terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Liberdade


«Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 26)

«Considerando-me paradoxal, dirigem-me o melhor elogio que eu poderia ter.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 76)

«O mundo tem tantas possibilidades que até o impossível é possível.»
Agostinho da Silva (BRANCO, 2006: 44)


© na Net (?)

Faz hoje 112 anos que nasceu Agostinho da Silva. Esse Estranhíssimo Colosso1 que, na sua multifacetada complexidade, foi, antes de mais, um Homem simples e humilde, profundamente entusiasmado, culto e convicto… Um poeta à solta, exímio conhecedor da Idade Antiga, apaixonado pela Idade Média e arauto da Idade Futura do Espírito Santo.
Um pensador que não desdenharia o epiteto de “libertário”, porque libertador e cultor do exercício do «pensamento libérrimo» (BRANCO, 2006: 69), mas que não seria certamente circunscrito pelo mesmo. Difícil, se não impossível de “rotular”1, foi indubitavelmente um paladino da Liberdade, mormente no sentido de «todo o homem (…) ser aquilo que ele tem de ser: um criador sem nenhuma espécie de inibição» (Agostinho da Silva in MENDANHA, 1998: 56). E é, como ponto de partida, com base nessa sua faceta, que, na sequência dos últimos três postsForça, Sabedoria e Beleza –, abordamos hoje, em sua memória, a Liberdade no caminhar/caminho.  Lembremos que Agostinho, tendo sido um reiterado defensor da vadiagem e da errância – daqueles considerados «errantes, no sentido de que poderiam andar por aqui e por acolá» (in Conversas Vadias) –, abordou precisamente a Liberdade em Ritmos de Marcha (SILVA, 1990: 113-117).
O pensamento de Agostinho da Silva apesar de se (re)velar sob a forma de uma aparente simplicidade categórica e incisiva, oculta uma difícil e contraditória, senão paradoxal, complexidade. Tal como a vida é difícil2, o seu pensamento não é fácil. Facto constatável, desde logo, pela sua ascética afirmação da Liberdade «pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus» (SILVA, 1990: 19). Um caminho único, porque assente na renúncia comum – saber «ser ascético no meio da abundância» e preferir «ao poder a santidade» (ibidem: 55) –, e simultaneamente múltiplo, porque palmilhado por cada um de forma diferente.
Uma forma difícil e pouco usual de entender a Liberdade, nos dias de hoje, tendo em conta que Agostinho não cria que «se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz», embora considerasse que «nele seja essencial o viver alegre» (ibidem, 51).

«Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino, e foi pena que não fosse esta a lição essencial que tivéssemos tirado da tragédia grega; como pena foi que só tivéssemos olhado o fatalismo dos árabes pelo seu lado superficial.
Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral do desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes e depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador da liberdade o que, agrilhoado à montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. (…) No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física do mundo da extensão, se revele pelo espírito do mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.»
[SILVA, 1990: 51-52]

Agostinho defende a liberdade da sua própria disciplina, numa «espécie de vida militar» e simultaneamente monástica, a que não estranha os votos de pobreza – «do abandono do ter (…) libertando-se da posse», – de celibato – «livrando de que outros o possuam» e «livre também de tratar o outro como se fosse» sua posse – e de obediência – «que livra a pessoa de ser possuída por ela própria e de ter a ideia de que só serve para isto ou para aquilo» (in Conversas Vadias).
E, no entanto, esse pensamento que parece marcado pela fatalidade (a ideia de fatum), de renúncia e sofrimento, surge como rampa de lançamento – atitude – para os altos voos do Espírito Santo: «a pessoa de Deus na qual está o domínio do inesperado; daquilo que parece ser a Liberdade pura e não o destino» (ibidem). Atitude é altitude! E é «nesse abrir-se ao Espírito Santo, ao talvez absolutamente imprevisível, que cada homem encontra o caminho para se cumprir a si mesmo – a única exigência que se lhe faz» (BRANCO, 2006: 93). Também poderemos ver essa atitude como opção de andar à solta ou andar ao Deus dará, como se queira ou possa, sendo essa afinal (ou a-princípio) uma forma de acreditar, como o faziam (e fazem) os povos primais3, na Providência Divina, pondo de lado a previdência humana: «porque não reparamos talvez ainda suficientemente na pressa com que todos nós, homens supostamente religiosos, tratamos de entesourar o que tememos que amanhã pode esquecer à Providência de Deus, da qual, no entanto, continuamos a falar abundantemente: só, porém, a falar» (SILVA, 1990: 69). Nós, os ditos “civilizados”, «estamos tão afastados do natural como do sobrenatural, quando estes deviam ser os pontos centrais de nossa existência: plenamente vivemos no artificial» (ibidem: 69). Uma caminhada liberta ou rumo à libertação passará pelo regresso às nossas origens: «temos de voltar aos povos naturais, como uma etapa necessária para o caminho do sobrenatural, e sem dúvida voltaremos, ou por nossa livre vontade ou, como tantas vezes sucede àqueles a quem Deus mais ama, pela viva e contundente força de golpes exteriores» (ibidem: 70).

