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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Experiências cognitivas



Le transcendantalisme prône la méditation, l’observation et la contemplation afin de parvenir à une conscience plus grande de la «réalité ultime», appelée par [Ralph Waldo] Emerson da «Surâme» et par [Henry David] Thoreau la «sympathie avec l’intelligence». Il se démarquait des movements évangéliques qui se référaient toujours aux Écritures. Selon la doctrine transcendantalisme, il faut chercher dans la Nature une vérité et une perfection épiphanique. «L’immanence de Dieu dans la Nature rend possible l’expérience directe du sacré, écrit Michel Granget, dans la contemplation de ses productions multiples, et comme il existe des correspondances sous-jacentes entre l’âme humaine et la Nature, entre le microcosme de l’esprit et la Surâme, l’observation des phénomènes naturels permet d’accéder à une compréhension supérieure des lois qui régissent l’homme. Des nombreux transcendantalistes font ce qu’ils appelaient des «appréhensions intuitives» du réel, en fait d’ordre mystique, au sens épistémologique du terme : elles étaient avant tout, comme l’explique Sherman Paul, «une expérience cognitive».
[Thierry Gillyboeuf in THOREAU, 2011: 80-82]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Résister – à la tentation du laissez-faire, au réformisme, à l’esprit commercial des temps modernes. Paris: Librairie Arthème Fayard, 2011, pp. 96. ISBN 978-2-75550-623-5


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Foca-te



Os psicólogos estão, desde há muito, fascinados pelo conceito da atenção, embora ele tenha adquirido outro fôlego nesta nossa era da distração, ou, como Paul Atchley a designou, nesta «economia da atenção».
A atenção é a nossa moeda de troca, e é preciosa. O filósofo William James, pioneiro da psicologia experimental e irmão de Henry James, dedicou um capítulo inteiro do seu clássico The Principles of Psychology, publicado em 1890, à atenção. Nele, o autor afirma o seguinte: «Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente []» e «A minha experiência é aquilo a que me convém atender [] Sem interesses seletivos, a experiência é o caos total». James dividiu a atenção em dois tipos fundamentais que continuam a definir a maneira como pensamos sobre ela: atenção voluntária e ativa (quando, por exemplo, desempenhamos tarefas) e atenção involuntária ou reflexiva (quando algo exige o nosso foco, como um ruído, um som, um jogo de luz ou mesmo um pensamento errático). Décadas antes do surgimento das mensagens de texto, os filósofos estavam preocupados com o que James descrevia como sendo «um estado de confusão, desorientação e dispersão a que os franceses chamam distração». (Antes de deixarmos William James, não posso deixar de mencionar que ele sofria de depressão e que viveu uma experiência transformadora ao percorrer as montanhas Adirondack em 1898. Tal como descreveu à sua mulher, ficou «num estado de abertura espiritual com os mais vitais contornos». Emerson era seu padrinho e, talvez por isso, tenha sido preparado para aderir voluntariamente a esta possibilidade.)
James sabia que permanecer concentrado numa tarefa era um trabalho muito difícil e que, sem esta capacidade, como [Clifford] Nass veio a confirmar, nos tornamos mais estúpidos, pelo menos de acordo com certos padrões (segundo outros, as distracções da era digital podem ser uma troca razoável por aquilo que os nossos cérebros ganham com o acesso a mais informação e a maior armazenamento de memória). Curiosamente, contudo, também ficamos limitados na nossa capacidade de captar o meio envolvente porque, de outra forma, os nossos cérebros ficariam sobrecarregados de estímulos. O nosso campo visual torna-se bastante reduzido, a nossa audição também sai prejudicada e não conseguimos sequer processar a maior parte do que ouvimos e «vemos». Só conseguimos prosperar no mundo porque os nossos cérebros são muito bons a fazer triagens automáticas.
[WILLIAMS, 2018: 52-53]


NOTA
A atenção/concentração é algo que pode e deve ser treinado e, nesse contexto, as caminhadas constituem uma prática privilegiada para o desenvolvimento dessa capacidade. Fizemos interessantes experiências nesse âmbito, a nível da atenção plena, de elevados níveis de atenção e da atenção com fins terapêuticos tendo obtido invariavelmente interessantíssimos resultados. A prática regular de meditação, e a própria integração dessa prática nas caminhadas, incrementa substancialmente a capacidade de "foco"...
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8

terça-feira, 5 de junho de 2018

Dizem que é...

