quarta-feira, 13 de junho de 2018

Caminhar/Caminho




Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
E por isso, qualquer que seja a arte
De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,
Tudo é estático e morto. Só ilusão
Tem passado e futuro, e nela erramos.
Não há estrada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.

Tenhamos pra nós mesmos a verdade
De aceitar a ilusão como real
Sem dar crédito à sua realidade.
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, e sempre sós;
Nossa própria viagem é viajante e estrada.

Que importa que a verdade da nossa alma
Seja ainda mentira, e nada seja
A sensação, e essa certeza calma
De nada haver, em nós ou fora, seja
Inutilmente a nossa consciência?
Faça-se a absurda viagem sem razão.
Porque a única verdade é a consciência
E a consciência é ainda uma ilusão.

E se há nisto um segredo e uma verdade
Ou deuses ou destinos que a demonstrem
Do outro lado da realidade,
Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.
O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visível do que está fora,
Excede de todos nós o exterior
Não para como as coisas, nem tem hora.

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa
E é a própria estrada, sem estrada ser.
É absurda a oração, absurda a queixa.
Resignar(-se) é tão falso como ter.
Coexistir? Com quem. Se estamos sós?
Quem sabe? Sabe [] que são?
Quantos cabemos dentro de nós?
Ir é ser. Não parar é ter razão.

Fernando Pessoa (11/10/1919)



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Adéu i bona sort


Em van preguntar si podia presentar la Sílvia Vidal dins del Cicle de Muntanya de la Diputació de Tarragona. Ella aquest any há estat una de les conferenciants del Cicle amb la seva projecció Un pas més, dedicada a la ruta que ha obert a la cara oest del pic Xanadu, als Arrigetch Peaks d’Alaska (A4/A4+, 6a, 530 m). Evidentment amb un estil marca Sívia Vidal: sola i totalment incomunicada durant els cinquanta-tres dies que va durar l'av’ntura.
Estar incomunicada avui en dia és un concepte impracticable. Sense anar més lluny, justament la mateixa setmana del Cicle de Tarragona es va celebrar a Barcelona el famós Mobile World Congress. Mentre uns es tornaven bojos buscant l’últim avenç de telèfons mòbils, altres ens quedàvem amb la veueta de la Sílvia explicant com negociava amb els ossos per poder anar a escalar. Un pilot d’un hidroavió la deixa al mig d’un llac d’una vall perduda d’Alaska i li diu: «D’aqui a 53 dies vinc a buscar-te. En aquest mateix punt. Adéu i bona sort.» La Sílvia pretén arribar, ella i els 150 quilos de material i menjar, a una paret que es troba a 27 quilòmetres en línia recta, sense GPS ni cap mitjá de navegació modern. Ha de realitzar el camí vint vegades per poder transportar el material. En total, 36 dies caminant per fer 540 km i 17 dies d’escalada per obrir 530 metres de via.
(…) Quan preguntes a la Sílvia per què no porta telèfon a les expedicions, la seva resposta és que si portés, potser cometria l’error d’utilizar-lo.
(…)
Ester Sabadell in Vèrtex (2018: 9)

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SABADELL, Ester. Aventura en solitari, lluny del Mobile World Congress. Barcelona: Federació d’Entitats Excursionistes de Catalunya, revista Vèrtex, nº 277, Mar./Abr. 2018, pp. 98. ISSN 0042-4420



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Companheirismo


DR ©

O pedestrianismo iniciou-se e desenvolveu-se, durante décadas, exclusivamente no seio do associativismo. Essa actividade começa a ser praticada em Portugal, no final do século XIX, entre amigos e pouco depois, no começo do século XX, no seio de clubes. Os pioneiros desse desporto pedestre foram os movimentos escotista e campista que se dedicaram de forma afincada, desde a sua origem, aos raids e às marchas.1
(…)

