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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Turismo Desportivo

© DR

A la idea del camping deporte en sí mismo, la definición que lo considera adyuvante de otro deporte agrega la de su alianza tan natural con las otras actividades de la vida al aire libre. Hoy día, no se hacen solamente marchas, sino travesías por etapas con campings intermedios; muchos piragüistas se han convertido en piragüistas acampadores, y el ciclo-camping ha encontrado numerosos adeptos entre los cicloturistas. También el ski se presta a un audaz camping sobre la nieve, a condición de estar provisto de una buena tienda isotérmica. Es por esto que alguien ha calificado de «supersport» al camping porque debe ser considerado como deporte en el más amplio sentido de la palabra. En este sentido, deporte no significa otra cosa que un ejercicio físico practicado como juego de diversión. No debemos confundir este concepto con el de competición deportiva que sin embargo se tiende hoy en día a incluir en la significación de la palabra deporte.
Para nosotros, existe un hecho mucho más característico de la naturaleza del camping, y es que los diferentes deportes de los cuales él es el adyuvante tienen todos un mismo objectivo: la práctica del turismo. El camping es pues el deporte turístico por excelencia, y podríamos definirlo así: medio de turismo deportivo que permite un contacto más estrecho con la naturaleza mediante la utilización de la tienda como abrigo. [JORSIN, 1966: 12-13]


© DR

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JORSIN. Camping. Barcelona: Editorial Sintes, 1966, pp. 280.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Princípios Fundadores

Numa época de apologias, mais ou menos sub-reptícias ou ostensivas, sobre ambientes tão virtuais quanto alienantes, na qual vigoram superficialismos estereotipados e obsessões “politicamente correctas”, em torno de equívocos (pretensos) unanimismos, virá à colação uma reflexão sumária sobre o woodcraft, ademais no dia em que se comemora o nascimento do fundador do Boy Scout Movement: Lord Baden-Powell of Gilwell. Neste contexto, serão de destacar notórias perdas, que se têm vindo a propagar paulatinamente, desde há décadas, no domínio da naturalidade, da espontaneidade e de inúmeras liberdades elementares, mormente através de discursos encomiásticos que, a par de propagandear a comercialização e a banalização da “aventura” (e não só), promovem uma obcecação pela segurança!
A evolução (ou involução?) que se verificou na prática scout, em particular, surge como um exemplo expressivo – pela autenticidade e pioneirismo deste movimento (que, por isso, constitui um autêntico landmark em matéria de vivência do “ar livre”) – daquilo que viria a afectar, em geral, toda a fenomenologia das praxis “fora de portas”. Aquele que na edição original se designou Scouting for Boys e cujo subtítulo deixava bem claro o seu objectivo – A Handbook for Instruction in Good Citizenship Through Woodcraft – transverteu-se, na versão portuguesa, numa tradução que ignorou a componente nuclear de woodcraft, deixando adivinhar um tendente sumiço da educação mediante actividades de plein air ou, melhor seria dizer, arejadas. Arejadas, desde logo, por se praticarem em espaços de ar livre (ao invés de ambientes de sala ou salão) e, além disso, sob formas o mais libertas de condicionalismos e condicionantes que possível seja.
É sob essas tendências – que alguns apenas poderão intuir dans l’air du temps (ou nem isso!) e que outros, sem dúvida mais sensíveis, sofrem inequivocamente na pele – que se chegou a uma moldura contextual pródiga em contraditórias aparências e mal-entendidos. E não estamos a pensar, de todo, apenas na propensão pelo facilitismo, artificialismo e domesticação de preceitos que se traduzem, por exemplo, na predilecção por acantonamentos – palavra utilizada na gíria esco(u)tista para designar o acto de passar a noite entre quatro paredes (numa casa) – em vez de dormir sob as estrelas. Antes fosse!...
Os tempos actuais são prolíferos no tocante a incongruências e inconvenientes que se expressam sob diversificados moldes. Desde logo, uma “paranóia regulamentar” de tudo legislar, burocratizar e normalizar, com decorrentes proibições e restrições, de acesso, de andar, de acampar, de foguear, etc.. E, pasme-se, os condicionalismos estendem-se ao como (não) estar, ser, fazer!... Num contexto de democracia inquestionável (?) é curioso constatar que nunca se verificou um tão grande cerceamento de liberdades elementares, no tocante à prática de actividades de ar livre, como agora! Tal como uma apetência e predisposição por espaços intervencionados, ao jeito de “parques de recreio” normalizados e que funcionem como uma espécie de sucedâneo daquilo que, como concepção alternativa, passará (a muito custo) por “natureza”: parques de campismo, “parques aventura”, percursos pedestres balizados, vias de escalada equipadas, arborismo, etc.. Outro fenómeno diverso, mas semelhante no que concerne às motivações/crenças de base e aos erros conceptuais destas resultantes, traduz-se na necessidade de implementar mecanismos de gestão que supostamente não só garantam como catalisem a eficiência e a eficácia, confundindo matrizes de desempenho com o próprio desempenho ou gráficos com a realidade.
Ambos os sintomas, a “paranóia regulamentar” e os “tiques tecnocráticos”, estão generalizados aos diversos sectores da sociedade e, portanto, não se restringem exclusivamente às práticas outdoor e, muito menos, ao movimento esco(u)tista ou similares. [Poderemos considerar, sem estar longe da verdade, que ambos se tratam de fenómenos globais e globalizantes, ao estilo “huxleyano”, de um Admirável Mundo Novo (Brave New World)!] No entanto, é sobretudo no âmbito do dito “desporto aventura”, e também do escotismo (ou escutismo, como se queira), que estas fenomenologias revelam roupagens, a nosso ver, bastante interessantes enquanto caso(s) de estudo, tendo em conta o desiderato original de se constituírem como “escolas de vida” baseadas na livre vivência dos vastos espaços naturais. Acresce ao aludido que ambos os sintomas ocorrem frequentemente acompanhados por uma terceira variável: uma manifesta necessidade de afirmação/poder/autoridade pessoal, muitas vezes extravasada sob a forma de “masculinidade sobredimensionada” e/ou atitudes militaristas desfasadas dos contextos em que se inserem. Aliás, foi por estas e por outras razões que surgiram, desde cedo, movimentos divergentes do Scouting como o Kindred of the Kibbo Kift.




