que no intervalo para o almoço (opíparo e prolongado, como é de lei em tão sacras circunstâncias) a nossa amiga F. teve oportunidade de ler, por mero acaso, ao extraviar-se pelos meandros da Câmara em busca do gabinete de obras.
Esse documento punha em letra de forma uma excelsa ideia que há tempos começara a tossir alto por aquelas bandas, em entrevistas de autarcas a jornais e rádios de todo o território e até já chegara ao altar televisivo: a criação de uma rede de aldeias sem estrume. O «sem estrume» sintetizava várias outras medidas do mesmo jaez, sendo os habitantes das aldeias incitados a denunciar «às autoridades competentes», não só a presença desse material orgânico, mas também, por exemplo, casas que ainda tivessem janelas, portas ou corrimões em alumínio. Tratava-se, lambiam-se já os beiços criativos, de uma magnífica operação de limpeza étnica destinada a embelezar as aldeias, de modo a estas poderem figurar, em várias línguas, nos folhetos turísticos de promoção, cartazes, brochuras, vídeos e demais propaganda publicitária a que o Turismo recorre, gulosamente, com a sua costumeira histeria fotográfica, videográfica e escritográfica.
Para anunciar sem tardança ao apetecido público-alvo («turistas de qualidade»)2 as impecáveis características das aldeias a integrar na Grande Panaceia das economias locais3, fora decidido dar à organização um nome de marcante sabor: Rede de Aldeias Sem Estrume, S.A.. (…)
(HENRIQUES, 2017: 36-37)


CAMINHO PARA UM NOVO SOL

(…) Convém dizer que Estêvão considerava com brando cepticismo os entusiastas do «regresso ao campo» que alardeiam grandes coisas sem as aplicarem no terreno, desprovidos da indispensável coerência entre o que é dito e o que é feito; intuía neles ambíguas ambições, cujo móbil parecia consistir, sob simpáticos ademanes, e pôr a trabalhar na roça quem caísse na rede, amiúde embrulhada em esoterismos fumosos, pozinhos de perlimpimpim, gurus e outros santos milagreiros; ou que se enfatuavam com transições destinadas tão-somente a envernizar o mundo e a fazer currículos. Adriano, quanto a ele, andava a trabalhar em prol de uma autonomia que começava pela alimentar; não se espraiava em devaneantes optimismos segundo os quais podia desde já viver-se «fora do capitalismo» bastando para tal a vontade de um «espírito superior»; e também não idealizava beatamente o mundo camponês, ou o que por aqui restava dele, sabendo todavia – questão prévia – que se trata de uma cultura milenar e que uma cultura destas, como diz John Berger, não se pode deitar fora como quem risca contas saldadas. Estêvão sentia-o confiante, mas em algo que era preciso construir a partir de baixo, com a cabeça, sim, mas igualmente com as mãos; e que implicava um esforço incitativo em trabalho braçal e competências afins, aberto a uma diversidade de experiências com provas dadas e a outras que cometiam erros por estarem a ser feitas no terreno, correndo riscos. A sociedade vigente estava a rebentar pelas costuras e não eram bem-vindas as gentis propostas conducentes a remendar com panos quentes tais costuras. Era diversa e mais funda a perspectiva por ele perfilhada: sair desta civilização, contribuir para a parição de uma outra – sem que isso, contudo, significasse uma inteira tábua rasa: anteriores culturas perseguidas continuavam, agora mesmo, a sua luta pela existência de um mundo plural. Fosse como fosse, em muitos lugares da Terra essa perspectiva estava a caminhar em busca de um novo sol. (…)
(HENRIQUES, 2017: 96-97)



NOTAS DO AUTOR
1 · De seu nome completo Francisco Hermes Estêvão Vao (do antigo ramo dos Vaos, ou Vaus, de Entre Douro e Minho) de Alencastre Reboredo e Souza. Inspirado na obra do grande geógrafo anarquista Élisée Reclus, aplicou a parca fortuna que lhe coube em herança em infindáveis caminhadas de naturalista, que o levaram do Norte da Galiza ao Levante, e daí, depois, a todo o litoral mediterrânico, o que lhe deu uma invejável estrutura muscular de caminheiro, deslocando-se a pé por todo o lado. Isso mesmo se verá, se Deus quiser (se Não Quiser está o caldo entornado), em próximos capítulos das suas ígneas aventuras.
2 · A expressão «turismo de qualidade» significa, traduzida em miúdos, o turismo destinado a gente com contas bancárias chorudas, de preferência estrangeiros oriundos de «países bons». Para as restantes multidões, o turismo não tem de ser «de qualidade», basta ser uma merda qualquer.
3 · Grande Panaceia é um sinónimo pós-moderno de Turismo, já devidamente dicionarizado.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HENRIQUES, Júlio. Alucinar o Estrume. Lisboa: Antígona – Editores Refractários, 2017, pp. 176. ISBN 978-972-608-287-3