DR ©

O livre associativismo pedestre
Não será por acaso que os praticantes, no movimento associativo, se tratam por «companheiros», numa manifesta expressão do significado etimológico de partilha do pão. Mas, nesta actividade partilha-se muito mais do que o pão (mesmo no seu sentido simbólico), vivenciam-se experiências que só as longas horas ao ar livre e a verdade dos elementos naturais permitem. Dificilmente existirá outra actividade tão abrangente em termos etários e tão democrática no tocante à sua capacidade agregadora de indivíduos, independentemente do seu estrato social ou da sua capacidade económica, física e/ou mental. Por isso, esta actividade é amplamente inclusiva no que se refere a «públicos especiais»: crianças, idosos, grávidas, pessoas portadoras de deficiência, entre outros. Acresce ao referido que o pedestrianismo pode e deve ser praticado em grupos formais ou informais, de (des)conhecidos, de amigos e/ou familiares, (…) com manifestas mais-valias no que respeita à convivialidade e à sociabilidade, fortalecendo deste modo os laços de camaradagem e de companheirismo. De há décadas a esta parte que se vem falando da crise do associativismo, fenómeno que mais não será do que a expressão da própria crise de valores em que a sociedade se vê emersa. Nesse contexto, será importante equacionar qual o actual e o futuro papel do associativismo na prática de pedestrianismo. Quais os desafios que o século XXI apresenta?
[CUIÇA, 2015: 43-45]

© Algures na Net

NOTAS
1- A Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), fundada em 1913, e, posteriormente, o Corpo Nacional de Escutas (CNE), em 1923, contribuíram significativamente para a implementação do campismo desportivo no país, destacando-se entre as suas actividades as caminhadas. Os primeiros grupos de campistas surgiram na década de 1920 e a Federação Portuguesa de Campismo (FPC) foi fundada em 1945. Esta federação e os clubes seus filiados também se dedicaram à prática de marcha. A actual Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), por via da Utilidade Pública Desportiva (UPD), é a entidade que tutela a prática de pedestrianismo e a homologação de percursos pedestres GR® [Grande Rota®e PR® [Pequena Rota®]. [CUIÇA, 2015: 299]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6



quinta-feira, 7 de junho de 2018

Em defesa do silêncio


© Algures na Net

Perché solo i poeti e gli scrittori i suoni della natura? Forse perché il loro compito è ricordarci che i suoni naturali migliorano la vita. Non della natura, badate bene. Ma naturali. Niente fabbriche, niente macchinari, niente auto, niente trafico. Nessun martello che batte o ferro che stride, bensì suoni naturali come il cigolìo di un legno, il fruscìo delle foglie solleticate dal vento, il richiamo ciclico e musicale di un uccellino. Purtroppo oggi c’é chi interpreta questi segnali come la banalità stereotipata del bello. Eppure è a quella musica naturale che è stato abituato il nostro orecchio. Non alla meccanica, al caos, ai decibel sempre un po’sopra la media.
(…) Por ci sono persone come Gordon Hampton. Lui, ecologo americano, è un cercatore di suoni naturali e di silenzi. Da 35 anni gira il mondo e com microfono alla mano e registra i “suoni dell’esistenza” minacciati dai rumori. Dice di aver trovato solo una cinquantina di luoghi non infestati da rumori prodotti dall’uomo. Nell’Olympic National Park (Washington) c’è uno degli ultimi luoghi silenziosi della terra. Lì, nel 2005, Hampton há creato un santuario del silenzio, segnalato da una pietra rossa su un tronco di muschio. Anche noi abbiamo a cuore il suono del silenzio e continuiamo a pensare che le montagne – così come la nostra esistenza – devono essere protette dal rumore aggressivo della frenesia meccanica. Faccio mie le parole di Franco Michieli: “La durata al di fuori della fretta del mondo lascia spazio al silenzio; l’ascolto dell’impercettibile permette il rivelarsi del profondo” (Andare per silenzi, Sperling & Kupfer, 2018). Un profondo che ciascuno di noi trova tra lo scricchiolìo del fogliame secco sotto lo scarpone, il ciottolìo dei sassi, il mormorio dell’acqua dei torrenti o rivolgendo lo sguardo al silenzio luminoso di una stellata in una notte in quota.
[CALZOLARI, 2018: 3]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CALZOLARI, Luca. Difendere il silenzio. Montagne360 – La rivista del Club Alpino Italiano, nº 69, Jun. 2018, pp. 68.


