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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Caminho(s) para todos


Aqui fica o convite para participarem na tertúlia sobre Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago que irá contar com a presença da autora – Luísa Sousa – e no qual terei o grato prazer de apresentar o livro e aflorar a temática das peregrinações em geral e do Caminho de Santiago em particular. O evento irá decorrer no dia 11 de Outubro, a partir das 18.45, no Centro de Reuniões do INFARMED, I.P., no Parque de Saúde de Lisboa. Entrada livre.




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«É estranho ouvir alguém que não nos conhece, fazer uma análise tão certeira em certos pontos. A certa altura já temia pelo que viria depois. Muito obrigada Pedro pela disponibilidade, generosidade e pontos de reflexão, apesar do jet lag e cansaço das viagens. Foi a melhor forma de terminar este roteiro pelo país.»
Luísa Sousa (12 de Outubro de 2018)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Silêncio do Andar


Luísa Sousa © Albergaria Rincon del Peregrino (Camino Sanabrés)

«De novo sozinha, o sentimento era outro. Os dias que tinha caminhado só, desde que tinha deixado o Pedro, o Emílio e o Doriano e antes de encontrar o Yves, deram-me confiança. Demonstraram-me que eu era capaz e, acima de tudo, que estava bem comigo própria. Conseguia passar horas e horas em silêncio, comigo, sem me entediar. Aliás, cada vez mais, apreciava o silêncio e raramente me sentia só. Estar só não era sinónimo de solidão. Encontrava-me de novo sozinha, mas já nada era igual!»
[SOUSA, 2016: 73]

«Naquele dia, caminhámos os dois, lado a lado, por muito tempo, quase sempre em silêncio. Há silêncios incomodativos ou ensurdecedores, aquele era confortável. Sabia bem partilhar o silêncio
[SOUSA, 2016: 148]

«Comparativamente com outros Caminhos, a Via de la Plata é (ainda) um caminho despido de adornos: poucas estátuas, pinturas, grafittis, painéis e afins, relacionados com Santiago e o “mundo peregrino”. Esta “aridez” de incentivos e lembranças, ao provocar menos distracções, faz-nos viajar ainda mais para dentro de nós. Por vezes, passamos dias sem ver a contagem decrescente dos quilómetros, acabamos por nos abstrair de tudo isso e a viver apenas o dia-a-dia.
(…) As povoações ainda estão direccionadas para quem lá vive e não apenas para os peregrinos e o comércio que os rodeia; há espaço para estar só, em silêncio e paz, aliada à oportunidade de espírito de comunidade com os outros peregrinos e de criar laços fortes com os mesmos pela escassez de outras ofertas e distracções.
Para todos os que se queixam do rumo que o Caminho Francês leva, este pode ser encarado como um regresso às origens!»
[SOUSA, 2016: 254-255]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SOUSA, Luísa. Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago. Columbia (USA): CreateSpace, 2016, pp. 268. ISBN 978-1523804795


quinta-feira, 26 de abril de 2018

A Inacabável Cruzada


Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quijote 



«Caballero que hizo reír a todo el mundo, pero que nunca soltó un chiste. Tenía el alma demasiado grande para parir chistes. Hizo reír con su seriedad.»
 Miguel de Unamuno

