sábado, 15 de setembro de 2018

O que(m)?


Pedro Cuiça © Igreja de Alcobertas (Portugal, 2016)


«Nada ou quase nada se conhecendo a seu respeito, posso imaginar para ele (Prisciliano) e lho atribuir tudo quanto a mim me apeteceria ser e proclamar.»
Agostinho da Silva (in SANTOS, 2013: 12)

«Ao longo dos tempos, um inquietante enigma paira sobre Santiago de Compostela: a quem pertencerão os restos mortais que ali se cultuam?
Na verdade, Tiago Zebedeu foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado, em Jerusalém, onde foi sepultado. É o único cuja morte vem documentada na Bíblia, no ano 44.
Contudo, oito séculos depois, nasceu na Galiza uma prodigiosa lenda, após as visões de um eremita que viu luzes estranhas num bosque, enquanto se ouviam cânticos de anjos (por volta do ano 820). O bispo Teodomiro de Iria Flavia (atual Padrón) visitou o lugar e encontrou uma velha tumba com restos humanos e atribuiu-os ao apóstolo Tiago e a dois dos seus discípulos. A lenda floresceu e, mais tarde, ampliou-se, com menção de que o corpo viajara miraculosamente num barco de pedra, guiado por anjos, ao longo de sete dias, até à referida Iria Flavia. Segundo a mesma, ali foi desembarcado e levado até à atual Compostela.
Assim, durante quase oitocentos anos, existiu um vazio sobre a veneração do corpo de Santiago em Compostela.

Porém, uma outra perturbante tradição, mais bem documentada, narra que, no final do século IV, chegou pelo mar a Iria Flavia o corpo do líder de um movimento carismático e espiritual com forte implantação popular na Hispânia romana e os de dois homens que o seguiam, decapitados pela sua fé. Dali, terão sido trasladados para o seu sepulcro, acompanhados por uma multidão de seguidores. O povo imediatamente atribuiu-lhes fama de santos e mártires e passou a fazer devoção, peregrinação e os juramentos mais solenes sobre os seus túmulos, invocando o seu nome. A força do movimento perdurou na Galécia até à chegada dos muçulmanos, apesar de sucessivos concílios e ações para o exterminar.
Durante muitos séculos, o líder do movimento foi considerado um herege pela Igreja. Porém, as recentes descobertas dos seus escritos (em Würzburg, Alemanha) vieram pôr em causa a justiça da perseguição e do esquecimento a que foi votado durante cerca de mil e seiscentos anos. E reputados autores e historiadores passaram a perguntar-se: Afinal, quem está sepultado em Compostela? E se o culto que ali se presta for o maior paradoxo da história do ocidente? Como começou esse culto? E outros a questionarem-se: Qual o sentido das peregrinações a Compostela?»
[SANTOS, 2013: 11-12]

Pedro Cuiça © Igreja de Padrón (Galiza, 2016)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SANTOS, Alberto S.. O Segredo de Compostela. Porto: Porto Editora, 2013, pp. 480. ISBN 978-972-0-04393-1


A viar

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquézar (Aragão, 31 de Outubro de 2016)

