quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Lã e a Neve


Serra da Estrela
Descubra um percurso esquecido

O tempo encarregou-se de apagar parte do antigo caminho que ligava Manteigas à Covilhã, pelo Vale do Buraco, Serra de Baixo e Beijames. Mudam-se os tempos mudam-se os caminhos. Mas as pedras dessa via existem. Pisá-las é uma outra forma de descobrir a serra. Por companhia e guias para este percurso escolhemos as personagens de A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro.

Texto de Pedro Cuiça/PHM1
Notícias Magazine nº 377, de 22 de Junho de 1999


Pedro Cuiça © Serra da Estrela (2017)

O vale glaciário do Zêzere desce, no seu gigantesco perfil em U, até às imediações de Manteigas. O pequeno e antigo povoado de montanha, de casas graníticas com varandas de madeira e parapeitos de fero-forjado, ficou para trás, no fundo de desafogada depressão a cerca de 720 metros de altitude. Ao longe vêem-se as encostas de Penhas Douradas, Campo Romão e S. Lourenço.
Os olivais, milheirais e vinhedos podem subir até aos 900 metros, mas nesta parte da vertente cederam rapidamente lugar aos pinheiros-bravos. O caminho lajeado sobe a vertente direita do Vale do Buraco, acompanhando o ribeiro homónimo escondido pelo pinhal. As pedras da via romana ou medieval lembram milhentas andanças e riscos corridos para transpor a serra, como a aventura de Horácio e Serafim Caçador.
Tal como nós e tantos outros ao longo de gerações, as personagens do livro A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, passaram na Rua Direita (actual 1º de Maio), desceram a rua de Sto. António até à ermida de Sto. André e ultrapassaram o Fundo da Vila para “meterem” à encosta em frente. O caminho velho começava junto da ermida de Sto. António (junto da qual se encontra hoje a Albergaria Berne), mas agora é preciso atravessar a estrada de alcatrão para encontrar a via empedrada que sobe o Vale do Buraco.

Serafim Caçador queixava-se: “É pena não haver camioneta todos os dias para a Covilhã. E para um homem ir tomar o comboio a Belmonte tem de perder um dia inteiro. Parece que moramos no fim do Mundo! Eu, antigamente, não me importava. Atravessava a serra num pulo, sempre que era preciso; mas, agora, já não estou para grandes caminhadas”. A travessia da serra “num pulo” é uma expressão demasiado branda, se atendermos a que “eram quatro puxadas horas quando não havia neve, cinco e até mais quando ela cobria encostas e píncaros, de onde os próprios lobos haviam fugido”.

As dificuldades inerentes à viagem, quer quanto à distância quer quanto às condições meteorológicas a suportar no Inverno, foram assinaladas já no século XIV. José David Lucas Batista refere um documento, datado de 1392, em que os habitantes de Manteigas apontavam os inconvenientes da deslocação à Covilhã. Há pouco mais de 40 anos, o trajecto fazia-se ainda pelo caminho velho, exclusivamente a pé ou a dorso de animais. A estrada Manteigas-Covilhã (EN 338) só viria a ser implantada na primeira metade da década de 60.