Dizem que é Dia do Ambiente!

«Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.»
Álvaro de Campos (1916)

«O meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.»
Álvaro de Campos (1934)

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…»
Alberto Caeiro (1946)

Bill Anders © Nascer da Terra (Apollo 8, Dezembro de 1968)

Hoje que se comemora o Dia Mundial do Ambiente será uma ocasião auspiciosa para abordar “novas” perspectivas de (re)ligação à Terra1, na sequência não só de diversas intervenções da nossa parte sobre o andar a pé – de que se destaca a palestra Caminhada Holotrópica (2017) – como também, e ademais, sobre formas holísticas de estar/ser (n)o mundo. É sobre esta última abordagem que gostaríamos de nos focar tendo em conta, no nosso entender, a sua pertinência. Foi, aliás, neste contexto que sentimos a premência de apresentar um Pedisfesto Ecológico (2018), uma espécie de manifesto às avessas, aparentemente paradoxal e antinómico, com o objectivo de alertar para a necessidade de adoptar perspectivas diversas e essencialmente inclusivas, com vista a (tentar) resolver a vigente situação de “desastre ambiental”.
Ao contrário do que é usual, neste dia, não iremos falar sobre o choque perante a destruição da biodiversidade (a 6ª extinção em massa), a lixeira em que estamos a transformar o planeta Terra, o envenenamento da Biosfera ou as tão propaladas alterações climáticas, entre outras calamidades. Interessa-nos mais o maravilhamento face à imensidão do espaço-tempo e à pluralidade de interrelações entre os seres bióticos e abióticos ou o bem-estar estético de fazer parte de uma paisagem.  E isto porque consideramos que a origem e a resolução desses e de outros problemas, ditos “ambientais” (!), está nos modos de pensar/agir e não em paliativos “mais do mesmo”. A revolução terá inevitavelmente de passar pela transformação dos padrões psicológicos e comportamentais vulgares, designadamente através de uma crescente sensibilidade e sensibilização a nível da ecoliteracia, ecopsicologia e eco-espiritualidade que se traduza numa ecologia activa (engaged ecology). E é nesse contexto de transição que toma uma especial relevância a convivência de aparentes opostos e o respeito pela diferença.

Terra e Lua © Algures na Net

A maior sofisticação será ir às origens com saudades do futuro. Por um lado, religar-se ao primevo, ir ao encontro da Natureza, que o mesmo é dizer da sua natureza enquanto ser humano – porque nós somos Natureza – através, por exemplo, de processos de rewilding: caminhadas ao ar livre, banhos de floresta, ordálios na natureza selvagem, etc.. Por outro, estar (pre)disposto a inovadoras formas de pensar/agir, mormente ser cidadão do mundo, respeitar a diversidade na unidade e acabar com os “tribalismos”: abolir o paradigma vulgar e grosseiro de “nós somos os bons e os outros são os maus”2! Nos tempos que vivemos aquilo de que precisamos não é tolerância mas sim respeito: ir ao encontro do outro e tentar/experimentar tantas aproximações quantas as que forem necessárias para compreender a(s) diferença(s), aprender com o que é diferente e… mudar para melhor. É fundamental usufruir as múltiplas cores do real, como um arco-íris pleno de possibilidades e de diversidade: a realidade não é a preto e branco; nem sequer é verde! E, muitíssimo importante, coisas simples, como andar a pé, têm a gigantesca capacidade de mudar o mundo.

