sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O encantamento das montanhas

«O montanhismo é uma expressão de liberdade; vamos para a montanha para fugir às regras. Ir para as montanhas é algo de arcaico, fora das “leis do vale” (…)»
Messner (Messner Mountain Museum Firmian, 14/10/2016)

Nicholas Roerich © Mount "M" (1931)

O montanhismo, tal como a escalada, para além da componente física, será também uma profunda experiência emocional, uma atracção pela liberdade dos vastos espaços verticais, pela grandiosa beleza do mundo mineral, pela simplicidade e pela rusticidade. Subir montanhas será igualmente um meio de (re)ligação à natureza, uma forma de transcendência… O montanhismo também pode ser uma afeição, uma paixão. Vive-se para ou por isso e, quando menos se espera,… «Um fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento» (Bonatti, 1962).
[CUIÇA, 2010: 27]




Referência bibliográfica
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: FCMP/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Por um caminho adiante

Hieronymus Bosch - The Trees Have Ears and the Field Has Eyes or The Forest that Hears and the Field that Sees (c. 1500, caneta e tinta castanha; altura: 20.2 cm, largura: 12.7 cm)


MEDITANDO

Quantas vezes, vou só, por um caminho adiante,
A meditar nas cousas.
E meditando, eu torno-me distante
Das aparências mentirosas.

Meditar é subir àquela altura,
Onde a gota de orvalho é um astro e alumia;
E onde é perfeita a mística alegria
A humana desventura.

Por isso, eu amo tanto
As horas de saudade em que medito,
E julgo ouvir misterioso canto
E me perturba a sombra do infinito.

Ouço uma voz dizer, em mim: eu sou alguém…
E sinto que essa voz não é só minha; e eu sinto
Que dimana de tudo o que me cerca e tem
Ermo perfil, nas trevas, indistinto.

Sou infinito amor, quimérica presença.
Aos meus olhos baixando, a luz do luar,
Em choro, se condensa;
E vejo a terra e o céu, como através do mar.

E transformam-se as cousas que parecem
Destroços naufragados.
Seus corpos anoitecem
E ficam-se, na sombra, a olhar pasmados.

Sempre que choro, o branco nevoeiro
As árvores apaga.
O meu riso floresce um ermo outeiro
E o meu canto, de monte em monte, se propaga.

Que estranha simpatia
Me prende às pobres cousas da Natura!
A minha dor cantando é luz; minha alegria
Incendeia a nocturna sombra escura.

E vejo a intimidade, o laço oculto,
Que as almas todas casa;
Meu coração erguendo, em sonhos, o seu vulto
É pedra, nuvem, asa.

Horas em que medito e me disperso,
Por tudo quanto existe.
Em mim, se extingue o dia do Universo
E principia, em mim, a sua noite triste.

in Fernando GUIMARÃES et al.: Simbolismo, Saudosismo e Modernismo – antologia de poesia portuguesa do século XX (Quasi Edições, 2001)



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Viajante e 'strada


Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
(…)
Não há’strada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.
(…)
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, sempre nós;
Nossa própria viagem é viajante e ‘strada.

Fernando Pessoa (11/10/1919)

in Manuela Parreira da Silva (2015) 
A “Marca” de Caim na obra de Fernando Pessoa


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vita Contemplativa

Nos dias 20 e 21 de Março irá decorrer, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Vita Contemplativa 2017 – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea. É no âmbito deste seminário que irei falar, no segundo dia, sobre a temática Caminhada Holotrópica – Ecosofia e Eco-espiritualidade. Esta comunicação irá abordar o andar a pé como forma de (re)integração com o todo, numa perspectiva ecosófica e eco-espiritual, sob três pontos de vista complementares: Ser/Sentir, Demandar e Des(en)cobrir a Natureza. Como o caminhar se poderá traduzir numa experiência de maravilhamento sublime através de altos níveis de atenção “ao sensível”, numa espécie de ontologia selvagem de regresso às origens. A marcha, como “ioga ambulatório”, permite explorar múltiplas facetas do Ser, designadamente através de cambiantes do ritmo e do próprio estar parado.


Aqui fica o convite para participarem e o respectivo programa do evento.