Experiências cognitivas



Le transcendantalisme prône la méditation, l’observation et la contemplation afin de parvenir à une conscience plus grande de la «réalité ultime», appelée par [Ralph Waldo] Emerson da «Surâme» et par [Henry David] Thoreau la «sympathie avec l’intelligence». Il se démarquait des movements évangéliques qui se référaient toujours aux Écritures. Selon la doctrine transcendantalisme, il faut chercher dans la Nature une vérité et une perfection épiphanique. «L’immanence de Dieu dans la Nature rend possible l’expérience directe du sacré, écrit Michel Granget, dans la contemplation de ses productions multiples, et comme il existe des correspondances sous-jacentes entre l’âme humaine et la Nature, entre le microcosme de l’esprit et la Surâme, l’observation des phénomènes naturels permet d’accéder à une compréhension supérieure des lois qui régissent l’homme. Des nombreux transcendantalistes font ce qu’ils appelaient des «appréhensions intuitives» du réel, en fait d’ordre mystique, au sens épistémologique du terme : elles étaient avant tout, comme l’explique Sherman Paul, «une expérience cognitive».
[Thierry Gillyboeuf in THOREAU, 2011: 80-82]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Résister – à la tentation du laissez-faire, au réformisme, à l’esprit commercial des temps modernes. Paris: Librairie Arthème Fayard, 2011, pp. 96. ISBN 978-2-75550-623-5


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Andar Saudável


A Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) realiza, aos domingos de manhã, das 9.30 às 11.30/12.00, caminhadas gratuitas e abertas ao público em geral, no Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ). Essas actividades inserem-se no Ande pela Sua Saúde e pela Saúde do Planeta, um programa que tem vindo a ser implementado, desde 2008, pela FCMP, incentivador de boas práticas ambientais, de saúde e bem-estar, com base no andar a pé.
As actividades semanais serão enquadradas por detentores do Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo de Graus I, II e/ou III. O ponto de encontro dos participantes é na Estrutura Artificial de Escalada da FCMP, situada no Parque Urbano do Jamor (coordenadas UTM 29S 477682 4284222).
Para mais informações, consulte a FCMP (218 126 890) ou o CDNJ (214 144 030).


