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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Put on your boots


DR © Pedestris (2018)

«Put on your boots and get going. [] I’m already on my way, ready for anything–even for retreat, if I meet the impossible. I’m not going to be killing any dragons, but if anyone wants to come with me, we’ll go to the top together on the routes we can do without branding ourselves murderers.»

Reinhold Messner 
(in DHAR, 2013)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DHAR, Amrita. The Unaccommodated: The Himalaya and the Makers of Their Literature. Disponível em http://humanitiesunderground.org/the-unaccommodated-the-himalaya-and-the-makers-of-their-literature/

terça-feira, 23 de outubro de 2018

D'a virtude

DR © Nikolai Konstantinovich Roerich

O nosso espírito lança-se para as alturas; serve assim de símbolo ao nosso corpo, e é imagem de uma ascensão. Os nomes das virtudes são outros tantos símbolos desta ascensão.
[NIETZSCHE, 1985: 84]

O momento em que desprezais o conforto e a cama fofa, em que nunca vos julgais bastante longe da moleza para repousar, é o momento em que nasce a vossa virtude.
[NIETZSCHE, 1985: 85]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Lisboa-. Guimarães Editores, 1985, pp. 376.


O Cervo


DR © 

O Servo do Senhor
(…)
6 Eu o Senhor te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por concerto do povo, e para luz dos gentios.
7 Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas.
(…)
9 Eis que as primeiras coisas passaram, e antes que venham à luz, vo-las faço ouvir.
(…)
16 E guiarei os cegos por um caminho que nunca conheceram, fá-los-ei caminhar por veredas que não conheceram: tornarei as trevas em luz perante eles, e as coisas tortas em direitas. Estas coisas lhes farei, e nunca os desampararei.
Isaías 42

DR © 

Post Scriptum: na sequência de eventos de 15 de Outubro de 2018...

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Gostaria de andar


DR © Pico (Açores, 2018)

«Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar… Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a… Há ondas na minha alma… Quando ando embalo-me… Agora eu gostaria de andar...»

Personagem Segunda Veladora in O Marinheiro, drama estático em um quadro, da autoria de Fernando Pessoa



DR © Pico (Açores, 2018)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Por aqui e por acolá


© Algures na Net

«Minha senhora, o meu ideal, no fundo, ao que penso, foi sempre ser vadio, sabe.»
Agostinho da Silva 
(in FRANCO, 2015: 38)

Agostinho da Silva «dava de bom grado um dos mindinhos por um dia de conversa e o papa-léguas que dava outro por uma longa tarde de marcha» (FRANCO, 2015: 112). «Foi um andarilho, que bateu os sete cantos do mundo, e fez da vadiagem um sistema de vida e até de pensar» (FRANCO, 2015: 149).


NOTA
A vida e a obra de Agostinho da Silva são verdadeiramente excepcionais e alvo de estudo sob diversos formatos e perspectivas... A biografia de Cândido Franco (Quetzal, 2015) revela de modo primoroso essa excepcionalidade, desde logo ao denominá-lo Estranhíssimo Colosso e ao caracterizá-lo nos seguintes moldes: «prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estóico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e dez instrumentos (…), o optimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.»

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FRANCO, António Cândido. O Estranhíssimo Colosso. Lisboa: Quetzal, 2015, pp. 736. ISBN 978-989-722-186-6


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

D'as Flores no Caminho


© Algures na Net

(…) Caeiro e Pascoaes tentam arrancar essa natureza automática que adquirimos da descrição do mundo. O que é quase impossível, dado que, devido ao seu carácter automático, «têm a força e a tenacidade de uma raiz».
E [António Telmo] faz esta afirmação importantíssima: «Libertar-se dela só é possível por uma acção iniciática, com todos os riscos que esta acção pode trazer consigo.»
Fá-lo Pascoaes através da «invocação e provocação dos sentimentos como se esses fossem entidades estranhas ao seu ser» e fá-lo Caeiro, contrariamente, arrancando-os do seu «corpo subtil». Pascoaes não combate o medo (nem o espanto, nem o amor, nem a saudade, nem as sombras), faz dele «o órgão da nossa vida».
É o poeta anti-fotográfico em relação à natureza. Nele, «A natureza transforma-se, pelo poder do verbo, na terra vivente dos iniciados».
Nesta ligação profunda entre consciência da Natureza e iniciação, não se limita contudo, a Pascoaes e Camões, e recorda, das cantigas d’amigo, a conspiração da Natureza a favor dos amantes. Assim se confirma um dado já existente na Ilha do Amor, para além da natureza e iniciação, um tipo muito particular de iniciação que é a iniciação erótica.
[PEDRO, 2018: 227]

