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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Caminhadas Solitárias



Então Zaratustra disse-lhes que preferia prosseguir sozinho o seu caminho, porque era amigo das caminhadas solitárias.
[NIETZSCHE, 1985: 83]

Há sentimentos que procuram matar o solitário; se o não conseguem, então, que seja ele a matá-los!
[NIETZSCHE, 1985: 71]

A minha sageza selvagem foi fecundada nas solidões das montanhas; nas pedras áridas pariu o seu filho (...).
[NIETZSCHE, 1985: 92]




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friederich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A Roda do Ano



As flores silvestres da macieira talvez sejam as mais belas das flores de todas as árvores, tão abundantes e deliciosas para a vista como para o olfacto. É frequente o caminhante sentir-se tentado a dar meia-volta para se atardar perto de uma árvore extraordinariamente bela, com flores dois terços abertas. (…)
As primeiras maçãs começam a amadurecer por volta do primeiro de Agosto; mas creio que nenhumas são tão boas para comer como algumas para cheirar. Para perfumar os nossos lenços, uma só destas maçãs é superior a qualquer perfume vendido numa loja. (…)
Deste modo, em todos os produtos naturais existe uma determinada característica volátil e etérea que representa o seu valor mais elevado, e que é impossível banalizar, comprar ou vender. (…)
Em Outubro, com a queda da folha, distinguem-se melhor as maçãs nas árvores.
[THOREAU, 2016: 29-33]


Os europeus que chegaram à América ficam surpreendidos com o esplendor da nossa folhagem outonal. Não há referência a qualquer fenómeno semelhante na poesia inglesa, poi ali as árvores adquirem poucas cores vivas. Quase tudo o que Thomson diz sobre este assunto no seu poema «Outono» está contido na seguinte estrofe:

«Mas vede os evanescentes boques de muitas
cores,
Matizes sobrepostos, mais e mais profundos,
obscurecidos
Os campos em redor; uma sombra cerrada,
obscura e penumbrosa,
De todos os cambiantes; desde o verde desmaiado
Até ao negro-fuligem.»

E também no verso em que se fala de

«o Outono radioso sobre os bosques amarelos.»

A transformação outonal dos nossos bosques ainda não deixou uma marca profunda na nossa literatura. Outubro mal coloriu a nossa poesia.
Um grande número de pessoas, as que passaram a vida em cidades e nunca se aventuraram a vir ao campo nesta estação, nunca viu isto: a flor, ou antes, o fruto maduro, do ano.
[THOREAU, 2016: 83-84]



NOTA
Já tinha Maçãs Silvestres & Cores de Outono há alguns meses aguardando a respectiva leitura. Agora com o Equinócio outonal chegou a altura propícia para me adentrar nessa obra de Thoreau: uma referência bibliográfica no âmbito da nature writing. Para alguns aproxima-se o final de mais um ano e/ou o início de outro, para mim trata-se de mais um marco significativo e substancialmente significante da Roda do Ano: aquele que anuncia a estação minha preferida...



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Maçãs Silvestres & Cores de Outono. LISBOA: Antígona, 2016, pp. 166. ISBN 978-972-608-281-1



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Connection walking


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor

It was Rousseau who elevated walking into a true mode of philosophical reflection and introspective self-discovery that could liberate the oppressed self from the detrimental influences of corrupt society. Because for Rosseau society is governed by the debilitating norms of courteous behaviour, he advocates solitary walking as a way of recuperating an authentic connection with one’s innermost self. In Book Nine of the Confessions (1782) he states : ‘je ne puis méditer qu’en marchant ; sitôt que je m’arrête, je ne pense plus, et ma tête ne va qu’avec mes pieds’ (I can meditate only when walking ; as soon as I stop I can no longer think, for my mind moves only when my feet do). And in the Second Walk of The Rêveries du promeneur solitaire (Reveries of a Solitary Walker, 1782) he observes : ‘Ces heures de solitude et de méditation sont les seules de la journée où je sois pleinement moi et à moi sans diversion, sans obstacle, et où je puisse véritablement dire être ce que la nature a voulu’ (These hours of solitude and meditation are the only time of the day when I am completely myself, without distraction and hindrance, and when I can truly say that I am what nature intended me to be). The experience of an authentic self also prepares the ground for the detailed observation of the intricacies of nature : in the Fifth Walk Rosseau recounts how he went botanising on the Swisss island of St Pierre equipped with his magnifying glass and a copy of Linnaeus’ Systema naturae. Besides its therapeutic goal, walking in nature was for Rosseau and his contemporaries an indispensable mode of geographical, botanical and geological exploration of the natural world.
[FUCHS, 2016 : 202]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mindfull Walking

