terça-feira, 5 de junho de 2018

Shinrin-yoku


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)

Os japoneses não acreditam que as pessoas ocupam um lugar especial acima da Natureza; as pessoas e o mundo natural são semelhantes. (…) Há um sentimento semelhante descrito num livro do escritor japonês Isamu Kurita, chamado A Flower Journey. Nele, o autor observa que “no Ocidente, as pessoas olham para as flores. Na Ásia, vivem com elas”. Esta ideia de vínculo estreito entre japoneses e Natureza não é nada de novo. Em vários poemas antigos, como os de Ki no Tsurayuki e Ono no Komachi, escritos há aproximadamente 1000 anos, as vidas e aparências dos poetas são comparadas às das flores.
Masao Watanabe, professor emérito da Universidade de Tóquio, expressou, numa edição de 1974 da revista Science, a sua opinião sobre a forma como os japoneses veem a Natureza. “De acordo com a religião cristã, que é seguida na sociedade ocidental, tudo no céu e na terra foi criado por Deus. Dentro dessa conceção, o homem é uma criação especial e existe uma separação clara entre o homem e o resto da criação”, observou. “Podemos dizer que o lugar do ser humano, e só do ser humano, enquanto criação especial acima de tudo o resto que foi criado, está na origem da visão que o mundo ocidental tem da Natureza. Além disso, o homem ocidental opõe-se à Natureza, e no Japão o homem faz parte da Natureza.”
No mesmo artigo, Haruhiko Morinaga analisa a questão do absolutismo ocidental versus a relatividade oriental e utiliza o exemplo seguinte para ilustrar essas profundas diferenças culturais. Se alguém perguntar: “Uma baleia não é um peixe, ou é?”, um japonês responderia: “Sim, claro. Uma baleia não é um peixe”, para concordar com quem fez a pergunta. Mas um ocidental simplesmente responderia: “Não, não é um peixe.” A resposta do ocidental é a simples constatação de um facto, enquanto a da pessoa japonesa é relativa à pergunta. Este absolutismo ocidental e a relatividade oriental também se podem aplicar ao relacionamento que os japoneses têm com a Natureza.
[MIYAZAKI, 2018: 46]

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (3 de Junho de 2018)

No Japão, existe uma forma de medicina preventiva notável que está a ser praticada por um número crescente de pessoas. Apesar de inicialmente ter sido sustentada pela intuição, esta medicina é agora suportada por uma investigação científica consistente que confirma os seus vários benefícios.
A expressão shinrin-yoku foi cunhada em 1982 por Tomohide Akiyama, diretor da Agência Florestal Japonesa. Traduzido à letra, significa “banhos de floresta”, e utiliza-se de uma forma similar às expressões “banhos de sol” ou “banhos de mar”. Não estamos literalmente a tomar um banho, mas a banhar-nos no ambiente da floresta, utilizando todos os nossos sentidos para experienciarmos a Natureza de perto.
[MIYAZAKI, 2018: 9]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MIYAZAKI, Yoshifumi. Shinrin Yoku – A terapia japonesa dos banhos de floresta que melhora a sua saúde e bem-estar. Porto: Albatroz, 2018, pp. 192. ISBN 978-989-739-040-1



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Terapia da Floresta

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Se há um homem que pode mostrar como é que a terapia das árvores funciona, esse homem é Yoshifumi Miyazaki. Este antropólogo biológico, vice-diretor do Centro do Ambiente, da Saúde e das Ciências de Campo da Universidade de Chiba, na periferia de Tóquio, acredita que, em virtude de os seres humanos terem evoluído na natureza, é nela que nos sentimos mais confortáveis, mesmo que nem sempre tenhamos consciência disso.
Neste ponto, Miyazaki é um proponente da teoria popularizada por E. O. Wilson, o entomologista de Harvard amplamente reverenciado: a hipótese da biofilia. Esta teoria foi, em parte, apropriada pelos psicólogos ambientais naquilo que, por vezes, se designa de Teoria da Redução do Stresse ou Teoria da Restauração Psicoevolucionista. Não foi Wilson quem, na realidade, cunhou o termo «biofilia»; essa honra deve ser atribuída ao psicólogo social Erich Fromm, que o descreveu em 1973 como «o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo; é o desejo de crescer ainda mais, podendo ser encontrado numa pessoa, numa planta, numa ideia ou num grupo social».
Wilson desenvolve a ideia com maior precisão, situando-a no mundo natural e identificando «a natural ligação emocional dos seres humanos aos outros organismos vivos» como a adaptação evolutiva que nos ajudou não só a sobreviver, mas também a alargar os limites da realização humana.
[WILLIAMS, 2018: 31-32]

