O Centro de
Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) vai realizar, no dia 6 de Dezembro, a segunda edição da palestra sobre Percursos
Pedestres de Longo Curso – estratégias de progressão rápida e (ultra)leve.Esta trata-se de uma
acção de formação contínua, reconhecida pelo Instituto Português do Desporto e
Juventude (IPDJ), para a revalidação do Titulo Profissional de Treinador de
Desporto – Pedestrianismo Graus I, II e III. Para mais informações, consulte o site da FCMP.
Forse
anche sarò vecchio continuerò a essere un viandante. Forse perche il ritmo
intimo del cammino risuona dentro di me dall’infanzia. Potrei rinunciare ad
arrampicare, ma non potrei mai rinunciare a camminare. Come se dentro di me
fosse nascosto lo spirito errante del nómade. Come un’abitudine imprescindible.
Non cerco più nuovi orizzonti, ma trovo sempre il tempo e un pretexto per
lasciare il mio nido. Taglio la corda! Quel che importa non è la lunghezza del
viaggio, ma la possibilità di trovarei l mio posto in un luogo. Quel che mie
forze mi consentono di fare mi serve di esperienza. (…)
Tuttavia
camminando, il mondo ci appare misterioso, più grande, mai banale. La crescente
fidúcia nelle proprie forze, nella propiá resistenza e abilità che ci stimola
da giovani quando intraprendiamo un viaggio, col tempo si reduce come la nostra
naturale velocità. Ma viaggiare e pensare rimangono una sola cosa. Il corpo e
la mente diventano un tutt’uno. Oggi devo camminare per poter pensare.
O blog Legio Victrix publicou um artigo de
Eduardo Martínez Pisón, intitulado A Montanha Simbólica, sobre uma
temática que nos é particularmente cara – o Sentimento da Montanha –
e cuja leitura recomendamos vivamente.
At the most mystical of all woodcraft groups,
Kibbo Kift’s practices – even at the most mudane level – were steeped in magic
and ritual. The ceremonial method of organization established new traditions
that lent coherence and formality to Kin activities, and provided a structure
rooted in common custom rather than military drill or committee method. The
Kindred drew on mythology and folklore sourced from geographically and historically
diverse cultural and spiritual traditions; as with their design inspirations,
these were characteristically adapted into new forms, blended with the latest
thinking in art, science and philosophy, and brought to earth in the English landscape.
Always original and sometimes secret, Kibbo Kift’s elaborate and poetic rituals
were devised to lend a sacred quality to all areas of group life from the
making and breaking of camp, to the cooking of meals and the lighting of fires;
hikes were reconfigured as pilgrimages and membership induction was recast as
initiation. Combined with the newness and strangeness of Kin costume and
language, the effect was otherworldly, even religious. Hargrave and many other
Kinsfolk sought and found spiritual nourishment in the Kindred. Like all Kibbo
Kift’s operation, however, their belief system stood firmly apart from existing
structures. A consequence of this rebellion against spiritual convention was
that Kibbo Kift earned a reputation as something of a cult; certainly its
embrace of no-Christian ritual practices was as controversial in the period as
its non-segregated camping practices, its skimpy exercise costumes and its
plainspoken ideas about sex education. Many ceremonial practices were concealed
behind the public face of the Kindred for this reason, and further rites were
only shared among selected, closed lodges within the larger membership. In more
open-minded times, and with access to previously inaccessible documents, Kibbo
Kift’s littleknow and little-understood myth, magic and mysticism can be
repositioned as fundamentally important aspect of the organization.
[POLLE, 2015: 143]
Bibliographic
reference
POLLEN,
Annebella. The Kindred of the Kibbo Kift: Intellectual Barbarians. London:
Donlon Books, 2015, pp. 222. ISBN 978-0-9576095-1-8
O grupo de trabalho de Acesso à Natureza da
ERA – European Ramblers Association apresentou na última Assembleia-Geral dessa
federação europeia de pedestrianismo, que se realizou em Hässleholm (Suécia), no
dia 10 de Setembro, o documento conclusivo das reuniões de trabalho que foram realizadas em Portugal (2015) e na Alemanha (2016). Aqui fica, em primeira mão, a resolução que
foi aprovada por unanimidade e que irá ser disponibilizada “oportunamente” no site da ERA.
