quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Através da paisagem


Lentamente, o meu cérebro começou a reajustar-se a espaços que não utilizava havia meses. Durante muito tempo, tinha vivido na universidade, em bibliotecas e salas de aula, de cenho franzido a olhar para ecrãs, a corrigir trabalhos, a tentar encontrar referências académicas. Era um outro tipo de perseguição. Ali eu era um animal diferente. Alguma vez viram um veado a sair do seu esconderijo? Dão um passo, param e ficam imóveis, com o nariz no ar, a olhar e a farejar. Um frémito nervoso poderá percorrer-lhe os flancos. E depois, tranquilizados por se sentirem em segurança, saem do meio dos arbustos para irem pastar. Naquela manhã, senti-me como o veado. Não que estivesse a farejar o ar ou parada com medo – mas tal como ele, estava dominada por modos muito antigos e emocionais de me deslocar através de uma paisagem, a experimentar formas de atenção e de comportamento que estavam para além do controlo consciente. Qualquer coisa dentro de mim comandava os meus passos sem que eu tivesse grande consciência disso. Talvez fossem milhões de anos de evolução, talvez fosse intuição, mas na minha busca de açores sinto-me tensa quando caminho ou estou imóvel ao sol, dou comigo a dirigir-me inconscientemente para zonas de luz, ou escapar-me para zonas de sombra estreitas e frias ao longo dos vastos intervalos entre os renques de pinheiros. Encolho-me se oiço o chamamento de um gaio, ou o grito de alarme repetido e zangado de um corvo. Estes dois sons podiam significar Alerta, humano! ou Alerta, açor! E naquela manhã eu estava a tentar encontrar um ocultando o outro. Essas antigas intuições fantasmagóricas que há milénios ligam corpo e espírito tinham-se afirmado, impondo a sua vontade, fazendo-me sentir incomodada sob a luz intensa do sol, inquieta no lado errado de uma cumeeira, de certo modo obrigada a caminhar sobre uma elevação coberta de ervas descoradas para chegar a qualquer coisa do outro lado que acabaria por se revelar um lago.
[MACDONALD, 2015: 14]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Senso e Sentido

Hoje, que se realiza o lançamento do Volume X das Obras Completas de António Telmo, Capelas Imperfeitas, editadas pela casa Zéfiro, deparei-me com um pequeno texto – Carta íntima a mim próprio – integrante do Volume I dessa “colectânea”, A Terra Prometida, com interessantes considerandos acerca do senso e do sentido, que me remeteram para as caminhadas holotrópicas, mormente pelo marcado cariz sensorial destas. Afinal tudo está (inter)ligado a tudo e, ademais, algumas coisas mais que outras…


«O ouvido torna-se um foco de atenção quando falta a luz. O principal foco da atenção. Depois vem o olfacto e o tacto. A vista guia-se por estes três sentidos. Os filósofos para quem o mundo sensível é uma noite detêm o segredo da palavra que expulsa os ídolos. Este de que falamos [Sampaio Bruno] é desta espécie e daí privilegiar a metáfora, não pelo seu esplendor, mas pelo que ela manifesta do poder da palavra transformando o sentido.
Álvaro Ribeiro, seu discípulo, nisto como noutras coisas igualmente importantes, não gostava da palavra sentido, utilizada para designar os cinco órgãos de apreensão do sensível. Propunha senso para a substituir. O sentido, ensinava ele, é o que o senso encontra fora de si. Não é o em quem sente, mas o no que é sentido. Estranhamente preferiu o rigor lógico da linguagem ao seu uso popular, que tanto prezava. Preferiu o científico ao primitivo. É um dos poucos pontos em que não posso estar com ele. Pois que, quando dizemos, como é uso popular, que por determinado caminho vou no sentido do norte, digo muito mais do que se dissesse que vou na sua direcção. Sinto o Norte para aquele lado, o Norte torna-se o que sinto, isto é, o meu sentido, o que está em mim e ao mesmo tempo lá fora. Do mesmo modo, quando, numa quadra popular, ele diz para ela “Trago-te no meu sentido”, o sentido aqui é a alma que sente e a alma que ela é.
A designação dos cinco sentidos é toda ela feita com particípios passados: Ouvido, vista, olfacto, tacto. Toda, não. Falta o paladar, que é uma operação do palato. Passado ou perfeito, o que diz um mundo sensível integrado no nosso senti-lo.»
[TELMO, 2014: 146-147]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TELMO, António. A Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo & Quinto Império. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. I, 2014, pp. 212. ISBN 978-989-677-115-7
TELMO, António. Capelas Imperfeitas – dispersos e inéditos. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. X, 2019, pp. 286. ISBN 978-989-677-167-6