Some coaching psychologists have already started integrating coaching with mindfull walking with nature (O’Donovan, 2015). Clearly, ecopsychology research is very relevant for health and wellbeing coaching too.
In conclusion, the hope is that by using relative simple evidence-based ecopsychological interventions, wellbeing can be enhanced for individuals, groups and communities. Perhaps effective coaching is self-coaching, and simple ecopsychological interventions are relatively easy to persuade oneself to undertake.
[PALMER, 2015: 14]

Pedro Cuiça © Mindfull Walking With Nature (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PALMER, Stephen. Can ecopsychology research inform coaching and positive psychology practice?. International Society for Coaching Psychology; Coaching Psychology International, vol. 8, pp. 11-15. ISSN 1758-7719

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Caminhadas terapêuticas


Escritores como Thoreau (…) exprimiram o que muitos pensavam no ensaio Caminhada: “Creio que só consigo preservar a minha saúde e o meu ânimo se passar pelo menos quatro horas por dia – e costuma ser mais do que isso – a deambular pelos bosques, nas colinas e nos campos, completamente livre de todos os compromissos mundanos”. Isto são claramente banhos de floresta muito antes de a expressão existir. Thoreau viveu em tempos muito mais agrários, logo, mais ligados aos ciclos e ritmos naturais da floresta. Grande parte dessa ligação foi-se perdendo à medida  que a nossa  consciência cultural foi sendo cada vez mais moldada pela tecnologia, pela indústria e por uma orientação para a produtividade. Vivemos num tempo que pede uma renovação da nossa ligação ancestral às florestas.
[CLIFFORD, 2018: 27]

 © Algures na Net

NOTAS
· Os banhos de floresta são por vezes apelidados de “antiga prática japonesa do Shinrin-youku”. Na realidade, não é bem assim. Para começar, a expressão não é antiga, foi criada em 1982 por Tomohide Akiyama, então director da Agência Japonesa da Floresta. A ideia era desenvolver uma identidade de marca única, associando as visitas às florestas com o ecoturismo orientado para a saúde e o bem-estar. Mas isso não significa que os banhos de floresta não tenham raízes ancestrais. [CLIFFORD, 2018: 22]
· Amos Clifford fundou, em 2012, nos Estados Unidos da América, a Association of Nature and Forest Therapy Guides and Programs – ANFT (Associação de Guias e Programas Terapêuticos da Natureza e da Floresta).
· Os efeitos terapêuticos do contacto com a natureza em geral e com as florestas em particular são sobejamente conhecidos, e ancestralmente intuídos, tendo suscitado um crescente interesse nas últimas décadas, a par da brutal destruição das áreas naturais selvagens (wilderness) e suas sucedâneas (sistemas semi-naturais), da domesticação e desnaturalização dos seres humanos e da comercialização de praticamente todos os sectores da vivência humana, mormente das actividades ditas "out-door"!

Pedro Cuiça © Passadiços do Paiva (2018)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CLIFFORD, M. Amos. O Guia dos Banhos de Floresta. Alfragide: Lua de Papel, 2018, pp. 176. ISBN 978-989-23-4255-9


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Bond

A Bond...



