Lentamente, o meu cérebro começou a reajustar-se a espaços que não
utilizava havia meses. Durante muito tempo, tinha vivido na universidade, em
bibliotecas e salas de aula, de cenho franzido a olhar para ecrãs, a corrigir
trabalhos, a tentar encontrar referências académicas. Era um outro tipo de
perseguição. Ali eu era um animal diferente. Alguma vez viram um veado a sair
do seu esconderijo? Dão um passo, param e ficam imóveis, com o nariz no ar, a
olhar e a farejar. Um frémito nervoso poderá percorrer-lhe os flancos. E
depois, tranquilizados por se sentirem em segurança, saem do meio dos arbustos
para irem pastar. Naquela manhã, senti-me como o veado. Não que estivesse a
farejar o ar ou parada com medo – mas tal como ele, estava dominada por modos muito antigos e emocionais de me
deslocar através de uma paisagem, a experimentar formas de atenção e de
comportamento que estavam para além do controlo consciente. Qualquer coisa
dentro de mim comandava os meus passos sem que eu tivesse grande consciência
disso. Talvez fossem milhões de anos de evolução, talvez fosse intuição, mas na
minha busca de açores sinto-me tensa quando caminho ou estou imóvel ao sol, dou
comigo a dirigir-me inconscientemente para zonas de luz, ou escapar-me para
zonas de sombra estreitas e frias ao longo dos vastos intervalos entre os
renques de pinheiros. Encolho-me se oiço o chamamento de um gaio, ou o grito de
alarme repetido e zangado de um corvo. Estes dois sons podiam significar Alerta, humano! ou Alerta, açor! E naquela manhã eu estava a tentar encontrar um
ocultando o outro. Essas antigas intuições fantasmagóricas que há milénios
ligam corpo e espírito tinham-se afirmado, impondo a sua vontade, fazendo-me
sentir incomodada sob a luz intensa do sol, inquieta no lado errado de uma
cumeeira, de certo modo obrigada a caminhar sobre uma elevação coberta de ervas
descoradas para chegar a qualquer coisa do outro lado que acabaria por se
revelar um lago.
[MACDONALD, 2015: 14]
REFERÊNCIA
BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de
Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6
Hoje, que se realiza o lançamento do Volume X das Obras Completas
de António Telmo, Capelas Imperfeitas, editadas pela casa Zéfiro, deparei-me com
um pequeno texto – Carta íntima a mim
próprio – integrante do Volume I dessa “colectânea”, A Terra Prometida, com interessantes
considerandos acerca do senso e do sentido, que me remeteram para as
caminhadas holotrópicas, mormente pelo marcado cariz sensorial destas. Afinal
tudo está (inter)ligado a tudo e, ademais, algumas coisas mais que outras…
«O ouvido torna-se um foco de atenção quando falta a luz. O principal
foco da atenção. Depois vem o olfacto e o tacto. A vista guia-se por estes três
sentidos. Os filósofos para quem o mundo sensível é uma noite detêm o segredo
da palavra que expulsa os ídolos. Este de que falamos [Sampaio Bruno] é desta
espécie e daí privilegiar a metáfora, não pelo seu esplendor, mas pelo que ela
manifesta do poder da palavra transformando o sentido.
Álvaro Ribeiro, seu discípulo, nisto como noutras coisas igualmente
importantes, não gostava da palavra sentido,
utilizada para designar os cinco órgãos de apreensão do sensível. Propunha senso para a substituir. O sentido,
ensinava ele, é o que o senso encontra fora de si. Não é o em quem sente, mas o
no que é sentido. Estranhamente preferiu o rigor lógico da linguagem ao seu uso
popular, que tanto prezava. Preferiu o científico ao primitivo. É um dos poucos
pontos em que não posso estar com ele. Pois que, quando dizemos, como é uso
popular, que por determinado caminho vou no sentido do norte, digo muito mais
do que se dissesse que vou na sua direcção. Sinto o Norte para aquele lado, o
Norte torna-se o que sinto, isto é, o meu sentido, o que está em mim e ao mesmo
tempo lá fora. Do mesmo modo, quando, numa quadra popular, ele diz para ela “Trago-te
no meu sentido”, o sentido aqui é a alma que sente e a alma que ela é.
