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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Domingo

[Primeira-feira: DIA DO SOL]

© na Net (?)

«Um dos primeiros santos inconvertidos,
Sem as cores do meio-dia ou do entardecer,
Pagão sem mácula,
Que usurpou o dia civil,
E que sempre depois do seu nascimento
Percorreu os confins da Terra.»
[THOREAU, 2018: 71]

«Quando passámos debaixo da ponte sobre o canal, mesmo antes de atingirmos o Merrimack, as pessoas que estavam a sair da igreja pararam a olhar para nós lá de cima, e aparentemente, por força do hábito, permitiram-se fazer certas comparações pagãs; mas éramos nós quem verdadeiramente observava este dia de sol. Segundo Hesíodo,

«O sétimo é um dia santo,
Pois foi então que Latona gerou Apolo de raios dourados»,

e pelas nossas contas este era o sétimo dia da semana, e não o primeiro
[THOREAU, 2018: 91]

© na Net (?)

«Os deuses gregos são jovens, pecadores, deuses caídos, com os vícios dos homens, mas, em muitos aspectos importantes, essencialmente de raça divina. No meu Panteão, Pã ainda reina na sua glória pristina, com o seu rosto rosado, a sua barba solta e o seu corpo hirsuto, o seu cachimbo e o seu cajado, a sua ninfa Eco e a sua filha eleita Iambe; com efeito, o grande deus Pã não está morto, ao contrário do que se dizia. Os deuses não morrem.
(…)
Felizes de nós que podemos deliciar-nos neste quente sol (…) que ilumina todas as criaturas, quando repousam e quando labutam, não sem um sentimento de gratidão, e cuja vida é tão irrepreensível, por mais digna de repreensão que possa ser, tanto no dia da Lua do Senhor como no Seu dia do Sol*.»
[THOREAU, 2018: 92]

© Spirit of Old

NOTAS
*Nota do Tradutor (Luís Leitão): nesta passagem, Thoreau escreve Mona-day («dia da Lua», segunda-feira) e Suna-day («dia do Sol», domingo).
Nota Pedestris: e assim dir-se-ia que finaliza e/ou (re)começa mais um ciclo, mas o tempo circular não tem princípio nem fim!

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9 


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sábado

[Sétima-feira: DIA DE SATURNO]

© na Net (?)

«Quem dorme de dia e anda a pé à noite,
Não verá vivalma, mas um diabrete.»
[THOREAU, 2018: 69]

«Quando olhamos os flancos destes penedos, embora a uns quatrocentos metros de distância, tínhamos a impressão de os ouvir sussurar, tal era a folhagem daqueles ermos: um lugar para faunos e sátiros, onde morcegos ficam agarrados às rochas durante todo o dia, antes de esvoaçarem ao cair da noite sobre a água, e os pirilampos emitiam com parcimónia as suas luzes debaixo das ervas e das folhas na noite. Após termos montado a tenda na vertente da colina, a alguma distância da margem, ficámos a contemplar através da abertura triangular, ao crepúsculo, o nosso mastro solitário na margem, que mal se via acima dos amieiros e que quase nunca se imobilizava totalmente devido à ondulação do rio; era a primeira incursão do comércio nesta terra. Era aí o nosso porto, a nossa Óstia.»
[THOREAU, 2018: 67]

© na Net (?)

«Não havia sinal da existência de pessoas na escuridão da noite, nem uma única respiração humana, mas apenas a do vento. Quando nos sentámos, pois a novidade da situação mantinha-nos acordados, ouvíamos de vez em quando raposas a andar sobre as folhas mortas e roçar as ervas húmidas de orvalho perto da tenda e, numa ocasião, um rato-almiscareiro a tentar chegar às batatas e aos melões no barco, mas quando acorremos à margem apenas vimos uma ondulação na água a agitar o disco de uma estrela. Por vezes, ouvíamos a serenata de um pardal a sonhar ou o grito abafado de uma coruja, mas, depois de cada som que a pouca distância quebrava a quietude da noite, de cada crepitar de galhos ou sussurar das folhas, havia uma pausa súbita e fazia-se sentir um silêncio cada vez mais profundo, como se um intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de andar fora a essa hora
[THOREAU, 2018: 68]

© na Net (?)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa, Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9 


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sexta-feira

[DIA DE VÉNUS]

© na Net (?)


