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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Beleza


San Francisco Mountains © na Net (?)

É o percorrer/traçar (d)o nosso caminho que nos torna fortes, quando nos cumprimos na caminhada,... na peregrinação. O caminho faz-se caminhando e o caminhar faz o caminho, no concreto e/ou na imaginação*, numa manifesta transitoriedade daquele que transita, mesmo quando tudo indica (parece!) que esse andarilho está parado. Por isso, um percurso é simultaneamente caminhada/caminho, é andança e trajecto… O caminhar e o caminho podem materializar-se no terreno, mas são também metáforas de/da vida e, portanto, da morte. Por estas e outras razões e emoções, há uma ética no andar e, claro, uma estética. Não basta Andar Bem é primordial Andar em Beleza** (Walk in Beauty).



NOTA
*Imaginação enquanto “mundo imaginal”, “nação de imagens”...
**E será a beleza que nos remete para o maravilhamento ou encantamento?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sabedoria


Compostela © na Net (?)

«Oração e meditação andante, regeneração constante e profunda, reconciliação com a nossa totalidade, desprendimento das contingências, despertar e avançar no estado de ressurreição, eis alguns sinónimos de peregrinar.
(…)
Caracterizado pela abertura do coração e do olho espiritual como pela transcendência de limitações espácio-temporais, o peregrino torna-se caminhante verdadeiro da vida e onde quer que esteja dá testemunho da sua condição de homo viator, pois «o meu Reino não é deste mundo», na qual ele é também a Luz do mundo, e só ou acompanhado, casado ou monakos, a sua alma por momentos atinge a Via Láctea, une-se com os reflexos dourados do sol, na rua, na estrada ou auto-estrada, entra em comunhão com o seu espírito e os espíritos de outras pessoas, aquieta-se com Deus ou com a plenitude do Espaço.
Muitos fazem o caminho de Santiago mas poucos se tornam Caminho. Mas tal é o sentido iniciático da peregrinação: passar da condição de imaturidade, de egoísmo, de ovelha desgarrada e manipulada, ou de lobo predador e manipulador, para o de artífice e aprendiz da obra, companheiro de mister, mestre do Caminho, pontifex entre os dois mundos, unindo o que está em cima com o que está em baixo, o superior com o inferior, tanto pela acção como pela contemplação e assim testemunhando e manifestando a Unicidade do Ser Divino…
(…)
Com efeito, com o tempo, o verdadeiro peregrino compreende cada vez mais que o Caminho é uma entidade, um ser gigantesco na Terra, ou melhor, uma das estrelas e arquétipos que na atmosfera da Terra mais raios recebe dos seres humanos e mais bênçãos lhes distribui.
Assim, ainda que não peregrinando com as pernas e os pés, o peregrino verdadeiro pode a qualquer momento penetrar no Caminho, pois tem a porta aberta para ele no peito e pode ser inundado pela luz da Estrela, pela força divina da Ka’ba de Meca, pelos filamentos das folhas transparentizadas da figueira de Bodhgaya, pela fecundidade do Ganges, pela pureza e a doçura da Nossa Senhora ou Grande Deusa Mãe nos seus múltiplos nomes, santuários e caminhos, tais como os de Fátima e Amaterasu omikami, ou ainda pela ligação divina que as montanhas sagradas, do Marão e Sintra à Estrela e ao Gerês, dos Himalaias ao Fuji, do Alborz ao Himavat lhe oferecem e agraciam…»
[TEIXEIRA DA MOTA, 2015: 169-171]

© Laurence Winram

Por tudo isso (e já não é pouco), mas muito mais, é que, por estes dias, vocês não são apenas 3 ComPassos ou 4, são pelo menos 5, porque estou e estarei convosco acompanhando-vos*, nessa vossa/nossa demanda, até Campus Stellae. Na verdade, poderão sentir facilmente que não somos apenas cinco, é uma multidão que neste momento (sempre presente) peregrina, uns a pé e outros nem por isso... E essa é uma das constatações d'a Sabedoria do Caminho. Bom Caminho ;-)

© na Net (?)

