Hoje será certamente
uma noite auspiciosa para empreender uma caminhada inolvidável, idealmente num
ambiente o mais natural possível, longe do bulício citadino. Hoje, por
maioria de razões, é tempo de celebrar a fertilidade sob a intensa «luminosidade selenita do
plenilúnio».
A super lua que irá
surgir no céu nocturno será um acontecimento que não deixará indiferentes
aqueles que tenham a oportunidade de presenciar a sua dimensão e brilho
incomuns. O último plenilúnio (de 16 de Outubro) também foi uma super lua mas a
raridade do fenómeno de hoje cinge-se ao facto de esta se encontrar
excepcionalmente muito perto da Terra. Fenómeno que só ocorreu de forma
tão proximal em 1948 e que só se irá repetir, em condições similares, na noite
de 25 de Novembro de 2034!
A Lua é cultuada
desde os tempos paleolíticos e o fascínio encantatório do plenilúnio estende-se
até à actualidade. O ciclo lunar mede o tempo, rege o ciclo menstrual da
mulher, comanda as marés e os humores dos humanos… Por isso existem lunáticos e
aluados.
A
lua surge como um avatar da Magna Mater criadora, a Grande
Mãe, deusa da fertilidade, a senhora ibérica da Conceição/Concepción: «a
que concebe, a que engendra, a que dá à luz» (Espírito Santo, 2004: 102).
As imagens populares da Senhora da Conceição – a que concebe – para além de
terem um menino ao colo, identificam-se pela presença de um crescente lunar e
de uma serpente. O crescente lunar, por vezes enorme (evocando os “cornos” de
um bovino), e a serpente a seus pés são também símbolos de fertilidade. Ambas –
a Lua e a Serpente – morrem e renascem simbolizando o eterno ciclo/circulo da
vida (e da morte).
Durante os primeiros meses, a parte mais
difícil da gravidez foi acreditar que tudo estava realmente normal e saudável.
Por muitos testes que recebesse com resultados tranquilizadores, preparei-me
para a tragédia. O que mais ajudava era caminhar e, durante as últimas semanas
de ansiedade antes do parto, acalmava os nervos caminhando, enquanto as minhas
ancas doridas deixassem, num trilho bem cuidado ao longo de um riacho intocado.
O riacho começa perto do cimo de uma montanha coberta de neve e a água límpida
precipitava-se de uma queda-d’água, acumula-se em dezenas de poças e flui através
de rápidos até finalmente desaguar no Pacífico.
Durante essas caminhadas, mantinha os olhos
abertos para juvenis de salmão-prateado a caminho do mar após meses de
incubação em estuários rasos. E imaginava os juvenis de salmão-prateado,
salmão-rosa e salmão-keta a nadarem vigorosamente pelos rápidos e quedas-d’água,
determinados a chegar aos locais de desova onde nasceram. Dizia para mim mesma
que era a determinação do meu filho. Era manifestamente um lutador, uma vez que
conseguira chegar até mim, apesar das dificuldades, também arranjaria maneira
de nascer com saúde.
Não é possível arranjar um melhor símbolo da
tenacidade da vida do que o salmão do Pacífico. Para chegar aos locais de
desova, o salmão-prateado subirá saltitantemente quedas-d’água gigantescas como
um canoísta louco em contramão e a esquivar-se de águias e ursos-pardos. No fim
da sua vida, o salmão gasta as suas últimas forças vitais para concluir a sua
missão. Os juvenis de salmão têm de sofrer uma transformação drástica (smolting) para preparar os seus corpos
para a transição da água doce para os oceanos, onde irão passar as suas vidas
até ser a sua vez de fazer a viagem rio acima.
