sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Trein'a dor


DIZEM QUE NÃO HÁ NADA DE NOVO debaixo do Sol, mas também se poderá afirmar que não há nada de velho debaixo do Sol. O filósofo norueguês Arne Naess, que foi um amigo muito querido, praticava a sua variação desta ideia: a de que, de facto, tudo o que nos rodeia é novo.
Durante doze anos da sua vida adulta viveu numa cabana solitária em Tvergastein, no sopé da cadeia de montanhas Hallingskarvet. Arne insistia em seguir um percurso diferente cada vez que fazíamos caminhadas por aqueles lugares, o que, por vezes significava desviarmo-nos apenas algumas polegadas do caminho que anteriormente escolhêramos. Isto era uma coisa que todos os que o visitavam deviam seguir à risca. Durante todos esses anos, Arne certificou-se de que não havia um caminho único até à sua cabana.
Também decidira que numa circunferência de dois metros à roda da sua cabana devia haver uma espécie de parque natural, de modo a proteger a urze, os ranúnculos e as dríades alpinas que por ali cresciam. Todos os visitantes, incluindo ele, só podiam caminhar sobre as lajes que estavam dispostas nessa zona protegida. Isso permitia que Arne, todos os anos, pudesse observar da sua janela a vegetação viva e intacta,
Tvergastein foi talvez a única cabana em toda a Noruega que não teve um trilho feito pelo homem. Viam-se trilhos de animais, um pouco mais longe, na montanha, mas só isso. Hoje, oito anos após ele ter partido na sua última viagem, existe um único trilho, feito por pés humanos, que leva à sua cabana. Sem a presença de Naess, os caminhantes inevitavelmente optaram pelo caminho mais cómodo e imutável.
[KAGGE, 2018: 99-100]

© Algures da Net

ESTAR CONVENCIDO DE QUE ANDAR a pé nunca deveria ser penoso é um equívoco. Não quero dizer que tenhamos que ficar angustiados por empurrar um carrinho de compras no passeio ou quando, às vezes, à tarde, damos uma pequena volta a pé. A natureza deu-nos a dor como uma tribulação, mas ela é muito mais do que isso. A dor também pode ser benéfica e aprazível, quando nos permite reconhecer a sensação de bem-estar e, sobretudo, a ausência de dor assim que ela desaparece.
(…)
Para Arne Naess, a felicidade tinha a ver com o fulgor – que para ele significava o fervor ou a paixão – e a dor. Enquanto filósofo que dispunha de uma boa compreensão da matemática, elaborou a sua própria equação para o bem-estar. Quando me deparei com a equação, tive de a estudar várias vezes, por ser tão engenhosa quanto simples – e verdadeira:

 

A equação pressupõe que um pequeno aumento no fulgor pode compensar uma elevada quantidade de dor. Se tivermos muito pouco fulgor, também não experimentaremos senão uma pequena parte de bem-estar, mesmo que tenhamos de suportar poucos incómodos. Naess disse-me que pretendia salientar o significado da dor e, ao mesmo tempo, estava convencido de que mais vale estarmos empenhados em aumentar o fulgor do que em diminuir a nossa dor.
Peter Wessel Zapffe, um amigo de Naess, escreveu – na sua tese de doutoramento, com um título de recorte clássico: Da Tragédia – sobre a importância de não tomar atalhos, mas, em vez disso, empregar o tempo a lutar por atingir um objectivo. Receber demasiado apoio técnico «é um roubo irresponsável das reservas de experiências da humanidade». Grandes palavras, de facto. É descabido chegar de carro ou helicóptero ao cume da montanha, em vez de a subir a pé, porque a experiência de estar no cume é superficial se não tiver sido penosa. Zapffe, também filósofo, considerava que a nossa necessidade frequente de simplificar as coisas é o verdadeiro censor das nossas oportunidades de ter grandes experiências. A sua ideia básica, que julgo ser partilhada por todos os que fazem longas caminhadas, é que alcançar não tem necessariamente o mesmo valor do que se alcançou.
[KAGGE, 2018: 115-117]

© Algures da Net

Fazer uma caminhada apenas quando faz bom tempo – e ficar em casa quando está vento, a chover ou a nevar – é perder metade da experiência. Talvez até a melhor metade.
[KAGGE, 2018: 117]

© Algures da Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KAGGE, Erling. A Arte de Caminhar – Um Passo de Cada Vez. Lisboa: Quetzal, 2018, pp. 208. ISBN 978-989-722-519-2

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Wild Me


«Thousands of tired, nerve-shaken, over-civilized people are beginning to find out that going to the mountains is going home; that wilderness is a necessity.»
Jon Muir


