sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Go for a Walk

«I lived next to the last block of flats, and then it was moss and tundra. I used to walk a lot on my own and sing at the top of my lungs. I think a lot of Icelandic people do this. You don’t go to church or a psychotherapist – you go for a walk and feel better.»
Björk


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Não,

não é uma galinha!...

Pedro Cuiça © Rua Augusta (Lisboa, 17/ Nov. 2016)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Luz-boa

A luminosidade outonal tem qualquer coisa de divinal...


Pedro Cuiça © Dragon Square (Martim Moniz - Lisboa, 16/ Nov. 2016)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Galo

g'ANDA galo...


Pedro Cuiça © Ribeira das Naus (Lisboa, Nov. 2016)

P.S.: De galar, galadela e etc.. Este post poderia ser sobre fertilidade... Poder podia, mas não é a mesma coisa.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Fertilidade (II)


Hoje será certamente uma noite auspiciosa para empreender uma caminhada inolvidável, idealmente num ambiente o mais natural possível, longe do bulício citadino. Hoje, por maioria de razões, é tempo de celebrar a fertilidade sob a intensa «luminosidade selenita do plenilúnio». 
A super lua que irá surgir no céu nocturno será um acontecimento que não deixará indiferentes aqueles que tenham a oportunidade de presenciar a sua dimensão e brilho incomuns. O último plenilúnio (de 16 de Outubro) também foi uma super lua mas a raridade do fenómeno de hoje cinge-se ao facto de esta se encontrar excepcionalmente muito perto da Terra.  Fenómeno que só ocorreu de forma tão proximal em 1948 e que só se irá repetir, em condições similares, na noite de 25 de Novembro de 2034!

A Lua é cultuada desde os tempos paleolíticos e o fascínio encantatório do plenilúnio estende-se até à actualidade. O ciclo lunar mede o tempo, rege o ciclo menstrual da mulher, comanda as marés e os humores dos humanos… Por isso existem lunáticos e aluados. 

A lua surge como um avatar da Magna Mater criadora, a Grande Mãe, deusa da fertilidade, a senhora ibérica da Conceição/Concepción: «a que concebe, a que engendra, a que dá à luz» (Espírito Santo, 2004: 102). As imagens populares da Senhora da Conceição – a que concebe – para além de terem um menino ao colo, identificam-se pela presença de um crescente lunar e de uma serpente. O crescente lunar, por vezes enorme (evocando os “cornos” de um bovino), e a serpente a seus pés são também símbolos de fertilidade. Ambas – a Lua e a Serpente – morrem e renascem simbolizando o eterno ciclo/circulo da vida (e da morte).



Pedro Cuiça © Algures na Terra (14/11/2016)