Free access to the open countryside for all citizens
is a fundamental aim of the European Ramblers’ Association (ERA). Therefore ERA
promotes a Europe wide free and easy access to nature, further investment in
the development of marked paths and the integration of walkers’ interests in
planning and legal regulations.
The outdoor experiences of walkers are affected by
several factors such as: -the protection of the natural and cultural heritage
-the rights of private and public landowners -the interests of other users
Negative developments are disturbance by motorized activity, short-sighted
planning, access fees and other unjustified limitations to access.
Experiencing the outdoor environment and the cultural
landscape induces a greater awareness of nature and a better attitude towards
environmental protection.
Walking in the open countryside is a simple, natural
and climate friendly way of discovering nature and the cultural heritage of
Europe. Therefore access to the countryside for walkers requires special
attention and support.
Paths are essential parts of the infrastructure for
easy access to nature and form the basis for walking in Europe. The economic
effects resulting from this form of activity are substantial in rural
development. Moreover, attractive paths have the effect of canalizing visitors
to a sustainable use of the natural environment.
The avoidance of conflicts and negative effects
requires integrated planning processes for outdoor infrastructure. Early
coordination between landowners, outdoor-associations, forestry, conservation
organizations and others mitigates such conflicts.
Free access to the natural environment is a benefit
which demands proper and responsible behaviour in the natural environment. The
ERA acknowledges the interests of landowners and stands for a respectful
treatment of nature and Europe’s cultural heritage.
Walking in Europe contributes to the greater
understanding between the nations and nourishes European integration. Through
direct contact with people from other cultures, prejudices can be mitigated and
mutual respect encouraged.
In accordance with the aims and goals of the ERA, as
stated in its constitution, the members meeting in Hässleholm/Sweden in
September 2016 puts forward the following:
1.Access to
nature must in principle be free of charge so that everyone can experience
Europe’s natural environment and its cultural heritage.
2.Only
transparent justifiable limitations of this right of access can be recognized
and accepted.
3.In planning
and legal regulations in European countries, the interests of walkers must be
taken into account and the regional and national organizations which are part
of the ERA network must be involved.
4.The
contribution to sustainable development through walking must be recognized and
supported through investment in the creation, maintenance and development of
marked paths and care for the open countryside.
The European Ramblers’ Association (ERA) was founded
in 1969, comprises 58 ramblers’ organizations from 32 European states. ERA
members represent more than hundred years of experience in organizing and
creating conditions to facilitate walking (path marking, access, construction
of huts, viewing towers, campsites etc.). These organisations have a total of
over 3 million individual members.
Hoje será certamente
uma noite auspiciosa para empreender uma caminhada inolvidável, idealmente num
ambiente o mais natural possível, longe do bulício citadino. Hoje, por
maioria de razões, é tempo de celebrar a fertilidade sob a intensa «luminosidade selenita do
plenilúnio».
A super lua que irá
surgir no céu nocturno será um acontecimento que não deixará indiferentes
aqueles que tenham a oportunidade de presenciar a sua dimensão e brilho
incomuns. O último plenilúnio (de 16 de Outubro) também foi uma super lua mas a
raridade do fenómeno de hoje cinge-se ao facto de esta se encontrar
excepcionalmente muito perto da Terra. Fenómeno que só ocorreu de forma
tão proximal em 1948 e que só se irá repetir, em condições similares, na noite
de 25 de Novembro de 2034!
A Lua é cultuada
desde os tempos paleolíticos e o fascínio encantatório do plenilúnio estende-se
até à actualidade. O ciclo lunar mede o tempo, rege o ciclo menstrual da
mulher, comanda as marés e os humores dos humanos… Por isso existem lunáticos e
aluados.
A
lua surge como um avatar da Magna Mater criadora, a Grande
Mãe, deusa da fertilidade, a senhora ibérica da Conceição/Concepción: «a
que concebe, a que engendra, a que dá à luz» (Espírito Santo, 2004: 102).