A John Muir Trust – For Wild Land & Wild Places tem em curso a campanha The Wild in Me e, nesse contexto, acabou de lançar, no passado mês de Janeiro, o segundo filme da série. O primeiro episódio da The Wild in Me centrou-se na poeta Helen Mort e o recente "segundo episódio" abordou o trabalho do montanhista e fotógrafo Dave “Cubby” Cuthbertson. Uma das características notórias de ambos os filmes, para além da sua grande qualidade inegável, traduz-se no profundo envolvimento criativo de ambos os protagonistas – Helen e Dave – com as paisagens.
Esta entidade escocesa, que se dedica à defesa dos territórios selvagens (wild lands) e à motivação das pessoas, de todas as idades e origens, a se ligarem a lugares selvagens (wild places), surge como um excelente exemplo de trabalho desenvolvido com vista à imprescindível mudança de paradigmas rumo a uma concreta e efectiva reaproximação e religação à natureza. Que seja uma inspiração para outras (muitas) iniciativas semelhantes, e também diferentes, de promoção da renaturalização (rewilding) das paisagens em geral e dos seres humanos em particular, mormente através da prática concreta, no terreno, de actividades de ar livre como o montanhismo e o pedestrianismo.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Le pittoresque


Nicholas Roerich © Himalaias

Ce texte [Les Rêveries du Promeneur Solitaire] rédigé en 1776 marque l’aboutissement d’une évolution identifiée dès le siècle antérieur. Au cours du 17e siècle, les discours sur Paris ont évolué autant que l’espace urbain a été transformé par l’affirmation de l’absolutisme royal. L’invention du premier trottoir moderne en 1607 symbolise la nouvelle division de l’espace public entre les piétons et les véhicules. Pour les élites, cela implique désormais deus modes de transport: dans la rue, le statut aristocratique requiert de se déplacer en véhicule pour ne pas se mélanger au people, tandis que des parcs et jardins sont aménagés comme espaces dédiés à la promenade entre-soi, où il devient loisible de marcher pour marcher. «L’art de la marche» et «l’art des jardins» trouvent leurs origines aristocratiques conjointes quando les élites de toute l’Europe commencent à rivaliser à ces sujet au cours du 16e siècle.

L’apparition de la promenade moderne mete en jeu la capacite à différencier et à rendre distinctive la marche-loisir, réalisée pour elle-même et pratiquée par l’élite, par rapport à la marche-déplacement, réalisée par necessité pour aller d’un endroit à une utre, pour ceux qui n’ont pas d’autre choix. C’est en effet la marche-loisir élitiste que réalise et décrit Rousseau, et c’est bien la marche-déplacement triviale qu’il tend à marginaliser et à occulter dans la «Deuxième promenade», qui laisse pourtant deviner de nombreux piétons à côté du promeneur-rêveur «solitaire». L’ouvre  de Rousseau donne alors un grand retentissement à deux innovations romantiques. D’une part, la promenade sort alors du strict cadre des parcs et jardins pour s’étendre aux campagnes bucoliques, puis aux environnements «sauvages» (cf. la naissance de l’alpinisme aristocratique). D’autre part, les élites ajoutent à l’activité physique et mondaine de la promenade une activité littéraire ou picturale.
[MONNET, 2015]

Pedro Cuiça © Jardim da Quinta Real de Caxias (Dezembro 2018)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MONNET, Jérôme (2015): La marche à pied entre loisir et déplacement. La géographie nº 1557, p. 12.15
MONNET, Jérôme (2016): Marche-loisir et marche-déplacement: une dicotomie persistante, du romantisme au fonctionnalisme. Sciences de la Societé, Presses Universitaires du Midi, pp. 75-89 

  

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Passeatas dominicais

Pedro Cuiça © Andar na Floresta (10/02/2019)

Tal como os velhos pioneiros Transcendentalistas de Concord também sou um aficionado das passeatas dominicais… «Só um caminhante de primeira ordem podia pertencer à Walden Pond Association. Na aldeia de Concord chamavam assim aos “passeantes de domingo”, ou seja, não os que passeiam só aos domingos, mas os que nunca vão à igreja aos domingos e preferem os bosques.»
[Kenneth White (in THOREAU, 1995: 11- 16)]

Pedro Cuiça © Andar na Floresta (10/02/2019)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. A Arte de Caminhar. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2011, pp. 104. ISBN 978-989-709-003-5
THOREAU, Henry David. Caminhar. Lisboa: Hiena Editora, 1995, pp. 80.

