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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Escolas de Ar Livre


DR © 

A leitura da edição deste mês da revista Montagne360 suscitou a nossa especial atenção para uma pequena notícia sobre a realização, no dia 6 de Abril, do primeiro seminário para professores e gestores de escolas primárias ao ar livre, a decorrer em Itália.

«Nonostante l’insegnamento all’aperto abbia profonde origine storiche che risalgono a oltre un secolo fa, il modo di far lesione è profondamente cambiato nel tempo. Eppure, nonostante molti istituti scolastici svolgano lezioni in aula, sta parallelamente fiorendo un interesse diffuso verso la straordinaria opportunità di svolgere scuola all’aperto. E così si moltiplicano le esperienze e, com loro, anche l’interesse degli enti, degli istituti e delle famiglie nei confronti di questa esperienza che permette a ragazzi e bambini (in particolar modo quelli che frequentano nidi e scuole d’infanzia) di tornare a vivere (e imparare) in un ambiente naturale. Accade in montagna, certo. Ma anche nelle città che valorizzano la presenza di Boschi, parchi e giardini. Con queste premesse il Comune di Lucca, la Rete nazionale delle scuole all’aperto e l’Istituto compreensivo capofila IC12 di Bologna hanno promosso il primo seminario nazionale degli insegnanti e dei dirigenti delle scuole primarie all’aperto. L’appuntamento è per sábado 6 aprile próprio a Lucca, nella storica sede del Real Collegio (Piazza del Collegio, 13). Sarà l’occasione per approfondire la tematiche legate a educazione e natura. Ma a Lucca s’incontreranno anche insegnanti, dirigenti scolastici, formatori, ricercatori, facilitatori e referenti istituzionali provenienti da tutta Italia. La scheda d’iscrizione e il programma dell’incontro, che sarà accreditato e offrirà punti per la formazione, saranno pubblicati sul sito scuoleallaperto.com.» [Montagne360, Fev. 2019: 8]

O crescente afastamento da natureza e dos espaços de ar livre, o aumento do sedentarismo e da vivência de espaços virtuais e/ou fechados, por parte dos adultos em geral e das crianças e jovens em particular, é algo que assume proporções preocupantes e que, por isso, tem sido alvo de variados e recorrentes alertas e propostas com vista à sua mitigação ou resolução. Os estudos e iniciativas surgem em diversos países não só europeus como noutros continentes, com particular destaque para a Noruega, Suécia, Japão e Estados Unidos, entre outros. Nesse contexto, Portugal também merece uma menção tendo em conta, mormente, o trabalho realizado por Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), que se dedica há mais de quatro décadas à investigação sobre a actividade física/desporto, desenvolvimento e ecologia da criança. Essa área tem sido alvo da abordagem de diversos estudos portugueses mas torna-se, cada vez mais, evidente e imperiosa a necessidade de passar à prática, na medida inversa do abandono das brincadeiras e jogos de rua. Simultaneamente a destruição, a passos largos, de ambientes naturais e semi-naturais, a par de alienantes vivências virtuais, aporta não só à já tradicional retórica da “conservação da natureza” mas exige, sobretudo, renovadas posturas proteccionistas não só de naturezas pristinas (!), onde as houver, mas também de efectivas formas de rewilding e, ademais, de novas formas ancestrais de ser/estar/pensar. Ao estilo Pessoano, só aparentemente paradoxal, das “saudades do futuro”... Neste contexto, é de realçar o papel importantíssimo que os movimentos esco(u)tista e campista tiveram, e continuam a ter, no que concerne ao contacto com a "natureza" e a prática de actividades de ar livre. No entanto, pensamos que os dias que correm e os desafios a curto/médio prazo exigem renovadas e motivadoras abordagens com grande enfoque na livre recreação das crianças e jovens, com base em processos de ensino-aprendizagem na "natureza" que potenciem a sua auto-organização, responsabilização e são desenvolvimento.
A sensibilização e educação ambientais são primordiais na implementação de autênticas mudanças de paradigmas, rumo a existências verdadeiramente sustentáveis. A mudança passa inevitavelmente por práticas simples e naturais, de ar livre. E, nesse pressuposto, o acto multifacetado de andar a pé terá indubitavelmente uma importância tão basilar quanto incontornável.