É neste enquadramento histórico que se assiste, nos últimos anos, a uma metodologia educativa (extra)ordinária: os “educadores” ao invés de se centrarem nas crianças/jovens, estimulando o desenvolvimento concreto das suas capacidades e competências, alicerçadas num autodidactismo simultaneamente livre e responsável (em que estes decidam, façam e aprendam por si), dispersam-se em infindáveis reuniões em torno de abstracções escudadas por supostos critérios de evidência que se traduzam invariavelmente naquilo que eles entendem (ou que alguém entende por eles) ser o “sucesso”! Afinal basta que as matrizes e os gráficos estejam bonitos, devidamente preenchidos com valores que tornem patente uma expectável “excelência”.
Outro fenómeno curiosíssimo, digno do Entroncamento, consiste na aparente convivência dos opostos “aventura” e “segurança”. Na verdade tal não passa de uma risível aldrabice tendo em conta que se trata tão somente de pseudo-aventura, dentro de limites de segurança considerados perfeitamente aceitáveis! É nesse contexto, aliás, que se passou a impedir as crianças de usar facas de mato (e até canivetes!) ou machados, de subir às árvores ou simplesmente extravasarem alguma réstia de espontaneidade ou de experimentalismo digno de se chamar “aventura”. Fenómeno, aliás, que também se encontra vastamente difundido no âmbito dos designados “desportos aventura”, mormente no ramo da animação turística! É também neste contexto que será oportuno relembrar, neste Dia do Fundador, valores antigos, de que tanto carecem os tempos actuais, na linha daqueles que foram defendidos por Baden-Powell. Só assim, com força e nobreza, se poderão derrotar a fraqueza e o vício… A dureza e a vitalidade do corpo foram tão necessárias como o são hoje. A híper-natural utopia espartana, ao contrário da utopia moderna anti-natural, é tão actual quanto foi outrora e para a aplicar basta:
1. responder com simplicidade e honestidade – ser lacónico;
2. ter vontade de excelência – ser virtuoso;
3. limpar a vida de todos os detalhes supérfluos – ser simples;
4. endurecer a mente e o corpo contra o medo, a adversidade e a dor, sobrando clareza e confiança para conquistar qualquer situação – ser corajoso.
Afinal, pontos de vista altaneiros permitem amplas panorâmicas e contribuem para a largueza de vistas, enquanto que espaços confinados ou limitados são o seu contrário. Para bom entendedor meia palavra deveria bastar e contudo…




«Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira tarefa de educar é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar.
Baden-Powell, o que fez nessa conferência célebre foi exactamente isso, o exigir que se ponha diante das pessoas um objecto que vá muito além daquele que lhe possibilitam as suas forças. Ele queria, para todos os rapazes e para todas as moças, quando chegassem a essa idade, uma educação que lhes temperasse a vontade, não mais gente na rua vendo gente a passar, não mais gente encostada pelas portas dos cafés, não mais gente de 20 anos vergonhosamente desocupada, passando todo o dia sem fazer coisa nenhuma, fraquíssima de carácter, fraquíssima de corpo, esperando que chegue o tempo de jantar para que chegue o tempo de dormir para que chegue o tempo de se levantar.»

Agostinho da Silva – Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade (1961) in Textos e Ensaios Pedagógicos II, pp. 26-27


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pedestrianism

E para aqueles que pensam que o Pedestrianismo é algo de recente, aqui fica o link de um “livrinho” que deita por terra tais mitosTrata-se da obra de Estwick Evans (1787-1866) intitulada Evans's Pedestrious Tour of Four Thousand Miles – 1819. Como o título indica, o "rapaz" apreciava percursos de longo curso…

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

W and W

WOODCRAFT
A youth movement with significant pagan elements, Woodcraft was founded by Canadian-American nature writer ErnestThompson Seton (1860-1946) in 1902, at his home in Cos Cob in suburban Connecticut. Concerned about the impact of industrialization and urban life on youth, Seton launched the movement as an attempt to bring young people into contact with nature and to teach values of self-discipline and cooperation. Seton was an early supporter of Native American rights, and drew on Native American traditions in launching his movement.
The movement started out as a single ‘tribe’ of 42 boys in Cos Cob, but expanded dramatically over the following years, reaching a membership of 200,000 by 1010. After a brief and unsuccessful alliance with the Boy Scouts of America, Seton set up the Woodcraft League, an international organization, in 1915. Woodcraft tribes had groups for different age levels and a detailed program of activities and honors. A especial inner circle for adults, the Red Lodge, had three degrees of initiation and a spiritual dimension focused on what Seton called the Red God, the spirit of wild nature and the “Buffalo Wind” that called too-civilized humanity back to its roots in living nature.
The Woodcraft League gained its first overseas members in the year of its founding, when a group of English Quakers, dissatisfied with the militaristic elements of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts, turned to Woodcraft instead and launched the Order of Woodcraft Chivalry, the first British Woodcraft group. In 1919 there was another addition to Woodcraft ranks as John Hargrave, a charismatic Scout leader, broke with the Boy Scouts and founded a Woodcraft group called the Kindred of the Kibbo Kift (“kibbo kift” being an old Kentish dialect phrase for “proof of strength”). Another Woodcraft group, the Woodcraft Folk, broke away from Hargrave’s group in 1924. All three of the British Woodcraft groups set aside Seton’s Native-American symbolism in favor of a mixture of Celtic and Anglo-Saxon imagery more appropriate to British youth. In the process, they helped to lay the foundations of modern Wicca. See Wicca.
The Woodcraft movement reached the peak of its popularity in the 1920s and 1930s, with groups active in some 20 countries around the world. The Second World War and the period of massive industrialization and Cold War militarism that followed it, however, brought a steep decline in the movement. After Seton’s death in 1946 the Woodcraft League went out of existence, and the few surviving Woodcraft groups in the second half of the twentieth century continued in isolation. Woodcraft today remains an active but very small movement, with a variety of local groups linked mostly by the Internet. Whether it will survive or flicker out in the twenty-first century remains to be seen.
Further reading: Hargrave 1927, Seton, 1920, Seton 1926.
[GREER, 2013: 541-542]