A designação dos cinco sentidos é toda ela feita com particípios
passados: Ouvido, vista, olfacto, tacto. Toda, não. Falta o paladar, que é uma
operação do palato. Passado ou perfeito, o que diz um mundo sensível integrado
no nosso senti-lo.»
[TELMO, 2014: 146-147]
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TELMO, António. A
Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo & Quinto Império.
Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. I, 2014, pp. 212. ISBN 978-989-677-115-7 TELMO, António. Capelas Imperfeitas – dispersos e inéditos.
Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. X, 2019, pp. 286. ISBN 978-989-677-167-6
«“Dispositif” derives from the Latin “disponere”,
“dispositum”, “dispositio”, and all of these terms refer to a sence of
placement and ordaining. A dispositif implies a series of orders, of things
that can or cannot be done. Regardless of rigourous comprehensiveness, we may
say that a dispositif defines what a bio-political body can do.
A dispositif thus ties knowledge and power. Gilles Deleuze
(1988), in reference to his friend Foucault´s work, has put the emphasis on how
the Subject is the output of this tie (…), that is, on how the dispositif is
tantamount to a process of
subjectivation. This way, a peculiar definition of Subject comes out: it
results from a dispositif defined by that which can or cannot be done.
Foucault, on speaking about-biopolitcs, underscored how dispositifs are able to
be aplied on bodies, actually speaking about neoliberal orthopedics (…). This way, we are in front of a conception
of the Subject and knowledge that is opposite to the classical model, according
to which the Subject is mere conciousness while knowledge amounts to
determining what a body objectively is.Though the dispositif, new light can be
shed on the mind-body, Subject-object relation.
This Foucauldian perspective – akin to a post-structuralist
take on the matter – mind and body, Subject and object do not constitute an
antithesis. Conciousness thus is not the expression of a transcendental
Subject, concious of itself and the world around it; instead, consciousness
amounts to all that a body has learned – one could say, experience protocols
(…). In this view, the body is not the noematic correlative of consciousness, a
mere object, but instead it is everything that can be done with respect to
these protocols. A body therefore is not a thing but a potency.
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 23-24]
«Praktognosia is a portmanteau built by “praxis” (action)
and “gnosis” (knowledge), and it stands for the strong tie between knowing and
doing. This tie is double: it indicates knowledge of ways of doing, through it’s
not just a preliminar kind of knowledge placed immediately before action; this
would lead to suppose that there is a knowing Subject that can know
independently from his own doing, thus returning to the Subject-object
distintion. In order to avoid this difficulty, which would lead to subjectivism,
there is another aspect of praktognosia: to do is to know already, from the
very outset. Doing and knowing are the same thing, for both of them determine
the structure of the world understood as an environment, at the same time known
and done: the sense of this is that the relation between the body and the
environment runs back and forth.»
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 26]
«Plus, praktognosia also has to do with negativity, which
allegedly constitutes its most interesting aspect: a body learns only if it is
manages to create anomalies. This notion stands out in Merleau-Ponty’s lectures
on nature, delivered at the Collège de France by the end of the 1950’s; like
Canguilhem, he defines the body as a fluctuation with respect to given norms
(…) in order to highlight its plasticity and its resistance to any kind of
pre-established principle. This fluctuation takes place as the stochastic
(dynamic) unity of experience protocols that define the feature of having a
body.
It could be argued that Foucault dealt with the dynamic
feature of these protocols in terms of governamentally, that is, in terms of
the management of anomalies and abnormal individuals (…). But since there is no
such thing as correct bodies, power (as in controlling the system’s anomalies)
is obliged to enforce the orthopedics of bodies by instituting models of usage
that go hand in hand with bio-political aspects of knowledge (…). However, this
resistance may become a line of flight, through the proper understanding of
bodies as holders of praktognosia.»
Catarse, sim!... Ou uma espécie de catarse que, para o caso, vai
dar ao mesmo! Kátharsis enquanto
libertação ou superação de um ciclo, enquanto purificação ou renovação
espiritual e/ou, apenas e tão somente, como reflexão de fim/início de nova
viagem/voltinha neste ci(r)c(u)lo que é a vida.