NOTAS
· *Acompanhando-vos na qualidade de “companhia”, de “companheirismo”: aquelas e aqueles que são “companheiras/companheiros”, que partilham o pão...
· O destaque de palavras a negrito é da nossa autoria.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TEIXEIRA DA MOTA, Pedro. Da Alma ao Espírito. Porto: Publicações Maitreya, 2015, 2ª ed., pp. 188. ISBN 978-989-8691-17-0


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

De Ambulando

Pedro Cuiça © Caminho de Santiago (Espanha, Agosto 2016)

A expressão Solvitur ambulando, atribuída ao filósofo grego Diógenes numa situação particular, foi e é recorrentemente apropriada por vários autores em diversos contextos. Diógenes (séc. IV a.C.), segundo consta, face a questão que lhe foi colocada sobre “se o movimento é real” ter-se-á simplesmente levantado, andado e exclamado “está resolvido ao caminhar”! No entanto, a multiplicidade de problemáticas que se podem resolver através do singelo acto de andar a pé não se esgota, de todo, nessa aparentemente lapalissada resposta e menos ainda na questão que a suscitou.
Como facilmente se poderá constatar existem muitas outras questões, problemas e paradoxos cujas respostas se encontrarão ou resultarão no/do caminhar. Andar a pé não se cinge tão somente a essa característica peculiar de propiciar respostas, vai bem mais além ao constituir um acto catalisador do pensar, uma inspiradora e criativa prática a que muitos recorreram e continuam a recorrer: ao estilo de um Friedrich Nietzche ou de um  Antero de Quental. A expressão foi utilizada, por exemplo, em Walking (1861) de Henry David Thoreau ou em textos de Aleister Crowley e, não deixa de ser curioso, Solvitur ambulando ser o lema da Royal Air Forces Escaping Society.

Tendo em conta a diversidade de motivos e motivações pedestres associadas a Solvitur ambulando, gostaríamos contudo de salientar o Caminhar/Caminho como meio de conhecer-se, descobrir-se, enfim resolver-se a si mesmo através do andar... No sentido, portanto, de Solvitur ambulando como “resolve-se pela prática” ou “ser resolvido pela prática”. E, claro, em caminhos balizados ou não... de-ambulando no mais perfeito "ao Deus dará".

Pedro Cuiça © Caminho de Santiago (Portugal, Março 2016)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Saunter

© da net (?)

Hiking : "I don't like either the word or the thing. People ought to saunter in the mountains - not hike! Do you know the origin of that word 'saunter?' It's a beautiful word. Away back in the Middle Ages people used to go on pilgrimages to the Holy Land, and when people in the villages through which they passed asked where they were going, they would reply, 'A la sainte terre,' 'To the Holy Land.' And so they became known as sainte-terre-ers or saunterers. Now these mountains are our Holy Land, and we ought to saunter through them reverently, not 'hike' through them."

John Muir

segunda-feira, 31 de julho de 2017

D'a Marcha

A fechar o mês de Santiago e a coincidir com o começo da peregrinação que empreendemos no ano transacto, publicamos um excerto da obra Imagens e Reflexos do Imaginário Português, da autoria de Gilbert Durand e prefácio do insigne Mestre Lima de Freitas. Na sequência de mais de um milénio de tradição cavaleiresca, num blogue assumidamente de “Caminheiros Andantes” (ou de “cavaleiros apeados”, como se queira), mais do que (re)lembrar pretendemos (ou gostaríamos) que este texto suscite (ou suscitasse) a necessária e devida curiosidade por antigas “coisas” (!) afinal tão presentes.