Mas estes feitos triunfantes da biologia são
apenas uma parte da história da regeneração. Porque, como toda a gente que vive
em terra de salmão sabe, às vezes os rios de outono estão assustadoramente
vazios, cheios somente de folhas mortas e, eventualmente, um ou dois peixes
sarapintados. Os salmões são, na realidade, os nossos atletas olímpicos, sendo
a sua determinação uma das manifestações mais poderosas do planeta da vontade
de preservar o ciclo da vida – mas não são invencíveis. A força deles pode ser
derrotada pela sobrepesca, por explorações piscícolas que propagam
piolhos-do-mar que matam o salmão jovem em massa, pelas águas a aquecer que os
cientistas acham que poderão ameaçar o seu alimento, por explorações
madeireiras negligentes que deixam os rios de desova obstruídos por detritos,
por barragens de cimento que desafiam até o salmão-prateado mais acrobático. E,
é claro, podem ser travados de vez por derramamentos de petróleo e outros
acidentes industriais.
Razões pelas quais o salmão desapareceu de
cerca de 40% da sua ocupação histórica no Pacífico Noroeste e diversas
populações de salmão-prateado, salmão-real e salmão-vermelho estão sob
permanente ameaça e em risco de extinção. Para saber até onde é que estes
números nos vão levar, basta-nos olhar para a Nova Inglaterra e para a Europa
Continental, onde as migrações comerciais de salmão do Atlântico desapareceram
dos rios onde em tempos eram abundantes. Tal como os seres humanos, o salmão é
capaz de superar muita coisa – mas não tudo.
E é por essa razão que o final feliz da minha
própria história ainda me deixa pouco à vontade e me parece incompleta. Sei que
para algumas pessoas, a minha saga da fertilidade parece reforçar a ideia de
que a resiliência humana acaba sempre por sair vencedora, mas não é isso que
parece. Não sei porque é que esta gravidez vingou, assim como não sei porque é
que as anteriores falharam – nem eu nem os médicos, sejam eles da alta sejam da
baixa tecnologia. A infertilidade é apenas uma das muitas áreas em que nós
humanos somos confrontados com os nossos oceanos de ignorância. (…)
Voltar
à vida
No início de 2013, encontrei um discurso da
escritora e educadora Leanne Simpson, que tem origens nos Mississauga
Nishnaabeg, em que ela descreve os ensinamentos e as estruturas de governação
do seu povo da seguinte maneira: «Os nossos sistemas foram concebidos para
promover mais vida.» A afirmação fez-me parar. Dei-me conta de que este
objectivo orientador era precisamente a antítese do extrativismo, que se baseia
na premissa de que a vida pode ser drenada indefinidamente e que, longe de
promover a vida futura, é especialista em transformar sistemas vivos em lixo,
sejam ele os inúmeros «terrenos mortos» que orlam as estradas nas areias
betuminosas de Alberta, sejam os exércitos de pessoas descartadas que vagueiam
pelo mundo à procura de trabalho temporário, ou as partículas e gases que
abafam a atmosfera e que foram outrora partes saudáveis dos ecossistemas.
(…) Acabámos por ter uma conversa longa e
alargada sobre a diferença entre uma mentalidade extrativista (que Simpson
descreve sem rodeios como «roubar» e tirar coisas «de uma relação») e uma
mentalidade regenerativa. Caracterizou o sistema Anishinaabe como «uma forma de
viver destinada a gerar vida, não simplesmente vida humana, mas também a vida
de todas as coisas vivas». Trata-se de um conceito de equilíbrio, de harmonia,
comum a muitas culturas indígenas e que é frequentemente traduzido como «a boa
vida». Mas Simpson disse-me que preferia a tradução «renascimento contínuo»,
que ouvira pela primeira vez da colega escritora e ativista Anishinaabe Winona
LaDuke.
É compreensível associarmos atualmente estas
ideias a uma mundivisão indígena: foram sobretudo essas culturas que mantiveram
esta forma alternativa de ver o mundo vivo face às escavadoras do colonialismo
e da globalização empresarial. À semelhança dos preservadores de sementes que
protegem a biodiversidade da reserva global de sementes, outras formas de nos
relacionarmos com o mundo natural e uns com os outros foram protegidas por
muitas culturas indígenas, baseadas em parte numa crença de que virá o tempo em
que estas sementes intelectuais serão necessárias e o solo para elas
tornar-se-á mais uma vez fértil.
(…) Na verdade, o que está a surgir é um novo
tipo de movimento de direitos reprodutivos, que luta não só pelos direitos reprodutivos
das mulheres como pelos direitos reprodutivos do planeta como um todo – pelas montanhas
decapitadas, os vales submersos, as florestas abatidas, os lençóis freáticos
fraturados, as encostas esventradas, os rios envenenados, as «povoações do cancro».