20 de Março

· 14:00 SESSÃO DE ABERTURA
Carlos João Correia


· 14:15 – 16:15 MEDITAÇÃO, ARTE e LITERATURA
(moderador: Fabrizio Boscaglia)

Susana Chasse
Desenho como Meditação. A percepção do agora 

Davide Trasparente 
Arte, Espírito e o nó do nosso tempo

Sandra Battaglia

A Dança como caminho do Eterno

José Eduardo Reis
Plena consciência literária: “Desculpe, a casa é tão pequena, / Mas pratique o seu saltitar, /Por favor, Senhora Pulga!”


· 16:15 – 18:00 ÉTICA E TERAPIA
(Moderadora: Paula Morais)

Eva Ndrio
Valores Universais, Consciência e Práticas Meditativas - O caso da Universidade Valores Universais 

João Ferreira
O Budismo e a psicoterapia

Daniela Velho
Meditação e cura profunda. Práticas meditativas para despertar a mente e curar o corpo


· 18:00 – 20:00 MEDITAÇÃO E FILOSOFIA 
(Moderador: Paulo Borges)

Pedro Teixeira da Motta

As Bússolas contemplativas da Luz e da Verdade, do Espírito e da Divindade

José Manuel Anacleto
Reflexão, Contemplação e Libertação

Jorge Rivera
A meditação como lugar de verdade

Carlos Silva
Meditação como recordação do esquecimento

Conclusão - Experiência meditativa


21 de Março

· 14:30 – 16:00 MEDITAÇÃO, ARTE E ECOLOGIA
(Moderadora: Paula Morais)

Sara Inácio
Alvorada - o sentimento de ligação à Terra

Pedro Cuiça
Caminhada Holotrópica – Ecosofia e Eco-espiritualidade

Isabel Correia
Contribuição da Meditação na Responsabilidade social e consciência Ecológica


· 16:00 – 18:00 MEDITAÇÃO E ESPIRITUALIDADE
(Moderador: Paulo Borges)

Paula Morais Antunes
Patañjali Yoga darshana: Dhyána Samádhi: contemplação, conhecimento e libertação

Ana Paula Martins Gouveia
Cultura Contemplativa e Práticas Temporâneas: Motivações e Implicações do Fazer Filosófico Budista

Fabrizio Boscaglia
Silêncio, retiro, fome e vigília no Sufismo de Ibn ʿArabī

Gilda Monteiro
Meditação Cristã, um Caminho para a Paz


· 18:00 – 19:45 MEDITAÇÃO E MINDFULNESS
(Moderador: Fabrizio Boscaglia)

António Carvalho
Os dispositivos da mindfulness: tecnologias do sujeito, neurónios e subjetividades neoliberais

Sónia Matos Machado

Contemplação e equanimidade: formas integradas de desenvolvimento humano

Paulo Borges
A meditação numa encruzilhada. Das ambiguidades da mindfulness ao pleno despertar da consciência

Conclusão e Encerramento - Experiência meditativa


Comissão Científica: Carlos João Correia, Paulo Borges
Comissão Organizadora: Fabrizio Boscaglia, Paula Morais, Paulo Borges
Organização: Seminário Permanente “VITA CONTEMPLATIVA – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea” do Grupo de Filosofia Prática do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

ENTRADA LIVRE
Acesso/transportes públicos: autocarros e Metro Cidade Universitária




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Para andar

E eu a pensar que era para nadar... ;-)


Pedro Cuiça © Na linha (Oeiras, 2016)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O(b)rar

«Strong legs, good health.»



Divirtam-se... Bom fim-de-semana ;-)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Flor no Caminho


quero contemplar uma flor
à primeira luz do dia
para ver a face de um deus
[BASHÔ, 2016: 145]


Referência bibliográfica
BASHÔ, Matsuo. O Eremita Viajante. Haikus – Obra Completa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016, pp. 424. ISBN 978-972-37-1920-8


sábado, 7 de janeiro de 2017

Ir...

«As sapatilhas que deixem o pé funcionar como se estivesse descalço – são essas que eu quero.»
[Arthur Lydiard in McDOUGALL, 2010: 237]

Pedro Cuiça © Queijas (7/01/2016)

Ser original é ir às origens. Hoje fui o(b)rar (n)esse Templo que é o Corpo… Há quem lhe chame treinar! Depois das experiências com Vibram FiveFingers (que por sinal continuam) agora estou numa de PrimalEvo…








Referência bibliográfica
McDOUGALL, Christopher. Nascidos para Correr. Alfragide: Caderno, 2010, pp. 368. ISBN 978-989-23-0941-5

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Será ser?...