Mestre Lima de Freitas © Estudo para D. Sebastião (1987)

A PEREGRINAÇÃO
(...) “Cruzar-se” é partir para um combate santo, uma justa reconquista do túmulo de Cristo, e ao mesmo tempo fazer a famosa peregrinação à Terra Santa. Mas não é a Cruzada uma extrapolação da reconquista? Ora a reconquista em terra ibérica vai situar o centro da terceira prestigiosa peregrinação da cristandade no Oeste da Europa, na Galiza, centro que irá literalmente irrigar toda a Europa ocidental através das grandes vias de peregrinação que convergem para Santiago.
Não esqueçamos igualmente que o famoso Monte Saint Michel “no perigo do mar”, dedicado ao Arcanjo chefe das milícias celestes, era um dos grandes centros de peregrinação da França, também ele no Oeste da Europa e lugar onde a crença céltica situa a ilha de Avallon, no qual os mortos esperam a Ressurreição.
Mas o caso de São Tiago Maior e do seu túmulo em Compostela é paradigmático: por vezes o Santo é representado como “matamouros”, de espada em riste, a cavalo – muito próximo da figuração equestre do Imperador Constantino, tão célebre no Poitou e em Saintonge no séc. XII (São Nicolau de Civray, Parthenay le Vieux, Saint Jovin de Marne, Aulnay, Sainte Croix de Bordéus, etc..) – outras vezes, sobretudo a partir do séc. XIII, como peregrino a pé, coberto pelo grande “sombrero” ornado com a concha, apoiado no bordão, da cabaça e alforge, abrigando porventura alguns peregrinos debaixo da sua capa (como no baixo-relevo do séc. XVII do Museu de Bona). Ao considerarmos a lista das obras de arte consagradas a São Tiago Peregrino verificamos que se trata, as mais das vezes, de estátuas anónimas e populares, e menos de obras de grandes pintores (à parte o Guido Reni do Prado e o Rembrandt da colecção Stephen C. Clark de Nova Iorque). O Peregrino aparece de algum modo como a face plebeia do Cavaleiro. Donde a extrema difusão do culto e das múltiplas relíquias do Santo Peregrino: Paris possuía três igrejas consagradas a São Tiago, e em toda a Europa se manifestava o seu culto: nos Países Baixos, na Alemanha, na Inglaterra, em Portugal – onde é o patrono de Coimbra – em Roma, Veneza, Milão, etc.. O culto deste santo foi sempre crescendo do século XII até ao século XIV, depois declina no séc. XVI quando a voga das peregrinações e o espírito das cruzadas desaparecem.
Mas há algo ainda mais interessante: a captação pela Cavalaria, na rota francesa da peregrinação, de uma santa padroeira numa das últimas etapas antes da travessia dos Pirinéus. Tal foi o destino de Sainte Foy de Conques, na Rouergue, a princípio insignificante. Nada parecia predestinar (mas veremos já que só na aparência, e não certamente nas razões profundas) nessa menina mártir de Agen uma das Santas Padroeiras da Cavalaria! Como o diz, com graça, Louis Réau, “o maior milagre de Sainte Foy é seguramente a prodigiosa extensão do culto prestado na Idade Média a uma pequena santa local e sem realidade histórica (sic)…”. Cruzados e peregrinos propõem o culto da menina ao longo de todo o “Camino francès”: em Roncevaux, na própria cidade de Compostela, na Normandia (em Conques), em Libourne, nos Baixos Pirinéus, na Haute Garonne, no Lyonnais, na Tarentaise, na Brie, na Beauce, em Londres, em Liège, na Itália, na Espanha e até – mais tarde – em Bogotá… Notemos de passagem que esta santa padroeira dos Cruzados é igualmente, e curiosamente, padroeira das parturientes, tal como São Leonardo de Noblac, no Limousin. Reza-se tanto à santa como ao santo para pedir o “livramento” dos cruzados cativos, cujas cadeias e correntes adornam, em ex-votos, os seus santuários. Veremos a seguir a importância deste culto do “cinto de Sainte Foy”.