Isto tem a ver com o que, já referimos, afirma [António Telmo] sobre Caeiro e a sua tentativa de fuga ao automatismo, despindo a natureza de todo o sentimento, de toda a emoção e de todo o pensamento. A mesma causa que leva Pascoaes a proceder de modo oposto: encher a natureza de medo e todo o tipo de sentimentos e emoções. Precisamente para fugir a esta relação estereotipada e fotográfica da natureza, devido ao automatismo das palavras, o automatismo que nos impede, diz no mesmo texto, de ver uma árvore como ela é realmente, despida do que lhe pusermos em cima através de palavras mais ou menos poéticas.
[PEDRO, 2018: 228-229]

A Natureza não é só estética, não é só emoção, não é só símbolo, é escada para a relação mística e para o mistério: «O Sol e a Lua e todas as estrelas, símbolos nítidos pela exacta relação com Deus e com o grande mistério do abismo».
Contudo, o olhar simples e sábio do desvalorizado camponês também por Telmo é resgatado, porque o seu é um olhar complexo, não reducionista, atento à Terra como ao Céu: «Quanta seriedade e quanta profundidade na adivinhação do tempo pelos camponeses! A sua é uma ciência de sinais e de qualidades. Não conta, não pesa e não mede. Lê palavras, aquelas que se desenham no seu ao nascer ou morrer do Sol e da Lua, na origem e no fim das luzes diurnas e nocturnas». Lua e sol omnipresentes na Poesia deste filósofo.
[PEDRO, 2018: 230]

Retomando a semelhança com a ilha enquanto «tapete mágico», como mais tarde [Telmo] irá afirmar em Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões:

«Viaja-se numa ilha pintada. E vemo-la, de repente, toda ela, um maravilhoso tapete mágico. As flores que nele emergem são em volume ou em superfície?»

Ali a cabeça a flor Cefísia inclina
Sôbolo tanque lúcido e sereno. (Canto X, 60)

É significativo que seja o narciso a primeira flor mencionada []

Não podemos afirmar que tenha sido na poesia de António Telmo a primeira flor mencionada, no entanto, na poesia conhecida sem dúvida o é… Mas não apenas por isso, tal como afirma, em Desembarque dos Maniqueus, que a paisagem da ilha, tal como a pintura persa em que se inspira, não tem «distância e profundidade», veja-se esta parte do poema: «Anda Narciso na serra./[]/Um sorriso longe e perto». O mesmo pensamento, por antecipação. E ainda outra passagem do mesmo livro em relação à Ilha do Amor:

«As flores, de seguida mencionadas, são todas, como o narciso, flores de jardim, coisa estranha numa terra onde as árvores crescem e frutificam «sem necessidade de cultura» (estrofe 58): é a anémona, o lírio roxo, a violeta, a rosa, a açucena, a manjerona, o jacinto, o jasmim []
Destas flores, o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e a rosa vêm indicados por Henry Corbin (p. 54) como desempenhando um grande papel nas antigas cerimónias de Zoroastro. «Os antigos persas, escreve o autor de Corpo Espiritual e Terra Celeste, tiveram uma linguagem sagrada das flores. Tão eterno e subtil simbolismo oferece combinações ilimitadas à imaginação litúrgica e ao ritual de meditação. A arte dos jardins e a cultura de flores assumem o sentido de uma liturgia e de uma realização mental; as flores são utilizadas como a matéria-prima para a meditação alquímica. O fim é recompor mentalmente o Paraíso, entrar no pleroma dos seres celestes; a contemplação das flores, – seus emblemas –, provoca reacções psíquicas, que transmutam as formas contempladas em energias que lhes correspondem e tais energias psíquicas resolvem-se finalmente em estados de consciência, em estados de visão mental onde transparecem as Figuras Celestes.»