DR © 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Montagne360 – La revista del Club alpino italiano. Bolonha, nº 77, Fevereiro 2019, pp. 80.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Através da paisagem


Lentamente, o meu cérebro começou a reajustar-se a espaços que não utilizava havia meses. Durante muito tempo, tinha vivido na universidade, em bibliotecas e salas de aula, de cenho franzido a olhar para ecrãs, a corrigir trabalhos, a tentar encontrar referências académicas. Era um outro tipo de perseguição. Ali eu era um animal diferente. Alguma vez viram um veado a sair do seu esconderijo? Dão um passo, param e ficam imóveis, com o nariz no ar, a olhar e a farejar. Um frémito nervoso poderá percorrer-lhe os flancos. E depois, tranquilizados por se sentirem em segurança, saem do meio dos arbustos para irem pastar. Naquela manhã, senti-me como o veado. Não que estivesse a farejar o ar ou parada com medo – mas tal como ele, estava dominada por modos muito antigos e emocionais de me deslocar através de uma paisagem, a experimentar formas de atenção e de comportamento que estavam para além do controlo consciente. Qualquer coisa dentro de mim comandava os meus passos sem que eu tivesse grande consciência disso. Talvez fossem milhões de anos de evolução, talvez fosse intuição, mas na minha busca de açores sinto-me tensa quando caminho ou estou imóvel ao sol, dou comigo a dirigir-me inconscientemente para zonas de luz, ou escapar-me para zonas de sombra estreitas e frias ao longo dos vastos intervalos entre os renques de pinheiros. Encolho-me se oiço o chamamento de um gaio, ou o grito de alarme repetido e zangado de um corvo. Estes dois sons podiam significar Alerta, humano! ou Alerta, açor! E naquela manhã eu estava a tentar encontrar um ocultando o outro. Essas antigas intuições fantasmagóricas que há milénios ligam corpo e espírito tinham-se afirmado, impondo a sua vontade, fazendo-me sentir incomodada sob a luz intensa do sol, inquieta no lado errado de uma cumeeira, de certo modo obrigada a caminhar sobre uma elevação coberta de ervas descoradas para chegar a qualquer coisa do outro lado que acabaria por se revelar um lago.
[MACDONALD, 2015: 14]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MACDONALD, Helen. A de Açor. Alfragide: Lua de Papel, 2015, pp. 344. ISBN 978-989-23-3394-6

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Senso e Sentido

Hoje, que se realiza o lançamento do Volume X das Obras Completas de António Telmo, Capelas Imperfeitas, editadas pela casa Zéfiro, deparei-me com um pequeno texto – Carta íntima a mim próprio – integrante do Volume I dessa “colectânea”, A Terra Prometida, com interessantes considerandos acerca do senso e do sentido, que me remeteram para as caminhadas holotrópicas, mormente pelo marcado cariz sensorial destas. Afinal tudo está (inter)ligado a tudo e, ademais, algumas coisas mais que outras…


«O ouvido torna-se um foco de atenção quando falta a luz. O principal foco da atenção. Depois vem o olfacto e o tacto. A vista guia-se por estes três sentidos. Os filósofos para quem o mundo sensível é uma noite detêm o segredo da palavra que expulsa os ídolos. Este de que falamos [Sampaio Bruno] é desta espécie e daí privilegiar a metáfora, não pelo seu esplendor, mas pelo que ela manifesta do poder da palavra transformando o sentido.
Álvaro Ribeiro, seu discípulo, nisto como noutras coisas igualmente importantes, não gostava da palavra sentido, utilizada para designar os cinco órgãos de apreensão do sensível. Propunha senso para a substituir. O sentido, ensinava ele, é o que o senso encontra fora de si. Não é o em quem sente, mas o no que é sentido. Estranhamente preferiu o rigor lógico da linguagem ao seu uso popular, que tanto prezava. Preferiu o científico ao primitivo. É um dos poucos pontos em que não posso estar com ele. Pois que, quando dizemos, como é uso popular, que por determinado caminho vou no sentido do norte, digo muito mais do que se dissesse que vou na sua direcção. Sinto o Norte para aquele lado, o Norte torna-se o que sinto, isto é, o meu sentido, o que está em mim e ao mesmo tempo lá fora. Do mesmo modo, quando, numa quadra popular, ele diz para ela “Trago-te no meu sentido”, o sentido aqui é a alma que sente e a alma que ela é.
A designação dos cinco sentidos é toda ela feita com particípios passados: Ouvido, vista, olfacto, tacto. Toda, não. Falta o paladar, que é uma operação do palato. Passado ou perfeito, o que diz um mundo sensível integrado no nosso senti-lo.»
[TELMO, 2014: 146-147]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TELMO, António. A Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo & Quinto Império. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. I, 2014, pp. 212. ISBN 978-989-677-115-7
TELMO, António. Capelas Imperfeitas – dispersos e inéditos. Sintra: Zéfiro, Obras Completas de António Telmo, Vol. X, 2019, pp. 286. ISBN 978-989-677-167-6

