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sábado, 15 de setembro de 2018

O que(m)?


Pedro Cuiça © Igreja de Alcobertas (Portugal, 2016)


«Nada ou quase nada se conhecendo a seu respeito, posso imaginar para ele (Prisciliano) e lho atribuir tudo quanto a mim me apeteceria ser e proclamar.»
Agostinho da Silva (in SANTOS, 2013: 12)

«Ao longo dos tempos, um inquietante enigma paira sobre Santiago de Compostela: a quem pertencerão os restos mortais que ali se cultuam?
Na verdade, Tiago Zebedeu foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado, em Jerusalém, onde foi sepultado. É o único cuja morte vem documentada na Bíblia, no ano 44.
Contudo, oito séculos depois, nasceu na Galiza uma prodigiosa lenda, após as visões de um eremita que viu luzes estranhas num bosque, enquanto se ouviam cânticos de anjos (por volta do ano 820). O bispo Teodomiro de Iria Flavia (atual Padrón) visitou o lugar e encontrou uma velha tumba com restos humanos e atribuiu-os ao apóstolo Tiago e a dois dos seus discípulos. A lenda floresceu e, mais tarde, ampliou-se, com menção de que o corpo viajara miraculosamente num barco de pedra, guiado por anjos, ao longo de sete dias, até à referida Iria Flavia. Segundo a mesma, ali foi desembarcado e levado até à atual Compostela.
Assim, durante quase oitocentos anos, existiu um vazio sobre a veneração do corpo de Santiago em Compostela.

Porém, uma outra perturbante tradição, mais bem documentada, narra que, no final do século IV, chegou pelo mar a Iria Flavia o corpo do líder de um movimento carismático e espiritual com forte implantação popular na Hispânia romana e os de dois homens que o seguiam, decapitados pela sua fé. Dali, terão sido trasladados para o seu sepulcro, acompanhados por uma multidão de seguidores. O povo imediatamente atribuiu-lhes fama de santos e mártires e passou a fazer devoção, peregrinação e os juramentos mais solenes sobre os seus túmulos, invocando o seu nome. A força do movimento perdurou na Galécia até à chegada dos muçulmanos, apesar de sucessivos concílios e ações para o exterminar.
Durante muitos séculos, o líder do movimento foi considerado um herege pela Igreja. Porém, as recentes descobertas dos seus escritos (em Würzburg, Alemanha) vieram pôr em causa a justiça da perseguição e do esquecimento a que foi votado durante cerca de mil e seiscentos anos. E reputados autores e historiadores passaram a perguntar-se: Afinal, quem está sepultado em Compostela? E se o culto que ali se presta for o maior paradoxo da história do ocidente? Como começou esse culto? E outros a questionarem-se: Qual o sentido das peregrinações a Compostela?»
[SANTOS, 2013: 11-12]

Pedro Cuiça © Igreja de Padrón (Galiza, 2016)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SANTOS, Alberto S.. O Segredo de Compostela. Porto: Porto Editora, 2013, pp. 480. ISBN 978-972-0-04393-1


A viar

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquézar (Aragão, 31 de Outubro de 2016)