Fertilidade


Durante os primeiros meses, a parte mais difícil da gravidez foi acreditar que tudo estava realmente normal e saudável. Por muitos testes que recebesse com resultados tranquilizadores, preparei-me para a tragédia. O que mais ajudava era caminhar e, durante as últimas semanas de ansiedade antes do parto, acalmava os nervos caminhando, enquanto as minhas ancas doridas deixassem, num trilho bem cuidado ao longo de um riacho intocado. O riacho começa perto do cimo de uma montanha coberta de neve e a água límpida precipitava-se de uma queda-d’água, acumula-se em dezenas de poças e flui através de rápidos até finalmente desaguar no Pacífico.
Durante essas caminhadas, mantinha os olhos abertos para juvenis de salmão-prateado a caminho do mar após meses de incubação em estuários rasos. E imaginava os juvenis de salmão-prateado, salmão-rosa e salmão-keta a nadarem vigorosamente pelos rápidos e quedas-d’água, determinados a chegar aos locais de desova onde nasceram. Dizia para mim mesma que era a determinação do meu filho. Era manifestamente um lutador, uma vez que conseguira chegar até mim, apesar das dificuldades, também arranjaria maneira de nascer com saúde.
Não é possível arranjar um melhor símbolo da tenacidade da vida do que o salmão do Pacífico. Para chegar aos locais de desova, o salmão-prateado subirá saltitantemente quedas-d’água gigantescas como um canoísta louco em contramão e a esquivar-se de águias e ursos-pardos. No fim da sua vida, o salmão gasta as suas últimas forças vitais para concluir a sua missão. Os juvenis de salmão têm de sofrer uma transformação drástica (smolting) para preparar os seus corpos para a transição da água doce para os oceanos, onde irão passar as suas vidas até ser a sua vez de fazer a viagem rio acima.
Mas estes feitos triunfantes da biologia são apenas uma parte da história da regeneração. Porque, como toda a gente que vive em terra de salmão sabe, às vezes os rios de outono estão assustadoramente vazios, cheios somente de folhas mortas e, eventualmente, um ou dois peixes sarapintados. Os salmões são, na realidade, os nossos atletas olímpicos, sendo a sua determinação uma das manifestações mais poderosas do planeta da vontade de preservar o ciclo da vida – mas não são invencíveis. A força deles pode ser derrotada pela sobrepesca, por explorações piscícolas que propagam piolhos-do-mar que matam o salmão jovem em massa, pelas águas a aquecer que os cientistas acham que poderão ameaçar o seu alimento, por explorações madeireiras negligentes que deixam os rios de desova obstruídos por detritos, por barragens de cimento que desafiam até o salmão-prateado mais acrobático. E, é claro, podem ser travados de vez por derramamentos de petróleo e outros acidentes industriais.
Razões pelas quais o salmão desapareceu de cerca de 40% da sua ocupação histórica no Pacífico Noroeste e diversas populações de salmão-prateado, salmão-real e salmão-vermelho estão sob permanente ameaça e em risco de extinção. Para saber até onde é que estes números nos vão levar, basta-nos olhar para a Nova Inglaterra e para a Europa Continental, onde as migrações comerciais de salmão do Atlântico desapareceram dos rios onde em tempos eram abundantes. Tal como os seres humanos, o salmão é capaz de superar muita coisa – mas não tudo.
E é por essa razão que o final feliz da minha própria história ainda me deixa pouco à vontade e me parece incompleta. Sei que para algumas pessoas, a minha saga da fertilidade parece reforçar a ideia de que a resiliência humana acaba sempre por sair vencedora, mas não é isso que parece. Não sei porque é que esta gravidez vingou, assim como não sei porque é que as anteriores falharam – nem eu nem os médicos, sejam eles da alta sejam da baixa tecnologia. A infertilidade é apenas uma das muitas áreas em que nós humanos somos confrontados com os nossos oceanos de ignorância. (…)