"Seton Indians"(1909)


KKK on an Easter Hike (c.1931)


WICCA
(…) Gardner had close connections to the English branch of woodcraft, a youth movement founded around the beginning of the twentieth century by Canadian-American nature writer Ernest Thompson Seton (1860-1846). Starting in 1915, when Quaker groups opposed to the militarism of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts imported Woodcraft as an alternative, two Woodcraft organizations – the Order of Woodcraft Chivalry and the Kindred of the Kibbo Kift – had an active presence in the New Forest area where Gardner claimed to have worshipped with surviving witches’ covens. Similarities between Wicca and English Woodcraft ceremonies from the 1920s even include references to the earth as a goddess and to a horned god of nature, and Seton’s Woodcraft included an inner, initiatory branch for adults, the Red Lodge, with three degrees of initiation.
[GREER, 2013: 536]


Cernunnos on the Gundestrup Cauldron (II-I BC)

Gerald Gardner (1884-1964)


Bibliographic references
GREER, John Michael. The Element Encyclopedia of Secret Societies. London: Harper Element, 2013, pp. 568. ISBN 978-0-00-793145-3

*
HARGRAVE, John (1927). The Confession of the Kibbo Kift (London: Duckworth)
SETON, Ernest Thompson (1920). Two Little Savages (Garden City, NY: Doubleday)
SETON, Ernest Thompson (1926). The Book of Woodcraft and Indian Lore (Garden City, NY: Doubleday)




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Woodcraft

Pedro Cuiça © Grupo 48 AEP (Damaia, 2013)

Na sequência dos posts que publicámos anteriormente sobre The Kindred of the Kibbo Kift e John Hargrave, o seu fundador, deixamos aqui algumas referências histórico-bibliográficas acerca da evolução do woodcraft e, nesse contexto, um vídeo sobre a Woodcraft Folk, que ainda se encontra hoje no activo, com vista a contextualizar esse fenómeno que, actualmente, será remotamente associado àquilo que se considera esco(u)tismo.

Um famoso clássico sobre vida ao ar livre e técnicas de campo trata-se de Woodcraft and Camping (1884), um livro escrito por George Washington Sears (1821-1890), mais conhecido como "Nessmuk". Trata-se de uma obra que, apesar de ter mais de um século, se revela bastante actual e mostra o quanto Nessmuk estava "à frente"... A designação "Nessmuk" é bastante conhecida pelas características facas assim denominadas, mas o mesmo não acontece com os escritos do autor que deu a conhecer esse nome. Para além do referido livro, Nessmuk também escreveu diversos artigos para a revista Forest and Stream.


The American Boy’s Handybook of Camp-lore and Woodcraft (1920) trata-se de mais um clássico, desta feita de Dan Beard (1850-1941). Daniel Carter "Uncle Dan" Beard foi um ilustrador e escritor, fundador dos Sons of Daniel Boone (1905) que viriam a integrar os Boy Scouts of América (1910). Outro clássico de Dan Beard é Shelters, Shacks, and Shanties (1914).


Mais um clássico: The Book of Woodcraft and Indian Lore (1913), de Ernest Thompson Seton (1860-1946). Este escocês, naturalizado norte-americano, foi um notável escritor e artista dedicado à temática da vida selvagem. Foi também o inspirador do movimento escotista na Inglaterra e, posteriormente, do Kibbo Kift. Outra importante obra de Thompson Seton é Boy Scouts of America (1910). Um livro no qual esse profícuo escritor, com mais de meia centena de obras publicadas sobre “artes do campo”, cria os fundamentos do escotismo na América do Norte. Saliente-se que Baden-Powell foi coautor.