Foca-te



Os psicólogos estão, desde há muito, fascinados pelo conceito da atenção, embora ele tenha adquirido outro fôlego nesta nossa era da distração, ou, como Paul Atchley a designou, nesta «economia da atenção».
A atenção é a nossa moeda de troca, e é preciosa. O filósofo William James, pioneiro da psicologia experimental e irmão de Henry James, dedicou um capítulo inteiro do seu clássico The Principles of Psychology, publicado em 1890, à atenção. Nele, o autor afirma o seguinte: «Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente []» e «A minha experiência é aquilo a que me convém atender [] Sem interesses seletivos, a experiência é o caos total». James dividiu a atenção em dois tipos fundamentais que continuam a definir a maneira como pensamos sobre ela: atenção voluntária e ativa (quando, por exemplo, desempenhamos tarefas) e atenção involuntária ou reflexiva (quando algo exige o nosso foco, como um ruído, um som, um jogo de luz ou mesmo um pensamento errático). Décadas antes do surgimento das mensagens de texto, os filósofos estavam preocupados com o que James descrevia como sendo «um estado de confusão, desorientação e dispersão a que os franceses chamam distração». (Antes de deixarmos William James, não posso deixar de mencionar que ele sofria de depressão e que viveu uma experiência transformadora ao percorrer as montanhas Adirondack em 1898. Tal como descreveu à sua mulher, ficou «num estado de abertura espiritual com os mais vitais contornos». Emerson era seu padrinho e, talvez por isso, tenha sido preparado para aderir voluntariamente a esta possibilidade.)
James sabia que permanecer concentrado numa tarefa era um trabalho muito difícil e que, sem esta capacidade, como [Clifford] Nass veio a confirmar, nos tornamos mais estúpidos, pelo menos de acordo com certos padrões (segundo outros, as distracções da era digital podem ser uma troca razoável por aquilo que os nossos cérebros ganham com o acesso a mais informação e a maior armazenamento de memória). Curiosamente, contudo, também ficamos limitados na nossa capacidade de captar o meio envolvente porque, de outra forma, os nossos cérebros ficariam sobrecarregados de estímulos. O nosso campo visual torna-se bastante reduzido, a nossa audição também sai prejudicada e não conseguimos sequer processar a maior parte do que ouvimos e «vemos». Só conseguimos prosperar no mundo porque os nossos cérebros são muito bons a fazer triagens automáticas.
[WILLIAMS, 2018: 52-53]


NOTA
A atenção/concentração é algo que pode e deve ser treinado e, nesse contexto, as caminhadas constituem uma prática privilegiada para o desenvolvimento dessa capacidade. Fizemos interessantes experiências nesse âmbito, a nível da atenção plena, de elevados níveis de atenção e da atenção com fins terapêuticos tendo obtido invariavelmente interessantíssimos resultados. A prática regular de meditação, e a própria integração dessa prática nas caminhadas, incrementa substancialmente a capacidade de "foco"...
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8

terça-feira, 5 de junho de 2018

Dizem que é...

Dizem que é Dia do Ambiente!

«Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.»
Álvaro de Campos (1916)

«O meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.»
Álvaro de Campos (1934)

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…»
Alberto Caeiro (1946)

Bill Anders © Nascer da Terra (Apollo 8, Dezembro de 1968)

Hoje que se comemora o Dia Mundial do Ambiente será uma ocasião auspiciosa para abordar “novas” perspectivas de (re)ligação à Terra1, na sequência não só de diversas intervenções da nossa parte sobre o andar a pé – de que se destaca a palestra Caminhada Holotrópica (2017) – como também, e ademais, sobre formas holísticas de estar/ser (n)o mundo. É sobre esta última abordagem que gostaríamos de nos focar tendo em conta, no nosso entender, a sua pertinência. Foi, aliás, neste contexto que sentimos a premência de apresentar um Pedisfesto Ecológico (2018), uma espécie de manifesto às avessas, aparentemente paradoxal e antinómico, com o objectivo de alertar para a necessidade de adoptar perspectivas diversas e essencialmente inclusivas, com vista a (tentar) resolver a vigente situação de “desastre ambiental”.
Ao contrário do que é usual, neste dia, não iremos falar sobre o choque perante a destruição da biodiversidade (a 6ª extinção em massa), a lixeira em que estamos a transformar o planeta Terra, o envenenamento da Biosfera ou as tão propaladas alterações climáticas, entre outras calamidades. Interessa-nos mais o maravilhamento face à imensidão do espaço-tempo e à pluralidade de interrelações entre os seres bióticos e abióticos ou o bem-estar estético de fazer parte de uma paisagem.  E isto porque consideramos que a origem e a resolução desses e de outros problemas, ditos “ambientais” (!), está nos modos de pensar/agir e não em paliativos “mais do mesmo”. A revolução terá inevitavelmente de passar pela transformação dos padrões psicológicos e comportamentais vulgares, designadamente através de uma crescente sensibilidade e sensibilização a nível da ecoliteracia, ecopsicologia e eco-espiritualidade que se traduza numa ecologia activa (engaged ecology). E é nesse contexto de transição que toma uma especial relevância a convivência de aparentes opostos e o respeito pela diferença.