«Tudo o que faço no mundo
sem o fazer é feito
sobre o nada em que me deito.»
Agostinho da Silva (BORGES, 2006: 54)

© na Net (?)

NOTAS
1. Título da biografia de Agostinho da Silva, escrita por António Cândido Franco (Quetzal, 2015), em que, na contracapa, esse Colosso é caracterizado nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»
2. A VIDA É DIFÍCIL: é a fase com que começa o livro, de M. Scott Peck, O Caminho Menos Percorrido (Sinais de Fogo, 1999).
3. Para não utilizar a palavra “primitivos” pela carga pejorativa que, em geral, se lhe associa!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BORGES, Paulo. Tempos de Ser Deus – A Espiritualidade Ecuménica de Agostinho da Silva. Lisboa: Âncora Editora, 2006, pp. 208. ISBN 978-972-780-177-0
BRANCO, João Maria de Freitas. Agostinho da Silva – Um Perfil Filosófico. Sintra: Zéfiro, 2006, pp. 118. ISBN 972-8958-19-6
FRANCO, António Cândido Franco. O Estranhíssimo Colosso – Uma Biografia de Agostinho da Silva. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6
MEDANHA, Victor. Conversas com Agostinho da Silva. Lisboa: Pergaminho, 1998, 9ª ed., pp. 128. ISBN 972-711-057-6
SILVA, Agostinho da. Educação de Portugal. Lisboa: Ulmeiro, 1989, pp. 80. ISBN 972-706-213-X
SILVA, Agostinho da. As Aproximações. Lisboa: Relógio d’Água, 1990, pp. 132.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Beleza


San Francisco Mountains © na Net (?)

É o percorrer/traçar (d)o nosso caminho que nos torna fortes, quando nos cumprimos na caminhada,... na peregrinação. O caminho faz-se caminhando e o caminhar faz o caminho, no concreto e/ou na imaginação*, numa manifesta transitoriedade daquele que transita, mesmo quando tudo indica (parece!) que esse andarilho está parado. Por isso, um percurso é simultaneamente caminhada/caminho, é andança e trajecto… O caminhar e o caminho podem materializar-se no terreno, mas são também metáforas de/da vida e, portanto, da morte. Por estas e outras razões e emoções, há uma ética no andar e, claro, uma estética. Não basta Andar Bem é primordial Andar em Beleza** (Walk in Beauty).



NOTA
*Imaginação enquanto “mundo imaginal”, “nação de imagens”...
**E será a beleza que nos remete para o maravilhamento ou encantamento?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sabedoria


Compostela © na Net (?)