O escotismo surge, em 1907, como uma forma de woodcraft, pioneira na descoberta/exploração da natureza por parte de crianças e jovens num contexto de actividades de ar livre. O movimento, fundado por Baden-Powell (1857-1941), implantou-se com base no conhecidíssimo Scouting for Boys (1908), publicado em Portugal inicialmente sob o título de Manual do Escoteiro (1915) e posteriormente com o título Escutismo para Rapazes. Não deixa de ser curioso comparar o original com as traduções portuguesas



sábado, 26 de novembro de 2016

Magus

Members of Ndembo Lodge (c. 1923), from left: John Hargrave (White Fox), Leonard Pember (Silver Fox), Aubrey Colebrook (Tiger Moth), J. E. Williams (Running Panther) (seated) and Cecil Mumford (Little Lone Wolf) (ROSS & BENNET, 2015: 32)

By this time he had distanced himself from the ‘wan spirituality’ of his largely female Theosophist supporters: ‘I know that I have only to let out a little pseudo-Swami-yogi-Rishi-Pranayana Wanamanaism to fetch both people and money… but this sort of Kagmag would push us right off the trail’, he wrote in August 1923 to A. C. Garrad, a Kinsman who took Eastern esoterica very seriously and must have felt rather taken aback by the comment. As a virile leader, Hargrave was drawn towards ‘magic’ rather than ‘spirituality’ – a perfect example of Alex Owens’ insight than in turn-of-the-century England ‘magic and mysticism were in effect subtly gendercoded, with magic – “intellectual, aggressive and scientific” – assuming a masculine status’: mysticism, by contrast, was ‘associated with emotionalism, a sense of rapture, which did not accord with the intellect-driven will to know characterizing the magical endeavour’. Later in life Hargrave was even more critical of Theosophy’s perceived wishy-washyness. He recalled the Dutch youth leader Baron von Pallandt as having “the vague aura of post-war theosophiscal seeking… thought-form wisps floating in a mystical blue haze’. Emmeline Pethick-Lawrence was one of many later dismissed as ‘drenched in hesitancy, mistaken for reflective wisdom’. Rudolf Steiner was not only weak but completely dead: ‘I heard Dr. Rudolf Steiner speak in London in German’, Hargrave recalled. ‘I understood not a word but I knew the man. Afterwards I shook hands with him. Then I knew I was right – a “dead” man. A bright, white intellectual light shining through a corpse: the light illuminating nothing except the busy complicated intellectual mechanism of this living dead man. Just a little uncanny because he has killed himself long before he died.’
What then was the nature of the occult magic that Hargrave professed, in preference to wishy-washy Theosophy? The presiding flavor was Rosicrucian Hermetic knowledge, a kind of robust magic that depend on a select band od ‘adepts’, a chosen few who were party to secret esoteric knowledge and who maintained bonds of brotherhood through initiation ceremonies and ritual, passing their magical powers down through time in secret runes and diagrams*. Embedded in this world-view was the notion of two levels of knowledge: esoteric knowledge – only available to those who had demonstrated their fitness to handle it; and exoteric knowledge, which was translated into a form able to be absorbed by the unilluminated masses. The exoteric/esoteric split was fundamental to much of Hargrave’s later politics, and although as a general principle it might seem to betray his own belief in self-education, it partly reflected his view that some people just could not cope with the disturbance to their psyche that some knowledge would cause. Esoteric knowledge was only to be circulated amongst those who could ‘eat good and evil without indigestion’, or who could ‘stand the abyss’, phrases he used when discussing a candidate for initiation into one of the Kindred’s male lodges.
The second thing Hargrave drew from the occult was a profound sense of mission, above and beyond his immediate task of helping the English nation after the catastrophe of the First World War. His work was now part of ‘the Great Game’, the battle between good and evil that had been tumbling down through the centuries and which had played out through many manifestations of art, science and philosophy across many civilisations. (…) He saw himself as one of the illuminated ones, a spirit chief whose reach stretched far beyond the tribe, and whose facility with reading symbols went far beyond woodcraft. Occultism inflated Hargrave’s tendency to take himself very seriously indeed.
The Kindred of the Kibbo Kift was to be the practical realization of all these esoteric beliefs, but they came together initially in a small group of men that Hargrave formed in 1919 and that he named the ‘Ndembo Lodge’. The name ‘Ndembo’ had appeared in The Great War Brings It Home as an example of a tribal council from Western Congo. In 1919 was more or less exactly that, a tribal council – albeit operating from Chesham Bois in Buckinghamshire and overseeing a tribe made up from Baden Powell’s Boy Scouts. Hargrave had drawn around him a group of like-minded Scoutmasters, all party to the woodcraft plots being hatched by White Fox and Seeonee Wolf. (…)
By 1922 the group had assumed a more religious look and feel. ‘Camps’ had become ‘conclaves’, attendees wore monk-like ‘vestments’ made from sackcloth (…).
[ROSS & BENNETT, 2015: 30-31]