Não sei se será por hoje ser Dia dos Reis Magos ou dos Mestres do Oriente mas hoje é certamente um dia auspicioso… De facto, não é todos os dias que recebo uma fotografia, enviada por um amigo, com o Passo a Passo e A Fronteira Invisível, lado a lado numa livraria em Braga. De um sou o autor e do outro tive o gratificante prazer de ter efectuado a revisão técnica, razão (entre outras) mais do que suficiente para – não me sentido nem mestre, nem mago e muito menos rei – ficar particularmente entusiasmado, ainda para mais numa tarde plena de luminosidade como esta. 

António Coelho © Braga (6/01/2016)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Caminhada Natural(ista)


Caminhada como vivência pós-romântica de um misticismo pampsiquista e panteísta, com laivos de expressão franciscana (e portanto cristiano-pagão), que poderemos classificar como uma forma de naturalismo espiritualista português ;-)

domingo, 1 de janeiro de 2017

A(l)titude

À psicologia das profundezas, que devemos à psicanálise, acrescentamos hoje uma psicologia das altitudes que nos coloca na direccção de uma superintelectualidade possível.
PAUWELS & BERGIER (2008: 56)

Nicholas Roerich © Underground Chud (1928)

Atitude é altitude... sendo preferível almejar uma "supra-intelectualidade" ;-)


Referência bibliográfica
PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Lisboa: Bertrand Editora, 2008, pp. 512. ISBN 978-972-25-1753-9


Pedro Cuiça © No Céu (Sobre o Atlântico, 2016)

Nigredo

«– Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.
– Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.
Trabalho de mulher e brincadeira de criança.»
Louis PAUWELS & Jacques BERGIER (2008: 105-106)

O Nigredo – a confusão dos elementos que surge no fim da liquefacção – é também o 1º meio demonstrativo, a Cabeça do Corvo, que marca o princípio da primeira negridão, a corrupção ou putrefacção (que dispõe para a geração).
Corresponde, ainda à primeira digestão (que é feita com CALOR BRANCO) – o congresso do macho e da fêmea, a mistura das matérias seminais, a dissolução do corpo e a resolução dos elementos em Água homogénea (o Caos tenebroso, o Tenebroso abismo).
José Manuel ANES (2010: 99)

Lima de Freitas © O Farol de Saturno (Acrílico sobre tela,1986)

