segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

W and W

WOODCRAFT
A youth movement with significant pagan elements, Woodcraft was founded by Canadian-American nature writer ErnestThompson Seton (1860-1946) in 1902, at his home in Cos Cob in suburban Connecticut. Concerned about the impact of industrialization and urban life on youth, Seton launched the movement as an attempt to bring young people into contact with nature and to teach values of self-discipline and cooperation. Seton was an early supporter of Native American rights, and drew on Native American traditions in launching his movement.
The movement started out as a single ‘tribe’ of 42 boys in Cos Cob, but expanded dramatically over the following years, reaching a membership of 200,000 by 1010. After a brief and unsuccessful alliance with the Boy Scouts of America, Seton set up the Woodcraft League, an international organization, in 1915. Woodcraft tribes had groups for different age levels and a detailed program of activities and honors. A especial inner circle for adults, the Red Lodge, had three degrees of initiation and a spiritual dimension focused on what Seton called the Red God, the spirit of wild nature and the “Buffalo Wind” that called too-civilized humanity back to its roots in living nature.
The Woodcraft League gained its first overseas members in the year of its founding, when a group of English Quakers, dissatisfied with the militaristic elements of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts, turned to Woodcraft instead and launched the Order of Woodcraft Chivalry, the first British Woodcraft group. In 1919 there was another addition to Woodcraft ranks as John Hargrave, a charismatic Scout leader, broke with the Boy Scouts and founded a Woodcraft group called the Kindred of the Kibbo Kift (“kibbo kift” being an old Kentish dialect phrase for “proof of strength”). Another Woodcraft group, the Woodcraft Folk, broke away from Hargrave’s group in 1924. All three of the British Woodcraft groups set aside Seton’s Native-American symbolism in favor of a mixture of Celtic and Anglo-Saxon imagery more appropriate to British youth. In the process, they helped to lay the foundations of modern Wicca. See Wicca.
The Woodcraft movement reached the peak of its popularity in the 1920s and 1930s, with groups active in some 20 countries around the world. The Second World War and the period of massive industrialization and Cold War militarism that followed it, however, brought a steep decline in the movement. After Seton’s death in 1946 the Woodcraft League went out of existence, and the few surviving Woodcraft groups in the second half of the twentieth century continued in isolation. Woodcraft today remains an active but very small movement, with a variety of local groups linked mostly by the Internet. Whether it will survive or flicker out in the twenty-first century remains to be seen.
Further reading: Hargrave 1927, Seton, 1920, Seton 1926.
[GREER, 2013: 541-542]

"Seton Indians"(1909)


KKK on an Easter Hike (c.1931)


WICCA
(…) Gardner had close connections to the English branch of woodcraft, a youth movement founded around the beginning of the twentieth century by Canadian-American nature writer Ernest Thompson Seton (1860-1846). Starting in 1915, when Quaker groups opposed to the militarism of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts imported Woodcraft as an alternative, two Woodcraft organizations – the Order of Woodcraft Chivalry and the Kindred of the Kibbo Kift – had an active presence in the New Forest area where Gardner claimed to have worshipped with surviving witches’ covens. Similarities between Wicca and English Woodcraft ceremonies from the 1920s even include references to the earth as a goddess and to a horned god of nature, and Seton’s Woodcraft included an inner, initiatory branch for adults, the Red Lodge, with three degrees of initiation.
[GREER, 2013: 536]


Cernunnos on the Gundestrup Cauldron (II-I BC)

Gerald Gardner (1884-1964)


Bibliographic references
GREER, John Michael. The Element Encyclopedia of Secret Societies. London: Harper Element, 2013, pp. 568. ISBN 978-0-00-793145-3

*
HARGRAVE, John (1927). The Confession of the Kibbo Kift (London: Duckworth)
SETON, Ernest Thompson (1920). Two Little Savages (Garden City, NY: Doubleday)
SETON, Ernest Thompson (1926). The Book of Woodcraft and Indian Lore (Garden City, NY: Doubleday)




domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lisbon night walk

Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)