As imagens populares da Senhora da Conceição – a que concebe – para além de
terem um menino ao colo, identificam-se pela presença de um crescente lunar e
de uma serpente. O crescente lunar, por vezes enorme (evocando os “cornos” de
um bovino), e a serpente a seus pés são também símbolos de fertilidade. Ambas –
a Lua e a Serpente – morrem e renascem simbolizando o eterno ciclo/circulo da
vida (e da morte).
Durante os primeiros meses, a parte mais
difícil da gravidez foi acreditar que tudo estava realmente normal e saudável.
Por muitos testes que recebesse com resultados tranquilizadores, preparei-me
para a tragédia. O que mais ajudava era caminhar e, durante as últimas semanas
de ansiedade antes do parto, acalmava os nervos caminhando, enquanto as minhas
ancas doridas deixassem, num trilho bem cuidado ao longo de um riacho intocado.
O riacho começa perto do cimo de uma montanha coberta de neve e a água límpida
precipitava-se de uma queda-d’água, acumula-se em dezenas de poças e flui através
de rápidos até finalmente desaguar no Pacífico.
Durante essas caminhadas, mantinha os olhos
abertos para juvenis de salmão-prateado a caminho do mar após meses de
incubação em estuários rasos. E imaginava os juvenis de salmão-prateado,
salmão-rosa e salmão-keta a nadarem vigorosamente pelos rápidos e quedas-d’água,
determinados a chegar aos locais de desova onde nasceram. Dizia para mim mesma
que era a determinação do meu filho. Era manifestamente um lutador, uma vez que
conseguira chegar até mim, apesar das dificuldades, também arranjaria maneira
de nascer com saúde.
Não é possível arranjar um melhor símbolo da
tenacidade da vida do que o salmão do Pacífico. Para chegar aos locais de
desova, o salmão-prateado subirá saltitantemente quedas-d’água gigantescas como
um canoísta louco em contramão e a esquivar-se de águias e ursos-pardos. No fim
da sua vida, o salmão gasta as suas últimas forças vitais para concluir a sua
missão. Os juvenis de salmão têm de sofrer uma transformação drástica (smolting) para preparar os seus corpos
para a transição da água doce para os oceanos, onde irão passar as suas vidas
até ser a sua vez de fazer a viagem rio acima.
Mas estes feitos triunfantes da biologia são
apenas uma parte da história da regeneração. Porque, como toda a gente que vive
em terra de salmão sabe, às vezes os rios de outono estão assustadoramente
vazios, cheios somente de folhas mortas e, eventualmente, um ou dois peixes
sarapintados. Os salmões são, na realidade, os nossos atletas olímpicos, sendo
a sua determinação uma das manifestações mais poderosas do planeta da vontade
de preservar o ciclo da vida – mas não são invencíveis. A força deles pode ser
derrotada pela sobrepesca, por explorações piscícolas que propagam
piolhos-do-mar que matam o salmão jovem em massa, pelas águas a aquecer que os
cientistas acham que poderão ameaçar o seu alimento, por explorações
madeireiras negligentes que deixam os rios de desova obstruídos por detritos,
por barragens de cimento que desafiam até o salmão-prateado mais acrobático. E,
é claro, podem ser travados de vez por derramamentos de petróleo e outros
acidentes industriais.
Razões pelas quais o salmão desapareceu de
cerca de 40% da sua ocupação histórica no Pacífico Noroeste e diversas
populações de salmão-prateado, salmão-real e salmão-vermelho estão sob
permanente ameaça e em risco de extinção. Para saber até onde é que estes
números nos vão levar, basta-nos olhar para a Nova Inglaterra e para a Europa
Continental, onde as migrações comerciais de salmão do Atlântico desapareceram
dos rios onde em tempos eram abundantes. Tal como os seres humanos, o salmão é
capaz de superar muita coisa – mas não tudo.
