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quarta-feira, 20 de março de 2019

Un air richement parfumé


Pedro Cuiça © Montanha do Pico (Faial, 19/03/2019)

Par une radieuse matinée printanière, le soleil doux rehaussait de son éclat la sublime senteur des fleurs. La rosée de l’aube perlait encore sur ces douces feuilles multicolores. Elles cachaient aux creux de leurs tremblantes corolles, un air richement parfumé qui emplissait de joie le coeur du voyageur. Sur ce vaste plateau au sommet de la montagne, une rivière bleuâtre frayait son chemin et mouillait à son passage les terres fértiles d’un sumptueux jardin.
[MOHANDAS, 2018: 13]

Pedro Cuiça © Grupo Central (Faial, 19/03/2019)

Pedro Cuiça © Grupo Central (Faial, 19/03/2019)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MOHANDAS, Johannes C.. Le Saint de la Montagne – Tome I: La Vallée des Merveilles. AL Editions, 2018, pp. 80. ISBN 978-295-211-142-3

quarta-feira, 13 de março de 2019

A verdade (a) no


«Para o que ama a Verdade não há descanso nem termo, porque a vê no próprio caminhar, a surpreende no esforço contínuo da marcha; o amor da Verdade não é um desejo de chegar, mas o anseio de superar.»

Agostinho da Silva in Glossas (1945)


© Pedro Cuiça



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SILVA, Agostinho da. Textos e Ensaios Filosóficos I. Lisboa: Âncora Editora, 1999, p. 37. ISBN 972-780-004-1

sexta-feira, 8 de março de 2019

Orientação


Oriente, outra vez orient'a(c)ção?

«Ó céu por cima de mim, ó pureza, ó profundeza! Ao contemplar-te estremeço de desejos divinos.
Elevar-me à tua altura – eis para mim a profundidade! Ocultar-me no coração da tua pureza – eis a minha inocência.
(…)
E nas minhas peregrinações solitárias, de que tinha a minha alma fome durante as noites e pelos caminhos de acaso? E quando eu escalava montes, a quem procurei sempre nas montanhas, senão a ti?
E todas essas peregrinações, e todas essas ascensões de montanha, que eram senão um expediente e uma maneira de iludir a minha impotência? O que eu queria era voar, voar em ti
Friedrich NIETZSCHE in Antes da Aurora (1985: 181-182)

Nicolas Roerich © Path to Shambhala (1933)

Podia-se ter passado na Ilha imaginada por Camões o que se diz nesta citação de Henry Corbin:

«Quando Zoroastro abandonou a vida, o seu Xvarnach, essa flama emanada da luz infinita de Deus, foi guardado nas águas do lago Kansaoya, de onde emerge a montanha das auroras, Mons Victorialis, uma multidão de Fravartis é quem o guarda. No fim do nosso ciclo ou Aiôn, uma jovem entrará nas águas do lago místico. A luz gloriosa de Zoroastro penetrará no seu corpo e ela “conceberá aquele que virá triunfar sobre todos os malefícios dos demónios e dos homens.»

Com efeito, a estrofe 42 do canto nono d’Os Lusíadas alude ao mesmo mistério pelas palavras da deusa auroral, Vénus, rogando ao seu filho Amor, “aquele em quem tem a sua potestade”:

Quero que haja no reino neptudiano,
Onde eu nasci, progénie forte e bela,
E tome exemplo o mundo vil, malino
Quem contra tua potência se rebela,
Para que entendam que muro adamantino
Nem triste hipocrisia vale contra ela.
Mal haverá na terra quem se guarde
Se teu fogo imortal nas águas arde.

A união pelo amor do herói e da deusa no palácio de cristal do alto da montanha das auroras, dando origem a uma progénie forte e bela, só foi possível pela depuração, no Gama, do elemento violento, da hubris, com que os filhos da terra, os gigantes, fazem o assalto ao céu. Todos temos hoje a crua vivência do que é o titanismo. O Adamastor é o próprio Vasco da Gama em aparição aos seus próprios olhos. É, igualmente, o mesmo Camões na sua “natureza terrível”, que é a que lhe atribuem por estas palavras os seus contemporâneos. Assim se explica que seja a mesma a forma feminina desejada pelos dois, a cristalina Tethis. Onde o filho tenebroso da terra soçobra, o filho de Luso, agora senhor de Tirso, vê realizado o seu alto desejo. Pela dobragem do cabo, quando a rota inflecte na direcção dos países da aurora, a natureza terrível é sublimada pelo amor.
[TELMO, 2016: 67-68]