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Praktognosia


The body, in general, can be seen as a dispositif, such as, in particular, the pendulum movement of the legs!…

© algures na Net

«“Dispositif” derives from the Latin “disponere”, “dispositum”, “dispositio”, and all of these terms refer to a sence of placement and ordaining. A dispositif implies a series of orders, of things that can or cannot be done. Regardless of rigourous comprehensiveness, we may say that a dispositif defines what a bio-political body can do.
A dispositif thus ties knowledge and power. Gilles Deleuze (1988), in reference to his friend Foucault´s work, has put the emphasis on how the Subject is the output of this tie (…), that is, on how the dispositif is tantamount to a process  of subjectivation. This way, a peculiar definition of Subject comes out: it results from a dispositif defined by that which can or cannot be done. Foucault, on speaking about-biopolitcs, underscored how dispositifs are able to be aplied on bodies, actually speaking about neoliberal orthopedics (…). This way, we are in front of a conception of the Subject and knowledge that is opposite to the classical model, according to which the Subject is mere conciousness while knowledge amounts to determining what a body objectively is.Though the dispositif, new light can be shed on the mind-body, Subject-object relation.
This Foucauldian perspective – akin to a post-structuralist take on the matter – mind and body, Subject and object do not constitute an antithesis. Conciousness thus is not the expression of a transcendental Subject, concious of itself and the world around it; instead, consciousness amounts to all that a body has learned – one could say, experience protocols (…). In this view, the body is not the noematic correlative of consciousness, a mere object, but instead it is everything that can be done with respect to these protocols. A body therefore is not a thing but a potency.
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 23-24]

«Praktognosia is a portmanteau built by “praxis” (action) and “gnosis” (knowledge), and it stands for the strong tie between knowing and doing. This tie is double: it indicates knowledge of ways of doing, through it’s not just a preliminar kind of knowledge placed immediately before action; this would lead to suppose that there is a knowing Subject that can know independently from his own doing, thus returning to the Subject-object distintion. In order to avoid this difficulty, which would lead to subjectivism, there is another aspect of praktognosia: to do is to know already, from the very outset. Doing and knowing are the same thing, for both of them determine the structure of the world understood as an environment, at the same time known and done: the sense of this is that the relation between the body and the environment runs back and forth.»
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 26]

«Plus, praktognosia also has to do with negativity, which allegedly constitutes its most interesting aspect: a body learns only if it is manages to create anomalies. This notion stands out in Merleau-Ponty’s lectures on nature, delivered at the Collège de France by the end of the 1950’s; like Canguilhem, he defines the body as a fluctuation with respect to given norms (…) in order to highlight its plasticity and its resistance to any kind of pre-established principle. This fluctuation takes place as the stochastic (dynamic) unity of experience protocols that define the feature of having a body.
It could be argued that Foucault dealt with the dynamic feature of these protocols in terms of governamentally, that is, in terms of the management of anomalies and abnormal individuals (…). But since there is no such thing as correct bodies, power (as in controlling the system’s anomalies) is obliged to enforce the orthopedics of bodies by instituting models of usage that go hand in hand with bio-political aspects of knowledge (…). However, this resistance may become a line of flight, through the proper understanding of bodies as holders of praktognosia
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 27]

© algures na Net

BIBLIOGRAPHIC REFERENCE
DE FAZIO, Gianluca & LÉVANO, Paulo F.. Praktognosia: ecosophical remarques on Having a body

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Andar sem pés


«Quem tenta penetrar no Roseiral dos Filósofos sem chave parece um homem que quer andar  sem pés.»

Michael Maier, Atlanta Fugiens, Oppenheim, De Bry, 1618, emblema XXVII 
(in ECO, 2016: 46)

Collegium Fraternitatis in Speculum Sophicum Rhodo-Stavroticum (1618), de Teophilus Schweighardt Constatinus, pseudónimo de Daniel Mögling (1596-1635)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ECO, Umberto. O Pêndulo de Foucault. Lisboa: Gradiva, 2016, pp. 720. ISBN 978-989-616-717-2

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Passo e fico


Passo e fico, como o Universo

Qualquer caminho leva a qualquer parte.
Todo o caminho passa em todo o mundo.
Em duas toda a senda se biparte
Em cada ponto seu, o céu profundo
E a própria estrada sempre para diante —
Deus e nós, o Eterno e o vagabundo.