Igualmente, a floresta da Ilha do Amor é povoada por «humanas rosas» (Canto IX). A serra de Telmo é povoada por um humano Narciso. Das flores, encontramos , na serra de Narciso, três em comum com a Ilha do Amor: roas, lírios e o próprio narciso. Flores de jardim, improváveis na serra. Tal como na Ilha, o poema conduz-nos por um ritual de meditação, pela contemplação da flor, ao processo alquímico através do qual Narciso se vai transformando.
Narciso que é o mito, também é flor. (…) Podemos afirmar que os primeiros textos de Telmo contêm já o gérmen da sua obra. O mesmo acontece com esta poesia, onde a natureza antecipa já a visão iniciática do mundo vegetal da Ilha de Camões.
Talvez possamos fazer em relação a Telmo, a mesma afirmação que ele faz em relação a Camões, faço minha a sua tese e talvez o filósofo iniciado tenha tido prematuramente «acesso, não ao manuscrito, mas ao “mundo” onde a ilha existe realmente».
Não sabemos. Uma certeza temos. A sua Natureza não é a dos turistas, das visitas ou invasões em massa, mas a Natureza com que comungava em solidão e silêncio e contemplação. Como ele gostava e frequentemente fazia. Com respeito e reverência.
Ainda sabemos nós fazê-lo?
[PEDRO, 2018: 235-237]

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PEDRO, Risoleta C. Pinto. António Telmo, Literatura & Iniciação – Esboços para uma cartografia da pedra cúbica. Sintra: Zéfiro, 2018, pp. 284. ISBN 978-989-877-159-I


sábado, 16 de junho de 2018

Desatenção

Desatenção plena ou distracção plena, no caminhar:

Não estou nem aí! 
- Onde? 
- Sei lá!...



quarta-feira, 13 de junho de 2018

Caminhar/Caminho




Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
E por isso, qualquer que seja a arte
De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,
Tudo é estático e morto. Só ilusão
Tem passado e futuro, e nela erramos.
Não há estrada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.

Tenhamos pra nós mesmos a verdade
De aceitar a ilusão como real
Sem dar crédito à sua realidade.
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, e sempre sós;
Nossa própria viagem é viajante e estrada.

Que importa que a verdade da nossa alma
Seja ainda mentira, e nada seja
A sensação, e essa certeza calma
De nada haver, em nós ou fora, seja
Inutilmente a nossa consciência?
Faça-se a absurda viagem sem razão.
Porque a única verdade é a consciência
E a consciência é ainda uma ilusão.

E se há nisto um segredo e uma verdade
Ou deuses ou destinos que a demonstrem
Do outro lado da realidade,
Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.
O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visível do que está fora,
Excede de todos nós o exterior
Não para como as coisas, nem tem hora.

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa
E é a própria estrada, sem estrada ser.
É absurda a oração, absurda a queixa.
Resignar(-se) é tão falso como ter.
Coexistir? Com quem. Se estamos sós?
Quem sabe? Sabe [] que são?
Quantos cabemos dentro de nós?
Ir é ser. Não parar é ter razão.

Fernando Pessoa (11/10/1919)