Nestas alturas da roda do ano é costume as pessoas fazerem balanços
e/ou planos ao estilo “ano novo, vida nova”. Diremos, contudo, “nem tanto ao
mar, nem tanto à terra”! O que nos move não são datas calendarizadas e nas
quais amestradamente se reage sob maneirismos estandardizados e, por isso, supostamente
adequados, e muito menos fazer votos inconsequentes de pretensas mudanças de
formas de vida. Portanto, mais do que o final/início de ano, torna-se para nós significativo
salientar o facto de o blogue Pedestris ter cumprido, no passado
dia 15 de Novembro, cinco anos de existência neste espaço virtual que é a
Internet. Ou nem isso: esta tratar-se-á de uma catarse (ou espécie de catarse) pedestre talvez resultante, simplesmente, de uma mera sensação (na
verdade, convicção) de que algo está a acabar e outro tanto (ou mais?) a
começar…
O Pedestris surgiu como resultado de um «sentimento de que um
novo “ciclo pedestre”» se abria. Como
foi escrito na “inauguração” do blogue: «Depois de apresentar, em jeito de fim
de ciclo, Ecosofia PC – Um ensaio de andanças mais além», em Outubro de
2013, «na Cooperativa Terra Chã, situada nas faldas da Serra de Candeeiros (a
ancestral Serra da Lua), e dos eventos que se lhe seguiram, tornou-se inadiável
dar, por fim [ou início], mais este passo… Deve ser por estar uma Lua Cheia
fantástica :)».
Agora que estamos em quasi Lua Nova e que, passados cinco anos, voltamos a registar um inequívoco sentimento
de mudança, consideramos que chegou a altura de manifestar o despontar de «novos
caminhos» e que, à semelhança de 2013, fazemos votos de que estes possam ser ainda
«mais desafiantes e estimulantes». Desiderato que, aparentemente, não será
fácil de concretizar, tendo em consideração as excepcionais inovações das
formas de fazer, sentir e pensar a prática pedestre (tal como a teoria) no
ciclo que agora de certo modo acaba. Na verdade, esse é um terminus apenas aparente porque não menosprezamos e muito menos rejeitamos
tudo aquilo que está inerente ao ciclo anterior, tal como aos outros ciclos
associados a quatro décadas (mais precisamente 39 anos) de actividades de ar
livre em geral e de pedestrianismo/montanhismo em particular. Assumimos toda a
carga de experiências e de conhecimentos, tal como dos diferentes estilos de fazer/estar,
mas não nos esquivamos a renovadas “levezas” do ser e, sobretudo, ao imprescindível
entusiasmo… Ademais quando nem sequer rejeitamos revivalismos, mormente sob
outras (ou até as mesmas) roupagens.
O Pedestris irá, por isso (e muito mais), continuar a ser um
blogue sobre e para “Caminheiros Andantes”, aqueles que andam ou demandam andar
encantados… Sobre a Arte de Caminhar numa perspectiva holotrópica e ecosófica,
andar no mais profundo contacto com/ser a Natureza. No entanto, e de certa
maneira, ao contrário do que aconteceu no dealbar do ciclo anterior,
torna-se-nos difícil, senão impossível, precisar os caminhos ou sequer esboçar os
rumos que iremos agora palmilhar. Talvez isso se deva a que, ao contrário do
anterior luminoso plenilúnio, nos encontramos agora na simulada escuridão de
uma Lua Nova! Caminhos, desta feita, mais misteriosos, metafísicos e/ou que
almejam ir par’além da Natureza? Ou, então, ainda mais concretos, terra-a-terra
e exigentes a nível corporal? Ou, ainda,
a plena liberdade de vivenciar a congruência de abordagens paradoxais? Quem
sabe?