Amar as árvores


Thomas Merton (1915-1968) foi talvez o mais importante místico cristão do século XX. Nos últimos 26 anos, viveu como monge trapista na Abadia de Gethsemani, no Kentucky (EUA), e nos últimos três viveu numa ermida de blocos na floresta. “Sou acusado de viver na floresta como Thoreau, em vez de no deserto, como São João Batista", escreveu a um amigo. Do que mais pode ser dito sobre Merton, e muito já foi dito, uma coisa é certa: ele era um monge que amava as árvores. "Pode-se dizer que eu decidi casar-me com o silêncio da floresta", escreveu. "O calor profundamente doce do mundo inteiro será a minha esposa. Do coração desse calor profundo vem o segredo que se ouve apenas em silêncio... Talvez eu tenha a obrigação de preservar a quietude, o silêncio, a pobreza, o ponto virginal do puro nada que está no centro de todos os outros amores".
[Via: Ecologia Espiritual]



Usos e costumes

DR © Planalto de Santo António (Nov. 2008)

(…) o meu guia marroquino confirmou que é costume em algumas aldeias [berberes] da região de Massat, as mulheres manterem um cântaro com água à beira dos caminhos para uso dos transeuntes. Tal costume também existiu até recentemente (não investiguei se ainda existe) em algumas aldeias portuguesas em torno da Cova de Iria: em contrapartida duma graça, certas mulheres (gente pobre) cujas casas se situavam à beira dos caminhos, prometiam manter permanentemente, enquanto vivessem, um cântaro com água (e um púcaro) na varanda para o uso dos peregrinos que por lá passavam a caminho do santuário da Senhora de Fátima. Eu próprio, em miúdo, bebi desses cântaros
[ESPÍRITO SANTO, 2006: 81]

© Algures da Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ESPÍRITO SANTO, Moisés. Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, pp. 286. ISBN 972-37-0932-5

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Walk Art

A paisagem surge como o tecido cósmico onde decorrem as nossas demandas, não só a pé(s) como de corpo inteiro e alma, enquanto natural expressão da nossa arte.  

© Algures da Net

O antropólogo e arqueólogo francês André Leroi-Gourhan (1911-1986) defendeu que o desenvolvimento e o progresso da humanidade surgiram não tanto do cérebro mas dos pés. Em suma, identificou o início da humanidade com o momento a partir do qual esta adquiriu uma posição bípede persistente. Do acto de estar em pé ao andar parece “de-correr” um pequeno passo mas tal não é assim tão simples. Por outro lado, do acto de andar, erguido sobre dois pés, à arte parietal paleolítica, expressa de forma sublime em diversas grutas, vai uma passada de gigante.
Uma característica notória do género Homo é, indubitavelmente, a sua capacidade técnica e, mais ainda, artística. A produção de utensílios, não sendo seu exclusivo, toma proporções invulgares e remete para as mãos, de polegar oponível, e para numerosas questões sobre o natural e o artificial, que continuam a suscitar polémica e que estão longe de consensos.

 © Algures da Net

Ainda na sequência do post anterior, sobre o intervencionismo excessivo e desadequado no terreno/paisagem, reiteramos a importância da criatividade humana, designadamente em acções de land art, entre outras formas de expressão. Com um especial enfoque, desta feita, no “singelo” acto de andar a pé enquanto forma de arte per se e que, por isso, exige uma atenção e um reconhecimento mais amplo do que aquele que lhe é vulgarmente dado. Nesse contexto, será de realçar tanto a importância dos pés quanto a do piso e a do pisoteio. Mais, os pés não progridem sozinhos nem o trajecto se cinge ao caminho de pé-posto. A marcha processa-se de corpo (inteiro) e alma, num território que não é apenas envolvente porque o artista caminheiro é parte integrante do todo. O caminheiro faz parte da paisagem e, neste contexto, não se trata tão somente de uma expressão de walk art mas também de land art. Arte efémera, é certo, mas não menos poderosa por isso: é eterna enquanto dura!…

 © DR

Não será, pois, de estranhar que a actuação do “pedestrianismo”, no domínio da criatividade e da intervenção cívicas, se tenha tornado, particularmente desde a década de 1960, uma importante ferramenta de expressão artística contemporânea. A caminhada, nesse âmbito, surge como uma actividade multifacetada que ultrapassa, em muito, a simples motricidade, da marcha bípede, para se tornar uma liberdade de expressão, não só física como mental, mormente com uma marcada componente crítica e interventiva em domínios como a ética e a estética ambientais, a ecologia profunda e a ecosofia ou até a metafísica e o sagrado. O andar surge como acto criativo e experimental, sob múltiplas roupagens e possibilidades, em solitário ou em grupo, de forma concreta e/ou metafórica.