(…) ¿no crees que se podría intentar alguna nueva cruzada?
Pues bien, sí; creo que se puede intentar la santa cruzada de ir a rescatar el sepulcro de Don Quijote del poder de los bachilleres, curas, barberos, duques y canónigos que lo tienen ocupado. Creo que se puede intentar la santa cruzada de ir a rescatar el sepulcro del Caballero de la Locura del poder de los hidalgos de la Razón.
(…) Y esta santa cruzada lleva una gran ventaja a aquellas otras santas cruzadas de que alboreó una nueva vida en este viejo mundo. Aquellos ardientes cruzados sabían dónde estaba el sepulcro de Cristo, dónde se decía que estaba, mientras que nuestros cruzados no sabrán dónde está el sepulcro de Don Quijote. Hay que buscarlo peleando por rescatarlo.
(…) Empieza, pues, amigo, a hacer de Pedro el Ermitaño y llama a las gentes a que se te unan, se nos unan, y vayamos todos a rescatar esse sepulcro que no sabemos dónde está.
Verás cómo así que el sagrado escuadrón se ponga en marcha aparecerá en el cielo una estrella refulgente y sonora, que cantará un canto nuevo en esta larga noche que nos envuelve, y la estrella se pondrá en marcha en cuanto se ponga en marcha el escuadrón de los cruzados, y cuando hayan vencido en su cruzada, o cuando hayan sucumbido todos –que es acaso la manera única de vencer de veras–, la estrella caerá del cielo, y en el sitio en donde caiga allí está el sepulcro. El sepulcro está donde muera el escuadrón.
Y allí donde está el sepulcro, allí está la cuna, allí está el nido. Y allí volverá a surgir la estrella refulgente y sonora, camino del cielo.
(…)¿Qué quieres decir com esto? –me preguntas más de una vez–. Y yo te respondo: –¿Lo sé yo acaso?
İNo, mi buen amigo, no! Muchas de estas ocurrencias de mi espíritu que te confío ni yo sé lo que quieren decir, o, por lo menos, soy yo quien no lo sé.
(…) En marcha, pues. Y ten en cuenta no se te metan en el sagrado escuadrón de los cruzados bachilleres, barberos, curas, canónigos o duques disfrazados de Sanchos. No importa que te pidan ínsulas; lo que debes hacer es expulsarlos en cuanto te pidan el itinerario de la marcha, en cuanto te hablen de programa, en cuanto te pregunten al oído, maliciosamente, que les digas hacia dónde cae el sepulcro. Sigue a la estrella. Y haz como el Caballero: endereza el entuerto que se te ponga delante. Ahora lo de ahora y aquí lo de aquí.
İPoneos en marcha! ¿Que adónde vais? La estrella os lo dirá: İal sepulcro! ¿Qué vamos a hacer en el camino mientras marchamos? ¿Qué? İLuchar!
(…)İEn marcha, pues! Y echa del sagrado escuadrón a todos los que empiencen a estudiar el paso que habrá de llevarse en la marcha y su compás y su ritmo. Sobre todo, İfuera con los que a todas horas andan con eso ritmo! Te convertirían el escuadrón en una cuadrilla de baile, y la marcha en danza. İFuera con ellos! Que se vayan a outra parte a cantar a la carne.
Esos que tratarían de convertirte el escuadrón de marcha en cuadrilla de baile se llaman a sí mismos, y unos a los otros entre sí, poetas. No lo son. Son cualquier outra cosa. Esos no van al sepulcro sino por curiosidad, por ver cómo sea, en busca acaso de una sensación nueva, y por divertirse en el camino. İFuera com ellos!
Esos son los que com su indulgencia de bohemios contribuyen a mantener la cobardía y la mentira y las miserias todas que nos anonadan.
(…) Procura vivir en continuo vértigo pasional, dominado por una pasión cualquiera. Sólo los apasionados llevan a cabo obras verdaderamente duraderas y fecundas.
(…) Te consume, mi pobre amigo, una fiebre incesante, una sed de océanos insondables y sin riberas, un hambre de universos, y la morriña de la eternidad. Sufres de la razón. Y no sabes lo que quieres. Y ahora, ahora quieres ir al sepulcro del Caballero de la Locura y deshacerte allí en lágrimas, consumirte en fiebre, morir de sed de océanos, de hambre de universos, de morriña de eternidad.
Ponte en marcha, solo. Todos los demás solitarios iran a tu lado, aunque no los veas. Cada cual creerá ir solo, pero formaréis batallón sagrado: el batallón de la santa e inacabable cruzada.
[UNAMUNO, 2005: 142-151]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quijote (1974)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
UNAMUNO, Miguel de. Vida de Don Quijote y Sancho. Madrid: Catedra – Letras Hispanicas, 2005, 6ª ed., pp. 544. ISBN 84-376-0736-1