Pedro Cuiça © no sítio (2019)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
NIETZSCHE; Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1985, pp. 376.
TELMO, António. Viagem a Granada. Sintra: Zéfiro, 2016, pp. 476. ISBN 978.989-677-143-0


Pedro Cuiça © Quinta da Regaleira (Sintra, 2016)


quinta-feira, 7 de março de 2019

Do Guerreiro


«O QUARTO INIMIGO DO GUERREIRO
Com efeito, pelo que me diz respeito, o sonho que vivo há oitenta anos é constituído por uma quantidade mínima de pesadelos. De resto, o que me é contrário deixa-me mais ou menos indiferente. A vida é um sonho. Perturba-me às vezes pensar no que haveria de mal por detrás desses pesadelos.
Estou velho. A velhice é, segundo o famoso Índio inventado por Castañeda, o quarto inimigo do guerreiro. Tentei sair deste “deixa andar”, depois de ter visto o meu fracasso a escrever a Gramática para o Abel Lacerda. O I Ching aconselhou-me retomar o caminho que em tempos pratiquei sob o impulso de Max Hölzer. Fiz várias tentativas de praticar a meditação. Vi, mais uma vez, que a minha individualidade vocacionada para a arte poética se dissolvia com a prática dessa meditação, em que, como sabe, temos de deixar toda a imagem, todo o sentido, todo o pensamento.
Eu sei que sou, como é cada homem, um misterioso mágico microcosmo que só se conhecerá tendo a coragem de descer ao poço da alma, se é que há alma e não só corpo. Isto hoje já não me entusiasma. Além disso o Jung, apesar do seu nome parecer chinês, está-me indicando que o caminho de um ocidental não é o do Oriente.
[TELMO, 2014: 189]

© Pedro Cuiça

António Telmo foi um sábio ancião. A leitura deste seu pequeno texto – O quarto inimigo do guerreiro – revela de forma exemplar, para além da sua enorme mestria e perspicácia, uma inquebrantável coragem intelectual. Quem conhece a sua Arte Poética bem sabe que a “poesia” a que alude é activa demanda, feita de experiências e de vivências operativas, longe de esvaimentos e vacuidades. Tal como conhecerá a sua alusão à inversão esotérica de oriente e ocidente…
Este seu texto lembrou-me o Zaratustra, inventado por Nietzsche, quando, ao descer a montanha onde viveu uma década, se cruzou com um velho santo num bosque e ao se apartar deste, após uma curta conversa, disse para si próprio: será que este santo ancião não sabe que Deus está morto (Gott ist tot)? Uma espécie de inopinada analogia face a outra “improvável” constatação: será que não sabem que, a determinada escala ou ponto de vista, não existe oriente nem ocidente? No entanto, a essa escala não se poderá negar a perspectiva da imutabilidade do Norte Geográfico… E, contudo, até essa permanência não passa de ilusão! Todavia, é possível descer às profundezas do Nadir e ascender às elevadas altitudes do Zénite. Parar é morrer?!

© algures na Net

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
NIETZSCHEFriedrich. Assim Falava ZaratustraLisboa-. Guimarães Editores, 1985, pp. 376.
TELMO, António. Terra Prometida. Sintra: Zéfiro, 2014, pp. 214. ISBN 978-989-677-115-7

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Walk Art

A paisagem surge como o tecido cósmico onde decorrem as nossas demandas, não só a pé(s) como de corpo inteiro e alma, enquanto natural expressão da nossa arte.  

© Algures da Net

O antropólogo e arqueólogo francês André Leroi-Gourhan (1911-1986) defendeu que o desenvolvimento e o progresso da humanidade surgiram não tanto do cérebro mas dos pés. Em suma, identificou o início da humanidade com o momento a partir do qual esta adquiriu uma posição bípede persistente. Do acto de estar em pé ao andar parece “de-correr” um pequeno passo mas tal não é assim tão simples. Por outro lado, do acto de andar, erguido sobre dois pés, à arte parietal paleolítica, expressa de forma sublime em diversas grutas, vai uma passada de gigante.
Uma característica notória do género Homo é, indubitavelmente, a sua capacidade técnica e, mais ainda, artística. A produção de utensílios, não sendo seu exclusivo, toma proporções invulgares e remete para as mãos, de polegar oponível, e para numerosas questões sobre o natural e o artificial, que continuam a suscitar polémica e que estão longe de consensos.