Tentemos compreender, se não explicar, o destino retumbante e o sucesso da donzela de Rouergue. Antes de mais nada, evidentemente, há o nome: a Idade Média é sôfrega de homónimias e de trocadilhos: em Conches (séc. XVI) a pequena santa, confundida com uma certa Santa Foi de Roma, tem por mãe Santa Sofia… Mas este jogo de palavras não basta para explicar a extraordinária difusão e sobretudo a introdução da jovem mártir na mesnada santa dos Cavaleiros. A protecção das parturientes pela própria padroeira das Cruzadas e o culto do “cinto” põem-nos numa pista de interpretação mais interessante: encontrámos já o culto do “cinto” e as mesmas atribuições maiêuticas em Santa Margarida de Antioquia, matadora de sáurios ligada a S. Jorge, o Grande Patrono da Cavalaria. Amplifiquemos a comparação: Santa Margarida é uma “princesa” e portanto tem a cabeça cingida por uma coroa, de pérolas bem entendido (margarida = pérola) – sublinharemos adiante a importância deste pormenor – pérolas “marinhas” que a confundem com Santa Pelágia de Antioquia (pelagia = mar) e com Santa “Marinha” de Orense, em Espanha. O que há de notável, porém, é que a pequena Santa de Rouergue é, também ela, incompreensivelmente coroada, como se vê no celebérrimo relicário de Conques (séc. X), no vitral da catedral de Chartres (séc. XIII) – onde uma pomba desce do céu com uma coroa cravejada de pedras preciosas a fim de coroar a pequena mártir –, ou na estatueta de Pierre Fréchieu (séc. XV) do Tesouro de Conques… Santa Foy, como Santa Margarida, foram convertidas pelas respectivas amas de leite; ambas foram desejadas por “pagãos”, uma por Blibrius, outra pelo procônsul Daciano; ambas sofreram um rôr de suplícios: atenazadas, queimadas e por fim decapitadas.

Mas, sobretudo, ambas são invocadas – donde a devoção pelos seus “cintos” – para alívio pronto das parturientes. A “contaminação” hagiográfica não deixa dúvidas, quanto a nós: quer uma, quer outra são “princesas”, ambas virgens e ambas “atenazadas” nos seios, ambas santas protectoras do parto… Talvez não seja indiferente lembrar aqui a filiação “sofiânica” da santinha de Rouergue. Por detrás da carga de superstições populares desenha-se uma interpretação, que começa a dar justificação ao facto das duas virgens mártires estarem ligadas à mesnada da santa cavalaria. (…)
A confusão entre a cavalgada errante do cavaleiro e a peregrinação é, pois, extremamente instrutiva: mostra-nos que o carácter errante dos Cavaleiros – de Gauvin a Perceval nas duas “Continuações” do Conto do Graal – é apenas aparente. Na verdade essa “errância” tem a ver com a demanda alquímica, como mostrou P. G. Sansonetti, quer mais simplesmente com uma “peregrinação” iniciática ou, pelo menos, “iluminativa”. Como já o provou Georges Suby, bem cedo, a partir do Pontifical romano-germanique de Mayence, do século X, a cavalaria tornou-se uma ordo, foi “ordenada”. Essa ordem não parou de crescer ao longo dos séculos XI e XII, reforçada pela confluência do sacral e do militar nas grandes ordens religiosas e guerreiras. Não espanta, por isso mesmo, ver confundidas na crença popular a via espiritual do peregrino e a demanda do cavaleiro. Ambas constituem uma “marcha” – à margem tanto do confortável clericato como da sedentarização urbana da burguesia nascente – unidas numa “demanda” cujo tipo perfeito é a demanda do Graal. O carácter “errante” da cavalaria que D. Quixote, o derradeiro cavaleiro, retomará com desesperada magnificência, é de natureza igual à da peregrinação espiritual. (…) [DURAND, 2000: 113-116]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quixote (1974)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DURAND, Gilbert. Imagens e Reflexos do Imaginário Português. Lisboa: Hugin Editores, 2000, pp. 224. ISBN 972-8310-23-4

