quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Ligação à Terra


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A propósito de um passeio pedestre efectuado há alguns dias numa área florestada da península de Lisboa e face ao despropósito das intervenções aí perpetradas na rede de caminhos de pé-posto, confesso que fiquei profundamente chocado e que uma persistente sensação de, digamos, “incómodo” me tem acompanhado desde então! Uma sensação algo semelhante, mas curiosamente mais forte, àquela que recorrentemente tenho sentido quando, noutra área também florestada e situada na mesma península, sou confrontado, de há anos a esta parte, com o corte sistemático (ou a eito?) de diversas espécies do coberto vegetal! Ambas as áreas são geridas por entidades ditas “responsáveis” e que supostamente possuem técnicos superiores e especialistas (devidamente habilitados?) para desempenharem as funções pretendidas: desde logo, uma expectável conservação da “natureza” para usufruto das gerações presentes e futuras.
Se no caso do corte do coberto vegetal, designadamente de numerosas árvores, até admito que poderei não estar a ver “o filme” na sua integral complexidade e a respectiva adequação dos meios empregues, no caso da destruição dos caminhos de pé-posto poucas ou nenhumas dúvidas terei: trata-se de uma grosseira intervenção que acarreta diversos impactes ambientais negativos, ética e esteticamente desadequada, e cujas opções técnicas adoptadas na construção dos caminhos se irão revelar inequivocamente erradas e, mais uma vez, desnecessariamente onerosas. Aliás, duplamente onerosas: tendo em conta, por um lado e desde logo, os custos ambientais decorrentes da destruição de património natural devido à instalação dos “caminhos artificiais” (externalidades difíceis de quantificar, é certo) e, por outro e a curto/médio prazo, os custos resultantes da necessária manutenção e recuperação dessas infraestruturas (esses, sim, traduzidos objectivamente em euros). Mais estranho é, na mesma área, já existir uma rede de “caminhos artificiais” anteriormente implementada e a precisar de recuperação, nomeadamente devido ao surgimento de abarrancamentos. E é aí precisamente que reside uma parte (que não é de somenos) do problema: a convivência (que deixou de o ser), em simultâneo, de uma rede de “caminhos artificiais” a par de uma rede de trilhos rústicos, agora destruídos!

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ÉTICA E ESTÉTICA AMBIENTAIS
Todas as realidades (e virtualidades?) apresentam aspectos positivos e negativos, (re)velando-se uma ou ambas as facetas consoante a forma como estas se expressam ou são utilizadas. Por vezes é tudo uma questão de “conta e medida”, noutras ocasiões não se trata de uma mera questão quantitativa mas sim (e/ou também) qualitativa. Mandará a prudência e o bom senso (para não falar do bom gosto) que não se veja a realidade a preto e branco, ademais quando a mesma é multicolorida e… plurifacetada. No entanto, que fique claro, desde já, que não defendo a pretensa lapalissada de que “gostos não se discutem” ou relativismos inconsequentes, mormente em matéria de estética da paisagem e, portanto, também de ética ambiental.
A polémica, tal como as posições radicalmente opostas, no tocante a intervenções antrópicas na paisagem é algo que já vem de longe. John Muir (1838-1914), o fundador do Sierra Club, foi pioneiro na defesa da criação de parques nacionais nos Estados Unidos da América, numa perspectiva “preservacionista”, com vista a manter a natureza num estado pristino, idealmente sem qualquer intervenção humana. Por outro lado, Gilford Pinchot (1865-1946) foi defensor do conceito de “conservação da natureza” que não só admite a intervenção antrópica como assume que esta pode e deve promover impactes ambientais positivos. Nesta matéria, e tendo em conta o contexto europeu, cuja intervenção humana no território é milenar, mandará o bom senso optar por um “caminho do meio”, que o mesmo é dizer por “um meio termo”, que permita, por um lado, a livre expressão da natureza (rewilding) e, por outro, uma “equilibrada” intervenção humana (conservacionista). O que se torna difícil de tolerar é a manifesta desadequação, mormente por ignorância (e mais ainda por outras questionáveis razões), de medidas intervencionistas adoptadas, pretensamente com o intuito de melhorar o ambiente, mas cujos resultados são gritantemente o oposto! Esse tique intervencionista, recorrente e muitas vezes com contornos obsessivos, que jocosamente poderemos denominar de “Síndroma do Aprendiz de Feiticeiro”, não tem graça nenhuma, ademais quando a motivação extravasa a mera ignorância (já de si injustificada em entidades supostamente competentes) e visa mostrar “obra feita” para outros fins, designadamente eleitoralistas… O aproveitamento do paradigma do “progresse”, da “requeza” e do “desenvolvemente”! Um exemplo evidente desta parola forma de pensar (e pior ainda de agir) trata-se do recorrente alcatroamento de “caminhos históricos” de terra, e até estradas empedradas (romanas e medievais, pasme-se!), em períodos de eleições autárquicas. Por maioria de razão (ou falta dela), o que dizer da suposta melhoria (na verdade, destruição) dos parentes pobres dos caminhos, a que é dada pouca ou nenhuma importância ou relevância, ainda que possam comportar valor histórico, estético ou outro: os denominados “trilhos”, “veredas” ou “caminhos de pé-posto”?