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Praktognosia


The body, in general, can be seen as a dispositif, such as, in particular, the pendulum movement of the legs!…

© algures na Net

«“Dispositif” derives from the Latin “disponere”, “dispositum”, “dispositio”, and all of these terms refer to a sence of placement and ordaining. A dispositif implies a series of orders, of things that can or cannot be done. Regardless of rigourous comprehensiveness, we may say that a dispositif defines what a bio-political body can do.
A dispositif thus ties knowledge and power. Gilles Deleuze (1988), in reference to his friend Foucault´s work, has put the emphasis on how the Subject is the output of this tie (…), that is, on how the dispositif is tantamount to a process  of subjectivation. This way, a peculiar definition of Subject comes out: it results from a dispositif defined by that which can or cannot be done. Foucault, on speaking about-biopolitcs, underscored how dispositifs are able to be aplied on bodies, actually speaking about neoliberal orthopedics (…). This way, we are in front of a conception of the Subject and knowledge that is opposite to the classical model, according to which the Subject is mere conciousness while knowledge amounts to determining what a body objectively is.Though the dispositif, new light can be shed on the mind-body, Subject-object relation.
This Foucauldian perspective – akin to a post-structuralist take on the matter – mind and body, Subject and object do not constitute an antithesis. Conciousness thus is not the expression of a transcendental Subject, concious of itself and the world around it; instead, consciousness amounts to all that a body has learned – one could say, experience protocols (…). In this view, the body is not the noematic correlative of consciousness, a mere object, but instead it is everything that can be done with respect to these protocols. A body therefore is not a thing but a potency.
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 23-24]

«Praktognosia is a portmanteau built by “praxis” (action) and “gnosis” (knowledge), and it stands for the strong tie between knowing and doing. This tie is double: it indicates knowledge of ways of doing, through it’s not just a preliminar kind of knowledge placed immediately before action; this would lead to suppose that there is a knowing Subject that can know independently from his own doing, thus returning to the Subject-object distintion. In order to avoid this difficulty, which would lead to subjectivism, there is another aspect of praktognosia: to do is to know already, from the very outset. Doing and knowing are the same thing, for both of them determine the structure of the world understood as an environment, at the same time known and done: the sense of this is that the relation between the body and the environment runs back and forth.»
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 26]

«Plus, praktognosia also has to do with negativity, which allegedly constitutes its most interesting aspect: a body learns only if it is manages to create anomalies. This notion stands out in Merleau-Ponty’s lectures on nature, delivered at the Collège de France by the end of the 1950’s; like Canguilhem, he defines the body as a fluctuation with respect to given norms (…) in order to highlight its plasticity and its resistance to any kind of pre-established principle. This fluctuation takes place as the stochastic (dynamic) unity of experience protocols that define the feature of having a body.
It could be argued that Foucault dealt with the dynamic feature of these protocols in terms of governamentally, that is, in terms of the management of anomalies and abnormal individuals (…). But since there is no such thing as correct bodies, power (as in controlling the system’s anomalies) is obliged to enforce the orthopedics of bodies by instituting models of usage that go hand in hand with bio-political aspects of knowledge (…). However, this resistance may become a line of flight, through the proper understanding of bodies as holders of praktognosia
[DE FAZIO & LÉVANO, 2019: 27]