Para provar que a nossa fisiologia reage a contextos ambientais diferentes, Miyazaki tem levado centenas de sujeitos de investigação para os bosques desde 2004. Ele e o seu colega Juyoung Lee, também então da Universidade de Chiba, descobriram que as caminhadas de lazer pelos bosques, comparadas com as caminhadas urbanas, provocavam uma descida de 12 por cento nos níveis de cortisol. Mas não foi tudo. Registaram uma descida de 7 por cento na atividade do sistema nervoso simpático, de 1,4 por cento na pressão arterial e de seis por cento no ritmo cardíaco. Nos questionários psicológicos, registaram também melhores disposições e menores níveis de ansiedade.
Num ensaio de 2011, Miyazaki concluiu o seguinte: «Estes dados revelam que os estados de tensão podem ser aliviados pela terapia shinrin.» E os japoneses seguiram as suas indicações, com quase um quarto da população a participar em algum tipo de atividade shinrin. Todos os anos, centenas de milhares de visitantes caminham pelos trilhos da terapia da floresta.
[WILLIAMS, 2018:  33-34]

Trilho de Floresta © Renoir (1875)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Andar Saudável




O Centro Desportivo Nacional do Jamor (CDNJ) vai acolher, no próximo domingo de manhã, uma actividade no âmbito do Ande pela Sua Saúde e pela Saúde do Planeta, um programa – que tem vindo a ser implementado, desde 2008, pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) – promotor de boas práticas ambientais, de saúde e bem-estar, com base no andar a pé, dirigido aos cidadãos em geral e aos pedestrianistas em particular.
Esta trata-se de uma iniciativa que tive o grato prazer de lançar e na qual estou profunda e entusiasticamente empenhado, desde o seu início, tendo em conta os diversificados benefícios para a saúde dos praticantes e inclusivamente para o ambiente, através de mudanças comportamentais com implicações não só nos hábitos de mobilidade mas também do próprio estilo de vida dos envolvidos. Andar a pé trata-se de um poderoso “gesto” que, passo a passo, pode não só mudar a (qualidade de) vida dos praticantes como também o próprio mundo. Uma temática que tem merecido um crescente interesse não só a nível nacional como internacional.
A actividade do próximo domingo (dia 3 de Junho), desenvolvida em parceria com o Instituto do Desporto e Juventude de Portugal (IPDJ), será replicada, em diversos moldes, aos domingos de manhã, das 9.30 às 11.30-12.00, e contará com o enquadramento técnico por parte de detentores do Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo – Graus I, II e/ou III. O ponto de encontro dos participantes será junto da Estrutura Artificial de Escalada (EAE) da FCMP, situada no Parque Urbano do Jamor. As actividades Ande pela Sua Saúde… são abertas ao público em geral e gratuitas. Para participar basta trazer calçado adequado e motivação para andar a pé. Para mais informações, consulte a FCMP (218 126 890) ou o CDNJ (214 144 030).

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)