ASCENDER ÀS ALMAS: os principiantes aguentam!
Hoje o que não faltam são vias de comunicação e as pessoas já não precisam de se “fazer à serra”. No trajecto da ermida de Sto. António ao Vale do Buraco, a via antiga é atravessada por caminhos de terra-batida, passa junto de uma casa florestal, cruza a estrada alcatroada que vai para o Poço do Inferno e continua a ganhar altitude. Uma estrada florestal corta o caminho mais acima, onde é necessário virar à direita e, logo depois, à esquerda para retomar a antiga via. Já no Vale do Buraco, o caminho empedrado passa junto de um grande bloco, situado à direita: a Pedra Vestia. No lado esquerdo do caminho destaca-se um malhão (marco quadrangular de pedras soltas) bem conservado. Mais adiante, atravessa-se outra estrada de terra-batida para prosseguir a subida.
Ao chegar quase ao cimo do vale, o caminho lajeado passa por entre dois penedos graníticos. A Terra dos Abrantes, onde há uma barroca com água e um casal com muro de pedras, surge à direita, a modo de covão. Pouco depois, atinge-se as Almas, lugar onde aparece, junto do lado esquerdo do caminho, uma rústica alminha, talhada em granito, com nicho pouco escavado. Sucessoras das estelas funerárias romanas, colocadas à beira dos caminhos para apiedar os viajantes (a fim de propiciar e perpetuar a memória dos mortos), as alminhas cristãs pretendem mitigar os sofrimentos daqueles que se encontram no Purgatório.
O caminho antigo entronca numa estrada alcatroada escassos metros à frente. É altura de virar à direita e continuar pelo asfalto, rodeando o Curral da Nave e a Nave da Gadelha, rumo ao Alto da Portela. Um pouco antes de atingir a Portela convém, no entanto, ponderar o trajecto a seguir, pois é ainda possível virar à esquerda descendo o Vale Andinho e, subindo, o Vale da Adega, regressar às Almas e a Manteigas.
É este o percurso alternativo que hoje se aconselha a quem não disponha das pernas e da experiência de orientação dos nossos antepassados serranos. O andamento, em caminhos de terra-batida, passa por velhos casais, agora maioritariamente abandonados, envolvidos por arvoredo e acompanhados por pequenos cursos de água e diversas fragas. Também é possível atingir o Poço do Inferno e, daí, descer até Manteigas, mas o dilatado trajecto ao longo da estrada asfaltada aconselha uma visita a essa queda de água em veículo motorizado.

DA PORTELA À COVILHÃ: só para quem está em boa forma
O percurso até à Covilhã, a partir do Alto da Portela, recomenda-se somente àqueles que estejam em boa forma física e dominem as artes da orientação. Mesmo nesse caso não será sensato empreender o trajecto caso se prevejam condições meteorológicas adversas. Um simples nevoeiro será suficiente para o viajante se perder, ficando numa situação bastante embaraçosa. O caminho desaparece mais à frente, apagado pelos anos de abandono e a designação “Serra do Ermo”, nome pelo qual era conhecida a Serra da Estrela, aplica-se como uma luva ao vasto planalto ondulado.

Horácio e Serafim Caçador, apesar de conhecerem o itinerário como a palma das mãos, perderam-se devido às condições meteorológicas adversas. O caminho ainda se encontrava bem assinalado e era usado com frequência, mas a tempestade que os apanhou foi suficiente para incorrerem em erro. Conscientes dos perigos da serra, que em semelhantes circunstâncias ceifaram a vida de outros, chegaram a questionar se haviam de prosseguir. A decisão de avançarem bem lhes custou. “De Manteigas à Borralheira ou à Aldeia do Carvalho, a pé, mesmo com bom tempo, era o que todos sabiam. Um homem chegava arrasado. Com um tempo assim, era de rebentar e nem em cinco horas se punham lá.”

O caminho desenvolvia-se do Alto da Portela, passando pela Serra de Baixo, até Beijames. Actualmente esse troço é fácil de seguir, encontra-se alcatroado na primeira parte, continuando por terra-batida que surge à esquerda. Depois é que começam as complicações. A Fraga do Neto, situada à esquerda do lugar de Beijames, era utilizada como ponto de referência daqueles que palmilhavam essas paragens, mas actualmente esse nome de lugar não se encontra nas cartas topográficas.
Considerados o reduto das tribos da Lusitânea durante as guerras luso-romanas, os Montes Hermíneos foram conquistados mais por homens pastoreando ovelhas e cabras do que manobrando a funda ou a lança. Constituindo um centro de transumância já antes da formação do Reino de Portugal, logo após o degelo, lá para Abril ou Maio (caso a invernia se prolongasse), o chocalhar dos rebanhos quebrava o silêncio da montanha, encostas acima, anunciando a Primavera. Os pastores, bem como os seus rebanhos, permaneciam nos pastos de altitude até ao Outono.
A frequência pelo homem das grandes extensões despovoadas de altitude diminuiu consideravelmente devido ao declínio do pastoreio e da cultura do centeio, bem como da construção de novas vias de comunicação. Com o decorrer do tempo deixou de ter utilidade o conhecimento do terreno e a delimitação de certas áreas, fazendo com que os topónimos identificadores caíssem em desuso.