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Com o Coração

«E quando as suas pernas estiverem cansadas... Caminhe com o coração.»
João Paulo II


quinta-feira, 2 de março de 2017

Sessão Pública


«No próximo sábado irá decorrer, no Parque de Saúde de Lisboa, a apresentação pública do projecto “Seis Aparições, Seis Peregrinações”. O evento pretende revelar alguns pormenores desta iniciativa que, em ano de Centenário das Aparições de Fátima, visa concretizar seis peregrinações pelos Caminhos de Fátima. As seis peregrinações, em autonomia (sem carro de apoio), realizar-se-ão entre Maio e Outubro, ao longo dos diferentes Caminhos de Fátima – Caminho do Norte, Caminho Poente, Caminho Nascente e Caminho do Tejo) –, num total de 27 dias em peregrinação e 604 quilómetros de extensão.
O projecto “Seis Aparições, Seis Peregrinações” é parte integrante do estágio de Treinador de Desporto, referente ao curso de Treinadores de Grau I na modalidade de Pedestrianismo, organizado pela primeira vez, em 2016, pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP). Pedro Cuiça, o tutor do estágio, é detentor do Título Profissional de Treinador de Desporto em Pedestrianismo – Grau III, é Director Técnico de Montanha da FCMP e autor de diversos livros e manuais de caminhada e trekking, incluindo o recente manual Passo a Passo. Mário Amorim é Treinador Estagiário e autor do projecto. Este peregrino e guia de peregrinos, entendeu fundir num só projecto diferentes vertentes da sua vida, destacando-se uma marcante componente solidária e social sob diversos moldes:
1)    divulgar o extraordinário trabalho da Associação Humanidades, em especial a sua missão orientada para o apoio à Mulher, jovem e Mãe, promovendo a angariação de fundos que esta IPSS tanto necessita;
2) divulgar o altamente meritório esforço da Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima, na recuperação, conservação, sinalização e divulgação dos caminhos do Tejo, Poente, Nascente e Norte;
3) contribuir para promover as peregrinações por caminhos alternativos às estradas, privilegiando a segurança e bem-estar de milhares de peregrinos;
4) divulgar a prática de pedestrianismo como actividade de ar livre promotora do bem-estar e saúde dos praticantes, estimulando um contacto consciente e responsável com a Natureza.»
M.A.



Sessão de apresentação pública do Projeto “Seis Aparições, Seis Peregrinações”

ENTRADA LIVRE
Data: 4 de março de 2017
Local: Parque de Saúde de Lisboa – auditório do edifício Tomé Pires – Avenida do Brasil nº 53, 1749-004 Lisboa
Abertura da sessão: 10.00 a.m.
Programa:           
10.00 – Rodrigo Cerqueira: Os caminhos e a Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima;
10.30 – Pedro Cuiça: Pedestrianismo enquanto actividade multifacetada: treino e enquadramento de praticantes;
11.00 – Isabel Lopes: A missão e os desafios da Associação Humanidades;
11.30 – Mário Amorim: Projeto de estágio “Seis Aparições, Seis Peregrinações”;
12.00 – Encerramento da sessão.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Nigredo

«– Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.
– Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.
Trabalho de mulher e brincadeira de criança.»
Louis PAUWELS & Jacques BERGIER (2008: 105-106)

O Nigredo – a confusão dos elementos que surge no fim da liquefacção – é também o 1º meio demonstrativo, a Cabeça do Corvo, que marca o princípio da primeira negridão, a corrupção ou putrefacção (que dispõe para a geração).
Corresponde, ainda à primeira digestão (que é feita com CALOR BRANCO) – o congresso do macho e da fêmea, a mistura das matérias seminais, a dissolução do corpo e a resolução dos elementos em Água homogénea (o Caos tenebroso, o Tenebroso abismo).
José Manuel ANES (2010: 99)

Lima de Freitas © O Farol de Saturno (Acrílico sobre tela,1986)