Naked Experience

© PC

«[] animism in most cases affirmatively stands for the proposition that everything is alive and animated – even stones, rivers, and other allegedly “dead objects”. Nevil Drury puts it directly: “Shamanism is really applied animism, or animism in practice”. And Jonathan Horwitz clarifies: “Animism for the animist is not a belief: it is the way life is experienced. All objects do contain a life is experienced. All objects do contain a life essence of their own, and as such do also contain power” (1999: 220). Indeed, the relation is so strong that sometimes the two concepts seem to converge, as becomes obvious in Horwitx’s statement: “The word shamanism has become over-used and really very over-worked. A lot of the time when people say ‘shamanistic’, they actually mean animistic – a perception of the world as it truly is, with all things alive and in connection. ‘Animism’ is the awareness of our connection to the world that is the foundation of the practice of shamanism. These two things are inseparable” (1995: 7).
The shamanic journey is designed as a means to communicate with those layers of reality that are not accessible in normal states of consciousness. Considering all things alive, the shaman tries to learn the language of different entities, and in nonordinary reality she or he is able to talk to them in order to get advice or help. It is this communicative aspect that Joan Halifax has in mind when she says, “The sacred languages used during ceremony or evoked in various states of consciousness outside culture (if we are Westerns) can move teller, singer, and listener out of the habitual patterns of perception. Indeed, speaking in the tongues of sea and stone, bird and beast, or moving beyound language itself is a form of perceptual healing” (92).
Beginning with the 1960s, there were increased discussions concerning the sacred dimensions of nature that entailed both participation throught man’s awareness and protection through environmental efforts (for an excellent survey, see Taylor 2001a, 2001b). In this context, the adaptation of Buddhist philosophy – like that being studied in the Esalen Institude in California – was a driving force. At times, the various lines of tradition come together in single persons. One example would be Joan Halifax; another one would be the famous poet and activist Gary Snyder, who spoke of himself as “Buddhist-Animist”. Snyder also was involved in the radical environmental movement Earth First! (Devall and Sessions; Taylor 1994, 1995). Hence, the animistic attitude is by no means restricted to neoshamanic circles. Instead, it is part of a larger flow of the sacralization of nature – Naturfrömmigkeit – which spread from North America and Europe during the last two decades. From this perspective, shamanism can be addressed as a kind of ritualized way of experiencing nature. Snyder says that “the practice of shamanism in itself has at its very center a teaching from the non-human, not a teaching from na Indian medicine man, or a Buddhist master. The question of culture does not enter into it. It’s a naked experience that some people have out there in the woods” (in Grewe-Volpp: 141). On another occasion Snyder assures us that poetry and song are among “the few modes of speech… that [provide] access to that other yogic or shamanistic view (in which all is one and all is many, and many are all precious)” (13-14).
The shamanic journey can help put mystic experiences, for instance, on wilderness trips, into a ritualized form that not only conceptualizes the experience but also gives evidence and coherence to it. By means of this framing, those experiences are controllable and repeatable.»
[STUCKRAD, 2002: 779-780]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
STUCKRAD, Kocku von. Reenchanting Nature: Modern Western Shamanism and Nineteenth-Century Thought. Journal of the American Academy of Religion, December 2002, Vol. 70, Nº 4, pp. 771-799.



quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Estamos Juntos


«Um homem é como uma árvore. Sob as devidas condições, desenvolve ramos. Os ramos são os ícaros.»
Piers Vitebsky in The Shaman (Duncan Baird Publishers, 1995)

Na Roda do Ano, entre o Solstício do Verão e o Equinócio outonal… Hoje e sempre. Quando formamos um círculo estamos a manifestar que somos parte da totalidade. Há um ponto no fundo de nós que está unido a todos os outros. Se descermos nas profundezas do Ser entramos em conecção com todas as outras criaturas. Estático, andando a pé e/ou voando entre os mundos…

 © Fire Chant (pintura de um aluno de Red Cloud Indian School – Pine Ridge Indian Reservation, 2012)

Mitakuye Oyasin
(We are all related)

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Experiências cognitivas



Le transcendantalisme prône la méditation, l’observation et la contemplation afin de parvenir à une conscience plus grande de la «réalité ultime», appelée par [Ralph Waldo] Emerson da «Surâme» et par [Henry David] Thoreau la «sympathie avec l’intelligence». Il se démarquait des movements évangéliques qui se référaient toujours aux Écritures. Selon la doctrine transcendantalisme, il faut chercher dans la Nature une vérité et une perfection épiphanique. «L’immanence de Dieu dans la Nature rend possible l’expérience directe du sacré, écrit Michel Granget, dans la contemplation de ses productions multiples, et comme il existe des correspondances sous-jacentes entre l’âme humaine et la Nature, entre le microcosme de l’esprit et la Surâme, l’observation des phénomènes naturels permet d’accéder à une compréhension supérieure des lois qui régissent l’homme. Des nombreux transcendantalistes font ce qu’ils appelaient des «appréhensions intuitives» du réel, en fait d’ordre mystique, au sens épistémologique du terme : elles étaient avant tout, comme l’explique Sherman Paul, «une expérience cognitive».
[Thierry Gillyboeuf in THOREAU, 2011: 80-82]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Résister – à la tentation du laissez-faire, au réformisme, à l’esprit commercial des temps modernes. Paris: Librairie Arthème Fayard, 2011, pp. 96. ISBN 978-2-75550-623-5