«A Cruz de Cristo, implantada como heráldica primeiro no lábaro de Constatino, projecta uma sombra de paz. A conversão é um arrebatamento: toda a gente anseia pela viagem ao Oriente, para ver a terra que o filho do homem pisou. É um vaivém de pessoas que acorre da Hispânia para Oriente. A peregrinatio hierosolymitana assume-se promessa, ou propositum, do qual só o Padre Santo pode ilibar. Essa peregrinatio supõe a ida e a volta, mas, por vezes, envolve a fixação definitiva – inde ad propria nunquam reversu, como quem diz, ir e não voltar. Há, nas tendências tradicionalistas do paganismo, anseio de viagem a Ocidente, por isso que, mesmo antes do culto santiaguino, Compostela seja propósito. É a viagem peregrina à Finisterra, à procura da estrela, do comput, através de um caminho que depois se chamaria francês, não por ser porta de importação, mas por ser via de chegada de franceses em procura do que não traziam, mas buscavam: atingir o Atlântico pela via mais curta, em busca dos mitos heráldicos: Hércules, Noé, a Atlântida. Noutros casos, a procura de um outro mito, o mar sem fundo, o cabo do mundo, o fim da terra, como a Harmonia saudosa do Caos. Homo peregrinus, homo viator, há quem julgue que viar é andar na terra, há quem acerte que viar é ascender ao céu. Os santos viajam, o peregrino é uma existência. Por isso o povo os chama romeiros, ou romeus, que vão a Roma, ou passam por Roma, idos ou vindos da Terra Santa. Roma é o meio. As peregrinações para Ocidente não têm sinal contrário ao das peregrinações para Oriente, embora hajam propósito anómalo – de Ocidente para Oriente é o progresso na ordem futurível, de Oriente para Ocidente é o regresso na futurível ordem. Todos buscam os novíssimos e os últimos fins do homem na terra, à luz, ou do princípio, ou da revelação final, o apocalipse. A alta idade média não inventou as peregrinações; elas foram uma herança recebida e aprofundada durante o domínio árabe, e prosseguida até aos nossos dias, já sem o eco criacionista das peregrinações ou itinerações antigas.
As peregrinações penitenciais são mais tardias, datam desde o século XII, e são formalmente diversas das peregrinações baptismais dos antigos. A peregrinação que, no tempo patrístico, era um baptismo de fé torna-se, na igreja medieval, forma penitencial – uma forma específica de penitência. Surge a emblemática do peregrino, que tem um lugar singular na comunidade. A partir do século X, a peregrinação envolve-se de uma liturgia própria, e as insígnias ambientam a espiritualidade: a capsella, pere, sporte, ou sacola; o baculum, fustis, ou bordão, e a vieira. Enfim, a bênção do peregrino, a vigília vesperal, a recepção nas albergarias, o fim da jornada e o início da missão, no regresso, como se o peregrino tivesse recebido o carisma apostólico do «ide e evangelizai». Peregrinar à Terra Santa é como estudar a Bíblia: um peregrino é um doutor na fé.
Embora com os limites temporais e locais, as peregrinações eram como órgãos de comunicação social, fontes de informação e círculos autorizados, fazendo doutrina e escola.
A um ritmo algo contraposto ao dos «franceses» que andavam, via caminho francês, por Compostela, em busca do mar sem fundo, os lusitanos viajavam à inversa, do mar sem fundo para o destino celestial. A nossa patrística é uma patrística viajeira, imparável e curriculeira, sempre a andar. Depois que os germanos e bizantinos invadiram o pagus lusitano, o afluxo dos pagãos conversos a Roma e ao Oriente progrediu. De Braga saíram, mal começado o século V, os dois (ou três, uma vez a identificação ainda estar obscura) Avito. Andou um por Roma, outro por Jerusalém, um pouco antes de 410. O de Roma deixou-se envolver pelas doutrinas de Vitorino, o outro acabou por se envolver, facilitando, ambos, o radicamento da gnose priscilianista, conforme se deduz de Paulo Osório, que os trata por «cives mei» – eram todos bracarenses. Nos finais do século V, outra ilustre virilidade, Idácio de Chaves, viajou para Oriente, levado por familiares, tendo ensejo de conhecer S. Jerónimo, cuja recordação de infância manteve sempre.
(…)
A obra, Itinerarium ou Peregrinatio ad Loca Sancta, é diversamente titulada pelos historiadores que lhe fixaram o texto na antiguidade. O texto – incompleto –, foi descoberto (1884) em Arezzo, por Gamurrini, que o julgou atribuível a Sílvia, irmã de Rufino de Aquitânia, sendo esta tese aquitânica posteriormente defendida por outros especialistas, como o liturgista Dom Fernando Cabrol, no aliás excelente escurso Sílvia Etérea (1895) em que atribui a Sílvia o sobrenome de Etérea, ou Egéria. A crítica interna posterior veio a registar, nesse texto, escrito entre 400 e 418, agora geralmente intitulado ou Peregrinação da Etérea ou Itinerário de Etérea ou Diário de Viagem de Etérea, componentes linguísticos e estilísticas de clara origem referenciada ao latim da Lusitânea. Etérea não é um pensador, mas um autor que fixa os quadros vistos e contemplados, sem introdução de juízos eventuais. Usa uma linguagem por um lado popular, por outro iniciada na cultura cristã, com abundância de informação litúrgica, e demora-se a descrever, em Jerusalém.»
[GOMES, 2000: 137-142]

Pedro Cuiça © pintura de São Jerónimo (Alquézar - Aragão, 31 de Outubro de 2016)

NOTA
Os destaques a negrito são de nossa iniciativa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Pinharanda. História da Filosofia Portuguesa – A Patrologia Lusitana. Lisboa: Guimarães Editores, 2000, pp. 376. ISBN 972-665-441-6

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um passeio

Um "passeio" de 2281 quilómetros!...