© Algures da Net

© DR

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Ligação à Terra


DR ©

A propósito de um passeio pedestre efectuado há alguns dias numa área florestada da península de Lisboa e face ao despropósito das intervenções aí perpetradas na rede de caminhos de pé-posto, confesso que fiquei profundamente chocado e que uma persistente sensação de, digamos, “incómodo” me tem acompanhado desde então! Uma sensação algo semelhante, mas curiosamente mais forte, àquela que recorrentemente tenho sentido quando, noutra área também florestada e situada na mesma península, sou confrontado, de há anos a esta parte, com o corte sistemático (ou a eito?) de diversas espécies do coberto vegetal! Ambas as áreas são geridas por entidades ditas “responsáveis” e que supostamente possuem técnicos superiores e especialistas (devidamente habilitados?) para desempenharem as funções pretendidas: desde logo, uma expectável conservação da “natureza” para usufruto das gerações presentes e futuras.
Se no caso do corte do coberto vegetal, designadamente de numerosas árvores, até admito que poderei não estar a ver “o filme” na sua integral complexidade e a respectiva adequação dos meios empregues, no caso da destruição dos caminhos de pé-posto poucas ou nenhumas dúvidas terei: trata-se de uma grosseira intervenção que acarreta diversos impactes ambientais negativos, ética e esteticamente desadequada, e cujas opções técnicas adoptadas na construção dos caminhos se irão revelar inequivocamente erradas e, mais uma vez, desnecessariamente onerosas. Aliás, duplamente onerosas: tendo em conta, por um lado e desde logo, os custos ambientais decorrentes da destruição de património natural devido à instalação dos “caminhos artificiais” (externalidades difíceis de quantificar, é certo) e, por outro e a curto/médio prazo, os custos resultantes da necessária manutenção e recuperação dessas infraestruturas (esses, sim, traduzidos objectivamente em euros). Mais estranho é, na mesma área, já existir uma rede de “caminhos artificiais” anteriormente implementada e a precisar de recuperação, nomeadamente devido ao surgimento de abarrancamentos. E é aí precisamente que reside uma parte (que não é de somenos) do problema: a convivência (que deixou de o ser), em simultâneo, de uma rede de “caminhos artificiais” a par de uma rede de trilhos rústicos, agora destruídos!

DR ©

ÉTICA E ESTÉTICA AMBIENTAIS
Todas as realidades (e virtualidades?) apresentam aspectos positivos e negativos, (re)velando-se uma ou ambas as facetas consoante a forma como estas se expressam ou são utilizadas. Por vezes é tudo uma questão de “conta e medida”, noutras ocasiões não se trata de uma mera questão quantitativa mas sim (e/ou também) qualitativa. Mandará a prudência e o bom senso (para não falar do bom gosto) que não se veja a realidade a preto e branco, ademais quando a mesma é multicolorida e… plurifacetada. No entanto, que fique claro, desde já, que não defendo a pretensa lapalissada de que “gostos não se discutem” ou relativismos inconsequentes, mormente em matéria de estética da paisagem e, portanto, também de ética ambiental.
A polémica, tal como as posições radicalmente opostas, no tocante a intervenções antrópicas na paisagem é algo que já vem de longe. John Muir (1838-1914), o fundador do Sierra Club, foi pioneiro na defesa da criação de parques nacionais nos Estados Unidos da América, numa perspectiva “preservacionista”, com vista a manter a natureza num estado pristino, idealmente sem qualquer intervenção humana. Por outro lado, Gilford Pinchot (1865-1946) foi defensor do conceito de “conservação da natureza” que não só admite a intervenção antrópica como assume que esta pode e deve promover impactes ambientais positivos. Nesta matéria, e tendo em conta o contexto europeu, cuja intervenção humana no território é milenar, mandará o bom senso optar por um “caminho do meio”, que o mesmo é dizer por “um meio termo”, que permita, por um lado, a livre expressão da natureza (rewilding) e, por outro, uma “equilibrada” intervenção humana (conservacionista). O que se torna difícil de tolerar é a manifesta desadequação, mormente por ignorância (e mais ainda por outras questionáveis razões), de medidas intervencionistas adoptadas, pretensamente com o intuito de melhorar o ambiente, mas cujos resultados são gritantemente o oposto! Esse tique intervencionista, recorrente e muitas vezes com contornos obsessivos, que jocosamente poderemos denominar de “Síndroma do Aprendiz de Feiticeiro”, não tem graça nenhuma, ademais quando a motivação extravasa a mera ignorância (já de si injustificada em entidades supostamente competentes) e visa mostrar “obra feita” para outros fins, designadamente eleitoralistas… O aproveitamento do paradigma do “progresse”, da “requeza” e do “desenvolvemente”! Um exemplo evidente desta parola forma de pensar (e pior ainda de agir) trata-se do recorrente alcatroamento de “caminhos históricos” de terra, e até estradas empedradas (romanas e medievais, pasme-se!), em períodos de eleições autárquicas. Por maioria de razão (ou falta dela), o que dizer da suposta melhoria (na verdade, destruição) dos parentes pobres dos caminhos, a que é dada pouca ou nenhuma importância ou relevância, ainda que possam comportar valor histórico, estético ou outro: os denominados “trilhos”, “veredas” ou “caminhos de pé-posto”?