terça-feira, 29 de maio de 2018

Libertações


A corrida interrompe-se quando o corredor se ergue. O estado erecto põe um termo, talvez provisório, à fuga para a frente da evolução animal. Vista de forma idealizada, a passagem dos pré-hominídeos, de uma marcha a quatro patas para a locomoção pedestre do homem, traduz-se por uma série de sucessivas libertações: a da cabeça, relativamente ao solo, a da mão relativamente à marcha e, num mesmo impulso de verticalidade, como uma catedral gótica liberta dos pesados pilares romanos, a da abóbada craniana relativamente ao maciço facial. Os novos arranjos ósseos crânio-faciais e o enorme espaço assim adquirido associam-se à expansão que o cérebro encontra aí para se alojar. É, aliás, interessante observar que os ossos da face derivam de células provenientes da parte anterior da crista neural e estão sob o controlo de genes homeóticos que conduzem a formação do cérebro.
Edelman defende a ideia de que o cérebro é um sistema selectivo de reconhecimento. É provável que tenha razão. O cérebro funciona na selecção de similitudes e de contrastes; estabelece relações e relações entre relações, provavelmente por intermédio de grupos neurónicos, cuja estrutura e dinâmica continuam, até à data, a ser hipotéticas. Essas relações são, por definição, abstractas, mas não mais do que o que une uma molécula viva a uma outra: trata-se, nos dois casos, de um reconhecimento de formas. Essa abstracção faz que, por vezes, se fale, erradamente, de psiquismo ou de espírito, género imaterial que vem ocupar o vazio entre formas. É razoável admitir a hipótese de que o aumento considerável do tamanho do cérebro do homem, e, designadamente, o desenvolvimento do chamado córtex associativo, estarão na origem da sua fabulosa capacidade para estabelecer essas relações e as relações entre relações, que podemos designar pelo termo genérico de pensamento.
O pensamento traduz os processos de categorização do real, dos quais é inseparável, qualquer que seja o nível de abstracção em que se situem. É falso, por sua vez, afirmar que o pensamento é responsável por essas categorizações, ou seja, que efectua um trabalho sobre as representações. Seria, como sublinha A. Pochiantz, cair numa clivagem fatal com o corpo, «reintroduzir um dualismo vitalista que separa a função do seu substrato, substituir pelo real a metáfora do ordenador e reduzir a lógica do ser vivo à lógica da matemática». As representações são realizadas em territórios cerebrais mais ou menos especializados segundo a natureza sensorial dos dados provenientes do mundo.
(…) Eis, portanto, o cérebro do homem, capaz de representar um mundo que já não é ou que ainda não é, enfim, capaz de instrumentalizar o mundo bem real que se lhe oferece. Com uma pedra, ele parte outra pedra, coloca o fragmento na extremidade de um pau; com o conjunto constrói, segundo o tamanho e a forma, uma azagaia ou um machado, ou ainda uma lança, que empresta a um outro. Mas, dentro em breve, com os sons, o homem articula palavras: ele fala!
[VINCENT, 1997: 43-46]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VINCENT, Jean-Didier. A Carne e o Diabo. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1997, pp. 260.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Venerar descalços


© Algures da Net

Todos tiraram os sapados, para, descalços, venerar a Pachamama. Sentiram-na com os pés, tocaram-na com as mãos e muitos a reverenciaram com a fronte. Depois toda a multidão voltou-se para o Oriente, o lugar onde nasce o Sol. Rezaram com o olhar. O tambor ajudou cada pessoa a entregar o louvor:

“Salve, pai divino, grande Sol, fonte das nossas vidas…
Salve, mãe da luz, energia do nosso ser e da Pachamama.”

Saudaram ainda o Oeste, depois o Norte e finalmente o Sul. Em cada ponto cardeal, receberam um dos elementos do equilíbrio da vida. Trouxeram a lhama preta até ao altar e curvaram-se em silêncio. Os sacerdotes prostraram-se diante da vítima e pediram-lhe perdão.
[BARROS, 1997: 337]

PC ©

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BARROS, Marcelo. A secreta magia do caminho. Rio de Janeiro: Nova Era, 1997, pp. 416. ISBN 85-01-04750-3