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Adéu i bona sort


Em van preguntar si podia presentar la Sílvia Vidal dins del Cicle de Muntanya de la Diputació de Tarragona. Ella aquest any há estat una de les conferenciants del Cicle amb la seva projecció Un pas més, dedicada a la ruta que ha obert a la cara oest del pic Xanadu, als Arrigetch Peaks d’Alaska (A4/A4+, 6a, 530 m). Evidentment amb un estil marca Sívia Vidal: sola i totalment incomunicada durant els cinquanta-tres dies que va durar l'av’ntura.
Estar incomunicada avui en dia és un concepte impracticable. Sense anar més lluny, justament la mateixa setmana del Cicle de Tarragona es va celebrar a Barcelona el famós Mobile World Congress. Mentre uns es tornaven bojos buscant l’últim avenç de telèfons mòbils, altres ens quedàvem amb la veueta de la Sílvia explicant com negociava amb els ossos per poder anar a escalar. Un pilot d’un hidroavió la deixa al mig d’un llac d’una vall perduda d’Alaska i li diu: «D’aqui a 53 dies vinc a buscar-te. En aquest mateix punt. Adéu i bona sort.» La Sílvia pretén arribar, ella i els 150 quilos de material i menjar, a una paret que es troba a 27 quilòmetres en línia recta, sense GPS ni cap mitjá de navegació modern. Ha de realitzar el camí vint vegades per poder transportar el material. En total, 36 dies caminant per fer 540 km i 17 dies d’escalada per obrir 530 metres de via.
(…) Quan preguntes a la Sílvia per què no porta telèfon a les expedicions, la seva resposta és que si portés, potser cometria l’error d’utilizar-lo.
(…)
Ester Sabadell in Vèrtex (2018: 9)

© Algures na Net


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SABADELL, Ester. Aventura en solitari, lluny del Mobile World Congress. Barcelona: Federació d’Entitats Excursionistes de Catalunya, revista Vèrtex, nº 277, Mar./Abr. 2018, pp. 98. ISSN 0042-4420



quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do (c)A(r)mando III


PC © 


Só mais uma palavra sobre o que se seguirá. Muito do que ficará dito resulta de um pensamento sempre em busca da experiência, naquele sentido de filosofia operativa que tem sido explicado por António Telmo desde a sua ARTE POÉTICA. O leitor tirará mais proveito deste livro se o ler pensando nele como o de uma filosofia poética, lembrando-se que o termo poesia deriva do grego poieín, acção, mas de uma acção que deve partir de uma mutação interior. O único interesse que o livro pode ter está na inquietação com que foi escrito. As contradições que se possa encontrar e que não rejeito advêm dessa mesma inquietação, que é, como se sabe, desde Álvaro Ribeiro, o gesto de uma alma que está em movimento, em demanda.
[SINDE, 2005: 15-16]

PC ©

O primeiro passo, na perspectiva ocidental, é a alma descobrir em si a causa da sua ignorância.
(…) Há quem adie, constantemente esta metanóia para o pós-morte, mas nós já estamos mortos, já estamos para onde nos queremos encaminhar; já estamos e não estamos. A morte é já aqui; é, por isso, já aqui que a obra começa – aliás, a obra já começou e estamos a perder tempo sempre que ficamos prostrados no marasmo da ignorância, no paralisante spleen que [Sampaio] Bruno tão bem descreve. Já estamos no transcendente porque algo em nós nunca de lá saiu, nunca o esqueceu e, por isso, não o ignora. Se não fosse essa raiz no alto não haveria forma de regresso. A cisão é extrema mas não é radical, porque algo em nós, último Satã, aspira ao regresso.
A sensação de Presença, de que tratarei mais à frente, traz consigo a certeza de que estamos já no transcendente. A vida, isto é, o viver, é já transcendente. Todavia vivemos como se: como se estivessemos separados, como se fôssemos autónomos; e, no entanto, de algum modo, estamos e somos.
Os nossos clássicos são ainda o ponto em que podemos encontrar a cura:

Planta sois e caminheira
Que, ainda que estais, vos is
Donde viestes.

Assim diz o mestre Gil Vicente, no AUTO DA ALMA, e continua por este modo:

Vossa pátria verdadeira
He ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida.
Não durmaes;
Hum ponto não esteis parada,
Que a jornada he fenecida,
Se atentaes.