POR CAIRNS E PASSADOUROS ou “ONDE PARAR PARA ALMOÇAR”
A Portela da Serra de Baixo e a Portela do Beijames, ausentes nas cartas topográficas, são referidas em documento datado de 1560. Esta última era assinalada como passagem vadeável: “Porto que vay para a Covilhã”. Os velhos de Manteigas, que palmilharam o percurso inúmeras vezes, falam dos “passadouros” (pedras empinadas) no ribeiro de Beijames. Uma coisa é certa, era regra almoçar junto ao ponto de passagem. Depois pode-se ir direito à Malhada da Cova ou Malhada Velha e, daí, rumar ao Covão do Teixo. Mas o caminho antigo devia subir ao Alto do Espinheiro, para encurtar distância.

“Não havia dúvida, iam enganados. Já tinham feito um estirão escusadamente. E se continuassem por ali, em vez de botar à aldeia, iriam sair entre a Nave as Penhas da Saúde”. Horácio e Serafim Caçador, iludidos pela tempestade, foram dar à Malhada da Velha.

Hoje o caminho, assinalado por cairns (pequenos montículos de duas ou mais pedras), encontra-se encoberto pela vegetação. Em frente, os cântaros Raso, Magro e Gordo, surgem em toda a sua imponência. O ribeiro é ultrapassado a vau (sobre pedras), sobe-se ao Alto do Espinheiro e continua-se ao longo da cumeada até inflectir rumo ao Covão do Teixo. Nessa depressão surgem os primeiros cairns a assinalar o trajecto. Antes do Picoto atinge-se a Terra Direita
 Uma planura granítica de onde se abrange vasto panorama sobre a Cova da Beira. Depois da Garrafa (como alguns locais chamam
Ao Picoto), o flanco sudeste da serra lança-se sobre a Aldeia do Carvalho e a Covilhã.

Horácio e Serafim Caçador adivinharam finalmente, “à direita ao longe, a Covilhã”. “Já passava da meia-noite […] no meio de uma quintazinha sobranceira à Aldeia do Carvalho – a mais alta que fora arroteada na serra. Dali às primeiras casas que, dispersas, o povoado lançava encosta arriba, havia ainda grande distância”. A maior parte dos viajantes seguiam, contudo, por Entre Ribeiras, Pousadinha e Borralheira até à Covilhã.


Notas de viagem2
Localização
O Parque Natural da Serra da Estrela situa-se a pouco mais de 200 quilómetros do Porto e a 300 quilómetros de Lisboa.
Acessos
Via Seia (EN 339, EN 339-1 e EN 232) ou Guarda (EN 18-1 e EN 232), a norte. Via Covilhã (EN 339 e EN 338) ou Belmonte-Valhelhas (EN 232), a sul.
A ler para se ambientar
– Ferreira de Castro (1947): A Lã e a Neve
– José David Lucas Batista (1994): Toponímia do Concelho de Manteigas; Câmara Municipal de Manteigas & Parque Natural da Serra da Estrela, Manteigas, pp. 260.


Passo-a-passo
Desenvolvimento do percurso Manteigas-Covilhã: cerca de 20 km (variante Manteigas-Nave da Gadelha-Manteigas: cerca de 13 km)
Desníveis acumulados: +899m, -1060m (variante: +766m, -766m)
Altitude máxima: 1500m
Altitude mínima: 620m (variante: 700m)
Duração3: 5h (variante: 3h)
Dificuldade: percurso difícil (variante de dificuldade média)
Época aconselhada: Maio a Outubro
Atenção: o percurso Manteigas-Covilhã deve ser empreendido por pessoas em boas condições físicas, com conhecimentos de orientação e equipamento específico.