«Oração e meditação andante, regeneração constante e profunda, reconciliação com a nossa totalidade, desprendimento das contingências, despertar e avançar no estado de ressurreição, eis alguns sinónimos de peregrinar.
(…)
Caracterizado pela abertura do coração e do olho espiritual como pela transcendência de limitações espácio-temporais, o peregrino torna-se caminhante verdadeiro da vida e onde quer que esteja dá testemunho da sua condição de homo viator, pois «o meu Reino não é deste mundo», na qual ele é também a Luz do mundo, e só ou acompanhado, casado ou monakos, a sua alma por momentos atinge a Via Láctea, une-se com os reflexos dourados do sol, na rua, na estrada ou auto-estrada, entra em comunhão com o seu espírito e os espíritos de outras pessoas, aquieta-se com Deus ou com a plenitude do Espaço.
Muitos fazem o caminho de Santiago mas poucos se tornam Caminho. Mas tal é o sentido iniciático da peregrinação: passar da condição de imaturidade, de egoísmo, de ovelha desgarrada e manipulada, ou de lobo predador e manipulador, para o de artífice e aprendiz da obra, companheiro de mister, mestre do Caminho, pontifex entre os dois mundos, unindo o que está em cima com o que está em baixo, o superior com o inferior, tanto pela acção como pela contemplação e assim testemunhando e manifestando a Unicidade do Ser Divino…
(…)
Com efeito, com o tempo, o verdadeiro peregrino compreende cada vez mais que o Caminho é uma entidade, um ser gigantesco na Terra, ou melhor, uma das estrelas e arquétipos que na atmosfera da Terra mais raios recebe dos seres humanos e mais bênçãos lhes distribui.
Assim, ainda que não peregrinando com as pernas e os pés, o peregrino verdadeiro pode a qualquer momento penetrar no Caminho, pois tem a porta aberta para ele no peito e pode ser inundado pela luz da Estrela, pela força divina da Ka’ba de Meca, pelos filamentos das folhas transparentizadas da figueira de Bodhgaya, pela fecundidade do Ganges, pela pureza e a doçura da Nossa Senhora ou Grande Deusa Mãe nos seus múltiplos nomes, santuários e caminhos, tais como os de Fátima e Amaterasu omikami, ou ainda pela ligação divina que as montanhas sagradas, do Marão e Sintra à Estrela e ao Gerês, dos Himalaias ao Fuji, do Alborz ao Himavat lhe oferecem e agraciam…»
[TEIXEIRA DA MOTA, 2015: 169-171]

© Laurence Winram

Por tudo isso (e já não é pouco), mas muito mais, é que, por estes dias, vocês não são apenas 3 ComPassos ou 4, são pelo menos 5, porque estou e estarei convosco acompanhando-vos*, nessa vossa/nossa demanda, até Campus Stellae. Na verdade, poderão sentir facilmente que não somos apenas cinco, é uma multidão que neste momento (sempre presente) peregrina, uns a pé e outros nem por isso... E essa é uma das constatações d'a Sabedoria do Caminho. Bom Caminho ;-)

© na Net (?)

NOTAS
· *Acompanhando-vos na qualidade de “companhia”, de “companheirismo”: aquelas e aqueles que são “companheiras/companheiros”, que partilham o pão...
· O destaque de palavras a negrito é da nossa autoria.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TEIXEIRA DA MOTA, Pedro. Da Alma ao Espírito. Porto: Publicações Maitreya, 2015, 2ª ed., pp. 188. ISBN 978-989-8691-17-0


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Força

«Quasi cinquant'anni dopo, io so che sulla terra ci sono tanti percorsi di vita quanti sono gli uomini. Trovare la propria strada à l'arte per eccellenza, perché solo sulla nostra strada diventiamo forti.»
[MESSNER, 2014: 326]

© na Net (?)

TRADUÇÃO PEDESTRIS
«Quase cinquenta anos depois, eu sei que na terra há tantos percursos de vida quantos homens. Encontrar o seu próprio caminho é a arte por excelência, porque apenas no nosso caminho nos tornamos fortes

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MESSNER, Reinhold. La Vita Secondo Me. Milano: Garzanti Libri, 2014, pp. 336. ISBN 978-88-6380-837-7


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Mountain Talks



Mountain Talks, um Ciclo de Palestras de Montanha que «pretende trazer à conversa, alguns dos mais notáveis intervenientes no mundo das atividades de montanha». Certamente uma forma de partilhar experiências e pontos de vista... Mensalmente, numa sexta-feira à noite, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.



Ao que parece, lá estarei a abrir estas palestras, para falar sobre o Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking, a arte de andar – desde caminhadas à porta de casa a marchas de montanha em paragens remotas – e o percurso que tenho percorrido, há praticamente 40 anos, no âmbito dos desportos de montanha em geral e do pedestrianismo em particular. Um trajecto desde criança, em caminhadas a solo ou entre amigos, à profissionalização como jornalista especializado em actividades de ar livre e ambiente, até ao trabalho que tenho desenvolvido como Director Técnico de Montanha na Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP).


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Forestósofos

© na Net (?)

«O Cavaleiro* é um viajante solitário através de um grande tabuleiro de xadrez, de sucessivos negros e brancos, símbolo do Universo, como acontece quando andamos na floresta durante o dia ou numa noite de luar e vemos as sucessivas manchas claras e escuras reflectidas sobre o nosso caminho florestal. Olhar para essas densas manchas claro-escuras enquanto caminhamos, desencadeia ao fim de algum tempo um estado de transe profundo, como eu próprio apurei regularmente. Os nossos sentidos físicos começam a ver o que habitualmente não vemos, quando tudo é uma mancha infinita zebrada de luzes monótonas.»
[LASCARIZ, 2017: 236]

© na Net (?)