© algures na Net

BIBLIOGRAPHIC REFERENCE
DE FAZIO, Gianluca & LÉVANO, Paulo F.. Praktognosia: ecosophical remarques on Having a body

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Tertúlia da Montanha


Na sequência da comemoração do Dia Internacional das Montanhas, estarei na Biblioteca Municipal de Lagoa, no dia 14 de Dezembro, para participar, juntamente com a Dra. Maria Luísa Francisco, numa tertúlia sob o tema “O Sentimento da Montanha: do imanente ao transcendente”.



terça-feira, 20 de novembro de 2018

Pensar (como um)a Montanha

Pensar (como um)a Montanha,
no Dia Internacional das Montanhas


O modo como os seres humanos se têm relacionado com a Natureza, em geral, e com a Montanha, em particular, não tem sido o mesmo ao longo da história. Na verdade, verificaram-se alterações profundas das concepções, paradigmas  e formas de ver e sentir o meio montanhoso. A data em que se celebra o Dia Internacional das Montanhas (11 de Dezembro) constitui uma ocasião privilegiada para abordar as éticas e estéticas da Terra que conduziram a novas formas de fazer, estar e ser (n)a Montanha, com importantes aplicações teóricas e práticas no trabalho desenvolvido pelos Treinadores na área dos Desportos/Actividades de Montanha. Tendo em conta a excepcionalidade do dia, esta Palestra da Montanha contará com uma pausa para café na qual se irá comemorar de forma especial essa importante data dedicada à Montanha.




Conteúdos programáticos:
Enquadramento
· Montanhas, Montanhismo e Desportos de Montanha
· O Dia Internacional da Montanha
· Fazer, Estar, Ser
Ética da Terra
· Alguns conceitos: antropocentrismo, sencientismo, biocentrismo e ecocentrismo
· Ética Ambiental e Montanhismo: pré-romantismo, romantismo, transcendentalismo, ética da Terra e ecologia profunda
Estética da Terra
· Leitura e interpretação da paisagem: Montanha
· Noções e abordagens da paisagem: estética, científica e técnica
· Aplicações práticas: abordagens da paisagem e necessidades de Maslow
Pensar como uma Montanha
· O Terreno de Jogo – abordagem técnica: alguns exemplos
· Análise da paisagem – utilização pedagógica: alguns exemplos
· Ser a paisagem – auto-realização: alguns exemplos
· Uma “visão” holística da Montanha


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Iludências


Seis associações ambientalistas lançaram ontem um comunicado em defesa da proibição da caça à Rola-brava (Streptopelia turtur): a GEOTA, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a Quercus, o Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS) e a Associação Natureza Portugal/World Wild Fund (ANP/WWF). Segundo salientam, a população de Rola-brava «tem diminuído acentuadamente por toda a Europa nas últimas dezenas de anos», sobretudo devido à intensificação agrícola (corte de sebes, destruição de mosaicos agrícolas e uso indiscriminado de fitofármacos) e à caça excessiva em países como Itália, França, Espanha e Portugal. Ao que parece o problema foca-se na árvore – a caça que deve ser limitada a um «limite sustentável de abate» (?) – e desfoca-se da floresta – toda a complexidade de uma realidade global, com gritantes implicações locais –, numa aparente cegueira, surdez e/ou outros quaisquer condicionalismos, mormente (quem diria?) económicos... Até parece que a generalidade dos sistemas naturais e semi-naturais, tal como a maior parte das espécies selvagens, não se encontram ameaçados e que não é preciso ir mais fundo no(s) problema(s)/análise(s) e soluções!
O presidente do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) esteve hoje de manhã em directo na TSF para, de forma titubeante, dar a entender que a caça à Rola-brava até estará a ser bem gerida em Portugal. Ao que parece, nem poderia ser de outra forma!... Até parece que a caça é fundamental para manter os tão necessários equilíbrios ecológicos, num país rico em vastos e diversificados ecossistemas naturais e semi-naturais, como se os sistemas naturais não fossem auto-reguláveis! Aquecimento global, alterações climáticas, incêndios florestais, destruição da floresta autóctone e diversas espécies de fauna selvagem em vias de extinção, entre outros (demasiados) quejandos: que é isso, pá?
Ao que parece a conservação da natureza não passa de um mero paliativo – uma espécie de banho (ou banhada?) verde (greenwashing, em “amaricano”) –, com vista a perpetuar o insustentável sistema de crescimento económico exponencial e simultaneamente aquietar consciências… Até parece que não é necessário implementar uma efectiva protecção da natureza!
O que parece muitas vezes não é e o que é outras tantas não (trans)parece! Motivo pelo qual há imensa margem de manobra para superficiais abordagens “verdes” ou o seu oposto, frequentemente umas e outras apresentadas “a preto e branco”… e à brava. Por estas e por outras é que se torna difícil compreender que existam “superfícies comerciais” na Torre e, simultaneamente, seja "condicionado" o acto de andar a pé no planalto central da Serra da Estrela! Por estas e por outras é que as aparências continuam a iludir. Até parece!...