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

«Tenho andados cerca de 1.600km e faltam-me uns 800 para chegar à minha meta [Santiago de Compostela].
Hoje passo o dia inteiro subindo muito. Brutal.
Começa a haver poucos arbustos e muito verde. Bom, é olhar de vez em quando para trás e ver lá no fundo, e já longe, o sítio de onde vim [Saint-Jean-Pied-de-Port]. Na vila tinham-me dito que não há bom tempo para passar os Pirinéus. Pode estar sol num momento e meia hora mais tarde, estar tudo cerrado com nevoeiro, chuva ou neve, depende da estação em que passamos por eles. De facto parecia termos um bom dia, mas à medida que vou subindo, começa a ficar frio… as árvores são cada vez mais escassas e pequenas e dentro em pouco, até essas desaparecem.
Muita gente começa o Caminho aqui, Saint Jean Pied-de-Port, e pensam que vão fazer um passeio…».
[RODRIGUES, 2018: 169]


Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Mosteiro de Urdax - Navarra, 29 de Outubro de 2017)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RODRIGUES, Fátima. O caminho de Santiago em 81 dias. Lisboa: By the Book – Edições Especiais, 2018, pp. 250. ISBN 978-989-8614-64-3



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Santiago em 81 dias


O lançamento do livro O caminho de Santiago em 81 dias vai decorrer amanhã, dia 12 de Setembro, das 18.00 às 20.00, na sede do Comité Olímpico de Portugal, situada em Lisboa na Travessa da Memória nº 36. Esta obra literária trata-se de um testemunho sobre uma caminhada empreendida desde Zurique até Santiago de Compostela, num total de mais de dois mil quilómetros calcorreados a pé. Uma edição By the Book que constitui o primeiro título da Colecção Zebra, dedicada exclusivamente à temática do andar a pé.
O evento, apresentado e moderado pelo jornalista Francisco Sena Santos, contará com a presença da autora, Fátima Rodrigues, da editora, Margarida Oliveira, do director-geral do Comité Olímpico de Portugal, João Paulo Almeida, da  presidente do Coletivo Zebra Sandra Moutinho e de três “andarilhos” Zebra: Lúcia Barroso, André Couto e Pedro Cuiça.
O Coletivo Zebra é uma organização da sociedade civil, mais precisamente uma cooperativa de inovação social, que existe para promover o andar a pé como atitude regular, natural, tonificante, saudável, gratuita, livre e libertadora.
A participação no evento não poderia, por isso, deixar de ser livre e gratuita. Aqui fica o convite e contamos com a sua gratificante presença.




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[12 de Setembro de 2018
Uma conversa animada e interessantíssima, no âmbito do lançamento d’O caminho de Santiago em 81 dias, em torno dessa aventura e da sua protagonista, ambas indubitavelmente extraordinárias. Fica o sentimento de gratidão por ter participado em tão enriquecedora e motivadora experiência do Caminhar/Caminho…

Pedro Cuiça © Comité Olímpico de Portugal (12 de Setembro de 2018)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Cidade Caminhada


Pedro Cuiça © Lisboa (10 de Abril de 2018)

Cada acto de caminhar consiste numa fusão corporal e temporal entre o indivíduo e o território, entre o indivíduo e o todo que é a cidade. Em cada experiência, a cidade é percepcionada enquanto combinação das características e dos objectivos de cada indivíduo, e o que o ambiente urbano proporciona.
Considera-se, assim, abordar o caminhar não como um deslocamento na cidade mas antes como uma acção composta pelo caminhante e o meio; uma experiência holística continuada do meio, que se estende ao longo do espaço e do tempo, e através da qual cada pessoa conhece e constrói uma realidade.
[GOMES, 2016: 1-2]

Pedro Cuiça © Lisboa (25 de Março de 2018)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Maria João Monteiro. A Cidade Caminhada – A ambivalência experenciada em duas visitas guiadas no centro histórico de Lisboa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Instituto Universitário de Lisboa, 2016, pp. 304.

Pedro Cuiça © Lisboa (25 de Março de 2018)

Por aqui e por acolá


© Algures na Net

«Minha senhora, o meu ideal, no fundo, ao que penso, foi sempre ser vadio, sabe.»
Agostinho da Silva 
(in FRANCO, 2015: 38)

Agostinho da Silva «dava de bom grado um dos mindinhos por um dia de conversa e o papa-léguas que dava outro por uma longa tarde de marcha» (FRANCO, 2015: 112). «Foi um andarilho, que bateu os sete cantos do mundo, e fez da vadiagem um sistema de vida e até de pensar» (FRANCO, 2015: 149).