A alma, para Gil Vicente, tem a sua origem no outro mundo e vem a este para dar celestes flores:

Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes treposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas

(…) Se a alma é uma planta, o caminho da regeneração, da demanda da vida nova, é o que deve percorrer o neófito, que etimologicamente significa “nova planta”. Mas exploremos esta metáfora e vejamos até onde nos leva. Todas as plantas têm raízes, que correspondem a dois tipos de alimento: uma raiz alimenta-se da humidade da treva, do mineral e a outra da luz do céu; só por distracção chamamos ramos às raízes do alto. É do encontro das duas raízes que nascem a flor e o fruto. A planta realiza-se, como uma sizígia, no seu duplo enraizamento, a sua realização é a flor e o fruto, a semente que perpetua a cadeia áurea das plantas. Nesta reunião dos dois tipos de alimentos a planta aproxima o céu da terra e a terra do céu, realiza uma obra de criação pela transmutação do mineral escuro e disforme e do inefável invisível da luz informe na forma maravilhosa da flor.
O homem é também essa dupla raiz mas, ao contrário da planta, tem uma raiz visível na terra e a invisível no céu. E é também do encontro de uma com a outra que ele se realiza – nem só terra, nem só céu, porque o homem tem uma missão criadora a realizar aqui (…). A sua missão é a de aproximar a terra, subtilizando-a, do céu.
[SINDE, 2005: 27-29]


A caminhada faz-se desde o corpo até ao espírito a partir da alma. A “chegada” ao espírito implica a simultânea descida. O corpo subtiliza-se, torna-se anímico e a alma espiritualiza-se.
(…) O corpo é o nosso ponto de apoio, o local a partir do qual iniciamos, se iniciarmos, um processo de ascensão ou iluminação, apenas porque é o lugar de alma que nos foi dado habitar sensivelmente. A sensação de presença pode ter portanto no estado de corporeidade o ponto de apoio, mas aquilo que a alma sente na presença não é o corpo, a alma sente-se a si mesma no estado corpóreo e é por esta razão que lhe pode servir de apoio; por outras palavras, este estado é contido pela alma, é o seu lugar no mundo sensível, terá outro no estado psíquico e outro ainda no estado noético. É possível a convergência dos três estados num só lugar e este parece ser o fim do processo gnósico que avança acrescentando algo que não havia, quer dizer, do corpo ao espírito não se pode perder o corpo, há que ganhar o espírito. Assim também para a percepção sensível que deve sair enriquecida pela percepção animada, não se perde nada na passagem de uma a outra, pelo contrário, a percepção sensível é amplificada em profundidade pelo elemento anímico.
Um primeiro momento de sensação de presença no corpo é iluminador de quanto ele é imenso, ou melhor, da dimensão da alma, porque ele serve-lhe de espelho; se vivido por dentro, vem a ser percebido como algo de vasto e subtil, tem alguma coisa de mágico. A melhor expressão para dizer esta sensação, encontrei-a em António Telmo: o corpo é uma imagem animada.
(…) Passa em nós essa corrente da vida que é viriditas, na excelente expressão de Hidelgarda de Bigen. Todavia, esta força verde, reverdescente e ressuscitante, é também destruidora; é como um fogo que ilumina e para tal desfaz em cinza toda a matéria perecível em que se apoia. Não é casual que o radical etimológico do termo vegetal seja fogo, como o de animal seja ar1.
A presença no corpo é precisamente a deslocação da nossa atenção, da nossa identificação com o elemento ígneo que arde em nós, que nos transmuta necessariamente. A velhice tem já algo de secura porque todo o elemento húmido evaporou – é o equivalente antropológico do Outono, que chega depois do fogo e do calor do Verão intenso terem consumido a humidade. O cheiro doce da decomposição outonal é já o indicador de que a vida que esteve nas folhas se subtilizou, se retirou, se tornou “aérea”, manifestando a sua presença no ar, o equivalente antropológico do odor de santidade.
[SINDE, 2005: 34-35]


NOTAS Pedestris
1- E o homem seja terra: o étimo de humano em latim é humus (terra), tal como se verifica um parentesco entre a palavra hebraica  adam (homem) e adamah (terra). Todavia o ser humano é constituído por mais de 70% de água, anima-o um fogo interior e não vive sem ar.
· O destaque de palavras a negrito (bold) é de nossa “autoria”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SINDE, Pedro. Terra Lúcida – A intimidade do Homem com a Natureza. Matosinhos: Publicações Pena Perfeita, 2005, pp. 160. ISBN 972-8925-05-0