Esta viagem começa a «Ocidente», pois esta palavra designa, em linguagem alquímica, a nigredo ou «a obra ao negro», que é a primeira fase do trabalho de transmutação: Ocidente, explica-nos Dom Pernéty, é o nome que «alguns químicos deram à matéria da obra em putrefacção. É a dissolução do sol hermético, chamamos-lhe ocidente porque este sol perde então o brilho, como o sol celeste nos priva da sua luz quando se deita». A «putrefacção» e a «dissolução» do «sol hermético» ocorrem assim nas águas negras do mundo de baixo, mas esta água amarga e salgada, este «Mar tenebroso» que se trata de atravessar é também o homem ele mesmo, no seu vazio abissal, sucessivamente purgatório e inferno, obscuro e inconsciente, profundidade temível onde sente chamaram-no as vozes indistintas do passado e dos seus «outros» larvares, engolidos, não manifestados ou não absolvidos, familiares e estranhos, como Jonas os entendeu no ventre da Baleia.
A barca enfim (como a baleia de Jonas era o seu inconsciente, como o «Mar tenebroso» era a sua substância abissal) revela-se ser ainda o homem ele próprio, desta vez enquanto corpo; corpo feito de água deste mesmo mar salgado, sal deste sal, cristalizado durante alguns instantes à superfície da noite líquida, como a imagem da face de Deus, antes de se dissolver: corpo-nau, navio e vaso, matéria maternal, que alimenta, feminina, que contém, abrigando-a e sustendo-a, a língua de fogo coagulada por cima do solve universal, como a arca susteve Noé e todas as sementes da vida futura acima do dilúvio.
E nós vemos presentemente esta chama, esta presença divina ou este «Espírito Santo» flutuando sobre as vagas do oceano cósmico e deslizando em direcção à aurora consurgens; do mesmo modo, aquele que repete iniciaticamente o percurso solar sobre as vagas diluvianas verá despontar a «Oriente» as claridades puras do albedo. «Quando a cor branca se manifesta após o negrume da matéria putrefacta, diz o dicionário de Dom Pernéty, chama-se-lhe Oriente porque parece então que o Sol hermético sai das trevas da noite». A viagem iniciática começa, assim, «entre uma luz inicial e uma luz reencontrada, entre o Oriente primeiro, paraíso sempre perdido, e o Oriente segundo, definitiva cidade do sol», sendo o percurso nocturno a prova, a errância, a demanda, a História, pois segundo a profunda observação de Hegel, pertinentemente retomada por Jean-François Marquer, toda a história é por si mesma «ocidental».
Na riqueza extraordinária dos mitos e dos símbolos do mar e da navegação, encontrámos portanto, um fio condutor de natureza iniciática que orienta a nossa pesquisa e desde já confere um sentido a bastantes lendas e aspectos tradicionais aparentemente desprovidos de conexão. Resumamos então: a morte do homem é assimilável à «morte» do sol; o seu lugar é o «Ocidente», ela pode ser concebida como uma dissolução ou uma partida no oceano primordial; o mundo inferior ou infernal apresenta-se como um percurso a vencer, uma navegação perigosa, uma peregrinação da alma, e completar este itinerário equivale, em consequência, a uma prova iniciática, a uma descida aos infernos e a uma purificação através de provas sucessivas; a aurora anuncia a «ressurreição» do deus sol e prefigura a fusão da alma do defunto na luz divina ou, no plano «técnico» do hermetismo, a obtenção da «pedra branca» que precede a entrada em Heliópolis, a cidade solar.
Lima de FREITAS (2006: 189-192)

Pedro Cuiça © Quinta da Regaleira (Sintra, 2016)


Referências bibliográficas
ANES, José Manuel. A Alquimia – Os alquimistas contemporâneos e as Novas Espiritualidades. Lisboa: Ésquilo, 2010, pp. 320. ISBN 978-989-8092-71-7
FREITAS, Lima de. Porto do Graal – A riqueza ocultada da tradição mítico-espiritual portuguesa. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 352. ISBN 972-8605-72-2
PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Lisboa: Bertrand Editora, 2008 pp. 512. ISBN 978-972-25-1753-9

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sint(r)a o lugar da luz

«O destino de alguém nunca é um lugar,
mas sim uma nova forma de ver as coisas.»
Henry Miller

Acrílico sobre madeira: Lima de Freitas  © A Montanha da Lua (1988)