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Foca-te



Os psicólogos estão, desde há muito, fascinados pelo conceito da atenção, embora ele tenha adquirido outro fôlego nesta nossa era da distração, ou, como Paul Atchley a designou, nesta «economia da atenção».
A atenção é a nossa moeda de troca, e é preciosa. O filósofo William James, pioneiro da psicologia experimental e irmão de Henry James, dedicou um capítulo inteiro do seu clássico The Principles of Psychology, publicado em 1890, à atenção. Nele, o autor afirma o seguinte: «Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente []» e «A minha experiência é aquilo a que me convém atender [] Sem interesses seletivos, a experiência é o caos total». James dividiu a atenção em dois tipos fundamentais que continuam a definir a maneira como pensamos sobre ela: atenção voluntária e ativa (quando, por exemplo, desempenhamos tarefas) e atenção involuntária ou reflexiva (quando algo exige o nosso foco, como um ruído, um som, um jogo de luz ou mesmo um pensamento errático). Décadas antes do surgimento das mensagens de texto, os filósofos estavam preocupados com o que James descrevia como sendo «um estado de confusão, desorientação e dispersão a que os franceses chamam distração». (Antes de deixarmos William James, não posso deixar de mencionar que ele sofria de depressão e que viveu uma experiência transformadora ao percorrer as montanhas Adirondack em 1898. Tal como descreveu à sua mulher, ficou «num estado de abertura espiritual com os mais vitais contornos». Emerson era seu padrinho e, talvez por isso, tenha sido preparado para aderir voluntariamente a esta possibilidade.)
James sabia que permanecer concentrado numa tarefa era um trabalho muito difícil e que, sem esta capacidade, como [Clifford] Nass veio a confirmar, nos tornamos mais estúpidos, pelo menos de acordo com certos padrões (segundo outros, as distracções da era digital podem ser uma troca razoável por aquilo que os nossos cérebros ganham com o acesso a mais informação e a maior armazenamento de memória). Curiosamente, contudo, também ficamos limitados na nossa capacidade de captar o meio envolvente porque, de outra forma, os nossos cérebros ficariam sobrecarregados de estímulos. O nosso campo visual torna-se bastante reduzido, a nossa audição também sai prejudicada e não conseguimos sequer processar a maior parte do que ouvimos e «vemos». Só conseguimos prosperar no mundo porque os nossos cérebros são muito bons a fazer triagens automáticas.
[WILLIAMS, 2018: 52-53]


NOTA
A atenção/concentração é algo que pode e deve ser treinado e, nesse contexto, as caminhadas constituem uma prática privilegiada para o desenvolvimento dessa capacidade. Fizemos interessantes experiências nesse âmbito, a nível da atenção plena, de elevados níveis de atenção e da atenção com fins terapêuticos tendo obtido invariavelmente interessantíssimos resultados. A prática regular de meditação, e a própria integração dessa prática nas caminhadas, incrementa substancialmente a capacidade de "foco"...
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8

terça-feira, 5 de junho de 2018

Dizem que é...

Dizem que é Dia do Ambiente!

«Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.»
Álvaro de Campos (1916)

«O meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.»
Álvaro de Campos (1934)

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…»
Alberto Caeiro (1946)

Bill Anders © Nascer da Terra (Apollo 8, Dezembro de 1968)