 © Algures da Net

Ainda na sequência do post anterior, sobre o intervencionismo excessivo e desadequado no terreno/paisagem, reiteramos a importância da criatividade humana, designadamente em acções de land art, entre outras formas de expressão. Com um especial enfoque, desta feita, no “singelo” acto de andar a pé enquanto forma de arte per se e que, por isso, exige uma atenção e um reconhecimento mais amplo do que aquele que lhe é vulgarmente dado. Nesse contexto, será de realçar tanto a importância dos pés quanto a do piso e a do pisoteio. Mais, os pés não progridem sozinhos nem o trajecto se cinge ao caminho de pé-posto. A marcha processa-se de corpo (inteiro) e alma, num território que não é apenas envolvente porque o artista caminheiro é parte integrante do todo. O caminheiro faz parte da paisagem e, neste contexto, não se trata tão somente de uma expressão de walk art mas também de land art. Arte efémera, é certo, mas não menos poderosa por isso: é eterna enquanto dura!…

 © DR

Não será, pois, de estranhar que a actuação do “pedestrianismo”, no domínio da criatividade e da intervenção cívicas, se tenha tornado, particularmente desde a década de 1960, uma importante ferramenta de expressão artística contemporânea. A caminhada, nesse âmbito, surge como uma actividade multifacetada que ultrapassa, em muito, a simples motricidade, da marcha bípede, para se tornar uma liberdade de expressão, não só física como mental, mormente com uma marcada componente crítica e interventiva em domínios como a ética e a estética ambientais, a ecologia profunda e a ecosofia ou até a metafísica e o sagrado. O andar surge como acto criativo e experimental, sob múltiplas roupagens e possibilidades, em solitário ou em grupo, de forma concreta e/ou metafórica.

© Algures da Net

© DR

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Ligação à Terra


DR ©

A propósito de um passeio pedestre efectuado há alguns dias numa área florestada da península de Lisboa e face ao despropósito das intervenções aí perpetradas na rede de caminhos de pé-posto, confesso que fiquei profundamente chocado e que uma persistente sensação de, digamos, “incómodo” me tem acompanhado desde então! Uma sensação algo semelhante, mas curiosamente mais forte, àquela que recorrentemente tenho sentido quando, noutra área também florestada e situada na mesma península, sou confrontado, de há anos a esta parte, com o corte sistemático (ou a eito?) de diversas espécies do coberto vegetal! Ambas as áreas são geridas por entidades ditas “responsáveis” e que supostamente possuem técnicos superiores e especialistas (devidamente habilitados?) para desempenharem as funções pretendidas: desde logo, uma expectável conservação da “natureza” para usufruto das gerações presentes e futuras.
Se no caso do corte do coberto vegetal, designadamente de numerosas árvores, até admito que poderei não estar a ver “o filme” na sua integral complexidade e a respectiva adequação dos meios empregues, no caso da destruição dos caminhos de pé-posto poucas ou nenhumas dúvidas terei: trata-se de uma grosseira intervenção que acarreta diversos impactes ambientais negativos, ética e esteticamente desadequada, e cujas opções técnicas adoptadas na construção dos caminhos se irão revelar inequivocamente erradas e, mais uma vez, desnecessariamente onerosas. Aliás, duplamente onerosas: tendo em conta, por um lado e desde logo, os custos ambientais decorrentes da destruição de património natural devido à instalação dos “caminhos artificiais” (externalidades difíceis de quantificar, é certo) e, por outro e a curto/médio prazo, os custos resultantes da necessária manutenção e recuperação dessas infraestruturas (esses, sim, traduzidos objectivamente em euros). Mais estranho é, na mesma área, já existir uma rede de “caminhos artificiais” anteriormente implementada e a precisar de recuperação, nomeadamente devido ao surgimento de abarrancamentos. E é aí precisamente que reside uma parte (que não é de somenos) do problema: a convivência (que deixou de o ser), em simultâneo, de uma rede de “caminhos artificiais” a par de uma rede de trilhos rústicos, agora destruídos!