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O UP-GRADE DA ARTIFICIALIZAÇÃO
O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) de intervencionar ambientes naturais ou semi-naturais, com vista à sua pretensa melhoria ou manutenção, trata-se de um curioso desiderato, com contornos quasi míticos, como se a natureza não fosse (auto)sustentável e existisse há milhões de anos, para mais tendo o Homo sapiens surgido há apenas comparativamente escassos milhares de anos neste condomínio que é a Terra! Tratar-se-á, afinal, de substituir “o caos pela ordem”, os aterradores espaços selvagens (wilderness) por espaços ajardinados e/ou (re)florestados, devidamente artificializados e “segurizados”, com caminhos devidamente aplanados e pavimentados, tabuletas e outras “bugigangas”.
O “TOC da artificialização” tem sofrido um incremento assinalável desde a implementação da agricultura/pastorícia e da consequente sedentarização das sociedades humanas, um crescimento exponencial desde a Revolução Industrial e renovadas formas, associadas às designadas “pós-modernidade” e “sociedade da informação”, agora mesmo em curso ou a despoletar, em velocidades vertiginosas, sob novos up-dates!
Uma das ideias recentes, já em curso, e que irá registar um enorme aumento, a breve trecho, consiste na propagada melhoria dos espaços verdes acrescentando-lhes uma ou mais dimensões virtuais, através da implementação de infraestruturas tecnológicas, mormente materializadas no terreno. Tais espaços, combinando “natureza” com tecnologia, surgem sob diversas denominações, por exemplo "espaços cibermediados ao ar livre", "espaços verdes tecnologicamente melhorados" ou "espaços verdes híbridos"!
Os promotores destes espaços híbridos consideram-nos soluções bastante inovadoras, porque tradicionalmente os ambientes naturais e os digitais/virtuais eram vistos, até há poucos anos, como algo oposto e dificilmente miscível. No entanto, hoje em dia é algo vulgar, amplamente implementado e em grande expansão: o uso de smartphones, tablets, computadores portáteis ou outros aparelhos em campo, a utilização de aplicações diversas, bibliotecas electrónicas (e-libraries) e livros digitais (e-books), o Sistema Global de Posicionamento (GPS) e a generalização de actividades como o geocaching, etc.. As novas tecnologias, nesses espaços híbridos, podem proporcionar interessantes contextos de aprendizagem, eficazes e atraentes, embora se vislumbrem horizontes preocupantes, de imediato e a muito curto prazo, no contexto do que temos vindo a abordar: a artificialização excessiva do território/paisagem e das consequências nefastas daí advenientes. O problema irá certamente agudizar-se no tocante à materialização de uma série de “inovações” no terreno: antenas, postes informativos e/ou interactivos (com tecnologias como o Código QR e outras), câmaras de filmar, drones, etc..
Não sou, de todo, contra o intervencionismo no terreno/paisagem, ademais em acções como a land art (earth art ou earthwork), surgida no final da década de 1960, precisamente e em parte como insatisfação face à sofisticada tecnologia da cultura industrial. O que considero preocupante é como, de forma paulatina e sistemática, se tem vindo a destruir os ambientes naturais substituídos por sucedâneos semi-naturais e urbanos, numa crescente adulteração e domesticação dos espaços e dos “seres”!
Na verdade, tudo poderá ser considerado relativo se, nomeadamente, for abordado a diferentes escalas temporais e/ou espaciais. E em matéria de intervenção antrópica na paisagem, se pensarmos à escala de tempo geológico (na ordem dos milhões de anos), esta torna-se perfeitamente insignificante. O que interessa a construção de uma estrada num monte se esse local, passados 100 milhões de anos, passa a ser uma peneplanície na periferia de um oceano em expansão? No entanto, a uma escala de tempo antrópico – algo dificilmente ignorável por um ser humano – as intervenções surgem bastas vezes de forma atroz, porque de atrocidades paisagísticas se tratam. Torna-se impossível não sentir tristeza face à destruição de um "trilho natural" cilindrado por um "caminho artificial"… A sensação de incómodo, a que aludimos, é afinal profunda tristeza! Quando há ligação à Terra é tão simples quanto isso.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AA.VV.. Manual de Monitores de Pedestrianismo. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, 2001, pp. 136. ISBN 978-989-20-0564-5
· BÉGUIN, François. Le Paysage. Paris: Flammarion, 1995, pp. 128. ISBN 2-08-035401-9
· CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6
· CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanha I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224, ISBN 978-989-96647-1-5
· FERREIRA, Conceição Coelho & SIMÕES, Natércia Neves. A Evolução do pensamento Geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986, pp. 142.
· KLICHOWSKI, Michal. Learning in hybrid spaces as technology-enhanced outdoor learning: Key terms. Disponível em
· LEOPOLD, Aldo. Pensar Como Uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008, pp. 220. ISBN 978-972-8870-10-2
· MAcFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. London: Granta Books, 2004, pp. 308
· NICOD, Jean. Pays et Paysages du Calcaire. Paris: Presses Universitaires de France, 1972, pp. 244.
· SERRÃO, Adriana Veríssimo et al.Filosofia e Arquitectura da Paisagem – Um Manual. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp. 382. ISBN 978-989-8553-12-6
· SILVANO, Filomena. Antropologia do Espaço. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp. 112. ISBN 978-972-37-1534-7