Depois de um interregno, de mais de um mês, nas minhas caminhadas diárias por Lisboa, foi com uma enorme emoção que palmilhei ontem à noite o trajecto entre o Espaço Salitre-Amaro e o restaurante Martinho da Arcada. Para quem está habituado a andar a pé, pelo menos uma dezena de quilómetros por dia, e cuja praxis se baseia na operatividade da “ciência do concreto”, estar parado a recuperar de uma fasceíte plantar não é nada… “fácil” (!). Por isso a extrema satisfação que vivenciei nesse trajecto, com os sentidos invulgarmente despertos, não só pela liberdade do sedentarismo quebrado mas também pela frescura da noite chuvosa, pelas luzes e pelo bulício metropolitano,… Ademais estando esse percurso enquadrado no workshop de Pedro Teixeira da Mota sobre "Iniciação ao Caminho Esotérico e Espiritual de Fernando Pessoa", que decorreu, das 9.30 às 19.30, no Espaço Salitre-Amaro. Para mim, tudo fez imenso sentido: após especulativas caminhadas e metafóricos caminhos, fechar o dia com “chave de ouro” naquele que foi um dos locais acarinhados pelo grandioso Pessoa, acompanhado por pessoas extraordinárias. Bem hajam.

Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)

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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por planos desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

Fernando Pessoa (24/10/1932)
in Poemas Esotéricos de Fernando Pessoa (Planeta Manuscrito, 2009, p. 16)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O encantamento das montanhas

«O montanhismo é uma expressão de liberdade; vamos para a montanha para fugir às regras. Ir para as montanhas é algo de arcaico, fora das “leis do vale” (…)»
Messner (Messner Mountain Museum Firmian, 14/10/2016)

Nicholas Roerich © Mount "M" (1931)

O montanhismo, tal como a escalada, para além da componente física, será também uma profunda experiência emocional, uma atracção pela liberdade dos vastos espaços verticais, pela grandiosa beleza do mundo mineral, pela simplicidade e pela rusticidade. Subir montanhas será igualmente um meio de (re)ligação à natureza, uma forma de transcendência… O montanhismo também pode ser uma afeição, uma paixão. Vive-se para ou por isso e, quando menos se espera,… «Um fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento» (Bonatti, 1962).
[CUIÇA, 2010: 27]




Referência bibliográfica
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: FCMP/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Por um caminho adiante

Hieronymus Bosch - The Trees Have Ears and the Field Has Eyes or The Forest that Hears and the Field that Sees (c. 1500, caneta e tinta castanha; altura: 20.2 cm, largura: 12.7 cm)


MEDITANDO

Quantas vezes, vou só, por um caminho adiante,
A meditar nas cousas.
E meditando, eu torno-me distante
Das aparências mentirosas.

Meditar é subir àquela altura,
Onde a gota de orvalho é um astro e alumia;
E onde é perfeita a mística alegria
A humana desventura.

Por isso, eu amo tanto
As horas de saudade em que medito,
E julgo ouvir misterioso canto
E me perturba a sombra do infinito.

Ouço uma voz dizer, em mim: eu sou alguém…
E sinto que essa voz não é só minha; e eu sinto
Que dimana de tudo o que me cerca e tem
Ermo perfil, nas trevas, indistinto.

Sou infinito amor, quimérica presença.
Aos meus olhos baixando, a luz do luar,
Em choro, se condensa;
E vejo a terra e o céu, como através do mar.

E transformam-se as cousas que parecem
Destroços naufragados.
Seus corpos anoitecem
E ficam-se, na sombra, a olhar pasmados.

Sempre que choro, o branco nevoeiro
As árvores apaga.
O meu riso floresce um ermo outeiro
E o meu canto, de monte em monte, se propaga.

Que estranha simpatia
Me prende às pobres cousas da Natura!
A minha dor cantando é luz; minha alegria
Incendeia a nocturna sombra escura.

E vejo a intimidade, o laço oculto,
Que as almas todas casa;
Meu coração erguendo, em sonhos, o seu vulto
É pedra, nuvem, asa.