Voltar à vida
No início de 2013, encontrei um discurso da escritora e educadora Leanne Simpson, que tem origens nos Mississauga Nishnaabeg, em que ela descreve os ensinamentos e as estruturas de governação do seu povo da seguinte maneira: «Os nossos sistemas foram concebidos para promover mais vida.» A afirmação fez-me parar. Dei-me conta de que este objectivo orientador era precisamente a antítese do extrativismo, que se baseia na premissa de que a vida pode ser drenada indefinidamente e que, longe de promover a vida futura, é especialista em transformar sistemas vivos em lixo, sejam ele os inúmeros «terrenos mortos» que orlam as estradas nas areias betuminosas de Alberta, sejam os exércitos de pessoas descartadas que vagueiam pelo mundo à procura de trabalho temporário, ou as partículas e gases que abafam a atmosfera e que foram outrora partes saudáveis dos ecossistemas.
(…) Acabámos por ter uma conversa longa e alargada sobre a diferença entre uma mentalidade extrativista (que Simpson descreve sem rodeios como «roubar» e tirar coisas «de uma relação») e uma mentalidade regenerativa. Caracterizou o sistema Anishinaabe como «uma forma de viver destinada a gerar vida, não simplesmente vida humana, mas também a vida de todas as coisas vivas». Trata-se de um conceito de equilíbrio, de harmonia, comum a muitas culturas indígenas e que é frequentemente traduzido como «a boa vida». Mas Simpson disse-me que preferia a tradução «renascimento contínuo», que ouvira pela primeira vez da colega escritora e ativista Anishinaabe Winona LaDuke.
É compreensível associarmos atualmente estas ideias a uma mundivisão indígena: foram sobretudo essas culturas que mantiveram esta forma alternativa de ver o mundo vivo face às escavadoras do colonialismo e da globalização empresarial. À semelhança dos preservadores de sementes que protegem a biodiversidade da reserva global de sementes, outras formas de nos relacionarmos com o mundo natural e uns com os outros foram protegidas por muitas culturas indígenas, baseadas em parte numa crença de que virá o tempo em que estas sementes intelectuais serão necessárias e o solo para elas tornar-se-á mais uma vez fértil.
(…) Na verdade, o que está a surgir é um novo tipo de movimento de direitos reprodutivos, que luta não só pelos direitos reprodutivos das mulheres como pelos direitos reprodutivos do planeta como um todo – pelas montanhas decapitadas, os vales submersos, as florestas abatidas, os lençóis freáticos fraturados, as encostas esventradas, os rios envenenados, as «povoações do cancro». Toda a vida tem o direito de se renovar, regenerar e curar.
Com base neste princípio, países como a Bolívia e o Equador – com grandes populações indígenas – consagraram na lei os «direitos da Mãe Terra», criando novos instrumentos jurídicos poderosos que garantem o direito dos ecossistemas não só de existir como de «regenerar».*
[KLEIN, 2016: 528-532]
Pedro Cuiça © Montanha Sagrada (vulgo Serra de Sintra, 13/11/2016)

*Quando o Equador adotou uma nova Constituição em 2008 tornou-se o primeiro país a consagrar na lei os direitos da natureza. O artigo 71 da Constituição do país diz: «A natureza, ou Pachamama, onde a vida é criada e reproduzida, tem o direito a que a sua existência seja integralmente respeitada, bem como o direito à manutenção e regeneração dos seus ciclos vitais, estruturas, funções e processos evolucionários. Todas as pessoas, comunidades, povos ou nacionalidades podem exigir do poder público que estes direitos da natureza sejam respeitados.»



Fonte bibliográfica:
KLEIN, Naomi. Tudo Pode Mudar – Capitalismo vs. Clima. Barcarena: Editorial Presença, 2016, pp. 654.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ni ici, ni ailleurs


