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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Onde

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquezar (Aragão - Espanha, 31/10/2016)

Frei Betto cunhou uma expressão de grande verdade: «A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam». Efectivamente, se alguém pisa sempre em palácios e em sumptuosas catedrais, acaba a pensar segundo a lógica dos palácios e das catedrais. 
[BOFF, 2014: 60]


Pedro Cuiça © Colegiata de Alquezar (Aragão - Espanha, 31/10/2016)


Referência bibliográfica
BOFF, Leonardo. Francisco de Assis e Francisco de Roma – Uma Nova Primavera na Igreja. Lisboa: Pergaminho, 2014. ISBN 978-989-627-219-9

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

No Words

A walk in Hovdala woods (Sweden)...


PC © Bosque de Hovdala (Escânia – Suécia), 9/9/2016)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Hoje é dia de Santiago

Hoje é dia de Santiago, vamos comemorar essa Via Láctea que conduz ao LUG-ar de Campus Stellae



Oito séculos após a vida terrena de Tiago, filho de Zebedeu, surgiu na Galiza uma prodigiosa lenda, na sequência de inusitados e seráficos fenómenos descritos por um eremita cristão. Fenómenos que culminaram na identificação dos restos mortais desse apóstolo no local que é hoje Santiago de Compostela! O apóstolo Tiago Maior terá sido decapitado na remota Palestina durante o reinado de Tibério, por ordem de Herodes Agripa, contudo o seu corpo foi pretensamente conduzido num barco à deriva (à semelhança do mito de S. Vicente), tendo dado à costa na Galiza, mais precisamente em Iria Flávia (a actual Padrón), e daí transportado até Compostela. Nesse contexto, não será de estranhar a frase de Miguel Unamuno: «Qualquer homem, dotado de espírito crítico, não pode admitir, por católico que seja, que o corpo de Santiago Maior repouse em Compostela.» No entanto, para o que nos move, pouco importa de quem são os restos mortais que se cultuam em Compostela. O que nos interessa é o Mistério (a “coisa mística”) que atraiu e continua a atrair larguíssimos milhares de peregrinos, desde remotos tempos, nesse(s) périplo(s) em torno de uma geografia sagrada, terrestre e celeste, com “término” na galaica finis terrae.


«Fazer hoje o Caminho de Santiago – El Camiño – não comporta os perigos de outrora mas continua a ser certamente uma aventura pessoal tão marcante quanto inolvidável. E, claro, ainda hoje o caminho é utilizado por diversas escolas mistéricas e ordens místicas como forma de iniciação ou exercício de fé.» (p. 33)
«A todos, boas caminhadas!» (p. 21)
Pedro Cuiça
Em terras de S. Miguel (Queijas),
no mês de Santiago (25 de Julho de 2014)
[Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera do Livro, 2015 ]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Le flâneur des villes...

Ó Pedro Cuiça (Paris, 2015)

Le flâneur des villes... ou o fado vadio?

Andar em Paris – a Cidade Luz – conta com uma tradição (con)firmada e é alvo de elogio em diversa bibliografia. Andar em Lisboa – a Cidade da Luz Boa – é algo que tem vindo a despertar um notório interesse: um mundo para vadiar, para andar por aqui e por ali, ao deus-dará...

«La flânerie suppose ces concentrations urbaines qui se développent au XXe siècle, des concentrations telles qu’on peut marcher des heures durant sans voir un morceau de campagne. En marchant ainsi dans ces nouvelles mégapoles (Berlin, Londres, Paris), on traverse plusiers quartiers, qui constituent des mondes différents, à part, séparés. Tout peut changer d’un arrondissement à l’autre: la taille des maisons, l’architecture générale, l’ambiance, l’air qu’on respire, la manière de vivre, la lumière, les types sociaux. Le flâneur suppose ce moment où la ville pris des proportions telles qu’elle devient paysage. On peut la parcourir comme on ferait d’une montagne, avec ses passages de col, ses renversements de perspectives, ses dangers aussi et ses surprises. Elle est devenue une forêt, une jungle.»
Frédéric Gros (2009): Marcher, une philosophie

Ó Pedro Cuiça (Lisboa, 7/07/2016)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mas não é a mesma coisa?!