«A Cruz de Cristo, implantada como heráldica primeiro no lábaro de Constatino, projecta uma sombra de paz. A conversão é um arrebatamento: toda a gente anseia pela viagem ao Oriente, para ver a terra que o filho do homem pisou. É um vaivém de pessoas que acorre da Hispânia para Oriente. A peregrinatio hierosolymitana assume-se promessa, ou propositum, do qual só o Padre Santo pode ilibar. Essa peregrinatio supõe a ida e a volta, mas, por vezes, envolve a fixação definitiva – inde ad propria nunquam reversu, como quem diz, ir e não voltar. Há, nas tendências tradicionalistas do paganismo, anseio de viagem a Ocidente, por isso que, mesmo antes do culto santiaguino, Compostela seja propósito. É a viagem peregrina à Finisterra, à procura da estrela, do comput, através de um caminho que depois se chamaria francês, não por ser porta de importação, mas por ser via de chegada de franceses em procura do que não traziam, mas buscavam: atingir o Atlântico pela via mais curta, em busca dos mitos heráldicos: Hércules, Noé, a Atlântida. Noutros casos, a procura de um outro mito, o mar sem fundo, o cabo do mundo, o fim da terra, como a Harmonia saudosa do Caos. Homo peregrinus, homo viator, há quem julgue que viar é andar na terra, há quem acerte que viar é ascender ao céu. Os santos viajam, o peregrino é uma existência. Por isso o povo os chama romeiros, ou romeus, que vão a Roma, ou passam por Roma, idos ou vindos da Terra Santa. Roma é o meio. As peregrinações para Ocidente não têm sinal contrário ao das peregrinações para Oriente, embora hajam propósito anómalo – de Ocidente para Oriente é o progresso na ordem futurível, de Oriente para Ocidente é o regresso na futurível ordem. Todos buscam os novíssimos e os últimos fins do homem na terra, à luz, ou do princípio, ou da revelação final, o apocalipse. A alta idade média não inventou as peregrinações; elas foram uma herança recebida e aprofundada durante o domínio árabe, e prosseguida até aos nossos dias, já sem o eco criacionista das peregrinações ou itinerações antigas.
As peregrinações penitenciais são mais tardias, datam desde o século XII, e são formalmente diversas das peregrinações baptismais dos antigos. A peregrinação que, no tempo patrístico, era um baptismo de fé torna-se, na igreja medieval, forma penitencial – uma forma específica de penitência. Surge a emblemática do peregrino, que tem um lugar singular na comunidade. A partir do século X, a peregrinação envolve-se de uma liturgia própria, e as insígnias ambientam a espiritualidade: a capsella, pere, sporte, ou sacola; o baculum, fustis, ou bordão, e a vieira. Enfim, a bênção do peregrino, a vigília vesperal, a recepção nas albergarias, o fim da jornada e o início da missão, no regresso, como se o peregrino tivesse recebido o carisma apostólico do «ide e evangelizai». Peregrinar à Terra Santa é como estudar a Bíblia: um peregrino é um doutor na fé.
Embora com os limites temporais e locais, as peregrinações eram como órgãos de comunicação social, fontes de informação e círculos autorizados, fazendo doutrina e escola.
A um ritmo algo contraposto ao dos «franceses» que andavam, via caminho francês, por Compostela, em busca do mar sem fundo, os lusitanos viajavam à inversa, do mar sem fundo para o destino celestial. A nossa patrística é uma patrística viajeira, imparável e curriculeira, sempre a andar. Depois que os germanos e bizantinos invadiram o pagus lusitano, o afluxo dos pagãos conversos a Roma e ao Oriente progrediu. De Braga saíram, mal começado o século V, os dois (ou três, uma vez a identificação ainda estar obscura) Avito. Andou um por Roma, outro por Jerusalém, um pouco antes de 410. O de Roma deixou-se envolver pelas doutrinas de Vitorino, o outro acabou por se envolver, facilitando, ambos, o radicamento da gnose priscilianista, conforme se deduz de Paulo Osório, que os trata por «cives mei» – eram todos bracarenses. Nos finais do século V, outra ilustre virilidade, Idácio de Chaves, viajou para Oriente, levado por familiares, tendo ensejo de conhecer S. Jerónimo, cuja recordação de infância manteve sempre.
(…)
A obra, Itinerarium ou Peregrinatio ad Loca Sancta, é diversamente titulada pelos historiadores que lhe fixaram o texto na antiguidade. O texto – incompleto –, foi descoberto (1884) em Arezzo, por Gamurrini, que o julgou atribuível a Sílvia, irmã de Rufino de Aquitânia, sendo esta tese aquitânica posteriormente defendida por outros especialistas, como o liturgista Dom Fernando Cabrol, no aliás excelente escurso Sílvia Etérea (1895) em que atribui a Sílvia o sobrenome de Etérea, ou Egéria. A crítica interna posterior veio a registar, nesse texto, escrito entre 400 e 418, agora geralmente intitulado ou Peregrinação da Etérea ou Itinerário de Etérea ou Diário de Viagem de Etérea, componentes linguísticos e estilísticas de clara origem referenciada ao latim da Lusitânea. Etérea não é um pensador, mas um autor que fixa os quadros vistos e contemplados, sem introdução de juízos eventuais. Usa uma linguagem por um lado popular, por outro iniciada na cultura cristã, com abundância de informação litúrgica, e demora-se a descrever, em Jerusalém.»
[GOMES, 2000: 137-142]

Pedro Cuiça © pintura de São Jerónimo (Alquézar - Aragão, 31 de Outubro de 2016)

NOTA
Os destaques a negrito são de nossa iniciativa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
GOMES, Pinharanda. História da Filosofia Portuguesa – A Patrologia Lusitana. Lisboa: Guimarães Editores, 2000, pp. 376. ISBN 972-665-441-6

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um passeio

Um "passeio" de 2281 quilómetros!...