«No processo de retiro na floresta, a ascese de aniquilação do ego passa pela recentragem da consciência racional no plano sensorial, no impacto directo do que se vê e ouve, fazendo a epochè husserliana, isto é, suspendendo todas as referências e condicionalismos culturais que o determinam. Tal e qual como nos processos iniciáticos em que primeiro ouvimos sem ver e, depois, completamos o que ouvimos com o que vemos.»
[LASCARIZ, 2017: 237]

© Spirit of Old


NOTA
*A noção de Cavaleiro aqui expressa pelo autor é assaz diferente daquela que, em geral, é propalada: «Os Cavaleiros do Graal não andam em manada como os Cruzados. São sempre solitários e eremitas. São eremitas em movimento, nómadas, não eremitas sedentários. [LASCARIZ, 2017: 114]» Ademais, este Cavaleiro é forestósofo: um neologismo criado por Gilberto de Lascariz para «designar aquele ou aquela que busca experiências de sapiencialidade espiritual no seio arbustáceo das florestas» (ibidem, 2017: 73).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LASCARIZ, Gilberto de. O Dragão e o Graal – A Via de Vénus e a Magia do Sangue na Tradição. Sintra: Zéfiro, 2017, pp. 480. ISBN 978-989-677-157-7


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Domingo

[Primeira-feira: DIA DO SOL]

© na Net (?)

«Um dos primeiros santos inconvertidos,
Sem as cores do meio-dia ou do entardecer,
Pagão sem mácula,
Que usurpou o dia civil,
E que sempre depois do seu nascimento
Percorreu os confins da Terra.»
[THOREAU, 2018: 71]

«Quando passámos debaixo da ponte sobre o canal, mesmo antes de atingirmos o Merrimack, as pessoas que estavam a sair da igreja pararam a olhar para nós lá de cima, e aparentemente, por força do hábito, permitiram-se fazer certas comparações pagãs; mas éramos nós quem verdadeiramente observava este dia de sol. Segundo Hesíodo,

«O sétimo é um dia santo,
Pois foi então que Latona gerou Apolo de raios dourados»,

e pelas nossas contas este era o sétimo dia da semana, e não o primeiro
[THOREAU, 2018: 91]

© na Net (?)

«Os deuses gregos são jovens, pecadores, deuses caídos, com os vícios dos homens, mas, em muitos aspectos importantes, essencialmente de raça divina. No meu Panteão, Pã ainda reina na sua glória pristina, com o seu rosto rosado, a sua barba solta e o seu corpo hirsuto, o seu cachimbo e o seu cajado, a sua ninfa Eco e a sua filha eleita Iambe; com efeito, o grande deus Pã não está morto, ao contrário do que se dizia. Os deuses não morrem.
(…)
Felizes de nós que podemos deliciar-nos neste quente sol (…) que ilumina todas as criaturas, quando repousam e quando labutam, não sem um sentimento de gratidão, e cuja vida é tão irrepreensível, por mais digna de repreensão que possa ser, tanto no dia da Lua do Senhor como no Seu dia do Sol*.»
[THOREAU, 2018: 92]

© Spirit of Old

NOTAS
*Nota do Tradutor (Luís Leitão): nesta passagem, Thoreau escreve Mona-day («dia da Lua», segunda-feira) e Suna-day («dia do Sol», domingo).
Nota Pedestris: e assim dir-se-ia que finaliza e/ou (re)começa mais um ciclo, mas o tempo circular não tem princípio nem fim!

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9 


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sábado

[Sétima-feira: DIA DE SATURNO]

© na Net (?)

«Quem dorme de dia e anda a pé à noite,
Não verá vivalma, mas um diabrete.»
[THOREAU, 2018: 69]

«Quando olhamos os flancos destes penedos, embora a uns quatrocentos metros de distância, tínhamos a impressão de os ouvir sussurar, tal era a folhagem daqueles ermos: um lugar para faunos e sátiros, onde morcegos ficam agarrados às rochas durante todo o dia, antes de esvoaçarem ao cair da noite sobre a água, e os pirilampos emitiam com parcimónia as suas luzes debaixo das ervas e das folhas na noite. Após termos montado a tenda na vertente da colina, a alguma distância da margem, ficámos a contemplar através da abertura triangular, ao crepúsculo, o nosso mastro solitário na margem, que mal se via acima dos amieiros e que quase nunca se imobilizava totalmente devido à ondulação do rio; era a primeira incursão do comércio nesta terra. Era aí o nosso porto, a nossa Óstia.»
[THOREAU, 2018: 67]

© na Net (?)