Toda a vida tem o direito de se renovar, regenerar e curar.
Com base neste princípio, países como a Bolívia
e o Equador – com grandes populações indígenas – consagraram na lei os «direitos
da Mãe Terra», criando novos instrumentos jurídicos poderosos que garantem o
direito dos ecossistemas não só de existir como de «regenerar».*
*Quando o Equador adotou uma nova Constituição
em 2008 tornou-se o primeiro país a consagrar na lei os direitos da natureza.
O artigo 71 da Constituição do país diz: «A natureza, ou Pachamama, onde a vida
é criada e reproduzida, tem o direito a que a sua existência seja integralmente
respeitada, bem como o direito à manutenção e regeneração dos seus ciclos
vitais, estruturas, funções e processos evolucionários. Todas as pessoas,
comunidades, povos ou nacionalidades podem exigir do poder público que estes
direitos da natureza sejam respeitados.»
A 22ª
Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações
Climáticas (COP-22) está a decorrer, de 7 a 18 de Novembro, na cidade
marroquina de Marraquexe. A incógnita centrar-se-á até onde os perto de 200
países participantes estarão dispostos a ir com vista à concretização do
primeiro (pretenso) grande acordo mundial contra o aquecimento global. Acordo que
entrou em vigor há escassos dias, menos de um ano depois de ter sido aprovado
na conferência realizada no ano transacto em Paris; apesar de, até ao momento,
dos 197 signatários pouco mais de metade terem ratificado o dito! As Nações Unidas
voltaram, entretanto, a alertar para a urgência de agir rapidamente no que
concerne à redução das emissões de gases com efeito estufa, de modo a evitar
“uma tragédia”. Portanto, mais do mesmo! Na verdade, tendo em conta que nos Estados
Unidos foi eleito um Presidente que “não acredita” nas alterações climáticas, será expectável que possa vir aí algo de novo (ou do mesmo?).
Os
governos mundiais andam a falar de prevenir as alterações climáticas há mais de
duas décadas. Na realidade o organismo intergovernamental incumbido de evitar
níveis “perigosos” de aquecimento global não só não conseguiu fazer progressos
durante os seus 20 e tal anos de trabalho (e mais de 90 reuniões de negociações
oficiais) como supervisionou um processo de retrocesso contínuo (KLEIN, 2016:
23). Os governos desperdiçaram anos preciosos em torno de minudencias
irrelevantes e de bur(r)ocracias, num jogo do “empata” que se consubstanciou
num resultado catastrófico fruto dessa enorme mistificação e procrastinação .
Dados preliminares revelam que, em 2013, as emissões globais de dióxido de
carbono (CO2) eram 61% mais elevadas do que em 1990, ano em que as
negociações com vista a um tratado sobre o clima terão começado a sério (ibidem). E a “seriedade” prosseguiu com
um aumento reiterado das emissões, de 2013 até hoje, numa displicente sequência
de encontros intergovernamentais. Se os governos estivessem realmente
empenhados na implementação de medidas eco-lógicas teriam de transformar a
“economia de casino”, das últimas décadas, numa “eco-nomia verde”, transição
que implicaria mudanças profundas na forma como vivemos, designadamente no que
concerne ao consumo e à mobilidade. Basta constatar o modo como, por exemplo,
os transportes públicos em Portugal continuam inexplicavelmente quase na mesma
(ou piores), comparativamente ao importante investimento em infraestruturas
rodoviárias (mormente auto-estradas), num notório favorecimento do transporte
privado motorizado, para comprovar a falta de empenho político no que concerne
à mitigação do aquecimento global! Por outro lado, a generalidade das ONGs
ditas “ambientalistas” têm vindo a implementar estratégias num quadro de
ambientalismo superficial, com base em teses de “mal menor”, ou mesmo alinhando
declaradamente com os interesses das indústrias poluidoras, ao invés de
assumirem um ecologismo profundo ancorado num “bem maior”.