Terra e Lua © Algures na Net

A maior sofisticação será ir às origens com saudades do futuro. Por um lado, religar-se ao primevo, ir ao encontro da Natureza, que o mesmo é dizer da sua natureza enquanto ser humano – porque nós somos Natureza – através, por exemplo, de processos de rewilding: caminhadas ao ar livre, banhos de floresta, ordálios na natureza selvagem, etc.. Por outro, estar (pre)disposto a inovadoras formas de pensar/agir, mormente ser cidadão do mundo, respeitar a diversidade na unidade e acabar com os “tribalismos”: abolir o paradigma vulgar e grosseiro de “nós somos os bons e os outros são os maus”2! Nos tempos que vivemos aquilo de que precisamos não é tolerância mas sim respeito: ir ao encontro do outro e tentar/experimentar tantas aproximações quantas as que forem necessárias para compreender a(s) diferença(s), aprender com o que é diferente e… mudar para melhor. É fundamental usufruir as múltiplas cores do real, como um arco-íris pleno de possibilidades e de diversidade: a realidade não é a preto e branco; nem sequer é verde! E, muitíssimo importante, coisas simples, como andar a pé, têm a gigantesca capacidade de mudar o mundo.

«Não te esqueças de fazer o pino e, 
olhando os pés, ver as estrelas.»
As estrelas e as copas das árvores...

Pedro Cuiça © Lisbon Lunch Walk (5 de Junho de 2018)


NOTAS
1 · Nós somos Terra ou terráqueos, que é dizer o mesmo. O étimo de humano em latim é humus (terra) e será oportuno lembrar o parentesco entre a palavra hebraica adam (homem) e adamah (terra).
2 · Neste contexto, virá à colação um episódio que ocorreu durante uma visita que efectuei, no dia 22 de Outubro de 2015, ao Museu Nacional da Montanha, da Coreia do Sul, no âmbito na Assembleia-Geral da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Nesse dia, tive também a grata oportunidade de assistir a uma interessantíssima palestra por parte do antropólogo e alpinista sul-coreano Young Hoon Oh, na altura doutorando na Universidade da Califónia, sob o título: History and Philosophy of Korean Mountaineering: from an East Asian Perspective. Essa encomiástica intervenção sobre as cosmologias coreanas – com base no confucionismo, no budismo e na denominada “geoecologia coreana” –, responsáveis designadamente por uma intimidade única com a paisagem montanhosa, contrastou com o “cenário” de conquista atribuído aos alpinistas ocidentais! No final da palestra interpelei Young Hoon e transmiti-lhe que essa sua perspectiva era compreensível e assaz “correcta” como generalização mas que eu, enquanto ocidental, me sentia algo “ofendido” tendo em conta que não me revia, de todo, nesse perfil de conquistador, insensível e apartado da Natureza. Na verdade sentia-me cidadão do mundo e a sensação com que fiquei foi mais de estupefacção do que propriamente de ressentimento.
Saliente-se que, no contexto da Assembleia-Geral da UIAA de 2015, foi lançado o programa Respect the Mountains e aprovada a Climate Change Declaration (Declaração das Alterações Climáticas), proposta conjuntamente pelo Club Alpino Italiano (CAI) e pela Nepal Mountaineering Association (NMA). O texto final dessa declaração expressou a preocupação pelos impactes ambientais negativos das alterações climáticas na Terra em geral e nas áreas montanhosas e suas comunidades em particular. Destaque-se igualmente a atribuição do UIAA Mountain Protection Award 2015 ao KTK-BELT (Koshi Tappu Kanchenjunga Biodiversity Education Livelihood Terastudio) pelo seu importante trabalho contra a desflorestação.
Os tempos devem ser de cooperação a nível internacional, nacional, regional e local. A Terra é o condomínio global de uma Humanidade policromática e diversificada que tem de conviver e coexistir da melhor forma...