terça-feira, 10 de abril de 2018

Rezar com os pés


Os estágios dos Cursos de Treinadores começam a dar frutos… Um excelente e gratificante exemplo trata-se do relatório e dossier de estágio que espelham a qualidade, profissionalismo e originalidade do trabalho desenvolvido, ao longo de mais de 12 meses, pelo Mário Amorim, sob o mote “Seis Aparições, Seis Peregrinações”. O trabalho de estágio realizado no ano em que se celebrou o Centenário das Aparições de Fátima (2017), foi efectuado no seio do Clube Infarmed, contou com o apoio da Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima e envolveu um conjunto importante de iniciativas que foram, em parte, divulgadas através do site Ultreya.
A originalidade do trabalho em causa não resulta apenas do plano de estágio proposto, que conjugou a condução de grupos com a formação e o treino de participantes, mas também a concretização de diversas actividades de beneficência. O caminho encetado de interligação das peregrinações com o "treino desportivo" revelou igualmente uma abertura de espírito fora do vulgar em meios tradicionalmente avessos a abordagens pretensamente fora dos cânones! E a quem reste dúvidas sobre essa feliz interligação bastará salientar que o  Mário Amorim costuma iniciar as acções de formação de peregrinos com a frase: Aprendo a rezar com os pés. E isso é Muito...
Fechado este ciclo, novos objectivos se vislumbram. Desta feita, e para o presente ano, as atenções do Mário Amorim estão voltadas para o Caminho de Santiago. Por isso, e muito mais, resta-me desejar-lhe um Bom Caminho, para Santiago e para a Vida, designadamente enquanto Treinador de Pedestrianismo.



quarta-feira, 14 de março de 2018

Walking by Thoreau


Três edições portuguesas de uma mesma obra de Henry David Thoreau, três títulos diferentes – Caminhada, A Arte de Caminhar e Caminhar –, uma nota prévia, uma introdução e uma “coisa” do mesmo género…

© na Net (?)

«Numa primeira acepção, Caminhada apresenta-se talvez ao leitor mais desprevenido como uma simples exortação ao refúgio na natureza agreste, apelo que valeu à obra, tal como Nature, de Emerson, o estatuto contemporâneo de ensaio basilar pelo qual se norteiam os movimentos ecologistas. A profunda sensibilidade poética do autor, a humanização da paisagem e dos seus elementos e o poder categórico das suas afirmações concisas, com potencial de porta-estandarte para as facções ambientalistas da actualidade, fazem de Caminhada um monumento perene à Natureza, reflexo de um princípio criador segundo o transcendentalismo.
Porém, o encanto da palestra [apresentada por mais de dez vezes entre 1851 e 1860] provém sobretudo da qualidade visionária das suas linhas. Nos primórdios da Revolução Industrial americana, impunha-se a Thoreau o dever de chamar os seus concidadãos à razão numa Nova Inglaterra onde, em nome do bem-estar material, fora já plantada a semente de um mal-estar espiritual. Thoreau entrevia precocemente o perigo da sociedade materialista e da destruição do seu torrão: a distorção das necessidades básicas do homem que, por via da ganância da espécie, o condena à condição de autómato. Em Caminhada, o percurso físico que o autor advoga (em parte, um artifício que esconde o seu verdadeiro intento e que se coaduna com a famosa frase de Emerson, mentor de Thoreau: «A natureza é uma metáfora da mente humana») é afinal, um percurso espiritual, uma cruzada e uma viagem interior, rumo a uma vida reduzida ao essencial e à liberdade necessária para que o homem se torne dono e senhor de si mesmo, alheado de leis arbitrárias e de uma vida em comunidade que o subjuga às verdades maiores. Tal como Walden ou a Vida nos Bosques, Caminhada é um derradeiro alerta para que o homem entenda que desligar-se do mundo natural, e da espiritualidade que este encerra, e subvertê-lo ou estar excessivamente preso à civilização redundam na perda de capacidades vitais, na degradação de instintos vitais e no declínio civilizacional.»
Maria Afonso (in THOREAU, 2012: 7-9)

© na Net (?)