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

É Paisagem


Albert Bierstadt - Mont Blanc (séc. XIX)

«(…) estávamos a usar as nossas pernas para atravessar a paisagem.»
Bill BRAISON (in Cuiça, 2015: 55)

«A paisagem serve para designar a espécie de pano de fundo que acompanha as nossas deambulações sobre a superfície da terra
François BÉGUIN (1995: 8)

A história da noção de paisagem revela que a palavra surgiu de início para qualificar maneiras de ver em detrimento de maneiras de fazer (BÉGUIN, 1995: 8). Até ao século XVII predominou uma ‘visão’ subjectiva da paisagem, vinculada à acepção pictórica. Foram os pintores, depois os romancistas e os geógrafos, que criaram essa noção ‘visual’ de paisagem… O termo “paisagem”, a partir do século XIX, começa a ser utilizado pelos geógrafos, de um ponto de vista essencialmente geomorfológico e, posteriormente, também tendo em conta a componente antrópica na sua modelação. Nada de surpreendente tendo em conta que a maior parte das paisagens europeias foram construídas, são o resultado de uma longa história de intervenção humana, para além de uma muitíssimo mais longa história geológica. No século XX destaca-se o surgimento da abordagem holística da paisagem, iniciada por J. C. Smuts – autor de Holismo e Evolução (1926) –, tal como o surgimento da perspectiva ecológica e ecosófica. Neste contexto extremamente simplificado, já que ignora as concepções que sobre a matéria terão tido os humanos na Idade Média – a também designada “Idade das Trevas” (!) – e em épocas ainda mais recuadas, que se perdem na noite dos tempos (!!), facilmente se constata diferentes formas de entender/vivenciar a paisagem.

Nicholas Roerich - Mount of Five Treasures (1933)


MONTANHAS DA MENTE
No que concerne a mudanças radicais de entender/vivenciar paisagens destacamos a profunda mudança de paradigma na forma de “ver” a alta-montanha. Na segunda metade do século XVII começou a generalizar-se o sentimento do esplendor e beleza das paisagens montanhosas. Antes desse século, as montanhas eram consideradas esteticamente repelentes: excrescências, verrugas da terra, “desertos” e até mesmo – com as suas cristas labiais e vales vaginais – ‘partes pudendas da natureza’, habitats do sobrenatural, do hostil e de um bestiário a condizer (MAcFARLANE, 2004: 18). A maior parte das pessoas no final do século XVIII não gostava da natureza selvagem (wilderness) e, nesse contexto, também da alta-montanha. Somente no século XIX é que se generalizou a forma de ver “a beleza da(s) montanha(s)”, a par do interesse científico pela alta-montanha. Num período de três séculos ocorreu, portanto, uma tremenda revolução da percepção em relação às montanhas. Fenómeno que leva a questionar se quando olhamos uma paisagem vemos o que realmente lá está ou aquilo que sentimos/pensamos lá estar? O que chamamos “montanha” será uma conjunção do mundo físico com a imaginação dos humanos: na verdade, uma “montanha da mente” na feliz expressão de Robert MacFarlane (2004: 19).
Por último, não poderemos deixar de mencionar, no que concerne a esta mudança de paradigma, a genialidade pioneira de Leonardo da Vinci (1452-1519). Desde logo, o interesse científico que o levou a ascender diversas montanhas, designadamente, em 1511 ou 1516, o monte Bô (2556 m), para ver em primeira mão e “ao vivo” como era, de facto, esse meio. Interesse que, inevitavelmente, também era de cariz artístico: «se sabe que aquel genio admiró y sintió en su más profundo ser la belleza clásica de las montañas» (FAUS, 2003: 48). Leonardo ficou certamente impressionado pela forte luminosidade da montanha, pelo «potente azul del cielo, comparándolo con el de las gencianas» (ibidem: 47). Nesse contexto, «en sus pinturas dejará de vez en cuando que los Alpes figuraran como fondo» (ibidem), como no famoso quadro da Mona Lisa ou Gioconda, algo perfeitamente inovador não só em termos pictóricos como também conceptuais. Da Vinci, que abriu os olhos da humanidade para inúmeras inovações, contribuiu também para a descoberta da beleza da montanha.

Leonardo da Vinci - Mona Lisa, La Gioconda (1503-1506?)