NOTAS PEDESTRIS
1. Na edição original, publicada na revista Notícias Magazine nº 377, de 22 de Junho de 1999: fotografias de Pedro Alarcão
2. A ficha técnica “Notas de viagem” comportava um conjunto de contactos úteis que não publicamos aqui por se encontrarem manifestamente desactualizados, designadamente no tocante aos números de telefone disponibilizados que já não existem.
3. Os horários apresentados foram calculados sem ter em conta quaisquer paragens; tratam-se, portanto, de tempos com base apenas em velocidade efectiva.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

No Cimo da Estrela


Às avessas


Pedro Cuiça © Capela da Santíssima Trindade (Sintra - Portugal, 2009)


«Andei daquém para além,
Terras vi, e vi lugares
Tudo seus avessos tem:
O que não experimentares,
Não cuides que o sabes bem.»
Sá de Miranda (in BERNARDES, 1942: 120)

«A peregrinação ao santuário de Santiago de Compostela era conhecida como a Peregrinação das Conchas, mas depois de ter trabalhado com Trevor Ravenscroft e de ter voltado a estudar a capela de Rosslyn, fui-me deparando com referências consecutivas a uma outra peregrinação misteriosa conhecida como a Peregrinação do Alquimista ou a Peregrinação da Iniciação. Esta peregrinação não tinha como destino Jerusalém, o local onde Jesus conheceu a morte, nem Roma, a cidade de S. Pedro e S. Paulo pois, tal como a Peregrinação das Conchas, destinava-se a um canto obscuro e relativamente inacessível no noroeste de Espanha, a um santuário dedicado a Tiago o Maior, filho de Zebedeu, e Tiago Menor, também conhecido por, Tiago o Justo, e irmão de Jesus. »
[WALLACE-MURPHY, 2016: 235]

«A iniciação num caminho espiritual válido é um tipo de experiência mística ritualizada na qual um mestre guia o noviço para que este desenvolva e aperfeiçoe o uso dos seus orgãos de percepção espiritual. Estes chakras são despertados por ordem desde a base até à coroa. Esta ordem específica do despertar dos chakras pode explicar porque é que, na Peregrinação de Iniciação, a direcção da viagem é precisamente a inversa da peregrinação ortodoxa normal até Compostela. Assim, após um período de preparação religiosa em Sintra, Portugal – uma cidade onde, para além da existência de uma coluna que é uma réplica da Coluna do Aprendiz de Rosslyn, é também um lugar análogo ao templo preparatório de Buhen na peregrinação egípcia – o noviço viaja até Santiago de Compostela para avançar para o primeiro grau da sua iniciação, que simbolizava o despertar do chakra base que nos une à terra.»
[WALLACE-MURPHY, 2016: 239]

Pedro Cuiça © Capela da Santíssima Trindade (Sintra - Portugal, 2009)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BERNARDES, Pe. Manuel. Excerptos da “Nova Floresta”. Porto: Editôra Educação Nacional, 1942, pp. 312.
WALLACE-MURPHY, Tim. O Código Secreto dos Templários. Lisboa: Verso da Kapa, 2016, pp. 302. ISBN 978-989-8816-44-3


Pedro Cuiça © Caminho Português (Galiza - Espanha, 2016)

sábado, 15 de setembro de 2018

O que(m)?