«Thoreau serve-se dos pés e fá-lo conscientemente em benefício da plenitude do seu ser. Longe de se assumir como um desportista que sai para fazer uns quantos quilómetros, ele pratica a caminhada, como terapêutica natural e inteligente. Para ele, andar a pé é algo de sublime porque lhe permite sentir e comunicar com uma inteligência pura e subtil que ultrapassa o pobre saber do homem comum.
(…) Este homem invulgar no seu tempo, e ainda nos dias de hoje, pratica a arte de caminhar de uma forma que poderíamos definir como “caminhada mitológica”. Para sair do “tempo normalizado” e viver de acordo com um ritmo absoluto; para abstrair-se da via do desenvolvimento e reencontrar o “verdadeiro caminho” do primordial; para afastar-se da doença moderna e regenerar-se nas fontes do vigor que ele vê mitologicamente como a árvore-dragão das Ilhas Ocidentais.
Existiam árvores-dragão à volta do lado de Walden – mesmo se a grande maioria dos cidadãos de Concord as não via.
Este Thoreau que anda como se fosse parte integrante da natureza, que faz de si um errante «sem terra», é para provocar ou procurar o desfazer dos laços que o prendem ao seu meio social, à sua humanidade.
Em boa verdade todos sabemos que andar é descondicionar-se, numa espécie de ioga deambulatório, onde podemos reencontrarmo-nos num outro ser, um ser mítico, ou seja ligando-nos aos princípios das fontes do vigor.
Viver uma vida mítica é, pois, viver uma vida principal, uma vida original e esta inteligência, Thoreau não a encontra na ciência, como também não irá encontrá-la na maior parte da cultura, considerada como poesia; mas afinal qual é a literatura que consegue exprimir em palavras a plenitude da Natureza?»
(in THOREAU, 2011: 7-9)

© na Net (?)

«Só uma ou duas pessoas encontrei na vida, diz Thoreau no seu ensaio Caminhar, que compreendiam a Arte de Caminhar. Segundo Thoreau, praticar a arte de caminhar é saber fazer o sautering, palavra que tanto faz derivar de «sem terra» como de «ir à Terra Santa». Esta última etimologia é que ele prefere, e declara: Toda a caminhada é uma espécie de cruzada que um Pedro o Eremita qualquer prega dentro de nós para partirmos e reconquistarmos a Terra Santa nas mãos dos Infiéis. Porque há pessoas, há civilizações inteiras que não sabem o que significa sermos «fiéis à Terra» e não têm nenhuma noção da sua «santidade». Os «civilizados» talvez sejam todos da mesma espécie. Por isso Thoreau não fala em nome da civilização – haverá sempre muitas vozes a fazê-lo – mas em nome da vida selvagem, considerando o homem como parte integrante da natureza  e não como membro da sociedade.
Thoreau ou «o homem do exterior» por excelência.
Só um caminhante de primeira ordem podia pertencer à Walden Pond Association. Na aldeia de Concord chamavam assim aos «passeantes de domingo», ou seja, não os que passeiam só aos domingos, mas os que nunca vão à igreja aos domingos e preferem os bosques. Podem dar-se nomes a estes passeantes transcendentalistas: Ralph Waldo Emerson, Bronson Alcott, Frank Sanborn, Ellery Channing, Henry Thoreau. Era Henry, sem dúvida, o mais exigente de todos os passeantes, o mais rebelde a companhias que não estivessem à sua altura.
(…) Henry, sobretudo estava farto do «antropo»; e mais ou menos de tudo o que era «humanidade», excepção feita a alguns velhos caçadores e indíos errantes, estava a mais na natureza. Na sua opinião, a humanidade espalhava icterícia moral num mundo que ele queria sentir fresco e em plena aurora. «Tantas auroras existem que ainda não brilharam», tinha ele lido nos Vedas. Não havia tempo a perder com a opacidade humana. Havia que andar em direcção à luz…
(…) Onde está a literatura que consegue exprimir a Natureza? Fá-la-ia o poeta que soubesse pôr os ventos e as torrentes ao seu serviço, a falar por ele; []  usasse palavras tão novas, naturais e autênticas que [] parecessem expandir-se como os rebanhos quando a Primavera se aproxima. [] Nenhum poeta conheço que possa mencionar-se como expressão adequada desta ânsia pelo Selvagem.  Abordada sob esta perspectiva, a mais bela poesia é insípida. [] Compreender-se-áque peço algo que os séculos de Augusto a Isabel, para resumir nenhuma cultura, podem oferecer. [] A mitologia aproxima-se mais disto que outra coisa qualquer.
Thoreau pratica o que poderíamos chamar a caminhada mitológica. Para sair do tempo e viver de acordo com um ritmo absoluto; para sair da via do desenvolvimento e reencontrar o caminho do primordial; para sair da doença moderna e se regenerar nas fontes do vigor que ele vê mitologicamente como a árvore-dragão das Ilhas Ocidentais.  
Existiam árvores-dragões à volta do lago Walden – mesmo se a grande maioria dos cidadãos de Concord as não via.
Tu Fu cantava «o dragão que nenhum laço retém». Se Thoreau anda, se faz de si um errante «sem terra», é para se desfazer dos laços que o prendem ao seu meio social, à sua humanidade, ao seu eu. Andar é descondicionar-se (ioga ambulatório) e reencontrar-se num ser outro: um ser mítico, quer dizer, com o mito a passar-se in principio, ligado ao princípio. Viver uma vida mítica é, pois, viver uma vida principial, uma vida original, «casada, diz Yeats, com os rochedos e as colinas».
(…) Caminhar com Thoreau é ultrapassar as aparências. Atrás do puritano  americano do século XIX havia um índio, atrás do índio um chinês, atrás do chinês um ser que não tinha nome. Na sua caminhada extravagante era este último que ele queria realizar.
Kenneth White (in THOREAU, 1995: 11- 16)