Leonardo da Vinci - Santa Ana, a Virgem e o Menino (1510-1513)


GESTÃO COM BASE NA PAISAGEM
Para aqueles que praticam actividades de ar livre, ademais numa postura de ir ao encontro da Natureza, as três concepções da paisagem apresentadas acima, numa abordagem histórica, podem ser vivenciadas simultaneamente, aqui e agora, sob três perspectivas distintas mas, contudo, complementares: (1) estética, (2) científica e (3) ecosófica.
A primeira perspectiva centra-se nas emoções e nos sentimentos resultantes da paisagem: beleza, imensidão, pitoresco, etc.. Salienta-se, neste contexto, a apreensão das formas, cores e sons, da própria luminosidade e sombras, os estados transitórios dos dias e das estações, tal como as aspirações e inspirações individuais, como elementos indutores susceptíveis de contribuir para a revelação das paisagens (BÉGUIN, 1995: 24).
A segunda explora as realidades abióticas, bióticas e antrópicas de que a paisagem é a expressão conjunta, diremos nós que de modo predominantemente geográfico (melhor seria dizer “científico”). As “paisagens científicas” surgem, desta forma, como fisionomias que agrupam os traços e elementos mais característicos de uma região: o seu relevo, as litologias presentes, as linhas de água, o coberto vegetal, a fauna característica, a arquitectura popular, as estradas e caminhos, etc..
A terceira centra-se na leitura e interpretação das condições do meio e nas suas implicações a nível da tomada de decisões no que concerne à gestão de actividades no terreno. Cada área apresenta condições do terreno (paisagem exterior), variáveis ao longo dos dias e das estações do ano, que devem ser convenientemente interpretadas e geridas, com implicações a nível da tomada de decisões, no decurso de actividades, por parte dos envolvidos. Esta terceira abordagem – ecosófica (e que, por isso, se pretende holística) – baseia-se, como as anteriores, no “ver” (na visualização e/ou na leitura/interpretação da paisagem), mas privilegia o fazer (que decisões tomar a partir dessa “visualização” e/ou leitura/interpretação). A título de exemplo destacamos a leitura e a interpretação das “paisagens celestes” (no que concerne à meteorologia) e as suas implicações a nível da gestão de actividades no terreno.
A utilização prática destas três perspectivas de sentir/conhecer/analisar as paisagens, no âmbito da gestão de actividades de ar livre no terreno, deve decorrer em simultâneo, sem prejuízo de dar, em determinadas ocasiões, um especial relevo ou enfoque a uma ou duas delas. Por outro lado, a sequência de abordagem dessas perspectivas não tem necessariamente de decorrer na sequência histórica apresentada, ademais quando é sugerido que se processem em simultâneo ou seja conveniente invertê-la.
Na verdade, para quem esteja a iniciar-se na gestão concreta de actividades de ar livre e/ou tenha problemas de integrar as três perspectivas em simultâneo, no terreno, é preferível inverter a sequência histórica apresentada e começar precisamente pela abordagem ecosófica. Tendo em conta a pirâmide de necessidades de Maslow, é fundamental dar atenção às necessidades basilares – fisiológicas e de segurança – e, só depois, avançar rumo ao topo. Neste contexto, começa-se por estar atento à designada “paisagem ecosófica”, indissociável de uma abordagem prática (mormente técnica) de como fazer, focada numa percepção holística, tendo por base a satisfação das necessidades fisiológicas e a segurança dos envolvidos. Só depois se dará eventualmente importância à denominada “paisagem dos geógrafos”, assente numa abordagem científica, com vista a proporcionar aos envolvidos uma satisfação intelectual mediante a transmissão de um conjunto atractivo de conhecimentos sobre o meio envolvente. Por último, deverá ser dada uma particular atenção à chamada “paisagem dos artistas”, ancorada numa abordagem estética, com vista a atingir um amplo bem-estar e realização dos envolvidos, podendo mesmo ser atingidos estados elevados de satisfação e de maravilhamento. O factor humano, designadamente nos seus aspectos emocionais e intimistas (que poderemos designar por “paisagens interiores”), surge, portanto, como uma variável central e centralizadora que deve ser trabalhada desde o início até ao final de todas as actividades, e desde a base até ao topo da pirâmide de Maslow. Só nesse contexto é que será possível atingir uma percepção e gestão paisagística integral e integradora indissociável dos sentidos: não só a visão como também a audição, o olfacto, o tacto e o paladar.

PIRÂMIDE DE MASLOW


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AA.VV.. Manual de Monitores de Pedestrianismo. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, 2001, pp. 136. ISBN 978-989-20-0564-5
· BÉGUIN, François. Le Paysage. Paris: Flammarion, 1995, pp. 128. ISBN 2-08-035401-9
· CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6
· CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanha I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224, ISBN 978-989-96647-1-5
· FAUS, Agustín. Historia del Alpinismo – Montañas y Hombres: Hasta los albores del siglo XX. Cuarte: Barrabés Editorial, vol. I, 2003, pp. 304.
· FERREIRA, Conceição Coelho & SIMÕES, Natércia Neves. A Evolução do pensamento Geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986, pp. 142.
· LEOPOLD, Aldo. Pensar Como Uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008, pp. 220. ISBN 978-972-8870-10-2
· MAcFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. London: Granta Books, 2004, pp. 308
· NICOD, Jean. Pays et Paysages du Calcaire. Paris: Presses Universitaires de France, 1972, pp. 244.
· SERRÃO, Adriana Veríssimo et al.. Filosofia e Arquitectura da Paisagem – Um Manual. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp. 382. ISBN 978-989-8553-12-6
· SILVANO, Filomena. Antropologia do Espaço. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp. 112. ISBN 978-972-37-1534-7

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Escolas de Ar Livre


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A leitura da edição deste mês da revista Montagne360 suscitou a nossa especial atenção para uma pequena notícia sobre a realização, no dia 6 de Abril, do primeiro seminário para professores e gestores de escolas primárias ao ar livre, a decorrer em Itália.