«Não havia sinal da existência de pessoas na escuridão da noite, nem uma única respiração humana, mas apenas a do vento. Quando nos sentámos, pois a novidade da situação mantinha-nos acordados, ouvíamos de vez em quando raposas a andar sobre as folhas mortas e roçar as ervas húmidas de orvalho perto da tenda e, numa ocasião, um rato-almiscareiro a tentar chegar às batatas e aos melões no barco, mas quando acorremos à margem apenas vimos uma ondulação na água a agitar o disco de uma estrela. Por vezes, ouvíamos a serenata de um pardal a sonhar ou o grito abafado de uma coruja, mas, depois de cada som que a pouca distância quebrava a quietude da noite, de cada crepitar de galhos ou sussurar das folhas, havia uma pausa súbita e fazia-se sentir um silêncio cada vez mais profundo, como se um intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de andar fora a essa hora
[THOREAU, 2018: 68]

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9 


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sexta-feira

[DIA DE VÉNUS]

© na Net (?)


«de todo
voltavam desta grande festa apaixonados por ela.»

«Desde as montanhas escarpadas e cobertas de pinheiros até à planície.»
[THOREAU, 2018: 373]

«A mais familiar extensão de água, quando vista do cimo de outra colina, assume um novo e inesperado encanto. Ao fim de termos percorrido alguns quilómetros, deixamos de reconhecer os próprios contornos dos montes sobranceiros à nossa aldeia natal, e porventura nenhum homem conhece bem o horizonte observado da colina que se encontra mais perto da sua casa e é capaz de recordar com nitidez o seu contorno quando se encontra no vale. Em geral, a uma distância um pouco maior, já não sabemos de que lado estão as colinas que rodeiam as nossas casas e quintas. É como se o nosso nascimento tivesse fendido as coisas e tivéssemos sido inseridos na natureza como uma cunha, e enquanto a ferida não sarar e a cicatriz não desaparecer não começaremos a descobrir onde estamos e que a natureza é una e contínua em todo o lado. É um momento importante quando um homem que sempre viveu na vertente leste de uma montanha, e a viu a oeste, dá a volta e a vê de leste. O universo é uma esfera cujo centro está onde está a inteligência. O Sol não é tão central como o homem. No cume de uma colina isolada, em campo aberto, parece que estamos na bossa de um imenso escudo, com a paisagem mais próxima como que num plano inferior relativamente à mais distante, subindo gradualmente em direcção ao horizonte, que é a borda do escudo – mansões, campanários, florestas, montanhas, uns acima dos outros, até serem engolidos no céu. As montanhas mais distantes no horizonte parecem erguer-se directamente da margem desse lago nos bosques, junto ao qual nos encontramos casualmente, enquanto do cume da montanha não se distingue este nem um milhar de outros mais próximos e maiores.
Observados através desta atmosfera límpida, os trabalhos do agricultor, a lavra e a ceifa, tinham uma beleza aos nossos olhos que ele nunca viu. Que afortunadamente somos nós por não possuirmos um acre destas margens, mas que não renunciámos ao nosso título de propriedade sobre tudo. Quem souber apropriar-se do verdadeiro valor deste mundo será o mais pobre dos homens. Pobre rico! Tudo o que tem é tudo o que comprou. Eu, o que vejo é meu.»
[THOREAU, 2018: 386-387]


© na Net (?)