Diremos que só nos resta aguardar para ver quais as novidades que,
a nível profissional e associativo (e também em solitário!), (d)aí (ad)virão. De
resto, nenhuma dúvida nos assalta de que esses caminhos, sejam eles quais
forem, irão continuar a constituir uma «renovada motivação para escrever e
partilhar vivências». Escrever (n)o Pedestris resulta de uma íntima necessidade
intelectual de reflexionar e teorizar acerca do Caminhar/Caminho(s)… Trata-se,
pois, de uma actividade eminentemente solitária, uma espécie de monólogos que,
por vezes, até podem adquirir a faceta de catarse :) Daí que pouco ou nada
contribua para a nossa motivação, satisfação ou até gozo, que reiteradamente
nos move, o número de leitores que tenhamos ou possamos vir a ter. Não iremos,
todavia, concluir esta catarse pedestre
sem deixar de saudar os nossos (poucos) seguidores indefectíveis e todos
aqueles que encontraram ou venham a encontrar no nosso “escrevinhar” algo de
útil, ou até de inútil, ao seu “por-vir”. Bem hajam!
Nestes dias em que se “(sobre)vive” (a) um afã híper-consumista,
ademais nesta que é designada a “época natalícia” (!), será pertinente
salientar a importância de apoiar os mercados livreiros de nicho, mormente
aquele que se dedica à montanha: editoras,
livrarias, alfarrabistas e autores, entre outros – como agora se costuma dizer –
stakeholders! O assunto num país como
Portugal fará pouco ou nenhum sentido, tendo em conta que a realidade editorial de montanha é praticamente
inexistente e o pouco que existe ou existiu é como se não existisse ou tivesse
existido!... Particularidades e/ou minudências, para muitos, de somenos num
país à beira-mar plantado e historicamente ancorado a uma gesta marítima que talvez
não se coadune com ambientes de montanha. No entanto, e tendo em conta a
globalização do consumo, designadamente com a possibilidade de comprar on-line produtos provenientes das mais
diversas partes desta aldeia global que é a Terra, se pretende ofertar algo, a um familiar, amigo ou mesmo a si próprio, aposte na literacia de montanha e não hesite em
apoiar os micro, “piquenos” e médios projectos editoriais que continuam a medrar em diversas
línguas por esse mundo fora, nomeadamente no “ arco alpino” (com destaque
para o francês, alemão e italiano), mas não só (também em inglês, espanhol e, pasme-se,
português). É nesse contexto, que aproveitamos para destacar um pequeno texto, sobre
a temática da literatura de montanha,
publicado no número de Dezembro da revista Montagne360. E, claro, é igualmente neste
contexto que desejamos Boas Festas a todos os leitores do Pedestris, se
possível de ar livre ou, caso contrário, numa boa viagem de sofá...
A cura
di Leonardo Bizzaro e Riccardo Decarli, Biblioteca della Montagna
Le collane – almeno da quando l’alpinismo è
diventato uno sport di massa, o quasi – hanno forse avvicinato alla pratica
della montagna più persone di quanto abbiano fatto le scuole del Cai. Lo han ben
intuito Pietro Crivellaro, che proprio alle “Cordate di libri” ha dedicato una
bella mostra per la decima Rassegna internazionale dell’editoria di montagna,
nel 1996 al Filmfestival di Trento, presentandone venti delle più importante,
da La
piccozza e la penna di Adolfo Balliano, nata nel 1929, alla
relativamente recente I Licheni di Vivalda. Tra le più note,
eppure sconosciute dal punto di vista bibliografico, c’è Montagne di Zanichelli,
che per i primi suoi titoli è stata curata nientemeno che da Walter Bonatti. Non
solo, ché a disegnarne la grafica, e la veste editoriale, è stato un genio come
Albe Steiner, il più bravo trai i grafici attivi nel mondo librario nostrano. Debuttò
nel 1961 la collana, con Le mie montagne (dodici ristampe fino
al 1981 e altre tre in economica), che Bonatti scrisse senza esserne ancora il
titolare. Dell’importanza di quel
libro, il più appassionante del suo autore, non occorre qui aggiungere altro. Vale
però la pena ricordare gli altri che lui volle collana, senz’altro con lo
zampino degli Enriques, proprietari della casa editrice dal 1946 e grandi
patiti della montagna. Eccoli: Il Gran Cervino curato da Alfonso
Bernardi, del 1963 ; Il quattordici ‘8000’ a cura di
Mario Fantin, del 1964; i due volumi di Il Monte Bianco, del 1965 e 1966, a
firma ancora di Bernardi (pure in elegante cofanetto telato e decorato, e anche
in volume unico): tranne Bonatti, la cui prima edizione sfiora spesso i 200
euro, gli altri si trovano di solito a cifre ragionevoli, um po’più caro solo
il Monte Bianco. Poi, al tempo dell’addio alla pratica della montagna, il più
mediato dei nostri alpinisti abandono anche quest’attività, passata prima ad Alfonso
Bernardi, poi all’ottimo Luciano Marisaldi.