 O que me calhou na rifa: Disneylândia (Paris)!!! Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

«As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem sair do mesmo lugar.»
Henry Miller – O Mundo do Sexo e Outros TextosLisboa: Dom Quixote, 1987, p. 45

Não, este não se trata de mais um texto apologético sobre as maravilhas de Viajar no Sofá. De facto, como creio que terá ficado relativamente bem demonstrado, podemos efectivamente viajar sem sair do mesmo lugar. Poder, podemos… mas não é (certamente) a mesma coisa! Este é um texto sobre aquilo que (real-mente) é e o que parece... O que sub-entende uma essência “da coisa”, abordagem para a qual não estamos habilitados (ou motivados?), por isso cingir-nos-emos, então, a meras aparências ou ilusões. Faceta, aliás, que não é de somenos importância tendo em conta a preponderância da mesma na superficialidade dos dias (e, já agora, das noites). Deixaremos o mergulho nas profundezas da realidade (ou par’além desta!) para uma outra altura, mais auspiciosa, na qual nos sintamos mais versados (ou motivados?) nas artes respiratórias, mormente no tocante a apneias.

Enfim, nos últimos tempos, tenho pensado bastante acerca das aparências e das ilusões por estas provocadas (ou vice-versa?), fenómeno pródigo em mal-entendidos, confusões e outras tropelias. Aquilo que o povo, na sua sabedoria secular, expressa, de forma muitíssimo acurada, por “as aparências iludem” ou de modo mais singelo por “as iludências aparudem”! Depois de seis dias em grandes andanças por Paris, outras tantas jornadas de caminhada e/ou corrida à beira-mar, no “meu al-Gharb”, e meia dúzia de passeatas diárias em Lisboa, poderei dizer que regressei a casa. Mas, trocadilhos à parte, as cogitações não só continuam como ter-se-ão mesmo agravado… 

Paris (esquerda) e Lisboa (direita) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

Após as intensas deambulações na dita “cidade luz” des-cubro a luz-boa às portas de casa, tal como o notório (ou aparente?) contraste entre a cidade e o campo (e/ou a praia?). Relembro velhas espiritualidades desta finisterra a-Ocidente e dou por mim em divagações sobre a vivência dos amplos espaços e a síndrome de Lemúria ou o regresso a formulações filosóficas acerca de conceitos como “natureza”, “natural”, “sobrenatural” e “artificial”. Talvez seja do tempo – não sei se derivado das temperaturas amenas para a época, se dos nevoeiros matinais – ou quiçá seja algum sinal dos tempos – não sei se algo oculto dans l’air du temps. Talvez tenha sido “por estas e por outras” que decidi publicar, um dia destes, aqui no Pedestris, um “trabalho” sobre Conceitos(s) de Natureza. Por isso, na verdade, estas parcas palavras constituirão (ou não?) um simples intróito circunstancial! 

A arte viva: Rimbaud (Montmartre - Paris) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)
A síndrome de Lemúria: Mona lisa (Louvre - Paris) Ó V.R. (Agosto de 2015)
Os vastos espaços de ar livre: "praia de Faro" (Algarve) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Paranóia deambulatória

               Librairie J. N. Santon, Passage Verdeau (Paris) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

Caminhar com o estômago vazio, caminhar com o estômago cheio, caminhar para fazer a digestão, caminhar à procura de comida, caminhar porque é a única distracção que a bolsa permite, como teve de concluir Balzac quando veio para Paris. Caminhar para abandonar o espectro. Caminhar em vez de chorar. Caminhar na esperança vã de encontrar um rosto amigo. Caminhar, caminhar, caminhar… Mas para quê continuar? Vamos arrumar o caso com um rótulo – «paranóia deambulatória».
Henry MILLER – Um Diabo no Paraíso; Lisboa: Livros do Brasil, p. 14

  Um caso de bibliofagia - Librairie Farfouille, Passage Verdeau (Paris) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