A religião cristã possui três locais considerados santos que, durante séculos, foram alvo de atracção por parte de crentes: Santiago de Compostela, Roma e Jerusalém. (…) O impulso que conduz, na modernidade, a empreender uma peregrinação a pé, nem que seja uma vez na vida, até um lugar longínquo, quantas vezes fora do seu país de origem, não resulta certamente do fenómeno costumaz a que se convencionou chamar «turismo». Este não será mais do que uma tentativa, algo diletante e superficial, de colmatar uma necessidade profunda que se traduz na viagem. Mas, sendo a viagem o meio, o que interessa nestas «matérias de fé» são os fins: «conhecer-nos a nós próprios como parte integrante de um todo de dimensões muito mais vastas do que as da nossa casa, aldeia, cidade ou país».
[CUIÇA, 2015: 31-32]

A geografia do sagrado justificará, per si, o caminhar na paisagem (exterior) em busca de fortes energias telúricas e genius loci, todavia quantas vezes para afinal descobrir, no fechar (ou abrir?) do círculo, que a luz sempre se encontrou no exacto lugar de partida e de chegada: o sacro templo do ser (interior). 


Referência bibliográfica
CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6

© Danielle Barlow (2013)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O Viandante

«Todo o português é um penitente e um homo viator. Por isso também ele é, de todo sempre, vocacionado para os grandes ermos, onde se perfazem essas penitências. Como as vividas e cantadas por Camilo n’A Bruxa do Monte Córdova, O Santo da Montanha, A Doida do Candal; ou a vivida por ele próprio como O Penitente de S. Miguel de Seide, cantado por Teixeira de Pascoaes, celebrante da saudade.
Vocacionado para a penitência, como eremita ou como peregrino (outra forma de penitência) nas grandes viagens que o levam ao cabo do mundo. Sempre procurando, através de dores e sofrimentos sem conta, a pátria original, ou esse paraíso perdido. Em viagens no mundo exterior ou no mundo interior, sempre através e vencendo um Mar Tenebroso: na alma ou na terra, para, através desse mar de escuridão, como purgatório, atingir a própria santificação.
Por isso também, a essência da saudade vivida nesta «praia purgatória» de reminiscência vicentina, é toda dinâmica nessa força que conduz, impulsiva, simultaneamente de expectação, procura e transcensão, ou sublimação. Esse, o sentido de sua essência. Entre terra e terra, ou mais perfeitamente, entre terra e céu, como a cantou Frei Agostinho da Cruz: «Saudade do céu, não da terra».
Assim também, em toda a saudade, como em todo o existir, sentir, pensar e agir português, estão à obra conjuntamente duas forças que mais conduziram esse ser português; e que tão visíveis são na sua poesia, mística, filosofia, teologia e escatologia: o platonismo e o augustianismo, como saudade de Deus. Ou volver num caminho antes já percorrido; sempre como regresso, depois do exílio, à pátria primeira. Teixeira de Pascoaes o cantou supremamente no Regresso ao Paraíso.»
Dalila Pereira da Costa: Entre Desengano e Esperança; Porto: Lello Editores, 1996, p. 10. ISBN 972-48-1689-3

Pedro Cuiça © Mont'Santo (Lisboa - 2/10/2016)

Panteísmo, panenteísmo, teísmo, deísmo ou nem por isso?!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Caminho

© Pedro Cuiça - Igreja de Santiago (Redondela) 

«Peregrinar é um acto de Fé. É um Caminho e como tal pressupõe um itinerário, mas não se esgota nele.» (Caminho Português de Santiago)

Na primeira semana de Agosto estivemos no Caminho Português, de Valença do Minho a Santiago de Compostela, e, como não poderia deixar de ser,  foi algo de enriquecedoramente marcante...