Horas em que medito e me disperso,
Por tudo quanto existe.
Em mim, se extingue o dia do Universo
E principia, em mim, a sua noite triste.

in Fernando GUIMARÃES et al.: Simbolismo, Saudosismo e Modernismo – antologia de poesia portuguesa do século XX (Quasi Edições, 2001)



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Viajante e 'strada


Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
(…)
Não há’strada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.
(…)
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, sempre nós;
Nossa própria viagem é viajante e ‘strada.

Fernando Pessoa (11/10/1919)

in Manuela Parreira da Silva (2015) 
A “Marca” de Caim na obra de Fernando Pessoa


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vita Contemplativa

Nos dias 20 e 21 de Março irá decorrer, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Vita Contemplativa 2017 – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea. É no âmbito deste seminário que irei falar, no segundo dia, sobre a temática Caminhada Holotrópica – Ecosofia e Eco-espiritualidade. Esta comunicação irá abordar o andar a pé como forma de (re)integração com o todo, numa perspectiva ecosófica e eco-espiritual, sob três pontos de vista complementares: Ser/Sentir, Demandar e Des(en)cobrir a Natureza. Como o caminhar se poderá traduzir numa experiência de maravilhamento sublime através de altos níveis de atenção “ao sensível”, numa espécie de ontologia selvagem de regresso às origens. A marcha, como “ioga ambulatório”, permite explorar múltiplas facetas do Ser, designadamente através de cambiantes do ritmo e do próprio estar parado.


Aqui fica o convite para participarem e o respectivo programa do evento.


20 de Março

· 14:00 SESSÃO DE ABERTURA
Carlos João Correia


· 14:15 – 16:15 MEDITAÇÃO, ARTE e LITERATURA
(moderador: Fabrizio Boscaglia)

Susana Chasse
Desenho como Meditação. A percepção do agora 

Davide Trasparente 
Arte, Espírito e o nó do nosso tempo

Sandra Battaglia

A Dança como caminho do Eterno

José Eduardo Reis
Plena consciência literária: “Desculpe, a casa é tão pequena, / Mas pratique o seu saltitar, /Por favor, Senhora Pulga!”


· 16:15 – 18:00 ÉTICA E TERAPIA
(Moderadora: Paula Morais)

Eva Ndrio
Valores Universais, Consciência e Práticas Meditativas - O caso da Universidade Valores Universais 

João Ferreira
O Budismo e a psicoterapia

Daniela Velho
Meditação e cura profunda. Práticas meditativas para despertar a mente e curar o corpo


· 18:00 – 20:00 MEDITAÇÃO E FILOSOFIA 
(Moderador: Paulo Borges)

Pedro Teixeira da Motta

As Bússolas contemplativas da Luz e da Verdade, do Espírito e da Divindade

José Manuel Anacleto
Reflexão, Contemplação e Libertação

Jorge Rivera
A meditação como lugar de verdade

Carlos Silva
Meditação como recordação do esquecimento

Conclusão - Experiência meditativa


21 de Março

· 14:30 – 16:00 MEDITAÇÃO, ARTE E ECOLOGIA
(Moderadora: Paula Morais)

Sara Inácio
Alvorada - o sentimento de ligação à Terra

Pedro Cuiça
Caminhada Holotrópica – Ecosofia e Eco-espiritualidade

Isabel Correia
Contribuição da Meditação na Responsabilidade social e consciência Ecológica


· 16:00 – 18:00 MEDITAÇÃO E ESPIRITUALIDADE
(Moderador: Paulo Borges)

Paula Morais Antunes
Patañjali Yoga darshana: Dhyána Samádhi: contemplação, conhecimento e libertação

Ana Paula Martins Gouveia
Cultura Contemplativa e Práticas Temporâneas: Motivações e Implicações do Fazer Filosófico Budista

Fabrizio Boscaglia
Silêncio, retiro, fome e vigília no Sufismo de Ibn ʿArabī

Gilda Monteiro
Meditação Cristã, um Caminho para a Paz


· 18:00 – 19:45 MEDITAÇÃO E MINDFULNESS
(Moderador: Fabrizio Boscaglia)

António Carvalho
Os dispositivos da mindfulness: tecnologias do sujeito, neurónios e subjetividades neoliberais

Sónia Matos Machado

Contemplação e equanimidade: formas integradas de desenvolvimento humano

Paulo Borges
A meditação numa encruzilhada. Das ambiguidades da mindfulness ao pleno despertar da consciência