«Nonostante l’insegnamento all’aperto abbia profonde origine storiche che risalgono a oltre un secolo fa, il modo di far lesione è profondamente cambiato nel tempo. Eppure, nonostante molti istituti scolastici svolgano lezioni in aula, sta parallelamente fiorendo un interesse diffuso verso la straordinaria opportunità di svolgere scuola all’aperto. E così si moltiplicano le esperienze e, com loro, anche l’interesse degli enti, degli istituti e delle famiglie nei confronti di questa esperienza che permette a ragazzi e bambini (in particolar modo quelli che frequentano nidi e scuole d’infanzia) di tornare a vivere (e imparare) in un ambiente naturale. Accade in montagna, certo. Ma anche nelle città che valorizzano la presenza di Boschi, parchi e giardini. Con queste premesse il Comune di Lucca, la Rete nazionale delle scuole all’aperto e l’Istituto compreensivo capofila IC12 di Bologna hanno promosso il primo seminario nazionale degli insegnanti e dei dirigenti delle scuole primarie all’aperto. L’appuntamento è per sábado 6 aprile próprio a Lucca, nella storica sede del Real Collegio (Piazza del Collegio, 13). Sarà l’occasione per approfondire la tematiche legate a educazione e natura. Ma a Lucca s’incontreranno anche insegnanti, dirigenti scolastici, formatori, ricercatori, facilitatori e referenti istituzionali provenienti da tutta Italia. La scheda d’iscrizione e il programma dell’incontro, che sarà accreditato e offrirà punti per la formazione, saranno pubblicati sul sito scuoleallaperto.com.» [Montagne360, Fev. 2019: 8]

O crescente afastamento da natureza e dos espaços de ar livre, o aumento do sedentarismo e da vivência de espaços virtuais e/ou fechados, por parte dos adultos em geral e das crianças e jovens em particular, é algo que assume proporções preocupantes e que, por isso, tem sido alvo de variados e recorrentes alertas e propostas com vista à sua mitigação ou resolução. Os estudos e iniciativas surgem em diversos países não só europeus como noutros continentes, com particular destaque para a Noruega, Suécia, Japão e Estados Unidos, entre outros. Nesse contexto, Portugal também merece uma menção tendo em conta, mormente, o trabalho realizado por Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), que se dedica há mais de quatro décadas à investigação sobre a actividade física/desporto, desenvolvimento e ecologia da criança. Essa área tem sido alvo da abordagem de diversos estudos portugueses mas torna-se, cada vez mais, evidente e imperiosa a necessidade de passar à prática, na medida inversa do abandono das brincadeiras e jogos de rua. Simultaneamente a destruição, a passos largos, de ambientes naturais e semi-naturais, a par de alienantes vivências virtuais, aporta não só à já tradicional retórica da “conservação da natureza” mas exige, sobretudo, renovadas posturas proteccionistas não só de naturezas pristinas (!), onde as houver, mas também de efectivas formas de rewilding e, ademais, de novas formas ancestrais de ser/estar/pensar. Ao estilo Pessoano, só aparentemente paradoxal, das “saudades do futuro”... Neste contexto, é de realçar o papel importantíssimo que os movimentos esco(u)tista e campista tiveram, e continuam a ter, no que concerne ao contacto com a "natureza" e a prática de actividades de ar livre. No entanto, pensamos que os dias que correm e os desafios a curto/médio prazo exigem renovadas e motivadoras abordagens com grande enfoque na livre recreação das crianças e jovens, com base em processos de ensino-aprendizagem na "natureza" que potenciem a sua auto-organização, responsabilização e são desenvolvimento.
A sensibilização e educação ambientais são primordiais na implementação de autênticas mudanças de paradigmas, rumo a existências verdadeiramente sustentáveis. A mudança passa inevitavelmente por práticas simples e naturais, de ar livre. E, nesse pressuposto, o acto multifacetado de andar a pé terá indubitavelmente uma importância tão basilar quanto incontornável.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La revista del Club alpino italiano. Bolonha, nº 77, Fevereiro 2019, pp. 80.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Vem andar connosco


DR © Centro Desportivo Nacional do Jamor  (6 de Janeiro de 2019)

O programa Ande pela sua Saúde e pela Saúde do Planeta continua a promover passeios pedestres, neste novo ano, todos os domingos de manhã no Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ). Esta é uma iniciativa, gratuita e aberta a todos os interessados dos “8 aos 80”, que pretende implementar a prática regular de actividade física com base na caminhada integrada com outros exercícios light, designadamente através de banhos de floresta. Os benefícios para a saúde de uma prática regular de actividade física são comprovadamente inúmeros, ademais quando esta é efectuada ao ar livre e no seio da natureza.
Ande pela sua Saúde é um programa, coorganizado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), a não perder. Todas as actividades são devidamente enquadradas por detentores de Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III. O ponto de encontro é, às 9.30 a.m., junto da “parede de escalada” situada no Parque Urbano do Jamor (coordenadas UTM 29S 477682 4284222). É fundamental contrariar as estatísticas que colocam Portugal entre os 11 países mais sedentários do mundo! Domingo não fiques parado, vem andar connosco.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Através da paisagem