DR ©

ÉTICA E ESTÉTICA AMBIENTAIS
Todas as realidades (e virtualidades?) apresentam aspectos positivos e negativos, (re)velando-se uma ou ambas as facetas consoante a forma como estas se expressam ou são utilizadas. Por vezes é tudo uma questão de “conta e medida”, noutras ocasiões não se trata de uma mera questão quantitativa mas sim (e/ou também) qualitativa. Mandará a prudência e o bom senso (para não falar do bom gosto) que não se veja a realidade a preto e branco, ademais quando a mesma é multicolorida e… plurifacetada. No entanto, que fique claro, desde já, que não defendo a pretensa lapalissada de que “gostos não se discutem” ou relativismos inconsequentes, mormente em matéria de estética da paisagem e, portanto, também de ética ambiental.
A polémica, tal como as posições radicalmente opostas, no tocante a intervenções antrópicas na paisagem é algo que já vem de longe. John Muir (1838-1914), o fundador do Sierra Club, foi pioneiro na defesa da criação de parques nacionais nos Estados Unidos da América, numa perspectiva “preservacionista”, com vista a manter a natureza num estado pristino, idealmente sem qualquer intervenção humana. Por outro lado, Gilford Pinchot (1865-1946) foi defensor do conceito de “conservação da natureza” que não só admite a intervenção antrópica como assume que esta pode e deve promover impactes ambientais positivos. Nesta matéria, e tendo em conta o contexto europeu, cuja intervenção humana no território é milenar, mandará o bom senso optar por um “caminho do meio”, que o mesmo é dizer por “um meio termo”, que permita, por um lado, a livre expressão da natureza (rewilding) e, por outro, uma “equilibrada” intervenção humana (conservacionista). O que se torna difícil de tolerar é a manifesta desadequação, mormente por ignorância (e mais ainda por outras questionáveis razões), de medidas intervencionistas adoptadas, pretensamente com o intuito de melhorar o ambiente, mas cujos resultados são gritantemente o oposto! Esse tique intervencionista, recorrente e muitas vezes com contornos obsessivos, que jocosamente poderemos denominar de “Síndroma do Aprendiz de Feiticeiro”, não tem graça nenhuma, ademais quando a motivação extravasa a mera ignorância (já de si injustificada em entidades supostamente competentes) e visa mostrar “obra feita” para outros fins, designadamente eleitoralistas… O aproveitamento do paradigma do “progresse”, da “requeza” e do “desenvolvemente”! Um exemplo evidente desta parola forma de pensar (e pior ainda de agir) trata-se do recorrente alcatroamento de “caminhos históricos” de terra, e até estradas empedradas (romanas e medievais, pasme-se!), em períodos de eleições autárquicas. Por maioria de razão (ou falta dela), o que dizer da suposta melhoria (na verdade, destruição) dos parentes pobres dos caminhos, a que é dada pouca ou nenhuma importância ou relevância, ainda que possam comportar valor histórico, estético ou outro: os denominados “trilhos”, “veredas” ou “caminhos de pé-posto”?