© na Net (?)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
THOREAU, Henry David. Caminhada. Lisboa: Antígona, 2012, pp. 88. ISBN 978-972-608-225-5
THOREAU, Henry David. A Arte de Caminhar. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2011, pp. 104. ISBN 978-989-709-003-5
THOREAU, Henry David. Caminhar. Lisboa: Hiena Editora, 1995, pp. 80.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Beleza


San Francisco Mountains © na Net (?)

É o percorrer/traçar (d)o nosso caminho que nos torna fortes, quando nos cumprimos na caminhada,... na peregrinação. O caminho faz-se caminhando e o caminhar faz o caminho, no concreto e/ou na imaginação*, numa manifesta transitoriedade daquele que transita, mesmo quando tudo indica (parece!) que esse andarilho está parado. Por isso, um percurso é simultaneamente caminhada/caminho, é andança e trajecto… O caminhar e o caminho podem materializar-se no terreno, mas são também metáforas de/da vida e, portanto, da morte. Por estas e outras razões e emoções, há uma ética no andar e, claro, uma estética. Não basta Andar Bem é primordial Andar em Beleza** (Walk in Beauty).



NOTA
*Imaginação enquanto “mundo imaginal”, “nação de imagens”...
**E será a beleza que nos remete para o maravilhamento ou encantamento?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sabedoria


Compostela © na Net (?)

«Oração e meditação andante, regeneração constante e profunda, reconciliação com a nossa totalidade, desprendimento das contingências, despertar e avançar no estado de ressurreição, eis alguns sinónimos de peregrinar.
(…)
Caracterizado pela abertura do coração e do olho espiritual como pela transcendência de limitações espácio-temporais, o peregrino torna-se caminhante verdadeiro da vida e onde quer que esteja dá testemunho da sua condição de homo viator, pois «o meu Reino não é deste mundo», na qual ele é também a Luz do mundo, e só ou acompanhado, casado ou monakos, a sua alma por momentos atinge a Via Láctea, une-se com os reflexos dourados do sol, na rua, na estrada ou auto-estrada, entra em comunhão com o seu espírito e os espíritos de outras pessoas, aquieta-se com Deus ou com a plenitude do Espaço.
Muitos fazem o caminho de Santiago mas poucos se tornam Caminho. Mas tal é o sentido iniciático da peregrinação: passar da condição de imaturidade, de egoísmo, de ovelha desgarrada e manipulada, ou de lobo predador e manipulador, para o de artífice e aprendiz da obra, companheiro de mister, mestre do Caminho, pontifex entre os dois mundos, unindo o que está em cima com o que está em baixo, o superior com o inferior, tanto pela acção como pela contemplação e assim testemunhando e manifestando a Unicidade do Ser Divino…
(…)
Com efeito, com o tempo, o verdadeiro peregrino compreende cada vez mais que o Caminho é uma entidade, um ser gigantesco na Terra, ou melhor, uma das estrelas e arquétipos que na atmosfera da Terra mais raios recebe dos seres humanos e mais bênçãos lhes distribui.
Assim, ainda que não peregrinando com as pernas e os pés, o peregrino verdadeiro pode a qualquer momento penetrar no Caminho, pois tem a porta aberta para ele no peito e pode ser inundado pela luz da Estrela, pela força divina da Ka’ba de Meca, pelos filamentos das folhas transparentizadas da figueira de Bodhgaya, pela fecundidade do Ganges, pela pureza e a doçura da Nossa Senhora ou Grande Deusa Mãe nos seus múltiplos nomes, santuários e caminhos, tais como os de Fátima e Amaterasu omikami, ou ainda pela ligação divina que as montanhas sagradas, do Marão e Sintra à Estrela e ao Gerês, dos Himalaias ao Fuji, do Alborz ao Himavat lhe oferecem e agraciam…»
[TEIXEIRA DA MOTA, 2015: 169-171]