Lentamente, o meu cérebro começou a reajustar-se a espaços que não utilizava havia meses. Durante muito tempo, tinha vivido na universidade, em bibliotecas e salas de aula, de cenho franzido a olhar para ecrãs, a corrigir trabalhos, a tentar encontrar referências académicas. Era um outro tipo de perseguição. Ali eu era um animal diferente. Alguma vez viram um veado a sair do seu esconderijo? Dão um passo, param e ficam imóveis, com o nariz no ar, a olhar e a farejar. Um frémito nervoso poderá percorrer-lhe os flancos. E depois, tranquilizados por se sentirem em segurança, saem do meio dos arbustos para irem pastar. Naquela manhã, senti-me como o veado. Não que estivesse a farejar o ar ou parada com medo – mas tal como ele, estava dominada por modos muito antigos e emocionais de me deslocar através de uma paisagem, a experimentar formas de atenção e de comportamento que estavam para além do controlo consciente. Qualquer coisa dentro de mim comandava os meus passos sem que eu tivesse grande consciência disso. Talvez fossem milhões de anos de evolução, talvez fosse intuição, mas na minha busca de açores sinto-me tensa quando caminho ou estou imóvel ao sol, dou comigo a dirigir-me inconscientemente para zonas de luz, ou escapar-me para zonas de sombra estreitas e frias ao longo dos vastos intervalos entre os renques de pinheiros. Encolho-me se oiço o chamamento de um gaio, ou o grito de alarme repetido e zangado de um corvo. Estes dois sons podiam significar Alerta, humano! ou Alerta, açor! E naquela manhã eu estava a tentar encontrar um ocultando o outro. Essas antigas intuições fantasmagóricas que há milénios ligam corpo e espírito tinham-se afirmado, impondo a sua vontade, fazendo-me sentir incomodada sob a luz intensa do sol, inquieta no lado errado de uma cumeeira, de certo modo obrigada a caminhar sobre uma elevação coberta de ervas descoradas para chegar a qualquer coisa do outro lado que acabaria por se revelar um lago.
[MACDONALD, 2015: 14]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Senso e Sentido

Hoje, que se realiza o lançamento do Volume X das Obras Completas de António Telmo, Capelas Imperfeitas, editadas pela casa Zéfiro, deparei-me com um pequeno texto – Carta íntima a mim próprio – integrante do Volume I dessa “colectânea”, A Terra Prometida, com interessantes considerandos acerca do senso e do sentido, que me remeteram para as caminhadas holotrópicas, mormente pelo marcado cariz sensorial destas. Afinal tudo está (inter)ligado a tudo e, ademais, algumas coisas mais que outras…


«O ouvido torna-se um foco de atenção quando falta a luz. O principal foco da atenção. Depois vem o olfacto e o tacto. A vista guia-se por estes três sentidos. Os filósofos para quem o mundo sensível é uma noite detêm o segredo da palavra que expulsa os ídolos. Este de que falamos [Sampaio Bruno] é desta espécie e daí privilegiar a metáfora, não pelo seu esplendor, mas pelo que ela manifesta do poder da palavra transformando o sentido.
Álvaro Ribeiro, seu discípulo, nisto como noutras coisas igualmente importantes, não gostava da palavra sentido, utilizada para designar os cinco órgãos de apreensão do sensível. Propunha senso para a substituir. O sentido, ensinava ele, é o que o senso encontra fora de si. Não é o em quem sente, mas o no que é sentido. Estranhamente preferiu o rigor lógico da linguagem ao seu uso popular, que tanto prezava. Preferiu o científico ao primitivo. É um dos poucos pontos em que não posso estar com ele. Pois que, quando dizemos, como é uso popular, que por determinado caminho vou no sentido do norte, digo muito mais do que se dissesse que vou na sua direcção. Sinto o Norte para aquele lado, o Norte torna-se o que sinto, isto é, o meu sentido, o que está em mim e ao mesmo tempo lá fora. Do mesmo modo, quando, numa quadra popular, ele diz para ela “Trago-te no meu sentido”, o sentido aqui é a alma que sente e a alma que ela é.
A designação dos cinco sentidos é toda ela feita com particípios passados: Ouvido, vista, olfacto, tacto. Toda, não. Falta o paladar, que é uma operação do palato. Passado ou perfeito, o que diz um mundo sensível integrado no nosso senti-lo.»
[TELMO, 2014: 146-147]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TELMO, António. A Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo & Quinto Império. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. I, 2014, pp. 212. ISBN 978-989-677-115-7
TELMO, António. Capelas Imperfeitas – dispersos e inéditos. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. X, 2019, pp. 286. ISBN 978-989-677-167-6