Mas, para
além dos jogos de bastidores e das invariavelmente importantes declarações
“para inglês ver”, quer de políticos, quer de ambientalistas, num aparente
imobilismo, não deixa de ser interessante constatar mudanças, a nosso ver, significativas no tocante à temática em causa. Desde logo a “espalhafatosa”
cobertura jornalística de que foram alvo iniciativas como Quioto e a Cimeira do
Rio (Eco-92) face ao quase esquecimento que se verifica no tocante à agora em
curso COP-22 de Marraquexe. E o que dizer do bloqueio noticioso sobre o que está
a acontecer, de há alguns meses a esta parte, na reserva de Standing Rock
contra o Dakota Access Pipeline, os confrontos policiais e a prisão de mais de
400 manifestantes? Nunca ouviu falar do assunto, nem dos confrontos que
ocorreram na floresta de Skouries e na aldeia de
Ierissos (Grécia), em Pungesti (Roménia), em Balcombe (West Sussex – Reino
Unido), em New South Wales (Austrália), entre outros? Não se espante, pois tal
não será certamente por acaso.
«Durante décadas, o
movimento ambiental falou a linguagem emprestada da avaliação de riscos,
trabalhando diligentemente com parceiros nas empresas e no governo para
equilibrar os níveis perigosos de poluição com a necessidade de lucro e
crescimento económico. (…) A ação necessária para salvar a humanidade do risco
muito real de caos climático foi ponderada friamente face ao risco que essa
ação representaria para os PIB, como se o crescimento económico ainda
importasse num planeta abalado por desastres em série.
Porém, em Blockadia*, a avaliação de riscos foi
abandonada na beira da estrada barricada, substituída por um ressurgimento do princípio da precaução – que diz que,
quando a saúde humana e o ambiente estão substancialmente em risco, não é
necessária certeza científica absoluta antes de agir. Mais, o ónus de provar
que a prática é segura não deve ser imputado àqueles que ela poderá prejudicar.
Blockadia
está a inverter a situação, insistindo que cabe à indústria provar que os seus
métodos são seguros – na era das fontes de energia obtida por processos
extremos, isso é algo que pura e simplesmente não pode ser feito. (…)
Resumindo,
as empresas de combustíveis fósseis já não estão a lidar com aqueles grandes
grupos verdes [ou
partidos políticos] que podem ser silenciados com um donativo
generoso ou com um programa de créditos de compensação de carbono para limpar a
consciência. As comunidades que enfrentam não pretendem, na sua maioria,
negociar um acordo melhor – seja sob a forma de postos de trabalho locais e royalties mais elevados sejam melhores padrões de
segurança. Cada vez mais estas comunidades se limitam a dizer rotundamente
«Não». Não ao oleoduto. Não à perfuração no Ártico. Não aos comboios de carvão
e petróleo. Não às cargas pesadas. Não ao terminal de exportação. Não ao fracking. E não somente: «Não à minha porta.»
(NIMBY), mas, como dizem os ativistas franceses anti-fracking: «Ni ici, ni ailleurs.» – nem aqui nem em lado nenhum. Por outras
palavras: chega de novas fronteiras do carbono.
Com
efeito, o fidedigno insulto NIMBY perdeu completamente a eficácia. Tal como diz
Wendell Berry, socorrendo-se de palavras de E. M. Forster, a conservação
«desperta o afeto» – e, se todos nós amássemos a nossa casa o suficiente para a
defendermos, não haveria crise ecológica, nenhum lugar alguma vez poderia ser
declarado zona de sacrifício. Simplesmente não teríamos outra alternativa senão
adotar métodos não tóxicos de satisfazer as nossas necessidades.