A 22ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP-22) está a decorrer, de 7 a 18 de Novembro, na cidade marroquina de Marraquexe. A incógnita centrar-se-á até onde os perto de 200 países participantes estarão dispostos a ir com vista à concretização do primeiro (pretenso) grande acordo mundial contra o aquecimento global. Acordo que entrou em vigor há escassos dias, menos de um ano depois de ter sido aprovado na conferência realizada no ano transacto em Paris; apesar de, até ao momento, dos 197 signatários pouco mais de metade terem ratificado o dito! As Nações Unidas voltaram, entretanto, a alertar para a urgência de agir rapidamente no que concerne à redução das emissões de gases com efeito estufa, de modo a evitar “uma tragédia”. Portanto, mais do mesmo! Na verdade, tendo em conta que nos Estados Unidos foi eleito um Presidente que “não acredita” nas alterações climáticas, será expectável que possa vir aí algo de novo (ou do mesmo?).
Os governos mundiais andam a falar de prevenir as alterações climáticas há mais de duas décadas. Na realidade o organismo intergovernamental incumbido de evitar níveis “perigosos” de aquecimento global não só não conseguiu fazer progressos durante os seus 20 e tal anos de trabalho (e mais de 90 reuniões de negociações oficiais) como supervisionou um processo de retrocesso contínuo (KLEIN, 2016: 23). Os governos desperdiçaram anos preciosos em torno de minudencias irrelevantes e de bur(r)ocracias, num jogo do “empata” que se consubstanciou num resultado catastrófico fruto dessa enorme mistificação e procrastinação . Dados preliminares revelam que, em 2013, as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) eram 61% mais elevadas do que em 1990, ano em que as negociações com vista a um tratado sobre o clima terão começado a sério (ibidem). E a “seriedade” prosseguiu com um aumento reiterado das emissões, de 2013 até hoje, numa displicente sequência de encontros intergovernamentais. Se os governos estivessem realmente empenhados na implementação de medidas eco-lógicas teriam de transformar a “economia de casino”, das últimas décadas, numa “eco-nomia verde”, transição que implicaria mudanças profundas na forma como vivemos, designadamente no que concerne ao consumo e à mobilidade. Basta constatar o modo como, por exemplo, os transportes públicos em Portugal continuam inexplicavelmente quase na mesma (ou piores), comparativamente ao importante investimento em infraestruturas rodoviárias (mormente auto-estradas), num notório favorecimento do transporte privado motorizado, para comprovar a falta de empenho político no que concerne à mitigação do aquecimento global! Por outro lado, a generalidade das ONGs ditas “ambientalistas” têm vindo a implementar estratégias num quadro de ambientalismo superficial, com base em teses de “mal menor”, ou mesmo alinhando declaradamente com os interesses das indústrias poluidoras, ao invés de assumirem um ecologismo profundo ancorado num “bem maior”.
Mas, para além dos jogos de bastidores e das invariavelmente importantes declarações “para inglês ver”, quer de políticos, quer de ambientalistas, num aparente imobilismo, não deixa de ser interessante constatar mudanças, a nosso ver, significativas no tocante à temática em causa. Desde logo a “espalhafatosa” cobertura jornalística de que foram alvo iniciativas como Quioto e a Cimeira do Rio (Eco-92) face ao quase esquecimento que se verifica no tocante à agora em curso COP-22 de Marraquexe. E o que dizer do bloqueio noticioso sobre o que está a acontecer, de há alguns meses a esta parte, na reserva de Standing Rock contra o Dakota Access Pipeline, os confrontos policiais e a prisão de mais de 400 manifestantes? Nunca ouviu falar do assunto, nem dos confrontos que ocorreram na floresta de Skouries e na aldeia de Ierissos (Grécia), em Pungesti (Roménia), em Balcombe (West Sussex – Reino Unido), em New South Wales (Austrália), entre outros? Não se espante, pois tal não será certamente por acaso.

«Durante décadas, o movimento ambiental falou a linguagem emprestada da avaliação de riscos, trabalhando diligentemente com parceiros nas empresas e no governo para equilibrar os níveis perigosos de poluição com a necessidade de lucro e crescimento económico. (…) A ação necessária para salvar a humanidade do risco muito real de caos climático foi ponderada friamente face ao risco que essa ação representaria para os PIB, como se o crescimento económico ainda importasse num planeta abalado por desastres em série.
Porém, em Blockadia*, a avaliação de riscos foi abandonada na beira da estrada barricada, substituída por um ressurgimento do princípio da precaução – que diz que, quando a saúde humana e o ambiente estão substancialmente em risco, não é necessária certeza científica absoluta antes de agir. Mais, o ónus de provar que a prática é segura não deve ser imputado àqueles que ela poderá prejudicar.
Blockadia está a inverter a situação, insistindo que cabe à indústria provar que os seus métodos são seguros – na era das fontes de energia obtida por processos extremos, isso é algo que pura e simplesmente não pode ser feito. (…)
Resumindo, as empresas de combustíveis fósseis já não estão a lidar com aqueles grandes grupos verdes [ou partidos políticos] que podem ser silenciados com um donativo generoso ou com um programa de créditos de compensação de carbono para limpar a consciência. As comunidades que enfrentam não pretendem, na sua maioria, negociar um acordo melhor – seja sob a forma de postos de trabalho locais e royalties mais elevados sejam melhores padrões de segurança. Cada vez mais estas comunidades se limitam a dizer rotundamente «Não». Não ao oleoduto. Não à perfuração no Ártico. Não aos comboios de carvão e petróleo. Não às cargas pesadas. Não ao terminal de exportação. Não ao fracking. E não somente: «Não à minha porta.» (NIMBY), mas, como dizem os ativistas franceses anti-fracking: «Ni ici, ni ailleurs.» – nem aqui nem em lado nenhum. Por outras palavras: chega de novas fronteiras do carbono.
Com efeito, o fidedigno insulto NIMBY perdeu completamente a eficácia. Tal como diz Wendell Berry, socorrendo-se de palavras de E. M. Forster, a conservação «desperta o afeto» – e, se todos nós amássemos a nossa casa o suficiente para a defendermos, não haveria crise ecológica, nenhum lugar alguma vez poderia ser declarado zona de sacrifício. Simplesmente não teríamos outra alternativa senão adotar métodos não tóxicos de satisfazer as nossas necessidades.
Esta clareza moral, após décadas de parcerias verdes íntimas, é o verdadeiro choque para as indústrias extrativas.» (KLEIN, 2016: 406-407)