«Quando me lembro da história dessa luz ténue no nosso firmamento a que chamamos Vénus, que os antigos observavam e para onde os homens modernos ainda olham, uma chispa brilhante ligada a uma esfera oca que gira em torno da Terra, que descobrimos ser, em si, outro mundo – e de como Copérnico previu, após reflectir longa e pacientemente sobre o assunto, ainda antes de o telescópio ter sido inventado, que se algum dia o homem a viesse a ver com mais nitidez descobriria que ela tem fases como a nossa Lua, e de que menos de um século após a sua morte o telescópio seria inventado, tendo essa predição sido confirmada por Galileu – tenho, esperança de que possamos, aqui e agora, obter informação mais precisa acerca desse outro mundo cuja existência o instinto da humanidade previu durante tanto tempo. Na realidade, tudo o que chamamos ciência, bem como tudo o que chamamos poesia, é uma partícula dessa informação, rigorosa até certo ponto, mesmo sem chegar ao âmago da verdade. Se conseguimos raciocinar com tanto rigor, e assistir à maravilhosa confirmação do nosso raciocínio, no que respeita aos chamados objectos materiais e aos acontecimentos muito para além do alcance da nossa visão natural, de tal modo que a mente hesita em confiar nos seus cálculos mesmo quando estes são confirmados pela observação, porque não hão-de as nossas especulações penetrar igualmente fundo no sistema estelar imaterial do qual o outro [a exemplo de Vénus] é apenas o aspecto exterior e visível? Não há dúvida de que somos dotados de sentidos tão aptos a sondar os espaços do real, do substancial e do eterno, como sondar o universo material. Veias, Manu, Zoroastro, Sócrates, Cristo, Shakespeare, Swedenborg – eis alguns dos nossos astrónomos.»
[THOREAU, 2018: 386-387]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Quinta-feira

[DIA DE JÚPITER]

© António Freitas (31/01/2018)




«Ele pisou o chão da floresta intocada, sobre o qual
O sol omnisciente não brilhava havia eras,
Onde pasta o alce e caminha o urso temível,
Enquanto no alto das árvores corre o pica-pau.
*
Onde a escuridão o surpeendia, ele deitava-se, feliz, à noite;
Aí a manhã vermelha tocava-o com a sua luz.
*
Vá aonde for, o sábio está em casa,
O seu lar é a terra; a cúpula azul, a sua morada;
Aonde o conduz o espírito lúcido, encontra ele o seu caminho,
Pela própria luz de Deus iluminado e anunciado.»*

EMERSON*


«Uma viagem autêntica e sincera não é nenhum passatempo, mas é tão séria como o túmulo ou qualquer parte do percurso humano, e requer um grande período de preparação antes de a encetarmos. Não me refiro àqueles que viajam sentados, os viajantes sedentários, cujas pernas baloiçam o caminho todo, meros símbolos ociosos da viagem, tal como quando falamos de galinhas poedeiras não nos referimos àquelas que ficam empoleiradas**; refiro-me antes àqueles para quem viajar é vida para as pernas, e morte também, no final. O viajante deve renascer na estrada e conquistar um passaporte dos elementos, as principais forças que existem para ele. Verá também concretizada a velha ameaça da mãe de que será esfolado vivo. As chagas ir-se-ão tornando mais profundas e sararão interiormente, enquanto não der tréguas à sola dos pés, e à noite o esgotamento será a sua almofada, e assim ganhará experiência contra a adversidade. Foi isso que se passou connosco.»
[THOREAU, 2018: 342-343]

© na Net (?)

«Para o homem virtuoso, o universo é o único sanctum sanctorum, e os penetrais do templo, são o vasto apogeu da sua existência. Porque haveria ele de se recolher numa cripta subterrânea, como se fosse o único local sagrado do mundo que ele não tivesse profanado? A alma obediente mais não fará do que descobrir e familiarizar-se com as coisas e escapar-se cada vez mais para a luz e para o ar, como o fez até aqui em segredo, de tal forma que o universo nunca lhe parecerá suficientemente aberto. Acabará até por negligenciar aquele silêncio que acompanha a verdadeira modéstia, mas que, em razão da independência segura que manifesta nas suas revelações, torna tão íntimo para quem ouve aquilo que divulga, que se torna missão do mundo inteiro que a modéstia não seja infringida.
Para o homem que alberga um segredo no seu íntimo, há um segredo ainda maior por explorar. Os nossos actos mais insignificantes podem constituir matéria de secretismo, mas tudo aquilo que fazemos com a maior sinceridade e integridade, em virtude da sua pureza, tem de ser transparente como a luz.»
[ THOREAU, 2018: 346-347]

© Barros & Barros (1/01/2016)

NOTA
*Versos do poema, de Ralph Waldo Emerson(1803-1882), Woodnotes (THOREAU, 2018: 334)
**Nota do tradutor: jogo de palavras intraduzível entre sit – pousar, empoleirar-se – e sit – chocar (ovos).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9