NOTA
A vida e a obra de Agostinho da Silva são verdadeiramente excepcionais e alvo de estudo sob diversos formatos e perspectivas... A biografia de Cândido Franco (Quetzal, 2015) revela de modo primoroso essa excepcionalidade, desde logo ao denominá-lo Estranhíssimo Colosso e ao caracterizá-lo nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FRANCO, António Cândido. O Estranhíssimo Colosso. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Lisbon Lunch Walks (III)


Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

O silêncio e a solidão apenas são cortados por uma viatura que lesta passa, deixando escapar, das janelas entreabertas, uma voz quente e grave, intensa e funda: Nick Cave e «Into My Arms» adejam nos céus de Lisboa, sobre o vale que divide o Oriente e o Ocidente da cidade, sobre o plácido casario, em direcção ao Castelo, à Sé e ao rio. Em direcção ao Sul, que rosa e ouro se prenuncia.

But I believe in love
And I know that you to
And I believe in some kind of path
That we can walk down me and you
So keep your candle burning
Make a journey bright and pure
That you’ll keep returning always and evermore

Into my arms Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms

[BORGES, 2006: 54-55]


Pedro Cuiça © Anarkhia Pop - Uma espécie de eco-anarcótico (Lisboa, 1986)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BORGES, Paulo. Línguas de Fogo – Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 374. ISBN 972-8605-91-9

Caminho(s) para todos


Aqui fica o convite para participarem na tertúlia sobre Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago que irá contar com a presença da autora – Luísa Sousa – e no qual terei o grato prazer de apresentar o livro e aflorar a temática das peregrinações em geral e do Caminho de Santiago em particular. O evento irá decorrer no dia 11 de Outubro, a partir das 18.45, no Centro de Reuniões do INFARMED, I.P., no Parque de Saúde de Lisboa. Entrada livre.




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«É estranho ouvir alguém que não nos conhece, fazer uma análise tão certeira em certos pontos. A certa altura já temia pelo que viria depois. Muito obrigada Pedro pela disponibilidade, generosidade e pontos de reflexão, apesar do jet lag e cansaço das viagens. Foi a melhor forma de terminar este roteiro pelo país.»
Luísa Sousa (12 de Outubro de 2018)

Transporte pedestre

«Na era pré-industrial, as pessoas viajavam sobretudo a pé - e isso mantinha-as em forma. Depois veio o poder do motor, e as pessoas tornaram-se preguiçosas. Andar a pé tornou-se no transporte de último recurso, uma "arte esquecida", nas palavras da Organização Mundial de Saúde.»
Carl Honoré (2006): O Movimento Slow; Estrela Polar

Pedro Cuiça © Pirenéus (França, 2005)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Lisbon Lunch Walk (II)


Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)

Então, o que é que almoçaste hoje? Hoje, hoje fui levar-me a passear, decerto à pata, a penantes ou a butes, como se quer ou queira!...

Pedro Cuiça © Lisboa (5 de Setembro de 2018)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Lisbon Lunch Walk

Pedro Cuiça © Lisboa (31 de Agosto de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (31 de Agosto de 2018)

Então, o que é que almoçaste hoje? Hoje, hoje foi uma caminhada de uma hora. Apesar do calor e da generalidade das ruas estarem entranhadamente sujas, continua a ser um prazer andar em Lisboa!…

Pedro Cuiça © Lisboa (31 de Agosto de 2018)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Connection walking


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor

It was Rousseau who elevated walking into a true mode of philosophical reflection and introspective self-discovery that could liberate the oppressed self from the detrimental influences of corrupt society. Because for Rosseau society is governed by the debilitating norms of courteous behaviour, he advocates solitary walking as a way of recuperating an authentic connection with one’s innermost self. In Book Nine of the Confessions (1782) he states : ‘je ne puis méditer qu’en marchant ; sitôt que je m’arrête, je ne pense plus, et ma tête ne va qu’avec mes pieds’ (I can meditate only when walking ; as soon as I stop I can no longer think, for my mind moves only when my feet do). And in the Second Walk of The Rêveries du promeneur solitaire (Reveries of a Solitary Walker, 1782) he observes : ‘Ces heures de solitude et de méditation sont les seules de la journée où je sois pleinement moi et à moi sans diversion, sans obstacle, et où je puisse véritablement dire être ce que la nature a voulu’ (These hours of solitude and meditation are the only time of the day when I am completely myself, without distraction and hindrance, and when I can truly say that I am what nature intended me to be). The experience of an authentic self also prepares the ground for the detailed observation of the intricacies of nature : in the Fifth Walk Rosseau recounts how he went botanising on the Swisss island of St Pierre equipped with his magnifying glass and a copy of Linnaeus’ Systema naturae. Besides its therapeutic goal, walking in nature was for Rosseau and his contemporaries an indispensable mode of geographical, botanical and geological exploration of the natural world.
[FUCHS, 2016 : 202]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Walking as a miracle