«Não te esqueças de fazer o pino e, 
olhando os pés, ver as estrelas.»
As estrelas e as copas das árvores...

Pedro Cuiça © Lisbon Lunch Walk (5 de Junho de 2018)


NOTAS
1 · Nós somos Terra ou terráqueos, que é dizer o mesmo. O étimo de humano em latim é humus (terra) e será oportuno lembrar o parentesco entre a palavra hebraica adam (homem) e adamah (terra).
2 · Neste contexto, virá à colação um episódio que ocorreu durante uma visita que efectuei, no dia 22 de Outubro de 2015, ao Museu Nacional da Montanha, da Coreia do Sul, no âmbito na Assembleia-Geral da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Nesse dia, tive também a grata oportunidade de assistir a uma interessantíssima palestra por parte do antropólogo e alpinista sul-coreano Young Hoon Oh, na altura doutorando na Universidade da Califónia, sob o título: History and Philosophy of Korean Mountaineering: from an East Asian Perspective. Essa encomiástica intervenção sobre as cosmologias coreanas – com base no confucionismo, no budismo e na denominada “geoecologia coreana” –, responsáveis designadamente por uma intimidade única com a paisagem montanhosa, contrastou com o “cenário” de conquista atribuído aos alpinistas ocidentais! No final da palestra interpelei Young Hoon e transmiti-lhe que essa sua perspectiva era compreensível e assaz “correcta” como generalização mas que eu, enquanto ocidental, me sentia algo “ofendido” tendo em conta que não me revia, de todo, nesse perfil de conquistador, insensível e apartado da Natureza. Na verdade sentia-me cidadão do mundo e a sensação com que fiquei foi mais de estupefacção do que propriamente de ressentimento.
Saliente-se que, no contexto da Assembleia-Geral da UIAA de 2015, foi lançado o programa Respect the Mountains e aprovada a Climate Change Declaration (Declaração das Alterações Climáticas), proposta conjuntamente pelo Club Alpino Italiano (CAI) e pela Nepal Mountaineering Association (NMA). O texto final dessa declaração expressou a preocupação pelos impactes ambientais negativos das alterações climáticas na Terra em geral e nas áreas montanhosas e suas comunidades em particular. Destaque-se igualmente a atribuição do UIAA Mountain Protection Award 2015 ao KTK-BELT (Koshi Tappu Kanchenjunga Biodiversity Education Livelihood Terastudio) pelo seu importante trabalho contra a desflorestação.
Os tempos devem ser de cooperação a nível internacional, nacional, regional e local. A Terra é o condomínio global de uma Humanidade policromática e diversificada que tem de conviver e coexistir da melhor forma...

 DR © Museu Nacional da Montanha (Coreia do Sul - Out. 2015)

Shinrin-yoku


Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (1 de Junho de 2018)

Os japoneses não acreditam que as pessoas ocupam um lugar especial acima da Natureza; as pessoas e o mundo natural são semelhantes. (…) Há um sentimento semelhante descrito num livro do escritor japonês Isamu Kurita, chamado A Flower Journey. Nele, o autor observa que “no Ocidente, as pessoas olham para as flores. Na Ásia, vivem com elas”. Esta ideia de vínculo estreito entre japoneses e Natureza não é nada de novo. Em vários poemas antigos, como os de Ki no Tsurayuki e Ono no Komachi, escritos há aproximadamente 1000 anos, as vidas e aparências dos poetas são comparadas às das flores.
Masao Watanabe, professor emérito da Universidade de Tóquio, expressou, numa edição de 1974 da revista Science, a sua opinião sobre a forma como os japoneses veem a Natureza. “De acordo com a religião cristã, que é seguida na sociedade ocidental, tudo no céu e na terra foi criado por Deus. Dentro dessa conceção, o homem é uma criação especial e existe uma separação clara entre o homem e o resto da criação”, observou. “Podemos dizer que o lugar do ser humano, e só do ser humano, enquanto criação especial acima de tudo o resto que foi criado, está na origem da visão que o mundo ocidental tem da Natureza. Além disso, o homem ocidental opõe-se à Natureza, e no Japão o homem faz parte da Natureza.”
No mesmo artigo, Haruhiko Morinaga analisa a questão do absolutismo ocidental versus a relatividade oriental e utiliza o exemplo seguinte para ilustrar essas profundas diferenças culturais. Se alguém perguntar: “Uma baleia não é um peixe, ou é?”, um japonês responderia: “Sim, claro. Uma baleia não é um peixe”, para concordar com quem fez a pergunta. Mas um ocidental simplesmente responderia: “Não, não é um peixe.” A resposta do ocidental é a simples constatação de um facto, enquanto a da pessoa japonesa é relativa à pergunta. Este absolutismo ocidental e a relatividade oriental também se podem aplicar ao relacionamento que os japoneses têm com a Natureza.
[MIYAZAKI, 2018: 46]