Pedro Cuiça © Igreja de Alcobertas (Portugal, 2016)


«Nada ou quase nada se conhecendo a seu respeito, posso imaginar para ele (Prisciliano) e lho atribuir tudo quanto a mim me apeteceria ser e proclamar.»
Agostinho da Silva (in SANTOS, 2013: 12)

«Ao longo dos tempos, um inquietante enigma paira sobre Santiago de Compostela: a quem pertencerão os restos mortais que ali se cultuam?
Na verdade, Tiago Zebedeu foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado, em Jerusalém, onde foi sepultado. É o único cuja morte vem documentada na Bíblia, no ano 44.
Contudo, oito séculos depois, nasceu na Galiza uma prodigiosa lenda, após as visões de um eremita que viu luzes estranhas num bosque, enquanto se ouviam cânticos de anjos (por volta do ano 820). O bispo Teodomiro de Iria Flavia (atual Padrón) visitou o lugar e encontrou uma velha tumba com restos humanos e atribuiu-os ao apóstolo Tiago e a dois dos seus discípulos. A lenda floresceu e, mais tarde, ampliou-se, com menção de que o corpo viajara miraculosamente num barco de pedra, guiado por anjos, ao longo de sete dias, até à referida Iria Flavia. Segundo a mesma, ali foi desembarcado e levado até à atual Compostela.
Assim, durante quase oitocentos anos, existiu um vazio sobre a veneração do corpo de Santiago em Compostela.

Porém, uma outra perturbante tradição, mais bem documentada, narra que, no final do século IV, chegou pelo mar a Iria Flavia o corpo do líder de um movimento carismático e espiritual com forte implantação popular na Hispânia romana e os de dois homens que o seguiam, decapitados pela sua fé. Dali, terão sido trasladados para o seu sepulcro, acompanhados por uma multidão de seguidores. O povo imediatamente atribuiu-lhes fama de santos e mártires e passou a fazer devoção, peregrinação e os juramentos mais solenes sobre os seus túmulos, invocando o seu nome. A força do movimento perdurou na Galécia até à chegada dos muçulmanos, apesar de sucessivos concílios e ações para o exterminar.
Durante muitos séculos, o líder do movimento foi considerado um herege pela Igreja. Porém, as recentes descobertas dos seus escritos (em Würzburg, Alemanha) vieram pôr em causa a justiça da perseguição e do esquecimento a que foi votado durante cerca de mil e seiscentos anos. E reputados autores e historiadores passaram a perguntar-se: Afinal, quem está sepultado em Compostela? E se o culto que ali se presta for o maior paradoxo da história do ocidente? Como começou esse culto? E outros a questionarem-se: Qual o sentido das peregrinações a Compostela?»
[SANTOS, 2013: 11-12]

Pedro Cuiça © Igreja de Padrón (Galiza, 2016)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SANTOS, Alberto S.. O Segredo de Compostela. Porto: Porto Editora, 2013, pp. 480. ISBN 978-972-0-04393-1


A viar

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquézar (Aragão, 31 de Outubro de 2016)