© Algures na Net

I like to walk alone on country paths, rice plants and wild grasses on both sides, putting each foot down on the earth in mindfulness, knowing that I walk on the wondrous earth. In such moments existence is a miraculous and mysterious reality. People usually consider walking on water or in the air a miracle. But I think the real miracle is not to walk either on water or in air, but to walk on earth. Every day we are engaged in a miracle which we don’t even recognize : a blue sky, white clouds, green leaves, the black, curious eyes of a child – our own two eyes. All is a miracle.
[HANH, 1987 : 12]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HANH, Tich Nhat. The Miracle of Mindfulness – An Introduction to the Practice of Meditation. Boston : Beacon Press, 1987, pp. 140. ISBN 0-8070-1239-4

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mindfull Walking

Some coaching psychologists have already started integrating coaching with mindfull walking with nature (O’Donovan, 2015). Clearly, ecopsychology research is very relevant for health and wellbeing coaching too.
In conclusion, the hope is that by using relative simple evidence-based ecopsychological interventions, wellbeing can be enhanced for individuals, groups and communities. Perhaps effective coaching is self-coaching, and simple ecopsychological interventions are relatively easy to persuade oneself to undertake.
[PALMER, 2015: 14]

Pedro Cuiça © Mindfull Walking With Nature (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PALMER, Stephen. Can ecopsychology research inform coaching and positive psychology practice?. International Society for Coaching Psychology; Coaching Psychology International, vol. 8, pp. 11-15. ISSN 1758-7719

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Caminhadas terapêuticas


Escritores como Thoreau (…) exprimiram o que muitos pensavam no ensaio Caminhada: “Creio que só consigo preservar a minha saúde e o meu ânimo se passar pelo menos quatro horas por dia – e costuma ser mais do que isso – a deambular pelos bosques, nas colinas e nos campos, completamente livre de todos os compromissos mundanos”. Isto são claramente banhos de floresta muito antes de a expressão existir. Thoreau viveu em tempos muito mais agrários, logo, mais ligados aos ciclos e ritmos naturais da floresta. Grande parte dessa ligação foi-se perdendo à medida  que a nossa  consciência cultural foi sendo cada vez mais moldada pela tecnologia, pela indústria e por uma orientação para a produtividade. Vivemos num tempo que pede uma renovação da nossa ligação ancestral às florestas.
[CLIFFORD, 2018: 27]

 © Algures na Net

NOTAS
· Os banhos de floresta são por vezes apelidados de “antiga prática japonesa do Shinrin-youku”. Na realidade, não é bem assim. Para começar, a expressão não é antiga, foi criada em 1982 por Tomohide Akiyama, então director da Agência Japonesa da Floresta. A ideia era desenvolver uma identidade de marca única, associando as visitas às florestas com o ecoturismo orientado para a saúde e o bem-estar. Mas isso não significa que os banhos de floresta não tenham raízes ancestrais. [CLIFFORD, 2018: 22]
· Amos Clifford fundou, em 2012, nos Estados Unidos da América, a Association of Nature and Forest Therapy Guides and Programs – ANFT (Associação de Guias e Programas Terapêuticos da Natureza e da Floresta).
· Os efeitos terapêuticos do contacto com a natureza em geral e com as florestas em particular são sobejamente conhecidos, e ancestralmente intuídos, tendo suscitado um crescente interesse nas últimas décadas, a par da brutal destruição das áreas naturais selvagens (wilderness) e suas sucedâneas (sistemas semi-naturais), da domesticação e desnaturalização dos seres humanos e da comercialização de praticamente todos os sectores da vivência humana, mormente das actividades ditas "out-door"!

Pedro Cuiça © Passadiços do Paiva (2018)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CLIFFORD, M. Amos. O Guia dos Banhos de Floresta. Alfragide: Lua de Papel, 2018, pp. 176. ISBN 978-989-23-4255-9