Nos últimos anos, o cerco tem-se vindo a apertar e o silêncio surge cada vez mais conveniente para quem não tem argumentos defensáveis no que concerne à exploração de combustíveis fósseis. O oleoduto Keystone XL provocou, em 2011, uma onda histórica de desobediência civil em Washington, seguida dos que foram, na altura, os maiores protestos na história do movimento climático nos Estados Unidos: mais de 40 mil pessoas diante da Casa Branca em Fevereiro de 2013 (KLEIN, 2016: 367). E essas manifestações não se circunscrevem, de todo, a minorias étnicas ou à problemática da exploração de combustíveis fósseis por processos extremos em geografias remotas. O problema já chegou a muitos países ocidentais, nomeadamente a Portugal, onde existe a intenção de explorar reservas na plataforma continental…
A novidade caracteriza-se, cada vez mais, pela espontaneidade com que a Blockadia surge no seio das comunidades afectadas. ««Vassilou, uma animadora juvenil que integra a luta contra a mina de ouro Eldorado na Grécia, descreve isso como viver num «mundo de pernas para o ar. Corremos o risco de cada vez mais inundações. Corremos o risco de, aqui na Grécia, nunca mais voltarmos a ter primavera ou outono. E eles dizem-nos que corremos o risco de sair do euro. É de loucos?» Por outras palavras, um banco falido é uma crise que podemos resolver; o Ártico destruído, não.» [KLEIN, 2016: 420] O movimento contestatário é global e a comprová-lo temos o apoio inequívoco a Stading Rock surgido das mais diversas proveniências…



Nota*O grupo de acção directa Tar Sands Blockade usou pela primeira vez a palavra “Blockadia”, em Agosto de 2012, enquanto planeava o que se transformou num bloqueio que durou 85 dias na construção do Keystone (no leste do Texas).

Fonte bibliográfica:
KLEIN, Naomi. Tudo Pode Mudar – Capitalismo vs. Clima. Barcarena: Editorial Presença, 2016, pp. 654.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Acção Directa

FUMAR* combustíveis fósseis MATA,
ande (a pé e/ou de bicicleta), 
pela sua saúde e pela saúde do planeta.