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O UP-GRADE DA ARTIFICIALIZAÇÃO
O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) de intervencionar ambientes naturais ou semi-naturais, com vista à sua pretensa melhoria ou manutenção, trata-se de um curioso desiderato, com contornos quasi míticos, como se a natureza não fosse (auto)sustentável e existisse há milhões de anos, para mais tendo o Homo sapiens surgido há apenas comparativamente escassos milhares de anos neste condomínio que é a Terra! Tratar-se-á, afinal, de substituir “o caos pela ordem”, os aterradores espaços selvagens (wilderness) por espaços ajardinados e/ou (re)florestados, devidamente artificializados e “segurizados”, com caminhos devidamente aplanados e pavimentados, tabuletas e outras “bugigangas”.
O “TOC da artificialização” tem sofrido um incremento assinalável desde a implementação da agricultura/pastorícia e da consequente sedentarização das sociedades humanas, um crescimento exponencial desde a Revolução Industrial e renovadas formas, associadas às designadas “pós-modernidade” e “sociedade da informação”, agora mesmo em curso ou a despoletar, em velocidades vertiginosas, sob novos up-dates!
Uma das ideias recentes, já em curso, e que irá registar um enorme aumento, a breve trecho, consiste na propagada melhoria dos espaços verdes acrescentando-lhes uma ou mais dimensões virtuais, através da implementação de infraestruturas tecnológicas, mormente materializadas no terreno. Tais espaços, combinando “natureza” com tecnologia, surgem sob diversas denominações, por exemplo "espaços cibermediados ao ar livre", "espaços verdes tecnologicamente melhorados" ou "espaços verdes híbridos"!
Os promotores destes espaços híbridos consideram-nos soluções bastante inovadoras, porque tradicionalmente os ambientes naturais e os digitais/virtuais eram vistos, até há poucos anos, como algo oposto e dificilmente miscível. No entanto, hoje em dia é algo vulgar, amplamente implementado e em grande expansão: o uso de smartphones, tablets, computadores portáteis ou outros aparelhos em campo, a utilização de aplicações diversas, bibliotecas electrónicas (e-libraries) e livros digitais (e-books), o Sistema Global de Posicionamento (GPS) e a generalização de actividades como o geocaching, etc.. As novas tecnologias, nesses espaços híbridos, podem proporcionar interessantes contextos de aprendizagem, eficazes e atraentes, embora se vislumbrem horizontes preocupantes, de imediato e a muito curto prazo, no contexto do que temos vindo a abordar: a artificialização excessiva do território/paisagem e das consequências nefastas daí advenientes. O problema irá certamente agudizar-se no tocante à materialização de uma série de “inovações” no terreno: antenas, postes informativos e/ou interactivos (com tecnologias como o Código QR e outras), câmaras de filmar, drones, etc..
Não sou, de todo, contra o intervencionismo no terreno/paisagem, ademais em acções como a land art (earth art ou earthwork), surgida no final da década de 1960, precisamente e em parte como insatisfação face à sofisticada tecnologia da cultura industrial. O que considero preocupante é como, de forma paulatina e sistemática, se tem vindo a destruir os ambientes naturais substituídos por sucedâneos semi-naturais e urbanos, numa crescente adulteração e domesticação dos espaços e dos “seres”!
Na verdade, tudo poderá ser considerado relativo se, nomeadamente, for abordado a diferentes escalas temporais e/ou espaciais. E em matéria de intervenção antrópica na paisagem, se pensarmos à escala de tempo geológico (na ordem dos milhões de anos), esta torna-se perfeitamente insignificante. O que interessa a construção de uma estrada num monte se esse local, passados 100 milhões de anos, passa a ser uma peneplanície na periferia de um oceano em expansão? No entanto, a uma escala de tempo antrópico – algo dificilmente ignorável por um ser humano – as intervenções surgem bastas vezes de forma atroz, porque de atrocidades paisagísticas se tratam. Torna-se impossível não sentir tristeza face à destruição de um "trilho natural" cilindrado por um "caminho artificial"… A sensação de incómodo, a que aludimos, é afinal profunda tristeza! Quando há ligação à Terra é tão simples quanto isso.

DR ©


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AA.VV.. Manual de Monitores de Pedestrianismo. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, 2001, pp. 136. ISBN 978-989-20-0564-5
· BÉGUIN, François. Le Paysage. Paris: Flammarion, 1995, pp. 128. ISBN 2-08-035401-9
· CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6
· CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanha I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224, ISBN 978-989-96647-1-5
· FERREIRA, Conceição Coelho & SIMÕES, Natércia Neves. A Evolução do pensamento Geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986, pp. 142.
· KLICHOWSKI, Michal. Learning in hybrid spaces as technology-enhanced outdoor learning: Key terms. Disponível em
· LEOPOLD, Aldo. Pensar Como Uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008, pp. 220. ISBN 978-972-8870-10-2
· MAcFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. London: Granta Books, 2004, pp. 308
· NICOD, Jean. Pays et Paysages du Calcaire. Paris: Presses Universitaires de France, 1972, pp. 244.
· SERRÃO, Adriana Veríssimo et al.Filosofia e Arquitectura da Paisagem – Um Manual. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp. 382. ISBN 978-989-8553-12-6
· SILVANO, Filomena. Antropologia do Espaço. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp. 112. ISBN 978-972-37-1534-7