Conclusão e Encerramento - Experiência meditativa


Comissão Científica: Carlos João Correia, Paulo Borges
Comissão Organizadora: Fabrizio Boscaglia, Paula Morais, Paulo Borges
Organização: Seminário Permanente “VITA CONTEMPLATIVA – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea” do Grupo de Filosofia Prática do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

ENTRADA LIVRE
Acesso/transportes públicos: autocarros e Metro Cidade Universitária




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Para andar

E eu a pensar que era para nadar... ;-)


Pedro Cuiça © Na linha (Oeiras, 2016)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O(b)rar

«Strong legs, good health.»



Divirtam-se... Bom fim-de-semana ;-)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Flor no Caminho


quero contemplar uma flor
à primeira luz do dia
para ver a face de um deus
[BASHÔ, 2016: 145]


Referência bibliográfica
BASHÔ, Matsuo. O Eremita Viajante. Haikus – Obra Completa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016, pp. 424. ISBN 978-972-37-1920-8


sábado, 7 de janeiro de 2017

Ir...

«As sapatilhas que deixem o pé funcionar como se estivesse descalço – são essas que eu quero.»
[Arthur Lydiard in McDOUGALL, 2010: 237]

Pedro Cuiça © Queijas (7/01/2016)

Ser original é ir às origens. Hoje fui o(b)rar (n)esse Templo que é o Corpo… Há quem lhe chame treinar! Depois das experiências com Vibram FiveFingers (que por sinal continuam) agora estou numa de PrimalEvo…








Referência bibliográfica
McDOUGALL, Christopher. Nascidos para Correr. Alfragide: Caderno, 2010, pp. 368. ISBN 978-989-23-0941-5

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Será ser?...

Não sei se será por hoje ser Dia dos Reis Magos ou dos Mestres do Oriente mas hoje é certamente um dia auspicioso… De facto, não é todos os dias que recebo uma fotografia, enviada por um amigo, com o Passo a Passo e A Fronteira Invisível, lado a lado numa livraria em Braga. De um sou o autor e do outro tive o gratificante prazer de ter efectuado a revisão técnica, razão (entre outras) mais do que suficiente para – não me sentido nem mestre, nem mago e muito menos rei – ficar particularmente entusiasmado, ainda para mais numa tarde plena de luminosidade como esta. 

António Coelho © Braga (6/01/2016)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Caminhada Natural(ista)


Caminhada como vivência pós-romântica de um misticismo pampsiquista e panteísta, com laivos de expressão franciscana (e portanto cristiano-pagão), que poderemos classificar como uma forma de naturalismo espiritualista português ;-)

domingo, 1 de janeiro de 2017

A(l)titude

À psicologia das profundezas, que devemos à psicanálise, acrescentamos hoje uma psicologia das altitudes que nos coloca na direccção de uma superintelectualidade possível.
PAUWELS & BERGIER (2008: 56)

Nicholas Roerich © Underground Chud (1928)

Atitude é altitude... sendo preferível almejar uma "supra-intelectualidade" ;-)


Referência bibliográfica
PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Lisboa: Bertrand Editora, 2008, pp. 512. ISBN 978-972-25-1753-9


Pedro Cuiça © No Céu (Sobre o Atlântico, 2016)

Nigredo

«– Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.
– Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.
Trabalho de mulher e brincadeira de criança.»
Louis PAUWELS & Jacques BERGIER (2008: 105-106)

O Nigredo – a confusão dos elementos que surge no fim da liquefacção – é também o 1º meio demonstrativo, a Cabeça do Corvo, que marca o princípio da primeira negridão, a corrupção ou putrefacção (que dispõe para a geração).
Corresponde, ainda à primeira digestão (que é feita com CALOR BRANCO) – o congresso do macho e da fêmea, a mistura das matérias seminais, a dissolução do corpo e a resolução dos elementos em Água homogénea (o Caos tenebroso, o Tenebroso abismo).
José Manuel ANES (2010: 99)

Lima de Freitas © O Farol de Saturno (Acrílico sobre tela,1986)