Pedro Cuiça © Centro Desportivo Nacional do Jamor (3 de Junho de 2018)

No Japão, existe uma forma de medicina preventiva notável que está a ser praticada por um número crescente de pessoas. Apesar de inicialmente ter sido sustentada pela intuição, esta medicina é agora suportada por uma investigação científica consistente que confirma os seus vários benefícios.
A expressão shinrin-yoku foi cunhada em 1982 por Tomohide Akiyama, diretor da Agência Florestal Japonesa. Traduzido à letra, significa “banhos de floresta”, e utiliza-se de uma forma similar às expressões “banhos de sol” ou “banhos de mar”. Não estamos literalmente a tomar um banho, mas a banhar-nos no ambiente da floresta, utilizando todos os nossos sentidos para experienciarmos a Natureza de perto.
[MIYAZAKI, 2018: 9]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MIYAZAKI, Yoshifumi. Shinrin Yoku – A terapia japonesa dos banhos de floresta que melhora a sua saúde e bem-estar. Porto: Albatroz, 2018, pp. 192. ISBN 978-989-739-040-1



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Terapia da Floresta

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Se há um homem que pode mostrar como é que a terapia das árvores funciona, esse homem é Yoshifumi Miyazaki. Este antropólogo biológico, vice-diretor do Centro do Ambiente, da Saúde e das Ciências de Campo da Universidade de Chiba, na periferia de Tóquio, acredita que, em virtude de os seres humanos terem evoluído na natureza, é nela que nos sentimos mais confortáveis, mesmo que nem sempre tenhamos consciência disso.
Neste ponto, Miyazaki é um proponente da teoria popularizada por E. O. Wilson, o entomologista de Harvard amplamente reverenciado: a hipótese da biofilia. Esta teoria foi, em parte, apropriada pelos psicólogos ambientais naquilo que, por vezes, se designa de Teoria da Redução do Stresse ou Teoria da Restauração Psicoevolucionista. Não foi Wilson quem, na realidade, cunhou o termo «biofilia»; essa honra deve ser atribuída ao psicólogo social Erich Fromm, que o descreveu em 1973 como «o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo; é o desejo de crescer ainda mais, podendo ser encontrado numa pessoa, numa planta, numa ideia ou num grupo social».
Wilson desenvolve a ideia com maior precisão, situando-a no mundo natural e identificando «a natural ligação emocional dos seres humanos aos outros organismos vivos» como a adaptação evolutiva que nos ajudou não só a sobreviver, mas também a alargar os limites da realização humana.
[WILLIAMS, 2018: 31-32]