Um simples passeio à volta de Paris-Mountrouge, Gentilly, Kremlim-Bicêtre, Ivry – era o suficiente para me desequilibrar para todo o resto do dia. Eu gostava de sentir-me desequilibrado, de perder a consciência, de me desorientar assim de manhã cedo.
(As caminhadas a que me refiro eram «passeios higiénicos» e dava-as antes do almoço. O meu espírito ficava livre e vazio, e eu preparava-me física e intelectualmente para longos trabalhos, agarrado à máquina de escrever). Seguindo pela Rue de la Tombe-Issoire, alcançava os boulevards limítrofes e depois dirigia-me para os arrabaldes e deixava os meus pés levarem-me para onde quisessem. Instintivamente, ao regressar, encaminhava-me sempre para a Place de Rungis, que misteriosamente se ligara a certas fases do filme L’Âge d’Or, e particularmente com o próprio Luis Buñuel. Aqueles nomes de rias extravagantes, aquela atmosfera irreal, a variedade de gamins, de miúdos e de monstros que pareciam vir de outro mundo, eram para mim uma vizinhança extraordinária e sedutora. Sentava-me muitas vezes num banco público, fechava os olhos durante um certo tempo, para desaparecer da superfície. Depois, abria-os de repente para observar o que se passava à minha volta com o olhar distante dos sonâmbolos. Ante os meus olhos espantados deslizavam cabras da banlieue, pranchas de navio, cintos de segurança, vigas de aço, passerelles e sautrelles, juntamente com aves degoladas, armações de veado, velhas máquinas de costura, ícones a chorar e toda uma sucessão de fenómenos inacreditáveis. Não se tratava de um bairro, mas sim de um vector, um vector muito especial, criado inteiramente para meu benefício artístico, criado expressamente para envolver num enredo emocional. Enquanto subia pela Rue de la Fontaine à Mulard, lutava freneticamente para deter o meu delírio, lutava para dominar e fixar no meu espírito (pelo menos até ao pequeno almoço) três imagens absolutamente dispares, que, se conseguisse ligar convenientemente, me permitiriam descobrir uma brecha através de uma passagem difícil (do meu livro) em que não pudera penetrar no dia anterior. A Rue Brillat-Saverin, que atravessa como uma cobra a Place de Rungis, sugere os trabalhos de Eliphas Levi, a Rue Butte aux Cailles (mais adiante) evoca os Passos da Cruz; na Rue Félicien Ropes (num outro ângulo) ouvia os sinos tocar e o bater de asas de pombos. Quando atravessava um momento de depressão, o que era frequente, todas estas associações, deformações e interpretações se tornavam ainda mais violentamente quixotescas. Nesses dias, achava natural receber, no correio da manhã, um segundo ou terceiro exemplar de I Ching, um álbum de Seriabine, um pequeno livro sobre a vida de James Ensor ou um tratado de Pico della Mirandola. Ao lado da secretária, como uma recordação de festas recentes, havia sempre garrafas de vinho cuidadosamente arrumadas: Nuits Saint-Georges, Gevrey-Chambertin, Clos-Veugeot, Vosne Romanée, Messault, Traminer, Château Haut-Brion, Chambolle-Muigny, Montrachet, Beaune, Baeujolais, Anjou e Vouvray, esse vin de prédilection de Balzac. Velhas amigas, exploradas até à última gota. Algumas ainda conservam um ligeiro aroma.
Pequeno almoço chez moi. Café forte e leite quente, dois ou três deliciosos croissants quentes com manteiga e um pouco de compota. E, com o pequeno almoço, um golo de Segóvia. Um imperador não arranjaria melhor.
Dei um pequeno arroto, palitei os dentes, tamburilei com os dedos, olhei à minha volta (como para ver se tudo estava em ordem!), fechei a porta e agarrei-me à máquina de escrever. Pronto a partir. O cérebro preparado para trabalhar.
Henry MILLER – Um Diabo no Paraíso; Lisboa: Livros do Brasil, pp. 26-28

               Café Wepler, Praça Clichy (Paris) Ó Pedro Cuiça (Agosto de 2015)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Venho?!

© Vanda Rita

Fool Moon...

«Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu sei.
Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um o seu vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha de um calvário.
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada…
Eis os nossos bordões de caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora
(…)»

Camilo Pessanha - Caminho in Clepsydra (1920)

Concepción (Ayamonte)
Concepción (Ayamonte)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Monte da Lua...



... um ambiente de montanha (sagrada), às portas de Lisboa, para desfrutar a pé ;-)