«de todo
voltavam desta grande festa apaixonados por ela.»

«Desde as montanhas escarpadas e cobertas de pinheiros até à planície.»
[THOREAU, 2018: 373]

«A mais familiar extensão de água, quando vista do cimo de outra colina, assume um novo e inesperado encanto. Ao fim de termos percorrido alguns quilómetros, deixamos de reconhecer os próprios contornos dos montes sobranceiros à nossa aldeia natal, e porventura nenhum homem conhece bem o horizonte observado da colina que se encontra mais perto da sua casa e é capaz de recordar com nitidez o seu contorno quando se encontra no vale. Em geral, a uma distância um pouco maior, já não sabemos de que lado estão as colinas que rodeiam as nossas casas e quintas. É como se o nosso nascimento tivesse fendido as coisas e tivéssemos sido inseridos na natureza como uma cunha, e enquanto a ferida não sarar e a cicatriz não desaparecer não começaremos a descobrir onde estamos e que a natureza é una e contínua em todo o lado. É um momento importante quando um homem que sempre viveu na vertente leste de uma montanha, e a viu a oeste, dá a volta e a vê de leste. O universo é uma esfera cujo centro está onde está a inteligência. O Sol não é tão central como o homem. No cume de uma colina isolada, em campo aberto, parece que estamos na bossa de um imenso escudo, com a paisagem mais próxima como que num plano inferior relativamente à mais distante, subindo gradualmente em direcção ao horizonte, que é a borda do escudo – mansões, campanários, florestas, montanhas, uns acima dos outros, até serem engolidos no céu. As montanhas mais distantes no horizonte parecem erguer-se directamente da margem desse lago nos bosques, junto ao qual nos encontramos casualmente, enquanto do cume da montanha não se distingue este nem um milhar de outros mais próximos e maiores.
Observados através desta atmosfera límpida, os trabalhos do agricultor, a lavra e a ceifa, tinham uma beleza aos nossos olhos que ele nunca viu. Que afortunadamente somos nós por não possuirmos um acre destas margens, mas que não renunciámos ao nosso título de propriedade sobre tudo. Quem souber apropriar-se do verdadeiro valor deste mundo será o mais pobre dos homens. Pobre rico! Tudo o que tem é tudo o que comprou. Eu, o que vejo é meu.»
[THOREAU, 2018: 386-387]


© na Net (?)

«Quando me lembro da história dessa luz ténue no nosso firmamento a que chamamos Vénus, que os antigos observavam e para onde os homens modernos ainda olham, uma chispa brilhante ligada a uma esfera oca que gira em torno da Terra, que descobrimos ser, em si, outro mundo – e de como Copérnico previu, após reflectir longa e pacientemente sobre o assunto, ainda antes de o telescópio ter sido inventado, que se algum dia o homem a viesse a ver com mais nitidez descobriria que ela tem fases como a nossa Lua, e de que menos de um século após a sua morte o telescópio seria inventado, tendo essa predição sido confirmada por Galileu – tenho, esperança de que possamos, aqui e agora, obter informação mais precisa acerca desse outro mundo cuja existência o instinto da humanidade previu durante tanto tempo. Na realidade, tudo o que chamamos ciência, bem como tudo o que chamamos poesia, é uma partícula dessa informação, rigorosa até certo ponto, mesmo sem chegar ao âmago da verdade. Se conseguimos raciocinar com tanto rigor, e assistir à maravilhosa confirmação do nosso raciocínio, no que respeita aos chamados objectos materiais e aos acontecimentos muito para além do alcance da nossa visão natural, de tal modo que a mente hesita em confiar nos seus cálculos mesmo quando estes são confirmados pela observação, porque não hão-de as nossas especulações penetrar igualmente fundo no sistema estelar imaterial do qual o outro [a exemplo de Vénus] é apenas o aspecto exterior e visível? Não há dúvida de que somos dotados de sentidos tão aptos a sondar os espaços do real, do substancial e do eterno, como sondar o universo material. Veias, Manu, Zoroastro, Sócrates, Cristo, Shakespeare, Swedenborg – eis alguns dos nossos astrónomos.»
[THOREAU, 2018: 386-387]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Quinta-feira