Em mim todo esse céu e a estrada errante
Iguais estão, em mim Deus, mundo e eu,
Em mim a estrada, e eu sou o caminhante...
Por mais que seja todo o passo meu
Não sai fora de mim, nem o que vejo
E absolutamente terra ou céu.

Mas tão meu como um sonho ou um desejo
Salvo de estar no exterior em mim,
No ponto em que Deus toco, e

Toda a viagem é em mim, por isso
Por mais que eu ande só me encontro e vejo
Por mais que veja no □ maciço
Só o meu rosto de alma reflectido
Consegue ver o mundo exterior
Participante do não ser.

Fernando Pessoa (17/11/1916)

© algures na Net

LEGENDA
□ : espaço deixado em branco pelo autor

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Catarse pedestre


Pedro Cuiça © a pé  (Praia de Faro, Agosto de 2013)

Catarse, sim!... Ou uma espécie de catarse que, para o caso, vai dar ao mesmo! Kátharsis enquanto libertação ou superação de um ciclo, enquanto purificação ou renovação espiritual e/ou, apenas e tão somente, como reflexão de fim/início de nova viagem/voltinha neste ci(r)c(u)lo que é a vida.
Nestas alturas da roda do ano é costume as pessoas fazerem balanços e/ou planos ao estilo “ano novo, vida nova”. Diremos, contudo, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! O que nos move não são datas calendarizadas e nas quais amestradamente se reage sob maneirismos estandardizados e, por isso, supostamente adequados, e muito menos fazer votos inconsequentes de pretensas mudanças de formas de vida. Portanto, mais do que o final/início de ano, torna-se para nós significativo salientar o facto de o blogue Pedestris ter cumprido, no passado dia 15 de Novembro, cinco anos de existência neste espaço virtual que é a Internet. Ou nem isso: esta tratar-se-á de uma catarse (ou espécie de catarse) pedestre talvez resultante, simplesmente, de uma mera sensação (na verdade, convicção) de que algo está a acabar e outro tanto (ou mais?) a começar…
O Pedestris surgiu como resultado de um «sentimento de que um novo “ciclo pedestre”» se abria. Como foi escrito na “inauguração” do blogue: «Depois de apresentar, em jeito de fim de ciclo, Ecosofia PC – Um ensaio de andanças mais além», em Outubro de 2013, «na Cooperativa Terra Chã, situada nas faldas da Serra de Candeeiros (a ancestral Serra da Lua), e dos eventos que se lhe seguiram, tornou-se inadiável dar, por fim [ou início], mais este passo… Deve ser por estar uma Lua Cheia fantástica :)».
Agora que estamos em quasi Lua Nova e que, passados cinco anos, voltamos a registar um inequívoco sentimento de mudança, consideramos que chegou a altura de manifestar o despontar de «novos caminhos» e que, à semelhança de 2013, fazemos votos de que estes possam ser ainda «mais desafiantes e estimulantes». Desiderato que, aparentemente, não será fácil de concretizar, tendo em consideração as excepcionais inovações das formas de fazer, sentir e pensar a prática pedestre (tal como a teoria) no ciclo que agora de certo modo acaba. Na verdade, esse é um terminus apenas aparente porque não menosprezamos e muito menos rejeitamos tudo aquilo que está inerente ao ciclo anterior, tal como aos outros ciclos associados a quatro décadas (mais precisamente 39 anos) de actividades de ar livre em geral e de pedestrianismo/montanhismo em particular. Assumimos toda a carga de experiências e de conhecimentos, tal como dos diferentes estilos de fazer/estar, mas não nos esquivamos a renovadas “levezas” do ser e, sobretudo, ao imprescindível entusiasmo… Ademais quando nem sequer rejeitamos revivalismos, mormente sob outras (ou até as mesmas) roupagens.
O Pedestris irá, por isso (e muito mais), continuar a ser um blogue sobre e para “Caminheiros Andantes”, aqueles que andam ou demandam andar encantados… Sobre a Arte de Caminhar numa perspectiva holotrópica e ecosófica, andar no mais profundo contacto com/ser a Natureza. No entanto, e de certa maneira, ao contrário do que aconteceu no dealbar do ciclo anterior, torna-se-nos difícil, senão impossível, precisar os caminhos ou sequer esboçar os rumos que iremos agora palmilhar. Talvez isso se deva a que, ao contrário do anterior luminoso plenilúnio, nos encontramos agora na simulada escuridão de uma Lua Nova! Caminhos, desta feita, mais misteriosos, metafísicos e/ou que almejam ir par’além da Natureza? Ou, então, ainda mais concretos, terra-a-terra e exigentes a nível corporal?  Ou, ainda, a plena liberdade de vivenciar a congruência de abordagens paradoxais? Quem sabe?
Diremos que só nos resta aguardar para ver quais as novidades que, a nível profissional e associativo (e também em solitário!), (d)aí (ad)virão. De resto, nenhuma dúvida nos assalta de que esses caminhos, sejam eles quais forem, irão continuar a constituir uma «renovada motivação para escrever e partilhar vivências». Escrever (n)o Pedestris resulta de uma íntima necessidade intelectual de reflexionar e teorizar acerca do Caminhar/Caminho(s)… Trata-se, pois, de uma actividade eminentemente solitária, uma espécie de monólogos que, por vezes, até podem adquirir a faceta de catarse :) Daí que pouco ou nada contribua para a nossa motivação, satisfação ou até gozo, que reiteradamente nos move, o número de leitores que tenhamos ou possamos vir a ter. Não iremos, todavia, concluir esta catarse pedestre sem deixar de saudar os nossos (poucos) seguidores indefectíveis e todos aqueles que encontraram ou venham a encontrar no nosso “escrevinhar” algo de útil, ou até de inútil, ao seu “por-vir”. Bem hajam!