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Picos



A progressão em terrenos escorregadios, designadamente em neveiros, vertentes enlameadas e/ou com erva molhada, apresenta exigências técnicas e o perigo de queda de praticantes que deverão ser tidos em conta e geridos convenientemente com vista à sua resolução e/ou mitigação.
O uso de spikes revela-se uma interessante e efectiva solução de progressão com níveis acrescídos de segurança, face a condições de ocorrência de neve e gelo pontualmente em terrenos montanhosos ou em trajectos pedestres, no âmbito da prática de caminhada e de running (sky ou trail). São fáceis e rápidos de colocar em qualquer tipo de calçado e proporcionam uma boa tracção na maior parte dos terrenos escorregadios.  Por outro lado, são muito leves e pouco volumosos tornando-se muitíssimo apetecíveis para quem pretende andar rápido e (ultra)leve. No contexto nacional, serão certamente interessantes opções, sob determinadas condições de neve e gelo, na montanha do Pico ou na Serra da Estrela, tal como noutras áreas com terrenos escorregadios.
Os “picos” snowline Chaisen, comercializados pela casa austríaca Koch alpin GmbH, apresentam uma elevada qualidade e vários modelos, para diferentes actividades, de que destacamos o Chainsen Light, pela sua leveza (230 a 265 gramas/par, consoante os tamanhos disponíveis: M, L e XL) e pela sua eficácia. Neste momento estamos em fase de testes, com diversos modelos, e os resultados são bastante satisfatórios, sendo certamente uma opção a ter em conta, quer por praticantes, quer por treinadores. Para mais informações, consulte o site da Koch alpin.

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Longo Curso

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A iniciativa do Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Escola Nacional de Montanhismo (FCMP/ENM) denominada Palestras da Montanha realizou-se, no mês de Maio, sob um formato diferente daquele que é usual. Em vez da já tradicional palestra mensal, foi concretizado um “workshop dois-em-um”, nos dias 22 e 24, na sala de formação da FCMP, acerca de Percursos Pedestres de Longo Curso, sob duas temáticas distintas mas complementares: (1) Estratégias de Progressão Rápida e (Ultra)leve e (2) Desempenho, Saúde e Bem-estar. A razão pela qual estas acções de formação foram consideradas workshops deveu-se ao seu cariz eminentemente de aplicação prática e, sobretudo, pelo desafio final dos praticantes efectuarem um conjunto de experiências num percurso concreto com cerca de 50 quilómetros de extensão.
O primeiro workshop, sobre Estratégias de progressão rápida e (ultra)leve, centrou-se na escolha criteriosa do equipamento a utilizar, desde as abordagens clássicas a opções (ultra)leves, com base na satisfação de um conjunto de necessidades fisiológicas e de segurança, e simultaneamente na redução (muito) significativa do peso e do volume. No primeiro dia também foram abordadas algumas regras base para incrementar o ritmo de marcha, tal como métodos e estratégias a implementar com vista a uma optimização do desempenho em percursos de longo curso, isso depois de um enquadramento sobre a determinação de horários e dificuldade de percursos pedestres.
O segundo workshop, sobre Desempenho, Saúde e Bem-estar, continuou e aprofundou a temática da “aula” anterior sobre o equipamento, designadamente no que concerne às necessidades a satisfazer, com um especial enfoque no calçado e formas de mitigar e/ou evitar problemas de saúde. Temática que constituiu a ponte para o ensino de metodologias de treino  direccionadas a percursos de longo curso (nas suas componentes física, psicológica, técnica e táctica), a alimentação e a hidratação, a gestão do esforço e formas de prevenir e de tratar algumas das lesões mais comuns, designadamente entorses e luxações, caibrãs, flictenas, fasceíte plantar, hematoma subungueal, pé de trincheira e pé de atleta.
Ambas as acções de formação contínua foram alvo de acreditação por parte do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) para atribuição de Unidades de Crédito com vista à revalidação do Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD) nas modalidades de Pedestrianismo e de Montanhismo nos seus diversos graus (I, II e III).

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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do (c)A(r)mando III


PC © 


Só mais uma palavra sobre o que se seguirá. Muito do que ficará dito resulta de um pensamento sempre em busca da experiência, naquele sentido de filosofia operativa que tem sido explicado por António Telmo desde a sua ARTE POÉTICA. O leitor tirará mais proveito deste livro se o ler pensando nele como o de uma filosofia poética, lembrando-se que o termo poesia deriva do grego poieín, acção, mas de uma acção que deve partir de uma mutação interior. O único interesse que o livro pode ter está na inquietação com que foi escrito. As contradições que se possa encontrar e que não rejeito advêm dessa mesma inquietação, que é, como se sabe, desde Álvaro Ribeiro, o gesto de uma alma que está em movimento, em demanda.
[SINDE, 2005: 15-16]