[DIA DE JÚPITER]

© António Freitas (31/01/2018)




«Ele pisou o chão da floresta intocada, sobre o qual
O sol omnisciente não brilhava havia eras,
Onde pasta o alce e caminha o urso temível,
Enquanto no alto das árvores corre o pica-pau.
*
Onde a escuridão o surpeendia, ele deitava-se, feliz, à noite;
Aí a manhã vermelha tocava-o com a sua luz.
*
Vá aonde for, o sábio está em casa,
O seu lar é a terra; a cúpula azul, a sua morada;
Aonde o conduz o espírito lúcido, encontra ele o seu caminho,
Pela própria luz de Deus iluminado e anunciado.»*

EMERSON*


«Uma viagem autêntica e sincera não é nenhum passatempo, mas é tão séria como o túmulo ou qualquer parte do percurso humano, e requer um grande período de preparação antes de a encetarmos. Não me refiro àqueles que viajam sentados, os viajantes sedentários, cujas pernas baloiçam o caminho todo, meros símbolos ociosos da viagem, tal como quando falamos de galinhas poedeiras não nos referimos àquelas que ficam empoleiradas**; refiro-me antes àqueles para quem viajar é vida para as pernas, e morte também, no final. O viajante deve renascer na estrada e conquistar um passaporte dos elementos, as principais forças que existem para ele. Verá também concretizada a velha ameaça da mãe de que será esfolado vivo. As chagas ir-se-ão tornando mais profundas e sararão interiormente, enquanto não der tréguas à sola dos pés, e à noite o esgotamento será a sua almofada, e assim ganhará experiência contra a adversidade. Foi isso que se passou connosco.»
[THOREAU, 2018: 342-343]

© na Net (?)

«Para o homem virtuoso, o universo é o único sanctum sanctorum, e os penetrais do templo, são o vasto apogeu da sua existência. Porque haveria ele de se recolher numa cripta subterrânea, como se fosse o único local sagrado do mundo que ele não tivesse profanado? A alma obediente mais não fará do que descobrir e familiarizar-se com as coisas e escapar-se cada vez mais para a luz e para o ar, como o fez até aqui em segredo, de tal forma que o universo nunca lhe parecerá suficientemente aberto. Acabará até por negligenciar aquele silêncio que acompanha a verdadeira modéstia, mas que, em razão da independência segura que manifesta nas suas revelações, torna tão íntimo para quem ouve aquilo que divulga, que se torna missão do mundo inteiro que a modéstia não seja infringida.
Para o homem que alberga um segredo no seu íntimo, há um segredo ainda maior por explorar. Os nossos actos mais insignificantes podem constituir matéria de secretismo, mas tudo aquilo que fazemos com a maior sinceridade e integridade, em virtude da sua pureza, tem de ser transparente como a luz.»
[ THOREAU, 2018: 346-347]

© Barros & Barros (1/01/2016)

NOTA
*Versos do poema, de Ralph Waldo Emerson(1803-1882), Woodnotes (THOREAU, 2018: 334)
**Nota do tradutor: jogo de palavras intraduzível entre sit – pousar, empoleirar-se – e sit – chocar (ovos).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Quarta-feira

[DIA DE MERCÚRIO]