Esta viagem começa a «Ocidente», pois esta palavra designa, em linguagem alquímica, a nigredo ou «a obra ao negro», que é a primeira fase do trabalho de transmutação: Ocidente, explica-nos Dom Pernéty, é o nome que «alguns químicos deram à matéria da obra em putrefacção. É a dissolução do sol hermético, chamamos-lhe ocidente porque este sol perde então o brilho, como o sol celeste nos priva da sua luz quando se deita». A «putrefacção» e a «dissolução» do «sol hermético» ocorrem assim nas águas negras do mundo de baixo, mas esta água amarga e salgada, este «Mar tenebroso» que se trata de atravessar é também o homem ele mesmo, no seu vazio abissal, sucessivamente purgatório e inferno, obscuro e inconsciente, profundidade temível onde sente chamaram-no as vozes indistintas do passado e dos seus «outros» larvares, engolidos, não manifestados ou não absolvidos, familiares e estranhos, como Jonas os entendeu no ventre da Baleia.
A barca enfim (como a baleia de Jonas era o seu inconsciente, como o «Mar tenebroso» era a sua substância abissal) revela-se ser ainda o homem ele próprio, desta vez enquanto corpo; corpo feito de água deste mesmo mar salgado, sal deste sal, cristalizado durante alguns instantes à superfície da noite líquida, como a imagem da face de Deus, antes de se dissolver: corpo-nau, navio e vaso, matéria maternal, que alimenta, feminina, que contém, abrigando-a e sustendo-a, a língua de fogo coagulada por cima do solve universal, como a arca susteve Noé e todas as sementes da vida futura acima do dilúvio.
E nós vemos presentemente esta chama, esta presença divina ou este «Espírito Santo» flutuando sobre as vagas do oceano cósmico e deslizando em direcção à aurora consurgens; do mesmo modo, aquele que repete iniciaticamente o percurso solar sobre as vagas diluvianas verá despontar a «Oriente» as claridades puras do albedo. «Quando a cor branca se manifesta após o negrume da matéria putrefacta, diz o dicionário de Dom Pernéty, chama-se-lhe Oriente porque parece então que o Sol hermético sai das trevas da noite». A viagem iniciática começa, assim, «entre uma luz inicial e uma luz reencontrada, entre o Oriente primeiro, paraíso sempre perdido, e o Oriente segundo, definitiva cidade do sol», sendo o percurso nocturno a prova, a errância, a demanda, a História, pois segundo a profunda observação de Hegel, pertinentemente retomada por Jean-François Marquer, toda a história é por si mesma «ocidental».
Na riqueza extraordinária dos mitos e dos símbolos do mar e da navegação, encontrámos portanto, um fio condutor de natureza iniciática que orienta a nossa pesquisa e desde já confere um sentido a bastantes lendas e aspectos tradicionais aparentemente desprovidos de conexão. Resumamos então: a morte do homem é assimilável à «morte» do sol; o seu lugar é o «Ocidente», ela pode ser concebida como uma dissolução ou uma partida no oceano primordial; o mundo inferior ou infernal apresenta-se como um percurso a vencer, uma navegação perigosa, uma peregrinação da alma, e completar este itinerário equivale, em consequência, a uma prova iniciática, a uma descida aos infernos e a uma purificação através de provas sucessivas; a aurora anuncia a «ressurreição» do deus sol e prefigura a fusão da alma do defunto na luz divina ou, no plano «técnico» do hermetismo, a obtenção da «pedra branca» que precede a entrada em Heliópolis, a cidade solar.
Lima de FREITAS (2006: 189-192)

Pedro Cuiça © Quinta da Regaleira (Sintra, 2016)


Referências bibliográficas
ANES, José Manuel. A Alquimia – Os alquimistas contemporâneos e as Novas Espiritualidades. Lisboa: Ésquilo, 2010, pp. 320. ISBN 978-989-8092-71-7
FREITAS, Lima de. Porto do Graal – A riqueza ocultada da tradição mítico-espiritual portuguesa. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 352. ISBN 972-8605-72-2
PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Lisboa: Bertrand Editora, 2008 pp. 512. ISBN 978-972-25-1753-9

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Obra ao Negro

Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)


«Para encontrar a minha imagem na verónica que o instante, como um toureiro, colhe.»
Júlio Pomar in Da Cegueira dos Pintores (1986: 24)


A Vida Errante

«Tu, nullis angustiis coercitus, pro tuo arbitrio, in cuiús manu te posui, tibi illam praefinies.»
(Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio.)
Pico de Mirândola (Oratio de Hominis Dignitate)

Enquanto viajava, assaltou-me uma ideia: à força de rondar pelos caminhos do espaço, de saber, Aqui, que Acolá me esperava, se bem que ainda encontrasse distante, decidi, à minha maneira, aventurar-me pelos caminhos do tempo. Acabar com o fosso que existe entre o vaticínio categórico do calculador de eclipses e o diagnóstico já mais titubeante do médico, arriscar-me, com a máxima precaução, a escorar uma mediante a outra, a premonição e a conjectura, traçar, nesse continente que ainda não atingimos, a carta dos oceanos e a das terras já imersas… É esta tentativa que me põe exausto.
[YOURCENAR, 2009: 129]

Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Mar. 2016)


A Vida Imóvel

«Obscurum per obscurius
Ignotum per ignotius.»
(Buscar o obscuro e o desconhecido
Através do que ainda é mais obscuro e desconhecido.)
Divisa Alquímica