PC ©

O primeiro passo, na perspectiva ocidental, é a alma descobrir em si a causa da sua ignorância.
(…) Há quem adie, constantemente esta metanóia para o pós-morte, mas nós já estamos mortos, já estamos para onde nos queremos encaminhar; já estamos e não estamos. A morte é já aqui; é, por isso, já aqui que a obra começa – aliás, a obra já começou e estamos a perder tempo sempre que ficamos prostrados no marasmo da ignorância, no paralisante spleen que [Sampaio] Bruno tão bem descreve. Já estamos no transcendente porque algo em nós nunca de lá saiu, nunca o esqueceu e, por isso, não o ignora. Se não fosse essa raiz no alto não haveria forma de regresso. A cisão é extrema mas não é radical, porque algo em nós, último Satã, aspira ao regresso.
A sensação de Presença, de que tratarei mais à frente, traz consigo a certeza de que estamos já no transcendente. A vida, isto é, o viver, é já transcendente. Todavia vivemos como se: como se estivessemos separados, como se fôssemos autónomos; e, no entanto, de algum modo, estamos e somos.
Os nossos clássicos são ainda o ponto em que podemos encontrar a cura:

Planta sois e caminheira
Que, ainda que estais, vos is
Donde viestes.

Assim diz o mestre Gil Vicente, no AUTO DA ALMA, e continua por este modo:

Vossa pátria verdadeira
He ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida.
Não durmaes;
Hum ponto não esteis parada,
Que a jornada he fenecida,
Se atentaes.

A alma, para Gil Vicente, tem a sua origem no outro mundo e vem a este para dar celestes flores:

Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes treposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas

(…) Se a alma é uma planta, o caminho da regeneração, da demanda da vida nova, é o que deve percorrer o neófito, que etimologicamente significa “nova planta”. Mas exploremos esta metáfora e vejamos até onde nos leva. Todas as plantas têm raízes, que correspondem a dois tipos de alimento: uma raiz alimenta-se da humidade da treva, do mineral e a outra da luz do céu; só por distracção chamamos ramos às raízes do alto. É do encontro das duas raízes que nascem a flor e o fruto. A planta realiza-se, como uma sizígia, no seu duplo enraizamento, a sua realização é a flor e o fruto, a semente que perpetua a cadeia áurea das plantas. Nesta reunião dos dois tipos de alimentos a planta aproxima o céu da terra e a terra do céu, realiza uma obra de criação pela transmutação do mineral escuro e disforme e do inefável invisível da luz informe na forma maravilhosa da flor.
O homem é também essa dupla raiz mas, ao contrário da planta, tem uma raiz visível na terra e a invisível no céu. E é também do encontro de uma com a outra que ele se realiza – nem só terra, nem só céu, porque o homem tem uma missão criadora a realizar aqui (…). A sua missão é a de aproximar a terra, subtilizando-a, do céu.
[SINDE, 2005: 27-29]


A caminhada faz-se desde o corpo até ao espírito a partir da alma. A “chegada” ao espírito implica a simultânea descida. O corpo subtiliza-se, torna-se anímico e a alma espiritualiza-se.
(…) O corpo é o nosso ponto de apoio, o local a partir do qual iniciamos, se iniciarmos, um processo de ascensão ou iluminação, apenas porque é o lugar de alma que nos foi dado habitar sensivelmente. A sensação de presença pode ter portanto no estado de corporeidade o ponto de apoio, mas aquilo que a alma sente na presença não é o corpo, a alma sente-se a si mesma no estado corpóreo e é por esta razão que lhe pode servir de apoio; por outras palavras, este estado é contido pela alma, é o seu lugar no mundo sensível, terá outro no estado psíquico e outro ainda no estado noético. É possível a convergência dos três estados num só lugar e este parece ser o fim do processo gnósico que avança acrescentando algo que não havia, quer dizer, do corpo ao espírito não se pode perder o corpo, há que ganhar o espírito. Assim também para a percepção sensível que deve sair enriquecida pela percepção animada, não se perde nada na passagem de uma a outra, pelo contrário, a percepção sensível é amplificada em profundidade pelo elemento anímico.
Um primeiro momento de sensação de presença no corpo é iluminador de quanto ele é imenso, ou melhor, da dimensão da alma, porque ele serve-lhe de espelho; se vivido por dentro, vem a ser percebido como algo de vasto e subtil, tem alguma coisa de mágico. A melhor expressão para dizer esta sensação, encontrei-a em António Telmo: o corpo é uma imagem animada.
(…) Passa em nós essa corrente da vida que é viriditas, na excelente expressão de Hidelgarda de Bigen. Todavia, esta força verde, reverdescente e ressuscitante, é também destruidora; é como um fogo que ilumina e para tal desfaz em cinza toda a matéria perecível em que se apoia. Não é casual que o radical etimológico do termo vegetal seja fogo, como o de animal seja ar1.
A presença no corpo é precisamente a deslocação da nossa atenção, da nossa identificação com o elemento ígneo que arde em nós, que nos transmuta necessariamente. A velhice tem já algo de secura porque todo o elemento húmido evaporou – é o equivalente antropológico do Outono, que chega depois do fogo e do calor do Verão intenso terem consumido a humidade. O cheiro doce da decomposição outonal é já o indicador de que a vida que esteve nas folhas se subtilizou, se retirou, se tornou “aérea”, manifestando a sua presença no ar, o equivalente antropológico do odor de santidade.
[SINDE, 2005: 34-35]