 © PC

«Tínhamos uma perspectiva tão próxima
Da paisagem da nossa vida.»
[THOREAU, 2018: 274]

«Há mais do que um par de estrelas no céu,
(…) E por certo será feliz aquele
Que encontrar um num milhar.»
[THOREAU, 2018: 311]

«Quem não caminha na planície como entre as colunas de Tadmore do deserto? Não existe na Terra nenhuma instituição que tenha estabelecido a amizade. Esta não é ensinada por nenhuma religião; nenhuma escritura contém os seus princípios. Não tem qualquer templo ou coluna solitária. Há um rumor de que esta terra está habitada, mas o marinheiro naufragado não viu uma única pegada na costa. O caçador só encontrou fragmentos de objectos de cerâmica e os monumentos funerários dos habitantes.
Contudo, pelo menos os nossos destinos são sociais. Os nossos caminhos não são divergentes, mas, à medida que se entretece e preenche a teia do destino, somos projectados cada vez mais para o centro. (…)
Nenhuma palavra aflora mais vezes os lábios dos homens do que a amizade, e sem dúvida nenhuma ideia corresponde melhor às suas aspirações. Todos os homens sonham com ela, e o seu drama, que é sempre uma tragédia, é encenado todos os dias. É o segredo do universo. Podemos palmilhar a cidade, ou deambular no campo, sem que alguém alguma vez fale dela [a amizade], embora esteja sempre nos nossos pensamentos, e a ideia do que é possível a este respeito condiciona o nosso comportamento para com todos os novos homens e mulheres e muitos dos antigos*. Porém, não me lembro de mais de dois ou três ensaios acerca deste tema em toda a literatura**.»
[THOREAU, 2018: 299-300]

© DR

NOTAS
*No tocante a caminhadas e deambulações virá à colação a noção de companheirismo, tão cara a muitos dos “clássicos” praticantes de actividades de ar livre (em que me incluo) e cuja etimologia remete para a partilha do pão. Algo estreitamente ligado à noção de amizade e que, bastas vezes, é impossível de destrinçar desta vivência.
**Nesta matéria lembro-me de imediato do Livro de Amigos, de Henry Miller, cuja primeira hilariante leitura, no século passado, foi acompanhada de sonoras gargalhadas e ainda hoje me proporciona um pronto sorriso sempre que o recordo. Para mim, trata-se de uma obra incontornável, de referência mesmo, no que concerne a amigos. «Quando digo amigos, quero dizer AMIGOS. Nem qualquer pessoa ou toda a gente pode ser amigo. Tem de ser alguém tão estreitamente ligado a nós como a própria pele, alguém que ponha de parte a cor, o drama, enfim que tenha significado para a nossa vida… Uma vida sem amigos, não é vida, por muito confortável e segura que possa ser.» [MILLER, 1986]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MILLER, Henry. Livro de Amigos. Lisboa: Douro Edições, 1986, pp. 176.
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Terça-feira

[DIA DE MARTE]

©  na Net (?)

«O jovem e tenro caule
Nunca verga quando eles caminham.»
[THOREAU, 2018: 256]