Para provar que a nossa fisiologia reage a contextos ambientais diferentes, Miyazaki tem levado centenas de sujeitos de investigação para os bosques desde 2004. Ele e o seu colega Juyoung Lee, também então da Universidade de Chiba, descobriram que as caminhadas de lazer pelos bosques, comparadas com as caminhadas urbanas, provocavam uma descida de 12 por cento nos níveis de cortisol. Mas não foi tudo. Registaram uma descida de 7 por cento na atividade do sistema nervoso simpático, de 1,4 por cento na pressão arterial e de seis por cento no ritmo cardíaco. Nos questionários psicológicos, registaram também melhores disposições e menores níveis de ansiedade.
Num ensaio de 2011, Miyazaki concluiu o seguinte: «Estes dados revelam que os estados de tensão podem ser aliviados pela terapia shinrin.» E os japoneses seguiram as suas indicações, com quase um quarto da população a participar em algum tipo de atividade shinrin. Todos os anos, centenas de milhares de visitantes caminham pelos trilhos da terapia da floresta.
[WILLIAMS, 2018:  33-34]

Trilho de Floresta © Renoir (1875)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
WILLIAMS, Florence. A Natureza Cura. Lisboa: Bertrand Editora, 2018, pp. 304. ISBN 978-972-25-3475-8


terça-feira, 29 de maio de 2018

Libertações


A corrida interrompe-se quando o corredor se ergue. O estado erecto põe um termo, talvez provisório, à fuga para a frente da evolução animal. Vista de forma idealizada, a passagem dos pré-hominídeos, de uma marcha a quatro patas para a locomoção pedestre do homem, traduz-se por uma série de sucessivas libertações: a da cabeça, relativamente ao solo, a da mão relativamente à marcha e, num mesmo impulso de verticalidade, como uma catedral gótica liberta dos pesados pilares romanos, a da abóbada craniana relativamente ao maciço facial. Os novos arranjos ósseos crânio-faciais e o enorme espaço assim adquirido associam-se à expansão que o cérebro encontra aí para se alojar. É, aliás, interessante observar que os ossos da face derivam de células provenientes da parte anterior da crista neural e estão sob o controlo de genes homeóticos que conduzem a formação do cérebro.
Edelman defende a ideia de que o cérebro é um sistema selectivo de reconhecimento. É provável que tenha razão. O cérebro funciona na selecção de similitudes e de contrastes; estabelece relações e relações entre relações, provavelmente por intermédio de grupos neurónicos, cuja estrutura e dinâmica continuam, até à data, a ser hipotéticas. Essas relações são, por definição, abstractas, mas não mais do que o que une uma molécula viva a uma outra: trata-se, nos dois casos, de um reconhecimento de formas. Essa abstracção faz que, por vezes, se fale, erradamente, de psiquismo ou de espírito, género imaterial que vem ocupar o vazio entre formas. É razoável admitir a hipótese de que o aumento considerável do tamanho do cérebro do homem, e, designadamente, o desenvolvimento do chamado córtex associativo, estarão na origem da sua fabulosa capacidade para estabelecer essas relações e as relações entre relações, que podemos designar pelo termo genérico de pensamento.
O pensamento traduz os processos de categorização do real, dos quais é inseparável, qualquer que seja o nível de abstracção em que se situem. É falso, por sua vez, afirmar que o pensamento é responsável por essas categorizações, ou seja, que efectua um trabalho sobre as representações. Seria, como sublinha A. Pochiantz, cair numa clivagem fatal com o corpo, «reintroduzir um dualismo vitalista que separa a função do seu substrato, substituir pelo real a metáfora do ordenador e reduzir a lógica do ser vivo à lógica da matemática». As representações são realizadas em territórios cerebrais mais ou menos especializados segundo a natureza sensorial dos dados provenientes do mundo.
(…) Eis, portanto, o cérebro do homem, capaz de representar um mundo que já não é ou que ainda não é, enfim, capaz de instrumentalizar o mundo bem real que se lhe oferece. Com uma pedra, ele parte outra pedra, coloca o fragmento na extremidade de um pau; com o conjunto constrói, segundo o tamanho e a forma, uma azagaia ou um machado, ou ainda uma lança, que empresta a um outro. Mas, dentro em breve, com os sons, o homem articula palavras: ele fala!
[VINCENT, 1997: 43-46]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VINCENT, Jean-Didier. A Carne e o Diabo. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1997, pp. 260.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Venerar descalços


© Algures da Net

Todos tiraram os sapados, para, descalços, venerar a Pachamama. Sentiram-na com os pés, tocaram-na com as mãos e muitos a reverenciaram com a fronte. Depois toda a multidão voltou-se para o Oriente, o lugar onde nasce o Sol. Rezaram com o olhar. O tambor ajudou cada pessoa a entregar o louvor:

“Salve, pai divino, grande Sol, fonte das nossas vidas…
Salve, mãe da luz, energia do nosso ser e da Pachamama.”