Ana Margarida Cuiça © mais do que a pé também a nado  
(Praia de Faro, 27 de Dezembro de 2018)


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Festejar a Montanha


Pedro Cuiça © Biblioteca de Montanha  (Queijas, 2018)

Nestes dias em que se “(sobre)vive” (a) um afã híper-consumista, ademais nesta que é designada a “época natalícia” (!), será pertinente salientar a importância de apoiar os mercados livreiros de nicho, mormente aquele que se dedica à montanha: editoras, livrarias, alfarrabistas e autores, entre outros – como agora se costuma dizer – stakeholders! O assunto num país como Portugal fará pouco ou nenhum sentido, tendo em conta que a realidade editorial de montanha é praticamente inexistente e o pouco que existe ou existiu é como se não existisse ou tivesse existido!... Particularidades e/ou minudências, para muitos, de somenos num país à beira-mar plantado e historicamente ancorado a uma gesta marítima que talvez não se coadune com ambientes de montanha. No entanto, e tendo em conta a globalização do consumo, designadamente com a possibilidade de comprar on-line produtos provenientes das mais diversas partes desta aldeia global que é a Terra, se pretende ofertar algo, a um familiar, amigo ou mesmo a si próprio, aposte na literacia de montanha e não hesite em apoiar os micro, “piquenos” e médios projectos editoriais que continuam a medrar em diversas línguas por esse mundo fora, nomeadamente no “ arco alpino” (com destaque para o francês, alemão e italiano), mas não só (também em inglês, espanhol e, pasme-se, português). É nesse contexto, que aproveitamos para destacar um pequeno texto, sobre a temática da literatura de montanha, publicado no número de Dezembro da revista Montagne360. E, claro, é igualmente neste contexto que desejamos Boas Festas a todos os leitores do Pedestris, se possível de ar livre ou, caso contrário, numa boa viagem de sofá...

Pedro Cuiça © Editorial Desnivel (Madrid, 16/12/2018)

IL COLLEZIONISTA
A cura di Leonardo Bizzaro e Riccardo Decarli, Biblioteca della Montagna