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

«Tenho andados cerca de 1.600km e faltam-me uns 800 para chegar à minha meta [Santiago de Compostela].
Hoje passo o dia inteiro subindo muito. Brutal.
Começa a haver poucos arbustos e muito verde. Bom, é olhar de vez em quando para trás e ver lá no fundo, e já longe, o sítio de onde vim [Saint-Jean-Pied-de-Port]. Na vila tinham-me dito que não há bom tempo para passar os Pirinéus. Pode estar sol num momento e meia hora mais tarde, estar tudo cerrado com nevoeiro, chuva ou neve, depende da estação em que passamos por eles. De facto parecia termos um bom dia, mas à medida que vou subindo, começa a ficar frio… as árvores são cada vez mais escassas e pequenas e dentro em pouco, até essas desaparecem.
Muita gente começa o Caminho aqui, Saint Jean Pied-de-Port, e pensam que vão fazer um passeio…».
[RODRIGUES, 2018: 169]


Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Amaiur - Navarra, 28 de Outubro de 2017)

Pedro Cuiça © Camino del Baztan (Mosteiro de Urdax - Navarra, 29 de Outubro de 2017)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RODRIGUES, Fátima. O caminho de Santiago em 81 dias. Lisboa: By the Book – Edições Especiais, 2018, pp. 250. ISBN 978-989-8614-64-3



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Santiago em 81 dias


O lançamento do livro O caminho de Santiago em 81 dias vai decorrer amanhã, dia 12 de Setembro, das 18.00 às 20.00, na sede do Comité Olímpico de Portugal, situada em Lisboa na Travessa da Memória nº 36. Esta obra literária trata-se de um testemunho sobre uma caminhada empreendida desde Zurique até Santiago de Compostela, num total de mais de dois mil quilómetros calcorreados a pé. Uma edição By the Book que constitui o primeiro título da Colecção Zebra, dedicada exclusivamente à temática do andar a pé.
O evento, apresentado e moderado pelo jornalista Francisco Sena Santos, contará com a presença da autora, Fátima Rodrigues, da editora, Margarida Oliveira, do director-geral do Comité Olímpico de Portugal, João Paulo Almeida, da  presidente do Coletivo Zebra Sandra Moutinho e de três “andarilhos” Zebra: Lúcia Barroso, André Couto e Pedro Cuiça.
O Coletivo Zebra é uma organização da sociedade civil, mais precisamente uma cooperativa de inovação social, que existe para promover o andar a pé como atitude regular, natural, tonificante, saudável, gratuita, livre e libertadora.
A participação no evento não poderia, por isso, deixar de ser livre e gratuita. Aqui fica o convite e contamos com a sua gratificante presença.




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[12 de Setembro de 2018
Uma conversa animada e interessantíssima, no âmbito do lançamento d’O caminho de Santiago em 81 dias, em torno dessa aventura e da sua protagonista, ambas indubitavelmente extraordinárias. Fica o sentimento de gratidão por ter participado em tão enriquecedora e motivadora experiência do Caminhar/Caminho…

Pedro Cuiça © Comité Olímpico de Portugal (12 de Setembro de 2018)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Por aqui e por acolá


© Algures na Net

«Minha senhora, o meu ideal, no fundo, ao que penso, foi sempre ser vadio, sabe.»
Agostinho da Silva 
(in FRANCO, 2015: 38)

Agostinho da Silva «dava de bom grado um dos mindinhos por um dia de conversa e o papa-léguas que dava outro por uma longa tarde de marcha» (FRANCO, 2015: 112). «Foi um andarilho, que bateu os sete cantos do mundo, e fez da vadiagem um sistema de vida e até de pensar» (FRANCO, 2015: 149).


NOTA
A vida e a obra de Agostinho da Silva são verdadeiramente excepcionais e alvo de estudo sob diversos formatos e perspectivas... A biografia de Cândido Franco (Quetzal, 2015) revela de modo primoroso essa excepcionalidade, desde logo ao denominá-lo Estranhíssimo Colosso e ao caracterizá-lo nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FRANCO, António Cândido. O Estranhíssimo Colosso. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Lisbon Lunch Walks (III)


Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

Pedro Cuiça © Lisboa (6 de Setembro de 2018)

O silêncio e a solidão apenas são cortados por uma viatura que lesta passa, deixando escapar, das janelas entreabertas, uma voz quente e grave, intensa e funda: Nick Cave e «Into My Arms» adejam nos céus de Lisboa, sobre o vale que divide o Oriente e o Ocidente da cidade, sobre o plácido casario, em direcção ao Castelo, à Sé e ao rio. Em direcção ao Sul, que rosa e ouro se prenuncia.