Esta viagem começa a «Ocidente», pois esta palavra designa, em linguagem alquímica, a nigredo ou «a obra ao negro», que é a primeira fase do trabalho de transmutação: Ocidente, explica-nos Dom Pernéty, é o nome que «alguns químicos deram à matéria da obra em putrefacção. É a dissolução do sol hermético, chamamos-lhe ocidente porque este sol perde então o brilho, como o sol celeste nos priva da sua luz quando se deita». A «putrefacção» e a «dissolução» do «sol hermético» ocorrem assim nas águas negras do mundo de baixo, mas esta água amarga e salgada, este «Mar tenebroso» que se trata de atravessar é também o homem ele mesmo, no seu vazio abissal, sucessivamente purgatório e inferno, obscuro e inconsciente, profundidade temível onde sente chamaram-no as vozes indistintas do passado e dos seus «outros» larvares, engolidos, não manifestados ou não absolvidos, familiares e estranhos, como Jonas os entendeu no ventre da Baleia.
A barca enfim (como a baleia de Jonas era o seu inconsciente, como o «Mar tenebroso» era a sua substância abissal) revela-se ser ainda o homem ele próprio, desta vez enquanto corpo; corpo feito de água deste mesmo mar salgado, sal deste sal, cristalizado durante alguns instantes à superfície da noite líquida, como a imagem da face de Deus, antes de se dissolver: corpo-nau, navio e vaso, matéria maternal, que alimenta, feminina, que contém, abrigando-a e sustendo-a, a língua de fogo coagulada por cima do solve universal, como a arca susteve Noé e todas as sementes da vida futura acima do dilúvio.
E nós vemos presentemente esta chama, esta presença divina ou este «Espírito Santo» flutuando sobre as vagas do oceano cósmico e deslizando em direcção à aurora consurgens; do mesmo modo, aquele que repete iniciaticamente o percurso solar sobre as vagas diluvianas verá despontar a «Oriente» as claridades puras do albedo. «Quando a cor branca se manifesta após o negrume da matéria putrefacta, diz o dicionário de Dom Pernéty, chama-se-lhe Oriente porque parece então que o Sol hermético sai das trevas da noite». A viagem iniciática começa, assim, «entre uma luz inicial e uma luz reencontrada, entre o Oriente primeiro, paraíso sempre perdido, e o Oriente segundo, definitiva cidade do sol», sendo o percurso nocturno a prova, a errância, a demanda, a História, pois segundo a profunda observação de Hegel, pertinentemente retomada por Jean-François Marquer, toda a história é por si mesma «ocidental».
Na riqueza extraordinária dos mitos e dos símbolos do mar e da navegação, encontrámos portanto, um fio condutor de natureza iniciática que orienta a nossa pesquisa e desde já confere um sentido a bastantes lendas e aspectos tradicionais aparentemente desprovidos de conexão. Resumamos então: a morte do homem é assimilável à «morte» do sol; o seu lugar é o «Ocidente», ela pode ser concebida como uma dissolução ou uma partida no oceano primordial; o mundo inferior ou infernal apresenta-se como um percurso a vencer, uma navegação perigosa, uma peregrinação da alma, e completar este itinerário equivale, em consequência, a uma prova iniciática, a uma descida aos infernos e a uma purificação através de provas sucessivas; a aurora anuncia a «ressurreição» do deus sol e prefigura a fusão da alma do defunto na luz divina ou, no plano «técnico» do hermetismo, a obtenção da «pedra branca» que precede a entrada em Heliópolis, a cidade solar.
Lima de FREITAS (2006: 189-192)

Pedro Cuiça © Quinta da Regaleira (Sintra, 2016)


Referências bibliográficas
ANES, José Manuel. A Alquimia – Os alquimistas contemporâneos e as Novas Espiritualidades. Lisboa: Ésquilo, 2010, pp. 320. ISBN 978-989-8092-71-7
FREITAS, Lima de. Porto do Graal – A riqueza ocultada da tradição mítico-espiritual portuguesa. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 352. ISBN 972-8605-72-2
PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Lisboa: Bertrand Editora, 2008 pp. 512. ISBN 978-972-25-1753-9