© Laurence Winram

Por tudo isso (e já não é pouco), mas muito mais, é que, por estes dias, vocês não são apenas 3 ComPassos ou 4, são pelo menos 5, porque estou e estarei convosco acompanhando-vos*, nessa vossa/nossa demanda, até Campus Stellae. Na verdade, poderão sentir facilmente que não somos apenas cinco, é uma multidão que neste momento (sempre presente) peregrina, uns a pé e outros nem por isso... E essa é uma das constatações d'a Sabedoria do Caminho. Bom Caminho ;-)

© na Net (?)

NOTAS
· *Acompanhando-vos na qualidade de “companhia”, de “companheirismo”: aquelas e aqueles que são “companheiras/companheiros”, que partilham o pão...
· O destaque de palavras a negrito é da nossa autoria.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TEIXEIRA DA MOTA, Pedro. Da Alma ao Espírito. Porto: Publicações Maitreya, 2015, 2ª ed., pp. 188. ISBN 978-989-8691-17-0


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

De Ambulando

Pedro Cuiça © Caminho de Santiago (Espanha, Agosto 2016)

A expressão Solvitur ambulando, atribuída ao filósofo grego Diógenes numa situação particular, foi e é recorrentemente apropriada por vários autores em diversos contextos. Diógenes (séc. IV a.C.), segundo consta, face a questão que lhe foi colocada sobre “se o movimento é real” ter-se-á simplesmente levantado, andado e exclamado “está resolvido ao caminhar”! No entanto, a multiplicidade de problemáticas que se podem resolver através do singelo acto de andar a pé não se esgota, de todo, nessa aparentemente lapalissada resposta e menos ainda na questão que a suscitou.
Como facilmente se poderá constatar existem muitas outras questões, problemas e paradoxos cujas respostas se encontrarão ou resultarão no/do caminhar. Andar a pé não se cinge tão somente a essa característica peculiar de propiciar respostas, vai bem mais além ao constituir um acto catalisador do pensar, uma inspiradora e criativa prática a que muitos recorreram e continuam a recorrer: ao estilo de um Friedrich Nietzche ou de um  Antero de Quental. A expressão foi utilizada, por exemplo, em Walking (1861) de Henry David Thoreau ou em textos de Aleister Crowley e, não deixa de ser curioso, Solvitur ambulando ser o lema da Royal Air Forces Escaping Society.

Tendo em conta a diversidade de motivos e motivações pedestres associadas a Solvitur ambulando, gostaríamos contudo de salientar o Caminhar/Caminho como meio de conhecer-se, descobrir-se, enfim resolver-se a si mesmo através do andar... No sentido, portanto, de Solvitur ambulando como “resolve-se pela prática” ou “ser resolvido pela prática”. E, claro, em caminhos balizados ou não... de-ambulando no mais perfeito "ao Deus dará".

Pedro Cuiça © Caminho de Santiago (Portugal, Março 2016)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Saunter

© da net (?)

Hiking : "I don't like either the word or the thing. People ought to saunter in the mountains - not hike! Do you know the origin of that word 'saunter?' It's a beautiful word. Away back in the Middle Ages people used to go on pilgrimages to the Holy Land, and when people in the villages through which they passed asked where they were going, they would reply, 'A la sainte terre,' 'To the Holy Land.' And so they became known as sainte-terre-ers or saunterers. Now these mountains are our Holy Land, and we ought to saunter through them reverently, not 'hike' through them."