But I believe in love
And I know that you to
And I believe in some kind of path
That we can walk down me and you
So keep your candle burning
Make a journey bright and pure
That you’ll keep returning always and evermore

Into my arms Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms oh Lord
Into my arms

[BORGES, 2006: 54-55]


Pedro Cuiça © Anarkhia Pop - Uma espécie de eco-anarcótico (Lisboa, 1986)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BORGES, Paulo. Línguas de Fogo – Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 374. ISBN 972-8605-91-9

Caminho(s) para todos


Aqui fica o convite para participarem na tertúlia sobre Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago que irá contar com a presença da autora – Luísa Sousa – e no qual terei o grato prazer de apresentar o livro e aflorar a temática das peregrinações em geral e do Caminho de Santiago em particular. O evento irá decorrer no dia 11 de Outubro, a partir das 18.45, no Centro de Reuniões do INFARMED, I.P., no Parque de Saúde de Lisboa. Entrada livre.




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«É estranho ouvir alguém que não nos conhece, fazer uma análise tão certeira em certos pontos. A certa altura já temia pelo que viria depois. Muito obrigada Pedro pela disponibilidade, generosidade e pontos de reflexão, apesar do jet lag e cansaço das viagens. Foi a melhor forma de terminar este roteiro pelo país.»
Luísa Sousa (12 de Outubro de 2018)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Walking as a miracle


© Algures na Net

I like to walk alone on country paths, rice plants and wild grasses on both sides, putting each foot down on the earth in mindfulness, knowing that I walk on the wondrous earth. In such moments existence is a miraculous and mysterious reality. People usually consider walking on water or in the air a miracle. But I think the real miracle is not to walk either on water or in air, but to walk on earth. Every day we are engaged in a miracle which we don’t even recognize : a blue sky, white clouds, green leaves, the black, curious eyes of a child – our own two eyes. All is a miracle.
[HANH, 1987 : 12]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HANH, Tich Nhat. The Miracle of Mindfulness – An Introduction to the Practice of Meditation. Boston : Beacon Press, 1987, pp. 140. ISBN 0-8070-1239-4

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Caminhadas terapêuticas


Escritores como Thoreau (…) exprimiram o que muitos pensavam no ensaio Caminhada: “Creio que só consigo preservar a minha saúde e o meu ânimo se passar pelo menos quatro horas por dia – e costuma ser mais do que isso – a deambular pelos bosques, nas colinas e nos campos, completamente livre de todos os compromissos mundanos”. Isto são claramente banhos de floresta muito antes de a expressão existir. Thoreau viveu em tempos muito mais agrários, logo, mais ligados aos ciclos e ritmos naturais da floresta. Grande parte dessa ligação foi-se perdendo à medida  que a nossa  consciência cultural foi sendo cada vez mais moldada pela tecnologia, pela indústria e por uma orientação para a produtividade. Vivemos num tempo que pede uma renovação da nossa ligação ancestral às florestas.
[CLIFFORD, 2018: 27]

 © Algures na Net

NOTAS
· Os banhos de floresta são por vezes apelidados de “antiga prática japonesa do Shinrin-youku”. Na realidade, não é bem assim. Para começar, a expressão não é antiga, foi criada em 1982 por Tomohide Akiyama, então director da Agência Japonesa da Floresta. A ideia era desenvolver uma identidade de marca única, associando as visitas às florestas com o ecoturismo orientado para a saúde e o bem-estar. Mas isso não significa que os banhos de floresta não tenham raízes ancestrais. [CLIFFORD, 2018: 22]
· Amos Clifford fundou, em 2012, nos Estados Unidos da América, a Association of Nature and Forest Therapy Guides and Programs – ANFT (Associação de Guias e Programas Terapêuticos da Natureza e da Floresta).
· Os efeitos terapêuticos do contacto com a natureza em geral e com as florestas em particular são sobejamente conhecidos, e ancestralmente intuídos, tendo suscitado um crescente interesse nas últimas décadas, a par da brutal destruição das áreas naturais selvagens (wilderness) e suas sucedâneas (sistemas semi-naturais), da domesticação e desnaturalização dos seres humanos e da comercialização de praticamente todos os sectores da vivência humana, mormente das actividades ditas "out-door"!