«A Cruz de Cristo, implantada como heráldica primeiro no lábaro de Constatino, projecta uma sombra de paz. A conversão é um arrebatamento: toda a gente anseia pela viagem ao Oriente, para ver a terra que o filho do homem pisou. É um vaivém de pessoas que acorre da Hispânia para Oriente. A peregrinatio hierosolymitana assume-se promessa, ou propositum, do qual só o Padre Santo pode ilibar. Essa peregrinatio supõe a ida e a volta, mas, por vezes, envolve a fixação definitiva – inde ad propria nunquam reversu, como quem diz, ir e não voltar. Há, nas tendências tradicionalistas do paganismo, anseio de viagem a Ocidente, por isso que, mesmo antes do culto santiaguino, Compostela seja propósito. É a viagem peregrina à Finisterra, à procura da estrela, do comput, através de um caminho que depois se chamaria francês, não por ser porta de importação, mas por ser via de chegada de franceses em procura do que não traziam, mas buscavam: atingir o Atlântico pela via mais curta, em busca dos mitos heráldicos: Hércules, Noé, a Atlântida. Noutros casos, a procura de um outro mito, o mar sem fundo, o cabo do mundo, o fim da terra, como a Harmonia saudosa do Caos. Homo peregrinus, homo viator, há quem julgue que viar é andar na terra, há quem acerte que viar é ascender ao céu. Os santos viajam, o peregrino é uma existência. Por isso o povo os chama romeiros, ou romeus, que vão a Roma, ou passam por Roma, idos ou vindos da Terra Santa. Roma é o meio. As peregrinações para Ocidente não têm sinal contrário ao das peregrinações para Oriente, embora hajam propósito anómalo – de Ocidente para Oriente é o progresso na ordem futurível, de Oriente para Ocidente é o regresso na futurível ordem. Todos buscam os novíssimos e os últimos fins do homem na terra, à luz, ou do princípio, ou da revelação final, o apocalipse. A alta idade média não inventou as peregrinações; elas foram uma herança recebida e aprofundada durante o domínio árabe, e prosseguida até aos nossos dias, já sem o eco criacionista das peregrinações ou itinerações antigas.
As peregrinações penitenciais são mais tardias, datam desde o século XII, e são formalmente diversas das peregrinações baptismais dos antigos. A peregrinação que, no tempo patrístico, era um baptismo de fé torna-se, na igreja medieval, forma penitencial – uma forma específica de penitência. Surge a emblemática do peregrino, que tem um lugar singular na comunidade. A partir do século X, a peregrinação envolve-se de uma liturgia própria, e as insígnias ambientam a espiritualidade: a capsella, pere, sporte, ou sacola; o baculum, fustis, ou bordão, e a vieira. Enfim, a bênção do peregrino, a vigília vesperal, a recepção nas albergarias, o fim da jornada e o início da missão, no regresso, como se o peregrino tivesse recebido o carisma apostólico do «ide e evangelizai». Peregrinar à Terra Santa é como estudar a Bíblia: um peregrino é um doutor na fé.
Embora com os limites temporais e locais, as peregrinações eram como órgãos de comunicação social, fontes de informação e círculos autorizados, fazendo doutrina e escola.
A um ritmo algo contraposto ao dos «franceses» que andavam, via caminho francês, por Compostela, em busca do mar sem fundo, os lusitanos viajavam à inversa, do mar sem fundo para o destino celestial. A nossa patrística é uma patrística viajeira, imparável e curriculeira, sempre a andar. Depois que os germanos e bizantinos invadiram o pagus lusitano, o afluxo dos pagãos conversos a Roma e ao Oriente progrediu. De Braga saíram, mal começado o século V, os dois (ou três, uma vez a identificação ainda estar obscura) Avito. Andou um por Roma, outro por Jerusalém, um pouco antes de 410. O de Roma deixou-se envolver pelas doutrinas de Vitorino, o outro acabou por se envolver, facilitando, ambos, o radicamento da gnose priscilianista, conforme se deduz de Paulo Osório, que os trata por «cives mei» – eram todos bracarenses. Nos finais do século V, outra ilustre virilidade, Idácio de Chaves, viajou para Oriente, levado por familiares, tendo ensejo de conhecer S. Jerónimo, cuja recordação de infância manteve sempre.
(…)
A obra, Itinerarium ou Peregrinatio ad Loca Sancta, é diversamente titulada pelos historiadores que lhe fixaram o texto na antiguidade. O texto – incompleto –, foi descoberto (1884) em Arezzo, por Gamurrini, que o julgou atribuível a Sílvia, irmã de Rufino de Aquitânia, sendo esta tese aquitânica posteriormente defendida por outros especialistas, como o liturgista Dom Fernando Cabrol, no aliás excelente escurso Sílvia Etérea (1895) em que atribui a Sílvia o sobrenome de Etérea, ou Egéria. A crítica interna posterior veio a registar, nesse texto, escrito entre 400 e 418, agora geralmente intitulado ou Peregrinação da Etérea ou Itinerário de Etérea ou Diário de Viagem de Etérea, componentes linguísticos e estilísticas de clara origem referenciada ao latim da Lusitânea. Etérea não é um pensador, mas um autor que fixa os quadros vistos e contemplados, sem introdução de juízos eventuais. Usa uma linguagem por um lado popular, por outro iniciada na cultura cristã, com abundância de informação litúrgica, e demora-se a descrever, em Jerusalém.»
[GOMES, 2000: 137-142]

Pedro Cuiça © pintura de São Jerónimo (Alquézar - Aragão, 31 de Outubro de 2016)

NOTA
Os destaques a negrito são de nossa iniciativa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Pinharanda. História da Filosofia Portuguesa – A Patrologia Lusitana. Lisboa: Guimarães Editores, 2000, pp. 376. ISBN 972-665-441-6

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um passeio

Um "passeio" de 2281 quilómetros!...