Kibbo Kift hike formation (c.1928)


NOTE
*Hargrave's comments about the practical magic of images and objects are particularly interesting in relation to the naming of the Kibbo Kift's symbolic visual insignia, later in the 1920s, as 'sigils'. In particular the word was used for the circular devices designed by Hargrave to be embroidered onto ceremonial costumes. (...) The sigil is claimed by occultists to have a long history but it was popularised – if not invented – as a practice of spell-making through design in the writings of London artist Austin Osman Spare (1886-1956). Spare had received his creative training at the Royal College of Art and his occult knowledge from Crowley. Although there is no evidence in Kibbo Kift papers that Spare and Hargrave ever met, they could certainly have crossed paths in the tight social circles of London's interwar occult networks. Spare's theory of sigil magic, first published in his Book of Pleasure in 1913, certainly corresponds with Hargrave’s use of the visual as a form of magical persuasion. [POLLEN, 2015: 156]




Bibliographic references
POLLEN, Annebella. The Kindred of the Kibbo Kift: Intellectual Barbarians. London: Donlon Books, 2015, pp. 222. ISBN 978-0-9576095-1-8
ROSS, Cathy & BENNETT, Olivier. Designing Utopia – John Hargrave and the Kibbo Kift. London: Museum of London, 2015, pp. 182. ISBN 978-1-78130-040-4


domingo, 20 de novembro de 2016

The Kindred of the Kibbo Kift


At the most mystical of all woodcraft groups, Kibbo Kift’s practices – even at the most mudane level – were steeped in magic and ritual. The ceremonial method of organization established new traditions that lent coherence and formality to Kin activities, and provided a structure rooted in common custom rather than military drill or committee method. The Kindred drew on mythology and folklore sourced from geographically and historically diverse cultural and spiritual traditions; as with their design inspirations, these were characteristically adapted into new forms, blended with the latest thinking in art, science and philosophy, and brought to earth in the English landscape. Always original and sometimes secret, Kibbo Kift’s elaborate and poetic rituals were devised to lend a sacred quality to all areas of group life from the making and breaking of camp, to the cooking of meals and the lighting of fires; hikes were reconfigured as pilgrimages and membership induction was recast as initiation. Combined with the newness and strangeness of Kin costume and language, the effect was otherworldly, even religious. Hargrave and many other Kinsfolk sought and found spiritual nourishment in the Kindred. Like all Kibbo Kift’s operation, however, their belief system stood firmly apart from existing structures. A consequence of this rebellion against spiritual convention was that Kibbo Kift earned a reputation as something of a cult; certainly its embrace of no-Christian ritual practices was as controversial in the period as its non-segregated camping practices, its skimpy exercise costumes and its plainspoken ideas about sex education. Many ceremonial practices were concealed behind the public face of the Kindred for this reason, and further rites were only shared among selected, closed lodges within the larger membership. In more open-minded times, and with access to previously inaccessible documents, Kibbo Kift’s littleknow and little-understood myth, magic and mysticism can be repositioned as fundamentally important aspect of the organization.
[POLLE, 2015: 143]