SOLVE ET COAGULA… Ele sabia o que significava essa ruptura das ideias, esse vácuo no seio das coisas. Jovem clérigo, lera Nicolau Flamel, a descrição do opus nigrum, essa tentativa de calcinação e dissolução das formas, que é a parte mais difícil da Grande Obra. Dom Blas de Vela muitas vezes lhe afirmara solenemente que a operação se realizaria por si mesma, quer se quisesse quer não, quando todas as condições se cumprissem. O clérigo avidamente meditara naqueles adágios que lhe pareciam tirados de não se sabe que estranho ou talvez verídico engrimanço. Essa separação alquímica, tão perigosa que os filósofos herméticos só se lhe referiam por meias palavras, tão árdua que muitas vidas se haviam gasto em vão para a conseguir, tinha-a ele antigamente tomado por uma fácil rebelião. Rejeitando, depois, esses desconexos devaneios tão velhos como a ilusão humana, não guardando de seus mestres alquimistas mais do que algumas receitas pragmáticas, optara por dissolver e coagular a matéria no sentido de uma experimentação operada no corpo das coisas. Doravante, convergiam os dois ramos da parábola; cumprira-se a mors philosophica: o operador, queimado pelos ácidos da experiência, era, a um tempo, sujeito e objecto, frágil alambique e negro precipitado no fundo do receptáculo. A experiência, que se julgara poder confinar à oficina, estendera-se a tudo. Poder-se-ia daí concluir que as fases subsequentes da aventura alquímica fossem algo mais do que sonho e que também ele viria alguma vez a conhecer a pureza ascética da Obra ao Branco, seguida do triunfo conjugado do espírito e dos sentidos, que é característica da Obra ao Rubro? Do mais fundo da brecha nascia uma Quimera. Dizia Sim por audácia, da mesma forma que também por audácia outrora dissera Não. Estacava, de súbito, puxando violentamente as rédeas de si mesmo. A primeira fase da Obra exigira-lhe a vida inteira. Faltavam-lhe tempo e forças para poder ir mais longe, isto admitindo que houvesse realmente um caminho e que, por esse caminho, um homem pudesse passar.
[YOURCENAR, 2009: 185]

A demanda do espírito processava-se em círculo. Dantes, em Basileia, e em vários outros lugares, passara por idêntica escuridão. As mesmas verdades haviam sido reaprendidas várias vezes. Mas a experiência era cumulativa: o passo, com o tempo, tornava-se cada vez mais seguro; o olhar ganhava maior alcance no meio de certas trevas; o espírito constava, pelo menos, certas e determinadas leis. Como um homem que sobe, ou quiçá desce a falda de uma montanha, assim ele se elevava ou se enterrava sem sair do mesmo sítio; pelo menos, em cada curva, um novo abismo se erguia, ora à direita, ora à esquerda. A ascensão só podia medir-se pelo ar que ia rareando e pelos diferentes cumes que apontavam por detrás daqueles que já pareciam haver ocultado o horizonte. Era, porém, falsa a noção de ascensão ou de descida: os astros tanto brilhavam em cima como em baixo; e ele tanto se achava no fundo do abismo como no centro. O abismo estava, ao mesmo tempo, para além da esfera celeste e no interior da cúpula óssea. Tudo parecia processar-se no extremo limite de uma série infinita de curvas fechadas.
[YOURCENAR, 2009: 188-189]

Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)


A prisão

«Meglio è morir all’anima gentile
Che suportar inevitabil danno
Che lo farria cambiar animo e stile.»
(Mais vale morrer com nobreza de ânimo
Que suportar o mal inevitável
Que lhe roubasse virtude e estilo…)
Juliano de Médicis

Caíra a noite, sem que ele soubesse se seria em si próprio, se na sua cela: tudo era noite. Também a noite se movimentava: as trevas afastavam-se para darem lugar a outras trevas, abismo sobre abismo, espesso negrume sobre espesso negrume. Mas esse negro, tão diverso daquele que com os olhos se apercebe, fremia de cores nascidas, por assim dizer, da sua própria ausência; o negro tornava-se verde lívido, depois branco puro; o branco pálido transmutava-se em ouro rubro, sem contudo perder a negrura original, tal como o lampejo dos astros e da aurora boreal cintila no meio daquilo que, apesar de tudo, é noite escura.
[YOURCENAR, 2009: 333-334]

© Jorge Maia


Referência bibliográfica
YOURCENAR, Marguerite (1968). A Obra ao Negro. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2009, 9ª edição, pp. 350. ISBN 978-972-20-3760-0

Pedro Cuiça © A Ilha Montanha (Pico, Jan. 2016)