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A Roda do Ano



As flores silvestres da macieira talvez sejam as mais belas das flores de todas as árvores, tão abundantes e deliciosas para a vista como para o olfacto. É frequente o caminhante sentir-se tentado a dar meia-volta para se atardar perto de uma árvore extraordinariamente bela, com flores dois terços abertas. (…)
As primeiras maçãs começam a amadurecer por volta do primeiro de Agosto; mas creio que nenhumas são tão boas para comer como algumas para cheirar. Para perfumar os nossos lenços, uma só destas maçãs é superior a qualquer perfume vendido numa loja. (…)
Deste modo, em todos os produtos naturais existe uma determinada característica volátil e etérea que representa o seu valor mais elevado, e que é impossível banalizar, comprar ou vender. (…)
Em Outubro, com a queda da folha, distinguem-se melhor as maçãs nas árvores.
[THOREAU, 2016: 29-33]


Os europeus que chegaram à América ficam surpreendidos com o esplendor da nossa folhagem outonal. Não há referência a qualquer fenómeno semelhante na poesia inglesa, poi ali as árvores adquirem poucas cores vivas. Quase tudo o que Thomson diz sobre este assunto no seu poema «Outono» está contido na seguinte estrofe:

«Mas vede os evanescentes boques de muitas
cores,
Matizes sobrepostos, mais e mais profundos,
obscurecidos
Os campos em redor; uma sombra cerrada,
obscura e penumbrosa,
De todos os cambiantes; desde o verde desmaiado
Até ao negro-fuligem.»

E também no verso em que se fala de

«o Outono radioso sobre os bosques amarelos.»

A transformação outonal dos nossos bosques ainda não deixou uma marca profunda na nossa literatura. Outubro mal coloriu a nossa poesia.
Um grande número de pessoas, as que passaram a vida em cidades e nunca se aventuraram a vir ao campo nesta estação, nunca viu isto: a flor, ou antes, o fruto maduro, do ano.
[THOREAU, 2016: 83-84]



NOTA
Já tinha Maçãs Silvestres & Cores de Outono há alguns meses aguardando a respectiva leitura. Agora com o Equinócio outonal chegou a altura propícia para me adentrar nessa obra de Thoreau: uma referência bibliográfica no âmbito da nature writing. Para alguns aproxima-se o final de mais um ano e/ou o início de outro, para mim trata-se de mais um marco significativo e substancialmente significante da Roda do Ano: aquele que anuncia a estação minha preferida...



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THOREAU, Henry David. Maçãs Silvestres & Cores de Outono. LISBOA: Antígona, 2016, pp. 166. ISBN 978-972-608-281-1



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Walking as a miracle


© Algures na Net

I like to walk alone on country paths, rice plants and wild grasses on both sides, putting each foot down on the earth in mindfulness, knowing that I walk on the wondrous earth. In such moments existence is a miraculous and mysterious reality. People usually consider walking on water or in the air a miracle. But I think the real miracle is not to walk either on water or in air, but to walk on earth. Every day we are engaged in a miracle which we don’t even recognize : a blue sky, white clouds, green leaves, the black, curious eyes of a child – our own two eyes. All is a miracle.
[HANH, 1987 : 12]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HANH, Tich Nhat. The Miracle of Mindfulness – An Introduction to the Practice of Meditation. Boston : Beacon Press, 1987, pp. 140. ISBN 0-8070-1239-4