Esta
clareza moral, após décadas de parcerias verdes íntimas, é o verdadeiro choque
para as indústrias extrativas.» (KLEIN, 2016: 406-407)
Nos últimos anos,
o cerco tem-se vindo a apertar e o silêncio surge cada vez mais conveniente
para quem não tem argumentos defensáveis no que concerne à exploração
de combustíveis fósseis. O oleoduto Keystone XL provocou, em 2011, uma onda
histórica de desobediência civil em Washington, seguida dos que foram, na
altura, os maiores protestos na história do movimento climático nos Estados
Unidos: mais de 40 mil pessoas diante da Casa Branca em Fevereiro de 2013
(KLEIN, 2016: 367). E essas manifestações não se circunscrevem, de todo, a
minorias étnicas ou à problemática da exploração de combustíveis fósseis por processos
extremos em geografias remotas. O problema já chegou a muitos países
ocidentais, nomeadamente a Portugal, onde existe a intenção de explorar reservas
na plataforma continental…
A novidade caracteriza-se,
cada vez mais, pela espontaneidade com que a Blockadia surge no seio das
comunidades afectadas. ««Vassilou, uma
animadora juvenil que integra a luta contra a mina de ouro Eldorado na Grécia,
descreve isso como viver num «mundo de pernas para o ar. Corremos o risco de
cada vez mais inundações. Corremos o risco de, aqui na Grécia, nunca mais
voltarmos a ter primavera ou outono. E eles dizem-nos que corremos o risco de
sair do euro. É de loucos?» Por outras palavras, um banco falido é uma crise
que podemos resolver; o Ártico destruído, não.» [KLEIN, 2016: 420]
O movimento contestatário é global e a comprová-lo temos o apoio inequívoco a
Stading Rock surgido das mais diversas proveniências…
Nota: *O grupo de acção
directa Tar Sands Blockade usou pela primeira vez a palavra “Blockadia”, em
Agosto de 2012, enquanto planeava o que se transformou num bloqueio que durou
85 dias na construção do Keystone (no leste do Texas).
John Muir está na aurora dessas novas formas de
pensar que são traduzidas de forma cabal em A Sand County Almanac.
Esta obra, publicada pela primeira vez em 1949, só viria a revelar o seu
enorme alcance com a expansão, a partir dos anos 60 do século XX, da
consciência ecológica moderna nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo.
Este livro é hoje talvez o mais discutido clássico sobre natureza e ecologia,
tal como o pilar de uma muito recente ética da Terra, ética ambiental ou ética
ecológica.
Para José Carlos Costa Marques, o editor da
obra em português (Pensar como uma Montanha, 2008), é surpreendente que neste livro, de mais de 200
páginas na edição original, o mais conhecido, citado e debatido se resuma quase
ao último capítulo (The Land Ethic),
somente cerca da nona parte da totalidade da obra. E neste, sobretudo a sua
última secção (The Outlook). Nessas
duas páginas e meia destaca-se um parágrafo notável, o sexto dessa secção: oito
linhas! E destas, sobretudo, as três últimas:A thing is right when it tends to preserve the integrity,
stability, and beauty of the biotic community. It is wrong when it tends
otherwise.
A leitura integral dePensar como uma Montanha(A Sand County Almanac) é
imprescindível para entender o pensamento de Aldo Leopold, tendo em conta que a
mesma possui uma estrutura que funciona de forma gradativa, como se o leitor
fosse levado pela mão numa lição progressiva de educação ambiental, até ao
culminar, no final da obra, nos elevados conceitos da ética da Terra. E, nesse
contexto, não será de admirar o que o filósofo Viriato Soromenho-Marques afirme
no prefácio da mesma: “O que nós devemos a Aldo Leopold é uma radical
mudança de olhar sobre as relações entre o Homem e a Natureza.” Retomando a
inspiração de outras duas gradas figuras do pensamento norte-americano do
século XIX, os transcendentalistas Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, “Leopold
oferece aos seus leitores uma visão subtil e delicada da frágil teia dos
equilíbrios naturais, criticando, de uma forma pedagógica e sem arrogância
moral ou científica, o modo desastrado e destruidor de que se revestem a
maioria das intervenções humanas sobre os ecossistemas, em nome de um duvidoso
conceito de “progresso”. Leopold soube ver de modo mais profundo do que a
esmagadora maioria dos filósofos do seu tempo: vislumbrou e definiu umaÉtica da Terra (Land
Ethics).