E é por essa razão que o final feliz da minha
própria história ainda me deixa pouco à vontade e me parece incompleta. Sei que
para algumas pessoas, a minha saga da fertilidade parece reforçar a ideia de
que a resiliência humana acaba sempre por sair vencedora, mas não é isso que
parece. Não sei porque é que esta gravidez vingou, assim como não sei porque é
que as anteriores falharam – nem eu nem os médicos, sejam eles da alta sejam da
baixa tecnologia. A infertilidade é apenas uma das muitas áreas em que nós
humanos somos confrontados com os nossos oceanos de ignorância. (…)
Voltar
à vida
No início de 2013, encontrei um discurso da
escritora e educadora Leanne Simpson, que tem origens nos Mississauga
Nishnaabeg, em que ela descreve os ensinamentos e as estruturas de governação
do seu povo da seguinte maneira: «Os nossos sistemas foram concebidos para
promover mais vida.» A afirmação fez-me parar. Dei-me conta de que este
objectivo orientador era precisamente a antítese do extrativismo, que se baseia
na premissa de que a vida pode ser drenada indefinidamente e que, longe de
promover a vida futura, é especialista em transformar sistemas vivos em lixo,
sejam ele os inúmeros «terrenos mortos» que orlam as estradas nas areias
betuminosas de Alberta, sejam os exércitos de pessoas descartadas que vagueiam
pelo mundo à procura de trabalho temporário, ou as partículas e gases que
abafam a atmosfera e que foram outrora partes saudáveis dos ecossistemas.
(…) Acabámos por ter uma conversa longa e
alargada sobre a diferença entre uma mentalidade extrativista (que Simpson
descreve sem rodeios como «roubar» e tirar coisas «de uma relação») e uma
mentalidade regenerativa. Caracterizou o sistema Anishinaabe como «uma forma de
viver destinada a gerar vida, não simplesmente vida humana, mas também a vida
de todas as coisas vivas». Trata-se de um conceito de equilíbrio, de harmonia,
comum a muitas culturas indígenas e que é frequentemente traduzido como «a boa
vida». Mas Simpson disse-me que preferia a tradução «renascimento contínuo»,
que ouvira pela primeira vez da colega escritora e ativista Anishinaabe Winona
LaDuke.
É compreensível associarmos atualmente estas
ideias a uma mundivisão indígena: foram sobretudo essas culturas que mantiveram
esta forma alternativa de ver o mundo vivo face às escavadoras do colonialismo
e da globalização empresarial. À semelhança dos preservadores de sementes que
protegem a biodiversidade da reserva global de sementes, outras formas de nos
relacionarmos com o mundo natural e uns com os outros foram protegidas por
muitas culturas indígenas, baseadas em parte numa crença de que virá o tempo em
que estas sementes intelectuais serão necessárias e o solo para elas
tornar-se-á mais uma vez fértil.
(…) Na verdade, o que está a surgir é um novo
tipo de movimento de direitos reprodutivos, que luta não só pelos direitos reprodutivos
das mulheres como pelos direitos reprodutivos do planeta como um todo – pelas montanhas
decapitadas, os vales submersos, as florestas abatidas, os lençóis freáticos
fraturados, as encostas esventradas, os rios envenenados, as «povoações do cancro».
Toda a vida tem o direito de se renovar, regenerar e curar.
Com base neste princípio, países como a Bolívia
e o Equador – com grandes populações indígenas – consagraram na lei os «direitos
da Mãe Terra», criando novos instrumentos jurídicos poderosos que garantem o
direito dos ecossistemas não só de existir como de «regenerar».*
*Quando o Equador adotou uma nova Constituição
em 2008 tornou-se o primeiro país a consagrar na lei os direitos da natureza.
O artigo 71 da Constituição do país diz: «A natureza, ou Pachamama, onde a vida
é criada e reproduzida, tem o direito a que a sua existência seja integralmente
respeitada, bem como o direito à manutenção e regeneração dos seus ciclos
vitais, estruturas, funções e processos evolucionários. Todas as pessoas,
comunidades, povos ou nacionalidades podem exigir do poder público que estes
direitos da natureza sejam respeitados.»