 DR © Museu Nacional da Montanha (Coreia do Sul - Out. 2015)

Shinrin-yoku


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)

Os japoneses não acreditam que as pessoas ocupam um lugar especial acima da Natureza; as pessoas e o mundo natural são semelhantes. (…) Há um sentimento semelhante descrito num livro do escritor japonês Isamu Kurita, chamado A Flower Journey. Nele, o autor observa que “no Ocidente, as pessoas olham para as flores. Na Ásia, vivem com elas”. Esta ideia de vínculo estreito entre japoneses e Natureza não é nada de novo. Em vários poemas antigos, como os de Ki no Tsurayuki e Ono no Komachi, escritos há aproximadamente 1000 anos, as vidas e aparências dos poetas são comparadas às das flores.
Masao Watanabe, professor emérito da Universidade de Tóquio, expressou, numa edição de 1974 da revista Science, a sua opinião sobre a forma como os japoneses veem a Natureza. “De acordo com a religião cristã, que é seguida na sociedade ocidental, tudo no céu e na terra foi criado por Deus. Dentro dessa conceção, o homem é uma criação especial e existe uma separação clara entre o homem e o resto da criação”, observou. “Podemos dizer que o lugar do ser humano, e só do ser humano, enquanto criação especial acima de tudo o resto que foi criado, está na origem da visão que o mundo ocidental tem da Natureza. Além disso, o homem ocidental opõe-se à Natureza, e no Japão o homem faz parte da Natureza.”
No mesmo artigo, Haruhiko Morinaga analisa a questão do absolutismo ocidental versus a relatividade oriental e utiliza o exemplo seguinte para ilustrar essas profundas diferenças culturais. Se alguém perguntar: “Uma baleia não é um peixe, ou é?”, um japonês responderia: “Sim, claro. Uma baleia não é um peixe”, para concordar com quem fez a pergunta. Mas um ocidental simplesmente responderia: “Não, não é um peixe.” A resposta do ocidental é a simples constatação de um facto, enquanto a da pessoa japonesa é relativa à pergunta. Este absolutismo ocidental e a relatividade oriental também se podem aplicar ao relacionamento que os japoneses têm com a Natureza.
[MIYAZAKI, 2018: 46]

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (3 de Junho de 2018)

No Japão, existe uma forma de medicina preventiva notável que está a ser praticada por um número crescente de pessoas. Apesar de inicialmente ter sido sustentada pela intuição, esta medicina é agora suportada por uma investigação científica consistente que confirma os seus vários benefícios.
A expressão shinrin-yoku foi cunhada em 1982 por Tomohide Akiyama, diretor da Agência Florestal Japonesa. Traduzido à letra, significa “banhos de floresta”, e utiliza-se de uma forma similar às expressões “banhos de sol” ou “banhos de mar”. Não estamos literalmente a tomar um banho, mas a banhar-nos no ambiente da floresta, utilizando todos os nossos sentidos para experienciarmos a Natureza de perto.
[MIYAZAKI, 2018: 9]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MIYAZAKI, Yoshifumi. Shinrin Yoku – A terapia japonesa dos banhos de floresta que melhora a sua saúde e bem-estar. Porto: Albatroz, 2018, pp. 192. ISBN 978-989-739-040-1