Le collane – almeno da quando l’alpinismo è diventato uno sport di massa, o quasi – hanno forse avvicinato alla pratica della montagna più persone di quanto abbiano fatto le scuole del Cai. Lo han ben intuito Pietro Crivellaro, che proprio alle “Cordate di libri” ha dedicato una bella mostra per la decima Rassegna internazionale dell’editoria di montagna, nel 1996 al Filmfestival di Trento, presentandone venti delle più importante, da La piccozza e la penna di Adolfo Balliano, nata nel 1929, alla relativamente recente I Licheni di Vivalda. Tra le più note, eppure sconosciute dal punto di vista bibliografico, c’è Montagne di Zanichelli, che per i primi suoi titoli è stata curata nientemeno che da Walter Bonatti. Non solo, ché a disegnarne la grafica, e la veste editoriale, è stato un genio come Albe Steiner, il più bravo trai i grafici attivi nel mondo librario nostrano. Debuttò nel 1961 la collana, con Le mie montagne (dodici ristampe fino al 1981 e altre tre in economica), che Bonatti scrisse senza esserne ancora il titolare. Dell’importanza di quel libro, il più appassionante del suo autore, non occorre qui aggiungere altro. Vale però la pena ricordare gli altri che lui volle collana, senz’altro con lo zampino degli Enriques, proprietari della casa editrice dal 1946 e grandi patiti della montagna. Eccoli: Il Gran Cervino curato da Alfonso Bernardi, del 1963 ; Il quattordici ‘8000’ a cura di Mario Fantin, del 1964; i due volumi di Il Monte Bianco, del 1965 e 1966, a firma ancora di Bernardi (pure in elegante cofanetto telato e decorato, e anche in volume unico): tranne Bonatti, la cui prima edizione sfiora spesso i 200 euro, gli altri si trovano di solito a cifre ragionevoli, um po’più caro solo il Monte Bianco. Poi, al tempo dell’addio alla pratica della montagna, il più mediato dei nostri alpinisti abandono anche quest’attività, passata prima ad Alfonso Bernardi, poi all’ottimo Luciano Marisaldi.
[in Montagne360, Dez. 2018: 77]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La rivista del Club alpino italiano, Dezembro, 2018, pp. 80. ISSN 2280-7764



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Encuentro de Montañeros


Pedro Cuiça © Madrid (15/12/2018)


A Federação Espanhola de Desportos de Montanha e Escalada (FEDME) realizou, na noite de 15 de Dezembro, a sua gala anual – Encuentro de Montañeros – no Novotel Madrid Campo de las Naciones. Uma oportunidade única para constatar in loco a diversidade de áreas desportivas e temáticas, tal como os elevadíssimos níveis de desempenho desportivo, desenvolvidos no âmbito dessa federação, num país que é indubitavelmente uma das maiores potências dos desportos de montanha a nível mundial. Essa foi também uma ocasião ímpar para conhecer alguns dos atletas de topo nas áreas da escalada, corridas de montanha e alpinismo, bem como para rever muitos e bons companheiros.

O Sentimento da Montanha


Rui Calado © Biblioteca Municipal de Lagoa (14/12/2018)

«O montanhismo (…), para além da componente física, será também uma profunda experiência emocional, uma atracção pela liberdade dos vastos espaços verticais, pela grandiosa beleza do mundo mineral, pela simplicidade e rusticidade. Subir montanhas será igualmente um meio de (re)ligação à natureza, uma forma de transcendência… (…) “Um fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento.”»
Pedro Cuiça (2010: 27)

A tertúlia sobre O Sentimento da Montanha: do imanente ao transcendente, que decorreu no final do dia 14 de Dezembro na Biblioteca Municipal de Lagoa (Algarve), resultou de uma proposta (melhor seria dizer “desafio”), por parte da Dra. Maria Luísa Francisco, para abordarmos a vertente “espiritual” do montanhismo. Um desafio certamente, tendo em conta essa forma pouco “usual” de aproximação a ambas as temáticas, fenómeno que aliás já tínhamos tido a oportunidade de constatar aquando da apresentação de semelhante “matéria” (!) na Casa do Fauno.
A abordagem em causa iniciou-se através de um enquadramento filosófico efectuado numa perspectiva assumidamente ocidental, tendo em conta que o montanhismo teve origem nos Alpes e os seus paradigmas foram exportados para o resto do mundo, com claras influências na sua praxis até aos dias de hoje. O Oriente não tem, de todo, o exclusivo da “espiritualidade” e, nessa matéria, foi explanada uma perspectiva do montanhismo consentânea com a riqueza “espiritual” do extremo Ocidente que é esta Finisterra ibérica ainda hoje conhecida por Lusitânia, mormente à luz daquilo que é costume designar por “filosofia portuguesa”. Da Montanha perfeita ao foco no cume enquanto ara dea, do sacro ofício de ascender montanhas às razões que animam essa actividade do profano (vale) ao sagrado (montanha) até ao “porquê?” e ao “para quê?” subir montanhas. Uma via que nos conduziu ao “como?” fazer essas prática com base em três conceitos-chave: imaginação, jogo e totalidade. Por fim, a/o Montanha(ismo) enquanto metáfora: o Monte Abiegno, a anábase celeste e a transformação da experiência da Montanha num modo de ser ao estilo de Julius Evola.