A 22ª
Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações
Climáticas (COP-22) está a decorrer, de 7 a 18 de Novembro, na cidade
marroquina de Marraquexe. A incógnita centrar-se-á até onde os perto de 200
países participantes estarão dispostos a ir com vista à concretização do
primeiro (pretenso) grande acordo mundial contra o aquecimento global. Acordo que
entrou em vigor há escassos dias, menos de um ano depois de ter sido aprovado
na conferência realizada no ano transacto em Paris; apesar de, até ao momento,
dos 197 signatários pouco mais de metade terem ratificado o dito! As Nações Unidas
voltaram, entretanto, a alertar para a urgência de agir rapidamente no que
concerne à redução das emissões de gases com efeito estufa, de modo a evitar
“uma tragédia”. Portanto, mais do mesmo! Na verdade, tendo em conta que nos Estados
Unidos foi eleito um Presidente que “não acredita” nas alterações climáticas, será expectável que possa vir aí algo de novo (ou do mesmo?).
Os
governos mundiais andam a falar de prevenir as alterações climáticas há mais de
duas décadas. Na realidade o organismo intergovernamental incumbido de evitar
níveis “perigosos” de aquecimento global não só não conseguiu fazer progressos
durante os seus 20 e tal anos de trabalho (e mais de 90 reuniões de negociações
oficiais) como supervisionou um processo de retrocesso contínuo (KLEIN, 2016:
23). Os governos desperdiçaram anos preciosos em torno de minudencias
irrelevantes e de bur(r)ocracias, num jogo do “empata” que se consubstanciou
num resultado catastrófico fruto dessa enorme mistificação e procrastinação .
Dados preliminares revelam que, em 2013, as emissões globais de dióxido de
carbono (CO2) eram 61% mais elevadas do que em 1990, ano em que as
negociações com vista a um tratado sobre o clima terão começado a sério (ibidem). E a “seriedade” prosseguiu com
um aumento reiterado das emissões, de 2013 até hoje, numa displicente sequência
de encontros intergovernamentais. Se os governos estivessem realmente
empenhados na implementação de medidas eco-lógicas teriam de transformar a
“economia de casino”, das últimas décadas, numa “eco-nomia verde”, transição
que implicaria mudanças profundas na forma como vivemos, designadamente no que
concerne ao consumo e à mobilidade. Basta constatar o modo como, por exemplo,
os transportes públicos em Portugal continuam inexplicavelmente quase na mesma
(ou piores), comparativamente ao importante investimento em infraestruturas
rodoviárias (mormente auto-estradas), num notório favorecimento do transporte
privado motorizado, para comprovar a falta de empenho político no que concerne
à mitigação do aquecimento global! Por outro lado, a generalidade das ONGs
ditas “ambientalistas” têm vindo a implementar estratégias num quadro de
ambientalismo superficial, com base em teses de “mal menor”, ou mesmo alinhando
declaradamente com os interesses das indústrias poluidoras, ao invés de
assumirem um ecologismo profundo ancorado num “bem maior”.
Mas, para
além dos jogos de bastidores e das invariavelmente importantes declarações
“para inglês ver”, quer de políticos, quer de ambientalistas, num aparente
imobilismo, não deixa de ser interessante constatar mudanças, a nosso ver, significativas no tocante à temática em causa. Desde logo a “espalhafatosa”
cobertura jornalística de que foram alvo iniciativas como Quioto e a Cimeira do
Rio (Eco-92) face ao quase esquecimento que se verifica no tocante à agora em
curso COP-22 de Marraquexe. E o que dizer do bloqueio noticioso sobre o que está
a acontecer, de há alguns meses a esta parte, na reserva de Standing Rock
contra o Dakota Access Pipeline, os confrontos policiais e a prisão de mais de
400 manifestantes? Nunca ouviu falar do assunto, nem dos confrontos que
ocorreram na floresta de Skouries e na aldeia de
Ierissos (Grécia), em Pungesti (Roménia), em Balcombe (West Sussex – Reino
Unido), em New South Wales (Austrália), entre outros? Não se espante, pois tal
não será certamente por acaso.
«Durante décadas, o
movimento ambiental falou a linguagem emprestada da avaliação de riscos,
trabalhando diligentemente com parceiros nas empresas e no governo para
equilibrar os níveis perigosos de poluição com a necessidade de lucro e
crescimento económico. (…) A ação necessária para salvar a humanidade do risco
muito real de caos climático foi ponderada friamente face ao risco que essa
ação representaria para os PIB, como se o crescimento económico ainda
importasse num planeta abalado por desastres em série.