Hoje que se comemora o Dia Mundial do Ambiente será uma ocasião auspiciosa para abordar “novas” perspectivas de (re)ligação à Terra1, na sequência não só de diversas intervenções da nossa parte sobre o andar a pé – de que se destaca a palestra Caminhada Holotrópica (2017) – como também, e ademais, sobre formas holísticas de estar/ser (n)o mundo. É sobre esta última abordagem que gostaríamos de nos focar tendo em conta, no nosso entender, a sua pertinência. Foi, aliás, neste contexto que sentimos a premência de apresentar um Pedisfesto Ecológico (2018), uma espécie de manifesto às avessas, aparentemente paradoxal e antinómico, com o objectivo de alertar para a necessidade de adoptar perspectivas diversas e essencialmente inclusivas, com vista a (tentar) resolver a vigente situação de “desastre ambiental”.
Ao contrário do que é usual, neste dia, não iremos falar sobre o choque perante a destruição da biodiversidade (a 6ª extinção em massa), a lixeira em que estamos a transformar o planeta Terra, o envenenamento da Biosfera ou as tão propaladas alterações climáticas, entre outras calamidades. Interessa-nos mais o maravilhamento face à imensidão do espaço-tempo e à pluralidade de interrelações entre os seres bióticos e abióticos ou o bem-estar estético de fazer parte de uma paisagem.  E isto porque consideramos que a origem e a resolução desses e de outros problemas, ditos “ambientais” (!), está nos modos de pensar/agir e não em paliativos “mais do mesmo”. A revolução terá inevitavelmente de passar pela transformação dos padrões psicológicos e comportamentais vulgares, designadamente através de uma crescente sensibilidade e sensibilização a nível da ecoliteracia, ecopsicologia e eco-espiritualidade que se traduza numa ecologia activa (engaged ecology). E é nesse contexto de transição que toma uma especial relevância a convivência de aparentes opostos e o respeito pela diferença.

Terra e Lua © Algures na Net

A maior sofisticação será ir às origens com saudades do futuro. Por um lado, religar-se ao primevo, ir ao encontro da Natureza, que o mesmo é dizer da sua natureza enquanto ser humano – porque nós somos Natureza – através, por exemplo, de processos de rewilding: caminhadas ao ar livre, banhos de floresta, ordálios na natureza selvagem, etc.. Por outro, estar (pre)disposto a inovadoras formas de pensar/agir, mormente ser cidadão do mundo, respeitar a diversidade na unidade e acabar com os “tribalismos”: abolir o paradigma vulgar e grosseiro de “nós somos os bons e os outros são os maus”2! Nos tempos que vivemos aquilo de que precisamos não é tolerância mas sim respeito: ir ao encontro do outro e tentar/experimentar tantas aproximações quantas as que forem necessárias para compreender a(s) diferença(s), aprender com o que é diferente e… mudar para melhor. É fundamental usufruir as múltiplas cores do real, como um arco-íris pleno de possibilidades e de diversidade: a realidade não é a preto e branco; nem sequer é verde! E, muitíssimo importante, coisas simples, como andar a pé, têm a gigantesca capacidade de mudar o mundo.

«Não te esqueças de fazer o pino e, 
olhando os pés, ver as estrelas.»
As estrelas e as copas das árvores...

Pedro Cuiça © Lisbon Lunch Walk (5 de Junho de 2018)


NOTAS
1 · Nós somos Terra ou terráqueos, que é dizer o mesmo. O étimo de humano em latim é humus (terra) e será oportuno lembrar o parentesco entre a palavra hebraica adam (homem) e adamah (terra).
2 · Neste contexto, virá à colação um episódio que ocorreu durante uma visita que efectuei, no dia 22 de Outubro de 2015, ao Museu Nacional da Montanha, da Coreia do Sul, no âmbito na Assembleia-Geral da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Nesse dia, tive também a grata oportunidade de assistir a uma interessantíssima palestra por parte do antropólogo e alpinista sul-coreano Young Hoon Oh, na altura doutorando na Universidade da Califónia, sob o título: History and Philosophy of Korean Mountaineering: from an East Asian Perspective. Essa encomiástica intervenção sobre as cosmologias coreanas – com base no confucionismo, no budismo e na denominada “geoecologia coreana” –, responsáveis designadamente por uma intimidade única com a paisagem montanhosa, contrastou com o “cenário” de conquista atribuído aos alpinistas ocidentais! No final da palestra interpelei Young Hoon e transmiti-lhe que essa sua perspectiva era compreensível e assaz “correcta” como generalização mas que eu, enquanto ocidental, me sentia algo “ofendido” tendo em conta que não me revia, de todo, nesse perfil de conquistador, insensível e apartado da Natureza. Na verdade sentia-me cidadão do mundo e a sensação com que fiquei foi mais de estupefacção do que propriamente de ressentimento.
Saliente-se que, no contexto da Assembleia-Geral da UIAA de 2015, foi lançado o programa Respect the Mountains e aprovada a Climate Change Declaration (Declaração das Alterações Climáticas), proposta conjuntamente pelo Club Alpino Italiano (CAI) e pela Nepal Mountaineering Association (NMA). O texto final dessa declaração expressou a preocupação pelos impactes ambientais negativos das alterações climáticas na Terra em geral e nas áreas montanhosas e suas comunidades em particular. Destaque-se igualmente a atribuição do UIAA Mountain Protection Award 2015 ao KTK-BELT (Koshi Tappu Kanchenjunga Biodiversity Education Livelihood Terastudio) pelo seu importante trabalho contra a desflorestação.
Os tempos devem ser de cooperação a nível internacional, nacional, regional e local. A Terra é o condomínio global de uma Humanidade policromática e diversificada que tem de conviver e coexistir da melhor forma...