(An)dar na bibliofagia


© Antígona 

A 89ª Feira do Livro de Lisboa começou no dia 29 de Maio e irá decorrer até ao dia 16 de Junho, no Parque Eduardo VII. Para inveterados bibliófagos, como nós, não no sentido de Um Caso de Bibliofagia, à António Victorino d’Almeida, ou de animalejos literalmente comedores de livros, mas num senso metafórico de quem tem pela leitura um reiterado prazer, este é um evento a não perder. Trata-se de uma oportunidade única para usufruir de um tão grande número de editores e livreiros reunidos num mesmo espaço, de deparar com edições difíceis de encontrar e, claro, comprar livros a preços inferiores aos habituais. A juntar a isso, e certamente não menos importante, acresce a necessidade (diríamos antes “a oportunidade”) de, para visitar a totalidade dos expositores, ter de percorrer a pé uma distância e desnível que, sem ser nada de extraordinário, merece enaltecer.
Foi aliás dentro do espírito andarilho das frequentes andanças, praticamente diárias, que empreendemos na cidade (da) luz – Lisboa – e que apelidamos, “em amaricano”, de “Lisbon Walks” (vá-se lá a saber porquê!), que fizemos um raid cirúrgico a essa feira livreira, no dia da sua inauguração, aos pavilhões D40 a D42 e A15: mais precisamente à Antígona e à Letra Livre. Na primeira destacamos o livro do (desse) dia Walden ou a Vida nos Bosques e da promoção d’A Desobediência Civil/Defesa de John Brown, ambos de Henry David Thoreau; mas não foi por essas obras, nem sequer pelo interessantíssimo livro Caminhada, do mesmo autor, trilogia a que regressamos amiúde e que fortemente recomendamos, que visitámos esses Editores Refractários. Nessa feita adquirimos, todavia, Alucinar o Estrume, de Júlio Henriques, A prática da natureza selvagem, de Gary Snyder, e O Tempo dos Assassinos, de Henry Miller. E dessas aquisições daremos, em breve, o devido e respectivo fidebéque (?) neste espaço de andanças encantas que dá pelo nome “Pedestris”. No segundo pavilhão encomendámos Reflexões sobre a Morte de Mishima, de Henry Miller (edições &etc), que iremos recolher, hoje, num segundo raid ainda mais cirúrgico do que o primeiro. Na verdade, apreciamos feiras de livros e andanças, mas mais ainda a busca de livreiros recônditos e amplos espaços de ar livre dificilmente compagináveis com multidões. Vou ali (a pé), já venho!


Pedro Cuiça © Lisbon Walks (29/Mai. 2019) 

Pedro Cuiça © Lisbon Walks (31/Mai. 2019) 

Pedro Cuiça © Lisbon Walks (31/Mai. 2019) 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Geo-grafias visionárias


Em A Arte de Andar (Pedestris, 24 de Junho de 2014) fiz alusão à referência sagaz de Kenneth White: «Se Thoreau utiliza os pés fá-lo, afinal de contas, em benefício da cabeça ou, digamos, do seu ser, do seu corpo-espírito inteiro. Não é um desportista que sai de casa para fazer quilómetros, não faz footing como costuma dizer-se. Pratica a caminhada inteligente.» E é precisamente de uma caminhada inteligente (e seus rumos inerentes), nos seus mais diversos sentidos concretos e metafóricos, que os humanos (e os não-humanos?) necessitam nestes tempos de inegável e inevitável transição. Tempos que carecem de abordagens integradas e integrantes, sistémicas e inclusivas. A coexistência e a convivência de diferentes escal(ad)as de tempo(s) e de espaço(s), de diversas ortodoxias e heterodoxias – sob vivências assumidamente paradoxais –, designadamente no que concerne às nossas necessidades, urgem face a uma catástrofe anunciada pela denominação “Antropocénico”1
Um reajustamento (verdadeiramente) “verde” da pirâmide das necessidades de Maslow encaminhado para a superação (melhor será dizer “transcendência”) dos seres humanos e daí de todos os (entre)seres? Será certamente um interessante caminho a experimentar e (quem sabe?) a cumprir-se. 
As leituras e as interpretações de geo-grafias visionárias, porque de início essencialmente visionadas, enriquece(ra)m-se com a simultaneidade das paisagens sonoras, odoríferas e de outros apelos sensoriais, constituindo o ancora-d’ouro ou o porto de partida (e de chegada) que permite, para além de vastíssimas deambulações, a coincidência de aparentes extremos: ser original (indo às origens) e ao mesmo tempo navegar em novas caravelas do espírito rumo ao por-vir, aqui e agora.