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

«Tenho andados cerca de 1.600km e faltam-me uns 800 para chegar à minha meta [Santiago de Compostela].
Hoje passo o dia inteiro subindo muito. Brutal.
Começa a haver poucos arbustos e muito verde. Bom, é olhar de vez em quando para trás e ver lá no fundo, e já longe, o sítio de onde vim [Saint-Jean-Pied-de-Port]. Na vila tinham-me dito que não há bom tempo para passar os Pirinéus. Pode estar sol num momento e meia hora mais tarde, estar tudo cerrado com nevoeiro, chuva ou neve, depende da estação em que passamos por eles. De facto parecia termos um bom dia, mas à medida que vou subindo, começa a ficar frio… as árvores são cada vez mais escassas e pequenas e dentro em pouco, até essas desaparecem.
Muita gente começa o Caminho aqui, Saint Jean Pied-de-Port, e pensam que vão fazer um passeio…».
[RODRIGUES, 2018: 169]


Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Mosteiro de Urdax - Navarra, 29 de Outubro de 2017)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RODRIGUES, Fátima. O caminho de Santiago em 81 dias. Lisboa: By the Book – Edições Especiais, 2018, pp. 250. ISBN 978-989-8614-64-3



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Santiago em 81 dias


O lançamento do livro O caminho de Santiago em 81 dias vai decorrer amanhã, dia 12 de Setembro, das 18.00 às 20.00, na sede do Comité Olímpico de Portugal, situada em Lisboa na Travessa da Memória nº 36. Esta obra literária trata-se de um testemunho sobre uma caminhada empreendida desde Zurique até Santiago de Compostela, num total de mais de dois mil quilómetros calcorreados a pé. Uma edição By the Book que constitui o primeiro título da Colecção Zebra, dedicada exclusivamente à temática do andar a pé.
O evento, apresentado e moderado pelo jornalista Francisco Sena Santos, contará com a presença da autora, Fátima Rodrigues, da editora, Margarida Oliveira, do director-geral do Comité Olímpico de Portugal, João Paulo Almeida, da  presidente do Coletivo Zebra Sandra Moutinho e de três “andarilhos” Zebra: Lúcia Barroso, André Couto e Pedro Cuiça.
O Coletivo Zebra é uma organização da sociedade civil, mais precisamente uma cooperativa de inovação social, que existe para promover o andar a pé como atitude regular, natural, tonificante, saudável, gratuita, livre e libertadora.
A participação no evento não poderia, por isso, deixar de ser livre e gratuita. Aqui fica o convite e contamos com a sua gratificante presença.




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[12 de Setembro de 2018
Uma conversa animada e interessantíssima, no âmbito do lançamento d’O caminho de Santiago em 81 dias, em torno dessa aventura e da sua protagonista, ambas indubitavelmente extraordinárias. Fica o sentimento de gratidão por ter participado em tão enriquecedora e motivadora experiência do Caminhar/Caminho…

Pedro Cuiça © Comité Olímpico de Portugal (12 de Setembro de 2018)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Cidade Caminhada


Pedro Cuiça © Lisboa (10 de Abril de 2018)

Cada acto de caminhar consiste numa fusão corporal e temporal entre o indivíduo e o território, entre o indivíduo e o todo que é a cidade. Em cada experiência, a cidade é percepcionada enquanto combinação das características e dos objectivos de cada indivíduo, e o que o ambiente urbano proporciona.
Considera-se, assim, abordar o caminhar não como um deslocamento na cidade mas antes como uma acção composta pelo caminhante e o meio; uma experiência holística continuada do meio, que se estende ao longo do espaço e do tempo, e através da qual cada pessoa conhece e constrói uma realidade.
[GOMES, 2016: 1-2]

Pedro Cuiça © Lisboa (25 de Março de 2018)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Maria João Monteiro. A Cidade Caminhada – A ambivalência experenciada em duas visitas guiadas no centro histórico de Lisboa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Instituto Universitário de Lisboa, 2016, pp. 304.