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Praktognosia


The body, in general, can be seen as a dispositif, such as, in particular, the pendulum movement of the legs!…

© algures na Net

«“Dispositif” derives from the Latin “disponere”, “dispositum”, “dispositio”, and all of these terms refer to a sence of placement and ordaining. A dispositif implies a series of orders, of things that can or cannot be done. Regardless of rigourous comprehensiveness, we may say that a dispositif defines what a bio-political body can do.
A dispositif thus ties knowledge and power. Gilles Deleuze (1988), in reference to his friend Foucault´s work, has put the emphasis on how the Subject is the output of this tie (…), that is, on how the dispositif is tantamount to a process  of subjectivation. This way, a peculiar definition of Subject comes out: it results from a dispositif defined by that which can or cannot be done. Foucault, on speaking about-biopolitcs, underscored how dispositifs are able to be aplied on bodies, actually speaking about neoliberal orthopedics (…). This way, we are in front of a conception of the Subject and knowledge that is opposite to the classical model, according to which the Subject is mere conciousness while knowledge amounts to determining what a body objectively is.Though the dispositif, new light can be shed on the mind-body, Subject-object relation.
This Foucauldian perspective – akin to a post-structuralist take on the matter – mind and body, Subject and object do not constitute an antithesis. Conciousness thus is not the expression of a transcendental Subject, concious of itself and the world around it; instead, consciousness amounts to all that a body has learned – one could say, experience protocols (…). In this view, the body is not the noematic correlative of consciousness, a mere object, but instead it is everything that can be done with respect to these protocols. A body therefore is not a thing but a potency.
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 23-24]

«Praktognosia is a portmanteau built by “praxis” (action) and “gnosis” (knowledge), and it stands for the strong tie between knowing and doing. This tie is double: it indicates knowledge of ways of doing, through it’s not just a preliminar kind of knowledge placed immediately before action; this would lead to suppose that there is a knowing Subject that can know independently from his own doing, thus returning to the Subject-object distintion. In order to avoid this difficulty, which would lead to subjectivism, there is another aspect of praktognosia: to do is to know already, from the very outset. Doing and knowing are the same thing, for both of them determine the structure of the world understood as an environment, at the same time known and done: the sense of this is that the relation between the body and the environment runs back and forth.»
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 26]

«Plus, praktognosia also has to do with negativity, which allegedly constitutes its most interesting aspect: a body learns only if it is manages to create anomalies. This notion stands out in Merleau-Ponty’s lectures on nature, delivered at the Collège de France by the end of the 1950’s; like Canguilhem, he defines the body as a fluctuation with respect to given norms (…) in order to highlight its plasticity and its resistance to any kind of pre-established principle. This fluctuation takes place as the stochastic (dynamic) unity of experience protocols that define the feature of having a body.
It could be argued that Foucault dealt with the dynamic feature of these protocols in terms of governamentally, that is, in terms of the management of anomalies and abnormal individuals (…). But since there is no such thing as correct bodies, power (as in controlling the system’s anomalies) is obliged to enforce the orthopedics of bodies by instituting models of usage that go hand in hand with bio-political aspects of knowledge (…). However, this resistance may become a line of flight, through the proper understanding of bodies as holders of praktognosia
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 27]

© algures na Net

BIBLIOGRAPHIC REFERENCE
DE FAZIO, Gianluca & LÉVANO, Paulo F.. Praktognosia: ecosophical remarques on Having a body

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Andar sem pés


«Quem tenta penetrar no Roseiral dos Filósofos sem chave parece um homem que quer andar  sem pés.»

Michael Maier, Atlanta Fugiens, Oppenheim, De Bry, 1618, emblema XXVII 
(in ECO, 2016: 46)

Collegium Fraternitatis in Speculum Sophicum Rhodo-Stavroticum (1618), de Teophilus Schweighardt Constatinus, pseudónimo de Daniel Mögling (1596-1635)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ECO, Umberto. O Pêndulo de Foucault. Lisboa: Gradiva, 2016, pp. 720. ISBN 978-989-616-717-2

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Passo e fico


Passo e fico, como o Universo

Qualquer caminho leva a qualquer parte.
Todo o caminho passa em todo o mundo.
Em duas toda a senda se biparte
Em cada ponto seu, o céu profundo
E a própria estrada sempre para diante —
Deus e nós, o Eterno e o vagabundo.

Em mim todo esse céu e a estrada errante
Iguais estão, em mim Deus, mundo e eu,
Em mim a estrada, e eu sou o caminhante...
Por mais que seja todo o passo meu
Não sai fora de mim, nem o que vejo
E absolutamente terra ou céu.

Mas tão meu como um sonho ou um desejo
Salvo de estar no exterior em mim,
No ponto em que Deus toco, e

Toda a viagem é em mim, por isso
Por mais que eu ande só me encontro e vejo
Por mais que veja no □ maciço
Só o meu rosto de alma reflectido
Consegue ver o mundo exterior
Participante do não ser.