DR ©

O UP-GRADE DA ARTIFICIALIZAÇÃO
O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) de intervencionar ambientes naturais ou semi-naturais, com vista à sua pretensa melhoria ou manutenção, trata-se de um curioso desiderato, com contornos quasi míticos, como se a natureza não fosse (auto)sustentável e existisse há milhões de anos, para mais tendo o Homo sapiens surgido há apenas comparativamente escassos milhares de anos neste condomínio que é a Terra! Tratar-se-á, afinal, de substituir “o caos pela ordem”, os aterradores espaços selvagens (wilderness) por espaços ajardinados e/ou (re)florestados, devidamente artificializados e “segurizados”, com caminhos devidamente aplanados e pavimentados, tabuletas e outras “bugigangas”.
O “TOC da artificialização” tem sofrido um incremento assinalável desde a implementação da agricultura/pastorícia e da consequente sedentarização das sociedades humanas, um crescimento exponencial desde a Revolução Industrial e renovadas formas, associadas às designadas “pós-modernidade” e “sociedade da informação”, agora mesmo em curso ou a despoletar, em velocidades vertiginosas, sob novos up-dates!
Uma das ideias recentes, já em curso, e que irá registar um enorme aumento, a breve trecho, consiste na propagada melhoria dos espaços verdes acrescentando-lhes uma ou mais dimensões virtuais, através da implementação de infraestruturas tecnológicas, mormente materializadas no terreno. Tais espaços, combinando “natureza” com tecnologia, surgem sob diversas denominações, por exemplo "espaços cibermediados ao ar livre", "espaços verdes tecnologicamente melhorados" ou "espaços verdes híbridos"!
Os promotores destes espaços híbridos consideram-nos soluções bastante inovadoras, porque tradicionalmente os ambientes naturais e os digitais/virtuais eram vistos, até há poucos anos, como algo oposto e dificilmente miscível. No entanto, hoje em dia é algo vulgar, amplamente implementado e em grande expansão: o uso de smartphones, tablets, computadores portáteis ou outros aparelhos em campo, a utilização de aplicações diversas, bibliotecas electrónicas (e-libraries) e livros digitais (e-books), o Sistema Global de Posicionamento (GPS) e a generalização de actividades como o geocaching, etc.. As novas tecnologias, nesses espaços híbridos, podem proporcionar interessantes contextos de aprendizagem, eficazes e atraentes, embora se vislumbrem horizontes preocupantes, de imediato e a muito curto prazo, no contexto do que temos vindo a abordar: a artificialização excessiva do território/paisagem e das consequências nefastas daí advenientes. O problema irá certamente agudizar-se no tocante à materialização de uma série de “inovações” no terreno: antenas, postes informativos e/ou interactivos (com tecnologias como o Código QR e outras), câmaras de filmar, drones, etc..
Não sou, de todo, contra o intervencionismo no terreno/paisagem, ademais em acções como a land art (earth art ou earthwork), surgida no final da década de 1960, precisamente e em parte como insatisfação face à sofisticada tecnologia da cultura industrial. O que considero preocupante é como, de forma paulatina e sistemática, se tem vindo a destruir os ambientes naturais substituídos por sucedâneos semi-naturais e urbanos, numa crescente adulteração e domesticação dos espaços e dos “seres”!
Na verdade, tudo poderá ser considerado relativo se, nomeadamente, for abordado a diferentes escalas temporais e/ou espaciais. E em matéria de intervenção antrópica na paisagem, se pensarmos à escala de tempo geológico (na ordem dos milhões de anos), esta torna-se perfeitamente insignificante. O que interessa a construção de uma estrada num monte se esse local, passados 100 milhões de anos, passa a ser uma peneplanície na periferia de um oceano em expansão? No entanto, a uma escala de tempo antrópico – algo dificilmente ignorável por um ser humano – as intervenções surgem bastas vezes de forma atroz, porque de atrocidades paisagísticas se tratam. Torna-se impossível não sentir tristeza face à destruição de um "trilho natural" cilindrado por um "caminho artificial"… A sensação de incómodo, a que aludimos, é afinal profunda tristeza! Quando há ligação à Terra é tão simples quanto isso.

DR ©


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AA.VV.. Manual de Monitores de Pedestrianismo. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, 2001, pp. 136. ISBN 978-989-20-0564-5
· BÉGUIN, François. Le Paysage. Paris: Flammarion, 1995, pp. 128. ISBN 2-08-035401-9
· CUIÇA, Pedro. Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, pp. 312. ISBN 978-989-626-721-6
· CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanha I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224, ISBN 978-989-96647-1-5
· FERREIRA, Conceição Coelho & SIMÕES, Natércia Neves. A Evolução do pensamento Geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986, pp. 142.
· KLICHOWSKI, Michal. Learning in hybrid spaces as technology-enhanced outdoor learning: Key terms. Disponível em
· LEOPOLD, Aldo. Pensar Como Uma Montanha. Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2008, pp. 220. ISBN 978-972-8870-10-2
· MAcFARLANE, Robert. Mountains of the Mind – A History of a Fascination. London: Granta Books, 2004, pp. 308
· NICOD, Jean. Pays et Paysages du Calcaire. Paris: Presses Universitaires de France, 1972, pp. 244.
· SERRÃO, Adriana Veríssimo et al.Filosofia e Arquitectura da Paisagem – Um Manual. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp. 382. ISBN 978-989-8553-12-6
· SILVANO, Filomena. Antropologia do Espaço. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp. 112. ISBN 978-972-37-1534-7

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Andar sem pés


«Quem tenta penetrar no Roseiral dos Filósofos sem chave parece um homem que quer andar  sem pés.»