«Subi as colinas a pé, sozinho, em serenos dias de Verão, colhendo framboesas à beira do caminho, e por vezes comprando pão numa quinta, com uma mochila às costas em que havia metido alguns livros de viagens e uma muda de roupa, e um cajado na mão. Nessa manhã, na montanha Hoosack, no ponto onde a estrada a atravessa, perscrutara a aldeia de North Adams, situada lá em baixo a perto de cinco quilómetros de distância, mostrando como a Terra pode ser acidentada e que o invulgar é ser plana e conveniente para as caminhadas do homem. Nesta aldeia, guardei na mochila um pouco de arroz e açúcar, bem como um púcaro de estanho, e ao início da tarde estava a escalar o monte cujo cume se encontra mil e cem metros acima do nível do mar, mas para lá chegar a pé era preciso fazer um trajecto de cerca de doze quilómetros. O caminho seguia por um longo e amplo vale chamado Fole, porque os ventos sopram com violência através dele durante as tempestades, subindo até às nuvens entre a cadeia principal e uma montanha mais baixa. Havia algumas quintas espalhadas a diferentes altitudes, cada uma delas proporcionando uma bonita vista para as montanhas a norte, e pelo meio do vale corria um ribeiro, com um moinho perto da nascente. Dir-se-ia o trilho que o peregrino teria de percorrer para chegar às portas do céu. Atravessei o campo de feno e a seguir o riacho por uma pequena ponte, continuando sempre a ascensão com uma espécie de sentimento de reverência, e expectante quando ao tipo de habitantes e ao género de natureza que iria encontrar. Afinal parecia haver algumas vantagens em a Terra ser acidentada, pois não era possível imaginar uma posição mais nobre para uma quinta do que a proporcionada por este vale, quer estivéssemos mais perto ou mais longe no seu topo, um vale estreito e solitário dominando os campos a uma grande altitude entre duas paredes montanhosas.»
[THOREAU, 2018: 209-210]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Segunda-feira

[DIA DA LUA]

© PC


«Os homens consideram que a acção é outra coisa
Que não o que leram em dissertações;
Tratar dos assuntos terrenos exige
Mais artes do que as dos vossos burocratas.»

Como na geologia, também nas instituições sociais podemos descobrir as causas de todas as alterações passadas na presente ordem invariável da sociedade. As maiores revoluções físicas são obra do ar de pés ligeiros, da água de andar furtivo e do fogo subterrâneo. Aristóteles disse: «Como o tempo nunca falta e o universo é eterno, nem o Tánais nem o Nilo correm desde sempre.» Somos independentes das mudanças que constatamos. Quanto mais longa é a alavanca, menos perceptível é o movimento. A pulsação mais lenta é a mais vital. O herói saberá quando deve esperar e quando se deve apressar. Todo o bem morará com aquele que espera sensatamente; alcançaremos a madrugada mais cedo ficando aqui do que correndo para as colinas a oeste. Estejais certos de que o sucesso de um homem está em proporção com a sua capacidade média. As flores do prado despontam e florescem onde as águas depositam anualmente o seu lodo, e não apenas onde sobem. Um homem não é a sua esperança, nem o seu desespero, nem sequer as suas acções passadas. Não sabemos ainda o que fizemos, e ainda menos o que fazemos. Esperemos até ao anoitecer e veremos refulgir partes do trabalho do dia que nem imaginávamos a meio da jornada, e descobriremos então o sentido real da nossa labuta. Como quando o agricultor, chegado ao fim do sulco que fez com o arado, olha para trás para ver onde a terra revolvida brilha mais.
[THOREAU, 2018: 156-157]

© PC

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack. Lisboa: Antígona, 2018, pp. 432. ISBN 978-972-608-300-9



terça-feira, 25 de julho de 2017

D'a (pós)modernidade

Os seres humanos são animais gregários que, desde as suas mais remotas origens, viveram em grupos/tribos, não sendo de todo frequente ou usual o individualismo, o isolamento ou a vida solitária. Essas são tendências relativamente recentes, em termos evolutivos enquanto espécie, tal como muitas concepções alternativas* que – independentemente de pretensos optimismos, pessimismos ou nem uma coisa nem outra – não passam de evidentes manifestos de basilar ignorância, de asininas confusões ou até de alarves parvoíces. A separação/especialização de tarefas já ocorria no paleolítico, é anterior ao género Homo e até se encontra esboçada em comportamentos de outras espécies actuais. E daí?... Na verdade, não se deveria confundir um bife à milanesa com um bife sobre a mesa ou uma obra prima com a prima do mestre de obras! Mas a realidade é complexa (ou somos nós que a complicamos?) e, portanto, dada a equívocos...