© Flauta de Luz nº 6

O colóquio internacional Linhas da Terra – Percursos geofilosóficos e geopoéticos no Antropoceno, realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nos dias 21 e 22 de Maio, em homenagem a Kenneth White e que contou com a sua participação, revelou uma interessantíssima polifonia de linguagens que confluíram, contudo, em numerosas pontes: marcas, sem dúvida, «de uma vida comum e passante» nesta partilha coetânea da condição seminal de ser terráqueo. Durante o evento foi apresentado o último número (6) da revista Flauta de Luz, por parte do escritor (e seu editor) Júlio Henriques, de que se destaca um dossier precisamente sobre Kenneth White.

O «nómada intelectual» que eu sou, e que desenvolveu, com comprovados exemplos, a teoria-prática do nomadismo intelectual no livro L’Esprit nomade, atravessa territórios e culturas em busca de elementos susceptíveis de ser incluídos numa possível cultura mundial. Situado no extremo limite crítico da sua «própria» civilização, este nómada abre um caminho explorando margens de pensamento e de experiências esquecidas. Lucidamente. Sem se converter seja ao que for. Sem esperança. E por não viver de esperanças, nunca posso sentir-me desesperado. Quando certos jornalistas me perguntam, em entrevistas, se sou optimista ou pessimista, respondo: nem uma coisa nem outra – possibilista.2



NOTAS
· [1] O termo “Antropocénico” foi cunhado pelo biólogo Eugene Stoermer, em 1980, e foi popularizado pelo químico e prémio Nobel Paul Crutzen, em 2000, para enfatizar o impacte antrópico sobre o planeta Terra. O começo do Antropocénico corresponde à Revolução Industrial (finais do século XVIII) e ao fim do Holocénico – a época geológica que teve início há cerca de 12 mil anos com o final da última glaciação (Würm) e que, juntamente com o Plistocénico, faz parte do sistema/período mais recente da tabela cronoestratigráfica (o Quaternário ou Antropozóico), tabela onde estão definidos os “tempos geológicos” e os seus respectivos nomes e durações. 
· [2] In Em diálogo com Kenneth White – Entrevista de Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques (revista Flauta de Luz – Boletim de Topografia nº 6, 2019, 110-11)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pelo bem comum


Não por um mal menor mas, sim, por um bem maior...

«ci siamo dentro. Siamo immersi mani e piedi in una battaglia culturale che non ha colori né partiti. Non combattiamo solo contro qualcosa o qualcuno, ma combattiamo per. Dalla negazione stiamo passando alle proposte. Non solo ci schieriamo contro i cambiamenti climatici, contro gli sprechi, contro l’incuria. Ma ci impegniamo per trasmettere un nuovo concetto di sostenibilità, per il bene comune, per la tutela ambientale e paesaggistica. L’insegnamento più forte ed efficace, negli ultimi tempi, ci arriva da una ragazzina svedese di sedici anni. Da Greta Thunberg, che ha dato origine agli scioperi scolastici per il clima, abbiamo imparato molto. E molto abbiamo ancora da imparare. Ha tenuto in mano il cartello com su scritto Skolstrejk för klimatet e da lì ha avuto inizio il movimento #FridayforFuture. In migliaia sono scesi in piazza, in Italia come altrove. Senza colori né partiti. Greta è un esempio per tutti. Non solo perche ci ha ricordato cosa eravamo. C’è stato un tempo in cui, lontani dall’esistenza di movimenti ecologisti o ambientalisti, ovvero quando questi due concetti dovevano ancora essere elaborati e compresi, c’era chi si prendeva cura del paesaggio attorno a sé. (…) Ma qualcosa è cambiato, qualcosa sta cambiando. A cominciare dalle nostre montagne, polmoni natural di un mondo in asfissia. E così, passo dopo passo, ci riappropriamo di quella innata consapevolezza che ci portava a sceglire la strata migliore senza sapere che migliore lo era davvero. Per questo dobbiamo ringraziare Greta e tutti quei giovani che come lei hanno deciso di combattere. Giovani che sembrano sempre più scettici di fronte a chi indica loro una via, siano essi partiti, enti o associazioni. Ma in questa battaglia invisibile, dove ognuno può contribuire com piccoli gesti, riscopriamo il significato dell’essenza stessa della comunità. Quella che si prende cura di sé. Nessuno escluso. Neppue il nostro amato e abusato pianeta.»

Luca CALZOLARI (2019: 17)


© algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CALZOLARI, Luca. Invisible agli occhi. Bologna: Club alpino italiano; Montagne360 – La revista del Club alpino italiano, nº 80, Mai. 2019, pp. 80.