Michael Maier, Atlanta Fugiens, Oppenheim, De Bry, 1618, emblema XXVII 
(in ECO, 2016: 46)

Collegium Fraternitatis in Speculum Sophicum Rhodo-Stavroticum (1618), de Teophilus Schweighardt Constatinus, pseudónimo de Daniel Mögling (1596-1635)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ECO, Umberto. O Pêndulo de Foucault. Lisboa: Gradiva, 2016, pp. 720. ISBN 978-989-616-717-2

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Passo e fico


Passo e fico, como o Universo

Qualquer caminho leva a qualquer parte.
Todo o caminho passa em todo o mundo.
Em duas toda a senda se biparte
Em cada ponto seu, o céu profundo
E a própria estrada sempre para diante —
Deus e nós, o Eterno e o vagabundo.

Em mim todo esse céu e a estrada errante
Iguais estão, em mim Deus, mundo e eu,
Em mim a estrada, e eu sou o caminhante...
Por mais que seja todo o passo meu
Não sai fora de mim, nem o que vejo
E absolutamente terra ou céu.

Mas tão meu como um sonho ou um desejo
Salvo de estar no exterior em mim,
No ponto em que Deus toco, e

Toda a viagem é em mim, por isso
Por mais que eu ande só me encontro e vejo
Por mais que veja no □ maciço
Só o meu rosto de alma reflectido
Consegue ver o mundo exterior
Participante do não ser.

Fernando Pessoa (17/11/1916)

© algures na Net

LEGENDA
□ : espaço deixado em branco pelo autor

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Superação


© algures na Web

«Para o que ama a Verdade não há descanso nem termo, porque a vê no próprio caminhar, a surpreende no esforço contínuo da marcha; o amor da Verdade não é um desejo de chegar, mas o anseio de superar.»

Agostinho da Silva (1945)
in Textos e Ensaios Filosóficos I  (Âncora Editora, 1999, p. 37)


!!!
Pedro Cuiça © nas imediações do Parlamento Europeu (Bruxelas, 10/11/2018)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

HOUVE UM DIA


© DR 

«HOUVE UM DIA em que a minha avó deixou de andar.
Nesse dia morreu. O seu corpo ainda viveu mais algum tempo, mas os novos joelhos, que por meio de uma cirurgia tinham substituído os antigos, estavam muito gastos e tornaram-se incapazes de transportar o corpo. O resto das forças que ainda tinha nos músculos foi desaparecendo devido aos dias passados na cama. O seu aparelho digestivo começou a falhar. A pulsação tornou-se mais baixa e irregular. Os pulmões absorveram cada vez menos oxigénio. Já perto do fim, arfava com falta de ar.
Por essa altura eu tinha as minhas duas filhas em casa. A mais nova, Solveig, tinha treze meses. Enquanto a sua bisavó se encolhia lentamente em posição fetal, Solveig decidiu que já era tempo de aprender a andar. De braços levantados por cima da cabeça e mãos agarradas aos meus dedos, conseguiu titubear pelo chão da sala de estar. De cada vez que soltava as mãos e tentava dar uns passos sozinha, descobria as diferenças entre o que está em cima e o que está em baixo. Quando tropeçava e batia com a testa no rebordo da mesa da sala, aprendia que certas coisas são duras e outras moles. Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida.
De braços estendidos, para manter o equilíbrio, Solveig em breve aprendeu a arte de caminhar pelo chão da sala. Estimulada pelo medo de cair, dava uns passinhos, num ritmo staccato. Ao observar as suas primeiras tentativas, surpreendeu-me a forma como afastava os pés. Como se quisesse agarrar-se ao chão. «O pé de uma criança ainda não sabe o que é um pé / e quer ser uma borboleta ou uma maçã», escreveu o poeta chileno Pablo Neruda no início do seu poema «Al pie desde su niño1».
(…) Quando a minha avó – eu chamava-lhe «mormor» – nasceu em Lillehammer, noventa e três anos antes de Solveig, a sua família dependia dos próprios pés como principal meio de transporte de um lugar para o outro. A mormor podia ir de comboio se quisesse viajar para muito longe, mas não tinha muitas razões para sair de Lillehammer. Em vez disso, o mundo é que chegava até ela. Durante a sua juventude pôde testemunhar a chegada de carros, bicicletas e aviões, produzidos em série, à sua província de Oppland. A mormor contou-me que o meu bisavô uma vez lhe pediu para o acompanhar até Mjösa, o maior lago da Noruega, para ambos poderem ver um avião. Ela contava essa história com tanto êxtase que parecia que acontecera na véspera. Os céus – de repente – tinham deixado de ser o reino exclusivo dos pássaros e dos anjos. [KAGGE, 2018: 15-18]» É desta forma que Erling Kagge inicia o seu novo livro, acabado de editar pela Quetzal, em Outubro de 2018, sobre A Arte de Caminhar.