Pedro Cuiça © Lisbon Walks (8/11/2016)

*Inspirar ou expirar fumo; exalar fumo; lançar fumo; expor ao fumo; fumegar; etc.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Pensar como uma Montanha



John Muir está na aurora dessas novas formas de pensar que são traduzidas de forma cabal em A Sand County Almanac. Esta obra, publicada pela primeira vez em 1949, só viria a revelar o seu enorme alcance com a expansão, a partir dos anos 60 do século XX, da consciência ecológica moderna nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo. Este livro é hoje talvez o mais discutido clássico sobre natureza e ecologia, tal como o pilar de uma muito recente ética da Terra, ética ambiental ou ética ecológica. 
Para José Carlos Costa Marques, o editor da obra em português (Pensar como uma Montanha, 2008), é surpreendente que neste livro, de mais de 200 páginas na edição original, o mais conhecido, citado e debatido se resuma quase ao último capítulo (The Land Ethic), somente cerca da nona parte da totalidade da obra. E neste, sobretudo a sua última secção (The Outlook). Nessas duas páginas e meia destaca-se um parágrafo notável, o sexto dessa secção: oito linhas! E destas, sobretudo, as três últimas: A thing is right when it tends to preserve the integrity, stability, and beauty of the biotic community. It is wrong when it tends otherwise.
A leitura integral de Pensar como uma Montanha (A Sand County Almanac) é imprescindível para entender o pensamento de Aldo Leopold, tendo em conta que a mesma possui uma estrutura que funciona de forma gradativa, como se o leitor fosse levado pela mão numa lição progressiva de educação ambiental, até ao culminar, no final da obra, nos elevados conceitos da ética da Terra. E, nesse contexto, não será de admirar o que o filósofo Viriato Soromenho-Marques afirme no prefácio da mesma: “O que nós devemos a Aldo Leopold é uma radical mudança de olhar sobre as relações entre o Homem e a Natureza.” Retomando a inspiração de outras duas gradas figuras do pensamento norte-americano do século XIX, os transcendentalistas Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, “Leopold oferece aos seus leitores uma visão subtil e delicada da frágil teia dos equilíbrios naturais, criticando, de uma forma pedagógica e sem arrogância moral ou científica, o modo desastrado e destruidor de que se revestem a maioria das intervenções humanas sobre os ecossistemas, em nome de um duvidoso conceito de “progresso”. Leopold soube ver de modo mais profundo do que a esmagadora maioria dos filósofos do seu tempo: vislumbrou e definiu uma Ética da Terra (Land Ethics).

Na ética da Terra de Leopold está incluso praticamente tudo aquilo que hoje estamos a (re)aprender quando queremos transformar o conceito de desenvolvimento sustentável em algo realmente efectivo: o respeito pelos valores intrínsecos dos ecossistemas; a capacidade de apreciação do sagrado e sublime que se manifesta na natureza (Soromenho-Marques in LEOPOLD, 2008). Ao fim ao cabo, a “redescoberta de um paradigma muito antigo, o da sacralidade de todas as formas de vida, da nossa terra viva, de nós próprios e dos outros”(HARTMANN, 2002); a que acrescentamos nós a componente abiótica muitas vezes esquecida ou subvalorizada, por certos autores, nestas renovadas concepções do mundo!




Nicholas Roerich © Himalayas (1921)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Of the Human-Nature

«Theodore Roszak, in his book The Voice of the Earth, has argued that ecology and psychology need each other and that “repression of the ecological unconscious is the deepest root of the collusive madness in industrial society; open access to the ecological unconscious is the path to sanity”. Roszak points out that Jung’s idea of the “collective unconscious” originally included prehuman animal and biological archetypes, but later came to concentrate primarly on panhuman religious symbols. He proposes that we take the original meaning and call it the “ecological unconscious” as “the living record of cosmic evolution”. This may turn out to be a terminology that has a wide appeal, although I personally prefer Robert Jay Lifton’s idea of a “species self”. Calling some image or understanding “unconscious”, or even more, reifying it as “the unconscious”, may function to keep it unconscious. After all, we are trying to foster ecological consciousness, or “ecological conscience”, to use Aldo Leopold’s term.»

Several different diagnostic metaphors have been proposed to explain the ecopsychologically disastrous split – the pathological alienation – between human consciousness and the rest of the biosphere. It’s time to rewild and healing the mind or…?