 DR © Museu Nacional da Montanha (Coreia do Sul - Out. 2015)

Shinrin-yoku


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)

Os japoneses não acreditam que as pessoas ocupam um lugar especial acima da Natureza; as pessoas e o mundo natural são semelhantes. (…) Há um sentimento semelhante descrito num livro do escritor japonês Isamu Kurita, chamado A Flower Journey. Nele, o autor observa que “no Ocidente, as pessoas olham para as flores. Na Ásia, vivem com elas”. Esta ideia de vínculo estreito entre japoneses e Natureza não é nada de novo. Em vários poemas antigos, como os de Ki no Tsurayuki e Ono no Komachi, escritos há aproximadamente 1000 anos, as vidas e aparências dos poetas são comparadas às das flores.
Masao Watanabe, professor emérito da Universidade de Tóquio, expressou, numa edição de 1974 da revista Science, a sua opinião sobre a forma como os japoneses veem a Natureza. “De acordo com a religião cristã, que é seguida na sociedade ocidental, tudo no céu e na terra foi criado por Deus. Dentro dessa conceção, o homem é uma criação especial e existe uma separação clara entre o homem e o resto da criação”, observou. “Podemos dizer que o lugar do ser humano, e só do ser humano, enquanto criação especial acima de tudo o resto que foi criado, está na origem da visão que o mundo ocidental tem da Natureza. Além disso, o homem ocidental opõe-se à Natureza, e no Japão o homem faz parte da Natureza.”
No mesmo artigo, Haruhiko Morinaga analisa a questão do absolutismo ocidental versus a relatividade oriental e utiliza o exemplo seguinte para ilustrar essas profundas diferenças culturais. Se alguém perguntar: “Uma baleia não é um peixe, ou é?”, um japonês responderia: “Sim, claro. Uma baleia não é um peixe”, para concordar com quem fez a pergunta. Mas um ocidental simplesmente responderia: “Não, não é um peixe.” A resposta do ocidental é a simples constatação de um facto, enquanto a da pessoa japonesa é relativa à pergunta. Este absolutismo ocidental e a relatividade oriental também se podem aplicar ao relacionamento que os japoneses têm com a Natureza.
[MIYAZAKI, 2018: 46]

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (3 de Junho de 2018)

No Japão, existe uma forma de medicina preventiva notável que está a ser praticada por um número crescente de pessoas. Apesar de inicialmente ter sido sustentada pela intuição, esta medicina é agora suportada por uma investigação científica consistente que confirma os seus vários benefícios.
A expressão shinrin-yoku foi cunhada em 1982 por Tomohide Akiyama, diretor da Agência Florestal Japonesa. Traduzido à letra, significa “banhos de floresta”, e utiliza-se de uma forma similar às expressões “banhos de sol” ou “banhos de mar”. Não estamos literalmente a tomar um banho, mas a banhar-nos no ambiente da floresta, utilizando todos os nossos sentidos para experienciarmos a Natureza de perto.
[MIYAZAKI, 2018: 9]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MIYAZAKI, Yoshifumi. Shinrin Yoku – A terapia japonesa dos banhos de floresta que melhora a sua saúde e bem-estar. Porto: Albatroz, 2018, pp. 192. ISBN 978-989-739-040-1