«(…) la verdadera realización, la superación del elemento instintivo e irracional, la plena y firme autoconsciencia, es decir, la transformación de la experiencia de la montaña en un modo de ser. Es entonces cuando surge (…) el sentido de que todo o marchar, todo ascender, todo conquistar, todo osar, es el único medio contingente de expresión de una realidad inmaterial, lo cual podría tener muchos otros medios: y esto sería la fuerza de aquellos que, en el fondo, pueden decir a sí mismos que nunca regresamos desde las cumbres hasta la llanura, de aquellos a quienes no les importa ni el ir ni el volver, porque la montaña está en su espíritu, porque el símbolo se ha convertido en realidad (…).»
Julius Evola in Meditaciones de las Cumbres (1974)

Rui Calado © Biblioteca Municipal de Lagoa (14/12/2018)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010. ISBN 978-989-96647-1-5


Pensar (como um)a Montanha



«Uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plenas para as ervas, plena talvez até para seixo e montanha
Agostinho da Silva (1999: 262-263 in MARTINS, 2016: 112)

Um enquadramento filosófico sobre algumas evoluções marcantes no pensamento humano, no âmbito da estética e da ética, que se traduziram, em três séculos, numa mudança radical de paradigma: da alta montanha horrível à beleza das montanhas. Das paisagens montanhosas, em segundo plano, dos quadros de Leonardo da Vinci, passando pelas montanhas sagradas de Nicholas Konstantinovich Roerich, às abordagens holísticas da paisagem de Jan C. Smuts. Das éticas antropocêntricas às correntes de pensamento e às éticas ambientais com notórias influências na origem do montanhismo: os pré-romantismo e o romantismo, o transcendentalismo de Concord, a preservação da natureza de John Muir, a ética da Terra de Aldo Leopold e a ecologia profunda de Arne Naess. Do alpinismo/montanhismo enquanto actividade de ascender/escalar montanhas aos multifacetados desportos de montanha…
Um caminho percorrido para chegar à questão: qual a feição do sentir/pensar (como um)a montanha nos dias de hoje? Uma reflexão não só pertinente como fundamental face às alterações climáticas com que temos de nos confrontar. A guerra-pacifista actual passará inevitavelmente pela preservação das montanhas e esse é o grande desafio lançado pela Organização das Nações Unidas no Dia Internacional das Montanhas 2018 sob o mote “As montanhas são essenciais para as nossas vidas”.


«Um uivo vindo das profundezas ecoa de orla em orla rochosa, rola montanha abaixo e extingue-se na longínqua escuridão da noite. É a erupção de uma dor selvagem e desafiadora, cheia de desdém por todas as adversidades do mundo. (…) por trás dessas óbvias esperanças e medos reside um significado mais profundo que só a montanha conhece. Só a montanha viveu o bastante para escutar objectivamente o uivo do lobo
Aldo LEOPOLD (2008: 128)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LEOPOLD, Aldo. Pensar como uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008. ISBN 978-972-8870-10-2
MARTINS, Pedro. A Liberdade Guiando o Povo. Sintra: Zéfiro, 2016, pp. 190. ISBN 978-989-677-138-6


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Montanhas em si


DR © Nikolai Konstantinovich Roerich (Kanchendzonga, 1944)


«Chama-se honroso a tudo o que parece difícil; o que é indispensável e difícil ao mesmo tempo, chama-se bem; e o supremo recurso no perigo mais extremo, o que há de mais raro e de mais difícil, chama-se sagrado.»
[NIETZSCHE, 1985: 65]

É acumulando montanhas que o discípulo do conhecimento deve aprender a construir. Transportar montanhas é para o espírito pouca coisa: já o sabíeis?
[NIETZSCHE, 1985: 115]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa-. Guimarães Editores, 1985, pp. 376.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Montanhas da/na mente



Na próxima semana, no âmbito da comemoração do Dia Internacional das Montanhas, vamos abordar, na sede da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (Lisboa) e na Biblioteca Municipal de Lagoa (Lagoa  Algarve), um conjunto de temáticas em torno do pensar/sentir a montanha. Nesse contexto, deixamos aqui uma citação extraída do livro Mountains of the Mind – A History of a Fascination, de Robert MacFarlane (Granta Books, 2003), que constitui uma das inspiradoras referências bibliográficas a que iremos recorrer.