"Imagine o leitor que é um veado. Tem, no fundo, quatro coisas a fazer durante o dia: dormir, comer, evitar ser comido e socializar (o que significa marcar um território, perseguir um elemento do sexo oposto, cuidar de uma cria, o que seja). Não existe qualquer necessidade real de fazer muito mais. Agora imagine que é um ser humano. Mesmo que se atenha às coisas básicas, tem bastante mais que quatro coisas para fazer: dormir, comer, cozinhar, vestir-se, cuidar da casa, viajar, lavar, fazer compras, trabalhar… A lista é quase interminável. Como tal, os veados deviam ter mais tempo livre do que os seres humanos, contudo são as pessoas, não os veados, que encontram tempo para ler, escrever, inventar, cantar e navegar na internet. De onde vem todo este tempo livre? Vem da troca e da especialização, bem como da divisão do trabalho daí resultante. Um ser humano pede a outrem que o faça por ele, enquanto se dedica a fazer outra coisa pelo outro – e, dessa forma, ambos ganham tempo.
Temos pois que a autossuficiência não é o caminho para a prosperidade: «Quem teria avançado mais ao fim de um mês», perguntava Henry David Thoreau: «O rapaz que fez o seu próprio canivete com o minério que cavou e fundiu, lendo tanto quanto seria necessário para o fazer – ou o rapaz que, entretanto, assistiu a aulas de metalurgia e recebeu um canivete Rodgers do pai?» Ao contrário do que diz Thoreau, é o último, de longe, porque lhe sobra tempo para aprender outras coisas. Imagine se tivesse de ser completamente autossuficiente (não só fingir que o é, como Thoreau). Tem de se levantar de manhã todos os dias e abastecer-se apenas com os seus próprios recursos. Como passaria o seu dia? As quatro principais prioridades seriam alimentação, combustível, vestuário e abrigo. Tratar do quintal, dar de comer ao porco, ir buscar água ao regato, apanhar lenha na floresta, lavar umas batatas, acender uma fogueira (sem fósforos), cozinhar o almoço, reparar o telhado, ir buscar fetos frescos para uma nova cama, talhar uma agulha, fiar linha, coser uma pele para fazer sapatos, tomar banho no rio, fazer um pote de barro, apanhar e cozinhar uma galinha para o jantar. Não há velas, nem livros para ler. Não há tempo para fundir metal, perfurar em busca de petróleo ou viajar. Encontra-se ao nível da subsistência e, sinceramente, embora de início possa exclamar, como Thoreau, «como é maravilhoso escapar ao bulício», passados alguns dias a rotina tornar-se-ia deveras soturna. Se deseja, nem que seja a mais ínfima melhoria na sua vida – utensílios metálicos, pastas de dentes ou iluminação, por exemplo – algumas tarefas terão de ser executadas por outra pessoa, porque não terá tempo para as fazer pessoalmente." [RIDLEY, 2013: 49-51]

Pedro Cuiça © Museu Arqueológico do Tirol do Sul (Bolzano - Itália, 2016)

"Oetzi, o «homem do gelo» mumificado encontrado nos Alpes em 1991, transportava consigo tanto equipamento quanto os caminhantes que o encontraram. Tinha utensílios feitos de cobre, sílex, osso e seis tipos de madeira: freixo, viburno, lima, cornizo, teixo e bétula. Usava roupas de erva entrelaçada, casca de árvore, tendões e quatro tipos de cabedal: pele de urso, couro de veado, couro de cabra e pele de veado. Levava consigo duas espécies de fungos, um como remédio, outro parte de um conjunto de apetrechos para fazer fogo que incluía uma dezena de plantas e pirite para fazer faíscas. Era uma enciclopédia ambulante de conhecimento acumulado – conhecimento de como fazer utensílios e roupa, bem como dos materiais com que estas eram feitas. Levava consigo as invenções de dezenas, talvez milhares de pessoas. Se tivesse de inventar do nada todo aquele equipamento seria um génio. No entanto, mesmo que soubesse o que fazer e como fazê-lo, se tivesse passado os seus dias a recolher todos os materiais de que necessitava só para a comida e para a roupa (já para não falar do abrigo e das ferramentas), iria além dos seus limites, quanto mais se tivesse de fundir, curtir, coser, moldar e afiar tudo. Estava sem dúvida a consumir o trabalho de muitas outras pessoas e a dar o seu em troca. (…) Oetzi viveu há cerca de 5300 anos no vale alpino, dois mil anos depois de a agricultura ter chegado ao Sul da Europa." [RIDLEY, 2013: 157-158]