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mindfull Walking

Some coaching psychologists have already started integrating coaching with mindfull walking with nature (O’Donovan, 2015). Clearly, ecopsychology research is very relevant for health and wellbeing coaching too.
In conclusion, the hope is that by using relative simple evidence-based ecopsychological interventions, wellbeing can be enhanced for individuals, groups and communities. Perhaps effective coaching is self-coaching, and simple ecopsychological interventions are relatively easy to persuade oneself to undertake.
[PALMER, 2015: 14]

Pedro Cuiça © Mindfull Walking With Nature (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PALMER, Stephen. Can ecopsychology research inform coaching and positive psychology practice?. International Society for Coaching Psychology; Coaching Psychology International, vol. 8, pp. 11-15. ISSN 1758-7719

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Ecologia do Saber


Al pari dell’orticoltura, del camminare, della caccia e della pesca, per Thoreau la scrittura così come la lettura sono delle vere e proprie pratiche di appropriazione e costruzione dello spazio, innanzitutto interiore e in seguito circostante: «Tutto il cambiamento è in me» e parte de me. Lo dimostrano infatti i riferimenti letterari dell’autore ai pochi volumi portati con sé e presenti nella sua biblioteca, dal cui uso si evince chiaramente, al di lá dei richiami alla cultura clássica e alle filosofie orientali comuni nel Romanticismo (basti solo pensari a Goethe, Schopenhauer e Nietzsche), l’aspirazione dell’umanitá sai al superamiento di se stessa che all’emancipazione dalla propia condizione di bruta inferiorità e dalla cattività della civiltà, sia all’appartenenza all’intero della natura:

Ognuno è edifocatore d’un tempio, chiamato il suo corpo. Al Dio che adora, in uno stile suo proprio e non può tralasciarlo scapellando al posto del marmo. Siamo tutti scultori e pittori, e il nostro materiale sono la nostra carne, il nostro sangue e le nostre ossa. Ogni nobilità comincia subito a raffinare le fattezze dell’uomo; ogni bassezza e sensualità a imbruttirle.

Dalla rivalutazione della corporeità e del ruolo delle passioni, pasa dunque la difesa della totalità della vita, dell’essere come bios, il ritorno allá natura non come un regresso allo stato di esistenza dei selvaggi o dei primitivi, bensí come meditazione della mortalità nell’eternità dell’ordine cósmico, la cui perfezione permanece e diviene tanto nell’uno quanto nei molti, nel tutto come nel singolo. Solo considerando questa completa immersione dell’Io nell’alterità che lo costituisce, si può infatti pensare l’umano senza discontinuità ontológica com il resto del mondo naturale.
(…)
La difesa della frugalità e della sobrietà dei costumi, in opposizione a una società che è fondata sull’illusione di «sprecare la parte migliore della própria vita per guadagnare denaro com cui godersi una libertà incerta nel período meno prezioso dell’esistenza», creando falsi bisogni, e che distribuisce in maneira diseguale i beni tra gli uomini, sono tra i lasciti più importante di questo libro per l’epoca contemporânea. In tal senso, la povertà deve essere lo stato che l’uomo deve assumere per poter ritornare a vivere in comunione com la natura: privandosi non solo dei lussi e di tutto ciò che è supérfluo, ma anche dei mezzi, delle risores, di un’abitazione e di ogni proprietà, l’uomo diviene costretto ad affinare le proprie capacità natural, a inventare sai nuove tecniche che forme di vita:

Sono sicuro che se tutti gli uomini dovessero vivere semplicemente [], i furti e le rapine non esisterebbero più. Tali misfatti avvengono nelle comunità nelle quali molti hanno più del necessário, mentre altri non hanno abbastanza.