Pedro Cuiça © Passadiços do Paiva (2018)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CLIFFORD, M. Amos. O Guia dos Banhos de Floresta. Alfragide: Lua de Papel, 2018, pp. 176. ISBN 978-989-23-4255-9


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

D'as Flores no Caminho


© Algures na Net

(…) Caeiro e Pascoaes tentam arrancar essa natureza automática que adquirimos da descrição do mundo. O que é quase impossível, dado que, devido ao seu carácter automático, «têm a força e a tenacidade de uma raiz».
E [António Telmo] faz esta afirmação importantíssima: «Libertar-se dela só é possível por uma acção iniciática, com todos os riscos que esta acção pode trazer consigo.»
Fá-lo Pascoaes através da «invocação e provocação dos sentimentos como se esses fossem entidades estranhas ao seu ser» e fá-lo Caeiro, contrariamente, arrancando-os do seu «corpo subtil». Pascoaes não combate o medo (nem o espanto, nem o amor, nem a saudade, nem as sombras), faz dele «o órgão da nossa vida».
É o poeta anti-fotográfico em relação à natureza. Nele, «A natureza transforma-se, pelo poder do verbo, na terra vivente dos iniciados».
Nesta ligação profunda entre consciência da Natureza e iniciação, não se limita contudo, a Pascoaes e Camões, e recorda, das cantigas d’amigo, a conspiração da Natureza a favor dos amantes. Assim se confirma um dado já existente na Ilha do Amor, para além da natureza e iniciação, um tipo muito particular de iniciação que é a iniciação erótica.
[PEDRO, 2018: 227]

Isto tem a ver com o que, já referimos, afirma [António Telmo] sobre Caeiro e a sua tentativa de fuga ao automatismo, despindo a natureza de todo o sentimento, de toda a emoção e de todo o pensamento. A mesma causa que leva Pascoaes a proceder de modo oposto: encher a natureza de medo e todo o tipo de sentimentos e emoções. Precisamente para fugir a esta relação estereotipada e fotográfica da natureza, devido ao automatismo das palavras, o automatismo que nos impede, diz no mesmo texto, de ver uma árvore como ela é realmente, despida do que lhe pusermos em cima através de palavras mais ou menos poéticas.
[PEDRO, 2018: 228-229]

A Natureza não é só estética, não é só emoção, não é só símbolo, é escada para a relação mística e para o mistério: «O Sol e a Lua e todas as estrelas, símbolos nítidos pela exacta relação com Deus e com o grande mistério do abismo».
Contudo, o olhar simples e sábio do desvalorizado camponês também por Telmo é resgatado, porque o seu é um olhar complexo, não reducionista, atento à Terra como ao Céu: «Quanta seriedade e quanta profundidade na adivinhação do tempo pelos camponeses! A sua é uma ciência de sinais e de qualidades. Não conta, não pesa e não mede. Lê palavras, aquelas que se desenham no seu ao nascer ou morrer do Sol e da Lua, na origem e no fim das luzes diurnas e nocturnas». Lua e sol omnipresentes na Poesia deste filósofo.
[PEDRO, 2018: 230]

Retomando a semelhança com a ilha enquanto «tapete mágico», como mais tarde [Telmo] irá afirmar em Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões:

«Viaja-se numa ilha pintada. E vemo-la, de repente, toda ela, um maravilhoso tapete mágico. As flores que nele emergem são em volume ou em superfície?»

Ali a cabeça a flor Cefísia inclina
Sôbolo tanque lúcido e sereno. (Canto X, 60)

É significativo que seja o narciso a primeira flor mencionada []

Não podemos afirmar que tenha sido na poesia de António Telmo a primeira flor mencionada, no entanto, na poesia conhecida sem dúvida o é… Mas não apenas por isso, tal como afirma, em Desembarque dos Maniqueus, que a paisagem da ilha, tal como a pintura persa em que se inspira, não tem «distância e profundidade», veja-se esta parte do poema: «Anda Narciso na serra./[]/Um sorriso longe e perto». O mesmo pensamento, por antecipação. E ainda outra passagem do mesmo livro em relação à Ilha do Amor:

«As flores, de seguida mencionadas, são todas, como o narciso, flores de jardim, coisa estranha numa terra onde as árvores crescem e frutificam «sem necessidade de cultura» (estrofe 58): é a anémona, o lírio roxo, a violeta, a rosa, a açucena, a manjerona, o jacinto, o jasmim []
Destas flores, o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e a rosa vêm indicados por Henry Corbin (p. 54) como desempenhando um grande papel nas antigas cerimónias de Zoroastro. «Os antigos persas, escreve o autor de Corpo Espiritual e Terra Celeste, tiveram uma linguagem sagrada das flores. Tão eterno e subtil simbolismo oferece combinações ilimitadas à imaginação litúrgica e ao ritual de meditação. A arte dos jardins e a cultura de flores assumem o sentido de uma liturgia e de uma realização mental; as flores são utilizadas como a matéria-prima para a meditação alquímica. O fim é recompor mentalmente o Paraíso, entrar no pleroma dos seres celestes; a contemplação das flores, – seus emblemas –, provoca reacções psíquicas, que transmutam as formas contempladas em energias que lhes correspondem e tais energias psíquicas resolvem-se finalmente em estados de consciência, em estados de visão mental onde transparecem as Figuras Celestes.»

Igualmente, a floresta da Ilha do Amor é povoada por «humanas rosas» (Canto IX). A serra de Telmo é povoada por um humano Narciso. Das flores, encontramos , na serra de Narciso, três em comum com a Ilha do Amor: roas, lírios e o próprio narciso. Flores de jardim, improváveis na serra. Tal como na Ilha, o poema conduz-nos por um ritual de meditação, pela contemplação da flor, ao processo alquímico através do qual Narciso se vai transformando.
Narciso que é o mito, também é flor. (…) Podemos afirmar que os primeiros textos de Telmo contêm já o gérmen da sua obra. O mesmo acontece com esta poesia, onde a natureza antecipa já a visão iniciática do mundo vegetal da Ilha de Camões.
Talvez possamos fazer em relação a Telmo, a mesma afirmação que ele faz em relação a Camões, faço minha a sua tese e talvez o filósofo iniciado tenha tido prematuramente «acesso, não ao manuscrito, mas ao “mundo” onde a ilha existe realmente».
Não sabemos. Uma certeza temos. A sua Natureza não é a dos turistas, das visitas ou invasões em massa, mas a Natureza com que comungava em solidão e silêncio e contemplação. Como ele gostava e frequentemente fazia. Com respeito e reverência.
Ainda sabemos nós fazê-lo?
[PEDRO, 2018: 235-237]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PEDRO, Risoleta C. Pinto. António Telmo, Literatura & Iniciação – Esboços para uma cartografia da pedra cúbica. Sintra: Zéfiro, 2018, pp. 284. ISBN 978-989-877-159-I


quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Silêncio do Andar


Luísa Sousa © Albergaria Rincon del Peregrino (Camino Sanabrés)

«De novo sozinha, o sentimento era outro. Os dias que tinha caminhado só, desde que tinha deixado o Pedro, o Emílio e o Doriano e antes de encontrar o Yves, deram-me confiança. Demonstraram-me que eu era capaz e, acima de tudo, que estava bem comigo própria. Conseguia passar horas e horas em silêncio, comigo, sem me entediar. Aliás, cada vez mais, apreciava o silêncio e raramente me sentia só. Estar só não era sinónimo de solidão. Encontrava-me de novo sozinha, mas já nada era igual!»
[SOUSA, 2016: 73]

«Naquele dia, caminhámos os dois, lado a lado, por muito tempo, quase sempre em silêncio. Há silêncios incomodativos ou ensurdecedores, aquele era confortável. Sabia bem partilhar o silêncio
[SOUSA, 2016: 148]

«Comparativamente com outros Caminhos, a Via de la Plata é (ainda) um caminho despido de adornos: poucas estátuas, pinturas, grafittis, painéis e afins, relacionados com Santiago e o “mundo peregrino”. Esta “aridez” de incentivos e lembranças, ao provocar menos distracções, faz-nos viajar ainda mais para dentro de nós. Por vezes, passamos dias sem ver a contagem decrescente dos quilómetros, acabamos por nos abstrair de tudo isso e a viver apenas o dia-a-dia.
(…) As povoações ainda estão direccionadas para quem lá vive e não apenas para os peregrinos e o comércio que os rodeia; há espaço para estar só, em silêncio e paz, aliada à oportunidade de espírito de comunidade com os outros peregrinos e de criar laços fortes com os mesmos pela escassez de outras ofertas e distracções.
Para todos os que se queixam do rumo que o Caminho Francês leva, este pode ser encarado como um regresso às origens!»
[SOUSA, 2016: 254-255]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SOUSA, Luísa. Um Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago. Columbia (USA): CreateSpace, 2016, pp. 268. ISBN 978-1523804795