[in
Montagne360, Dez. 2018: 77]
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La rivista
del Club alpino italiano, Dezembro, 2018, pp. 80. ISSN 2280-7764
A Federação Espanhola de Desportos de Montanha e Escalada (FEDME)
realizou, na noite de 15 de Dezembro, a sua gala anual – Encuentro de Montañeros –
no Novotel Madrid Campo de las Naciones. Uma oportunidade única para constatar in loco a diversidade de áreas desportivas
e temáticas, tal como os elevadíssimos níveis de desempenho desportivo,
desenvolvidos no âmbito dessa federação, num país que é indubitavelmente uma
das maiores potências dos desportos de montanha a nível mundial. Essa foi
também uma ocasião ímpar para conhecer alguns dos atletas de topo nas áreas da
escalada, corridas de montanha e alpinismo, bem como para rever muitos e bons companheiros.
«O montanhismo (…), para além da componente física, será também uma
profunda experiência emocional, uma
atracção pela liberdade dos vastos
espaços verticais, pela grandiosa beleza
do mundo mineral, pela simplicidade
e rusticidade. Subir montanhas será
igualmente um meio de (re)ligação à
natureza, uma forma de transcendência… (…) “Um
fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento.”»
Pedro Cuiça (2010: 27)
A tertúlia sobre O Sentimento da Montanha: do imanente ao
transcendente, que decorreu no final do dia 14 de Dezembro na
Biblioteca Municipal de Lagoa (Algarve), resultou de uma proposta (melhor seria
dizer “desafio”), por parte da Dra. Maria Luísa Francisco, para abordarmos a vertente
“espiritual” do montanhismo. Um desafio certamente, tendo em conta essa forma
pouco “usual” de aproximação a ambas as temáticas, fenómeno que aliás já tínhamos
tido a oportunidade de constatar aquando da apresentação de semelhante “matéria”
(!) na Casa do Fauno.
A abordagem em causa iniciou-se através de um enquadramento
filosófico efectuado numa perspectiva assumidamente ocidental, tendo em conta
que o montanhismo teve origem nos Alpes e os seus paradigmas foram exportados para
o resto do mundo, com claras influências na sua praxis até aos dias de hoje. O Oriente não tem, de todo, o
exclusivo da “espiritualidade” e, nessa matéria, foi explanada uma perspectiva
do montanhismo consentânea com a riqueza “espiritual” do extremo Ocidente que é
esta Finisterra ibérica ainda hoje conhecida por Lusitânia, mormente à luz
daquilo que é costume designar por “filosofia portuguesa”. Da Montanha perfeita
ao foco no cume enquanto ara dea, do
sacro ofício de ascender montanhas às razões que animam essa actividade do profano (vale) ao sagrado (montanha) até ao “porquê?” e ao “para quê?” subir
montanhas. Uma via que nos conduziu ao “como?” fazer essas prática com base em
três conceitos-chave: imaginação, jogo e totalidade. Por fim, a/o
Montanha(ismo) enquanto metáfora: o Monte Abiegno, a anábase celeste e a transformação
da experiência da Montanha num modo de ser ao estilo de Julius Evola.
«(…) la verdadera realización, la superación
del elemento instintivo e irracional, la plena y firme autoconsciencia, es
decir, la transformación de la experiencia de la montaña en un modo de ser. Es
entonces cuando surge (…) el sentido de que todo o marchar, todo ascender, todo
conquistar, todo osar, es el único medio contingente de expresión de una
realidad inmaterial, lo cual podría tener muchos otros medios: y esto sería la
fuerza de aquellos que, en el fondo, pueden decir a sí mismos que nunca
regresamos desde las cumbres hasta la llanura, de aquellos a quienes no les
importa ni el ir ni el volver, porque la montaña está en su espíritu, porque el
símbolo se ha convertido en realidad (…).»