John Muir

segunda-feira, 31 de julho de 2017

D'a Marcha

A fechar o mês de Santiago e a coincidir com o começo da peregrinação que empreendemos no ano transacto, publicamos um excerto da obra Imagens e Reflexos do Imaginário Português, da autoria de Gilbert Durand e prefácio do insigne Mestre Lima de Freitas. Na sequência de mais de um milénio de tradição cavaleiresca, num blogue assumidamente de “Caminheiros Andantes” (ou de “cavaleiros apeados”, como se queira), mais do que (re)lembrar pretendemos (ou gostaríamos) que este texto suscite (ou suscitasse) a necessária e devida curiosidade por antigas “coisas” (!) afinal tão presentes.

Mestre Lima de Freitas © Estudo para D. Sebastião (1987)

A PEREGRINAÇÃO
(...) “Cruzar-se” é partir para um combate santo, uma justa reconquista do túmulo de Cristo, e ao mesmo tempo fazer a famosa peregrinação à Terra Santa. Mas não é a Cruzada uma extrapolação da reconquista? Ora a reconquista em terra ibérica vai situar o centro da terceira prestigiosa peregrinação da cristandade no Oeste da Europa, na Galiza, centro que irá literalmente irrigar toda a Europa ocidental através das grandes vias de peregrinação que convergem para Santiago.
Não esqueçamos igualmente que o famoso Monte Saint Michel “no perigo do mar”, dedicado ao Arcanjo chefe das milícias celestes, era um dos grandes centros de peregrinação da França, também ele no Oeste da Europa e lugar onde a crença céltica situa a ilha de Avallon, no qual os mortos esperam a Ressurreição.
Mas o caso de São Tiago Maior e do seu túmulo em Compostela é paradigmático: por vezes o Santo é representado como “matamouros”, de espada em riste, a cavalo – muito próximo da figuração equestre do Imperador Constantino, tão célebre no Poitou e em Saintonge no séc. XII (São Nicolau de Civray, Parthenay le Vieux, Saint Jovin de Marne, Aulnay, Sainte Croix de Bordéus, etc..) – outras vezes, sobretudo a partir do séc. XIII, como peregrino a pé, coberto pelo grande “sombrero” ornado com a concha, apoiado no bordão, da cabaça e alforge, abrigando porventura alguns peregrinos debaixo da sua capa (como no baixo-relevo do séc. XVII do Museu de Bona). Ao considerarmos a lista das obras de arte consagradas a São Tiago Peregrino verificamos que se trata, as mais das vezes, de estátuas anónimas e populares, e menos de obras de grandes pintores (à parte o Guido Reni do Prado e o Rembrandt da colecção Stephen C. Clark de Nova Iorque). O Peregrino aparece de algum modo como a face plebeia do Cavaleiro. Donde a extrema difusão do culto e das múltiplas relíquias do Santo Peregrino: Paris possuía três igrejas consagradas a São Tiago, e em toda a Europa se manifestava o seu culto: nos Países Baixos, na Alemanha, na Inglaterra, em Portugal – onde é o patrono de Coimbra – em Roma, Veneza, Milão, etc.. O culto deste santo foi sempre crescendo do século XII até ao século XIV, depois declina no séc. XVI quando a voga das peregrinações e o espírito das cruzadas desaparecem.
Mas há algo ainda mais interessante: a captação pela Cavalaria, na rota francesa da peregrinação, de uma santa padroeira numa das últimas etapas antes da travessia dos Pirinéus. Tal foi o destino de Sainte Foy de Conques, na Rouergue, a princípio insignificante. Nada parecia predestinar (mas veremos já que só na aparência, e não certamente nas razões profundas) nessa menina mártir de Agen uma das Santas Padroeiras da Cavalaria! Como o diz, com graça, Louis Réau, “o maior milagre de Sainte Foy é seguramente a prodigiosa extensão do culto prestado na Idade Média a uma pequena santa local e sem realidade histórica (sic)…”. Cruzados e peregrinos propõem o culto da menina ao longo de todo o “Camino francès”: em Roncevaux, na própria cidade de Compostela, na Normandia (em Conques), em Libourne, nos Baixos Pirinéus, na Haute Garonne, no Lyonnais, na Tarentaise, na Brie, na Beauce, em Londres, em Liège, na Itália, na Espanha e até – mais tarde – em Bogotá… Notemos de passagem que esta santa padroeira dos Cruzados é igualmente, e curiosamente, padroeira das parturientes, tal como São Leonardo de Noblac, no Limousin. Reza-se tanto à santa como ao santo para pedir o “livramento” dos cruzados cativos, cujas cadeias e correntes adornam, em ex-votos, os seus santuários. Veremos a seguir a importância deste culto do “cinto de Sainte Foy”.