Na ética da Terra de Leopold está incluso
praticamente tudo aquilo que hoje estamos a (re)aprender quando queremos
transformar o conceito de desenvolvimento sustentável em algo realmente
efectivo: o respeito pelos valores intrínsecos dos ecossistemas; a capacidade
de apreciação do sagrado e sublime que se manifesta na natureza
(Soromenho-MarquesinLEOPOLD, 2008). Ao fim ao cabo, a “redescoberta
de um paradigma muito antigo, o da sacralidade de todas as formas de vida, da
nossa terra viva, de nós próprios e dos outros”(HARTMANN, 2002); a que
acrescentamos nós a componente abiótica muitas vezes esquecida ou
subvalorizada, por certos autores, nestas renovadas concepções do mundo!
«Theodore Roszak, in his bookThe Voice of the
Earth, has argued that ecology and psychology need each other and that
“repression of the ecological unconscious is the deepest root of the collusive
madness in industrial society; open access to the ecological unconscious is the
path to sanity”. Roszak points out that Jung’s idea of the “collective
unconscious” originally included prehuman animal and biological archetypes, but
later came to concentrate primarly on panhuman religious symbols. He proposes
that we take the original meaning and call it the “ecological unconscious” as
“the living record of cosmic evolution”. This may turn out to be a terminology
that has a wide appeal, although I personally prefer Robert Jay Lifton’s idea
of a “species self”. Calling some image or understanding “unconscious”, or even
more, reifying it as “the unconscious”, may function to keep it unconscious.
After all, we are trying to foster ecological consciousness, or “ecological
conscience”, to use Aldo Leopold’s term.»
Several different diagnostic metaphors have been proposed to
explain the ecopsychologically disastrous split – the pathological alienation –
between human consciousness and the rest of the biosphere. It’s time to rewild and
healing the mind or…?
Bibliographical reference
METZNER, Ralph. The Psychopathology of the Human-NatureRelationshipin ROSZAK,
Theodore, GOMES, Mary E. & KANNER, Allen D. Ecopsychology – Restoring the Earth, Healing the Mind. San Francisco:
Sierra Club, 1995, p. 55-67.
Agora que estamos a entrar na estação
introspectiva do Outono boreal será uma boa altura da roda do ano para apreciar
os cambiantes das cores e a intensidade dos odores campestres, num renovado
contacto com a natureza. Esta será igualmente uma excelente ocasião para nos
dedicarmos à leitura e, nesse pressuposto, deixo aqui uma sugestão… diremos
outonal: Coming Home to the Pliocene,
uma obra incontornável de Paul Shepard (Shearwater Book, 1998). As
especificidades da época não devem, contudo, constituir uma escusa para um
estar preponderantemente sedentário, bem pelo contrário. No campo e/ou na
cidade, a caminhada continua.
Face
a diversas manifestações de alguma surpresa e, ademais, de interpretações notoriamente
equivocadas acerca da apresentação do blogue Pedestris, no que concerne à «Arte
de Caminhar numa perspectiva holotrópica e ecosófica», consideramos que será
oportuno esclarecer o significado de “holotrópico”: «Esta palavra compósita significa literalmente “orientado para a
totalidade” ou “movendo-se em direcção à
totalidade” (dogrego holos = todo e trepein = mover-se para ou na direcção de algo). (...) Ele <o termo> sugere
que, no nosso estado quotidiano de consciência, apenas nos identificamos com
uma pequena parte do que realmente somos. Nos estados holotrópicos, podemos
transcender as fronteiras limitadas do ego corporal e reclamar a nossa
identidade completa.» [GROF,
2007: 18]
No que concerne à ecosofia o seu significado ou significados têm sido
desvelados em diversos posts sobre
essa temática...
Esta
oficina de trabalho (workshop), A Arte de Andar – Ecosofiae Eco-espiritualidade, organizada pel'O Círculo do Entre-Ser – Associação Filosófica e Ética,
centra-se no(s) encantamento(s) do acto de andar, numa perspectiva ecosófica e
eco-espiritual desenvolvida sob três vertentes: Ser/Sentir, Demandar e
Des(en)cobrir a Natureza. Os trabalhos irão decorrer em dois tempos e locais
distintos: uma abordagem teórica (9 de Novembro, das 18.30 às 20.00), n’O
Coração do Mundo, e uma componente prática (12 de Novembro, das 10.00 às
13.00), no Parque Florestal de Monsanto.