CUIÇA, Pedro. Guia
de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de
Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010. ISBN 978-989-96647-1-5
«Uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas,
seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e
cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros,
plena para os animais, plenas para as ervas, plena talvez até para seixo e
montanha.»
Agostinho da Silva (1999: 262-263 in MARTINS, 2016: 112)
Um enquadramento filosófico sobre algumas evoluções marcantes no
pensamento humano, no âmbito da estética e da ética, que se traduziram, em três
séculos, numa mudança radical de paradigma: da alta montanha horrível à beleza
das montanhas. Das paisagens montanhosas, em segundo plano, dos quadros de Leonardo
da Vinci, passando pelas montanhas sagradas de Nicholas Konstantinovich Roerich,
às abordagens holísticas da paisagem de Jan C. Smuts. Das éticas
antropocêntricas às correntes de pensamento e às éticas ambientais com notórias
influências na origem do montanhismo: os pré-romantismo e o romantismo, o
transcendentalismo de Concord, a preservação da natureza de John Muir, a ética
da Terra de Aldo Leopold e a ecologia profunda de Arne Naess. Do alpinismo/montanhismo
enquanto actividade de ascender/escalar montanhas aos multifacetados desportos
de montanha…
Um caminho percorrido para chegar à questão: qual a feição do sentir/pensar
(como um)a montanha nos dias de hoje? Uma reflexão não só pertinente como
fundamental face às alterações climáticas com que temos de nos confrontar. A
guerra-pacifista actual passará inevitavelmente pela preservação das montanhas
e esse é o grande desafio lançado pela Organização das Nações Unidas no Dia
Internacional das Montanhas 2018 sob o mote “As montanhas são essenciais para
as nossas vidas”.
«Um uivo vindo das profundezas ecoa de orla em orla rochosa, rola
montanha abaixo e extingue-se na longínqua escuridão da noite. É a erupção de
uma dor selvagem e desafiadora, cheia de desdém por todas as adversidades do
mundo. (…) por trás dessas óbvias esperanças e medos reside um significado mais
profundo que só a montanha conhece. Só a montanha viveu o bastante para escutar
objectivamente o uivo do lobo.»
Aldo LEOPOLD (2008: 128)
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
LEOPOLD, Aldo. Pensar
como uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008. ISBN
978-972-8870-10-2
MARTINS, Pedro. A
Liberdade Guiando o Povo. Sintra: Zéfiro, 2016, pp. 190. ISBN
978-989-677-138-6
«Chama-se honroso a tudo o que parece difícil;
o que é indispensável e difícil ao mesmo tempo, chama-se bem; e o supremo
recurso no perigo mais extremo, o que há de mais raro e de mais difícil,
chama-se sagrado.»
[NIETZSCHE, 1985: 65]
É acumulando montanhas que o discípulo do
conhecimento deve aprender a construir.
Transportar montanhas é para o espírito pouca coisa: já o sabíeis?
[NIETZSCHE, 1985: 115]
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava
Zaratustra. Lisboa-. Guimarães Editores,
1985, pp. 376.
Na próxima semana, no âmbito da comemoração do Dia Internacional
das Montanhas, vamos abordar, na sede da Federação de Campismo e Montanhismo de
Portugal (Lisboa) e na Biblioteca Municipal de Lagoa (Lagoa – Algarve), um conjunto de
temáticas em torno do pensar/sentir a montanha. Nesse contexto, deixamos aqui
uma citação extraída do livro Mountains
of the Mind – A History of a Fascination, de Robert MacFarlane (Granta
Books, 2003), que constitui uma das inspiradoras referências bibliográficas a
que iremos recorrer.
As late as 1791 William Gilpin noted that ‘the generality of people’
found wilderness dislikeable. ‘There are few’, he continued, ‘who do not prefer
the busy scenes of cultivation to the greatest of nature’s rough productions.’