*NOTA: Concepções alternativas são “formas de ver/pensar”, intuitivas ou promovidas através de aprendizagens, que não coincidem com a realidade factual e concreta. Uma concepção alternativa é diferente de um simples erro. Os erros podem ser identificados e corrigidos perante a evidencia/demonstração da respectiva concepção correcta. No entanto, as concepções alternativas são, muitas vezes, persistentes e difíceis de corrigir/eliminar, podendo constituir importantes obstáculos à correcta interpretação do mundo em geral e/ou de fenómenos em particular.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RIDLEY, Matt. O Otimista Racional – Como Evolui o Bem-estar. Lisboa: Bertrand Editora, 2013, pp. 528. ISBN 978-972-25-2624-1

terça-feira, 18 de julho de 2017

Walden (II)


Na sequência da comemoração dos 200 anos sobre o nascimento de Henry David Thoreau e coincidindo com o convite da editora Antígona de «nesta silly season (…) seguirmos o espírito insubmisso do autor e trocarmos a estância balnear pelo rumor dos bosques e a água fresca dos rios», publicamos mais um conjunto de intervenções efectuadas no âmbito da iniciativa Porquê Ler os Clássicos? 

Ana Sofia Cardoso © Thoreau na Antígona (2017)

Conclusão (5/5/2011 00:54) 
No capítulo XVIII (“Conclusão”), que finaliza “Walden ou A Vida nos Bosques”, Thoreau volta a acentuar a sua faceta moralista, à semelhança do que fez no capítulo de abertura da obra. Mas ao contrário do capítulo I no qual o autor explica porque é que decidiu ir para o Walden, desta feita centra-se na justificação do porquê de abandonar o lago.
David Henry Thoreau foi instalar-se nos bosques à beira do lago Walden para VIVER. “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a aos seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então na sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão.” (p. 108)
Thoreau viveu uma experiência sublime, soube explicá-la e resolveu que a mesma estava cumprida sendo o momento de partir para outra… “Os médicos, com sabedoria, recomendam aos enfermos mudança de clima e de ambiente.” (p. 347)  “A nossa viagem é apenas um grande círculo de navegação, (…).” (p. 347), uma peregrinação ou peregrinações que não só poderão como deverão seguir vários rumos; numa descoberta, mais do que externa, do interior, uma viagem do “self”. “Olhai bem a vossa mente, nela pela certa Encontrareis mil regiões não descobertas. Percorrei-as, que assim sereis um dia Conhecedor da própria cosmografia.” (p. 348)
Que representam as conquistas ou descobertas geográficas comparadas com as dos “próprios rios e oceanos”? Thoreau desafia: “explorai as mais remotas das vossas próprias latitudes, (…) sede um Colombo de todos os novos continentes e mundos que existem dentro de vós, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento” (p. 348). Thoreau não só desafia como exprime surpresa perante os homens que “amam o solo pátrio” mas não sentem nenhuma simpatia pelo espírito que ainda lhes anima o barro” (p. 348). E, nesse contexto, exprime a necessidade do conhecimento de si próprio. Como amante dos clássicos, Thoreau segue a máxima desenvolvida no seio do movimento reformador da Grécia Antiga, a prisca theologia de Marsilio Ficino, que passa por Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e continua com os neoplatónicos e com os cristãos gnósticos: “Conhece-te a ti próprio”. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser (…).” (p. 350)
Thoreau, que tanto importância dava aos ciclos naturais, alerta simultaneamente para a importância de não cair em rotinas, de trilhar novo caminhos pessoais. “Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo naquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecermos para nós um trilho batido.” (p. 350) “A superfície da terra é macia e sensível aos pés dos homens; o mesmo acontece com as veredas por onde a mente viaja. (…) Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo!” (p. 351)
“Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; (…). À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-de parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.” (p. 351)
Thoreau não teme a busca de si próprio, dos seus caminhos, receia é não ser suficientemente ousado. “Temo sobretudo que a minha expressão não seja suficientemente extra-vagante, que não se aventure bastante além dos estreitos limites da minha experiência diária, de modo a adequar-me à verdade de que me convenci. Extra vagância” Esta depende de quanto estais encurralados. (…) Desejo falar sem papas na língua seja onde for; como um homem em estado de alerta a outros homens em estado de alerta; pois estou convicto de que não posso exagerar tanto a ponto de lançar as fundações de uma expressão verdadeira. Quem é que, depois de ter ouvido uma composição musical, recearia falar extravagantemente? (…) O senso mais comum é o dos homens adormecidos, que o exprimem roncando.” (p. 352)
“Deverá um homem enforcar-se por pertencer à raça dos pigmeus, em vez de ser o maior pigmeu, em vez de ser o maior pigmeu que puder? (…) Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente.” (p. 353)
Ao fim ao cabo, o autor de “Walden e a Vida nos Bosques” defende uma busca ousada dos próprios rumos, daquilo em que acredita. E, nesse pressuposto, conta a história de Kouru, o “artista disposto a buscar a perfeição”, que decidiu “fazer um bastão” (p. 354) mas acabou por fazer “um novo sistema (p. 355). Thoreau defende não só a plenitude de viver, como viver a/na verdade. “Nenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trará por fim tanto proveito como a verdade. Só ela assenta bem. (…) Dizei o que tendes a dizer, e não o que deveis dizer. Qualquer verdade é melhor que o fingimento.” (p. 355) Voltamos aos capítulos primeiros, ao fecho do ciclo “Walden”, nos quais Thoreau elogia e “pobreza voluntária” (p. 29) e proclama a necessidade primordial de viver de forma simples: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade!” (p. 109) E VERDADE!
Thoreau não só incita ao cultivo da “pobreza como um jardim de ervas, de salva.” (p. 356) como alerta para a frivolidade e “algazarra dos meus contemporâneos” (p. 357). “Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade, Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes.” (p. 358-359) Sim, VIVER a/na VERDADE!
“Mais do que amor, dinheiro, fama, concedam-me verdade. Sentei-me a uma mesa que exibia comida sofisticada e vinho em abundância, uma companhia subserviente, mas onde não existia sinceridade e verdade; e parti faminto da mesa hostil. A hospitalidade era fria como gelo.” Esta passagem de “Walden” estava sublinhada num dos livros encontrados junto aos restos mortais de Chris McCandless. No topo da página McCandless tinha escrito à mão e em grandes letras maiúsculas a palavra “VERDADE” (Krakauer in “O Lado Selvagem”, 2010, p. 132).
Nesta conclusão talvez não sejam tão despropositadas como, a primeira vista possa parecer, as frases já proferidas neste fórum: “ Estar vivo é o contrário de estar morto” e “A verdade é o contrário da mentira”!
“A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.” (p. 362) “Compreendestes a vastidão da Terra? Onde fica o caminho para a morada da luz, e qual é o lugar da escuridão?...” (O Livro de Job)
Se tivesse de escolher o pensamento ou a frase lapidar de “Walden ou A Vida dos Bosques” seria aquela que destaquei pela primeira vez como frase favorita neste fórum: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (…) Simplificar, simplificar, simplificar.” (p. 109).


Referência bibliográfica
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Edições Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8