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

É Paisagem


Albert Bierstadt - Mont Blanc (séc. XIX)

«(…) estávamos a usar as nossas pernas para atravessar a paisagem.»
Bill BRAISON (in Cuiça, 2015: 55)

«A paisagem serve para designar a espécie de pano de fundo que acompanha as nossas deambulações sobre a superfície da terra
François BÉGUIN (1995: 8)

A história da noção de paisagem revela que a palavra surgiu de início para qualificar maneiras de ver em detrimento de maneiras de fazer (BÉGUIN, 1995: 8). Até ao século XVII predominou uma ‘visão’ subjectiva da paisagem, vinculada à acepção pictórica. Foram os pintores, depois os romancistas e os geógrafos, que criaram essa noção ‘visual’ de paisagem… O termo “paisagem”, a partir do século XIX, começa a ser utilizado pelos geógrafos, de um ponto de vista essencialmente geomorfológico e, posteriormente, também tendo em conta a componente antrópica na sua modelação. Nada de surpreendente tendo em conta que a maior parte das paisagens europeias foram construídas, são o resultado de uma longa história de intervenção humana, para além de uma muitíssimo mais longa história geológica. No século XX destaca-se o surgimento da abordagem holística da paisagem, iniciada por J. C. Smuts – autor de Holismo e Evolução (1926) –, tal como o surgimento da perspectiva ecológica e ecosófica. Neste contexto extremamente simplificado, já que ignora as concepções que sobre a matéria terão tido os humanos na Idade Média – a também designada “Idade das Trevas” (!) – e em épocas ainda mais recuadas, que se perdem na noite dos tempos (!!), facilmente se constata diferentes formas de entender/vivenciar a paisagem.

Nicholas Roerich - Mount of Five Treasures (1933)


MONTANHAS DA MENTE
No que concerne a mudanças radicais de entender/vivenciar paisagens destacamos a profunda mudança de paradigma na forma de “ver” a alta-montanha. Na segunda metade do século XVII começou a generalizar-se o sentimento do esplendor e beleza das paisagens montanhosas. Antes desse século, as montanhas eram consideradas esteticamente repelentes: excrescências, verrugas da terra, “desertos” e até mesmo – com as suas cristas labiais e vales vaginais – ‘partes pudendas da natureza’, habitats do sobrenatural, do hostil e de um bestiário a condizer (MAcFARLANE, 2004: 18). A maior parte das pessoas no final do século XVIII não gostava da natureza selvagem (wilderness) e, nesse contexto, também da alta-montanha. Somente no século XIX é que se generalizou a forma de ver “a beleza da(s) montanha(s)”, a par do interesse científico pela alta-montanha. Num período de três séculos ocorreu, portanto, uma tremenda revolução da percepção em relação às montanhas. Fenómeno que leva a questionar se quando olhamos uma paisagem vemos o que realmente lá está ou aquilo que sentimos/pensamos lá estar? O que chamamos “montanha” será uma conjunção do mundo físico com a imaginação dos humanos: na verdade, uma “montanha da mente” na feliz expressão de Robert MacFarlane (2004: 19).
Por último, não poderemos deixar de mencionar, no que concerne a esta mudança de paradigma, a genialidade pioneira de Leonardo da Vinci (1452-1519). Desde logo, o interesse científico que o levou a ascender diversas montanhas, designadamente, em 1511 ou 1516, o monte Bô (2556 m), para ver em primeira mão e “ao vivo” como era, de facto, esse meio. Interesse que, inevitavelmente, também era de cariz artístico: «se sabe que aquel genio admiró y sintió en su más profundo ser la belleza clásica de las montañas» (FAUS, 2003: 48). Leonardo ficou certamente impressionado pela forte luminosidade da montanha, pelo «potente azul del cielo, comparándolo con el de las gencianas» (ibidem: 47). Nesse contexto, «en sus pinturas dejará de vez en cuando que los Alpes figuraran como fondo» (ibidem), como no famoso quadro da Mona Lisa ou Gioconda, algo perfeitamente inovador não só em termos pictóricos como também conceptuais. Da Vinci, que abriu os olhos da humanidade para inúmeras inovações, contribuiu também para a descoberta da beleza da montanha.

Leonardo da Vinci - Mona Lisa, La Gioconda (1503-1506?)