Ciò non significa affato, come si vede anche dai rapporti che Thoreau intratteneva sia coi vicini di campagna che con gli abitanti di Concord, un total discredito della civiltà e un isolamento da essa, a favore di un imprecisato eremitaggio per luoghi più o meno solitari e desolati. Lo scopo di questo libro [Walden, overo Vita nei boschi] è ètico ancor prima che politico. La purificazione dell’Io dalle abitudini della vita nella società (siano ese il mangiar carne o il partecipare ad attività mondane) e l’adattamento allá vita nei “boschi” sono solo il primo passo verso la constituzione della nuova comunità, per la cui apertura all’impertubabilità e allá fermezza del saggio va naturalmente commissionata l’ecologia del sapere.
[INGALLINA, 2017: 494-496]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
INGALLINA, Pietro. Scrivere ed abitare la Natura. La vita saggia come Ecologia della mente in Walden di Thoreau. Dipartamiento di Scienze Umanistiche – Universitá degli Studi di Catania; Siculorum Gymnasium – A Journal for the Humanities, LXX, III, 2017, pp. 493-497.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Bond

A Bond...



Naked Experience

© PC

«[] animism in most cases affirmatively stands for the proposition that everything is alive and animated – even stones, rivers, and other allegedly “dead objects”. Nevil Drury puts it directly: “Shamanism is really applied animism, or animism in practice”. And Jonathan Horwitz clarifies: “Animism for the animist is not a belief: it is the way life is experienced. All objects do contain a life is experienced. All objects do contain a life essence of their own, and as such do also contain power” (1999: 220). Indeed, the relation is so strong that sometimes the two concepts seem to converge, as becomes obvious in Horwitx’s statement: “The word shamanism has become over-used and really very over-worked. A lot of the time when people say ‘shamanistic’, they actually mean animistic – a perception of the world as it truly is, with all things alive and in connection. ‘Animism’ is the awareness of our connection to the world that is the foundation of the practice of shamanism. These two things are inseparable” (1995: 7).
The shamanic journey is designed as a means to communicate with those layers of reality that are not accessible in normal states of consciousness. Considering all things alive, the shaman tries to learn the language of different entities, and in nonordinary reality she or he is able to talk to them in order to get advice or help. It is this communicative aspect that Joan Halifax has in mind when she says, “The sacred languages used during ceremony or evoked in various states of consciousness outside culture (if we are Westerns) can move teller, singer, and listener out of the habitual patterns of perception. Indeed, speaking in the tongues of sea and stone, bird and beast, or moving beyound language itself is a form of perceptual healing” (92).
Beginning with the 1960s, there were increased discussions concerning the sacred dimensions of nature that entailed both participation throught man’s awareness and protection through environmental efforts (for an excellent survey, see Taylor 2001a, 2001b). In this context, the adaptation of Buddhist philosophy – like that being studied in the Esalen Institude in California – was a driving force. At times, the various lines of tradition come together in single persons. One example would be Joan Halifax; another one would be the famous poet and activist Gary Snyder, who spoke of himself as “Buddhist-Animist”. Snyder also was involved in the radical environmental movement Earth First! (Devall and Sessions; Taylor 1994, 1995). Hence, the animistic attitude is by no means restricted to neoshamanic circles. Instead, it is part of a larger flow of the sacralization of nature – Naturfrömmigkeit – which spread from North America and Europe during the last two decades. From this perspective, shamanism can be addressed as a kind of ritualized way of experiencing nature. Snyder says that “the practice of shamanism in itself has at its very center a teaching from the non-human, not a teaching from na Indian medicine man, or a Buddhist master. The question of culture does not enter into it. It’s a naked experience that some people have out there in the woods” (in Grewe-Volpp: 141). On another occasion Snyder assures us that poetry and song are among “the few modes of speech… that [provide] access to that other yogic or shamanistic view (in which all is one and all is many, and many are all precious)” (13-14).
The shamanic journey can help put mystic experiences, for instance, on wilderness trips, into a ritualized form that not only conceptualizes the experience but also gives evidence and coherence to it. By means of this framing, those experiences are controllable and repeatable.»
[STUCKRAD, 2002: 779-780]



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
STUCKRAD, Kocku von. Reenchanting Nature: Modern Western Shamanism and Nineteenth-Century Thought. Journal of the American Academy of Religion, December 2002, Vol. 70, Nº 4, pp. 771-799.