Bibliographic reference
POLLEN, Annebella. The Kindred of the Kibbo Kift: Intellectual Barbarians. London: Donlon Books, 2015, pp. 222. ISBN 978-0-9576095-1-8



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ganhar asas…

Ganhar asas para andar

Não posso deixar de considerar caricatas algumas especificidades inerentes à evolução (ou involução?) da prática de pedestrianismo nas últimas décadas. Aquilo a que se chama “pedestrianismo” mas que se poderá designar, sem desprimor, por “caminhada”, “marcha”, “andar”, “andarilhar”, “vagabundear”, "vadiar" ou… simplesmente chamar-se “nada” (aquele nada que é tudo)! Tão só usufruir plenamente a experiência concreta de pôr um pé diante do outro e ir mais além…
O sequestro (ou a tentativa de sequestro) sectorial dessa actividade de ar livre – dessa prática ancestral sinónima de liberdade, "evasão" e inspiração – tem progredido paulatinamente de forma consentânea com a crise do associativismo (informal ou institucional) de que tanto se fala mas, a meu ver, extravasa em muito esse fenómeno. Desde logo pela simples razão de se poder caminhar a solo (e como diziam os "antigos": antes sozinho do que mal acompanhado), sem qualquer consideração pelos “actuais” e insistentes alertas face a essa pretensa imprudência. E sem que isso impeça, claro está, antes complemente e enriqueça, a possibilidade de, numa espontânea manifestação de livre associativismo, poder partilhar a experiência do andar com diversos companheiros e das formas mais variadas, longe de tutelas, enquadramentos legais ou outros espartilhos. É precisamente a multiplicidade de possibilidades e mormente as facetas de liberdade e de gratuitidade associadas ao pedestrianismo que fazem com que certas tendências das últimas décadas surjam como evidentes limitações a uma prática que se pretende aberta e inovadora.
A conjectura a que aludimos remete para uma crise mais vasta, uma crise de valores, uma crise civilizacional, que se tem traduzido, por exemplo, numa crescente privatização/comercialização da actividade e em condicionalismos à prática da mesma (designadamente na Rede Nacional de Áreas Protegidas), a par do aumento do consumismo, do egoísmo, da alienação e da “domesticação” dos praticantes!

A locomoção bípede é inerente ao Homo e ninguém deverá condicionar quanto mais proibir essa actividade. A liberdade de vivenciar essa capacidade da forma que nos aprouver surge desde logo pela designação que lhe queiramos dar ou pela ausência da mesma. Podemos andar à “porta-de-casa” em ambiente urbano e/ou em longínquas e inóspitas paragens naturais (wilderness), em caminhos marcados tal como em trilhos não balizados, depressa ou devagar, sozinhos ou acompanhados, ir em peregrinação, andar pela saúde ou sem qualquer motivo, etc.. Andar poucos minutos, horas, dias, semanas ou meses, há lugar para os que andando vestidos o fazem descalços e para aqueles que sendo nudistas andam calçados, para os minimalistas e/ou primais e para aqueles que gostam de andar artilhados com materiais topo de gama ou com o último gadget do mercado, etc., etc., etc.
Para mim, uma prática em autonomia é certamente um objectivo a alcançar mas, tão ou mais importante, é igualmente fundamental ser autêntico e original (ir às origens) conseguindo cultivar permanentemente uma atitude de abertura a novas (ou velhas?) concepções, experimentações e aprendizagens; é primordial ganhar asas para poder andar...


Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - e eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá Carneiro (1913): Quási

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

NESSMUK

George Washington Sears (1821-1890) foi um escritor, conhecido sob o nome literário de “Nessmuk”, que popularizou a vida ao ar livre e o “canoeing”. Não, não se trata de “canyoning” mas sim de, numa tradução algo difícil, “campismo em canoa”! Este explorador, que foi buscar o seu pseudónimo a um índio amigo de infância, escreveu inúmeros artigos na revista “Forest and Stream” e diversos livros de que se destaca Woodcraft and Camping (1884). George Sears era apologista do uso de uma trilogia de instrumentos de corte para colmatar as necessidades com que se deparava em campo: “his little double bit hatchet of his own design, a light fixed blade and a substantial Moose pattern folder”. Regressar aos "clássicos" das artes do camping revela-se sempre estimulante, que mais não seja porque há sempre algo a (re)aprender. 
© Heron Dance (2011)

domingo, 24 de novembro de 2013

Fora de Portas (II)

Campismo
As proibições andam aí

As origens do campismo remontam ao início do século. Os pioneiros praticavam essa actividade numa postura de descoberta e impregnados numa mística a que o romantismo não estará alheio. O que diriam aqueles que palmilhavam os campos livremente, de mochila às costas, face às actuais proibições de acampar?

Nos tempos heroicos não se poderia prever que o campismo iria sofrer um incremento exponencial praticando-se em diversos moldes e transformando-se, nomeadamente, numa actividade social acessível a toda a família – desde a criancinha ao avozinho. Ainda não se tinha montando uma indústria e um mercado especificamente dedicados a essa forma de recreio que atrai multidões. O “campismo livre” passou a designar-se por “campismo selvagem” e os praticantes ficaram, de certo modo, condicionados aos parques de campismo. Há poucos anos atrás podia-se circular e acampar livremente sem grandes preocupações, mesmo em propriedades privadas, mas hoje não se passa o mesmo. A natureza encontra-se sob a tutela do Estado e este, despertando para a problemática ambiental, vê-se forçado a legislar e a regulamentar.
Em Espanha, todas as comunidades autonómicas proibiram o campismo fora dos parques alegando diversas razões, entre as quais se destacam evitar o perigo de incêndio e a poluição por dejectos e detritos.
A Comunidade Autonómica de Madrid foi a última a aderir à vaga proibicionista abolindo o “campismo livre” no seu território. A Federação Madrilena de Montanhismo (FMM) interpelou diversas vezes a Comunidad de Madrid acerca das proibições de acampar, solicitando esclarecimentos: instalar uma tenda é acampar? Instalá-la só para dormir é acampar? O director do Meio Natural da Comunidade Autonómica de Madrid remeteu a definição do termo “acampar” para o dicionário da Real Academia da Língua Espanhola. No entanto, a lei não se pretende omissa, sendo obrigação do legislador definir, clarificar e informar. Será que se estabelece a diferença entre “campismo fixo”, “campismo volante ou de passagem” (pernoita com tenda) e bivaque (pernoita sem tenda)? Não, para o Estado e a Administração é tudo o mesmo. Mas, na realidade, será idêntico montar uma tenda ao lado do automóvel durante 15 dias ou, pelo contrário, acampar ao cair da noite para desmontar a tenda de manhã e partir de mochila às costas? O acampamento fixo, sobretudo se não existir fossa sética, será sem dúvida fortemente contestável.
A rectificação das medidas que indiscriminadamente proíbem o campismo ocorreu no caso da Comunidade de Navarra. Segundo esta, o direito reconhecido pela Constituição de disfrutar de um meio adequado para o desenvolvimento da personalidade, assim como o princípio regulador da política social inserido no artigo 403 do texto constitucional que postula a adequada utilização do ócio, não se coadunam com a interdição regulamentar sobre a prática do campismo livre em Navarra. Por outro ado, o Plano de Uso e Gestão do Parque Nacional de Ordesa rectifica e reconhece a possibilidade de acampar livremente entre os 1800 e os 2500 metros de altitude em determinadas áreas desse espaço natural. A polémica promete continuar.

(Pedro Cuiça – FORA DE PORTAS – jornal Forum Ambiente . nº 118 . 28/Fev. 1997)


Fotos: Sierra de Gredos © PC (1997)