Leonardo da Vinci - Santa Ana, a Virgem e o Menino (1510-1513)


GESTÃO COM BASE NA PAISAGEM
Para aqueles que praticam actividades de ar livre, ademais numa postura de ir ao encontro da Natureza, as três concepções da paisagem apresentadas acima, numa abordagem histórica, podem ser vivenciadas simultaneamente, aqui e agora, sob três perspectivas distintas mas, contudo, complementares: (1) estética, (2) científica e (3) ecosófica.
A primeira perspectiva centra-se nas emoções e nos sentimentos resultantes da paisagem: beleza, imensidão, pitoresco, etc.. Salienta-se, neste contexto, a apreensão das formas, cores e sons, da própria luminosidade e sombras, os estados transitórios dos dias e das estações, tal como as aspirações e inspirações individuais, como elementos indutores susceptíveis de contribuir para a revelação das paisagens (BÉGUIN, 1995: 24).
A segunda explora as realidades abióticas, bióticas e antrópicas de que a paisagem é a expressão conjunta, diremos nós que de modo predominantemente geográfico (melhor seria dizer “científico”). As “paisagens científicas” surgem, desta forma, como fisionomias que agrupam os traços e elementos mais característicos de uma região: o seu relevo, as litologias presentes, as linhas de água, o coberto vegetal, a fauna característica, a arquitectura popular, as estradas e caminhos, etc..
A terceira centra-se na leitura e interpretação das condições do meio e nas suas implicações a nível da tomada de decisões no que concerne à gestão de actividades no terreno. Cada área apresenta condições do terreno (paisagem exterior), variáveis ao longo dos dias e das estações do ano, que devem ser convenientemente interpretadas e geridas, com implicações a nível da tomada de decisões, no decurso de actividades, por parte dos envolvidos. Esta terceira abordagem – ecosófica (e que, por isso, se pretende holística) – baseia-se, como as anteriores, no “ver” (na visualização e/ou na leitura/interpretação da paisagem), mas privilegia o fazer (que decisões tomar a partir dessa “visualização” e/ou leitura/interpretação). A título de exemplo destacamos a leitura e a interpretação das “paisagens celestes” (no que concerne à meteorologia) e as suas implicações a nível da gestão de actividades no terreno.
A utilização prática destas três perspectivas de sentir/conhecer/analisar as paisagens, no âmbito da gestão de actividades de ar livre no terreno, deve decorrer em simultâneo, sem prejuízo de dar, em determinadas ocasiões, um especial relevo ou enfoque a uma ou duas delas. Por outro lado, a sequência de abordagem dessas perspectivas não tem necessariamente de decorrer na sequência histórica apresentada, ademais quando é sugerido que se processem em simultâneo ou seja conveniente invertê-la.
Na verdade, para quem esteja a iniciar-se na gestão concreta de actividades de ar livre e/ou tenha problemas de integrar as três perspectivas em simultâneo, no terreno, é preferível inverter a sequência histórica apresentada e começar precisamente pela abordagem ecosófica. Tendo em conta a pirâmide de necessidades de Maslow, é fundamental dar atenção às necessidades basilares – fisiológicas e de segurança – e, só depois, avançar rumo ao topo. Neste contexto, começa-se por estar atento à designada “paisagem ecosófica”, indissociável de uma abordagem prática (mormente técnica) de como fazer, focada numa percepção holística, tendo por base a satisfação das necessidades fisiológicas e a segurança dos envolvidos. Só depois se dará eventualmente importância à denominada “paisagem dos geógrafos”, assente numa abordagem científica, com vista a proporcionar aos envolvidos uma satisfação intelectual mediante a transmissão de um conjunto atractivo de conhecimentos sobre o meio envolvente. Por último, deverá ser dada uma particular atenção à chamada “paisagem dos artistas”, ancorada numa abordagem estética, com vista a atingir um amplo bem-estar e realização dos envolvidos, podendo mesmo ser atingidos estados elevados de satisfação e de maravilhamento. O factor humano, designadamente nos seus aspectos emocionais e intimistas (que poderemos designar por “paisagens interiores”), surge, portanto, como uma variável central e centralizadora que deve ser trabalhada desde o início até ao final de todas as actividades, e desde a base até ao topo da pirâmide de Maslow. Só nesse contexto é que será possível atingir uma percepção e gestão paisagística integral e integradora indissociável dos sentidos: não só a visão como também a audição, o olfacto, o tacto e o paladar.

PIRÂMIDE DE MASLOW


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AA.VV.. Manual de Monitores de Pedestrianismo. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, 2001, pp. 136. ISBN 978-989-20-0564-5
· BÉGUIN, François. Le Paysage. Paris: Flammarion, 1995, pp. 128. ISBN 2-08-035401-9
· CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6
· CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanha I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224, ISBN 978-989-96647-1-5
· FAUS, Agustín. Historia del Alpinismo – Montañas y Hombres: Hasta los albores del siglo XX. Cuarte: Barrabés Editorial, vol. I, 2003, pp. 304.
· FERREIRA, Conceição Coelho & SIMÕES, Natércia Neves. A Evolução do pensamento Geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986, pp. 142.
· LEOPOLD, Aldo. Pensar Como Uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008, pp. 220. ISBN 978-972-8870-10-2
· MAcFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. London: Granta Books, 2004, pp. 308
· NICOD, Jean. Pays et Paysages du Calcaire. Paris: Presses Universitaires de France, 1972, pp. 244.
· SERRÃO, Adriana Veríssimo et al.. Filosofia e Arquitectura da Paisagem – Um Manual. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp. 382. ISBN 978-989-8553-12-6
· SILVANO, Filomena. Antropologia do Espaço. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp. 112. ISBN 978-972-37-1534-7