© DR

HOUVE UM DIA em que a minha tia-avó Gertrudes também morreu quando, por ter partido uma perna, deixou de andar.  Apesar de ser uma anciã com uma idade muitíssimo respeitável, aparentava ser bem mais nova do que realmente era… Era uma rija e escorreita andarilha, e eu, invariavelmente, quando a ouvia subir a escadaria do prédio de vários andares, onde morava, diversas vezes todas as manhãs, não podia deixar de pensar que era uma atleta inveterada, tendo em conta o elevado ritmo da passada e a respiração acelerada! Era o que a mantinha viva: ir todos os dias a pé às compras ou efectuar outras tarefas para si e para as suas amigas idosas que, por dificuldades de mobilidade, não o podiam fazer com a regularidade desejada ou desejável. Por vezes, semanalmente ou mensalmente, também distribuía propaganda partidária ou o boletim do partido, numa área considerável, nos arredores de onde morava, sempre a pé. E, claro, além disso também se encarregava de toda a lida da casa…
O seu marido há muito que se sedentarizara, após a sua reforma, num dia-a-dia cercano e que invariavelmente passava por beber uns copos com os amigos. Quem notava agora a sua barriga proeminente não poderia adivinhar a sua anterior figura – alta, magra e espadaúda –, quando palmilhava o trajecto de onde morava até ao seu trabalho e respectivo regresso, numa distância diária superior a uma dezena de quilómetros. Também terá morrido quando deixou de andar a pé?... Será discutível tendo em conta que acompanhou a minha tia-avó durante bastantes anos na sua admirável e recorrente “alta pedalada”. Certo é que, após esta ter partido a perna, regressaram ambos à sua “terra natal” para, pouco depois, deixarem este mundo.


 © DR

HOUVE UM DIA em que eu andando, num percurso pedestre, na ilha de S. Jorge fui confrontado com o facto surpreendente de ter sido usual existirem pessoas que não tendo razões para saírem da fajã, onde sempre viveram e morreram, de lá nunca saíram. Se quisessem viajar para muito longe melhor seria fazê-lo de barco, numa ilha cujas dimensões, sendo certamente ignoradas, eram necessariamente ínfimas. Mas seria todavia expectável que tivessem a curiosidade de subirem fajã acima, a pé, para, que mais não fosse, alargarem os (vastos) horizontes sobre o mar circundante? Assim não era e não foi!…
Os meus tios-avós vieram para Lisboa, para ganhar a vida e muito andaram a pé nos seus trajectos urbanos do dia-a-dia, para um dia retornarem ao seu Além-Tejo a fim de morrer… A sua fajã terá sido em Serpa ou em Lisboa? A vida e a morte fazem parte de um mesmo ciclo perpétuo, uns param de andar para que outros o comecem a fazer e o que está em cima é como o que está em baixo. «Aprender a andar talvez seja um dos empreendimentos mais arriscados da vida», mas deixar de andar é fatal!

© DR

HOUVE UM DIA em que senti saudades do passado e HOUVE UM DIA em que senti saudades do futuro. TEM DIAS! «O caminhar considerado como uma combinação de movimento, humildade, equilíbrio, curiosidade, cheiros, sons e luz e – se andarmos suficiente – um sentimento de desejo. Um sentimento de querermos alcançar uma coisa que procuramos, sem a encontrarmos. Na língua portuguesa existe uma palavra intraduzível para este desejo: saudade. Trata-se de uma palavra que engloba amor, dor e felicidade. Pode ser o pensamento de algo alegre que nos perturba ou de algo perturbador que nos traz plenitude. [KAGGE, 2018: 43]»




NOTA DO TRADUTOR
Poema de Pablo Neruda: «El pie del niño aún no sabe que es pie, / y quiere ser mariposa o manzana. / Pero luego los vidrios y las piedras, / las calles, las escaleras, / y los caminos de la tierra dura / van enseñando al pie que no puede volar, / que no puede ser fruto redondo en una rama. / El pie del niño entonces / fue derrotado, cayó / en la batalla []» [in KAGGE, 2018: 16]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KAGGE, Erling. A Arte de Caminhar – Um passo de cada vez. Lisboa: Quetzal, 2018, pp. 210. ISBN 978-989-722-519-2