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Terapia da Floresta

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Se há um homem que pode mostrar como é que a terapia das árvores funciona, esse homem é Yoshifumi Miyazaki. Este antropólogo biológico, vice-diretor do Centro do Ambiente, da Saúde e das Ciências de Campo da Universidade de Chiba, na periferia de Tóquio, acredita que, em virtude de os seres humanos terem evoluído na natureza, é nela que nos sentimos mais confortáveis, mesmo que nem sempre tenhamos consciência disso.
Neste ponto, Miyazaki é um proponente da teoria popularizada por E. O. Wilson, o entomologista de Harvard amplamente reverenciado: a hipótese da biofilia. Esta teoria foi, em parte, apropriada pelos psicólogos ambientais naquilo que, por vezes, se designa de Teoria da Redução do Stresse ou Teoria da Restauração Psicoevolucionista. Não foi Wilson quem, na realidade, cunhou o termo «biofilia»; essa honra deve ser atribuída ao psicólogo social Erich Fromm, que o descreveu em 1973 como «o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo; é o desejo de crescer ainda mais, podendo ser encontrado numa pessoa, numa planta, numa ideia ou num grupo social».
Wilson desenvolve a ideia com maior precisão, situando-a no mundo natural e identificando «a natural ligação emocional dos seres humanos aos outros organismos vivos» como a adaptação evolutiva que nos ajudou não só a sobreviver, mas também a alargar os limites da realização humana.
[WILLIAMS, 2018: 31-32]

Para provar que a nossa fisiologia reage a contextos ambientais diferentes, Miyazaki tem levado centenas de sujeitos de investigação para os bosques desde 2004. Ele e o seu colega Juyoung Lee, também então da Universidade de Chiba, descobriram que as caminhadas de lazer pelos bosques, comparadas com as caminhadas urbanas, provocavam uma descida de 12 por cento nos níveis de cortisol. Mas não foi tudo. Registaram uma descida de 7 por cento na atividade do sistema nervoso simpático, de 1,4 por cento na pressão arterial e de seis por cento no ritmo cardíaco. Nos questionários psicológicos, registaram também melhores disposições e menores níveis de ansiedade.
Num ensaio de 2011, Miyazaki concluiu o seguinte: «Estes dados revelam que os estados de tensão podem ser aliviados pela terapia shinrin.» E os japoneses seguiram as suas indicações, com quase um quarto da população a participar em algum tipo de atividade shinrin. Todos os anos, centenas de milhares de visitantes caminham pelos trilhos da terapia da floresta.
[WILLIAMS, 2018:  33-34]

Trilho de Floresta © Renoir (1875)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Andar Saudável




O Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ) vai acolher, no próximo domingo de manhã, uma actividade no âmbito do Ande pela Sua Saúde e pela Saúde do Planeta, um programa – que tem vindo a ser implementado, desde 2008, pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) – promotor de boas práticas ambientais, de saúde e bem-estar, com base no andar a pé, dirigido aos cidadãos em geral e aos pedestrianistas em particular.
Esta trata-se de uma iniciativa que tive o grato prazer de lançar e na qual estou profunda e entusiasticamente empenhado, desde o seu início, tendo em conta os diversificados benefícios para a saúde dos praticantes e inclusivamente para o ambiente, através de mudanças comportamentais com implicações não só nos hábitos de mobilidade mas também do próprio estilo de vida dos envolvidos. Andar a pé trata-se de um poderoso “gesto” que, passo a passo, pode não só mudar a (qualidade de) vida dos praticantes como também o próprio mundo. Uma temática que tem merecido um crescente interesse não só a nível nacional como internacional.
A actividade do próximo domingo (dia 3 de Junho), desenvolvida em parceria com o Instituto do Desporto e Juventude de Portugal (IPDJ), será replicada, em diversos moldes, aos domingos de manhã, das 9.30 às 11.30-12.00, e contará com o enquadramento técnico por parte de detentores do Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III. O ponto de encontro dos participantes será junto da Estrutura Artificial de Escalada (EAE) da FCMP, situada no Parque Urbano do Jamor. As actividades Ande pela Sua Saúde… são abertas ao público em geral e gratuitas. Para participar basta trazer calçado adequado e motivação para andar a pé. Para mais informações, consulte a FCMP (218 126 890) ou o CDNJ (214 144 030).

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)