Bibliographical reference
METZNER, Ralph. The Psychopathology of the Human-NatureRelationship in ROSZAK, Theodore, GOMES, Mary E. & KANNER, Allen D. Ecopsychology – Restoring the Earth, Healing the Mind. San Francisco: Sierra Club, 1995, p. 55-67.

sábado, 22 de outubro de 2016

Vivência outonal


Agora que estamos a entrar na estação introspectiva do Outono boreal será uma boa altura da roda do ano para apreciar os cambiantes das cores e a intensidade dos odores campestres, num renovado contacto com a natureza. Esta será igualmente uma excelente ocasião para nos dedicarmos à leitura e, nesse pressuposto, deixo aqui uma sugestão… diremos outonal: Coming Home to the Pliocene, uma obra incontornável de Paul Shepard (Shearwater Book, 1998). As especificidades da época não devem, contudo, constituir uma escusa para um estar preponderantemente sedentário, bem pelo contrário. No campo e/ou na cidade, a caminhada continua. 

Pedro Cuiça © Sapadores (Lisboa - 21/10/2016)

Sitting is


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Wanderlust

I am leaving this harbor
Giving urban a farewell
Its habitants seem too keen on god
I cannot stomach their rights and wrongs
I have lost my origin
And I don't want to find it again
Whether sailing into nature's laws
And be held by ocean's paws
Wanderlust, relentlessly craving
Wanderlust, peel off the layers
Until we get to the core
Did I imagine it would be like this
Was it something like this I wished for
Or will I want more
Lust for comfort
Suffocates the soul
Relentless restlessness
Liberates me (sets me free)
I feel at home
Whenever the unknown surrounds me
I receive its embrace
Aboard my floating house
Wanderlust, relentlessly craving
Wanderlust, peel off the layers
Until we get to the core
Did I imagine it would be like this
Was it something like this I wished for
Or will I want more
Wanderlust, from island to island
Wanderlust, united in movement
Wonderful, I'm joined with you
Wanderlust, wanderland
Can you spot a pattern
Can you spot a pattern
Can you


Por via das dúvidas

Face a diversas manifestações de alguma surpresa e, ademais, de interpretações notoriamente equivocadas acerca da apresentação do blogue Pedestris, no que concerne à «Arte de Caminhar numa perspectiva holotrópica e ecosófica», consideramos que será oportuno esclarecer o significado de “holotrópico”: «Esta palavra compósita significa literalmente “orientado para a totalidade” ou “movendo-se em direcção à totalidade” (do grego holos = todo e trepein = mover-se para ou na direcção de algo). (...) Ele <o termo> sugere que, no nosso estado quotidiano de consciência, apenas nos identificamos com uma pequena parte do que realmente somos. Nos estados holotrópicos, podemos transcender as fronteiras limitadas do ego corporal e reclamar a nossa identidade completa.» [GROF, 2007: 18] No que concerne à ecosofia o seu significado ou significados têm sido desvelados em diversos posts sobre essa temática...

Atanislav Grof


Referência bibliográfica
Stanislav Grof in A Psicologia do Futuro – Lições da Investigação Moderna sobre a Consciência (Porto: Via Óptima, 2007; ISBN 9789729360336)

Arte de Andar

Esta oficina de trabalho (workshop), A Arte de Andar – Ecosofia e Eco-espiritualidade, organizada pel'O Círculo do Entre-Ser – Associação Filosófica e Ética, centra-se no(s) encantamento(s) do acto de andar, numa perspectiva ecosófica e eco-espiritual desenvolvida sob três vertentes: Ser/Sentir, Demandar e Des(en)cobrir a Natureza. Os trabalhos irão decorrer em dois tempos e locais distintos: uma abordagem teórica (9 de Novembro, das 18.30 às 20.00), n’O Coração do Mundo, e uma componente prática (12 de Novembro, das 10.00 às 13.00), no Parque Florestal de Monsanto.