© Pedro Cuiça - Praza do Obradoiro (Santiago de Compostela) 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Hoje é dia de Santiago

Hoje é dia de Santiago, vamos comemorar essa Via Láctea que conduz ao LUG-ar de Campus Stellae



Oito séculos após a vida terrena de Tiago, filho de Zebedeu, surgiu na Galiza uma prodigiosa lenda, na sequência de inusitados e seráficos fenómenos descritos por um eremita cristão. Fenómenos que culminaram na identificação dos restos mortais desse apóstolo no local que é hoje Santiago de Compostela! O apóstolo Tiago Maior terá sido decapitado na remota Palestina durante o reinado de Tibério, por ordem de Herodes Agripa, contudo o seu corpo foi pretensamente conduzido num barco à deriva (à semelhança do mito de S. Vicente), tendo dado à costa na Galiza, mais precisamente em Iria Flávia (a actual Padrón), e daí transportado até Compostela. Nesse contexto, não será de estranhar a frase de Miguel Unamuno: «Qualquer homem, dotado de espírito crítico, não pode admitir, por católico que seja, que o corpo de Santiago Maior repouse em Compostela.» No entanto, para o que nos move, pouco importa de quem são os restos mortais que se cultuam em Compostela. O que nos interessa é o Mistério (a “coisa mística”) que atraiu e continua a atrair larguíssimos milhares de peregrinos, desde remotos tempos, nesse(s) périplo(s) em torno de uma geografia sagrada, terrestre e celeste, com “término” na galaica finis terrae.


«Fazer hoje o Caminho de Santiago – El Camiño – não comporta os perigos de outrora mas continua a ser certamente uma aventura pessoal tão marcante quanto inolvidável. E, claro, ainda hoje o caminho é utilizado por diversas escolas mistéricas e ordens místicas como forma de iniciação ou exercício de fé.» (p. 33)
«A todos, boas caminhadas!» (p. 21)
Pedro Cuiça
Em terras de S. Miguel (Queijas),
no mês de Santiago (25 de Julho de 2014)
[Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera do Livro, 2015 ]

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Religar


As peregrinações a pé rumo a determinados locais «santos» constituem uma prática milenar largamente exercitada e ainda hoje muito em voga, por isso quando se fala de religião no âmbito do pedestrianismo será essa a temática sobre a qual a maior parte das pessoas pensará de imediato. No entanto, ao entendermos «religião» na sua acepção etimológica de ligação (do latim religāre: ligar a, unir a, atar) o que nos ocorre é o acto de andar como actividade privilegiada de (re)ligação à sacralidade da natureza ou à própria divindade. É nessa acepção, aliás, que o caminhar visto como uma espécie de «ioga ambulatório» dá sentido a essa curiosa expressão, tendo em conta também a etimologia da palavra «ioga» (do sânscrito  योग: unir ou juntar, entre outros significados).

Pedro CUIÇA (2015): Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking; Lisboa: A Esfera dos Livros, p. 31.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

O eterno retorno


Peregrinar pode ser enveredar por um processo de redenção, numa busca de autenticidade, dando especial importância à geografia do(s) caminho(s), aos astros/constelações e aos encontros significativos!... Como uma iniciação: uma arte que emerge sob a forma de poesia numa (re)ligação com as forças etéricas do (micro e macro) Cosmos. O que está oculto é precisamente aquilo que se encontra (escondido?) à vista de todos e os percursos não s(er)ão mais do que vias de desvelar frases feitas:
· Estar vivo é o contrário de estar morto;
· Uma viagem de mil quilómetros começa com um (simples) passo;
· O caminho faz-se caminhando;
· Parar é morrer;
· Peregrinar é um eterno retorno.

Hoje será certamente um dia auspicioso: o Solstício de Verão coincide com a Lua-cheia, fenómeno que só se repete com alguma raridade (à escala humana). Será, por isso, um tempo oportuno para (re)iniciar algum caminho re-levante...

Ultreia et sus eia.


«El Camiño se abre a todos,
Enfermos y sanos,
No sólo a católicos, sino aún a paganos,
A judios, hereges, ociosos y vanos,
Y más brevemente, a buenos y profanos.»

segunda-feira, 7 de março de 2016

Na senda...

«Estar vivo é o contrário de estar morto.»

«Uma viagem de mil quilómetros começa com um (simples!) passo.»

«O caminho faz-se caminhando.»

«Parar é morrer.»