Pedro Cuiça © Lisboa (25 de Março de 2018)

Por aqui e por acolá


© Algures na Net

«Minha senhora, o meu ideal, no fundo, ao que penso, foi sempre ser vadio, sabe.»
Agostinho da Silva 
(in FRANCO, 2015: 38)

Agostinho da Silva «dava de bom grado um dos mindinhos por um dia de conversa e o papa-léguas que dava outro por uma longa tarde de marcha» (FRANCO, 2015: 112). «Foi um andarilho, que bateu os sete cantos do mundo, e fez da vadiagem um sistema de vida e até de pensar» (FRANCO, 2015: 149).


NOTA
A vida e a obra de Agostinho da Silva são verdadeiramente excepcionais e alvo de estudo sob diversos formatos e perspectivas... A biografia de Cândido Franco (Quetzal, 2015) revela de modo primoroso essa excepcionalidade, desde logo ao denominá-lo Estranhíssimo Colosso e ao caracterizá-lo nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FRANCO, António Cândido. O Estranhíssimo Colosso. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Lisbon Lunch Walks (III)


Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

O silêncio e a solidão apenas são cortados por uma viatura que lesta passa, deixando escapar, das janelas entreabertas, uma voz quente e grave, intensa e funda: Nick Cave e «Into My Arms» adejam nos céus de Lisboa, sobre o vale que divide o Oriente e o Ocidente da cidade, sobre o plácido casario, em direcção ao Castelo, à Sé e ao rio. Em direcção ao Sul, que rosa e ouro se prenuncia.

But I believe in love
And I know that you to
And I believe in some kind of path
That we can walk down me and you
So keep your candle burning
Make a journey bright and pure
That you’ll keep returning always and evermore

Into my arms Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms

[BORGES, 2006: 54-55]


Pedro Cuiça © Anarkhia Pop - Uma espécie de eco-anarcótico (Lisboa, 1986)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BORGES, Paulo. Línguas de Fogo – Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 374. ISBN 972-8605-91-9

Caminho(s) para todos


Aqui fica o convite para participarem na tertúlia sobre Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago que irá contar com a presença da autora – Luísa Sousa – e no qual terei o grato prazer de apresentar o livro e aflorar a temática das peregrinações em geral e do Caminho de Santiago em particular. O evento irá decorrer no dia 11 de Outubro, a partir das 18.45, no Centro de Reuniões do INFARMED, I.P., no Parque de Saúde de Lisboa. Entrada livre.




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«É estranho ouvir alguém que não nos conhece, fazer uma análise tão certeira em certos pontos. A certa altura já temia pelo que viria depois. Muito obrigada Pedro pela disponibilidade, generosidade e pontos de reflexão, apesar do jet lag e cansaço das viagens. Foi a melhor forma de terminar este roteiro pelo país.»
Luísa Sousa (12 de Outubro de 2018)

Transporte pedestre

«Na era pré-industrial, as pessoas viajavam sobretudo a pé - e isso mantinha-as em forma. Depois veio o poder do motor, e as pessoas tornaram-se preguiçosas. Andar a pé tornou-se no transporte de último recurso, uma "arte esquecida", nas palavras da Organização Mundial de Saúde.»
Carl Honoré (2006): O Movimento Slow; Estrela Polar

Pedro Cuiça © Pirenéus (França, 2005)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Lisbon Lunch Walk (II)


Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)

Então, o que é que almoçaste hoje? Hoje, hoje fui levar-me a passear, decerto à pata, a penantes ou a butes, como se quer ou queira!...

Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)