Fernando Pessoa (17/11/1916)

© algures na Net

LEGENDA
□ : espaço deixado em branco pelo autor

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Catarse pedestre


Pedro Cuiça © a pé  (Praia de Faro, Agosto de 2013)

Catarse, sim!... Ou uma espécie de catarse que, para o caso, vai dar ao mesmo! Kátharsis enquanto libertação ou superação de um ciclo, enquanto purificação ou renovação espiritual e/ou, apenas e tão somente, como reflexão de fim/início de nova viagem/voltinha neste ci(r)c(u)lo que é a vida.
Nestas alturas da roda do ano é costume as pessoas fazerem balanços e/ou planos ao estilo “ano novo, vida nova”. Diremos, contudo, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! O que nos move não são datas calendarizadas e nas quais amestradamente se reage sob maneirismos estandardizados e, por isso, supostamente adequados, e muito menos fazer votos inconsequentes de pretensas mudanças de formas de vida. Portanto, mais do que o final/início de ano, torna-se para nós significativo salientar o facto de o blogue Pedestris ter cumprido, no passado dia 15 de Novembro, cinco anos de existência neste espaço virtual que é a Internet. Ou nem isso: esta tratar-se-á de uma catarse (ou espécie de catarse) pedestre talvez resultante, simplesmente, de uma mera sensação (na verdade, convicção) de que algo está a acabar e outro tanto (ou mais?) a começar…
O Pedestris surgiu como resultado de um «sentimento de que um novo “ciclo pedestre”» se abria. Como foi escrito na “inauguração” do blogue: «Depois de apresentar, em jeito de fim de ciclo, Ecosofia PC – Um ensaio de andanças mais além», em Outubro de 2013, «na Cooperativa Terra Chã, situada nas faldas da Serra de Candeeiros (a ancestral Serra da Lua), e dos eventos que se lhe seguiram, tornou-se inadiável dar, por fim [ou início], mais este passo… Deve ser por estar uma Lua Cheia fantástica :)».
Agora que estamos em quasi Lua Nova e que, passados cinco anos, voltamos a registar um inequívoco sentimento de mudança, consideramos que chegou a altura de manifestar o despontar de «novos caminhos» e que, à semelhança de 2013, fazemos votos de que estes possam ser ainda «mais desafiantes e estimulantes». Desiderato que, aparentemente, não será fácil de concretizar, tendo em consideração as excepcionais inovações das formas de fazer, sentir e pensar a prática pedestre (tal como a teoria) no ciclo que agora de certo modo acaba. Na verdade, esse é um terminus apenas aparente porque não menosprezamos e muito menos rejeitamos tudo aquilo que está inerente ao ciclo anterior, tal como aos outros ciclos associados a quatro décadas (mais precisamente 39 anos) de actividades de ar livre em geral e de pedestrianismo/montanhismo em particular. Assumimos toda a carga de experiências e de conhecimentos, tal como dos diferentes estilos de fazer/estar, mas não nos esquivamos a renovadas “levezas” do ser e, sobretudo, ao imprescindível entusiasmo… Ademais quando nem sequer rejeitamos revivalismos, mormente sob outras (ou até as mesmas) roupagens.
O Pedestris irá, por isso (e muito mais), continuar a ser um blogue sobre e para “Caminheiros Andantes”, aqueles que andam ou demandam andar encantados… Sobre a Arte de Caminhar numa perspectiva holotrópica e ecosófica, andar no mais profundo contacto com/ser a Natureza. No entanto, e de certa maneira, ao contrário do que aconteceu no dealbar do ciclo anterior, torna-se-nos difícil, senão impossível, precisar os caminhos ou sequer esboçar os rumos que iremos agora palmilhar. Talvez isso se deva a que, ao contrário do anterior luminoso plenilúnio, nos encontramos agora na simulada escuridão de uma Lua Nova! Caminhos, desta feita, mais misteriosos, metafísicos e/ou que almejam ir par’além da Natureza? Ou, então, ainda mais concretos, terra-a-terra e exigentes a nível corporal?  Ou, ainda, a plena liberdade de vivenciar a congruência de abordagens paradoxais? Quem sabe?
Diremos que só nos resta aguardar para ver quais as novidades que, a nível profissional e associativo (e também em solitário!), (d)aí (ad)virão. De resto, nenhuma dúvida nos assalta de que esses caminhos, sejam eles quais forem, irão continuar a constituir uma «renovada motivação para escrever e partilhar vivências». Escrever (n)o Pedestris resulta de uma íntima necessidade intelectual de reflexionar e teorizar acerca do Caminhar/Caminho(s)… Trata-se, pois, de uma actividade eminentemente solitária, uma espécie de monólogos que, por vezes, até podem adquirir a faceta de catarse :) Daí que pouco ou nada contribua para a nossa motivação, satisfação ou até gozo, que reiteradamente nos move, o número de leitores que tenhamos ou possamos vir a ter. Não iremos, todavia, concluir esta catarse pedestre sem deixar de saudar os nossos (poucos) seguidores indefectíveis e todos aqueles que encontraram ou venham a encontrar no nosso “escrevinhar” algo de útil, ou até de inútil, ao seu “por-vir”. Bem hajam!


Ana Margarida Cuiça © mais do que a pé também a nado  
(Praia de Faro, 27 de Dezembro de 2018)