Saudaram ainda o Oeste, depois o Norte e finalmente o Sul. Em cada ponto cardeal, receberam um dos elementos do equilíbrio da vida. Trouxeram a lhama preta até ao altar e curvaram-se em silêncio. Os sacerdotes prostraram-se diante da vítima e pediram-lhe perdão.
[BARROS, 1997: 337]

PC ©

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BARROS, Marcelo. A secreta magia do caminho. Rio de Janeiro: Nova Era, 1997, pp. 416. ISBN 85-01-04750-3

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do (c)A(r)mando III


PC © 


Só mais uma palavra sobre o que se seguirá. Muito do que ficará dito resulta de um pensamento sempre em busca da experiência, naquele sentido de filosofia operativa que tem sido explicado por António Telmo desde a sua ARTE POÉTICA. O leitor tirará mais proveito deste livro se o ler pensando nele como o de uma filosofia poética, lembrando-se que o termo poesia deriva do grego poieín, acção, mas de uma acção que deve partir de uma mutação interior. O único interesse que o livro pode ter está na inquietação com que foi escrito. As contradições que se possa encontrar e que não rejeito advêm dessa mesma inquietação, que é, como se sabe, desde Álvaro Ribeiro, o gesto de uma alma que está em movimento, em demanda.
[SINDE, 2005: 15-16]

PC ©

O primeiro passo, na perspectiva ocidental, é a alma descobrir em si a causa da sua ignorância.
(…) Há quem adie, constantemente esta metanóia para o pós-morte, mas nós já estamos mortos, já estamos para onde nos queremos encaminhar; já estamos e não estamos. A morte é já aqui; é, por isso, já aqui que a obra começa – aliás, a obra já começou e estamos a perder tempo sempre que ficamos prostrados no marasmo da ignorância, no paralisante spleen que [Sampaio] Bruno tão bem descreve. Já estamos no transcendente porque algo em nós nunca de lá saiu, nunca o esqueceu e, por isso, não o ignora. Se não fosse essa raiz no alto não haveria forma de regresso. A cisão é extrema mas não é radical, porque algo em nós, último Satã, aspira ao regresso.
A sensação de Presença, de que tratarei mais à frente, traz consigo a certeza de que estamos já no transcendente. A vida, isto é, o viver, é já transcendente. Todavia vivemos como se: como se estivessemos separados, como se fôssemos autónomos; e, no entanto, de algum modo, estamos e somos.
Os nossos clássicos são ainda o ponto em que podemos encontrar a cura:

Planta sois e caminheira
Que, ainda que estais, vos is
Donde viestes.

Assim diz o mestre Gil Vicente, no AUTO DA ALMA, e continua por este modo:

Vossa pátria verdadeira
He ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida.
Não durmaes;
Hum ponto não esteis parada,
Que a jornada he fenecida,
Se atentaes.

A alma, para Gil Vicente, tem a sua origem no outro mundo e vem a este para dar celestes flores:

Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes treposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas