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Escolas de Ar Livre


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A leitura da edição deste mês da revista Montagne360 suscitou a nossa especial atenção para uma pequena notícia sobre a realização, no dia 6 de Abril, do primeiro seminário para professores e gestores de escolas primárias ao ar livre, a decorrer em Itália.

«Nonostante l’insegnamento all’aperto abbia profonde origine storiche che risalgono a oltre un secolo fa, il modo di far lesione è profondamente cambiato nel tempo. Eppure, nonostante molti istituti scolastici svolgano lezioni in aula, sta parallelamente fiorendo un interesse diffuso verso la straordinaria opportunità di svolgere scuola all’aperto. E così si moltiplicano le esperienze e, com loro, anche l’interesse degli enti, degli istituti e delle famiglie nei confronti di questa esperienza che permette a ragazzi e bambini (in particolar modo quelli che frequentano nidi e scuole d’infanzia) di tornare a vivere (e imparare) in un ambiente naturale. Accade in montagna, certo. Ma anche nelle città che valorizzano la presenza di Boschi, parchi e giardini. Con queste premesse il Comune di Lucca, la Rete nazionale delle scuole all’aperto e l’Istituto compreensivo capofila IC12 di Bologna hanno promosso il primo seminario nazionale degli insegnanti e dei dirigenti delle scuole primarie all’aperto. L’appuntamento è per sábado 6 aprile próprio a Lucca, nella storica sede del Real Collegio (Piazza del Collegio, 13). Sarà l’occasione per approfondire la tematiche legate a educazione e natura. Ma a Lucca s’incontreranno anche insegnanti, dirigenti scolastici, formatori, ricercatori, facilitatori e referenti istituzionali provenienti da tutta Italia. La scheda d’iscrizione e il programma dell’incontro, che sarà accreditato e offrirà punti per la formazione, saranno pubblicati sul sito scuoleallaperto.com.» [Montagne360, Fev. 2019: 8]

O crescente afastamento da natureza e dos espaços de ar livre, o aumento do sedentarismo e da vivência de espaços virtuais e/ou fechados, por parte dos adultos em geral e das crianças e jovens em particular, é algo que assume proporções preocupantes e que, por isso, tem sido alvo de variados e recorrentes alertas e propostas com vista à sua mitigação ou resolução. Os estudos e iniciativas surgem em diversos países não só europeus como noutros continentes, com particular destaque para a Noruega, Suécia, Japão e Estados Unidos, entre outros. Nesse contexto, Portugal também merece uma menção tendo em conta, mormente, o trabalho realizado por Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), que se dedica há mais de quatro décadas à investigação sobre a actividade física/desporto, desenvolvimento e ecologia da criança. Essa área tem sido alvo da abordagem de diversos estudos portugueses mas torna-se, cada vez mais, evidente e imperiosa a necessidade de passar à prática, na medida inversa do abandono das brincadeiras e jogos de rua. Simultaneamente a destruição, a passos largos, de ambientes naturais e semi-naturais, a par de alienantes vivências virtuais, aporta não só à já tradicional retórica da “conservação da natureza” mas exige, sobretudo, renovadas posturas proteccionistas não só de naturezas pristinas (!), onde as houver, mas também de efectivas formas de rewilding e, ademais, de novas formas ancestrais de ser/estar/pensar. Ao estilo Pessoano, só aparentemente paradoxal, das “saudades do futuro”... Neste contexto, é de realçar o papel importantíssimo que os movimentos esco(u)tista e campista tiveram, e continuam a ter, no que concerne ao contacto com a "natureza" e a prática de actividades de ar livre. No entanto, pensamos que os dias que correm e os desafios a curto/médio prazo exigem renovadas e motivadoras abordagens com grande enfoque na livre recreação das crianças e jovens, com base em processos de ensino-aprendizagem na "natureza" que potenciem a sua auto-organização, responsabilização e são desenvolvimento.
A sensibilização e educação ambientais são primordiais na implementação de autênticas mudanças de paradigmas, rumo a existências verdadeiramente sustentáveis. A mudança passa inevitavelmente por práticas simples e naturais, de ar livre. E, nesse pressuposto, o acto multifacetado de andar a pé terá indubitavelmente uma importância tão basilar quanto incontornável.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La revista del Club alpino italiano. Bolonha, nº 77, Fevereiro 2019, pp. 80.