Porém, em Blockadia*, a avaliação de riscos foi
abandonada na beira da estrada barricada, substituída por um ressurgimento do princípio da precaução – que diz que,
quando a saúde humana e o ambiente estão substancialmente em risco, não é
necessária certeza científica absoluta antes de agir. Mais, o ónus de provar
que a prática é segura não deve ser imputado àqueles que ela poderá prejudicar.
Blockadia
está a inverter a situação, insistindo que cabe à indústria provar que os seus
métodos são seguros – na era das fontes de energia obtida por processos
extremos, isso é algo que pura e simplesmente não pode ser feito. (…)
Resumindo,
as empresas de combustíveis fósseis já não estão a lidar com aqueles grandes
grupos verdes [ou
partidos políticos] que podem ser silenciados com um donativo
generoso ou com um programa de créditos de compensação de carbono para limpar a
consciência. As comunidades que enfrentam não pretendem, na sua maioria,
negociar um acordo melhor – seja sob a forma de postos de trabalho locais e royalties mais elevados sejam melhores padrões de
segurança. Cada vez mais estas comunidades se limitam a dizer rotundamente
«Não». Não ao oleoduto. Não à perfuração no Ártico. Não aos comboios de carvão
e petróleo. Não às cargas pesadas. Não ao terminal de exportação. Não ao fracking. E não somente: «Não à minha porta.»
(NIMBY), mas, como dizem os ativistas franceses anti-fracking: «Ni ici, ni ailleurs.» – nem aqui nem em lado nenhum. Por outras
palavras: chega de novas fronteiras do carbono.
Com
efeito, o fidedigno insulto NIMBY perdeu completamente a eficácia. Tal como diz
Wendell Berry, socorrendo-se de palavras de E. M. Forster, a conservação
«desperta o afeto» – e, se todos nós amássemos a nossa casa o suficiente para a
defendermos, não haveria crise ecológica, nenhum lugar alguma vez poderia ser
declarado zona de sacrifício. Simplesmente não teríamos outra alternativa senão
adotar métodos não tóxicos de satisfazer as nossas necessidades.
Esta
clareza moral, após décadas de parcerias verdes íntimas, é o verdadeiro choque
para as indústrias extrativas.» (KLEIN, 2016: 406-407)
Nos últimos anos,
o cerco tem-se vindo a apertar e o silêncio surge cada vez mais conveniente
para quem não tem argumentos defensáveis no que concerne à exploração
de combustíveis fósseis. O oleoduto Keystone XL provocou, em 2011, uma onda
histórica de desobediência civil em Washington, seguida dos que foram, na
altura, os maiores protestos na história do movimento climático nos Estados
Unidos: mais de 40 mil pessoas diante da Casa Branca em Fevereiro de 2013
(KLEIN, 2016: 367). E essas manifestações não se circunscrevem, de todo, a
minorias étnicas ou à problemática da exploração de combustíveis fósseis por processos
extremos em geografias remotas. O problema já chegou a muitos países
ocidentais, nomeadamente a Portugal, onde existe a intenção de explorar reservas
na plataforma continental…
A novidade caracteriza-se,
cada vez mais, pela espontaneidade com que a Blockadia surge no seio das
comunidades afectadas. ««Vassilou, uma
animadora juvenil que integra a luta contra a mina de ouro Eldorado na Grécia,
descreve isso como viver num «mundo de pernas para o ar. Corremos o risco de
cada vez mais inundações. Corremos o risco de, aqui na Grécia, nunca mais
voltarmos a ter primavera ou outono. E eles dizem-nos que corremos o risco de
sair do euro. É de loucos?» Por outras palavras, um banco falido é uma crise
que podemos resolver; o Ártico destruído, não.» [KLEIN, 2016: 420]
O movimento contestatário é global e a comprová-lo temos o apoio inequívoco a
Stading Rock surgido das mais diversas proveniências…
Nota: *O grupo de acção
directa Tar Sands Blockade usou pela primeira vez a palavra “Blockadia”, em
Agosto de 2012, enquanto planeava o que se transformou num bloqueio que durou
85 dias na construção do Keystone (no leste do Texas).