(…) Se a alma é uma planta, o caminho da regeneração, da demanda da vida nova, é o que deve percorrer o neófito, que etimologicamente significa “nova planta”. Mas exploremos esta metáfora e vejamos até onde nos leva. Todas as plantas têm raízes, que correspondem a dois tipos de alimento: uma raiz alimenta-se da humidade da treva, do mineral e a outra da luz do céu; só por distracção chamamos ramos às raízes do alto. É do encontro das duas raízes que nascem a flor e o fruto. A planta realiza-se, como uma sizígia, no seu duplo enraizamento, a sua realização é a flor e o fruto, a semente que perpetua a cadeia áurea das plantas. Nesta reunião dos dois tipos de alimentos a planta aproxima o céu da terra e a terra do céu, realiza uma obra de criação pela transmutação do mineral escuro e disforme e do inefável invisível da luz informe na forma maravilhosa da flor.
O homem é também essa dupla raiz mas, ao contrário da planta, tem uma raiz visível na terra e a invisível no céu. E é também do encontro de uma com a outra que ele se realiza – nem só terra, nem só céu, porque o homem tem uma missão criadora a realizar aqui (…). A sua missão é a de aproximar a terra, subtilizando-a, do céu.
[SINDE, 2005: 27-29]


A caminhada faz-se desde o corpo até ao espírito a partir da alma. A “chegada” ao espírito implica a simultânea descida. O corpo subtiliza-se, torna-se anímico e a alma espiritualiza-se.
(…) O corpo é o nosso ponto de apoio, o local a partir do qual iniciamos, se iniciarmos, um processo de ascensão ou iluminação, apenas porque é o lugar de alma que nos foi dado habitar sensivelmente. A sensação de presença pode ter portanto no estado de corporeidade o ponto de apoio, mas aquilo que a alma sente na presença não é o corpo, a alma sente-se a si mesma no estado corpóreo e é por esta razão que lhe pode servir de apoio; por outras palavras, este estado é contido pela alma, é o seu lugar no mundo sensível, terá outro no estado psíquico e outro ainda no estado noético. É possível a convergência dos três estados num só lugar e este parece ser o fim do processo gnósico que avança acrescentando algo que não havia, quer dizer, do corpo ao espírito não se pode perder o corpo, há que ganhar o espírito. Assim também para a percepção sensível que deve sair enriquecida pela percepção animada, não se perde nada na passagem de uma a outra, pelo contrário, a percepção sensível é amplificada em profundidade pelo elemento anímico.
Um primeiro momento de sensação de presença no corpo é iluminador de quanto ele é imenso, ou melhor, da dimensão da alma, porque ele serve-lhe de espelho; se vivido por dentro, vem a ser percebido como algo de vasto e subtil, tem alguma coisa de mágico. A melhor expressão para dizer esta sensação, encontrei-a em António Telmo: o corpo é uma imagem animada.
(…) Passa em nós essa corrente da vida que é viriditas, na excelente expressão de Hidelgarda de Bigen. Todavia, esta força verde, reverdescente e ressuscitante, é também destruidora; é como um fogo que ilumina e para tal desfaz em cinza toda a matéria perecível em que se apoia. Não é casual que o radical etimológico do termo vegetal seja fogo, como o de animal seja ar1.
A presença no corpo é precisamente a deslocação da nossa atenção, da nossa identificação com o elemento ígneo que arde em nós, que nos transmuta necessariamente. A velhice tem já algo de secura porque todo o elemento húmido evaporou – é o equivalente antropológico do Outono, que chega depois do fogo e do calor do Verão intenso terem consumido a humidade. O cheiro doce da decomposição outonal é já o indicador de que a vida que esteve nas folhas se subtilizou, se retirou, se tornou “aérea”, manifestando a sua presença no ar, o equivalente antropológico do odor de santidade.
[SINDE, 2005: 34-35]


NOTAS Pedestris
1- E o homem seja terra: o étimo de humano em latim é humus (terra), tal como se verifica um parentesco entre a palavra hebraica  adam (homem) e adamah (terra). Todavia o ser humano é constituído por mais de 70% de água, anima-o um fogo interior e não vive sem ar.
· O destaque de palavras a negrito (bold) é de nossa “autoria”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SINDE, Pedro. Terra Lúcida – A intimidade do Homem com a Natureza. Matosinhos: Publicações Pena Perfeita, 2005, pp. 160. ISBN 972-8925-05-0