Mountains nature’s roughest productions, were not only agriculturally
intractable, they were also aesthetically repellent : it was felt that
their irregular and gargantuan outlines upset the natural spirit-level of the
mind. The politer inhabitants of the seventeenth century referred to mountains
disapprovingly as ‘deserts’ ; they were also castigated as ‘boils’ on the
earth’s complexion, ‘warts’, ‘wens’, ‘excrescences’ and even, with their labial
ridges and vaginal valleys, ‘Nature’s pudenda’.
Moreover, mountains were dangerous places to be. It was believed that
avalanches could be triggered by stimuli as light as a cough, the foot of a
beetle, or the brush of a bird’s wing as it swooped low across a loaded
snow-slope. You might fall between the blue jaws of a crevasse, to be regurgitated
years later by the glacier, pulped and rigid. Or you might encounter a god,
demi-god or monster angry at having their territory trespassed upon – for mountains
were conventionally the habitat of the supernatural and the hostile. In his
famous Travels,
John Manderville described the tribe of Assassins who lived high among the
peaks of the Elbruz range, presided over by the mysterious ‘Old Man of the
Mountain’. In Thomas’s More’s Utopia
the Zapoletes – a ‘hideous, savage and fierce’ race – are reputed to dwell ‘in
the high mountains’. True, mountains had in the past provided refuge for
beleaguered peoples – it was to the mountains that Lot and his daughters fled
when they were driven out of Zoar, for instance – but for the most part they
were a form of landscape to be avoided. Go around mountains by all means, it was
thought, along their flanks or between them if absolutely necessary – as many
merchants, soldiers, pilgrims and missionaries had to – but certainly not up
them.
During the second half of the 1700, however, people started for the
first time to travel to mountains out of a spirit other than necessity, and a
coherent sense began to develop of the splendour of moutainous landscape. The
summit of Mont Blanc was reached in 1786, and mountaineering proper came into
existence in the middle of the 1800s, induced by a commitment to science (in
the sport’s adolescence, no respectable mountaineer would scale a peak without
at the very least boiling a thermometer on the summit) but very definitely born
of beauty. The complex aesthetics of ice, sunlight, rock, height, angles and
air – what John Ruskin called the ‘endless perspicuity of space ; the
unfatigued veracity of eternal light’ – were to the later nineteenth-century
mind unquestionably marvellous. Mountains began to exert a considerable and
often fatal power of attraction on the human mind. ‘The effect of this strange
Matterhorn upon the imagination is indeed so great,’ Ruskin could claim proudly
of his favourite mountain in 1862, ‘that even the gravest philosophers cannot
resist it’. Three years later the Matterhorn was climbed for the first time ;
four of the successful summitteers fell to their deaths during the descent.
(…) Today the emotions and attitudes which impelled the early
mountaineers still proper in the Western imagination : indeed if anything
they are more unshiftably ensconced there. Mountain-worship is a given to
million of people. The vertical, the ferocious, the icy – all these are now automatically
venerated forms of landscape, images of wich permeate an urbanized Western
culture increasingly hungry for even second-hand experiences of wildness and
wilderness. Mountain-going has been one of the fastest growing leisure
activities of the past twenty years. An estimated 10 million Americans go
mountaineering annually, and 50 million go hiking. Some 4 million people in
Britain consider themselves to be hill-walkers of one stripe or another.
(…) Over the course of three centuries, therefore, a tremendous
revolution of perception occurred in the West concerning mountains. (…) So
drastic was this revolution that to contemplate it now is to be reminded of a
truth about landscapes ; that our responses to them are for the most part
culturally devised. That is to say, when we look at a landscape, we do not see
what is there, but largely what we think is there. We attribute qualities to a
landscape which it does not intrinsically posses – savageness, for example, or
bleakness – and we value it accordingly. We read landscapes, in other words, we
interpret their forms in the light of our own experience and memory, and that
of our shared cultural memory.
(…) What we call a mountain is thus in fact a collaboration of the
physical forms of the world with the imagination of humans – a mountain of the
mind.
[MACFARLANE, 2003 : 14-19]
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. Londres :
Granta Books, 2003, pp. 310. ISBN