© da/na Net

As late as 1791 William Gilpin noted that ‘the generality of people’ found wilderness dislikeable. ‘There are few’, he continued, ‘who do not prefer the busy scenes of cultivation to the greatest of nature’s rough productions.’ Mountains nature’s roughest productions, were not only agriculturally intractable, they were also aesthetically repellent : it was felt that their irregular and gargantuan outlines upset the natural spirit-level of the mind. The politer inhabitants of the seventeenth century referred to mountains disapprovingly as ‘deserts’ ; they were also castigated as ‘boils’ on the earth’s complexion, ‘warts’, ‘wens’, ‘excrescences’ and even, with their labial ridges and vaginal valleys, ‘Nature’s pudenda’.
Moreover, mountains were dangerous places to be. It was believed that avalanches could be triggered by stimuli as light as a cough, the foot of a beetle, or the brush of a bird’s wing as it swooped low across a loaded snow-slope. You might fall between the blue jaws of a crevasse, to be regurgitated years later by the glacier, pulped and rigid. Or you might encounter a god, demi-god or monster angry at having their territory trespassed upon – for mountains were conventionally the habitat of the supernatural and the hostile. In his famous Travels, John Manderville described the tribe of Assassins who lived high among the peaks of the Elbruz range, presided over by the mysterious ‘Old Man of the Mountain’. In Thomas’s More’s Utopia the Zapoletes – a ‘hideous, savage and fierce’ race – are reputed to dwell ‘in the high mountains’. True, mountains had in the past provided refuge for beleaguered peoples – it was to the mountains that Lot and his daughters fled when they were driven out of Zoar, for instance – but for the most part they were a form of landscape to be avoided. Go around mountains by all means, it was thought, along their flanks or between them if absolutely necessary – as many merchants, soldiers, pilgrims and missionaries had to – but certainly not up them.
During the second half of the 1700, however, people started for the first time to travel to mountains out of a spirit other than necessity, and a coherent sense began to develop of the splendour of moutainous landscape. The summit of Mont Blanc was reached in 1786, and mountaineering proper came into existence in the middle of the 1800s, induced by a commitment to science (in the sport’s adolescence, no respectable mountaineer would scale a peak without at the very least boiling a thermometer on the summit) but very definitely born of beauty. The complex aesthetics of ice, sunlight, rock, height, angles and air – what John Ruskin called the ‘endless perspicuity of space ; the unfatigued veracity of eternal light’ – were to the later nineteenth-century mind unquestionably marvellous. Mountains began to exert a considerable and often fatal power of attraction on the human mind. ‘The effect of this strange Matterhorn upon the imagination is indeed so great,’ Ruskin could claim proudly of his favourite mountain in 1862, ‘that even the gravest philosophers cannot resist it’. Three years later the Matterhorn was climbed for the first time ; four of the successful summitteers fell to their deaths during the descent.
(…) Today the emotions and attitudes which impelled the early mountaineers still proper in the Western imagination : indeed if anything they are more unshiftably ensconced there. Mountain-worship is a given to million of people. The vertical, the ferocious, the icy – all these are now automatically venerated forms of landscape, images of wich permeate an urbanized Western culture increasingly hungry for even second-hand experiences of wildness and wilderness. Mountain-going has been one of the fastest growing leisure activities of the past twenty years. An estimated 10 million Americans go mountaineering annually, and 50 million go hiking. Some 4 million people in Britain consider themselves to be hill-walkers of one stripe or another.
(…) Over the course of three centuries, therefore, a tremendous revolution of perception occurred in the West concerning mountains. (…) So drastic was this revolution that to contemplate it now is to be reminded of a truth about landscapes ; that our responses to them are for the most part culturally devised. That is to say, when we look at a landscape, we do not see what is there, but largely what we think is there. We attribute qualities to a landscape which it does not intrinsically posses – savageness, for example, or bleakness – and we value it accordingly. We read landscapes, in other words, we interpret their forms in the light of our own experience and memory, and that of our shared cultural memory.
(…) What we call a mountain is thus in fact a collaboration of the physical forms of the world with the imagination of humans – a mountain of the mind.
[MACFARLANE, 2003 : 14-19]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. Londres : Granta Books, 2003, pp. 310. ISBN