Tentemos compreender, se não explicar, o destino retumbante e o sucesso da donzela de Rouergue. Antes de mais nada, evidentemente, há o nome: a Idade Média é sôfrega de homónimias e de trocadilhos: em Conches (séc. XVI) a pequena santa, confundida com uma certa Santa Foi de Roma, tem por mãe Santa Sofia… Mas este jogo de palavras não basta para explicar a extraordinária difusão e sobretudo a introdução da jovem mártir na mesnada santa dos Cavaleiros. A protecção das parturientes pela própria padroeira das Cruzadas e o culto do “cinto” põem-nos numa pista de interpretação mais interessante: encontrámos já o culto do “cinto” e as mesmas atribuições maiêuticas em Santa Margarida de Antioquia, matadora de sáurios ligada a S. Jorge, o Grande Patrono da Cavalaria. Amplifiquemos a comparação: Santa Margarida é uma “princesa” e portanto tem a cabeça cingida por uma coroa, de pérolas bem entendido (margarida = pérola) – sublinharemos adiante a importância deste pormenor – pérolas “marinhas” que a confundem com Santa Pelágia de Antioquia (pelagia = mar) e com Santa “Marinha” de Orense, em Espanha. O que há de notável, porém, é que a pequena Santa de Rouergue é, também ela, incompreensivelmente coroada, como se vê no celebérrimo relicário de Conques (séc. X), no vitral da catedral de Chartres (séc. XIII) – onde uma pomba desce do céu com uma coroa cravejada de pedras preciosas a fim de coroar a pequena mártir –, ou na estatueta de Pierre Fréchieu (séc. XV) do Tesouro de Conques… Santa Foy, como Santa Margarida, foram convertidas pelas respectivas amas de leite; ambas foram desejadas por “pagãos”, uma por Blibrius, outra pelo procônsul Daciano; ambas sofreram um rôr de suplícios: atenazadas, queimadas e por fim decapitadas.

Mas, sobretudo, ambas são invocadas – donde a devoção pelos seus “cintos” – para alívio pronto das parturientes. A “contaminação” hagiográfica não deixa dúvidas, quanto a nós: quer uma, quer outra são “princesas”, ambas virgens e ambas “atenazadas” nos seios, ambas santas protectoras do parto… Talvez não seja indiferente lembrar aqui a filiação “sofiânica” da santinha de Rouergue. Por detrás da carga de superstições populares desenha-se uma interpretação, que começa a dar justificação ao facto das duas virgens mártires estarem ligadas à mesnada da santa cavalaria. (…)
A confusão entre a cavalgada errante do cavaleiro e a peregrinação é, pois, extremamente instrutiva: mostra-nos que o carácter errante dos Cavaleiros – de Gauvin a Perceval nas duas “Continuações” do Conto do Graal – é apenas aparente. Na verdade essa “errância” tem a ver com a demanda alquímica, como mostrou P. G. Sansonetti, quer mais simplesmente com uma “peregrinação” iniciática ou, pelo menos, “iluminativa”. Como já o provou Georges Suby, bem cedo, a partir do Pontifical romano-germanique de Mayence, do século X, a cavalaria tornou-se uma ordo, foi “ordenada”. Essa ordem não parou de crescer ao longo dos séculos XI e XII, reforçada pela confluência do sacral e do militar nas grandes ordens religiosas e guerreiras. Não espanta, por isso mesmo, ver confundidas na crença popular a via espiritual do peregrino e a demanda do cavaleiro. Ambas constituem uma “marcha” – à margem tanto do confortável clericato como da sedentarização urbana da burguesia nascente – unidas numa “demanda” cujo tipo perfeito é a demanda do Graal. O carácter “errante” da cavalaria que D. Quixote, o derradeiro cavaleiro, retomará com desesperada magnificência, é de natureza igual à da peregrinação espiritual. (…) [DURAND, 2000: 113-116]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quixote (1974)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DURAND, Gilbert. Imagens e Reflexos do Imaginário Português. Lisboa: Hugin Editores, 2000, pp. 224. ISBN 972-8310-23-4