NOTAS Pedestris
1- E o homem seja terra: o étimo de humano em latim é humus (terra), tal como se verifica um parentesco entre a palavra hebraica  adam (homem) e adamah (terra). Todavia o ser humano é constituído por mais de 70% de água, anima-o um fogo interior e não vive sem ar.
· O destaque de palavras a negrito (bold) é de nossa “autoria”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SINDE, Pedro. Terra Lúcida – A intimidade do Homem com a Natureza. Matosinhos: Publicações Pena Perfeita, 2005, pp. 160. ISBN 972-8925-05-0



Do (c)A(r)mando II


DR © 

Platão compara a alma a um carro puxado por cavalos, no qual vai um homem que segura as rédeas. Há relações diabólicas: também os automóveis são movidos por uma força que se mede em “cavalos1.
[TELMO, 2017: 56]

Já atrás passei pelo Fedro, onde Platão compara a alma a um carro puxado por cavalos e guiado por um auriga. Bem compreendida a imagem, segue-se o seguinte: o homem não tem um só cérebro, mas três. Um conhece pelas noções, outro pelas emoções, o terceiro pelos movimentos. Na verdade, ao dizermos cérebros, não fazemos mais do que apresentar em termos modernos a doutrina clássica das três almas intelectiva, sensitiva e vegetativa.
Na imagem do carro puxado por cavalos, ao primeiro centro corresponde o auriga que o conduz, ao segundo os cavalos, ao terceiro a armação de ferro e de madeira assente sobre as rodas. As emoções sugerem os movimentos que o corpo imita, o pensamento dirige as emoções. Até aqui estamos perante uma correlação do domínio comum. Mas agora, vamos introduzir na imagem um factor que Platão talvez tenha preferido não mensionar: o passageiro. É ele que diz ao condutor para onde quer que ele vá, o que deve fazer, o caminho de deve tomar, o destino da viagem. Imaginemos que o condutor não conhece a região por onde o mandam. Está, no entanto, disposto, para ganhar a vida, a ir por um caminho que não conhece, com risco até de ser assaltado pelo desconhecido.
Nem sempre, porém, o condutor e o carro estão em condições de fazerem o que é mandado. Uma viagem por vales aprazíveis, com boas estradas de alcatrão exige menos do taxista, do motor e do carro do que uma viagem pelas altas montanhas e por caminhos de pedras e de buracos, correndo ao lado de precipícios. Se, numa estrada fácil, com um destino mais ou menos conhecido para a viagem, nada mais se exige do que cumprir automaticamente as ordens vindas de trás, o mesmo não acontece num caminho difícil, com curvas e contracurvas, desvios por sítios perdidos, que só o passageiro conhece. É, então, necessária uma perfeita atenção às indicações que nos vão sendo dadas, confiança no passageiro que nos guia, e ainda o completo domínio das rédeas ou do volante num carro em que tudo esteja ajustado.
A analogia, não se esqueça o leitor, é a do homem com as suas três almas com o carro e as suas três componentes: auriga, cavalos e o carro propriamente dito. Se não o esquecermos, então a analogia conduz ao seguinte: no homem que está apenas habituado a pensar, a sentir e a pisar caminhos fáceis, qualquer coisa que venha alterar a costumada convivência entre as três almas é instintivamente repelida. É certo que do modo como intimamente convivem ele nada sabe ou sabe muito pouco. Até naqueles que julgam comandar as emoções e escolher as acções, a alma dominante é a subdiafragmática. Tudo neles, de facto, deriva da vida instintiva do corpo, sem cessar produzindo em modo inconsciente emoções e formações mentais. São ordenados de baixo para cima. Neste sentido, parecem ter tido razão Freud e Marx, mestres apenas sub diafragma, quando explicam, um pelo cio outro pela fome, pelos dois instintos que formam a carne, as acções, os sentimentos e os pensamentos do homem, por mais elevados e desinteressados que se afigurem.
O homem, porém, fez-se para viajar. Assim eram os portugueses antigos que se fizeram aos mares. Só viajando do mesmo modo, um ser pode transmudar-se num espírito superior, aberto às emanações divinas e ordenado de cima para baixo, que é aqui o mesmo que dizer do centro para a periferia, porque, em português marítimo, o alto é igual ao profundo2.
[TELMO, 2017: 58-59]

DR © 

NOTAS Pedestris
1- Há, de facto, relações diabólicas: e.g. tomar diacetilmorfina, vulgarmente denominada “cavalo” ou “heroína” (!), – uma droga artificial sintetizada, no século XIX, a partir da morfina (um produto natural derivado da papoila do ópio) – para atingir estados alterados de (in)consciência ou, digamos de outro modo, para baralhar a relação veículo, condutor, conduzido e…
2- Porque, pela lei hermética da correspondência: o que está em cima e como o que está em baixo e o que está dentro é como o que está fora. Atitude é altitude e, portanto, também será profundidade.
· O destaque de palavras a negrito (bold) é de nossa “autoria”.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TELMO, António. O Horóscopo de Portugal e escritos afins. Sintra: Zéfiro, 2017, pp. 232. ISBN 978-989-677-152-2



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Do (c)A(r)mando

Pedro Cuiça © num carro (algures, 2017)

Se a redenção da humanidade trouxesse a felicidade à medida de cada um, como, na generalidade, essa medida tem o tamanho de um automóvel, já pouco falta para estarmos todos salvos. Pelo contrário, se a redenção for, como tem sido ensinado, a ressurreição dos mortos ou o acordar dos adormecidos, então nunca estivemos tão longe dela como agora.
(…)
Foi Chesterton, um dos raros escritores que usam o humor para fazer metafísica, quem observou ser o homem moderno, ao invés da falsa ideia que faz de si, o menos dinâmico de toda a história da Humanidade. Desloca-se de automóvel para todo o lado, mas fá-lo sentado e sem se mexer.
(…)
Quando eu comecei a conhecer as palavras, perturbava-me ver a palavra automóvel aplicada a um objecto que para se mover precisava de alguém que o pusesse em marcha. A palavra sugere um prodígio: o de um objecto inerte que se move a si próprio.
Aos viventes chamavam os gregos autokinetoi, porque viam terem eles o princípio do movimento em si mesmos, o que não acontece com uma pedra que só se desloca quando sobre ela actua uma força exterior. O prestígio da tecnologia faz-se, em grande parte, com designações impróprias, que sugerem um prodígio onde, de facto, há uma banalidade.
Sem um humano (um macaco não serve) que o ponha a trabalhar, que o guie por curvas e rectas, subidas e descidas, e o faça parar, não há carro que mereça o nome de automóvel. Merece-o, porém se estiverem, como vimos que estão, ligados um ao outro por fibras musculares e nervosas.
(…)
O que podemos começar a compreender deste modo. Também o corpo nos leva, de lugar a lugar, mas somos nós os levados quem leva o corpo. E se se passasse o mesmo com o mundo?
[TELMO, 2017: 55-56]

Cláudia Damas © Museu da Tapeçaria Guy Fino (Portalegre, 2015)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TELMO, António. O Horóscopo de Portugal e escritos afins. Sintra: Zéfiro, 2017, pp. 232. ISBN 978-989-677-152-2